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Arquivos sobre Budismo do Dr. Alexander Berzin

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Examinando o Karma Imediatamente Depois de Setembro de 2011

Alexander Berzin, 

Mexico City, México, 22-23 de setembro de 2001.
Transcrição ligeiramente editada
Traduzido por Antonella Yllana

Seção Três: As Leis e Variedades do Karma

A Primeira Lei do Karma

Há certos aspectos gerais do karma chamados “as quatro leis do karma.” Se perguntarmos por que essas leis funcionam dessa forma, é simplesmente assim. É como perguntar: por que todo mundo quer ser feliz e não quer sofrer? Isso é simplesmente assim. Apenas temos que aceitar certas coisas como elas são.

A primeira lei é a certeza de resultados. Quando fazemos a experiência de infelicidade ou dor, é certo de que ela veio das nossas ações destrutivas prévias. Da mesma forma, quando fazemos a experiência da felicidade, ela é o resultado do nosso comportamento e das nossas ações construtivas prévias. É significativo que isso esteja expresso desta forma. Isso não quer dizer que, se agirmos de forma destrutiva, o sofrimento será o resultado definitivo. Isso não permitiria a purificação do karma. Não está dizendo que seremos punidos. Isso quer dizer que, quando estamos infelizes, é certo de onde vem o sofrimento. Não vem de um ser mais elevado ou uma circunstância qualquer. Não vem do nada. Vem de nosso próprio comportamento prévio.

No budismo, quando falamos sobre o relacionamento entre comportamento e a experiência de felicidade e infelicidade, não estamos falando sobre aquilo que o nosso comportamento faz com que os outros vivenciem. Não é certo qual será o efeito de nosso comportamento em outros seres. Da mesma forma, não é certo o que experimentaremos como resultados daquilo que outra pessoa faz conosco. Se ficarmos infelizes, é o resultado de nosso próprio comportamento destrutivo prévio. Ao pensarmos “eu, eu, eu”, isso faz com que o legado kármico de nosso comportamento destrutivo prévio amadureça e que sintamos infelicidade. O que os outros fazem conosco é apenas a circunstância para que este amadurecimento possa acontecer.

Pergunta: Será que temos uma escolha sobre o que sentimos quando uma pessoa nos repreende, ou apenas temos uma escolha em relação a como reagimos?

Alex: É difícil separar como respondemos a um nível de felicidade ou infelicidade, do sentimento que temos em relação àquele nível de felicidade ou infelicidade. Isto é assim porque estamos constantemente apegados ao “eu, eu, eu”, então nós desencadeamos o amadurecimento de um legado kármico e nos sentimos infelizes quando escutamos o outro nos repreender. Mas no próximo momento, pelo fato de continuarmos apegados ao “eu, eu, eu”, nós nos apegamos àquela infelicidade com o grande desejo de nos separarmos dela. Este apego então desencadeia o amadurecimento do sentimento de querer responder algo para a pessoa, que pode se tornar um impulso de dizer palavras feias, que então pronunciaremos. Nosso apego pode também desencadear uma resposta na qual sentimos que não devemos dizer nada, pois entendemos que seria inútil, e isto poderia levar ao impulso construtivo de ficar em silêncio. Mas o nosso apego a um “eu” sólido pode nos tornar infelizes ao escutar essas palavras e fazer com que desejemos que o “eu” seja separado desta infelicidade e isto também pode acompanhar o impulso kármico de ficar quieto.

É muito complexo. Realmente depende de como definimos e analisamos a palavra “resposta”. Até que ponto uma resposta deve ser consciente e ter certo desejo ou intenção? Como entendemos uma resposta automática? O que será que isso significa – uma resposta automática? Se analisarmos o karma como uma definição de complexidade de nível dois, teremos que mudar a definição para um nível cinco para analisar esta questão de forma apropriada.

Embora eu esteja expressando isso com humor, é realmente desta forma que estudamos o Dharma. Nunca fique satisfeito como o nível de complexidade de seu entendimento. De fato, este é um dos votos tântricos. Até alcançarmos uma omnisciência búdica, sempre haverá níveis mais profundos e complexos de entendimento à medida que aumentarmos a visão de nosso periscópio e começarmos a considerar todos os outros fatores que estão envolvidos. Pois, de fato, tudo está conectado a tudo.

Pergunta: Será que você pode dar um exemplo de como eliminar os altos e baixos?

Alex: Os altos e baixos caracterizam o samsara. Para nos liberarmos dos altos e baixos, temos que sair do samsara. A liberação vem da cognição direta e não conceitual da vacuidade e depois de familiarizar as nossas mentes com esta cognição para que ela se torne constante e não mais causemos o amadurecimento de legados kármicos. Para parar o jogo do bingo kármico, não temos que nos livrar de todas as bolas de pingue pongue, temos que parar de apertar o botão.

Os legados kármicos e hábitos constantes não são coisas materiais. Não são coisas concretas sentadas em nossa mente. De certa maneira, eles são apenas abstrações: são formas convenientes de descrever o que está ocorrendo. Vou dar um simples exemplo. Bebemos café hoje de manhã, hoje à tarde, etc. Para explicar isso, podemos dizer que temos um hábito de beber café. O hábito não é algo de concreto sentado em nossa cabeça; trata-se apenas de uma forma de reunir e descrever esta sequência de acontecimentos semelhantes. Enquanto ainda houver a possibilidade de beber café no dia seguinte, podemos dizer que ainda temos o hábito. Se não houver absolutamente nenhuma possibilidade de voltar a beber café, não podemos mais dizer que ainda temos o hábito. Acabou. Assim nós nos livramos de um hábito: nós eliminamos a possibilidade de quaisquer instâncias que ocorram em sequência.

Pergunta: Isso poderia ser reduzido a simplesmente estar completamente consciente daquilo que me faz ser feliz e infeliz e então fazer aquilo que me faz feliz e não aquilo que me faz infeliz?

Alex: Este é o primeiro passo. Depois disso, é preciso ir muito mais fundo e começar a trabalhar com o entendimento da vacuidade. No entanto, embora seja apenas o primeiro passo, não dá para evita-lo. É preciso fazer este primeiro passo para poder ir além. Se continuarmos a agir de forma destrutiva, nunca teremos as circunstâncias para nos aprofundarmos na meditação porque vivenciaremos constantemente uma incrível dor e assim por diante. Quando conseguimos unir esta peça do quebra-cabeças com o precioso renascimento humano, nós percebemos que precisamos de circunstâncias preciosas e humanas para ser capazes de continuar a praticar. Se não as tivermos, nunca chegaremos a lugar algum. Para ter preciosas circunstâncias humanas temos que para de agir de forma destrutiva, ou pelo menos minimizar isso.

Outro ponto sobre a certeza dos resultados: o que estamos vivenciando agora não é necessariamente baseado naquilo que estamos fazendo neste exato momento. Ao termos um caso extraconjugal, podemos desfrutar disso e vivenciar felicidade. Da mesma forma, se sentimos vontade de ter sexo com o parceiro de outra pessoa e evitamos fazer isso, podemos vivenciar infelicidade e frustração. Imediatamente após um ato sexual que faz parte de um caso, talvez nos sintamos culpados ou felizes que desta vez tudo deu certo. Porém, o nível de felicidade ou infelicidade que estamos vivenciando não é resultado daquilo que estamos fazendo no momento nem mesmo pouco tempo depois, mas é o resultado de um legado kármico passado. Esta é a única explicação para isso. Caso contrário, tudo é arbitrário.

O que outra pessoa faz conosco ou aquilo que estamos fazendo agora é uma circunstância, mas não determina como nos sentimos. O que realmente causa o aparecimento de uma nova bola de pingue pongue é apegar-se a um “eu” sólido que quer ser feliz e não infeliz, embora isso possa ser completamente inconsciente, no sentido ocidental desta palavra.

Por que surge uma bola de pingue pongue e não outra? Teríamos que entender todos os diferentes fatores que agem como causas e condições. Por isso se diz que apenas um Buda pode entender por que específicos legados kármicos amadurecem em um dado momento.

A Segunda Lei do Karma

A segunda lei do karma é o aumento dos resultados. A analogia comum diz que de uma pequena semente cresce uma árvore muito grande. Quanto mais tempo levamos antes de purificar alguma ação negativa, mais forte se tornam o seu legado kármico e os seus resultados. Por exemplo, se tivemos um mal entendido com nosso parceiro, quanto mais tempo passar sem que peçamos desculpas, mais a coisa cresce e pior ela fica. Do lado positivo, consequências imensas podem vir de assistir a uma palestra do Dharma.

Como podemos entender isso? Eu gostaria de explicar um pouco sobre o meu próprio processo de tentar trabalhar com o material do Dharma e derivar algum entendimento disso. Eu acho útil analisar isto em termos de redes. Como eu disse, acho útil pensar em juntar as peças de um quebra-cabeças. Em termos do aumento de uma ação kármica, temos que adicionar os ensinamentos sobre vacuidade e a origem interdependente aos ensinamentos sobre karma. A ação em si, a força kármica, não existe isolada com uma linha sólida ao redor dela, se tornando maior e mais forte sozinha. Isso não combina com o restante dos ensinamentos, certo? Muitas outras forças kármicas estão ocorrendo e todas estão inter-relacionadas umas com as outras.

Vamos usar um exemplo. Vamos supor que chegamos tarde em casa e não ligamos antes para avisar à nossa companheira. Este é o início de um conflito. Esta é uma força kármica negativa. Então, na manhã seguinte, não dizemos: “Bom dia, querida”, mas vamos primeiro ao banheiro. Esta é outra força kármica e cria uma teia com aquilo que fizemos no dia anterior. Então, lemos o jornal durante o café da manhã e não falamos. Podemos ver como a força kármica negativa está se tornando maior por composição e trabalho em rede até mesmo com ações neutras como ler o jornal. Penso que assim podemos entender o ensinamento do aumento dos resultados. Aquela pequena ação agora está ficando maior e maior. Não se trata de uma ação isolada.

Quando ouvimos qualquer ensinamento do Dharma, é muito importante tentar combiná-lo com as outras peças do quebra-cabeças daquilo que aprendemos. Como eu disse, as peças se combinam de forma multidimensional, em muitas maneiras distintas. A peça da vacuidade combinará com muitas outras peças do quebra-cabeças. O Buda ou qualquer professor pode apenas nos dar as peças do quebra-cabecas, cabe a nós uni-las. Ao combiná-las, naturalmente temos que desenvolver paciência, perseverança, concentração, e assim por diante. Assim nós progredimos no caminho. Se apenas colecionarmos peças do quebra-cabeças e as colocarmos em uma gaveta, não chegaremos a lugar algum. Apenas focar em uma peça e não lidar com as outras tampouco nos levará muito longe.

É claro que não queremos ser inundados com demasiadas peças de uma vez, mas precisamos notar e apreciar as oportunidades para receber as peças do quebra-cabeças que não estão disponíveis o tempo todo. Quem sabe o que ocorrerá no mundo, especialmente agora após o 11 de setembro? Os tibetanos sempre olham para as coisas desta forma: eles vão a ensinamentos e assim por diante para plantar instintos para as vidas futuras. Mesmo se não pensarmos em termos de vidas futuras, quando houver oportunidades para receber ensinamentos, mesmo se não estivermos preparados para lidar com eles ou processá-los, não será uma má ideia ir e receber mais algumas peças do quebra-cabeças, sabendo que trabalharemos com elas mais tarde.

Às vezes as pessoas ficam baratinadas, pois escutaram coisas demais. Não é útil ir a mais ensinamentos em um estado negativo mental como este, pois não seremos receptivos. Por outro lado, se recebermos mais e mais ensinamentos e nunca tentarmos processá-los, este estado mental voraz, mas preguiçoso, será outro extremo. Os ensinamentos budistas sempre recomendam um caminho do meio entre demais e de menos. Precisamos realmente de paciência para aguentar as dificuldades envolvidas no estudo do Dharma, o que significa não ficar com raiva nem frustrados, mas tentar estar tão abertos quanto nos for possível. Mais tarde, seremos capazes de entender coisas que não estamos entendendo agora. Não importa o quanto pensamos que entendemos algo agora, em um ou dois anos, quando conectarmos isso a todo o resto que aprendemos neste meio tempo, nosso entendimento será bem diferente. Ele mudará e se tornará ainda melhor em mais um ano. Isso tem a ver com esta lei do karma, o aumento dos resultados. Tudo está conectado. Nada existe isolado.

A Terceira Lei do Karma

A terceira lei do karma é que você não fará a experiência de um resultado kármico a menos que você tenha desenvolvido a causa kármica para ele. Depois do 11 de setembro, um homem apareceu muitas vezes na TV, o diretor de uma grande agência de corretagem de ações. Ele tinha setecentos empregados e todos eles morreram. Por estar levando seu filho ao primeiro dia de aula, ele não estava no prédio quando este foi atacado. Ele não tinha nenhuma causa kármica que resultaria em morrer durante o ataque, o que todo mundo que morreu durante o ataque tinha que ter, mesmo que fosse de um milhão de anos atrás. Alguém me disse que uma pessoa pulou do octogésimo primeiro andar do prédio e apenas quebrou as pernas. Como é que isso seria possível a menos que você não tenha cometido a causa kármica para morrer fazendo algo deste tipo? O que podemos entender a partir disso é que a nossa melhor defesa contra desastres é purificar o nosso próprio karma. Se todos purificassem seus karmas, não haveria mais desastres. Isso indica qual é o direcionamento do trabalho.

Como respondemos a tal desastre? Claro que temos que tentar evitar que as pessoas o repitam, mas a coisa principal é trabalhar em nós mesmos, trabalhar em nosso próprio karma e ajudar os outros a purificar seu próprio karma. O budismo não defende uma posição passiva. Se houver um animal silvestre rondando e matando pessoas, nós não dizemos, “ah, que legal” e meditamos sobre compaixão e purificamos o nosso karma. Nós não dizemos às pessoas que, se a fera mata-las, nós rezaremos por elas. Temos que sair e tentar pegar o animal e prendê-lo. Mas esta não é a única coisa que fazemos. Temos que trabalhar muito em nós mesmos.

Isso também indica como lidamos com o medo. Se realmente trabalhamos em purificar o nosso karma, não há nada para ter medo. As qualidades de um Buda incluem uma lista de destemores. Os budas não têm nada a temer, pois eles purificaram todas as possíveis causas de problemas.

A Quarta Lei do Karma

A quarta lei do karma é que a habilidade de um legado kármico de dar um resultado não deteriorará nem expirará, mesmo após milhões de existências. Se você não purificou um legado kármico negativo, ele ainda pode trazer resultados de sofrimento. Da mesma forma, até mesmo se as circunstâncias não forem muito conducentes a que um resultado feliz amadureça de um legado kármico positivo, este legado não estará perdido. Se houver uma grande guerra agora após o 11 de setembro e não for mais possível ir à Índia nem ao Nepal para receber ensinamentos, quaisquer coisas positivas que teriam ocasionado nossa viagem para receber ensinamentos ainda seriam válidas. Em algum momento, as circunstâncias mudarão.

Se aplicarmos isso ao renascimento, será muito útil, pois não importa qual a nossa idade, nunca é tarde demais para começar. Até mesmo como uma pessoa muito velha, aquilo que fizermos não será perdido. Não estamos condenados a sentar em um lar de idosos e tecer pegadores de panela ou assistir a novelas. Podemos fazer algo de construtivo e os legados kármicos positivos continuarão em nossas vidas futuras. Não terá sido em vão.

Perguntas

Pergunta: Ouvi um professor budista ocidental dizer que usamos muito karma positivo para assistir e escutar ensinamentos. Por que dedicamos potenciais positivos se aquilo que fazemos os consome?

Alex: Antes de tudo, se estamos vivenciando algo benéfico como um ensinamento, é claro que isso é um amadurecimento de um legado kármico prévio.

Mas lembre-se de nosso exemplo do jogo do bingo kármico: a cada vez que apertamos o botão também adicionamos uma nova bola de pingue pongue ao tubo. Quando vamos assistir a um ensinamento e dedicamos o potencial positivo, isso adiciona mais causas para continuar a ter tais oportunidades. Seria estúpido não assistir aos ensinamentos porque queremos economizar os potenciais para os “dias chuvosos”.

Também, um legado pode ter muitos resultados, em uma ou mais vidas, ou apenas um único resultado em uma vida. Por outro lado, muitos legados juntos, desenvolvidos em uma ou muitas diferentes vidas, também podem produzir muitos resultados ou apenas um. Então, há muitas maneiras de ter o legado kármico de repetidamente ir aos ensinamentos. Quando começamos a trabalhar com o karma e tentamos entende-lo, temos que tentar crescer além de nossa forma linear de olhar para as coisas. Ele é multidimensional, não linear e muito complexo. Não é tão simples quanto uma coisa produzindo outra coisa. Não é absolutamente assim.

Alguns resultados são vivenciados de forma individual, alguns de forma universal. Podemos ter resultados em comum com outros. O efeito-estufa afeta a todos, incluindo os animais. Ações feitas por todos terão este tipo de resultado. Não deveríamos pensar que apenas porque reciclamos seremos imunes à poluição. Estamos falando de causas de muito tempo atrás. Isto não é uma piada. Tem um significado profundo em termos de como podemos afetar a mudança ecológica. Não estamos falando sobre resultados imediatos. As coisas não funcionam assim no universo. Estamos falando sobre algo em longo prazo. Será muito difícil. Como eliminamos o resultado das ações que têm ocorrido há milhões de anos? Mesmo se o planeta inteiro se converter à energia solar, será que isso eliminará os efeitos de anos queimando combustíveis fósseis? Não. Temos que ser realistas em termos de criar causas para resultados distantes. Não podemos pensar que somos Deus e apenas podemos terminar todos os problemas do passado em um instante ou mesmo em alguns anos. O mundo é muito mais complexo que isso.

Alguns resultados são vivenciados por grupos, como pessoas no Afeganistão ou na Bósnia. Um nível de causalidade envolve forças históricas, econômicas e políticas que levaram à presente situação. Mas não podemos dizer que a guerra é o karma do EUA ou do Afeganistão, pois esses países não são seres vivos. Também, todas as pessoas que vivem nesses dois países não foram necessariamente desses países por incontáveis vidas. Elas podem ter vindo de vários lugares, reinos animais e qualquer lugar.

É possível começar a ver quão incrivelmente complexas são as forças kármicas. Todas as ações de todo mundo em certo lugar e certo momento constituem a situação política, econômica ou histórica, mas depois disso todas essas pessoas nascem em outros lugares e outros seres nascem nesta situação. O que outros fizeram nessa época pode criar uma circunstância feita pelo homem que pode nascer como resultado de uma situação semelhante à outra, que ajudamos a criar séculos atrás. Teríamos que ter desenvolvido o karma para nascer na circunstância presente agora, embora talvez não tenhamos criado a circunstância presente. A coisa fica muito complicada bem rápido se começarmos a pensar nela. Todas as pessoas que morrem de certa forma não necessariamente lutaram juntas em uma guerra em uma vida passada. Pode ser que o fizeram, mas elas podem ter sido animais carnívoros que mataram outros animais em lugares diferentes e tempos diferentes. Elas podem vir de todos os tipos de lugares.

Pergunta: Como deveríamos agir ao vivenciar os resultados de certos karmas, como perder um ser amado na queda das torres gêmeas? Como podemos responder para não adicionar uma nova bola de pingue-pongue?

Alex: Antes de tudo, temos que ser realistas: no nosso nível é muito duro não ficar com raiva e adicionar mais bolas de pingue-pongue. Quando começamos a ter certo entendimento da causa e do efeito comportamentais, da vacuidade, da origem interdependente e assim por diante, vemos que ser realistas é entender que levará muito tempo para nos purificarmos e ainda mais para purificar todo mundo. Mas até mesmo embora nos leve muito tempo, isso nos dá a coragem de seguir em frente ainda assim. Se quiséssemos ser doutores e pensássemos antes no quanto teremos que aprender, isso nos pareceria demasiado e acabaríamos desistindo. Mas se realmente tivermos o objetivo em mente de ajudar os outros, teremos que ter a coragem de ir passo a passo, mesmo embora isso implique em uma quantidade incrível de treinamento. Somos realistas e fazemos apenas um passo depois do outro.

Não posso enfatizar o suficiente que o samsara terá altos e baixos. É claro que haverá guerras; nós nos machucaremos; a nossa meditação irá bem um dia e será terrível no outro, e assim por diante. O que você esperava? Com esta perspectiva, não ficamos desencorajados. Apenas seguimos em frente. Às vezes temos circunstâncias conducentes, outras vezes não. Como uma atitude realista, entendemos que não nos livraremos dos altos e baixos até nos tornarmos arhats. Então, aceitamos as dificuldades e os altos e baixos e continuamos, independente do que acontecer. Não esperamos milagres. Eles quase nunca acontecem. “Ah, a minha meditação ficará melhor e melhor a cada dia, e ficará cheia de êxtase e...!” Sai dessa. Não é assim.

Em termos de nossa atitude em relação aos outros que morreram, certamente não pensamos que eles mereciam ser punidos porque haviam desenvolvido um karma negativo. Mas podemos ter a esperança que eles eliminaram algum karma negativo ao morrer desta forma para que tenham bem mais oportunidades de que um karma positivo amadureça em suas vidas futuras. “Que eles tenham circunstâncias conducentes agora e no futuro para ter uma experiência de vida muito mais positiva, com menos sofrimento.” Não somos tão diferentes deles. Não estávamos naquele prédio, então aquela circunstância específica não possibilitou que nosso karma negativo amadurecesse, mas ele pode vir a amadurecer em outro momento. Se pensarmos em uma sequência de vidas sem início definido, temos muitos legados kármicos negativos.

Podemos pensar sobre as consequências de sofrimento inacreditável que aqueles que planejaram e realizaram o ataque vivenciarão como resultado. Não cabe a nós puni-los. Um exemplo tradicional é que se alguém está pegando fogo, qual o sentido de bater nesta pessoa? De qualquer maneira, ela vai fazer a experiência de um sofrimento inacreditável. Se a fizermos sofrer mais, apenas criaremos causas para nós mesmos sofrermos. Os resultados kármicos acontecem naturalmente, não temos que ser agentes do resultado.

Isso se aplica a questões sociais muito interessantes. Punir pessoas que agiram de forma destrutiva não adianta nada. Certamente, não purifica o legado kármico que faria com eles repetissem tais atos em uma vida futura. Apenas cria legados de karma negativo para nós. Prendê-los é sem dúvidas um passo necessário que precisamos fazer para evitar que dano seja feito a outros a curto prazo, mas não é a prevenção absoluta. A reabilitação, no sentido superficial, também não educará e motivará as pessoas a ponto de purificar seus próprios karmas. Se elas não purificaram seus legados kármicos, elas repetirão ações destrutivas em outras vidas. Os legados kármicos não deteriorarão se não nos livrarmos deles com o entendimento da vacuidade.

Pergunta: Há uma forma de purificar o karma coletivo ou universal?

Alex: O único caminho é que cada um purifique a si mesmo. Não podemos purificar o karma de outras pessoas. Podemos ajudar a mostrar o caminho para elas se purificarem e tentar oferecer a elas circunstâncias conducentes, mas cabe a cada indivíduo purificar a si mesmo. Isso tem muitas implicações especialmente em termos de movimentos ecológicos. Não há forma de terminar um problema ecológico a não ser livrando-se do samsara para todo mundo. Pense sobre isso. Por causa desses legados samsáricos, nascemos com esses corpos limitados, humanos, animais ou qualquer outra coisa. O que será que caracteriza este corpo maculado, samsárico e limitado? Ele produz resíduos líquidos e sólidos e dióxido de carbono. É isso que ele faz. A menos que todos parem de renascer neste tipo de corpo limitado não há forma de solucionar este problema ecológico.

Não é algo muito bacana de se dizer, mas alguns dos grandes mestres, como a Sua Santidade, o Dalai Lama, disseram: a biologia descreve o samsara. O impulso sexual de se reproduzir, envelhecer, doença, morte – isso é biologia. Temos corpos limitados tanto quanto mentes limitadas. A visão humanística da sacralidade da biologia e de ser “natural” e assim por diante parece muito legal até olharmos de forma mais profunda. Muitas vezes eu aponto para a diferença entre o “Dharma-lite” e o “Dharma pra valer”. “Dharma-lite” é um tipo de versão humanística: seja uma pessoa boa, não machuque ninguém e tudo será como Bambi e Disneylândia. É útil, mas não é “a coisa pra valer”. “O Dharma pra valer” envolve olhar para a biologia, ver o que ela faz e reconhece-la como aquilo que queremos superar. Isso não implica que pensamos que nosso corpo é uma obra do demônio, o que seria ir para o outro extremo. Nós usamos o corpo que temos para progredir, mas não o veneramos como tão lindo e maravilhoso. Ele não é.

[Veja: “Dharma-Lite” Versus “Dharma a Sério.”]

Pergunta: Antes da iluminação do Buda e de ele começar a ensinar, como os seres purificavam seus karmas?

Alex: Agora estamos entrando em outro tópico que é difícil de lidar para nós ocidentais, que é o conceito de não haver início. Da mesma forma que não há início no samsara, não há início para as pessoas atingirem o estado de Buda. Embora tenhamos a expressão Adi-Buda no (sistema de) Kalachakra, este não se refere ao primeiro que atingiu a iluminação. Não há nenhum primeiro Buda histórico. Não há uma forma lógica de apresentar um primeiro Buda dentro do contexto de causa e efeito. Como teriam eles se tornado um Buda? Tendo uma criatividade especial dentro deles? Alguém tinha que ensinar a eles e mostrar-lhes o caminho, e aquela pessoa também teria que ter atingido o estado de Buda antes disso. “Adi-Buda” quer dizer o estado de Buda baseado no estado primordial, a pureza básica primordial da mente. Sempre houve Budas e ensinamentos, embora eles talvez não os tenham ensinado a outros. É claro, houve eras sombrias – estamos falando sobre o samsara, que sobe e desce.

Pergunta: O que resulta no sentimento de felicidade depois de ter um caso com o parceiro de outra pessoa?

Alex: A primeira lei do karma é que qualquer experiência de felicidade é o resultado de um comportamento construtivo. Algumas pessoas podem ter sexo o tempo inteiro e nunca vivenciar alegria ou ficar satisfeitas. Isso é o resultado de um comportamento prévio destrutivo, talvez de muitas vidas atrás. Outras pessoas podem desfrutar de sexo até mesmo com o parceiro de outra pessoa. Por isso eu dizia que a coisa não é linear. Há muitos componentes em cada experiência, cada um deles amadurecendo de muitas diferentes coisas simultaneamente.

Pergunta: Mas ter sexo com o parceiro de outra pessoa é uma coisa ruim?

Alex: Estamos falando exatamente disso. A ação do adultério é uma ação negativa que eventualmente resultará em infelicidade, mas não necessariamente imediatamente depois ou enquanto o ato estiver sendo cometido. Por isso há uma análise muito complexa dos diferentes tipos de resultados e diferentes tipos de causas. Se tivermos sexo e experimentarmos felicidade, o ato físico de ter sexo simplesmente proporcionou uma circunstância para que a felicidade amadurecesse. Não foi a causa kármica da felicidade. Da mesma forma, se batermos nosso pé contra a mesa e ele doer, o fato de que temos nervos em nosso pé é uma causa do sentimento de dor. Mas aqui com o karma, estamos falando sobre o amadurecimento de um resultado. Uma ação específica deixa um tipo de resultado no contínuo mental que eventualmente, dependendo de muitas circunstâncias, produzirá uma experiência naquele contínuo mental. Isso leva ao nível três de dificuldade em nossa discussão do karma.

Pergunta: Como o budismo explica o fato que não conseguimos nos lembrar de nossas vidas passadas?

Alex: Será que nos lembramos daquilo que comemos no almoço três meses atrás e cada palavra que dissemos durante a conversa que tivemos durante aquela refeição? Será que nos lembramos de cada palavra que dissemos ontem ou até mesmo cada palavra que dissemos cinco minutos atrás? É possível que nos lembremos, mas na maior parte do tempo não nos lembramos. Não ser capazes de lembrar aquilo que fizemos ontem ou quando tínhamos três anos de idade não nega aquilo que fizemos ou que já tivemos três anos de idade. Isso aponta para outro tipo de limitação do tipo de corpo e mente que temos. É possível nos lembrarmos de vidas passadas, e algumas pessoas conseguem, mas isso é difícil por causa do tipo de hardware que temos. Simplesmente não retemos toda esta informação. Isso leva a uma discussão sobre a memória e como ela funciona. O budismo tem muito a dizer sobre isso, mas é muito complexo. Falaremos disso outra vez.

Pergunta: Se alguém foi abusado sexualmente, isso quer dizer que ele abusou alguém sexualmente?

Resposta: Uma das coisas que amadurece do legado kármico é a experiência das coisas que nos acontecem ser semelhante ao que fizemos aos outros. Então sim, mas outros fatores kármicos podem ter sido combinados para criar aquilo que experimentamos como resultado de nossa ação prévia de abuso, mais pesado ou mais leve. Por favor, tenham em mente que a coisa não é linear. Não é assim que uma causa kármica resulta em uma experiência. Há muitas coisas diferentes acontecendo simultaneamente.

Fatores que Afetam a Força de um Resultado Kármico.

Há tanto que pode ser ensinado sobre karma, mas não temos muito tempo. Uma coisa que eu queria discutir são os fatores que afetam a força do amadurecimento de um karma. Tantas coisas afetam isso. Eu tenho aqui a lista tradicional de doze. Deixe-me apenas enumerá-los de forma breve:

  1. A natureza da ação envolvida. Matar alguém é mais pesado do que roubar o carro da pessoa.
  2. A força da emoção perturbadora que acompanha o impulso. Estávamos realmente com raiva, um pouco raivosos, ou...?
  3. Se uma atitude antagônica distorcida acompanha a ação. Apenas atirar em alguém em contraposição a atirar em alguém com a postura de que a pessoa é de uma raça inferior que tem que ser exterminada traz diferentes resultados.
  4. A quantidade de sofrimento causada. Há diferentes resultados de matar alguém rapidamente e torturar alguém até a morte.
  5. A baseà qual a ação visa. Isto se refere à quantidade de benefício que nós ou outros recebemos do objeto de nossa ação, ou a quantidade de boas qualidades que a pessoa possui. Assassinar Mahatma Gandhi é bem mais pesado do que matar uma pessoa comum. Bater em um monge ou monja é diferente que bater em um ladrão.
  6. O status de realização do ser para o qual a ação é direcionada. Machucar uma pessoa doente e cega é mais pesado do que machucar uma pessoa saudável.
  7. O nível de consideração que se refere à quantidade de respeito que temos pelo ser. Mentir a nosso professor é muito mais pesado do que mentir a alguém na rua.
  8. Condições de suporte. Matar mosquitos tendo feito um voto de não matar é mais pesado do que se não tivéssemos feito este voto.
  9. A frequência. Matar um veado uma vez é muito mais leve do que caçar veados diariamente.
  10. O número de pessoas envolvidas ao cometer a ação. Realizar uma ação individualmente não é tão pesado quanto fazer o mesmo com muitas pessoas.
  11. A continuação; se repetimos ou não. Se continuamos repetindo uma ação, ela se torna mais e mais pesada.
  12. A ausência de presença de forças opositoras, o que se refere à questão se nos arrependemos ou não por aquilo que fizemos, se tentamos purificar isso, e assim por diante.

A análise da força dos resultados é muito complexa. Há também a análise da completude de uma ação. Se matamos insetos ao dirigir um carro, não foi a nossa intenção sair e matar insetos, então o resultado será mais fraco do que intencionalmente esmagar uma mosca. A análise da força dos resultados é muito complexa. Se acidentalmente atirarmos em uma pessoa ao lado daquilo que estávamos mirando, o resultado é mais fraco do que se tivéssemos atirado na pessoa em que estávamos mirando. Se dissermos todos os tipos de coisas terríveis a alguém e a pessoa não nos escutar, a ação não estará completa, embora ainda haverá resultados kármicos.

É o mesmo com ações positivas. Fazer uma puja ou uma ritual com um grupo de pessoas tem um efeito muito mais forte do que apenas fazer sozinhos. Faze-lo repetidamente tem um efeito muito mais forte do que apenas fazer uma vez. Também, o resultado será mais forte se fizermos a recitação enquanto estivermos pensando em todos os seres ao invés de fazê-la sem sentimento nem entendimento, apenas repetindo blábláblá em tibetano. A discussão sobre o karma é muito vasta.

Karma que Impulsiona e Karma que Completa

Muitos legados kármicos amadurecem juntos para dar forma à situação do nosso renascimento e outras amadurecem para dar forma às nossas experiências, nosso nível de felicidade e assim por diante, durante aquele renascimento. Uma ação feita com uma intenção e motivação muito fortes podem funcionar como um karma que impulsiona. Em outras palavras, ele pode nos impulsionar para outro estado de renascimento. Lembre-se que os legados kármicos determinam o tipo de renascimento que tomamos, nossa experiência de uma a situação na qual nascemos, nossa experiência de algo que nos sucede, nossa experiência de sentimentos de felicidade ou infelicidade e nossa experiência de querer fazer algo. Qualquer ação que realizamos pode nos dar algum ou todos resultados uma vez ou muitas vezes, dependendo do peso. Se houver uma intenção muito forte de machucar ou ajudar muitas pessoas, esta ação pode agir como um karma que impulsiona e resultar na experiência de um certo tipo de renascimento. Também, a emoção que acompanha, como raiva forte ou cobiça ou uma forte compaixão e amor, também pode fazer que o impulso kármico funcione como um karma que impulsiona.

Se a intenção e a emoção que a acompanha não forem tão fortes, a ação pode servir como um karma que completa, o que significa que ele completa as circunstâncias de um renascimento. Nosso karma que impulsiona resulta em ser um humano, mas renascemos em algum lugar que tem penúria ou onde não há oportunidades. Ou somos projetados em um nascimento como um cachorro, mas somos o animal de estimação do Dalai Lama.

A Ordem de Amadurecimento

Se perguntarmos qual legado kármico amadurecerá no momento da morte para dar forma à nossa próxima vida, geralmente é o mais pesado, seja ele positivo ou negativo. Se nada for particularmente mais forte, aquilo que se manifestar no momento da morte será o karma que impulsiona. Por causa disso, a forma como morremos é muito importante. Não queremos morrer com grande apego ou raiva ou medo. Às vezes eu brinco que se nossas últimas palavras forem “Ah Merda!” – teremos um instantâneo renascimento como uma mosca. Temos que ter cuidado. É interessante observar o que vem à mente em tempos de grande perigo. Isso nos diz muito sobre o nosso passado kármico.

Se morrermos quando estivermos inconscientes, dormindo ou em coma, as ações às quais estamos mais acostumados darão forma à próxima vida. Se tudo for igual, o que quer que tenhamos feito antes amadurecerá. Isso não se refere àquilo que fizemos quando tínhamos um ano de idade. Poderia referir-se à primeira grande coisa que fizemos em nossa vida, como criar filhos ou ter fazer estudos.

A Certeza dos Resultados

Depois, diferenciamos se é certo ou não que os resultados de uma ação kármica amadurecerão. Eles são diferenciados em relação à ação, se ela foi cometida com firmeza, o que quer dizer realmente realizada, ou se o seu potencial kármico foi plenamente acumulado ou não, o que significa que foi planejado antes. Então, podemos ver que há quatro possibilidades: nós planejamos uma ação e a realizamos, nós a planejamos e não a realizamos; nós não a planejamos, mas a realizamos; nós não a planejamos nem a realizamos.

Temos que entender isso corretamente. Os legados kármicos de qualquer ação destrutiva em cada uma dessas quatro possíveis categorias podem ser purificados para que seja certo que nenhum resultado amadurecerá a partir deles. Mas se eles não forem purificados, então é certo que resultados amadurecerão. Esta é a quarta lei do karma, vocês se lembram? Mas dentro da segunda divisão, apenas uma ação que planejamos e realmente realizamos trará a certeza no que diz respeito à vida na qual seus resultados começarão a amadurecer. Para as outras, qual será a vida é incerto. Há três possibilidades: esta vida, a vida que vem imediatamente depois desta, ou qualquer vida depois desta.

Como muitos de nós realmente não pensamos em termos de vidas futuras, é interessante saber o que tem a possibilidade de amadurecer nesta vida.

  1. Uma ação destrutiva feita por extrema consideração por nossos próprios corpos, posses ou vidas. “VOCE roubou o MEU carro. Eu vou te pegar!”
  2. Uma ação construtiva baseada na consideração extrema pelos nossos corpos, posses ou vidas: como estar dispostos a arriscar nossas vidas para salvar outra pessoa.
  3. Ter pensamentos extremamente maliciosos em relação a um ser limitado. Os crimes de ódio podem ser incluídos aqui.
  4. Ações feitas com pensamentos extremos de compaixão ou desejo de ajudar os outros, como alguém que se dedica a um trabalho voluntário em asilos de idosos, ou algo semelhante.
  5. Pensamentos extremos que prejudicam a Jóia Tríplice ou os professores espirituais. É muito interessante notar que logo após a destruição feita pelo Talibã da maior estátua do Buda um desastre incrível veio a eles com a invasão americana.
  6. Ações extremamente positivas baseadas em uma crença confiante nas boas qualidades do Buda, do Dharma e da Sangha. Isso inclui compartilhar nossos recursos financeiros, tornando disponíveis textos, tornando possível um centro do Dharma, etc, pois estamos convencidos de que será benéfico. Eu tenho uma questão aqui. E se tivermos uma crença muito forte e sincera nos benefícios do catolicismo e construirmos uma igreja? Isso também traria resultados positivos nesta vida ou isso está dizendo de forma chauvinista que temos que ser budistas? Fizeram uma pergunta semelhante ao meu professor Serkong Rinpoche na Itália. Alguém perguntou “se você é um budista e toma refúgio na Jóia Tríplice, você ainda pode ir à Igreja ou isso é uma ação negativa?” Ele respondeu perguntando se ir à Igreja e seguir os ensinamentos do catolicismo – amor, compaixão, perdão, caridade, rezar pela paz, e assim por diante – são contrários ao direcionamento seguro do refúgio. Não são em absoluto. Não há absolutamente nenhum problema. Então, construir uma igreja, uma universidade ou um hospital para ajudar os outros também cai nesta categoria. Da mesma forma, destruir igrejas e assim por diante traz rápidos resultados negativos.
  7. Ações destrutivas ocasionadas por uma falta de gratidão em relação àqueles que mais nos ajudaram: nossos pais, nossos professores espirituais e assim por diante. Ao nos dar a vida, nossos pais já nos ajudaram muito. Se fizermos coisas pesadas a eles, isso amadurecerá nesta vida.
  8. Fortes ações construtivas cometidas em relação àqueles que nos ajudaram mais, com um desejo de retribuir sua gentileza: como cuidar de nossos pais quando estiverem idosos com um desejo de retribuir sua gentileza, ou ajudar um professor espiritual para que o trabalho dele beneficie os outros.

Se planejarmos e de fato fizermos tais coisas, o resultado amadurecerá nesta vida. Podemos ver que há muito que podemos fazer para dar forma à nossa experiência. Mesmo se não tivermos a força de evitar algumas ações destrutivas, podemos torná-las mais leves ao não termos orgulho delas, ao diminuir sua frequência, e assim por diante, e ao ter o desejo de eventualmente superá-las. Talvez não façamos muitas coisas positivas, mas quando as fazemos, realmente tentamos ser sinceros. Há muito que podemos fazer para modificar os resultados de nossas ações: para diminuir os resultados das ações negativas e fortalecer aqueles das ações positivas.

Conclusão

Como nós vimos, o karma não fala de destino, e assim por diante. É muito complexo, mas quando sabemos algumas das complexidades, podemos começar a trabalhar com elas e dar forma às nossas experiências. Os resultados kármicos da maior parte daquilo que fazemos serão experimentados em vidas futuras, mas algumas das ações bem fortes podem dar forma nesta vida. Não precisamos ficar desapontados se as coisas não amadurecem nesta vida. Como dissemos, os legados kármicos não expiram. Quando falamos sobre a certeza do amadurecimento de algo, estamos falando sobre o tempo quando isso começará a amadurecer. Muitas ações kármicas darão uma longa série de resultados. Então, uma ação negativa ou positiva forte pode começar a amadurecer nesta vida, mas continuar a amadurecer em muitas vidas futuras depois disso.

Perguntas Finais

Pergunta: Será que você pode elaborar sobre como podemos evitar apertar o botão, para usar o seu exemplo do bingo kármico?

Alex: Trabalhamos em níveis, estágios. No nível inicial, quando vem um impulso de agir de forma destrutiva, apenas não agimos em função dele. Como aconselhou o grande mestre indiano Shantideva em “Engajar-se no Comportamento de Um Bodhisattva”: permaneça como um bloco de madeira. Por isso é importante aquietar e desenvolver o hábito de ser consciente daquilo que ocorre internamente. Podemos perceber quando um impulso destrutivo surge e não agimos de acordo com ele. Precisamos desacelerar o suficiente para vê-lo e exercer o autocontrole. No nível mais profundo, precisamos superar o apego ao “eu” que causa muitos amadurecimentos. Para isso, precisamos trabalhar com o entendimento correto da vacuidade. Isso leva ao tópico da purificação, para o qual não temos tempo neste fim de semana.

Pergunta: Qual é o significado de autoestima no budismo?

Alex: sinônimo de autoestima poderia ser autoconfiança, que é um dos quatro suportes da perseverança alegre, mencionados por Shantideva. É descrito como firmeza, como ser firme. A autoconfiança é o sentimento de que somos capazes de praticar, avançar, defender-nos se formos atacados, e assim por diante. Se tivermos autoconfiança, somos mais seguros naquilo que estamos fazendo. Se formos deficientes nisso, o que penso ser o caso com muitos ocidentais, há o sentimento que não somos bons ou não bons o suficiente, incompetentes, que há algo de errado conosco, e assim por diante. Então não temos firmeza; somos inseguros.

No budismo, reafirmamos nossa natureza búdica para ajudar-nos a ganhar autoconfiança. Temos as habilidades e os potenciais para alcançar a iluminação e ajudar os outros o quanto for possível. É a isso que se refere a natureza búdica. Naturalmente, isso implica em um trabalho duro, mas é possível se nos aplicarmos com firmeza. Na maior parte de meu trabalho, eu tento explicar as ideias budistas não apenas na terminologia comum, mas também relacioná-la com a visão que temos de nossa experiência, que para muitos de nós é em termos da psicologia ocidental. Daí o uso de termos como autoestima, insegurança, insensibilidade, hipersensibilidade, e semelhantes.

Pergunta: Quando dizemos que “as coisas são os resultados de ações realizadas em uma vida prévia”, isso é algo que temos que acreditar por fé ou é algo que podemos demonstrar de alguma forma?

Alex: Isso nos traz de volta para a discussão de como explicamos aquilo que ocorre: será que é má sorte, destino, etc? Que tipo de explicação seria satisfatória? Olhe para os grandes lamas e praticantes que foram colocados em campos de concentração pelos chineses comunistas e torturados até a morte. Será que não há uma causa? O entendimento budista sobre karma parece fazer mais sentido. Pelo menos, para mim ele faz mais sentido. Trata-se de uma questão de trabalhar com isso individualmente. O que faz mais sentido para nós? E não apenas que explicação faz mais sentido, mas em que tipo de estilo de vida ou abordagem da vida isso implica. Se pensarmos que tudo ocorre por sorte aonde isso nos leva? Usar pequenos amuletos de boa sorte ao redor do pescoço?

Antes de aceitar ou rejeitar a posição budista, precisamos realmente estudar e entendê-la corretamente. Se tivermos um entendimento incorreto, talvez queiramos rejeitar isso. A explicação budista de karma e renascimento é realmente muito complicada, sofisticada e difícil de entender. Eu penso que é útil perceber que essas são questões importantes no budismo, então mesmo se não as entendermos agora, precisamos resolver trabalhar com elas ao invés de apenas rejeitá-las. Muitas pessoas muito inteligentes pensaram que esses ensinamentos eram verdadeiros e vejam o que foram capazes de realizar baseadas nisso. Isso ajuda a nos motivar para olhar mais profundamente. Os grandes mestres não eram idiotas.

Pergunta: Será que você pode elaborar sobre a relação entre a vacuidade e o karma?

Alex: Realmente, é impossível entender karma sem entender a vacuidade. A vacuidade é uma ausência de maneiras impossíveis de existir. Temos que identificar maneiras impossíveis no que diz respeito ao funcionamento da causa e do efeito. É impossível que tudo aconteça de uma causa, sem causa, de uma causa irrelevante, ou que as coisas ocorram de uma forma linear, quando uma coisa traz apenas um resultado. Também é impossível que o resultado realmente já exista no momento da causa, como na ideia da predeterminação, ou que o resultado exista de alguma forma inerente na causa ou posterior à causa, mas de uma maneira não manifestada, e apenas está esperando pelas circunstâncias adequadas para sair e aparecer. Também é impossível que no momento da causa o resultado seja realmente e totalmente inexistente e mais tarde simplesmente aparecerá do nada. Com a vacuidade, nós eliminamos o pensamento de que essas maneiras impossíveis são corretas. Então, isso nos deixa com uma rede na qual tudo está inter-relacionado e afeta a todo o resto. Há muitos níveis de sofisticação daquilo que é impossível e aquilo que realmente significa inter-relacionamento. Temos que nos aprofundar cada vez mais e este é um processo muito longo.

Pergunta: Quanto tempo leva para renascer?

Alex: Há um período intermediário chamado “bardo” entre a morte e a concepção. Isso levanta a questão de quando a concepção de fato ocorre. Quando é que a base física se torna um suporte viável para um contínuo mental? É uma grande discussão. Dizem que o bardo é um período de sete dias que pode se repetir até sete vezes, chegando a quarenta e nove dias no total. Ele pode acabar antes. Podemos nascer como um inseto por alguns dias, passar por outro bardo de quarenta e nove dias, e assim por diante. Há muitas variações aqui.

Pergunta: Fale do aspecto de nos relacionarmos com a mesma pessoa por muitas vidas.

Alex: Sim, temos relacionamentos kármicos com outros nos quais interagimos com a mesma pessoa, o mesmo contínuo mental, em muitas vidas. O tipo de relacionamento que teremos com esta pessoa em outra vida dependerá de vários fatores que afetam o peso do karma. Se fomos terríveis com alguém, mas somos bacanas com a pessoa agora, isso torna o peso menos negativo. Se fomos apenas maus, agindo de forma negativa agora, torna isso mais pesado. Isso é a mesma coisa se falarmos de uma ou de várias vidas.

Pergunta: E a eutanásia, resulta em um resultado kármico positivo ou negativo?

Alex: Isso se torna muito complicado. A força do resultado de matar será afetada pela motivação e a emoção que acompanha. Com a eutanásia, a intenção é de tirar a vida de outra pessoa, mas não há uma intenção de machucar a outra pessoa. A emoção que acompanha é compaixão, amor e assim por diante. Se isso for ingênuo ou não é outra pergunta. Fazemos muitas coisas que pensamos ser uma ajuda, quando na verdade não são. A consequência de sofrimento de uma eutanásia feita por compaixão é muito fraca. Pensar de forma compassiva é um ato positivo e tem resultados positivos. O que faz tornar isso numa ação de bodhisattva é reconhecer que haverá um resultado de sofrimento e estar disposto a aceitar isso para nós mesmos, de modo a beneficiar o outro. A maioria de nós não enfrenta esta questão em termos de seres humanos, mas muitos de nós encaramos isso em termos de nossos cachorros e gatos de estimação. Temos que realmente examinar nossa motivação.

Pergunta: Você antes mencionou astrologia. Como você usa a astrologia?

Alex: A astrologia apenas mostra certas possibilidades. É como uma previsão climática e oferece apenas um quadro parcial do karma. Pessoalmente, eu usei a astrologia como uma forma de afiar as minhas antenas de sensibilidade e intuição sobre outras pessoas. Se estou com alguém e tenho certo sentimento intuitivo de como me relacionar com a pessoa, eu posso consultar o mapa astral desta pessoa para confirmar ou modificar isso. Isso me dá alguma ideia daquilo com que tenho que ser cuidadoso, daquilo que devo evitar com a pessoa, se há possíveis conflitos, e o que fluiria de maneira mais fácil. No entanto, muitos anos de experiência me fizeram descobrir que isso não é completamente confiável. Algumas pessoas não tem ângulos fortes em seus mapas, não há razão que prediga um relacionamento próximo no mapa delas, e ainda assim ele acontece. Eu não descarto simplesmente a pessoa por não haver trinos nem conjunções nem coisas do gênero. O que foi a maior ajuda da astrologia para mim em termos de meu próprio desenvolvimento pessoal é que isso me ajudou a superar a impressão de que havia apenas algumas poucas pessoas com as quais eu podia me relacionar e ter um relacionamento profundo. Se a pessoa caracteriza um relacionamento próximo ao ter várias conjunções e trinos em um mapa, estes existem provavelmente com cem milhões ou até um bilhão de pessoas. Não está em absoluto limitado a uma ou duas pessoas. Poderíamos ter relacionamentos muito próximos com tantas outras pessoas. Eu achei isso muito liberador em termos de me abrir para ter relacionamentos muito próximos com um grande número de pessoas. A astrologia também tem um papel significativo nos ensinamentos do Kalachakra, então meu estudo de astrologia me ajudou a apreciar este aspecto, pois para algumas pessoas é bem difícil de lidar com ele.

Dedicação

Que a força positiva das ações construtivas de estar aqui escutando, ensinando, e assim por diante, aja como causa para todos nós alcançarmos a iluminação e assim sermos capazes de criar circunstâncias para ajudar todos os outros a alcançar a iluminação também. Que qualquer entendimento que tenhamos recebido se aprofunde mais e mais e se conecte a todo o resto que entendemos e entenderemos no futuro. Que isso comece a trazer resultados pelo caminho para que possamos usar esses ensinamentos e nossos entendimentos para ajudar melhor a todos.