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Resumo do Caminho em Etapas para a Iluminação

Tsenzhab Serkong Rinpoche I
Dharamsala, Índia, Outubro de 1976,
traduzido para o inglês por Alexander Berzin
editado por Luke Roberts e Alexander Berzin
traduzido para o português por Antonella Yllana

O Precioso Renascimento Humano

O Porquê de um Precioso Renascimento Humano Ser como uma Jóia que Realiza os Desejos

Este precioso corpo humano que nós temos é mais precioso que uma jóia que realiza os desejos. É a base para o lazer; mas o lazer e a oportunidade que o nosso corpo proporcionam não têm a ver com ficar alterado com drogas, mas com praticar o Dharma. Por que será que o precioso corpo humano é mais precioso que uma jóia que realiza os desejos? Isso é assim porque com jóias podemos obter a comida e a bebida para esta vida, mas elas não podem beneficiar as vidas futuras. Então, este corpo que temos, que nos proporciona a oportunidade para praticar o Dharma, é mais precioso que uma jóia.

Todos nós queremos felicidade o tempo inteiro por quanto tempo for possível. Mas não importa que tipo de felicidade consigamos alcançar nesta vida, será muito curta, pois durará apenas por esta curta vida. Então, se quisermos uma continuidade longa da felicidade, precisamos pensar em nossas vidas futuras. Uma jóia que realiza desejos não pode nos libertar do renascimento nos três níveis inferiores e não pode nos dar imortalidade. Mas se usarmos este precioso corpo humano como base de trabalho, poderemos nos proteger de um renascimento em nível inferior; e, como Jetsun Milarepa, ao usá-lo como base para praticar o Dharma, podemos alcançar a iluminação nesta vida. Então, como uma jóia não pode nos proporcionar essas coisas que o nosso corpo humano proporciona, nosso corpo é mais precioso que qualquer jóia.

Então, precisamos praticar o Dharma com este precioso corpo humano. Mas temos a tendência a manter a visão oposta – embora ele seja mais precioso que uma jóia, nós o usamos para adquirir mais e mais riquezas, e até mesmo estamos dispostos a sacrificar nossas vidas para este objetivo de curto prazo. Há tantas pessoas no mundo que são mais ricas e mais inteligentes do que nós. Mas ao usar nosso precioso corpo humano para praticar o Dharma, nós desenvolvemos bem mais força positiva (méritos) do que elas. Então, é importante não desperdiçar este precioso renascimento humano, mas usá-lo para realizar esses três propósitos para os quais ele é útil: alcançar um dos melhores renascimentos no futuro, a libertação, e a iluminação.

Não importa quantos objetos materiais nós possuímos, eles não trazem satisfação. Mesmo se uma pessoa possuísse todas as coisas materiais do mundo, ela não ficaria satisfeita. Então, está claro que até mesmo essas jóias que realizam desejos não podem trazer satisfação. Se alguém adquirir mais e mais riquezas, isso apenas trará mais e mais sofrimento. Podemos fazer a experiência deste fato – se viajarmos em um trem ou ônibus com muita bagagem, será muito difícil viajar; mas se não tivermos tantas posses, será muito fácil.

Então, deveríamos tentar praticar o Dharma desta forma. Por exemplo, Jetsun Milarepa, quando ele vivia em sua caverna, não tinha quaisquer posses materiais. Jetsun Milarepa e Buddha Shakyamuni perceberam o quão triviais e pouco essenciais eram as coisas materiais e se desfizeram delas para praticar o Dharma. E você também, que viveu em muitos países ricos do mundo, percebeu que as coisas materiais não são tão importantes e as deixou para trás para vir aqui praticar o Dharma.

Causas e Dificuldades de Obter um Precioso Renascimento Humano

Precisamos considerar por que é tão duro obter este precioso corpo humano. É difícil obtê-lo porque é difícil desenvolver as causas para isso. As causas são divididas em três tipos:

  • Manter uma autodisciplina rigorosa.
  • Praticar as seis atitudes de longo alcance (as seis perfeições)
  • Oferecer orações com aspirações puras

Manter uma Autodisciplina Ética

É muito difícil manter uma autodisciplina ética rigorosa, e é muito difícil reconhecê-la e avaliá-la nos outros. Também em termos de autodisciplina ética, há as dez ações destrutivas; e precisamos considerar como a maioria das pessoas no mundo nem sabe quais são elas. E é claro que entre aqueles que sabem quais elas são, a maioria não pratica evitá-las.

Essas são as ações destrutivas do corpo:

  • Tirar uma vida: por exemplo, talvez saibamos que não devemos matar, mas quando um inseto nos pica, nós instintivamente batemos nele e o matamos.
  • Tirar aquilo que não nos foi dado: mesmo que não estejamos envolvidos em um grande roubo, talvez usemos meios hábeis para obter coisas de outras pessoas, então é quase a mesma coisa.
  • Ceder a um comportamento sexual impróprio: temos muitos desejos de ficar com parceiros de outras pessoas.

Acumulamos ações destrutivas do corpo a cada dia como gotas de chuva caindo sobre nós quando estamos lá fora na chuva.

As quatro ações destrutivas da fala:

  • Mentir: acumulamos isso o tempo inteiro. Por exemplo, se temos a intenção de descer uma ladeira e alguém nos pergunta onde estamos indo, dizemos que estamos subindo a ladeira.
  • A fala que divide: fazer com que amigos se tornem inimigos e aqueles que não são amigos tenham ainda mais inimizade. Fazemos isso o tempo todo quando falamos mal dos outros.
  • Usar linguagem abusiva ou palavras duras: isso não tem que ser necessariamente apenas com um ser humano. Por exemplo, se um cachorro entra no nosso quarto, talvez digamos: “Sai fora! Sai daqui!” e usamos linguagem dura. É um grande erro usar linguagem abusiva ou dura, já que sabemos que, quando os outros usam linguagem dura conosco, isso nos machuca. Pois isso também machuca os outros, inclusive os animais, eles também sentem o mesmo.
  • Usar palavras inúteis: praticamente todas as palavras que saem de nossas bocas são fofoca: “Eu estive naquele país.”, “Eu fiz isso e aquilo.” Se você falar muito, você aumentará as chances de cometer esta ação destrutiva da fala. Como não sei falar inglês, eu não tenho a oportunidade de fofocar em inglês, então eu apenas acumulo fofoca em tibetano!

As três ações destrutivas da mente:

  • Pensar pensamentos de cobiça: alguém tem uma casa muito bacana, etc, e você a deseja para si. Isso não é muito bom, mas é algo que nos acontece muito.
  • Pensar pensamentos maliciosos: desejar que alguém seja infeliz ou quebre seu pescoço. Isso não é algo que apenas desejamos para nossos inimigos; também pensamos com malícia se nossos amigos nos irritam.
  • Pensamentos distorcidos, antagônicos: por exemplo, pensar que não há um renascimento futuro ou que as Três jóias do Refúgio não podem ajudar ninguém, ou pensar que fazer uma puja, uma cerimônia de oferenda, é uma perda de tempo, ou oferecer lamparinas de manteiga é um desperdício de manteiga, ou que fazer oferendas de torma [1] é como jogar fora tsampa  [2].

É difícil evitar cometer essas ações. E se você não evitar cometê-las, você não poderá alcançar um precioso renascimento humano. Não há tempo para entrar em detalhes agora, mas se você quiser saber mais, você deveria estudar os ensinamentos lam-rim.

Praticando as Seis Atitudes de Longo Alcance

A segunda causa de obter um precioso renascimento humano é praticar as seis atitudes de longo alcance (as seis perfeições): generosidade, autodisciplina ética, paciência, perseverança alegre, estabilidade mental (concentração) e sabedoria discriminadora (sabedoria).

Mas ao invés de praticar generosidade, praticamos avareza e estendemos nossa atitude miserável aos outros. Ao invés de ter paciência, ficamos com raiva. Ao invés de ter perseverança alegre com a qual temos prazer em praticar o Dharma, temos preguiça e queremos dormir o tempo todo. Ao invés de ter estabilidade mental, cultivamos a divagação mental – por exemplo, quando recitamos um mantra, as nossas mentes divagam para vários lugares – e cultivamos mais oportunidades para que isso ocorra.

Uma vez havia um professor que, no meio de uma prática, lembrou que havia uma tarefa que ele queria que seu discípulo realizasse, mas havia esquecido de dizer a ele. Assim que ele se lembrou, ele parou a meditação, levantou e disse ao discípulo para fazê-lo. Isso foi a mente dele divagando. Sempre que fazemos práticas de recitação, as nossas mentes divagam.

Em termos da sabedoria discriminadora de longo alcance, temos que cultivar a sabedoria discriminadora que compreende a vacuidade. Mas ao invés disso estudamos coisas mundanas, como a pintura, e então não desenvolvemos o tipo certo de conhecimento.

Em suma, é muito difícil desenvolver as causas para um precioso renascimento humano. Ao ver o quão raro é ter um corpo desses, deveríamos pensar que o teremos apenas esta vez e que ele pode ser perdido com muita facilidade. Se não aproveitarmos este precioso corpo humano que conseguimos ter agora, será muito difícil ter outro no futuro.

Adiamentos das Oito Situações sem Lazer

A natureza deste precioso renascimento humano é livre das oito situações temporárias sem lazer. Um estado sem lazer é quando não há oportunidade de praticar o Dharma.

Há quatro estados não humanos sem lazer:

  • Nos reinos infernais não há oportunidade para praticar porque o corpo está pegando fogo o tempo inteiro.
  • Quando alguém nasce como espírito faminto (em tibetano: preta), está constantemente experimentando fome e pensamentos sobre comida.

Se acordarmos de manhã e não tomarmos o café da manhã, não queremos praticar o Dharma. Se acordarmos com uma dor de cabeça, não vamos querer praticar o Dharma. Então, extrapolando, com base em nossa experiência, se nascermos como espíritos famintos e passarmos sessenta anos sem comida, não teremos interesse em praticar o Dharma.

Então, temos que apreciar que estamos livres de um renascimento no inferno ou como “ preta”.

  • Um renascimento animal: mesmo se nascermos como o cachorro de Sua Santidade o Dalai Lama, não poderemos nem mesmo recitar a oração de refúgio.

Então, não nascemos no inferno, como preta, ou nos reinos animais.

  • Não nascemos como um deus de longa vida: eles têm tanto prazer, prazeres mundanos, que não têm interesse em praticar o Dharma.

Shariputra tinha um discípulo que praticava uma devoção ao guru muito forte em relação a ele. Depois que o discípulo morreu, ele renasceu em um bom reino. Shariputra, usando seus poderes extra-sensoriais, podia ver que seu discípulo havia nascido em um reino dos deuses. Então, ele pensou em visitar seu fiel discípulo. Quando ele foi a esse reino dos deuses, o seu discípulo apenas lhe acenou um “oi” e não estava interessado na prática do Dharma, já que estava se divertindo tanto. Isso é verdade, não é uma estória.

Podemos ver isso com base em nossa própria experiência. Se alguém for muito pobre, ele está preparado para praticar o Dharma. Mas se ele se torna rico e tudo fica muito confortável, ele não se interessa mais. Então, também somos muito afortunados de não termos nascido como deuses de longa vida.

Há quatro estados humanos sem lazer:

  • O primeiro – o quinto estado sem lazer – é aquele, por exemplo, quando as pessoas nascem em países nos quais elas não escutam nem mesmo uma palavra do Dharma. Então, não estamos nesta situação.
  • Há pessoas que nascem em sociedades bárbaras nas quais apenas existe interesse em conseguir comida e vestimentas. Não estamos nesta situação.

No Tibete há uma montanha chamada Tsari. Os tibetanos vão lá a cada doze anos. A tribo Loba que vive ali é muito selvagem. Para atravessar o país deles era preciso pagar uma taxa. A taxa era um iaque. Quando os Lobas recebiam o iaque, eles imediatamente o matavam e bebiam seu sangue. Então, temos sorte de não termos nascido naquela situação.

  • Não nascemos cegos, surdos, insanos, ou burros, etc. Então temos a liberdade desses obstáculos ao aprendizado e à prática.
  • Também não nascemos em uma área com uma atitude muito irreligiosa, pensando que a religião não é uma coisa boa e a única coisa que vale é fazer dinheiro.

Então, temos que ter um renascimento humano livre de todos esses estados sem lazer e, além disso, se entendermos as causas para alcançá-lo, somos duplamente afortunados. Muitas pessoas que têm um corpo humano tão precioso não sabem quais são as causas para continuar a obter mais renascimentos desses.

Analogias

Podemos usar analogias para nos ajudar a entender a dificuldade de conseguir um precioso corpo humano. Por exemplo, é tão raro que isso aconteça que é como jogar areia em um espelho e ela ficar colada na sua superfície.

Se pensarmos sobre essas coisas, perceberemos que preciosa realização é este nosso renascimento humano. Deveríamos pensar que seremos apenas capazes de consegui-lo desta única vez. Pense nos milhões de habitantes da Índia, quão poucos destes estão praticando o Dharma. Então, podemos ver quão raro é isso.

Uma vez, havia um lama dando uma palestra sobre a dificuldade de conseguir um renascimento humano. Um mongol na audiência disse: “Se você pensa que é tão difícil ter um renascimento humano, você deveria ir para a China e ver quantas pessoas há por lá!” Isso é como me dizer que eu deveria ir para a União Soviética.

Trata-se de tópicos muito adequados a se pensar durante a meditação.

Aproveitando o Nosso Precioso Corpo Humano e Vivendo uma Vida Significativa

Se pensarmos o quanto nós tivemos que trabalhar duro em nossas vidas prévias para ter este precioso corpo humano, seremos muito fervorosos em nosso desejo de fazer com que esta vida seja significativa. Um exemplo seria se você tivesse carregado uma carga, subindo até a metade de uma montanha e, então, simplesmente a largasse. Ela voltaria a cair lá embaixo. O trabalho que fizemos para obter um precioso renascimento humano nesta vida é como o trabalho de carregar a carga até a metade da montanha; se a soltarmos, todo o trabalho será perdido.

Então, agora que temos este precioso corpo humano, não deveríamos desejar ter mais um destes no futuro. Como nós o temos agora, deveríamos usá-lo agora para alcançar o estado plenamente iluminado do Buda. Senão, seria como ter um saco de arroz e não comê-lo, mas apenas rezando para ter outro saco na próxima vida. Deveríamos aproveitar plenamente o nosso renascimento humano agora mesmo.

Ter Consciência da Morte

A Morte é Certa

Se considerarmos que tipo de precioso corpo humano temos, ele não é feito de pedra nem de metal. Se fosse, ele poderia durar por muito tempo. Na verdade, se cortarmos nossos corpos para ver o que há dentro, há muito sangue e entranhas, como as entranhas de animais que as pessoas penduram em suas casas depois de comprar carne em um mercado. Nosso interior é tão delicado quanto o interior de um relógio.

Se pensarmos sobre a morte e quantas pessoas morreram, poderíamos passar por muitos rosários contando-as com cada pérola. Se eu fosse pensar em quanto tibetanos morreram desde que eu vim para Dharamsala, eu poderia contar todas as pérolas de meu rosário bem rápido.

Não há ninguém que tenha tido um corpo humano sem ter morrido. E se você pensar em como morrem as plantas e árvores, você pode ver que apenas se trata de uma questão de tempo antes de você morrer. A conclusão natural de nascer é morrer. Não há nada de outro a fazer. A conclusão de nos reunirmos aqui é nos dispersarmos depois e a conclusão final de subir é descer. Ao entendermos que não há nada a fazer além de morrer, precisamos tentar praticar o Dharma, o quanto for possível, antes que a morte venha.

Deveríamos pensar em como morreremos. Imagine-se muito doente, a sua pele com uma cor terrível. Imagine-se fraco, e todos os seus parentes chorando e dizendo que isso é horrível. Imagine o médico vindo para lhe dar um remédio, mas logo estalando a língua e dizendo que a sua situação é péssima.

Podemos Morrer a Qualquer Momento

Também, não há certeza de quando você morrerá. Pais muito velhos com cabelo branco podem ser vistos enterrando seus filhos. E muitas pessoas morrem engasgadas comendo uma refeição normal.

Por exemplo, você pode pensar em termos deste exemplo do Tibete. Um homem colocou grandes pedaços de carne de lado e disse que ele os comeria de manhã, mas os pedaços de carne duraram mais tempo do que ele. Outro exemplo: eu conheci um fazendeiro que plantava batatas de Simla. Ele ia fazer pão frito no almoço, mas morreu enquanto o pão ainda estava assando.

Então, a melhor forma de apreciar a impermanência e a morte não é ler sobre elas em livros, mas pensar em pessoas que nós conhecemos e que já morreram.

Apenas o Dharma Pode nos Ajudar no Momento da Morte

Qual é a importância de meditar sobre a morte? Isso nos mostra que a única coisa que vale a pena fazer é praticar o Dharma.

Se pensarmos em termos de coisas materiais, veremos que não podemos levar nada conosco. Por exemplo, se você for um mercador rico que fez muito dinheiro, o máximo que poderá ter é um pedaço de pano mais caro para embrulhar o seu corpo quando este for cremado. No que se refere à quantidade de ações destrutivas que este mercador realizou para acumular suas riquezas enquanto viajou de um país ao outro, pode ser que seja enorme.

Mesme se você tiver muitos serviçais ou empregados, ou for um general comandando cem mil soldados, ninguém poderá ir junto quando você morrer. Mesmo um país cheio de parentes não poderá ajudá-lo: o máximo que podem fazer é ficar ao seu redor enquanto você morre, perturbando e dificultando muito a sua morte e seu renascimento.

A única coisa que pode ajudar no momento da morte é a prática do Dharma. Se você acumulou força kármica positiva o suficiente, de ações construtivas, ela pode beneficiar muito os seus futuros renascimentos; mas força kármica negativa será um obstáculo. Isto é algo que você pode compreender sem pensar sobre a morte. Muitos tibetanos eram muito ricos no Tibete, mas eles tiveram que partir carregando apenas seus conhecimentos e as qualidades internas que tinham naquela época. Então, precisamos praticar o Dharma de forma pura durante as nossas vidas e não desperdiçar o nosso tempo com atividades mundanas.

Deveríamos considerar todas as atividades mundanas desta vida como sendo sem importância, como a palha do trigo. As atividades mundanas não têm essência. Deveríamos ver as atividades mundanas como crianças fazendo tortinhas de lama – quando estão prontas, apenas servem para ser jogadas fora. As crianças constroem castelos de areia; mas quando cansam de brincar com eles, elas apenas os deixam para trás e vão embora. Assim é como deveríamos encarar as atividades mundanas.

Se você pensar sobre tudo isso, isso ajudará muito a sua prática do Dharma.

Os Escopos Inferiores da Motivação

O Escopo Inicial

Se considerarmos todas as atividades mundanas como sendo desnecessárias e sem grande importância, compreenderemos que a única coisa importante é a nossa prática do Dharma. Praticar o Dharma é fazer algo que trará benefícios aos seus futuros renascimentos. Por exemplo, ter esta atitude: “Agora eu consegui ter um precioso renascimento humano; eu o usarei para evitar cair nos reinos inferiores nas vidas futuras.” Trata-se do nível mais baixo de vantagens que podemos ter com nossas preciosas vidas.

O que fará com que evitemos cair nos três reinos inferiores é manter uma autodisciplina rigorosa. Mas mesmo se tivermos um desejo muito firme de manter uma autodisciplina ética, ele gradualmente degenera. Então, para evitar cair em um renascimento inferior, temos que tentar nos libertar das emoções perturbadoras. É como lavar uma roupa extremamente suja – no início você usa um pouco de força. Depois, pouco a pouco, aumenta a força. Para libertar-se das emoções perturbadoras, você começa devagar e de forma gentil, e, gradualmente, desenvolve um esforço de força total. Para manter uma autodisciplina ética, você tem que aplicá-la devagar, e então, através de uma aplicação gradual, você conseguirá se livrar das emoções perturbadoras; senão, seus esforços serão facilmente corrompidos.

Se você seguir a autodisciplina ética para evitar o renascimento nos três reinos inferiores, este será o nível mínimo da prática do Dharma.

O Escopo Intermediário

Mesmo se nos livrarmos de nascer nos três reinos inferiores e nascermos na próxima vida entre os prazeres e alegrias dos reinados dos deuses, ou até mesmo como humanos, deveríamos tentar entender que todos os renascimentos samsáricos são sofrimento. Isto é amplamente discutido nos ensinamentos do lam-rim, mas pode ser descrito por este exemplo: você está em pé sob o sol e está começando a sentir muito calor, então decide entrar. Então, você se livrou do sofrimento do calor, mas agora tem o sofrimento do frio. Não há lugar no samsara no qual estamos livres de sofrimento.

As emoções perturbadoras fazem com que andemos em círculos no samsara. Este andar em círculos no samsara é como dar voltas em um carrossel sem chegar a lugar algum. A única forma de sair é elevar a si mesmo, ir além, elevar-se acima dele. Esta é a ideia de um arya, alguém que tem a sabedoria discriminadora que compreende a ausência da identidade, ou a falta de uma “alma” impossível.

Para cultivar esta realização da vacuidade em nosso contínuo mental, é necessário atingir o shamatha, um estado mental apaziguado e estável; e, para obter isso, precisamos de autodisciplina ética. Então os três treinamentos superiores – os treinamentos superiores da autodisciplina ética, da concentração absorta, e da sabedoria discriminadora – nos permitem elevar-nos além do samsara. Se os praticarmos, poderemos terminar o nosso andar em círculos no samsara.

Há três classificações de seres que se elevaram:

  • Aqueles que atingiram uma mente do caminho da visão (um caminho da visão)
  • Aqueles que atingiram uma mente do caminho do hábito (um caminho da meditação)
  • Aqueles que atingiram uma mente do caminho que já não precisa de treinamento.

Seres que tem uma mente do caminho da visão tem uma cognição recente, não conceitual e direta da vacuidade. Aqueles com uma mente do caminho do hábito meditam mais e mais e se acostumam a ter, ou desenvolvem o hábito desta cognição não conceitual da vacuidade. Se você meditou e meditou e completamente habituou sua mente a esta cognição da vacuidade, e removeu de sua mente completamente e para sempre os obscurecimentos emocionais que impedem a liberação, você é um arhat, um ser liberto.

O Escopo Avançado da Motivação

Amor e Compaixão

Mas não é suficiente liberar apenas a si mesmo, pois todos os seres limitados (seres sencientes) estão nesta situação. Todos os seres sencientes são iguais no sentido de que todos estão sofrendo e todos desejam sair do sofrimento. Se desenvolvermos a mente que deseja que todos os seres limitados sejam livres do sofrimento, isto se chama “compaixão”. Mas para cultivar este desejo que todos os seres limitados sejam liberados do sofrimento, você tem que ter meditado sobre seu próprio sofrimento por muito tempo. Então, quando compreender quão terrível é o sofrimento, será possível desenvolver a renúncia – a determinação de ser livre. Uma vez que você tenha conquistado a ideia de quão terrível é o sofrimento e realmente desejar sair dele, então poderá aplicar este pensamento a todos os seres. Isto é compaixão.

Portanto, a renúncia é o desejo que eu me livre do sofrimento, enquanto a compaixão é o desejo que todos os seres sejam livres do sofrimento. A diferença entre a compaixão e o amor é que com compaixão nós pensamos: “Que maravilha seria se todos os seres limitados fossem livres do sofrimento e das causas do sofrimento”; enquanto o amor é o desejo que todos os seres sejam dotados de felicidade e das causas da felicidade.

Como desenvolver a Equanimidade e a Bodhicitta

Qual é a razão de não termos amor nem compaixão? Por que não desejamos que todos sejam livres do sofrimento e sejam felizes? É porque nossas mentes não são suaves – elas são duras, elas têm pontos altos e baixos. O que é esta irregularidade de nossas mentes? Ela vem do grande apego que temos por nossos parentes e amigos. E quando vemos nossos inimigos, temos uma grande aversão.

Então, como podemos tornar reta uma estrada que está esburacada? Podemos entender isso ao pensar sobre este exemplo: ontem uma pessoa lhe deu cem rúpias, e outra pessoa lhe deu cem rúpias hoje. A pessoa que lhe deu cem rúpias ontem deu um soco na sua cara hoje de manhã, e a pessoa que lhe deu cem rúpias hoje deu um soco na sua cara ontem. De quem você deveria gostar e de quem não deveria gostar?

Assim, desta forma, temos que pensar que nossos inimigos no passado nos beneficiaram muito e, no futuro, podem nos ser de grande ajuda. Da mesma forma, nossos amigos nos prejudicaram muito no passado e voltarão a fazê-lo no futuro. É apenas uma questão de tempo.

Outro exemplo: Há várias pessoas que são canibais, ou até mesmo lobisomens ou vampiros. Podemos achá-los atraentes e até casar com um deles, mas uma noite seus dentes aparecerão e eles nos comerão.

Quando você bate em um cachorro, ele late e o morde. Então, se ficamos com raiva de um inimigo, estamos reagindo da mesma forma que faria um cachorro. Temos que eliminar esta irregularidade mental, este apego e esta repulsa que temos, e alcançar a equanimidade mental. Com base neste estado de equanimidade, é possível desenvolver amor e compaixão – da mesma forma que é preciso pavimentar uma estrada esburacada para que um carro possa passar por ela.

Temos que ter pensamentos poderosos como a dinamite que explode e aplana a estrada. Que tipo de pensamentos? Pensar na gentileza dos outros seres limitados. Por exemplo, bebemos leite. Ele vem de vaca e búfalos da água. Eles saem, comem grama e bebem água, e nós apenas tomamos o leite deles. Os coelhos e ratos são usados para experimentos médicos; portanto, temos remédios às custas dos ratos e coelhos cujas vidas foram sacrificadas por nós.

Há alguns seres limitados que consideramos nossos inimigos e que nos prejudicam. Mas se compararmos o prejuízo que eles nos causaram com a sua gentileza, esta última vence a primeira. E o mal que eles nos fazem pode ser muito útil. Para tornar-se um buda, temos que desenvolver paciência, e para isso precisamos de pessoas desagradáveis. Se todos fossem muito bacanas, não poderíamos desenvolver paciência. Aqueles que ficam com raiva de nós são seres limitados, não budas; então são eles que nos ensinam paciência. Por exemplo, quando Atisha veio ao Tibete, ele trouxe consigo um indiano muito barulhento que sempre testava a sua paciência. Quando lhe perguntaram por que ele o trouxe, ele disse que era para praticar a paciência. Então, os seres limitados e os budas são iguais em sua gentileza para conosco. Isto está confirmado no ensinamento de Shantideva Bodhicharyavatara, Engajar-se no Comportamento de um Bodhisattva.

Há uma razão pela qual um buda não fica com raiva. É porque ele tem uma concentração focada e livre de todas as emoções perturbadoras. Por ter esta concentração focada, um buda não fica com raiva. Então temos que desenvolver isso. De manhã temos que acordar com dois pensamentos:

  • Hoje não farei com que outros fiquem com raiva.
  • Eu não permitirei que outros façam com que eu fique com raiva

Se nos acostumarmos a isso, seremos capazes de reduzir as nossas emoções perturbadoras e eventualmente desenvolver o estado eternamente livre de emoções perturbadoras e, assim, nos tornarmos budas.

Se perguntarmos o que podemos fazer para agradar aos budas, a resposta será ajudar e ser gentis com os seres limitados. Isto realmente agrada aos budas. Por exemplo, se pensarmos em pessoas que têm filhos, podemos fazê-las mais felizes se formos gentis com seus filhos do que se apenas formos gentis com elas. Da mesma forma, um buda fica mais feliz se formos gentis tanto com seres limitados quanto com budas. Então, com base em tudo isso, precisamos desenvolver um objetivo de bodhicitta: “ eu vou alcançar o estado de buda para beneficiar a todos os seres limitados.”

Alcançar a Iluminação Nesta Vida

Mais ainda, temos que ter uma intenção muito forte de alcançar este estado búdico pelo bem de todos os seres limitados nesta vida e agora mesmo. O Buda disse que há uma maneira de atingir a iluminação nesta vida. E qual é esta maneira? É pelo caminho tântrico. Se você segui-lo, é possível alcançar a iluminação nesta vida.

Mesmo embora tenhamos uma intenção muito forte de alcançar a iluminação nesta vida, não deveríamos pensar que é fácil, pois acumulamos muitas ações destrutivas desde os tempos sem início. O tantra pode ser rápido, mas trata-se de um caminho muito difícil. Não deveríamos pensar que praticar o caminho tântrico é tão rápido quanto pegar um avião – não é tão fácil assim. Por exemplo, Jetsun Milarepa passou por muitas dificuldades com o seu guru, Marpa – construiu torres, foi espancado, e passou por muito sofrimento. Por causa disso, ele pôde alcançar a iluminação naquela vida. Mas não estamos dispostos a nos submeter nem a uma fração das dificuldades às quais Milarepa se submeteu.

Se tivermos uma intenção forte de alcançar a iluminação nesta vida e estivermos dispostos a nos submeter a grandes dificuldades, então haverá uma chance que, se praticarmos com constância, poderemos, de fato, alcançar o estado de um buda.


[1] Nota da tradutora: – torma = palavra tibetana; trata-se de figuras feitas de manteiga e farinha usadas como oferendas em rituais tântricos.

[2] Nota da tradutora: – tsampa = palavra tibetana; trata-se de um alimento típico, consumido no Tibete, feito à base de farinha e geralmente ingerido como acompanhamento do chá salgado de manteiga.