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Palestra Introdutória sobre o Carma

Alexander Berzin
Xalapa, México, 2 de Maio de 2006
Traduzido por Rosa Frazão

As Quarto Nobres Verdades em Linguagem Cotidiana

Estou muito feliz por estar aqui em Xalapa novamente. O assunto sobre o qual me pediram para falar esta noite é o carma. É claro que quando estudamos um assunto no budismo é importante que tenhamos uma idéia de porque desejamos estudá-lo, qual sua importância e como ele se encaixa no contexto do Budismo. O Buda, basicamente estava falando sobre as experiências comuns a todos os seres. O que experienciamos na vida, o que está acontecendo. O que, de mais fundamental, nós experienciamos, todos nós? Estarmos felizes algumas vezes e infelizes outras. É assim que experienciamos a vida, não é?

Quando examinamos essa situação de estarmos felizes algumas vezes e infelizes outras, descobrimos que existem muitos problemas relacionados a isso. Quando estamos infelizes, obviamente isso é sofrimento. Ninguém gosta de ser infeliz, gosta? Nossa infelicidade pode estar relacionada a algo que vemos, como um amigo indo embora, ou algo que ouvimos, como palavras desagradáveis, ou podemos ficar infelizes ao pensarmos ou nos emocionarmos com alguma coisa. Mas algumas vezes nos sentimos infelizes e nossa infelicidade não parece estar relacionada com coisa alguma que tenhamos visto ou ouvido ou que esteja acontecendo. Isso é um problema, não é?

E quanto à felicidade? Algumas vezes nos sentimos felizes, certo? Pode ser por vermos alguma coisa, ao quando ouvimos a uma pessoa querida ou podemos nos sentir felizes quando pensamos em alguma coisa, como uma situação agradável que vivenciamos com alguém. Mas quando lançamos um olhar mais profundo, vemos que essa felicidade que experimentamos também traz alguns problemas associados. Primeiro, ela nunca dura e não sabemos quanto tempo vai durar. E parece nunca ser suficiente. Podemos ficar felizes com uma colher de deliciosa comida, mas não é o suficiente – queremos mais e mais. Na verdade, essa é uma questão muito interessante – quanto de alguma coisa você precisará comer para realmente apreciar? Pense nisso. Outro defeito, outra falha dessa felicidade é que nunca sabemos o que virá depois. Podemos continuar felizes no próximo momento ou podemos ficar infelizes. A felicidade é sujeita a mudanças, não temos qualquer tipo de certeza de que vá durar.

Esse tipo de insight ou análise sobre felicidade e infelicidade não é exclusivo do Budismo; muitos dos grandes pensadores do mundo observaram e ensinaram isso. Mas o que o Buda ensinou, o que ele compreendeu, foi um tipo de problema ou sofrimento muito mais profundo. Ele investigou a fundo esses altos e baixos que tem a vida de todo mundo, que a felicidade e a infelicidade tem altos e baixos, altos e baixos, e o que ele compreendeu foi que a causa disso está em cada momento de nossa experiência. Em outras palavras, a maneira como vivenciamos as coisas, com os altos e baixos nos níveis de felicidade, perpetua essa situação insatisfatória.

O Buda, portanto, olhou e percebeu qual era a causa que estava presente em cada momento e que perpetuava essa situação insatisfatória. Ele viu que a causa era uma confusão sobre a realidade. Em outras palavras, uma confusão sobre como existimos, como todos à nossa volta existem, como o mundo existe.

Isso é bem diferente do que outros haviam observado. Alguns haviam dito, por exemplo, que os altos e baixos de felicidade e infelicidade que vivenciamos são basicamente recompensa e punição: por seguirmos ou não as leis. De acordo com muitos professores, a obediência era a causa básica para nos sentirmos felizes ou infelizes. Mas o Buda disse não, que esse não era o caso. A causa real era nossa confusão, e não uma questão de obedecer ou não; é a confusão sobre a vida. E o Buda continuou, dizendo que confusão não faziaparte integrante e necessária da vida, de como vivenciamos as coisas. Ela não precisava estar lá, ela pode ser removida, e removida completamente, de forma que nunca retorne. E então ele disse que a maneira de removê-la seria mudando o modo como vivenciamos as coisas.

Livrarmo-nos da confusão não era uma questão de pedirmos a alguém que a removesse para nós, mas uma questão de mudarmos nossas atitudes, nosso entendimento sobre a realidade. Se quisermos, podemos substituir incompreensão por compreensão e então termos esse entendimento o tempo todo, e aí descobrimos que não temos mais os constantes altos e baixos de felicidade e não os perpetuamos mais. Esse é um ensinamento básico do Buda, posto numa linguagem comum.

O Carma Lida com Causa e Efeito Comportamentais

Quando falamos sobre carma, o carma é a explicação básica para os altos e baixo de felicidade – isso é carma. Em outras palavras, como é que a nossa confusão produz esses altos e baixos de felicidade e infelicidade, prazer e desprazer? Ou ainda, carma significa lidarmos com causa e efeito, e causa e efeito aqui é um assunto extremamente complexo. Conforme falou o Buda, um balde de água não é preenchido pela primeira gota d’água e também não é preenchido pela ultima gota d’á gua; ele é preenchido por todo conjunto de gotas. Da mesma forma, o que vivenciamos na vida é o resultado não de apenas uma causa – a causa não é apenas uma coisa que acabamos de fazer ou que fizemos há muitos eons. É o resultado de uma quantidade enorme de causas e condições.

Isso, na verdade, é bastante consistente com o ponto de vista científico porque o que diz é que eventos não ocorrem isoladamente, que na realidade tudo está interconectado. Um exemplo simples é que nós não estaríamos aqui nessa sala ouvindo essa palestra se os espanhóis não tivessem chegado à América, estaríamos? Essa é uma das causas para estarmos aqui. E assim como essa, existem muitas outras causas diferentes, diretas e indiretas, que contribuem para o que estamos vivenciando agora neste momento.

O carma, todavia, explica as causas que estão especificamente conectadas com a mente. Porém, existem muitas outras causas que contribuem com o que vivenciamos – causas físicas, como o clima, e assim por diante. Muitas coisas que nos afetam vêm não só de nossas mentes, mas das mentes de outras pessoas. Como dos políticos, por exemplo, que decidem sobre várias políticas que nos afetam. E isso pode vir misturado com confusão também, não pode?

Quando falamos de carma, não estamos falando de fé, nem de destino, predestinação ou coisas o gênero, mas sim de como experimentamos as coisas e como nossas atitudes afetam as nossas experiências de vida. A palavra c arma é usada de maneira bastante genérica para nos referirmos a tudo o que envolve causas e efeitos comportamentais, ou seja, a relação de causa e efeito que deriva de nosso comportamento e atitudes. “Carma” pode estar se referindo de maneira genérica a toda a questão de causa e efeito comportamental, ou a um aspecto bem específico desse processo. Portanto, se quisermos entender o mecanismo do carma, temos que olhá-lo com um pouco mais de precisão, em detalhes.

Vários Sistemas de Explicação do Carma

Quando começamos a buscar explicações mais precisas no Budismo, descobrimos muito rapidamente que não há somente uma explicação. Alguns ocidentais acham isso um tanto desconfortável. Mas se tivermos um problema ou alguma situação desagradável, podemos explicá-lo de várias maneiras, dependendo do nosso ponto de vista. No Ocidente nós fazemos isso, explicamos as coisas a partir de um ponto de vista social, de um ponto de vista psicológico, de um ponto de vista econômico – isso não é nenhuma surpresa. Essas diversas explicações realmente nos ajudam a entender melhor o que está acontecendo. E cada uma dessas maneiras de entendermos o que está acontecendo está baseada em um sistema de pensamento – o pensamento psicológico, o pensamento político, econômico e assim por diante. Temos algo similar no Budismo e, portanto, temos várias explicações de diferentes sistemas filosóficos em relação a como o carma funciona. No Ocidente, isso também acontece, mesmo em uma única disciplina, como a psicologia – pode haver uma explicação do ponto de vista da psicologia Freudiana, outra do ponto de vista da psicologia Junguiana; uma pessoa pode explicar as coisas de um ponto de vista socialista ou de um ponto de vista capitalista. Acontece igual com o Budismo, e é muito útil, na verdade, olharmos diversos sistemas, porque eles nos proporcionam diferentes insights sobre como o carma funciona. Para o nosso objetivo aqui, não precisamos ver em detalhes os diferentes sistemas, mas é útil.

Obviamente isso significa, de modo implícito, que também podemos ter sistemas ocidentais que explicam o que está acontecendo com o que experimentamos. Isso não contradiz necessariamente o que falamos sobre carma.

Carma Como o Fator Mental de um Anseio

O carma em si, quando falamos de algo específico, se refere – se seguirmos um sistema de explicação – a um fator mental. O que queremos dizer com “fator mental”? Um fator mental é um modo de estarmos conscientes de alguma coisa. Tomemos um exemplo: vemos alguém e andamos em sua direção. Muitos fatores mentais estão envolvidos nessa experiência. São os diferentes aspectos de como estamos conscientes dessa pessoa. Alguns são bem básicos, como distinguirmos essa pessoa de outra ou de uma parede. Há o interesse, que é a maneira de estarmos conscientes de uma pessoa, e ele acompanha o ato de vermos. Concentração pode estar envolvida, várias emoções podem estar envolvidas. Tudo isso são fatores mentais, e eles trabalham juntos no momento em que vemos a pessoa e andamos em sua direção.

Qual dos fatores mentais é o carma? Carma é o fator mental que está nos levando à pessoa; é o anseio que nos acompanha ao vermos a pessoa e nos dirigirmos a ela. É por isso que em algumas teorias o carma é explicado quase como uma força física. É claro que pode haver outros fatores mentais, como a intenção. O que pretendemos fazer com essa pessoa? Podemos intencionar abraçá-la ou dar-lhe um soco. Há muitos outros fatores que estão envolvidos, mas o carma é simplesmente esse anseio que nos leva a ação de abraçar ou socar quando vemos ou nos dirigimos até a pessoa. Porém, lembre que anseios mentais não são apenas para ações físicas como abraçar ou socar. Pode haver também um anseio que direciona nossa mente quando pensamos sobre alguma coisa; não é só em termos de dizer ou fazer alguma coisa. Quer estejamos pensando, quer estejamos dizendo, quer estejamos fazendo alguma coisa fisicamente – tudo envolve algum tipo de anseio mental.

Os Efeitos do Comportamento Cármico

O budismo, assim como a ciência, ensina muito em termos de causa e efeito. Logo, se direcionados pelo carma (esse anseio), fizermos, dissermos ou pensarmos alguma coisa, haverá um resultado. Mas carma não é tanto sobre o efeito do nosso comportamento sobre as outras pessoas- embora, é claro, tenha efeito sobre os outros. Isto porque, realmente, o efeito sobre outra pessoa daquilo que nós fazemos , depende em grande parte da própria pessoa. Alguns dos efeitos do que fazemos aos outros se devem apenas a fatores físicos; você bate em alguém e a pele fica ferida. Isso é só causa e efeito físico; não é a isso que nos referimos com carma. Mas o efeito em termos de como a pessoa vivencia o que falamos ou fazemos, depende dela, certo? Podemos dizer algo muito cruel para uma pessoa, por exemplo, podemos magoá-la muito, deixá-la muito chateada. Mas ela também pode pensar que somos completamente idiotas e não acreditar, não nos levar a sério. Ou ela pode nem nos entender ou então entender errado. Sua mente pode estar preocupada com outra coisa, por exemplo. Portanto, mesmo que tivéssemos péssimas intenções de realmente magoar essa pessoa, não há garantia de que conseguiríamos – embora, logicamente, o Budismo ensine que devemos tentar não machucar ninguém. Mas isso não envolve carma aqui.

Quando falamos dos resultados cármicos de alguma coisa, são os resultados que nós próprios vamos experimentar como resultado de agirmos dessa maneira impulsiva, compulsiva, com esses anseios cármicos

Quais são os efeitos para nós? Um dos efeitos – e isso é muito similar ao que a ciência ocidental falaria – é que nos condicionamos a pensar de certa forma, falar de certa forma e agir de certa forma, então criamos uma tendência a repetir certo tipo de comportamento. E como resultado dessa tendência de repetir a ação e também do potencial de repetir a ação (também há uma diferença entre potenciais e tendências, mas não há necessidade de nos aprofundarmos nisso) nós vamos querer repetir a ação.

O que na realidade produz essa tendência ou potencial? A tendência produz um sentimento – um impulso de nos dirigirmos a alguém e abraçá-lo, por exemplo, ou a vontade de xingar esse mesmo alguém. E logicamente, quando temos tais vontades, tais impulsos, temos também a escolha de dar vazão ou não a eles. Esse é um ponto muito importante, o fato de que nós temos escolha entre agir conforme esse impulso ou não. Entretanto, se decidimos agir, ou se nem consideramos a questão de agir ou não e simplesmente agimos, o próximo estágio é quando o carma entra em ação. O carma é a ânsia, a tendência, a compulsão com a qual nós acabamos agindo.

E muitas outras coisas amadurecem a partir dessas tendências. Uma delas é, basicamente, o conteúdo do que vivenciamos. Conteúdo é uma palavra forte; acho que temos que ser um pouco mais específicos. Tem a ver aqui, com, por exemplo, encontrar essa pessoa e não aquela. Também envolve a maneira como a pessoa age conosco. Temos que tomar muito cuidado em como dizemos isso, para sermos bem precisos. Nosso carma não faz com que a pessoa grite conosco - ela grita como resultado de suas próprias tendências de gritar com os outros. Mas nosso carma é responsável por vivenciarmos outras pessoas gritando conosco.

É claro que isso não é a coisa mais fácil de se entender, mas acho que através de um exemplo podemos compreender melhor. Se um bebê está usando uma fralda e suja a fralda, ele terá que conviver com a fralda suja; ele terá que conviver com a sujeira que fez. Deixando de lado a questão de se alguém vai trocar ou não a fralda do bebê, o ponto aqui é que se você faz sujeira, você vai experimentar essa sujeira. Nós criamos desordens, confusões em nossa vida, e conforme a vida segue entramos em mais e mais confusões; basicamente funciona assim. Mais especificamente, agimos de um determinado modo com os outros e vamos vivenciar alguém agindo de maneira semelhante conosco. Mas outro princípio importante do carma é que ele não funciona instantaneamente. Podemos falar de maneira muito bondosa e gentil com alguém e ainda assim a pessoapoderia gritar conosco com raiva.

É por isso que, para realmente compreendermos o carma, temos que trazer à tona a questão da reencarnação, que ações podem demorar muito, muito tempo para produzir um efeito, e que o efeito pode não surgir nesta vida. Na verdade, na maioria das vezes é o que acontece. Isso não é muito fácil para nós, ocidentais, aceitarmos. Para algumas pessoas é como se o budismo dissesse, "Seja bom nessa vida que depois da morte você vai alcançar o resultado no paraíso; seja mau e, após a morte, você vai ter o resultado no inferno".

Temos que realmente examinar bem de perto. O budismo fala a mesma coisa ou é diferente? Esse não é um tema muito fácil, é bem complicado, porque para realmente entendermos causa e efeito cármicos, temos que entender a reencarnação – o conceito budista de reencarnação, não qualquer conceito não-budista de reencarnação. Quem comete a causa cármica e quem experimenta seus resultados? Existe um “eu” que possa ser recompensado ou punido?

Mas deixando de lado a questão da reencarnação e quem a vivencia, conforme mencionei no início, o Budismo não está falando de um sistema de recompensa e punição baseado em obediência a leis. O Budismo não está dizendo que esta vida é uma espécie de teste e nós teremos o resultado do teste na nossa próxima vida. Está simplesmente dizendo que as ações podem demorar muito tempo para produzir seus efeitos. Podemos ver isso em termos de meio ambiente. Agimos de um determinado modo que produz alguns efeitos durante nossa vida, mas vai produzir muito mais efeitos na vida das gerações futuras. É algo parecido com isso.

Felicidade e Infelicidade

Uma dimensão inteiramente diferente na qual o carma amadurece – ou seja, outra dimensão em que vemos os efeitos das ações cármicas- tem a ver com o que estávamos falando no começo desta palestra, com essa dimensão de felicidade e infelicidade. Repetindo determinadas ações, experimentamos certas coisas acontecendo conosco – pessoas agindo de determinada maneira, ou pode ser uma pedra caindo de um penhasco em cima da nossa cabeça. Experimentamos essas coisas felizes ou infelizes. Pense nisso. Tem pessoas que, quando pisam numa barata, ficam felizes – peguei esse bicho horrível! Outras, quando pisam numa barata, sentem nojo e ficam muito infelizes. Algumas pessoas ficam muito tristes e infelizes quando alguém grita com elas, outras ficam felizes, “Sim, sou um pecador; não sou uma pessoa boa, sou uma pessoa má; eu mereço que as pessoas gritem comigo ou me batam”.

Vocês conhecem esse dizer, acho que vem daqui do México, ou alguém inventou essa história e eu acreditei, mas é assim: “Se meu marido bate em mim quer dizer que ele realmente me ama; se ele não me bate significa que não está nem aí.”

Feliz ou infeliz parece ser quase que uma dimensão diferente, não parece? O que acontece conosco em uma dimensão é o que fazemos compulsivamente, que vem da repetição, o que vivenciamos, coisas que acontecendo conosco – isso é uma dimensão, e a outra dimensão é como vivenciamos isso, com felicidade ou infelicidade. Isso que vivenciamos, essas duas dimensões, são resultados cármicos de ações do passado, mas ações diferentes. Se olharmos apenas a dimensão da felicidade ou infelicidade, é uma dimensão muito genérica. Vem de agirmos de uma forma construtiva ou destrutiva. Se agirmos de forma destrutiva, o resultado é experimentarmos infelicidade; se agirmos construtivamente, o resultado é experimentarmos felicidade.

Comportamento Construtivo e Destrutivo

Agora, fica muito interessante quando investigamos o que o Budismo quer dizer com construtivo e destrutivo. Naturalmente, existem diversas explicações para isso. Mas conforme vimos, realmente não podemos especificar a natureza de uma ação em termos do efeito que tem em outra pessoa, porque ninguém sabe o efeito que terá: tantos outros fatores estarão envolvidos. Portanto, a ação será construtiva ou destrutiva dependendo do nosso estado de espírito quando agimos. Se a ação tem como base ganância, apego, raiva ou simplesmente completa ingenuidade, é destrutiva. Por outro lado, se nossa ação não estiver baseada em ganância, nem apego, raiva, ou ingenuidade, então é construtiva. Obviamente se for além disso, se for baseada em amor e compaixão, generosidade, etc., também é construtiva.

Existem outros fatores também. É muito interessante examinarmos esses outros fatores que fazem uma ação ser construtiva ou destrutiva. Um deles é a auto-dignidade ética ou auto-dignidade moral. Isso tem a ver com nossa auto-imagem e respeito próprio. Se não nos respeitamos, não nos preocuparemos com o efeito de nosso comportamento em nós mesmos. É a atitude do “que se dane”. Com esse tipo de baixa auto-estima, agimos destrutivamente. Ou seja, se pensar em mim mesmo de maneira positiva, se eu me respeitar como pessoa, não agirei como um idiota. Não agirei de maneira estúpida e cruel, porque não vou querer me rebaixar a tanto – tenho uma opinião muito melhor a meu respeito, a respeito do que eu posso fazer. Esse é o fator que estamos falando aqui: ter um senso de auto-dignidade ética ou não ter um senso de auto-dignidade ética. Esse fator é muito, muito crucial para determinar se agimos de maneira construtiva ou destrutiva

Outro fator é nos preocuparmos em como nosso comportamento se reflete nas outras pessoas. Sobre o que estamos falando? Se eu agir mal, como isso se refletirá em minha família? Como se refletirá em meu país? Se eu agir mal, o que as pessoas irão pensar dos mexicanos? Se formos budistas, se eu sair e ficar bêbado e arrumar uma briga, como isso se refletirá no budismo e nos budistas? Ao ter respeito suficiente por nossa família, por nosso grupo, o que seja – religião, país, cidade- com essa preocupação quanto ao efeito de nosso comportamento, com a preocupação quanto a como nosso comportamento reflete nos outros, se tivermos isso, nos absteremos de nos comportarmos de modo destrutivo. Esse é um insight extraordinariamente profundo no budismo. Qual o fator crucial? Auto-estima, auto-dignidade e um senso de estima por nossa comunidade.

Isso nos dá um insight muito grande de alguns dos fatores que devem ser levados em conta quando lidamos com terrorismo. Se uma pessoa e toda sua comunidade são privados de qualquer senso de auto-dignidade, tendo suas vidasinfernizadas e sendo mal julgadas pelos demais, elas passam a achar que tanto faz o que fizerem. Se elas não tem nenhuma auto-estima ou sentido de valor de sua comunidade, então porque não sair por aí sendo destrutivos? Elas sentem que não tem nada a perder. É muito útil lembrarmo-nos disso, em termos de como lidar com os outros, particularmente com relação a situações problemáticas no mundo. É importante nunca privarmos alguém do seu sentido de auto-dignidade ou do sentido de valor de sua comunidade.

Esses são alguns dos fatores mentais que contribuem para que uma ação seja construtiva ou destrutiva. E também coisas como levar a sério o fato de que nossas ações e comportamentos afetam os outros. Isso se refere a ter um senso de solidariedade a nos importarmos com os outros – eu chamo isso de “atitude solidária”. Mas algumas vezes somos muito ingênuos, achamos que podemos falar qualquer coisa para outra pessoa, e que isto tanto faz. Realmente não levamos seus sentimentos a sério. Logo, nos falta uma atitude solidária.

Se agirmos com esses tipos de fatores mentais – ganância, raiva, falta de auto-estima, falta de consideração com os outros no que diz respeito a nossas atitudes, não nos importando, não tomando em consideraçãoque nossos atos terão um efeito sobre os outros e sobre nós mesmos – qual será o resultado? Infelicidade. Essa infelicidade, entretanto, não é punição.

Precisamos realmente pensar de maneira profunda sobre isso. Poderia esse estado mental com todos esses fatores negativos realmente ser um estado feliz? Poderia produzir alguma experiência de felicidade em nós? Ou poderia ele só produzir infelicidade? Se pensarmos mais e mais sobre isso, realmente faz sentido que certos estados mentais, aquele estado negativo, resulta em vivenciarmos infelicidade, e se tivermos o estado oposto, sem ganância e raiva e todos aquelas outras coisas, ele irá produzir felicidade. Portanto, temos essas categorias gerais de comportamento – construtivo e destrutivo – e eles vão resultar em vivenciarmos felicidade ou infelicidade.

Adicionalmente, existem tipos específicos de ações que cometemos: gritar com alguém ou ser gentil com alguém, e assim por diante. Essas ações também tem seus efeitos no que diz respeito à tendência de repetirmos esses comportamentos e à tendência de nos metermos em situações onde outros se comportam dessa maneira conosco.

Outro resultado do nosso comportamento cármico – mas não há necessidade de entrarmos em muitos detalhes aqui – diz respeito ao tipo de renascimento que teremos: se iremos renascer com o corpo e mente básicos de um cachorro, uma barata, um humano. Que tipo de corpo e mente teremos como contexto para vivenciarmos nossas ações e coisas acontecendo conosco. Existem muitos outros detalhes aqui, mas eu só quero cobrir, nessa palestra introdutória, os princípios mais genéricos.

Determinismo ou Livre Arbítrio

Portanto, por um lado experimentamos certos tipos de comportamento se repetindo e coisas acontecendo conosco; por outro, vivenciamos tudo isso com os altos e baixos de felicidade e infelicidade, que algumas vezes parecem que tem a ver com nosso comportamento, mas algumas vezes parecem não ter nada a ver. E todos esses altos e baixo, altos e baixos, o tempo todo e não sabemos o que virá depois. Logicamente o que acontece conosco não é causado apenas por mim e meu carma. Também é afetado pelo o que está acontecendo com todos os outros seres do universo e seus respectivos carmas, e o que eles estão fazendo, e também o que está acontecendo com o universo em termos físicos – os elementos do universo: clima, terremotos, essas coisas. Por causa disso, é muito difícil predizer o que experimentaremos em seguida – os fatores que influenciam são muito, muito complexos. Inclusive, o Buda falou que isso é o que há de mais complicado para entendermos.

Temos que ser bem claros aqui, porque muitas pessoas perguntam isso sobre o carma – é determinístico ou temos livre arbítrio? Nenhum dos dois é correto, os dois são extremos. Determinismo implica que alguém determinou o que vamos fazer ou o que vamos vivenciar – algum ser externo, um ser superior, ou algo assim. Segundo o budismo, não é esse o caso; não é que alguém decidiu o que iremos fazer e somos somente fantoches, atuando numa peça que alguém escreveu pra gente.

Por outro lado, o livre arbítrio é mais ou menos como alguém sentado num restaurante, olhando o menu e decidindo o que pedir. Mas a vida não é assim. Imaginar que a vida é assim, diz o budismo, está incorreto, confuso. Pode parecer, ou podemos sentir, como se houvesse um “eu” separado – separado da vida, separado da experiência, e que, separadamente de tudo o que está acontecendo, pode olhar a vida como um menu e escolher itens nele. Porém, não existe um “eu” separado da vida, ou separado da experiência. E os fatos que vão nos acontecer não existem como itens em um menu, só esperando para serem escolhidos, bastando pressionarmos um botão para que eles saiam como em uma máquina de refrigerante ou chocolates ou algo assim. Acho que essa é uma imagem útil pra vermos como é ridículo. Não é que as experiências existem como um refrigerante na máquina, onde é só escolhermos qual queremos; apertarmos o botão, colocar o dinheiro e pegar. A vida não é assim, é? Não decidimos de antemão, “Hoje, eu vou ser feliz e todos vão ser gentis comigo”. Aí colocamos nosso dinheiro na máquina da vida e sai aquilo que escolhemos. Isso seria livre arbítrio, certo? Livre arbítrio é decidirmos o que vai acontecer e o que iremos fazer. Mas o que acontece conosco é muito mais sutil e sofisticado que esse dois extremos do determinismo ou total livre arbítrio.

Confusão Como Origem do Carma

Dissemos no início da palestra, que o que era singular no budismo é que o Buda ensinou a causa para os altos e baixos de nossa felicidade e para todas as coisas que acontecem conosco e que não queremos que aconteçam mas sobre as quais não temos controle. A causa (de tudo isto) é parte de cada momento de nossa experiência e está perpetuando toda essa síndrome – e essa causa é a confusão. Não só isso, mas quando agimos com confusão – quer seja destrutivamente ou construtivamente – reforçamos o que chamamos “hábito constante” – o hábito de constantemente agirmos com confusão – e continuamos a agir com confusão a cada momento.

O que é essa confusão? Esse é um tópico muito profundo no budismo; mas, colocando de uma maneira bem simples, estamos nos referindo à confusão a respeito de como eu existo, como você existe e como todos os outros seres existem. Por exemplo, pensamos que somos o centro do universo; eu sou o mais importante; eu deveria sempre conseguir o que quero; eu estou sempre certo; as pessoas deveriam sempre ter tempo pra mim. Reconhecemos essa atitude com nossos telefones celulares: achamos que podemos ligar pra qualquer pessoa a qualquer hora e interrompê-la independentemente do que ela esteja fazendo, e ela deve sempre estar disponível para mim, porque o que eu tenho a dizer é muito mais importante que qualquer coisa que ela poderia estar fazendo no momento. Baseados nessa confusão podemos agir destrutivamente com alguém – gritar ou ser cruel – e faríamos isso porque ele não quer fazer o que eu quero que faça ou está fazendo algo que eu não gosto. Ele deveria fazer o que eu quero porque o que eu quero é obviamente mais importante do que o que ele quer. Ou, baseados na mesma confusão, podemos fazer algo bom, ser gentil, porque queremos que gostem da gente, queremos que fiquem felizes conosco. Quero me sentir necessário fazendo algo para alguém porque eu acho que este alguém precisa. Então digo a minha filha como criar seus filhos e como administrar sua casa. Isso não é ser útil? E não importa se a filha não quer meu conselho e ajuda. Eu penso que sou muito importante e quero me sentir necessário e, logicamente, sei melhor que minha filha como criar seus filhos, e ela obviamente precisa ouvir isto.

Então existe essa confusão, e ela está por trás tanto de comportamentos destrutivos como de construtivos. É por causa dessa confusão que perpetuamos esse ciclo de altos e baixos. Logo, precisamos examinar como nos livrarmos dela.

Livrando-nos da Confusão

Quando olhamos para o mecanismo através do qual esses hábitos e tendências cármicas amadurecem, em particular as tendências, tem tudo a ver com nossa atitude frente aos altos e baixos de felicidade que vivenciamos. Temos dois fatores mentais que acompanham a maneira como vivenciamos felicidade e infelicidade e que são significativos aqui. O primeiro é chamado “desejo compulsivo”. Quando experimentamos felicidade, temos uma compulsão – o que significa que temos um forte desejo – de não nos separarmos dela. “Não se vá, fica aqui comigo o tempo todo, fica mais um pouquinho” – esse tipo coisa que acontece quando gostamos de estar com alguém. Ou estamos apreciando e nos sentindo felizes ao comer um bolo de chocolate e não queremos nos separar dessa felicidade. Por causa disso comemos mais e mais e mais, não comemos? Isso é desejo compulsivo. E então, quando experimentamos infelicidade, desejamos nos separarmos dela o mais rápido possível. Subjacente aos dois está o segundo fator mental – uma atitude forte de identificar o “eu”, um “eu” sólido, com o que estamos experimentando. Eu tenho que ter essa felicidade e o que quer que seja que esteja me fazendo feliz, mais e mais, e não me separar disso. Eu tenho que me livrar do que eu não gosto. Eu não gosto do que você está falando, então é melhor você calar a boca ou eu vou gritar com você.

Quando vivenciamos os altos e baixos de felicidade e infelicidade em nossas vidas com esse desejo compulsivo e forte identificação de um “eu” sólido com o que está acontecendo – que, antes de mais nada, está baseada em confusão – isso faz com que todas essas tendências cármicas amadureçam. Desse modo, estamos perpetuando nossos altos e baixos de felicidade e infelicidade e repetindo todos os nossos comportamentos prévios. Porque isso é o que amadurece de nossas tendências. O que é realmente terrível é que essa confusão está lá em cada momento de felicidade e infelicidade. E perpetua mais momentos de felicidade e infelicidade, que também vão estar com confusão. A confusão que experimentamos agora é conseqüência da confusão anterior, de quando estávamos experimentando felicidade e infelicidade.

Esse ciclo recorrente incontrolável, esse ciclo que se perpetua – é o que chamamos de samsara no budismo. Se conseguirmos nos livrar dessa confusão, todo o sistema de carma desmorona e nos libertamos do samsara. Se substituirmos confusão pelo entendimento correto – e eu não vou entrar em detalhes dos que isso significa, só dar uma idéia geral – então não haverá base para esse “eu” sólido – não haverá base para “Eu tenho que ter isso e não aquilo”. Não haverá mais desejo compulsivo, então não haverá nada para ativar esses hábitos e tendências. E se não existe mais nada para ativar estas tendências e hábitosvocê não poderá mais dizer que ainda tem hábitos e tendências. Tentarei dar um exemplo. Digamos que haja uma tendência para vermos dinossauros. Quando os dinossauros forem extintos não haverá mais a tendência para vermos dinossauros quando passearmos pela selva, certo? Costumava haver essa tendência: Quando eu andava pela selva eu sempre via dinossauros. Agora não existem mais dinossauros, portanto não há tendência de vermos dinossauros. Usando esse exemplo, quando não há nada que cause o amadurecimento de uma tendência – um dinossauro andando na sua frente, causando o amadurecimento da tendência para ver dinossauros – se não há nada para ativar a tendência, você não tem mais a tendência. E se as tendências não estão mais amadurecendo porque não existem mais tendências, nós não vivenciaremos mais os altos e baixos de felicidade e infelicidade, e certamente não estaremos experimentando mais qualquer tipo de confusão com elas, já que a confusão também não existe mais.

É assim que nos libertamos de toda essa situação samsárica. Nós não vivenciamos mais essa insatisfatória e insegura oscilação entre felicidade e infelicidade; ao invés disso temos uma experiência muito estável, de um tipo muito diferente de felicidade, de uma qualidade muito diferente – não um tipo de felicidade misturada com confusão, e não o tipo de felicidade do tipo “ eu ganhei o jogo e aqui está a minha recompensa”. É um tipo de felicidade que se experimenta quando nos vemos livres de uma situação difícil. Acho que um exemplo simples, apesar de não ser exato, para o tipo de felicidade de que estamos falando, é a felicidade de tirar um sapato apertado no final do dia – é um alívio, nos alegramos por estarmos livres da dor.

Da mesma forma, o que vivenciamos com a liberação é que nossas ações não são mais dirigidas pelos anseios compulsivos do carma com os quais agimos de uma determinada maneira e experimentamos determinadas coisas. Mas sim, se estamos trabalhando além da simples liberação, para nos tornarmos um Buda, o que dirige nossas ações é a compaixão – o desejo de que os outros se libertem do sofrimento e das causas do sofrimento.

Palavras Finais

Essa é uma introdução básica para alguns dos princípios que envolvem o carma. Há muito, muito, muito mais que pode ser dito e explicado. Um pouco pode ser explicado com alguns princípios gerais. Como, por ejemplo, um certo tipo de ação resulta em um certo tipo de efeito, e se um certo fator estiver presente o resultado será mais forte, e se não estiver – se tiver feito algo por acidente em vez de fazer de propósito – o efeito será diferente, e assim por diante. Existem muitos detalhes.

Da mesma forma, em termos do que efetivamente vai amadurecer nesse momento, é muito difícil generalizar com princípios, porque isso é afetado por tudo mais que está acontecendo ao nosso redor. O que acontece conosco agora não pode ser generalizado com princípios genéricos, porque é afetado por tudo mais que está acontecendo. Pense: se tiver um acidente na estrada, o que o ocasionou? Foi o carma que colocou todo mundo na estrada, as condições de tráfego, o clima e as condições da estrada. Muitas coisas acarretaram essa situação particular de ter o acidente acontecendo agora.

Se tivermos interesse nesse tópico, há bastante espaço para explorarmos diferentes aspectos. Quanto mais aprendermos sobre carma, melhor é para nos livrarmos de seu controle, para que não só nós nos libertemos do sofrimento samsárico, mas também estarmos em uma posição melhor para ajudarmos os outros.

Para explicações mais detalhadas, ver: The Mechanism of Karma: The Mahayana Explanation, Except for Gelug Prasangika .

Que perguntas vocês tem?

Perguntas

Participante: Nesse contexto, (o sentimento de) culpa está fora de questão? O que foi explicado não tem nada a ver com culpa, tem?

Alex: Não. A explicação budista de carma não tem nada a ver com culpa. Culpa tem a ver com pensarmos em termos de um “eu” sólido como uma entidade separada e “o que eu fiz” como outra entidade, como duas bolas de ping-pong, ou algo assim. E então acreditamos que aquela entidade “eu” é muito má e aquela entidade “o que eu fiz” foi muito mal. Portanto, julgamos essas duas entidades que nos parecem muito sólidas e não nos desapegamos delas – isso é culpa. É como nunca jogar fora o lixo de casa, mas mantê-lo dentro dizendo: como é horrível, como cheira mal, como é sujo, e nunca jogando fora.

Participante: Parece muito claro e muito lógico, e eu consigo entender todo o sistema, e como me livrar da confusão, da ânsia, das tendências e tudo o mais. Mas acho que entender não é o suficiente para me livrar da experiência ou do impulso de agir compulsivamente.

Alex: Correto. Por isso precisamos primeiro exercitar autocontrole no que diz respeito à ética. Lembre que mencionamos que existe um pequeno intervalo entre pensar “que vestido horrível você está usando hoje” e de fato falar isto. Se conseguirmos perceber esse espaço, podemos antever as conseqüências de dizermos para essa pessoa que ela está usando um vestido horrível. E se vemos que faze-lo não será produtivo, podemos simplesmente não dizer nada. É aí que começamos – com disciplina ética e autocontrole.

Da mesma forma, podemos examinar qual emoção estamos sentindo quando queremos fazer alguma coisa. Será que o meu desejo de fazer alguma coisa está baseado em uma emoção destrutiva, como ganância? Ou está baseado em raiva; está baseado em ingenuidade? Será que estou achando que dizer que seu vestido é horrível não terá nenhum efeito negativo sobre você? Ou o meu desejo está baseado em benevolência, coisas mais positivas? É por isso que a definição de uma emoção ou atitude perturbadora é muito útil: é um estado de espírito, que quando aflora faz com que percamos a paz de espírito e o autocontrole.

Dá para perceber quando perdemos a paz de espírito: o coração bate um pouco mais rápido; sentimo-nos inquietos. Portanto, temos que tentar perceber coisas sutis, como, por exemplo, se estamos falando com orgulho. Por exemplo, se alguém diz, “eu não entendi aquilo”, e você diz, “Ah, mas eu entendi!”. Você sentirá um pouquinho de inquietação, tem um pouco de orgulho por trás disso, alguma arrogância. É isso que você tem que procurar.

Mas compreender a realidade, que significa compreender a vacuidade e assim por diante, é muito, muito difícil, e mesmo quando conseguimos, temos que nos acostumar com ela, para que a tenhamos o tempo todo. É por isso que começamos com disciplina ética, pra evitar que ajamos destrutivamente.

Participante: Fiquei meio perdido. Acho que você mencionou que existem duas emoções que perpetuam a felicidade e infelicidade, essa flutuação. Você falou que uma delas é o desejo compulsivo, mas qual era a outra?

Alex: O que eu estava explicando eram os dois fatores que ativam as tendências cármicas – isso vem dos ensinamentos dos doze elos de originação interdependente. Um é o desejo compulsivo, o outro – eu estava simplificando – o outro, na verdade, é chamado “atitude ou emoção daquele que obtém,” e é uma lista de aproximadamente cinco possibilidades. Isso é o que obterá o resultado, então o fator mais proeminente é identificar um “eu” sólido com o qual estamos experimentando, com o que está acontecendo.

Participante: Você quer dizer identificar um “eu” sólido em relação a alguma coisa? Está claro que há uma confusão aqui e que temos que nos livrar da confusão. Mas o que exatamente estamos confundindo e com o que?

Alex: Essa não é uma pergunta fácil de ser respondida de maneira simples. Estamos confundindo o “eu” que existe, o “eu” convencional, com o falso “eu”, que não existe. O que estamos fazendo é imaginando que o “eu” real, que existe, existe de um modo impossível, é um exagero. Estamos adicionando algo que não está lá. Por exemplo: Eu estou feliz ou eu estou infeliz. Não é que você esteja infeliz; eu estou infeliz. Quando há uma experiência de felicidade ou infelicidade, nos referimos a ela em termos de eu estou feliz. Não é que você esteja feliz ou outra pessoa esteja feliz – Eu estou feliz. Esse “eu” é o “eu” convencional, que não existe.

Vamos usar um exemplo para esse “eu” convencional. Suponhamos que vamos assistir a um filme e digamos que esse filme é “E o Vento Levou”. Nele há uma cena feliz e depois uma infeliz e depois outra cena feliz. Bem, o que está acontecendo aqui? Essa cena feliz é uma cena de “E o Vento Levou” e aquela cena infeliz é outra cena de “E o Vento Levou”. “E o Vento Levou” é como convencionamos rotular toda a coisa, todas as cenas, tanto as felizes quanto as infelizes. “E o Vento Levou”, entretanto, é só um título, só um nome. Mas quando falamos sobre “E o Vento Levou” não estamos falando só sobre o título. Estamos falando sobre o filme – aquilo ao qual o título se refere. Esse é o filme que existe de maneira convencional, ele existe. O filme não é algo separado de cada uma daquelas cenas – um filme separado e independente daquelas cenas seria um filme falso. Ele não existe. O filme que existe de maneira convencional é meramente o que pode ser rotulado ou imputado com base nas cenas.

Similarmente, temos momentos felizes na vida, temos momentos infelizes na vida e assim por diante. E como nos referimos a tudo isso? Referimo-nos como sendo “eu” – o eu convencional, que existe: não é você, sou “eu”. Da mesma forma, aquele filme é “E o Vento Levou”, não é “Guerra nas Estrelas”. Mas não há um “eu” separado daqueles momentos de felicidade e infelicidade e que está experimentando aqueles momentos. Esse seria um falso “eu”, um “eu” que não existe. E “eu” é só uma palavra; então “eu” é meramente aquilo a que a palavra está se referindo com base em todos os momentos de experiência de uma vida.

A confusão, então, seria pensar que existe um “eu” separado que está dentro desse corpo, habitando-o, de alguma forma conectado a ele, apertando os botões, e que esse “eu” está experimentando dor no pé e eu estou muito infeliz e eu não gosto disso. É como se existisse um “eu” separado de toda a experiência, dentro dessa coisa alienígena chamada corpo. Então, com base nessa confusão do “eu” separado – o falso “eu” – com o “eu” convencional e na identificação com o “eu” falso, sentimos, desejamos compulsivamente, “Eu tenho que me livrar dessa infelicidade, dessa dor, da infelicidade que experimento com o corpo físico”. É claro que quando não temos a falsa concepção de um “eu” sólido, não significa que simplesmente sentamos e continuamos a sentir dor. Se nosso pé está pegando fogo, é claro que o tiramos do fogo, mas o conceito de “eu” que está por trás é bastante diferente. Não existe pânico.

Mas esse conceito de um “eu” falso versus um “eu” convencional é muito complexo e avançado. Então, vamos deixar assim por enquanto. Vamos terminar aqui essa noite com uma dedicação. Pensamos: qualquer que seja a compreensão, qualquer que seja a força positiva que veio disso, que ela possa se aprofundar, crescer mais e mais forte, e que seja uma causa para que atinjamos a iluminação para o benefício de todos.