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Introdução Geral aos Ensinamentos do Desígnio Inicial do Caminho em Etapas (Lam-Rim)

Tsenzhab Serkong Rinpoche I
traduzido para o inglês por Alexander Berzin
editado por Samaya Hart Huizen
Traduzido para o português por Antonella Yllana
Holland, Maio de 1980
[transcrição ligeiramente revisada de uma gravação incompleta).

Dia Um: Professores Espirituais, A Preciosa Vida Humana, A Morte e A Impermanência

[Está faltando a gravação do começo do curso; portanto, esta transcrição está incompleta.]

Relações Saudáveis com Professores Espirituais

É muito importante para o discípulo examinar e testar o lama de forma muito cuidadosa antes de estudar com ele. Não ir apenas porque um ensinamento famoso está sendo ministrado. Vocês têm que examinar o lama com muito cuidado. Está escrito em um texto que leva aproximadamente doze anos para que mestre e discípulo observem um ao outro para ver se eles podem estabelecer um bom relacionamento. Embora este seja o caso, na verdade, trata-se de um tempo demasiado longo, e há muitas desvantagens em uma demora tão grande.

Há o exemplo de um grande mestre Sakya que foi convidado para a China para ensinar o imperador. O imperador o examinou por um período de nove anos antes de finalmente decidir que estudaria com ele. Depois de nove anos, ele pediu a este que o ensinasse. Quando o mestre lhe perguntou: "Por que você esperou nove anos antes de pedir pelos ensinamentos?", o imperador disse: "Eu o estava observando todo este tempo." O mestre replicou: "Agora eu levarei mais nove anos para examinar você!" No final das contas, ele nunca conseguiu ensinar ao imperador. Se você esperar demais, isso pode ocorrer.

No que diz respeito a como examinar um lama nos dias de hoje, o primeiro ponto a ser levado em conta envolve as duas seguintes questões: Que tipo de sentimento vocês tiveram quando encontraram o mestre pela primeira vez? A sua mente imediatamente ficou muito feliz, ou absolutamente nada ocorreu? Além disso, ao escutar o nome do mestre pela primeira vez, isso fez com que se sentissem felizes, ou não? O segundo ponto é: Quando vocês foram encontrar seu mestre pela primeira vez, ele estava lá ou não estava? Às vezes, quando as pessoas vão encontrar o mestre espiritual pela primeira vez, o mestre não está em casa. Este não é um sinal muito auspicioso. O terceiro ponto é escutar o que dizem os outros sobre o mestre espiritual, e ouvir várias opiniões. Embora seja difícil para os mestres espirituais ter todas as qualificações apropriadas, os pontos principais são que eles precisam ter um coração muito cálido e gentil, um interesse muito intenso e amoroso por todos, e precisam ser honestos.

É muito importante fazer um exame apropriado do mestre espiritual ou do lama antes de ir estudar com ele. Não fiquem animados quando escutarem que um lama está chegando nem decidam ir sem antes pensarem a respeito. Isso não é nem um pouco adequado. Mas, uma vez que vocês se comprometerem de todo o coração com um mestre espiritual, não será mais o momento para ter dúvidas e ficar testando a pessoa.

No passado, tradutores e pessoas do Tibete, como o grande tradutor Marpa, passava por muitas dificuldades para acumular ouro suficiente para viajar para a Índia e encontrar mestres espirituais. Milarepa, que estudou com Marpa, teve que construir sozinho e com as próprias mãos uma torre de nove andares. Ele carregou as pedras sobre as costas e, por isso, teve feridas terríveis. Ele sentiu fortes dores. Até mesmo depois de construir a torre, Marpa não lhe deu nem iniciações nem ensinamentos. Marpa teve outro discípulo chamado Ngog Choku-dorjey (rNgog Chos-sku rdo-rje) que havia pedido pela iniciação de Chakrasamvara. Ele vivia a uma distância de mais ou menos um dia de viagem a cavalo. Quando a torre foi terminada, a esposa de Marpa, Dagmeyma (bDag-med-ma), deu a luz a um menino chamado Darma-dodey (Dar-ma mdo-sde). Na celebração do nascimento de seu filho e também para celebrar o fato de que Milarepa terminara a torre de nove andares, Marpa mandou uma mensagem para Ngog Choku-dorjey dizendo que ele iria dar uma iniciação Chakrasamvara e que ele deveria vir para esta ocasião.

Quando Ngog Choku-dorjey chegou, ele trouxe tudo aquilo que lhe pertencia como oferenda para Marpa. Entre suas posses, ele tinha uma cabra que havia quebrado uma perna e não podia andar. Ele a deixou para trás. Marpa disse: "Qual o problema? Você não trouxe a outra cabra? Eu passei por terríveis provações para ir para a Índia três vezes para receber esses ensinamentos, e esta é uma iniciação muito preciosa. Você terá que voltar e buscar a cabra." Quando Marpa deu a iniciação de Chakrasamvara, a esposa dele, Dagmeyma, ficou com pena de Milarepa e o trouxe para o empoderamento. Marpa pegou um grande bastão e perseguiu Milarepa enquanto o repreendia, não permitindo que este recebesse a iniciação. Sua esposa continuou pedindo que ele permitisse que Milarepa ficasse e recebesse a iniciação.

Marpa finalmente aceitou dar a iniciação a Milarepa por causa da compaixão que tinha por sua mulher. A razão pela qual Milarepa enfrentou tais obstáculos foi porque Marpa havia alcançado a iluminação após ter sido submetido a uma enorme quantidade de dificuldades para poder estudar com Naropa na Índia, e Naropa havia sido submetido a uma enorme quantidade de dificuldades e obstáculos para estudar com seu professor, Tilopa. A iluminação não vem com facilidade. Para alcançar certas realizações, Milarepa teria que ser submetido a dificuldades também. Marpa disse: "Quando o Milarepa está me servindo, eu sempre sou irado e contundente com ele. Mas me servir terá como resultado que ele alcance a iluminação nesta vida. Ele já fez coisas bastante difíceis como construir a torre." Mas Marpa ficou com pena de sua esposa, que estava demonstrando tanta compaixão por Milarepa, e permitiu que ele recebesse a iniciação. Após a iniciação, Milarepa teve que partir e fazer uma grande quantidade de meditações e práticas para alcançar a iluminação nesta vida ainda. Entretanto, por ter sido um servo muito fiel para Marpa, ele foi capaz de alcançá-la – e até mesmo depois disso, ele ainda teve que se submeter às dificuldades de meditar em cavernas.

A Raridade das Oportunidades de Encontrar o Dharma

Se aplicarmos tudo isso aos tempos atuais, há muitos grandes países no mundo nos quais a palavra Dharma nunca foi ouvida. Não há nenhuma representação do corpo, da fala e da mente do Buda, nem mesmo do tamanho de um dedo mindinho. Mesmo se existirem, elas não são tratadas como objetos sagrados nem são tratadas como preciosas. Nesses países, todo mundo está completamente empenhado em tentar que as coisas andem bem nesta vida, e todos estão investindo a energia em si mesmos. Assim, eles se convencem que isto é a única coisa a fazer na vida. Com esta base, eles tentaram alcançar um grande progresso material, construir estradas e milhares de coisas. Não importa quão maravilhoso seja o que eles fazem, não importa quanto progresso material eles têm, isso apenas cria mais e mais problemas, infelicidade e insatisfação. Isto é algo que todos vocês sabem. O próprio Buda Shakyamuni nasceu em uma família real. Ele era o filho de um rei e ele possuía grandes riquezas. Ele viu que isso não tinha essência, então ele abandonou tudo, e atingiu o despertar através de duros esforços.

Todos vocês também observaram que passar a vida inteira em busca de objetos materiais não tem nenhuma grande essência ou significado no que se refere à felicidade desta vida. Por isso, vocês se voltaram para questões espirituais do Dharma, e eu penso que isso é muito bom. Quanto às questões espirituais, elas são as várias medidas e práticas que beneficiarão suas vidas futuras e o que estiver além disto. Os melhores métodos para isso foram ensinados primeiro na Índia e depois foram propagados no Tibete.

As condições se tornaram insustentáveis no Tibete e não foi mais possível praticar o Dharma por lá. Sentimos que viver sem as práticas espirituais do Dharma não valia a pena, assim sendo, deixamos o Tibete como refugiados. Viemos para países como este e aqui encontramos pessoas como vocês que têm grande interesse no Dharma e em questões espirituais, e que não conhecem o idioma tibetano. É graças ao seu grande interesse e suas elevadas intenções de praticar o Dharma que o explicamos para vocês da melhor maneira possível.

Se vocês me considerarem como um exemplo, no Tibete, eu principalmente estudei com lamas e mestres da tradição Gelug. Na verdade, eu também recebi ensinamentos de vários lamas e mestres das tradições Sakya, Kagyu e Nyingma. Ao todo, eu estudei com cinquenta e três mestres espirituais. Eu me preocupo muito com a continuidade dos ensinamentos do Dharma, que ela não deteriore e simplesmente desapareça. Todos vocês têm tanto interesse em estudar o Dharma. Por isso, eu tento ensinar pessoas como vocês com a intenção de trazer-lhes algo benéfico.

Vocês observaram que não há um grande significado quando apenas nos envolvemos com coisas desta vida mundana. Vocês estão todos interessados em aprender essas medidas espirituais e vocês não sabem tibetano. É muito duro para vocês. Eu estou ficando bastante velho e se o Dharma não for ensinado, ele não estará mais disponível. Portanto, mesmo que eu não saiba tudo completamente, eu tentei explicar a vocês os ensinamentos do sutra e do tantra da melhor forma que pude.

É bem possível que vocês tenham dúvidas. Vocês escutaram que é apropriado pedir por ensinamentos e fazer um pedido por um período de três anos. Vocês sabem que é de praxe pedir várias vezes por uma iniciação antes de recebê-la de fato e que não é apropriado oferecer iniciações imediatamente após o primeiro pedido. Então talvez tenhamos dúvidas em relação ao porque dos ensinamentos e das iniciações estarem sendo oferecidas tão prontamente hoje em dia. No que me diz respeito, eu penso em termos de não querer que esses ensinamentos e linhagens desapareçam. Já que todos vocês têm grande interesse e intenções de praticar e eu estou ficando velho, eu concordo em dar iniciações e ensinamentos quando as pessoas me pedem por eles, sem fazer com que esperem por muito tempo. Eu faço isso com o desejo de beneficiar a todos.

O Significado do Dharma e Os Três Níveis da Prática do Dharma.

Qual o significado de Dharma? Dharma é uma medida preventiva que beneficiará nossas vidas futuras e o que estiver além disso. Quaisquer esforços que vocês fizerem para melhorar as coisas durante esta vida – para ter boas comidas e bebidas e uma casa bacana para viver – nada disso pode ser considerado uma medida preventiva (Dharma). Essas não são práticas espirituais. Se vocês quiserem que as coisas corram bem para vocês nesta vida, e oferecerem cem mil florins holandeses para um oficial para conseguir isso, isto não pode ser considerado uma medida preventiva. A maneira como vocês estão pensando é: se vocês derem cem mil florins de ouro, vocês receberão um milhão de volta. Isto é fazer negócios; isto não é prática espiritual. Se vocês apenas fizerem um pequeno ato, como dar um pedaço de pão para um animal, com a intenção de que isso lhe traga felicidade nas vidas futuras, isto é uma medida preventiva, isto é prática espiritual.

Há muitos diferentes níveis e âmbitos de medidas preventivas para melhorar as vidas futuras e o que estiver além delas. Se vocês estiverem tomando medidas preventivas para ser felizes nas vidas futuras, isto é uma prática Hinayana de uma mente modesta. Se vocês estiverem tomando medidas preventivas para trazer felicidade a todos em todas as vidas futuras, esta é uma prática Mahayana de uma mente vasta. Portanto, a melhor coisa é sempre trabalhar com a ideia de tentar tornar as coisas melhor e ajudar todos os seres com mentes limitadas, todos os seres sencientes.

Todos têm uma ideia diferente de como ser felizes, e todos têm um método diferente que seguirão para alcançar a felicidade. Da mesma forma, há muitos métodos diferentes de praticar em busca das vidas futuras. Entre estes, é necessário praticar de uma forma na qual vocês desejam felicidade para todos – para todos os seres limitados sem exceção. A motivação mais básica que vocês precisam ter é não desejar cair em nenhum tipo de renascimento mais baixo nas vidas futuras. Para isso, vocês aprendem as práticas de abandonar as dez ações destrutivas – as dez ações não virtuosas. Alguém que esteja ensinando o Dharma começará por explicar como evitar as ações destrutivas para poder evitar o renascimento em estados piores.

Há muitos diferentes tipos de práticas espirituais e religiões, e todos têm como objetivo trazer felicidade e aliviar ou nos livrar de problemas, sofrimento e infelicidade. No budismo, há três métodos principais envolvidos. O primeiro é a prática de evitar as dez ações destrutivas para prevenir o renascimento em um estado pior. Depois, é preciso seguir os três treinamentos excepcionais para que vocês possam sair de todos os problemas recorrentes – o samsara. O terceiro método de prática é fazer todas as diferentes práticas para alcançar a iluminação e ser capaz de beneficiar a todos. Esses são os três níveis de prática.

Alcançando a Felicidade

Quando ensino o Dharma, a minha intenção é de ser capaz de transmitir para vocês os vários métodos para alcançar esses objetivos. Quando ensino o Dharma [da tradição] Gelugpa não ensino com a intenção de que todos comecem a ser Gelugpa.

Eu não ensino nem mesmo com a ideia de que todos têm que se tornar budistas. O que desejo explicar ou contar a vocês, já que vocês não querem ser infelizes, é que todos os seus problemas e sofrimento vêm de ações negativas. Se pararem de agir de forma negativa, não terão mais problemas nem sofrimento. Se quiserem ser felizes, já que a felicidade é o resultado de agir de forma construtiva, vocês têm que agir de forma construtiva. Isso é o que eu tenho a dizer para vocês. Todos são iguais no sentido de que todos querem ser felizes e ninguém quer ser infeliz e ter problemas. Todos querem a maior felicidade possível e que ela dure para sempre.

No que diz respeito a gerar um estado de felicidade que seja duradouro, que perdurará e será o maior nível possível de felicidade, isto apenas é conquistado ao alcançar o estado plenamente desperto do Buda. Alcançar este estado significa ter a mente totalmente clara e plenamente desenvolvida, e alcançar o nível mais alto de todos os potenciais. No que se refere a como se tornar um Buda plenamente desenvolvido, que tem uma mente totalmente clara, nesta vida mesmo, os métodos para fazer isso estão explicados nos ensinamentos do tantra. Essas são as medidas ocultas para proteger a mente. No que se refere ao tipo de pessoa que poderia fazer essas práticas, todos nós temos a base para sermos capazes de fazê-las. Temos, como base, esta vida humana.

Embora tenhamos a base da mente e do corpo humanos, a melhor maneira de usá-la para despertar nesta vida mesmo é fazer um tipo de prática como aquela do grande Milarepa. Ele estava totalmente envolvido em investir todas as suas energias, do fundo de seu coração, para se submeter a quaisquer dificuldades que fossem necessárias para o alcance da iluminação. É o fato de não estarmos dispostos a assumir um compromisso de tal magnitude nem a nos submeter a tais tremendas dificuldades, que faz com que não sejamos capazes de alcançar uma mente clara e totalmente desenvolvida durante nossas vidas. Se olharmos para o exemplo de Milarepa, ele teve que se submeter a dificuldades tremendas e trabalhar muito duro antes de receber instruções ou ensinamentos. Depois disso, com a base da prática do tantra, ele foi capaz de alcançar seu pleno potencial e se tornar um Buda naquela vida mesmo. Todos vocês são muito afortunados porque a Sua Santidade, um ser completamente desperto, tem estado aqui no ocidente. Ele tem dado iniciações e vocês realmente tiveram a sorte de ser capazes de receber tais iniciações. O fato de que tiveram tanta sorte de recebê-las indica que vocês foram afortunados de ser recipientes apropriados para recebê-las.

Tornando-se Consciente em Relação à Morte e à Impermanência

Se vocês perguntarem onde deve começar a prática do Dharma, o primeiro ponto é não se enganar, ficando totalmente envolvidos com coisas desta vida. Se vocês perguntarem por que temos nos enganado e apenas trabalhado em coisas dessa vida, a razão é que não somos conscientes em relação à morte, à impermanência, ao fato de que nenhuma situação na vida permanece estática ou perdura para sempre. Primeiro, é extremamente importante pensar sobre isso e tornar-se consciente da morte e da impermanência.

Se vocês pudessem fazer com que a morte fosse embora, não escutando nada a este respeito já que vocês não gostam disso, isso seria muito bom. Mas quer vocês queiram ou não, a morte virá para todos. Quando ela vier, vocês ficarão muito infelizes, terão muitos problemas e sofrimento. Trata-se apenas de uma questão de tempo; e não há maneira de evitar isso. O que vocês podem evitar é toda a infelicidade e o sofrimento quando a morte acontecer. Se vocês tiverem uma prática que os faz agir de forma tão construtiva e positiva quanto possível, e abster-se das dez ações negativas o quanto for possível, e se viverem a vida desta forma, então à medida que envelhecerem vocês se tornarão mais e mais felizes. Vocês não estarão infelizes e em um estado mental terrível quando morrerem. É assim que começa toda a prática do Dharma. Indo além, há vários métodos envolvidos nos vários temas de sutra da prática e nas correntes eternas da prática das divindades do tantra (tantras). Nas próximas palestras, eu explicarei um pouco sobre as diferenças.

Se vocês quiserem meditar para desenvolver um hábito mental benéfico, a primeira coisa a se pensar é que ao nascer não há outra saída senão morrer no final. Este é o resultado natural do nascimento. Vocês desenvolverão um estado mental muito benéfico se vocês se tornarem atentos e conscientes do fato que, um dia, vocês morrerão, e se levarem isso a sério. Quando vocês pensarem sobre isso seriamente, então lhes ocorrerá o seguinte pensamento: se eu passar todo o meu tempo apenas trabalhando para acumular vários objetos e coisas durante esta vida, na hora da morte essas coisas não me ajudarão em nada. De todos os objetos que eu acumulei, não há nada que eu possa levar comigo. Pensar assim é algo que vocês desenvolvem como um forte hábito mental.

Uma Vida Humana Preciosa

Vocês também desenvolverão um ótimo hábito mental se tentarem se alegrar pelo fato de que vocês agora tem uma vida humana tão preciosa. Vocês têm que pensar que este é o resultado de todas as coisas positivas que foram feitas em vidas passadas. Vocês precisam se alegrar e se sentir felizes sobre aquilo que vocês fizeram no passado para produzir esta preciosa vida humana. No que diz respeito a esta vida humana, é possível tomar todas as medidas preventivas do Dharma que nos permitirão renascer em vidas futuras em estados e condições muito felizes. Podemos fazer isto com a base da prática que temos.

É claro que a melhor coisa que podemos fazer é alcançar nosso mais pleno potencial e nos tornarmos um Buda plenamente desenvolvido, de mente totalmente clara, durante esta vida mesmo. Isto é algo que podemos fazer baseados nesta preciosa vida que temos agora. Portanto, é muito importante aprender a apreciar sua preciosa vida humana e alegrar-se e sentir-se feliz em relação às possibilidades que vocês têm ao fazer progressos. Vocês meditam com o pensamento baseado nesta vida humana que têm agora, e vocês realmente podem evitar a queda em piores estados de renascimento no futuro. Desta forma, vocês podem realmente evitar ter que voltar a fazer a experiência dos problemas incontroláveis e recorrentes e da infelicidade do samsara. Vocês podem realmente alcançar seu potencial mais pleno, o estado do despertar de um Buda, e ser capazes de beneficiar a todos. Primeiro vocês meditam para tentar desenvolver um hábito mental benéfico, estar conscientes de todas essas possibilidades e sentirem-se felizes graças a elas.

Será que minhas palavras estão sendo úteis para vocês? Vocês gostaria que eu ensinasse vocês de outra forma?

Alunos: Não.

Se todos vocês já soubessem tudo a este respeito, eu poderia explicar isto de outra forma. Mas se isso for algo que vocês consideram benéfico, eu posso continuar a explicar desta forma. Mesmo se vocês já souberem tudo isso, é muito importante sempre ouvir e escutar ensinamentos de novo. É possível que vocês saibam tudo isso, e ao receber ensinamentos, vocês estão conscientes que o professor está explicando isso agora e que ele usará este exemplo. Mas mesmo se forem exatamente essas mesmas palavras, um discípulo pode obter um entendimento diferente; o nível do entendimento dele mudará. Quando vocês escutarem ensinamentos, não escutem apenas com a ideia de ser capazes de acumular informações. Vocês precisam escutar para poder realmente colocar em prática aquilo que vocês estão escutando. Este é o ponto principal.

A Inutilidade de Trabalhar para Metas que Servem Apenas Nesta Vida.

Esta é uma história sobre Geshe Langi-tangpa (Glang-ri thang-pa). Durante a sua vida ele apenas riu três vezes. Em sua oferenda de mandala, ele tinha um pedaço muito grande de uma turquesa. Certa vez, ele viu cinco ratos. Um deles estava voltando com a pedra sobre seu ventre e os outros o estavam arrastando pelo caminho, cada um com uma perna dele na boca. Quando ele viu isso, ele riu. Afinal, não é nenhuma grande realização ser capaz de conseguir objetos materiais. Até mesmo animais como ratos são capazes de acumular coisas. A segunda vez que este grande mestre riu foi quando ele viu alguém que seria executado na manhã seguinte passar a sua última noite consertando seus sapatos. A terceira vez foi quando ele viu algumas pessoas em um campo colecionando pedras para construir uma lareira. Um deles viu algo que parecia ser uma pedra na qual crescia grama e resolveu desenterrá-la. Era a cabeça de um ogro que estava deitado no chão. Como podemos ver, não há grande maravilha em ser capaz de realizar coisas nesta vida. Ser uma pessoa interessada em práticas espirituais que beneficiarão as vidas futuras, e muito além delas, é uma realização muito mais importante.

Quando temos uma preciosa vida humana pela qual nos interessamos tanto, temos que nos sentir muito felizes a este respeito. Em geral, se tivermos mil florins no banco, nos sentiremos muito felizes. Mas com este dinheiro, vocês não podem evitar renascer em um estado pior de renascimento, e não podem comprar o estado da iluminação.. No que diz respeito a esta preciosa vida humana, podemos de fato alcançar o estado desperto de um Buda. Portanto, temos que nos alegrar por aquilo que temos. A melhor coisa, é claro, é seguir o exemplo do grande Milarepa e renunciar a todas as preocupações mundanas relacionadas a esta vida, e apenas nos dedicarmos de forma totalmente focada em alcançar o despertar nesta vida. Mas é muito difícil para todos os praticantes de Dharma ser assim. Se não pudermos fazer como Milarepa e renunciar completamente a todas as coisas desta vida, podemos pelo menos ter uma postura de não nos envolvermos e preocuparmos tanto com coisas durante esta vida.

Por exemplo, podemos tentar desenvolver a atitude com a qual nós enxergamos que não há essência nas várias posses que temos, porque de qualquer forma quando nós morrermos não as teremos mais. Assim, de certo modo, elas já pertencem a outras pessoas. Se pensarmos desta forma, não nos agarraremos de forma tão aferrada àquilo que temos. Usamos aquilo que possuímos para nossa prática espiritual, como dar aos carentes, por exemplo.

Mesmo que vocês tenham esta atitude de não estarem tão envolvidos ou ser aprisionados pelas coisas desta vida, se vocês nasceram em circunstâncias nas quais possuem bens e riqueza material, em consequência de coisas positivas que fizeram em vidas passadas, não desperdicem nem joguem tudo fora. O outro extremo seria aferrar-se firmemente a tudo aquilo que vocês têm e nunca querer compartilhar nada. Isto é perigoso porque, se vocês forem tão possessivos e se aferrarem tão firmemente àquilo que possuem, poderão renascer como espíritos famintos e carentes. Essas são algumas coisas a considerar em termos de como vocês devem entender a prática espiritual do Dharma.

O fato de que tivemos uma oportunidade de encontrar a Sua Santidade O Dalai Lama, que é realmente um Buda iluminado,, e o fato de que temos interesse em assuntos espirituais, é o resultado de termos feito muito trabalho duro e positivo em vidas prévias, o que desenvolveu um tremendo potencial positivo. Agora, baseados nesta preciosa vida humana, precisamos trabalhar muito duro para alcançar um coração dedicado de bodhichitta e tentar alcançar o estado desperto de um Buda. Já trabalhamos tão duro em vidas passadas para chegar tão longe e para ter esta preciosa vida humana, então temos que pensar se queremos fazer tudo aquilo novamente. Agora que chegamos tão longe, precisamos terminar o caminho, desenvolver este dedicado coração de bodhichitta e realmente alcançar o despertar. Já que é possível alcançar o despertar nesta vida, é importante não desperdiçar nossas vidas.

Se vocês tivessem um pedaço de ouro do tamanho de uma de suas mãos, vocês não simplesmente o jogariam fora. Se vocês pegassem este pedaço de ouro e o jogassem no rio e então fizessem orações para obter outro pedaço de ouro, seria muito difícil que este desejo se realizasse. Não seguir nenhuma prática espiritual nesta vida, desperdiçar nossas vidas, e então rezar para ter outra preciosa vida humana no futuro é exatamente a mesma coisa. Se vocês perguntarem: "Quais são os vários tipos de medidas preventivas que realmente posso tomar?" Há muitas coisas que podem ser feitas. Deixe-me explicar algumas delas.

Evitar Tirar a Vida dos Outros

A primeira tem a ver com as ações do seu corpo. Não tirem a vida de nenhuma criatura. Para realmente matar alguém, quatro aspectos têm que estar completos. A base do ato de matar pode ser, por exemplo, uma ovelha. A intenção ou o pensamento envolve tanto a motivação quando o reconhecimento. É possível matar a partir desses três diferentes tipos de motivação: por desejo, por raiva ou ódio, ou por ignorância. A forma de matar por desejo é, por exemplo, abater um animal por desejo de comer carne. Ou a pessoa fica com raiva ou odeia algo tanto que acabam saindo e matando o bicho. A forma de matar por ingenuidade e pela ignorância de uma mente fechada, é por simplesmente não saber agir melhor que isso. Há pessoas que sacrificam muitos animais para fazer oferendas de sangue para alguns deuses; da mesma forma, algumas pessoas sentem que quando estão doentes e sacrificam um animal, isso as curará de sua doença. E quanto ao reconhecimento, se a pessoa tiver a intenção de matar uma ovelha e houver dois animais ali, uma cabra e uma ovelha, para que o ato seja completo, ela tem que matar a ovelha, não a cabra.

Quanto à ação em si que envolve o matar, algumas pessoas matam animais por sufocamento, colocando algo sobre sua boca e seu nariz para que o animal não possa respirar. Outros enfiam sua mão dentro dele e arrancam as entranhas. Outros cortam a garganta do animal. Para que a ação de matar a ovelha seja realmente completa, a ovelha tem que perder a sua vida; sua vida tem que acabar.

Há quatro tipos de resultados. O primeiro resultado é o resultado amadurecido. O resultado amadurecido de matar é um renascimento ou como um ser dos infernos, ou como um fantasma, ou como um animal. Até mesmo quando este renascimento chega ao fim e a pessoa renasce novamente como ser humano, os resultados daquela ação prévia ainda não estão terminados. Há mais resultados semelhantes à sua causa em termos daquilo que vivenciamos. Como resultados de encurtar e tirar a vida de outra pessoa, a pessoa terá uma vida muito curta, cheia de doenças. Há também um resultado semelhante com sua causa em termos de comportamento instintivo. Como resultado de matar, quando a pessoa renascer como ser humano, desde a infância ela será uma pessoa muito sádica que gosta de matar criaturas. Então há um resultado compreensível que envolve toda uma área ou um grupo de pessoas sendo mortas. A área na qual ela renasceu tem uma capacidade muito baixa de sustentar a vida. A comida é muito pobre e fraca; a medicina não é muito eficiente nem poderosa, etc.

Se a pessoa entender todas essas desvantagens e insuficiências que provêm do ato de matar, e como resultado disso, ela decidir não matar, então evitar matar será uma ação construtiva. O resultado de uma ação construtiva e positiva é que ela renascerá como ser humano ou como um deus. Um resultado correspondente à sua causa em sua experiência será que, ao renascer como ser humano, ela terá uma vida longa e não adoecerá, e já que ninguém gosta de morrer jovem nem ter doenças, a coisa a fazer é sempre evitar matar. O resultado que corresponde à causa em nosso comportamento seria, até mesmo enquanto crianças pequenas, sempre ter horror ao ato de matar. A pessoa nunca mataria e até teria repulsa ao pensar em comer carne. Os resultados compreensíveis são que, na área na qual ela nasceu, a comida será muito rica e nutritiva e a medicina será muito potente e eficiente. Ao evitar matar apenas uma vez, se isso tiver muitos efeitos positivos como esses, então se ela prometer nunca mais matar, isso trará efeitos contínuos, até mesmo quando ela estiver dormindo. Será uma ação construtiva o tempo todo.

O Buda Shakyamuni tinha muitos grandes discípulos – grandes ouvintes para os ensinamentos, shravakas – e cada um deles tinha uma especialidade. Alguns tinham a especialidade de poderes miraculosos, outros de sabedoria, e assim por diante. Aquele que tinha a grande especialidade de ser capaz de domar as mentes das pessoas nas áreas fronteiriças e não civilizadas era o ser altamente realizado arya, Katyayana (Ka-tya'i bu). Uma vez, quando Katyayana estava pedindo esmola na rua, ele foi á casa de um carniceiro. Ele explicou a este todas as dificuldades e desvantagens que vêm de abater animais e o carniceiro lhe disse: "Eu não posso prometer parar de matar animais durante o dia, mas eu prometerei que nunca matarei animais durante a noite." E ele fez isso.

Algum tempo depois disso, houve outro ser altamente realizado chamado Sangharakshita (dGe-'dun 'tsho). Naqueles dias, havia muitas pessoas que saíam para o oceano para tentar achar grandes tesouros. Eles não tinham os grandes navios que temos agora. Eles apenas tinham veleiros. Era o costume convidar uma pessoa espiritual para ser como o capelão do navio, assim eles convidaram este ser altamente realizado, Sangharakshita. Eles se perderam e acabaram chegando a uma terra distante. Sangharakshita saiu e chegou a uma casa muito bela. À noite, tudo estava belo. Havia muito para comer e beber, e tudo estava muito confortável. O proprietário da casa disse: "Por favor, não fique aqui até o sol nascer amanhã de manhã." Ele explicou que durante o dia, assim que o sol nascia, todos os animais vinham e o atacavam. Alguns o mordiam, outros o chutavam e outros o escorneavam. Era simplesmente terrível. Mas à noite, tudo ficava pacífico e calmo, assim que o sol se punha. "Então, por favor, parta quando o sol nascer, mas volte assim que escurecer."

Mais tarde, Sangharakshita voltou e encontrou o Buda Shakyamuni e explicou aquilo que ele viu. O Buda explicou que a pessoa desta casa era o renascimento do carniceiro que tinha feito um voto de não matar à noite, mas continuava a matar durante o dia. Por não matar à noite, tudo ficava muito lindo à noite. Mas por continuar a matar animais durante o dia, os animais sempre o atacavam.

Em termos daquilo que você mata, há uma diferença no tipo de potencial negativo que é desenvolvido de acordo com o tamanho da criatura. É muito pior matar um ser humano do que um inseto. Se a pessoa matar um arhat, um ser completamente desperto, ou matar sua mãe ou seu pai, isso é conhecido como crime hediondo, e é o tipo mais grave de assassinato que se pode cometer. Por exemplo, pode-se matar um pequeno piolho. Ainda que seja um pequeno ato prejudicial, se a pessoa matá-lo hoje e não admitir que fez algo de errado e não tentar se purificar, o potencial negativo crescerá, e amanhã será como se ela tivesse matado dois. Se a pessoa deixar para outro dia, o potencial negativo é o mesmo como se elas tivessem matado quatro. Continua a crescer desta forma, tornando-se o dobro a cada dia. Se ela deixar isso rolar por um ano, o potencial negativo de ter matado um pequeno piolho será muito grande.

O resultado de ter esmagado um inseto entre os dedos é renascer em um reino sem alegria, um inferno no qual se tem um corpo muito grande e se é esmagado entre duas grandes montanhas. Isso é algo que também se vê no reino humano. Há pessoas que caem das montanhas e dos despenhadeiros e são despedaçadas nas rochas, ou pessoas cujas casas nas montanhas caem. Este também é o resultado de um tipo de ação semelhante de esmagar uma criatura em vidas prévias. Se a pessoa considerar todas as coisas horríveis que ocorrem, todas as desvantagens e dificuldades que vêm com o matar, e ela prometer não tomar a vida de nenhum ser vivo novamente, isso será muito benéfico. Quando ela estiver andando e vir que há muitos insetos no chão, ela tem que tentar evitar pisá-los. Enquanto estiver andando, se ela acidentalmente pisar em pequenos insetos sem perceber, isso não será intencional. Portanto, não é o mesmo tipo de ação negativa.

É muito importante ver as desvantagens que vêm de matar, e prometer não voltar a matar. Ao fazer tal promessa, a pessoa será capaz de viver uma longa vida, ter boa saúde e ser livre de doenças. Se estiver praticando como um bodhisattva, como um ser dedicado, ela terá uma mente e um objetivo extremamente vastos. Podemos olhar para os exemplos de vidas prévias do Buda quando ele mesmo era um bodhisattva.

Uma vez, havia quinhentos passageiros em um barco que estavam trazendo grandes tesouros de pérolas e outras coisas preciosas. Entre eles estava um criminoso chamado Minag Dungdung (Mi-nag gDung-gdung). Naquela época, o Buda era um remador muito forte. Ele viu que Minag ia matar os outros quatrocentos e noventa e nove passageiros, roubar seus tesouros e pegar o comando do barco. Buda sentiu grande compaixão ao perceber quão terrível isso seria para todas as vítimas. Não somente isso seria terrível para o próprio criminoso, pois como resultado de matar quatrocentos e noventa e nove pessoas ele desenvolveria um terrível potencial negativo e renasceria em uma situação incrivelmente ruim. Como um bodhisattva dedicado, Buda viu que a única coisa que ajudaria seria dele mesmo matar Minag Dungdung. Ele entendeu que se fizesse isso, as quatrocentos e noventa e nove pessoas não perderiam suas vidas e ele poderia evitar que Minag desenvolvesse um potencial tão terrível. Ele pensou: "Se eu matar este criminoso, então eu desenvolverei o potencial negativo de ter que matar uma pessoa, mas tudo bem. Não importa que eu tenha que vivenciar um sofrimento muito grande e consequências por causa disso. Vale a pena aliviar o sofrimento das outras pessoas envolvidas." Com este pensamento muito corajoso, ele matou Minag Dungdung. Se a pessoa for um bodhisattva, então em tais situações será preciso matar. Mas se não estiver neste nível ainda, então não será apropriado matar.

Pode-se matar alguém, ou fazer com que alguém mate para vocês, o que também cria um potencial muito negativo. Na verdade, é muito pior. Isso cria um potencial negativo dobrado porque não somente vocês desenvolvem o potencial negativo de fazer com que outra pessoa mate, mas a outra pessoa também desenvolve um potencial negativo por realizar o ato por vocês. Se a pessoa for para a batalha como parte de um exército de quinhentos soldados, e tiver um sentimento forte em sua mente de que está indo lá para acabar com o inimigo, então mesmo se ela não matar ninguém, ela desenvolverá um potencial negativo como se tivesse pessoalmente matado as pessoas que o exército matou. Mesmo se outra pessoa naquele grupo de quinhentas pessoas fosse matar mil pessoas, esta pessoa mesma também desenvolveria o potencial de ter matado mil pessoas.

Quando se está em um grupo de soldados, isto é chamado de "voto de não-contenção". Em outras palavras, a pessoa faz uma decisão muito definitiva de não evitar matar de maneira alguma, de apenas sair e completamente destruir tudo aquilo que estiver no caminho. Isso desenvolve um potencial mais negativo ainda. Se a pessoa fizer um tipo de voto ou promessa desses, ela continuará desenvolvendo um potencial negativo até mesmo quando estiver dormindo. Por outro lado, mesmo quando for um soldado, se ela não tiver nenhum pensamento de matar ninguém, não haverá erro. Assim sendo, até mesmo se ela for um soldado, se ela perceber que é muito ruim matar e não tiver intenções de matar, e prometer não fazê-lo, não há erro algum. Se alguém matar um grande número de pessoas, e não há outra forma de pará-lo além de matá-lo, então fazer isso se torna em uma ação positive, porque será feita com uma motivação pura. Como no exemplo da vida prévia do Buda, é uma ação positiva, embora desenvolva o potencial negativo de matar.

Há algumas coisas envolvidas em evitar matar. Se vocês prometerem não matar, isso será muito positivo. Às vezes, há insetos chatos como mosquitos, que talvez possam transmitir malária, etc. Há sprays e produtos químicos que podem ser usados para matá-los. Quando usarem esses produtos sem que haja insetos na casa para evitar que eles venham, não há erro envolvido. Mas se fizerem isso enquanto a casa estiver infestada de insetos, há o erro de matar. Há muitos pontos da prática em termos de como evitar matar.

Evitar Roubar

O segundo ponto é não ser um ladrão, não roubar. O objeto envolvido, a base, tem que ser um objeto que pertence à outra pessoa. A motivação pode ser desejo ou raiva. Como descrevemos antes, pode-se roubar de alguém porque a pessoa tem um grande desejo por um objeto, ou porque ela está com muita raiva de alguém. A ação do roubo se torna completa quando ela tem a postura de sentir que “ agora o que eu tomei é meu”. Os resultados que seguem são renascimentos como uma criatura dos infernos ou um espírito faminto. Até mesmo quando ela renascer como ser humano, ela poderá renascer como alguém completamente pobre, que não tem quaisquer posses. Ou quando conseguir obter algo, isto sempre lhe será roubado. Este seria o resultado correspondente à causa em termos daquilo que ela vivenciará. Quanto aos resultados correspondentes à causa em termos de comportamento instintivo: há crianças que instintivamente saem e roubam mesmo embora elas tenham renascido em uma família rica. Um resultado compreensível é renascer em uma área muito pobre ou num país no qual todos não possuem nada. Por outro lado, o resultado de sempre deixar de roubar, é nascer em uma família rica, em um país muito rico.

Neste ponto, posso dar um exemplo da vida do grande Geshe Pen Kungyel, ('Phen rKun-rgyal), o grande bandido de Penpo. Vocês ouviram as histórias sobre sua vida? Quem ouviu falar dele? De quem vocês ouviram? Desculpe, mas eu as explicarei novamente para as pessoas que ainda não as ouviram. Eu conto essas histórias porque elas são muito úteis para a mente. Elas ilustram um grande ponto e não se trata apenas de contos de fada ou histórias inventadas.

Pen Kungyel quer dizer "rei dos bandidos de Penpo". Ele foi um ladrão notório. Ele vivia em uma fazenda em quarenta hectares de terra. Ele também saía para caçar e matar animais e pescar e roubar. Uma vez, em uma passagem alta da montanha entre sua casa e Lhasa, ele encontrou um viajante a cavalo. Este viajante, não reconhecendo com quem ele estava falando, perguntou: "Aquele bandido, Pen Kungyel, não está por aqui, não é?" Quando o Pen disse: "Eu sou Pen Kungyel", o viajante ficou com tanto medo que caiu de seu cavalo e do penhasco. Pen ficou tão incomodado que apenas escutar seu nome tinha o poder de fazer alguém cair no abismo que ele decidiu que a partir daquele momento ele nunca mais roubaria.

Depois disso, ele praticou o Dharma. Ele tentou evitar praticar as dez ações destrutivas e sempre seguir as dez ações construtivas. Toda vez que ele fazia algo construtivo, ele desenhava uma linha branca em uma pedra. Se ele fizesse algo negativo ou destrutivo, ele desenhava uma linha negra. No início, ele tinha bem poucas linhas brancas e muitas linhas negras. Com o tempo, ele teve menos linhas negras e mais brancas. À noite, se ele tivesse mais linhas negras, ele tomava a sua mão direita com a esquerda e dizia: "Você, rei dos bandidos de Penpo! Você é uma pessoa terrível! No passado, você foi um ladrão terrível e agora você continua a ser uma pessoa terrível!" Ele dava a si mesmo uma bronca bem intensa. Se ele tivesse mais linhas brancas ao final do dia, ele colocava a mão esquerda dentro da direita, apertava sua própria mão e se parabenizava. Ele se chamava por seu nome do Dharma, Tsultrim Gyalwa (“Aquele que é vitorioso com a autodisciplina ética”.) e dizia: "Agora você está se tornando uma pessoa positiva", e ele se parabenizava.

Com o tempo, ele se tornou bastante conhecido como praticante do Dharma. Certa vez, uma benfeitora o convidou para sua casa para comer. Quando ela saiu, por ele ter instintos tão fortes de roubar, ele colocou sua mão em uma cesta na qual ela guardava chá e começou a roubar. Ele parou, pegou sua mão com a outra mão, e gritou: "Ei, dona, venha rápido, eu peguei um ladrão!”.

Outra vez, ele estava convidado com muitos outros praticantes do Dharma para a casa de umas pessoas na qual serviram iogurte a todos. Ele estava sentado atrás observando enquanto o benfeitor vertia grandes quantidades de iogurte para as pessoas que estavam na frente. Ele começou a ficar preocupado e chateado que não sobraria até que ele fosse servido. Ele ficou sentado com pensamentos negativos, observando o iogurte sendo servido. Quando a pessoa o alcançou, ele percebeu o tipo de mente que tinha, virou a tigela para baixo e disse: "Não, obrigado, eu já comi o meu iogurte observando os outros."

Outra vez, uma benfeitora ia visitar a casa dele. Ele se levantou bem cedo naquela manhã, limpou seu quarto muito bem e arrumou um belo altar com flores e todos os tipos de incenso. Então, ele se sentou e honestamente examinou sua motivação para aquilo que havia acabado de fazer. Ele percebeu que se deu tanto trabalho para fazer um belo altar somente porque sua benfeitora viria e ele queria impressioná-la. Ele saiu e tomou um punhado de cinzas, voltou para dentro e jogou-as sobre tudo. Ele disse: "Antes, quando eu era um ladrão e trabalhava tão duro, minha boca muitas vezes não achava comida suficiente para se alimentar. Agora que me tornei praticante do Dharma, tantas pessoas vêm e me fazem oferendas que a comida não consegue achar uma boca grande o suficiente para a comida entrar em mim.”.

Se vocês pensarem em todos esses pontos ilustrados pela vida de Geshe Pen Kungye, isso dá muito que pensar e várias indicações sobre a melhor forma de praticar. Não é possível imediatamente parar de ser uma pessoa negativa e agir de forma tão destrutiva. Vocês têm que começar gradativamente.

Se praticarem da melhor forma que lhes for possível, vocês se tornarão pessoas mais positivas e construtivas. Então, no momento da morte, vocês não terão nenhum problema, infelicidade ou sofrimento. Todo mundo tem que morrer. Vocês não são as únicas pessoas que têm que lidar com esta situação. Se vocês morrerem tendo trabalhado a vida inteira para se tornar uma pessoa melhor, então vocês sentirão: "Eu não tenho realmente quaisquer arrependimentos sobre como vivi a minha vida. Eu fiz o melhor que pude e trabalhei o mais duro possível para ser positivo." Então vocês poderão morrer sem se sentir mal. Isso seria muito bom.

Evitar Comportamento Sexual Inadequado

Nós lidamos com as duas primeiras ações destrutivas do corpo. O terceiro tipo de ação física destrutiva é comportamento sexual inadequado. Um exemplo é um homem casado tomando outra mulher como parceira sexual. O resultado disso é que, quando ele renascer novamente como ser humano, sua mulher será infiel e terá muitos casos por detrás de suas costas. Além disso, ao olhar para insetos que nasceram em latrinas ou em áreas bem sujas com muito lixo, como moscas e vermes, geralmente é o resultado de comportamento sexual inapropriado.

O grande ser realizado Katyayana uma vez encontrou alguém que sempre teve comportamento sexual inadequado e tinha casos. Ele prometeu que não faria nada disso durante o dia, mas que não poderia evitar fazê-lo ou parar de ceder a tal comportamento à noite. Então ele fez um voto de parar apenas durante o dia. Mais tarde, o ser realizado Sangharakshita passou por uma casa onde morava alguém que era muito feliz durante o dia, mas à noite a situação ficava horrível e insuportável. Ele tinha problemas terríveis. Sangharakshita perguntou ao Buda sobre isso e o Buda explicou que este era o resultado da pessoa ter prometido não ter um comportamento sexual inapropriado durante o dia, mas não evitar fazê-lo durante a noite.

Evitar Mentir

No que se refere à fala: se a pessoa mentir e contar mentiras, então isso também desenvolverá um potencial negativo. Uma mentira é, por exemplo, dizer que algo que é assim não é assim, que algo que não é assim é assim, ou que alguém não tem algo quando a pessoa na verdade o tem, e vice-versa. O resultado de mentir seria se tornar como aqueles, que vemos nesta vida, para quem todos sempre mentem – eles estão sempre sendo enganados e decepcionados. Como resultado de evitar mentir, a pessoa renascerá em um país onde todo mundo é honesto e ela nunca é enganada por ninguém. Ninguém nunca mente para ela.

Nos tempos do Buda, havia uma pessoa chamada Kyewo-sudey (sKye-bo bsu-bde). Como resultado de nunca mentir, todas as vezes que ele ria, uma pérola caía de sua boca. Todo mundo contava piadas para tentar fazê-lo rir, mas ele o fazia bem raramente. Um dia, um monge vestido de maneira pomposa com o manto amarelo monástico, segurando o cajado de monge, foi para a corte do rei da área. O rei o levou para dar uma volta no palácio. Havia muitas pepitas de ouro em todos os cantos, às vezes muitas delas empilhadas. O monge colocou um mel pegajoso na ponta de baixo de seu cajado. Quando estava passeando, ele colocou seu cajado em cima de moedas de ouro e o ouro ficava colado embaixo de seu cajado. Quando ele saiu do palácio, um pedaço de penugem, como a pena de um pássaro, estava colado em seu manto. Ele pensou que isto não lhe dava boa aparência, então ele o tirou e assoprou. Kyewo- sudey viu este monge pomposo saindo do palácio com moedas de ouro coladas sob o seu cajado, mas puxando um pequeno pedaço de penugem branca e o assoprando, pois estava preocupado com sua aparência, e ele riu. Eram apenas ocasiões como esta que faziam com que Sudey caísse na gargalhada.

A rainha deste país tinha uma moralidade sexual muito solta. Ela ia para o quarto do palácio onde o serviçal que tomava conta dos cavalos reais vivia. Um dia, ela fez algo que este serviçal não gostou e este deu um tapa na cara da rainha. Mas a rainha não achou isso ruim. Outra vez, o rei tirou o anel de seu dedo e jogou na rainha, brincando com ela. O anel bateu gentilmente nela e ela começou a chorar. Sudey viu isso e caiu na risada. Se você evitar mentir, é possível ter este tipo de resultado também; a cada vez que você rir, uma pérola cairá de sua boca. Esses tipos de resultados virão.

Evitar usar Linguagem que Divide

O resultado de usar linguagem que divide é como aquilo que você vê em algumas famílias. Os membros estão sempre brigando e discutindo uns com os outros; os pais e filhos não se entendem absolutamente. Este é um resultado de ter usado linguagem que divide e dizer coisas que fizeram com que as pessoas ficassem distantes umas das outras. Da mesma forma, se você estiver em uma área na qual as coisas são duras e difíceis, na qual a paisagem é irregular e o terreno é muito difícil, isso também é o resultado de uma linguagem que divide. Como resultado de evitar usar a linguagem que divide, você renasce em um lugar muito plano, plano e belo, e você tem relações muito harmoniosas com todos.