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Explicação da Ética Sexual Budista: Uma Perspectiva Histórica

Alexander Berzin
Moscou, Rússia, Outubro de 2009

Esta noite vamos falar sobre a ética sexual budista. Como com qualquer ensinamento budista, temos que ver como ele cabe dentro da estrutura básica do budismo, que são as quatro verdades nobres. Para ser breve, Buda falou sobre verdadeiros sofrimentos que todos nós vivenciamos – esta é a primeira verdade nobre. Então, o verdadeiro sofrimento de infelicidade e dor, o sofrimento de nossa felicidade comum que nunca dura e se transforma em infelicidade. Como quando continuamos a comer a nossa comida favorita: a felicidade que sentimos com isso inicialmente se transforma em infelicidade ao ficarmos cheios.

Depois, há o sofrimento que a tudo engloba, que é a base para vivenciar os dois primeiros, que é o nosso renascimento incontrolavelmente recorrente, com um corpo e uma mente que serão a base para esta infelicidade ou felicidade comum. E a verdadeira causa de tudo isso é nossa falta de consciência em relação à causa, ao efeito e à realidade, e às emoções perturbadoras que são geradas por isso, e ao comportamento kármico que é gerado por essas emoções perturbadoras – tanto o comportamento destrutivo quanto o construtivo, pois mesmo o nosso comportamento construtivo, quando mesclado à ingenuidade sobre como existimos e como tudo existe, continua a perpetuar nosso samsara.

A terceira verdade nobre é que é possível alcançar uma verdadeira cessação do sofrimento ao livrar-se das verdadeiras causas, para que nunca possa ocorrer novamente. E a quarta é que o verdadeiro caminho da mente – em outras palavras, a forma de pensar, mas também de agir e falar, geradas por isso – nos tornará possível alcançar esta verdadeira cessação.

Esta é a estrutura básica dos ensinamentos budistas. Então, quando falamos sobre a ética sexual, temos que entender o lugar do comportamento sexual em termos de verdadeiras causas para sofrimento. E se quisermos alcançar uma verdadeira cessação de sofrimento – especialmente o continuar do renascimento samsárico como base, que incluirá o sofrimento da infelicidade, como também o sofrimento de nossa felicidade comum – então precisaremos superar os aspectos difíceis de nosso comportamento sexual.

Agora, de um ponto de vista budista, quando falamos sobre ética e autodisciplina ética, não se trata de ter um conjunto de leis e obedecê-lo; este é o nosso conceito ocidental que vem ou das religiões bíblicas ou da lei civil. Toda a base da ética no budismo está estruturada de acordo com a consciência que discrimina. Em outras palavras, a fundação de nosso comportamento ético não é obediência às leis, mas é discriminar entre aquilo que ajuda e aquilo que prejudica. Então, ninguém está dizendo que temos que evitar certo tipo de comportamento que causará sofrimento e problemas; é a nossa escolha. Se você quiser evitar sofrimento, livre-se disso, então o Buda indicou quais são os tipos de comportamentos dos quais precisamos nos livrar. Depois, é a sua escolha. Então, não é uma questão de ser uma pessoa boa ou ruim ou obedecer leis, e não há um conceito de culpa; culpa é se você quebrar uma lei.

Então, toda a discussão de ética sexual centra-se ao redor deste aspecto de consciência discriminadora. Se não somos capazes de evitar um certo tipo de comportamento sexual problemático, então há muitos e muitos fatores que afetarão a quantidade de sofrimento que aquele comportamento produzirá para nós. Assim, tentamos minimizar o peso deste ato sexual impróprio. Isto envolve discriminar entre aquilo que tornará a ação mais pesada e aquilo que fará com que tenha consequências mais leves, e tentar tornar as consequências tão leves quanto nos for possível.

Agora, precisamos entender certas categorias que são usadas para classificar diferentes tipos de comportamento. Há as ações desaconselháveis (kha-na ma-tho-ba). Desaconselhável significa que você não as recomendaria a ninguém. Elas não são louváveis e produzirão certos problemas. Algumas são naturalmente desaconselháveis (rang-bzhin kha-na ma-tho-ba), e então seriam desaconselháveis para todo mundo; algumas são chamadas de desaconselháveis e proibidas (bcas-pa'i kha-na ma-tho-ba), e o Buda recomendou que certas pessoas as evitassem em certas situações. E há as ações que são basicamente neutras, no que diz respeito à ética, por exemplo, um monge ou uma monja que come após o meio-dia. Comer após o meio-dia é uma ação neutra no que diz respeito à ética, mas se você for um monge ou uma monja e quiser meditar com uma mente clara à noite e de manhã, é melhor evitar comer após o meio-dia.

Em contraste com essas ações proibidas e desaconselháveis que são neutras no que diz respeito à ética, aquelas que são naturalmente desaconselháveis são destrutivas. “Destrutivas” quer dizer que elas resultarão em sofrimento – a menos, é claro, que você as purifique. No entanto, todo comportamento sexual é naturalmente desaconselhável. Isso não é algo que nós ocidentais gostamos de ouvir. Mas por que todo comportamento sexual é destrutivo é a questão importante. Todo comportamento sexual é destrutivo porque – de acordo com o texto, e eu tenho certeza que podemos confirmar isso a partir de nossa experiência – ele faz com que as emoções perturbadoras aumentem. E se quisermos nos liberar, teremos que eventualmente renunciar a todos os tipos de comportamentos que causarão o aumento das emoções perturbadoras.

Assim, se olharmos para os ensinamentos do Tantra Kalachakra, ele explica que o comportamento sexual e o caminho para o orgasmo aumentam o seu desejo e apego. Você quer ter aquele orgasmo. E quando você tem o orgasmo e se acabou, então você fica com raiva porque acabou, você não quer que acabe. E então, depois disso, você afunda em um estado de ingenuidade, pois fica totalmente apático. Então, isso é aquilo que é dito no texto. Provavelmente, se nos examinarmos com honestidade, é isso que ocorre.

Sabemos que, de acordo com os ensinamentos, não todo mundo tem que ser um monge ou uma monja para poder alcançar a liberação e a iluminação. Também podemos ser um chefe de família. O que significa um chefe de família? Significa alguém com uma esposa ou um marido e filhos e uma casa. Não significa alguém que seja sexualmente ativo. Então, em algum momento, se realmente quisermos atingir a liberação, vamos ter de parar todo comportamento sexual. Esses são os fatos.

Entretanto, a maioria de nós certamente não está preparada para estar neste estágio no qual renunciamos a todo comportamento sexual. Mas não nos enganemos: o budismo não está cheio de ideias românticas sobre o quão maravilhoso é o sexo e dar a felicidade à outra pessoa. Isso não é o que o budismo diz, sinto muito. O budismo classificaria isso como uma consideração incorreta: considerar sofrimento como felicidade. Pois, com comportamento sexual, no que ser refere à outra pessoa, estamos tentando fazer a pessoa feliz, mas este é o segundo tipo de sofrimento: a felicidade comum que acabará, não perdurará, e apenas fará com que suas emoções perturbadoras aumentem.

É muito importante não ser ingênuo em relação ao que o sexo é no ponto de vista budista. Se formos ter um comportamento sexual – qualquer que seja o tipo de comportamento – pelo menos, entendamos o que está envolvido nisso a um nível mais profundo. E não idealizemos a coisa; desfrutemos dela por aquilo que ela é, mas não a tornemos mais importante do que isso.

Dentro desta categoria de todo comportamento sexual, do que é naturalmente desaconselhável, temos duas divisões: O que é chamado comportamento sexual impróprio (log-g.yem), e o que não é impróprio (log-g.yem ma-yin-pa), o que acho que chamaríamos de “comportamento sexual apropriado”. Então, isso significa que o sofrimento gerado pelo comportamento sexual impróprio é maior do que o sofrimento gerado pelo comportamento sexual apropriado. Atenção, ninguém está negando que o comportamento sexual nos traz uma felicidade comum. É claro que ele traz, mas este é um tipo de sofrimento.·.

Então, o comportamento sexual apropriado seria aquele com seu cônjuge no tipo de sexo padrão pênis-vagina. Qualquer outra coisa realmente apenas pode ser por razão de apego e desejo. O primeiro tipo de sexo pelo menos poderia ser para fazer um filho, então visto assim ele é menos pesado.

Então, o que é comportamento sexual impróprio? Quando lemos a lista das dez ações destrutivas, este é o comportamento sexual que está listado nela. Há uma longa história do desenvolvimento daquilo que realmente constitui o comportamento sexual impróprio, e é claro que pode haver muitos problemas para entender como isso se desenvolveu historicamente, e por que foi elaborado cada vez mais? Será que isso foi adicionado apenas por monges puritanos mais tarde, na Índia – pois tudo se desenvolveu na Índia – ou será que as elaborações tardias estavam implícitas nas enumerações prévias e os comentaristas posteriores apenas extraíram o significado? Os mestres tibetanos dirão que tudo estava implícito desde o início. Não obstante, é bem interessante ver o que foi especificado, e quando e por quem, pois isso também nos dá uma ideia do que é mais e menos pesado. Se algo foi enfatizado logo desde o início, então podemos ter a certeza de que se trata do mais pesado entre todos os diferentes tipos de comportamentos sexuais impróprios.

Até esta palavra “impróprio” (log-pa) aqui – é uma palavra extremamente difícil de traduzir (do Tibetano). É a mesma palavra que achamos em visões “distorcidas”; é a palavra que em outros contextos é traduzida como “distorcida”. Mas com certeza não podemos traduzi-la como “distorcida”, pois em nossos idiomas isso significa “pervertido”, e certamente não estamos falando sobre isso. Às vezes, em outros contextos esta palavra realmente apenas significa “oposto”, e eu penso que “oposto” é o que é mais próximo ao significado aqui. É oposto, em outras palavras, àquilo que não é um comportamento apropriado. Ou “comportamento sexual contrário” – o que é contrário ao primeiro – é estranho. Às vezes, eu traduzi isso como “comportamento sexual imprudente” e às vezes como “impróprio”, embora talvez esta seja uma escolha imprópria de palavras. O significado é: “tudo aquilo que não é apropriado”.

Os textos vinaya lidam com a disciplina monástica para monges e monjas. Nisso, um dos votos tanto para monges quanto para monjas é que um monge ou uma monja não deve agir como intermediário para arranjar nem um casamento nem um relacionamento sexual para algumas pessoas. Para monges, geralmente se trata de uma longa lista de diferentes tipos de mulheres e em alguns (textos) vinayas há também listas de semelhantes tipos de homens. O tipo de mulheres que estão listadas aqui são aquelas que são casadas ou estão sob a guarda de alguém, e há uma longa lista: o pai ou a mãe ou a irmã ou o irmão, etc. “Sob a guarda” é explicado em termos de não ser permitido à jovem fazer suas próprias escolhas, quando tudo é ditado pelo guardião. Lembrem-se que estamos falando da Índia antiga, então aqui não há nenhum conceito de liberdade ou direitos da mulher. A mesma lista aparecerá nos sutras do Theravada como o tipo de pessoa que seria um parceiro impróprio para ter sexo; é a mesma lista. Então, podemos ver desde cedo, desde o início, que há uma relação próxima entre a ética sexual para monges e monjas e a ética sexual para leigos.

Nos próprios suttas – os suttas Theravada, em pali – explicam que esses são parceiros impróprios, basicamente porque ter sexo com algum deles leva você a cometer muitas outras ações destrutivas. Pode levar você a mentir a este respeito e, se o guardião ou marido descobrirem, então pode até ser que você mate esta pessoa ou tenha que roubar para suborná-los; ou poderia levar a ter brigas dentro de sua própria família. Assim, pode haver muitos outros tipos diferentes de ações destrutivas. Esta é toda a lista deles que foi dada nos suttas em pali.

Se olharmos na literatura pali mais tardia, nos comentários, está explicado que se você tiver sexo com uma mulher cujo guardião não lhe dá permissão, então apenas o homem tem a transgressão kármica. A mulher não tem a transgressão kármica, a menos que antes ou durante o ato ela desenvolva desejo e apego. Isto é paralelo a um dos regulamentos que têm a ver com monges e monjas. Se uma monja for estuprada, a menos que antes ou durante o estupro ela desenvolva desejo e apego, ela não perde seus votos. Então é semelhante: se a mulher for estuprada e não desenvolver nenhum desejo nem apego, ela não tem nenhuma transgressão kármica. O que também foi adicionado aqui, que eu nunca achei em nenhum outro texto budista de nenhuma das tradições budistas, é que, se o casal receber a permissão – se a mulher receber permissão do guardião ou marido – então não há transgressão kármica nem para o homem nem para a mulher. Então, se os pais disserem, “Bem, está bem, a minha filha está sexualmente ativa”, então tudo estará bem. Mas se os pais realmente forem contra isso, então haverá uma transgressão kármica. E vocês podem ver como pode ser assim, pois a pessoa talvez tenha que mentir a respeito disso. Isso pode causar brigas e grandes problemas, se os pais descobrirem.

Lembrem-se, a questão aqui é quão grande é o sofrimento e quantos problemas são produzidos a partir de seu comportamento sexual. Não tem nada a ver com bom ou mau. Mas não está mencionado aqui se neste caso a mulher quer ou não ter sexo. Então, de nosso ponto de vista, nós olharíamos para isso e diríamos, “então, o que dizer a respeito dos pais no sudoeste da Ásia que são tão pobres e dão permissão e vendem a sua filha para a prostituição? Está bem se a menina tem a permissão de seus pais?” Não está especificado nos textos se isso depende do fato da mulher querer ou não sexo. Então, obviamente sendo este o caso, como expliquei antes, simplesmente por não estar mencionado não quer dizer que não está implícito na descrição.

Então, novamente, aqui a pessoa tem que usar a consciência que discrimina para analisar.

Agora, se olharmos para as vinayas de algumas das outras tradições iniciais – havia dezoito tradições Hinayana, e cada uma tem a sua própria vinaya – descobrimos algumas categorias a mais de parceiros impróprios. Vejam bem, isso também é uma grande questão aqui, toda a discussão da ética sexual apenas é descrita do ponto de vista de um homem. Então, será que isso significa, apenas porque não é explicado em termos de parceiros impróprios para uma mulher, que não existe a ética sexual para mulheres? Obviamente não é assim. Está implícito na explicação que você tem que fazer uma lista paralela para mulheres. Em algumas dessas vinayas eles adicionam uma monja com um voto de não ter sexo, e prisioneiros – um prisioneiro é alguém que está na prisão e sendo mantido ali pelo rei, e para você tirar esta pessoa e ter sexo com ela seria impróprio; este prisioneiro pertence ao rei.

Uma dessas tradições Hinayana é a Sarvastivada. A tradição tibetana basicamente vem desta tradição, em termos de sua vinaya e em termos de sua discussão das doutrinas Hinayana, Vaibashika e Sautantrika – tudo isso está dentro da Sarvastivada. E a vinaya seguida pelos tibetanos é a Mula-sarvastivada, que é uma tradição posterior dentro da Sarvastivada.

Em um dos primeiros textos, ela também adiciona à lista de parceiros impróprios viajantes indefesos. Isso se refere a tirar vantagem de alguém que está viajando sozinho na estrada, sem a proteção de ninguém. E também adiciona estudantes. Aqui temos o uso de outro termo técnico: “conduta celibatária” (tshangs-spyod, Skt. brahmacharya). Dentro do comportamento sexual impróprio, há duas categorias: a conduta celibatária e não-celibatária. A conduta celibatária é "brahmacharya" em sânscrito. Literalmente, significa “conduta limpa ou pura”. Na Índia tradicional, de acordo com os costumes hindus, pedia-se aos estudantes para manter o celibato enquanto estavam estudando com um professor espiritual. A conduta não-celibatária refere-se a ter sexo com alguém através de qualquer um dos três orifícios. Isso significa ou a vagina, ou a boca ou o ânus. Então, de acordo com esta definição, manter o celibato não exclui masturbação. No entanto, como os estudantes que mantêm o celibato não devem ter sexo através de nenhum dos três orifícios, eles são parceiros sexuais impróprios.

Mais uma adição à lista de parceiros impróprios que achamos neste antigo texto Sarvastivada é uma prostituta não paga. Então, está tudo bem com as prostitutas, de acordo com isso, enquanto elas forem pagas. Se analisarmos e virmos do que eles estão falando aqui, o que estão dizendo em termos de ética sexual é realmente apenas uma extensão da ética que tem a ver com roubar. Trata-se de pegar algo que não lhe foi dado, que não é seu. Não tem absolutamente nada a ver com o fato de você estar casado ou não. Então, a tradição aqui não está falando de adultério – ser infiel à sua esposa ou ao seu esposo; trata-se de ter sexo com alguém que não lhe foi dado e que não quer tê-lo. O casamento como algo sagrado é completamente específico às culturas. Nós o achamos em nossas religiões bíblicas, no hinduísmo, mas certamente não no budismo.

Se olharmos para os sutras da “A Localização Próxima da Mente Plena Próxima” – em Pali a versão é bastante conhecida, O Sutra Satipatthana – fala em termos de seu cônjuge: ele não pode compartilhar as consequências kármicas de suas ações, não pode compartilhar a morte, e assim por diante, e apenas pode produzir obstáculos e problemas. Então, trata-se de uma visão bastante negativa do casamento e dos cônjuges. E há muitos conselhos em termos de como diminuir seu apego e desejo por seu cônjuge, com as famosas meditações que aparecem em toda a literatura budista, em termos de imaginar o que está dentro do estômago dele, etc.

Então novamente, isso é algo que nós como ocidentais realmente não queremos e não gostamos de ouvir. Mas um dos votos de bodhisattva é não escolher apenas as peças do Dharma que nós gostamos e ignorar aquelas das quais não gostamos. Mas a questão trata de não glorificar o amor e o casamento e coisas do gênero como nós fazemos com nossas noções românticas ocidentais, não torná-los sagrados e divinos. E se tivermos um parceiro, sendo casados ou não, trata-se de ter uma visão realista daquilo que está envolvido. Como todos aqueles que estão em um relacionamento sabem, um relacionamento é difícil, não é fácil. Então, o budismo não está dizendo “não tenham relacionamentos”. O budismo está dizendo “sejam realistas em relação a isso; não sejam ingênuos.”

Agora, se olharmos para a evolução da literatura abhidharma na Sarvastivada, então nós acharemos mais e mais coisas especificadas à medida que a história progride. A primeira coisa que aparece no comentário é que a própria esposa pode ser imprópria em termos de um momento impróprio para o sexo. Mas não está especificado o que isso significa. O próximo comentário adiciona o local impróprio para o sexo. E o próximo adiciona o orifício impróprio, mas não elabora.

Então, a primeira elaboração completa que achamos no Abhidharmakosha, que é o Tesouro do Abhidharma por Vasubandhu – é estudado por todos nas tradições tibetanas, todos nas tradições chinesas; todos estudam isso. “Abidharma” apenas significa temas especiais do conhecimento. Então, aqui há uma elaboração dessas coisas que apenas foram adicionadas nos primeiros comentários Sarvastivada. O parceiro impróprio – aqui temos o mesmo tipo de lista que tivemos na vinaya e nos primeiros sutras: todos os tipos de mulheres que são ou casadas ou têm um guardião. Mesmo se for a sua própria mulher, a parte imprópria do corpo é ou o ânus ou a boca. Poderemos apenas ser motivados pelo desejo; não teremos um filho desta forma.

E depois, um local impróprio, elabora Vasubandhu. Ele diz “visível aos outros” – isso quer dizer do lado de fora, onde qualquer pessoa possa vê-lo; e perto de uma stupa ou um templo, por mostrar respeito aos outros e respeitar objetos religiosos. Por respeito, você não teria sexo na frente deles. Um momento impróprio seria quando a mulher estiver grávida, ou amamentando um bebê, ou estiver fazendo votos de um dia sem ter sexo. E em um comentário indiano, relativo a este texto, isso explica que ter sexo com uma mulher grávida é impróprio, pois pode fazer dano ao bebê dentro do ventre dela, e com uma mãe que está amamentando um neném isso diminui a habilidade dela de dar leite. Então a consideração aqui é em relação a quanto a ação é nociva para a terceira pessoa envolvida, o bebê.

Agora, o próximo texto que achamos é o Abhidharmasamucchaya – que significa Um Compêndio de Abhidharma, por Asanga – e este é um texto Mahayana, especificamente Chittamatra. Todos os tibetanos o estudam e todos os chineses também o estudam. Então, eles estudam esses dois maiores textos do abhidharma. E aqui há apenas a lista, o texto não elabora. Da mesma forma, no principal comentário indiano – está listado, sem elaborar, o parceiro impróprio. Apenas diz isso e, sem dúvidas, isso se refere à lista padrão de mulheres. Às partes impróprias do corpo, sem elaborar; ao lugar e ao momento impróprios, sem elaborar.

Mas adiciona três categorias a mais, que não achamos antes. “A medida imprópria”, e isso não é explicado. É apenas no Tibete, com o Gampopa, que você recebe uma explicação disso, que ocorre mais de cinco vezes seguidas. A segunda é “a ação imprópria aplicada”, e novamente, não está elaborada. É apenas posteriormente que Gampopa explica que isso significa bater na pessoa, ou seja, o sado-masoquismo, e ter sexo à força, ou seja, estupro. A terceira coisa que foi adicionada é – e isto é especificado para homens – [ter sexo com] todos os homens ou homens castrados, os eunucos. Então, esta é a primeira e realmente a única menção explícita à homossexualidade em todos os textos indianos que eu consultei.

Depois, temos dois textos posteriores indianos, um por Ashvaghosha e um por Atisha, e isto é bem tarde no budismo indiano. Então o Ashvaghosha diz de novo, “local impróprio” e ele elabora um pouco mais: onde houver textos do Dharma; onde houver uma stupa; uma estátua do Buda; onde vivem bodhisattvas; diante de um abade, de seu professor ou seus pais. “Momento impróprio” – ele adiciona, além de gravidez, amamentação e voto de um dia, quando a mulher estiver menstruada, doente ou tiver um grande sofrimento mental. Por exemplo, se ela estiver de luto por alguém que morreu. Novamente, podemos ver que seria difícil dizer que isto foi adicionado como algo que acabou de ser inventado e é novo, mas que isso estava implícito na ideia de tentar minimizar a quantidade de problemas e sofrimentos que você causa.

Depois, em relação às partes impróprias do corpo, além do ânus e da boca, pela primeira vez Ashvaghosha adiciona mais. Ele adiciona entre as coxas do parceiro, e com a mão, ou seja, masturbação. Esta é a primeira vez que isso é mencionado aqui, e o que é interessante é que parece novamente ser adicionado como algo de paralelo em relação àquilo que você encontra na vinaya dos monges e monjas, pois ali você encontra dois tipos diferentes de votos. Um dos votos, se você o quebrar, isso será chamado de “derrota”(phampa) – você não é mais um monge ou uma monja. E isso acontece ao ter sexo em um dos três orifícios “vagina, ânus ou boca”. Bem, para um monge ou uma monja eles obviamente incluiriam a vagina, de qualquer maneira, já que eles não têm parceiros sexuais, mas a boca e o ânus estão incluídos aqui também. E há outro voto, que não é entre as coxas ou com a mão, e é menos pesado. Se você quebrá-lo, isso é chamado de “voto com resíduo” (lhag-ma), o que significa que ainda lhe sobra um resíduo do seu voto como base de treinamento em disciplina ética, mas o voto fica enfraquecido.

Isso combina com a divisão dentro do comportamento sexual impróprio entre a conduta celibatária e não-celibatária que mencionamos em referência a estudantes espirituais na Índia tradicional. Monges e monjas, é claro, prometem evitar todo comportamento sexual, tanto o impróprio quanto aquele que é chamado de “apropriado”. Ainda assim, dentro do comportamento impróprio, é menos pesado para eles cometer um ato sexual celibatário, como a masturbação, do que não celibatário, tendo sexo vaginal oral ou anal com alguém.

Ashvaghosha não menciona especificamente homossexualidade. Mas se o ânus e a boca e a mão e as coxas estiverem fora, não sobra muito para o comportamento homossexual. Novamente, não deveríamos nos aproximar de tudo isso como um advogado, tentando achar uma brecha para contornar a coisa de alguma forma, tipo, “bem, eles não disseram debaixo do braço, então tudo bem.” E então, também há a lista que é salvaguardada por outros.

O Atisha tem como “local impróprio” a mesma lista que Ashvagosha, mas apenas adiciona “em um lugar no qual as pessoas fazem pujas” como um local impróprio. Como “momento impróprio” ele adiciona à lista “durante o dia” e “contra a vontade de alguém.” E por “parte imprópria do corpo”, é como Ashvaghosha, mas ele omite “entre as coxas”, e adiciona ao invés disso “com crianças”. Ele diz, “pela frente ou por trás de um jovem menino ou uma jovem menina.” Isto é claramente por causa de um erro de soletração no texto. A diferença entre Ashvaghosha e Atisha vem claramente de um erro no texto. Apenas uma letra difere entre as palavras “coxas” e “crianças”. Crianças são incluídas na lista de “parceiros impróprios”, mas aqui está em “partes impróprias do corpo”, então este é claramente um erro daquele que escreveu. E depois os tibetanos o tomaram literalmente e também o elaboraram.

“Parceiro impróprio” – [ele] não menciona machos, mas isso estaria incluído se você pegasse ânus, boca e mão. E ele adiciona animais. Então, isso não quer dizer que até agora estava okay ter sexo com um burro, mas agora não está mais okay. Então, você pode ver que há toda uma evolução aqui na Índia, e ela se torna muito interessante quando ela vai ao Tibete. A primeira que achamos é de Gampopa, no seu Ornamento Precioso da Liberação. Trata-se de um texto Kagyu. “Parceiro impróprio”- a lista padrão de diferentes tipos de mulheres. “Partes impróprias do corpo” – ele apenas fala de boca e do ânus; ele não fala da mão e das coxas. “Local impróprio”- [ele] adiciona “onde muitas pessoas se reúnem”. E “momento impróprio” – “quando visível”.

Agora, “quando visível” é interessante, pois então você vê que não há duas possíveis interpretações de “quando visível”. Vasubandhu interpreta isso como estar fora, do lado externo, quando você está visível. Atisha interpretou que fosse “durante o dia”, o que é claro é muito diferente se você trabalha durante a noite inteira e tem um parceiro. E Tsongkhapa aponta que Atisha entendeu errado essas palavras; quando se referem ao lado externo, não estão referindo-se a “durante o dia”. Então, novamente podemos ver, que há algumas discrepâncias que acontecem aqui, e muitas vezes têm a ver com como você entende as palavras. Gampopa omite quando a pessoa está doente, ou tem sofrimento mental, ou quando não querem ter sexo; ele não menciona isso. Mas ele elabora aquilo que você encontra na medida Abhidharmasamucchaya, ele diz, quando é mais do que cinco vezes seguidas, o que é realmente difícil de entender. Especialmente, se o nosso critério aqui é aumentar as emoções perturbadoras, penso em alguém que teria cinco ou quatro vezes seguidas – quatro está okay, cinco vezes não... Quão grande tem que ser a obsessão da pessoa com sexo?

Uma teoria que eu escutei para explicar isso é que a consideração foi o rei com um harém de muitas esposas – isso estava okay, aliás, você podia ter muitas esposas porque todas elas pertenciam a você. Então, isso foi para não insultar o rei, que podia ter muitas esposas e obviamente podia ter sexo várias vezes numa noite. Por isso, foi estipulado assim. Mas este foi apenas um palpite feito por alguém.

E ele elabora, quando se trata da “ação aplicada”, então ele fala sobre bater com força, e inclui todos os homens e eunucos. Depois, Gampopa omite ter sexo com a mão, ele omite masturbação, mas inclui homossexualidade.

Longchempa, o primeiro mestre Nyingma, em seu texto, apenas lista, como o Theravada em pali, as mulheres impróprias. Então, em seu texto de estilo lam-rim, “Descanso e Restauração na Natureza da Mente” – que foi traduzido para o inglês como “Gentilmente Inclinado a Nos Aliviar” – apenas mencionou esta lista de mulheres.

Agora, Lam-rim chen-mo por Tsongkhapa, o primeiro texto Gelugpa, ele menciona como “parceiro impróprio” não apenas aqueles protegidos pelas suas mães, mas também a mãe. Então, aqui está a primeira menção real ao incesto. E ele inclui nesta lista todos os homens, tanto a própria pessoa quanto os outros, e homens castrados. Por “parte imprópria” do corpo, ele diz qualquer parte, a não ser a vagina. E ele então cita Ashvaghosha e Atisha. E assim, aqui está a primeira vez que temos em um texto tibetano a menção à masturbação.

“Local impróprio” – onde for visto por muitas pessoas, assim entende Tsongkhapa o que é “visível”. Ele não compreende isso como necessariamente do lado externo e certamente não durante o dia, mas onde você possa ser visto por muitas pessoas, ou seja, em público. E adiciona, como “local impróprio”, sobre um “chão duro ou irregular”. Então, agora ele está levando em consideração a pergunta: será que isso machucará quem está por baixo?

Depois, em termos de momento impróprio, ele inclui grávidas, e explica o que quer dizer com isso. O que ele explica é que se trata do fim da gravidez – isso significa os últimos três meses de gravidez. Agora, trata-se de uma frase muito semelhante no tibetano à palavra usada para “lua cheia”. Ele está falando sobre a “lua cheia” da gravidez. E então alguns tradutores traduziram isto errado e isso se espalhou no ocidente, que era impróprio ter sexo na lua cheia. Ainda que haja uma menção no tantra Kalachakra que há certa energia que circula no corpo durante o curso do mês lunar. A cada dia do mês lunar ela está centrada em uma diferente parte do corpo. Na lua cheia ela está centrada em um local no qual ela poderia ir para o canal central, portanto o texto recomenda não ter sexo neste dia, pois neste caso a energia sairia ao invés de conseguir se dissolver. Mas isto está claramente referindo-se àqueles que estão em um estágio de prática no qual isso faria uma diferença – o que tem a ver com outro assunto, mas deixe-me apenas acabar aquilo que Tsongkhapa diz, antes de falar nisso.

“O momento impróprio” – no final da gravidez, na amamentação, durante votos de um dia, na doença, e mais do que cinco vezes. Ele inclui aqui tanto a masturbação quanto a homossexualidade de forma explícita, mas ele deixa de fora quando a mulher não quiser, quando há uso de pancadas e força. Mas ele especifica que uma prostituta está okay, enquanto for paga. Se você tomar a prostituta de outra pessoa sem pagar, trata-se de tomar o que não lhe foi dado.

Deixe-me apenas mencionar o último texto antes de retornar àquilo que eu queria mencionar sobre o tantra, e trata-se do último texto Nyingma escrito por Dza Peltrul, que se chama Palavras do Meu Precioso Professor. Ele também fala de pessoas impróprias – parceiros de outros, ou salvaguardados, e ele especifica crianças. Em relação ao momento apropriado, ele entende isso como o Atisha, ou seja, durante o dia. E então vem a lista usual de preceitos de um dia, doença, sofrimento mental, gravidez, menstruação e amamentação. O local é novamente a lista usual de locais impróprios – perto de uma stupa, etc.; e as partes do corpo – boca, ânus e mão. Então, não há nenhuma menção específica à homossexualidade, mas como discutimos antes, se a boca, o ânus e a mão estiverem de fora, não sobra muito.

Apenas para resumir, a partir desta história e da avaliação, podemos ver que há muitas variantes aqui do que seria o comportamento sexual impróprio. Então, novamente, será que isso quer dizer que essas pessoas estão adicionando coisas, ou que tudo isso estava implícito? Por um tempo eu pensei que talvez pudéssemos dizer que a ética sexual era relativa à cultura. Então, em nossa cultura, o adultério, em termos de não ser fiel à sua esposa ou ao seu marido – isso seria impróprio, ainda que nunca tenha sido mencionado aqui. E o texto foi escrito do ponto de vista de homens na Antiga Índia, que se casaram na idade de dez ou doze anos. Então, não há a situação de uma pessoa solteira, um adulto solteiro, a menos que você seja um monge ou uma monja. Mas quando você discute isso com Geshes, este não pode ser o caso, a ideia de que isso era específico à cultura. Caso fosse específico à cultura, então o comportamento sexual impróprio estaria na categoria de ações proibidas não recomendáveis – que apenas são recomendáveis para certo grupo de pessoas – mas não para todos.

Então, esta não é a análise correta, dizer que podemos usar os critérios daquilo que é específico culturalmente para determinar aquilo que é próprio ou impróprio. O único critério que é válido seria que há muito que está implícito na formulação original, e tudo aquilo está sendo elaborado nos comentários. Ao invés de deixar de fora algo de que não gostamos especialmente, pois estamos apegados àquele tipo de comportamento sexual, provavelmente podemos adicionar mais – especificamente, ser infiel à esposa ou ao esposo, a prostituição, ser forçado à prostituição, conscientemente transmitir alguma doença sexualmente transmissível, AIDS ou o que quer que seja. Há muitas coisas que podem ser expandidas; poderia-se dizer, que também estão implícitas na formulação.

Eu tive longas discussões a esse respeito com Geshe Wangchen – ele é o tutor da encarnação de Ling Rinpoche, que é o professor mais velho do Dalai Lama. Isso significa que ele é o mais erudito de todos os Geshes na tradição Gelug. O que ele disse foi que o que precisamos ver é que – ele usou esta analogia – é como se você tivesse um pomar de frutas e você quer protegê-lo. Então, você põe uma cerca ao redor dele a uma grande distância, não apenas diretamente ao redor das árvores, pois ao colocar uma vasta área de segurança ao redor, você faz com que as árvores que estão dentro fiquem mais protegidas. Então, ao definir um âmbito muito vasto de comportamento sexual impróprio, nós nos certificamos que, se não pudermos manter tudo isso, evitar tudo isso, pelo menos evitaremos as árvores de frutas que estão no meio, que são sobre ter sexo com o parceiro de outra pessoa. Pois isto está mencionado em absolutamente todos os textos.

Por que o pomar de frutas é o sexo com o parceiro de outra pessoa? Como está dito nos sutras em pali, porque isso pode levar a muitas outras ações destrutivas: mentir, matar, roubar, etc; a masturbação não facilmente levará a tudo isso. A ideia aqui é que não queremos ser apenas animais, ou seja, a qualquer momento que tenhamos um impulso sexual, nós agiremos de acordo com ele. Em outras palavras, nós nos permitimos estar sob controle do desejo sexual, independentemente de tudo. Colocar alguns limites é o que gostaríamos de fazer caso a liberação das emoções perturbadoras fosse nosso objetivo. Quaisquer que sejam os limites que colocarmos – isso será muito, muito bom, e muito útil. Pelo menos, estaremos começando a exercitar a consciência que discrimina.

Agora, se formos fazer o voto leigo de evitar comportamento sexual impróprio, está muito claro como ele está descrito no texto tibetano. Então, se for a versão de Gampopa, ou de Tsongkhapa, ou de Peltrul – eu não achei uma versão Sakya, mas deve ser semelhante, todas são semelhantes. Apenas porque o Gampopa não mencionou explicitamente a masturbação, se gostarmos disso, faremos os votos da Kagyu e não da Gelupgpa – esta não é a forma adequada de fazer isso. A questão é que, se você fizer o voto, tem que ser a coisa inteira. Não podemos dar a nossa própria interpretação, apenas escolher peças que gostamos e jogar fora as peças das quais não gostamos. Há um voto de bodhisattva específico contra isso.

Também, preciso apontar para o fato de que há dois níveis de votos leigos: os votos leigos com celibato e votos leigos gerais sem celibato. O voto geral leigo de evitar um comportamento sexual impróprio não exclui o comportamento sexual apropriado com o seu próprio parceiro do sexo oposto. Mas tal comportamento também está excluído para alguém que faz os votos leigos com celibato, enquanto um leigo celibatário (tshangs-spyod dge-bsnyen) adiciona ter sexo através de qualquer um dos três orifícios de qualquer pessoa, inclusive do seu parceiro, à lista de comportamento sexual impróprio, que ele evita. Na verdade, se você quiser ser mais preciso, um leigo celibatário adiciona como sendo impróprio ter sexo vaginal com sua parceira. Já é impróprio para todos os leigos ter sexo oral ou anal com qualquer pessoa, que seja o parceiro de outra pessoa ou o próprio parceiro.

Agora, de acordo com o abhidharma, há três tipos de votos. Há um voto que seria especificamente algo que o Buda colocou – evitar certo tipo de comportamento destrutivo ou não recomendável. E há um anti-voto, no qual você faz o voto de sempre fazer uma ação destrutiva, como quando você se junta ao exército, “Eu sempre vou matar”. E então, há algo intermediário, e isso seria fazer o voto de evitar alguns tipos de comportamento sexual impróprio, mas não o pacote completo. Isso é como o Geshe Wangchen explicou. Você não tem que fazer o voto completo. Não faça o voto, mas você pode evitar, digamos, ter sexo com o parceiro de outra pessoa, mas “sou apegado à masturbação, ou ao sexo oral” ou o que quer que seja que você gosta de fazer. Então você faz um desses “votos intermediários”. Isto não é uma força tão positiva como se você fizesse o voto completo, mas é bem mais positivo do que se você não fizesse nenhum voto, e apenas o evitasse algumas vezes.

Agora, sobre o tantra. O que eu estava falando sobre a ética sexual é que não é recomendável porque aumenta as emoções perturbadoras. Na forma mais elevada de tantra, anuttarayoga, no sistema Nyingma, especificamente suponho que seja nas maha-, anu- e atiyoga, mas particularmente na anuyoga, você usa o desejo como parte do caminho. No entanto, trata-se de usar o desejo para destruir o desejo. Esta é a frase que é sempre usada de novo.

Como é isso? É porque aquilo que você tem neste tipo de prática é quando você está extremamente, extremamente avançado. Então, você já dominou o estágio da geração: a visualização perfeita; um zhinay perfeito [um estado mental calmo e estável, shamatha], uma concentração perfeita; e, é claro, bodhicitta e a compreensão da vacuidade, da renúncia, de tudo isso; e você já ganhou controle sobre os ventos de energia no corpo e consegue visualizar os canais e tudo isso de forma perfeita. Então, não há perigo algum de ter um orgasmo porque você pode controlar todas essas energias sem ser um iniciante que tenta controlar as energias e apenas fica doente por não estar qualificado para fazer isso, criando problemas de próstata e todos os tipos de problemas. Neste ponto, a pessoa pratica com um parceiro, mas não é sexo em absoluto, nosso conceito comum de sexo, é apenas a união de dois órgãos – nada mais do que isso. E isso gera uma sensação feliz que então gera uma consciência feliz, associada com os ventos de energia no canal central. É ali que a pessoa sente isso.

E isso age como uma circunstância de ser capaz de dissolver os outros ventos de energia no corpo dentro do canal central. E isso é muito específico. Você foi capaz de dissolver os outros ventos de energia no canal central e isso é especificamente para dissolver a energia mais difícil de ser dissolvida, que está no nível da pele, para que você possa alcançar e ter acesso ao nível de clara luz da mente, por ter dissolvido todas essas energias. E são essas energias, esses ventos, que carregam as emoções perturbadoras. Então, é assim que você pode se livrar do desejo. Quando você as dissolve, você se livra do desejo e de outras emoções perturbadoras, como também do nível conceitual da mente. Trazendo a compreensão de vacuidade que você já possui, você tem aquela compreensão de vacuidade, juntamente com a mente da clara luz – aquela mente da clara luz feliz – e com bastante familiaridade com este estado mental. Tendo isso, você será capaz de permanecer nisso para sempre. Isso é a iluminação.

Então, não deveríamos pensar que o sexo envolvido com o tantra, que está simbolizado ou representado pelo casal em união nessas pinturas, que isso tem alguma coisa a ver com o sexo comum. Na verdade, trata-se do rompimento de um dos votos tântricos de raiz se você pensar que o sexo comum é um caminho para a liberação e a iluminação. Por isso, se você tiver sexo, apenas tenha sexo e seja realista a este respeito. Não pense que se trata de um grande ato espiritual, que se você tiver o orgasmo perfeito, isso então será a iluminação.

Também, há votos tântricos para não liberar o que geralmente é chamado líquido “jasmim” ou “lua” ou algo assim, o que significa não ter um orgasmo. Para ambos, homem e mulher, então, não se refere especificamente à ejaculação masculina. Novamente, isso se refere a quando você é super avançado, o mesmo de que falávamos antes sobre o estágio completo, quando você é capaz de trazer todas as energias para o canal central. Você não quer ter este orgasmo que joga todas as energias para fora, pois isso termina a situação ou oportunidade de trazer os ventos para o canal central. Então, não estamos falando dos estágios iniciais da prática; é especificamente neste estágio da prática que isso é relevante.

Agora, mais uma coisa que eu queria explicar. O princípio geral aqui, que tem a ver com a ética sexual – se não estivermos prontos para nos tornarmos um monge ou uma monja – é tentar minimizar qualquer aspecto problemático de nosso comportamento sexual. Em outras palavras, qualquer aspecto que causará um grande problema. Então, para isso, há os fatores envolvidos com tornar os resultados kármicos plenos ou completos, e outra lista, em termos de torná-los pesados. Em geral, tem que haver uma base envolvida, se for o parceiro de outra pessoa, uma distinção sem erro – quando você sabe que se trata do parceiro de outra pessoa. Mas em alguns textos está dito que se a mulher for parceira de outra pessoa e ela mentir, não disser a você, ainda haverá um problema, pois se alguém descobrir, obviamente haverá uma grande confusão. Alguns comentários dizem que é um erro mesmo se você não reconhecê-lo de forma correta.

Agora, não está mencionado de forma explícita nos textos, no que diz respeito à base envolvida no comportamento sexual impróprio. Parece que para homens, o comportamento sexual impróprio com um homem é menos pesado do que com uma mulher; e consigo mesmo é menos pesado do que com outro homem. Eu estou deduzindo isso a partir do segundo dos votos com resíduo para homens, que é evitar tocar com desejo o corpo ou cabelo de uma mulher. Para um monge tocar com desejo o corpo ou o cabelo de um homem é considerado semelhante ao voto com resíduo, mas não é completo. Isso enfraquece os votos do monge, mas não tanto quanto tocar uma mulher com desejo. E como também vimos, dos votos de monge, ter sexo consigo mesmo usando a mão é um voto com resíduo, enquanto ter sexo com os orifícios de outra pessoa é uma derrota e resulta em perder os seus votos.

Então, tem que haver a intenção motivadora e uma das emoções perturbadoras tem que estar envolvida, e a ação tem que estar presente – os dois órgãos que se encontram – e o final da coisa eu entendi errado. Eu pensei que significava orgasmo, porque no tibetano a palavra quer dizer “felicidade” ou “prazer”, então eu entendi “a felicidade do orgasmo”, e é muito difícil perguntar a um monge tibetano o que isso realmente significa. Ainda assim, eu consegui descobrir – novamente, a partir da discussão a esse respeito na vinaya – e realmente isso se refere a apenas vivenciar o prazer no contato com os órgãos sexuais. Assim, se você for estuprada, ou algo assim, e não houver prazer envolvido, e for apenas doloroso, então a ação não será completa.

A propósito, este ponto vem dos textos da vinaya explicando os votos monásticos. Para um monge cometer uma derrota em termos de transgredir o voto de não ter nenhum comportamento sexual, ele apenas precisa vivenciar prazer depois que seu órgão entre em qualquer um dos três orifícios e, no caso de sexo vaginal, quando ele toca o órgão da mulher. Uma derrota não requer realmente que o monge chegue ao orgasmo ou ejacule esperma. Da mesma forma, para um monge cometer um voto com resíduo por masturbação, ele apenas precisa vivenciar o prazer de ter o sêmen chegar à base de seu órgão e, semelhante a uma derrota, ele não precisa vivenciar um orgasmo ou ejacular esperma.

Depois, há fatores que afetam a força do amadurecimento do karma. O primeiro é a natureza da ação envolvida, e isto é em termos da quantidade de dor causada a você ou a outra pessoa, em geral, pela natureza do ato. O sexo oral ou anal é bem mais pesado do que a masturbação, então, há uma distinção aqui. Isso também segue em analogia aos votos monásticos. Como nós vimos, ter sexo oral ou anal constitui uma derrota, enquanto masturbar apenas constitui um resíduo.

Depois, um dos [fatores] mais importantes é a força da emoção perturbadora envolvida – quão forte é seu desejo ou sua raiva. Se você puder machucar a pessoa, como por exemplo estuprar, ou não necessariamente estiver com raiva da mulher, mas quiser machucar o marido dela, ou coisas do gênero, então [o fator será] a força desta raiva; ou a força da sua ingenuidade, pensando que está okay ter sexo com qualquer um.

O terceiro é um impulso distorcido e atraente que leva você à ação. Isso se refere a pensar que não há nada de prejudicial neste tipo de comportamento impróprio; que está perfeitamente okay e você discutirá com qualquer pessoa que diga algo diferente. Aí vem a ação em si envolvida: a quantidade de sofrimento causada à outra pessoa ou a si mesmo quando a ação é realizada. Então, se você estiver fazendo com força, estupro ou sado-masoquismo, é bem pior; ou machucar a pessoa ao ter sexo sobre um chão duro ou molhado e fazê-la adoecer.

Depois, a base à qual a ação está direcionada: isso tem a ver com a quantidade de benefício que nós ou outros receberam desta pessoa no passado, presente ou futuro. Então, é mais pesado ter sexo com sua mãe do que com a esposa de outra pessoa. Quanto às boas qualidades dessa pessoa – é mais pesado ter sexo com uma monja do que com uma leiga. A próxima é um status de outra pessoa e isso se refere ao caso da pessoa ser doente ou cega ou deficiente mental ou uma criança, então isso é bem mais pesado. E depois há o nível de consideração, que é a quantidade de respeito que a pessoa teria por essa pessoa ou por seu parceiro. Ter sexo com o/a esposo/a de seu/ua melhor amigo/a é bem mais pesado do que ter sexo com o/a esposo/a de um/a estranho/a.

Depois, há a condição de suporte, se temos ou não um voto para evitar o comportamento sexual impróprio; a frequência, quantas vezes nós o fazemos; e o número de pessoas envolvidas – um estupro coletivo é bem mais pesado do que um estupro singular; qual a continuação, se você repete a ação no futuro; e a presença ou ausência, de forças que contrabalançam. Então, torna-se mais pesado se nos alegramos ao fazer isso, se não nos arrependemos, se não tivermos intenção de parar, se não tivermos senso de autodignidade moral, nem nos importarmos como as nossas ações se refletem nos outros. Se aparentemente formos um grande praticante do Dharma, mas formos a um clube de sexo ou algo assim, como isso se reflete em nossos professores? Como isso se reflete em nossa prática budista, etc?

Em resumo, o ponto principal aqui é não agir apenas de forma cega a partir de nossas emoções perturbadoras, mas ter alguma espécie de consciência discriminadora, algum tipo de entendimento em termos de nosso comportamento sexual. Não nos enganemos – qualquer comportamento sexual aumentará o desejo e este é o oposto de tentar se libertar do desejo – mas sejam honestos consigo mesmos: “Eu não estou naquele estágio no qual eu estaria pronto para realmente trabalhar para a libertação. Então, tentarei exercitar pelos menos algumas limitações, alguns limites em termos daquilo que faço.” E eu penso que muitos de nós temos certos limites que colocamos para nós mesmos; faremos certas coisas, mas não faremos outras coisas. Então, isso é muito bom. Façamos com que isso seja mais decisivo, e tentemos minimizar o peso do comportamento sexual que ainda temos. Lembrem-se, a coisa principal é tentar superar estar apenas compulsivamente sob a influência do desejo. Se seguirmos essas orientações gerais, esses princípios gerais, talvez não ganhemos a liberação apenas assim, mas pelo menos iremos na direção de minimizar nossos problemas.

Então, isso era o que eu queria apresentar. Vamos terminar com uma dedicação. Que qualquer entendimento, qualquer força positiva que veio disso, possa se aprofundar cada vez mais e agir como uma causa para atingir a iluminação para o benefício de todos.