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Equalizar e Trocar a Nossa Atitude Sobre o Eu e os Outros

Tsenzhab Serkong Rinpoche I
traduzido por Alexander Berzin
Dharamsala, India, 4 de Junho de 1983

Há duas tradições sobre o desenvolvimento da bodhichitta, um coração completamente dedicado aos outros e (dedicado também) a alcançar a iluminação a fim de os beneficiar tanto quanto possível – a tradição da causa e efeito em sete partes e a tradição de equalizar e trocar as nossas atitudes em relação ao eu e aos outros. Cada uma delas tem uma forma separada ou distinta de desenvolver previamente a equanimidade como uma preliminar. Embora cada uma tenha o mesmo nome de equanimidade, o tipo de equanimidade desenvolvido é diferente.

  1. Na meditação em sete partes de causa e efeito, a equanimidade, que aparece antes do reconhecimento de todos como tendo sido nossas mães, envolve a visualização de um amigo, um inimigo e um desconhecido e é a equanimidade com a qual deixamos de ter sentimentos de apego e aversão. Um dos seus nomes, de fato, é “a mera equanimidade com que deixamos de ter apego e aversão em relação a amigos, inimigos e desconhecidos.” Aqui, a palavra mera implica a existência de um segundo método que envolve algo adicional.

    Outro nome para este primeiro tipo de equanimidade é “a mera equanimidade que é a maneira de desenvolver a equanimidade em comum com os shravakas e os pratyekabuddhas.” Os shravakas (ouvintes) e os pratyekabuddhas (realizadores solitários) são dois tipos de praticantes dos ensinamentos Hinayana (veículo modesto [pequeno veículo]) do Buda. Aqui, mero implica que, com este tipo de equanimidade, nós não temos e nem estamos envolvidos com o coração dedicado da bodhichitta.
  1. A equanimidade, que desenvolvemos como a preliminar de equalizar e trocar as nossas atitudes em relação ao eu e aos outros, não é apenas o tipo de equanimidade acima descrito. É a equanimidade com a qual deixamos de ter sentimentos de proximidade ou de distância nos nossos pensamentos ou ações envolvidos no beneficiar e no ajudar a todos os seres limitados e no eliminar dos seus problemas. Esta é a forma especialmente distinta e rara do Mahayana (veículo vasto [grande veículo]) de desenvolver a equanimidade.

Mera Equanimidade

Se perguntarmos qual é o modo de desenvolver a equanimidade, que aparece antes do reconhecimento de todos como tendo sido nossas mães, no método em sete partes de causa e efeito, ele envolve as seguintes etapas.

Visualização de Três Pessoas

Primeiro, visualizamos três pessoas: uma pessoa totalmente má e desagradável de quem não gostamos ou que consideramos nossa inimiga; um amigo querido ou uma pessoa muito estimada a quem amamos; e um desconhecido ou alguém em relação ao qual não temos nenhum desses sentimentos. Visualizamos todos os três juntos. Primeiro,

Que tipo de atitude normalmente surge quando subsequentemente focalizamos em um deles de cada vez? Em relação à pessoa de quem não gostamos surge um sentimento desagradável, desconfortável e de repugnância. Relativamente ao amigo estimado e querido surge um sentimento de atração e de apego. E um sentimento de indiferença que não deseja ajudar nem prejudicar, surge em relação àquele que não é nem um nem outro, uma vez que não achamos o desconhecido nem atrativo nem repulsivo.

Acabar com a Repulsa em Relação a Alguém que Não Gostamos

[Para facilitar a discussão, suponhamos que as três pessoas vizualizadas são mulheres.]

Primeiro, trabalhamos com a pessoa que não gostamos, aquela que talvez até consideremos nossa inimiga.

  1. Deixamos o sentimento de a acharmos desagradável e antipática surgir. Quando este sentimento tiver surgido de um modo claro,

  1. Notamos que surge um sentimento adicional, nomeadamente que seria bom se algo de mal lhe acontecesse, ou se ela experimentasse alguma coisa que não desejasse acontecer.

  1. Depois examinamos as razões que levam estes maus sentimentos e desejos a surgir. Descobrimos geralmente que foi porque ela nos magoou, nos fez mal, ou porque nos fez ou disse algo horrível, a nós ou aos nossos amigos. É por isso que queremos que lhe aconteça algo de mal ou que ela não consiga obter o que quer.

  1. Agora, pensamos sobre essa razão que nos leva a desejar que algo de mal aconteça a esta mulher que tanto detestamos, e analisamos para ver se é realmente uma boa razão. Consideremos como se segue:

  • Em vidas passadas, esta suposta inimiga foi minha mãe e meu pai muitas vezes, assim como minha familiar e amiga. Ela ajudou-me muitíssimo inúmeras vezes.

  • Nesta vida, não é certo o que se vai passar. Mais tarde nesta vida ela pode vir a tornar-se muito prestável e uma boa amiga. Tais coisas são muito possíveis.

  • Em todo o caso, eu e ela iremos ter vidas futuras infinitas e, com toda a certeza, um dia ela será minha mãe ou meu pai. Desse modo, ela vai ajudar-me muito, e eu vou ter de pôr todas as minhas esperanças nela. Portanto, uma vez que ela já me ajudou no passado, está a ajudar-me no presente e irá ajudar-me no futuro de inúmeras maneiras, ela é afinal uma boa amiga. Isto está certamente decidido. Por causa disto seria idnamissível se, por qualquer pequena razão, tal como magoar-me um pouco nesta vida, eu a considerasse minha inimiga e lhe desejasse mal.

  1. Pensamos em alguns exemplos. Por exemplo, suponhemos que um bancário ou uma pessoa rica com o poder de me dar muito dinheiro e que tinha o desejo e a intenção de o fazer, e que já o tinha feito um pouco no passado, um dia perdia o controlo, ficava irritado e dava-me uma bofetada na cara. Se eu ficasse irritado e aferrado à minha raiva, isso talvez fizesse com que ele perdesse a vontade de voltar a dar-me mais dinheiro. Haveria até o risco dele mudar de ideias e decidir dar o dinheiro a outra qualquer pessoa. Por outro lado, se eu tolerasse a bofetada, mantivesse a cabeça baixa e a minha boca calada, ele poderia mais tarde ficar ainda mais satisfeito comigo por eu não ter ficado transtornado. Talvez até se decidisse a dar-me mais do que tinha originalmente pretendido. Contudo, se eu tivesse ficado transtornado e feito uma grande cena, então seria como no provérbio tibetano, “ você tem comida na boca mas a sua língua a deita fora.”

  1. Por conseguinte, tenho de considerar o [relacionamento a] longo prazo com esta pessoa de quem não gosto e o mesmo é verdade em relação a todos os seres limitados. A ajuda que eles me vão dar a longo prazo é cem por cento certa. Por isso, seria totalmente errado aferrar-me à minha raiva por causa de um ligeiro dano sem importância que qualquer pessoa poderia cometer.

  2. A seguir consideramos como, à mais ligeira provocação ou golpe, um escorpião ou um animal selvagem ou um espírito, atacam de imediato. Então, pensando em nós próprios, vemos que é errado agirmos como essas criaturas. Deste modo diluimos a nossa raiva. Temos de pensar que, independentemente dos danos que esta pessoa nos faz, não vamos perder a nossa compostura e ficarmos irritados, porque de outro modo não seremos melhores do que um animal selvagem ou um escorpião.

  1. Como conclusão, pomos tudo isto na forma de um silogismo de lógica. Eu vou deixar de ficar irritado com os outros devido ao mal que eles me fizeram porque

  • em vidas passadas, eles foram meus pais;

  • mais tarde nesta vida, não há certeza de que eles não se tornarão nos meus mais queridos amigos;

  • no futuro, eles irão a certa altura renascer como meus pais e vão-me ajudar bastante; assim, eles têm sido muito prestáveis nos três tempos;

  • e se eu de volta ficar furioso, então não sou melhor do que um animal selvagem. Por isso, vou deixar de ficar irritado com os pequenos danos que me possam fazer nesta vida.

Acabar com o Apego em Relação a Alguém de Quem Gostamos

  1. No grupo de inimigo, amigo e desconhecido que visuálizamos inicialmente, concentramo-nos na nossa amiga ou amada.

  2. Deixamos surgir o nosso sentimento de atração e de apego em relação a ela.

  3. Deixando nós próprios sentir mais intensamente o quanto queremos estar com esta pessoa, então

  4. Examinamos as nossas razões por termos tais paixões e apego. Foi por ela me ter dado uma pequena ajuda nesta vida, fez algo agradável por mim, fez-me sentir bem ou qualquer outra coisa assim, e deste modo sinto-me atraído a ela e sinto apego.

  5. Agora, examinamos se esta é uma razão adequada para termos tal sentimento. Também não é uma boa razão, porque:

  • em vidas passadas, ela foi indubitavelmente minha inimiga, feriu-me e até comeu a minha carne e bebeu o meu sangue.

  • Mais tarde nesta vida, não há certeza de que ela não se irá transformar no meu pior inimigo.

  • Em vidas futuras, está certamente decidido que ela, a dada altura, irá ferir-me ou fazer-me algo realmente horrível.

    6. Se eu ficar apaixonado e apegado a ela pela pequena razão de ela me ter feito algo agradável, mas trivial, nesta vida, então não sou melhor do que os homens seduzidos pelas canções das sereias canibais. Essas sereias tomam uma bonita aparência, seduzem os homens com as suas maneiras e depois, mais tarde, engolem-nos.

  1. Deste modo, decidimos nunca mais ficar apegados a ninguém devido a nos terem feito qualquer pequena coisa agradável nesta vida.

Acabar com a Indiferença em Relação a Alguém que Nos é Neutro

Em terceiro lugar, seguimos o mesmo procedimento com a pessoa que nos é neutral – o desconhecido que nem é amigo nem inimigo.

  1. Focalizamos em tal pessoa a nossa visualização,

  2. Deixamo-nos sem sentir nada, nem o desejo de prejudicar nem de ajudar, nem de nos livrarmos dela nem de estarmos com essa pessoa,

  3. e deixamo-nos sentir também a intenção de a ignorar.

  4. Examinamos por que razão nos sentimos dessa maneira. É porque ela não nos fez nada, nem para nos ajudar nem para nos ferir e assim não temos nenhuma relação com ela.

  5. Quando continuamos a examinar se esta é uma razão válida para assim sentirmos, vemos por fim que ela não é uma desconhecida, porque em inúmeras vidas passadas, daqui a algum tempo nesta vida e em vidas futuras, ela irá ser-nos próxima, ela será uma amiga e assim por diante.

Deste modo, seremos capazes de acabar com todos os sentimentos de raiva, de apego ou de indiferença para inimigos, amigos e desconhecidos. Este é o modo de desenvolver a mera equanimidade em comum com a dos shravakas e dos pratyekabuddhas e que é desenvolvido como uma preliminar ao reconhecimento de todos como tendo sido nossas mães, no método em sete partes de causa e efeito para desenvolver o coração dedicado da bodhichitta.

A Excelente Equanimidade Mahayana

O modo de desenvolvermos a equanimidade relacionada com o processo de equalizar e trocar as nossas atitudes em relação ao eu e aos outros é dividido em duas partes:

  1. a maneira de actualizar a equanimidade que depende do ponto de vista relativo,

  2. a maneira de actualizar a equanimidade que depende do ponto de vista mais profundo.

A maneira que depende do ponto de vista relativo é dividida em duas partes:

  1. a maneira de actualizar a equanimidade que depende dos nossos próprios pontos de vista,

  2. a maneira de actualizar a equanimidade que depende dos pontos de vista dos outros.

A Maneira de Realizar a Equanimidade que Depende dos Nossos Próprios Pontos de Vista

Esta envolve três fases.

  1. Uma vez que todos os seres limitados foram nossos pais, familiares e amigos em inúmeras vidas, é incorreto sentirmos que alguns são próximos e que outros são distantes, que este é um amigo mas aquele é um inimigo, darmos boas-vindas a uns e rejeitarmos a outros. Precisamos de pensar que, afinal de contas, se eu tiver visto a minha mãe há dez minutos, dez anos ou dez vidas, ela ainda é a minha mãe.

  2. No entanto, é possível que do mesmo modo que estes seres me ajudaram, também me tivessem feito mal algumas vezes. Contudo, comparado com o número de vezes que me ajudaram e a quantidade de ajuda que me deram, o mal que me fizeram é trivial. Por conseguinte, seria incorreto darmos as boas-vindas a uns como próximos e rejeitarmos outros como distantes.

  1. Nós vamos definitivamente morrer, mas a hora da nossa morte é totalmente incerta. Suponhamos, por exemplo, que fomos sentenciados a ser executados amanhã. Seria absurdo desperdiçar o nosso último dia ficando irritados e ferindo alguém. Decidindo por algo banal, estaríamos a desperdiçar a nossa oportunidade de fazer qualquer coisa de positivo e de significado com o nosso último dia. Por exemplo, havia uma vez um oficial de alta patente que tinha ficado furioso com alguém e resolveu puní-lo severamente no dia seguinte. Ele passou o dia inteiro a planear e, na manhã seguinte, morreu de repente antes de poder ter feito qualquer coisa. A sua raiva era completamente absurda. O mesmo seria verdade se a outra pessoa tivesse sido condenada a morrer no dia seguinte. Seria despropositado feri-la hoje.

A Maneira de Realizar a Equanimidade que Depende dos Pontos de Vista dos Outros

Esta é também dividida em três fases.

  1. Precisamos de considerar que no que me diz respeito, eu não quero sofrer nem mesmo durantes os meus sonhos, e não obstante quanta felicidade eu tenha, nunca sinto que ela seja suficiente. O mesmo é verdade em relação a todos os outros sem exceção. Todos os seres limitados, desde o minúsculo micróbio, desejam ser felizes e nunca ter de sofrer ou de ter problemas. Por conseguinte, é impróprio rejeitar alguns e dar as boas-vindas a outros.

  2. Suponhamos que dez pedintes batem à minha porta. Seria totalmente incorreto e injusto dar de comer apenas a alguns deles e não aos restantes. Todos eles são iguais na sua fome e na sua necessidade de alimento. Do mesmo modo, em relação à felicidade não tocada pela confusão – bem, quem é que a tem? Mas até mesmo a felicidade tocada pela confusão – todos os seres limitados têm falta de uma quantidade suficiente dela. É algo que todos têm um grande interesse em encontrar. Por isso, é impróprio rejeitar alguns como distantes e dar as boas-vindas a outros como próximos.

  3. Como outro exemplo, suponhamos que há dez pessoas doentes. São todas iguais uma vez que todas elas são infelizes e lastimáveis. Por isso, é injusto favorecer algumas, tratar apenas dessas e esquecermo-nos das outras. Do mesmo modo, todos os seres limitados são igualmente infelizes com os seus específicos problemas individuais e com os problemas gerais do samsara ou da existência incontrolavelmente recorrente. Por isso, é injusto e impróprio rejeitar alguns como distantes e dar as boas-vindas aos outros como próximos.

A Maneira de Realizar a Equanimidade que Depende do Ponto de Vista Mais Profundo

Esta também envolve três círculos de pensamento.

  1. Pensamos como é que nós, devido à nossa confusão, rotulamos como um verdadeiro amigo alguém que nos ajuda ou nos é agradável e como um verdadeiro inimigo alguém que nos magoa. Contudo, se eles fossem estabelecidos como existindo na verdade da maneira em que os rotulamos, então o Tathagata (Transformado de Acordo), o próprio Buda precisaria também de tê-los visto dessa maneira. Mas ele nunca os viu desse modo. Enquanto que Dharmakirti disse, em Um Comentário sobre o (“Compêndio de) Mentes de Cognição Válida" (de Dignaga) (Pramanavarittika), que “o Buda é o mesmo tanto para alguém que lhe aplica água perfumada num dos lados do seu corpo como para qualquer outra pessoa que lhe corta o outro lado com uma espada.”

    Podemos também ver esta imparcialidade no exemplo em como Buda tratou o seu primo Devadatta, que estava sempre a tentar prejudicá-lo devido à sua inveja. Portanto, precisamos também de evitar sermos partidários tomando partido por pessoas devido a pensarmos, com a confusão, que elas existem verdadeiramente nas categorias em que as rotulamos. Ninguém existe dessa maneira. Precisamos de trabalhar no sentido de acabarmos com o nosso agarramento à verdadeira existência. Este agarramento vem das nossas mentes confusas que fazem com que as coisas nos surjam de uma forma que não são verdadeiras.
  1. Além disso, se os seres limitados fossem estabelecidos como existindo verdadeiramente nas categorias de amigo e de inimigo, como nos agarramos a eles como se eles assim fossem, eles teriam de permanecer sempre nesse modo. Consideremos, por exemplo, um relógio que nós achamos que tem sempre a hora correta. Assim como é possível que a sua condição mude dentro de algum tempo e comece a ficar atrasado, assim, do mesmo modo, o estado dos outros não permanece fixo e pode também mudar.

    Se pensarmos sobre os ensinamentos relativos ao fato de que não há certeza nenhuma nas situações incontrolavelmente recorrentes do samsara, isso ajuda-nos aqui, como o exemplo do filho a comer o seu pai, a bater na sua mãe e a acalentar o seu inimigo. Este exemplo vem nas instruções para o desenvolvimento do nível de motivação intermediário nos estágios graduais do caminho à iluminação (lam-rim). Uma vez, o arya (ser altamente realizado) Katyayana foi a uma casa onde o pai tinha renascido na lagoa como um peixe e o seu filho estava a comê-lo. O filho então bateu no cão, que tinha sido a sua mãe, com as espinhas do peixe que tinha sido seu pai e acalentava uma criança nos seus braços que tinha sido seu inimigo. Katyayana riu-se do absurdo de tais mudanças de estado dos seres que vagueiam no samsara. Assim, precisamos de deixar de nos agarrar ou de nos aferrar às pessoas como se elas existissem nas categorias fixas e permanentes de amigo ou inimigo e, então, nessa base, deixar de dar as boas-vindas a uns e de rejeitar a outros.
  1. Em Um Compêndio de Treinamentos (Shikshasamuccaya), Shantideva explicou como o eu e o outro dependem um do outro. Como no exemplo das montanhas próximas e distantes, eles dependem ou são designações relativas uma à outra. Quando estamos na montanha próxima, a outra parece ser a distante e esta a próxima. Quando vamos para o outro lado, aquela onde estávamos transforma-se na montanha distante e esta onde agora estamos na próxima. Do mesmo modo, não somos estabelecidos como existindo como “eu” dos nossos próprios lados, porque quando olhamos para nós mesmos do ponto de vista de qualquer outra pessoa, tornamo-nos no “outro”. Similarmente, amigo e inimigo são apenas maneiras diferentes de se olhar ou de se considerar uma pessoa. Alguém pode ser, simultaneamente, amigo para uma pessoa e inimigo para outra. Assim como as montanhas próximas e distantes, tudo é relativo aos nossos pontos de vista.

As Cinco Decisões

Depois de termos pensado deste modo sobre os pontos descritos acima, precisamos de tomar cinco decisões.

Eu Vou Deixar de Ser Partidário

Quer do ponto de vista relativo ou do mais profundo, não há nenhuma razão para considerarmos algumas pessoas ou seres como próximos e outros como distantes. Portanto, precisamos de tomar uma firme decisão: eu vou deixar de ser partidário. Eu vou livrar-me dos sentimentos de parcialidade com os quais rejeito uns e dou as boas-vindas a outros. Porque a hostilidade e o apego me prejudicam, tanto nesta vida como em vidas futuras, tanto temporária como definitivamente, tanto a curto como a longo prazo, elas não trazem benefício algum. São raizes para centenas de tipos de sofrimentos. São como guardas que me obrigam a andar às voltas na prisão dos meus problemas incontrolavelmente recorrentes do samsara.

Pensem no exemplo daqueles que permaneceram no Tibete depois da revolta de 1959. Aqueles que estavam apegados aos mosteiros, à riqueza, às posses, às casas, aos familiares, amigos e assim por diante, não conseguiram tolerar deixá-los. Por isso, foram enterrados em prisões ou em campos de concentração durante vinte ou mais anos, por causa do seu apego. Tais sentimentos de parcialidade são os assassinos que nos conduzem aos fogos dos reinos infernais sem alegria. São os demónios em chamas dentro de nós que nos impedem de dormir à noite. Temos de os desenraizar de qualquer maneira.

Por outro lado, é importante temporária e definitivamente a partir de qualquer ponto de vista uma atitude igual para todos, com a qual desejamos que todos os seres limitados sejam felizes e sejam afastados dos seus problemas e sofrimentos. É o percurso principal viajado por todos os budas e bodhisattvas para obterem as suas realizações. É a intenção e o desejo mais profundo de todos os budas dos três tempos. Portanto, precisamos de pensar que, independentemente do dano ou da ajuda que quaisquer seres limitados me façam, eu do meu lado não tenho nenhuma alternativa. Eu recuso-me a ficar irritado ou apegado. Recuso-me a considerar uns como próximos e outros como distantes. Não pode haver nenhum outro modo ou método de se lidar com as situações, exceto este. Estou completamente decidido. Uma vez que todos querem ser felizes e não querem nunca sofrer, vou ter uma atitude igual no meu modo de pensar e agir em relação a todos. É nisto que vou fazer tanto esforço quanto possível. Oh, meu mentor espiritual, por favor inspira-me a fazer isto o melhor possível. Estes são os pensamentos que precisamos de ter quando recitamos o primeiro dos cinco versos em Uma Ceremónia de Oferendas para os Mestres Espirituais (Lama Chopa, Guru Puja) que estão associados a esta prática:

Inspira-nos a aumentar a alegria e o conforto dos outros,
Pensando que os outros e nós não somos nada diferentes:
Ninguém deseja nem o mais ligeiro sofrimento,
Nem nunca está satisfeito com a felicidade que tem.

Assim com este primeiro verso, rezamos para desenvolvermos uma atitude igual e não termos, nos nossos pensamentos e ações relacionadas com o trazer da felicidade e a eliminação do sofrimento de todos por igual, nenhuns sentimentos de proximidade ou de distância. Tal atitude de igualdade preenche a definição do tipo de equanimidade ou atitude equalizada com a qual aqui nos ocupamos. Tomamos a firme decisão de cultivar e atingir esta atitude, da mesma maneira como quando vemos um artigo maravilhoso numa loja e decidimos comprá-lo.

Eu Vou Livrar-me do Egoismo

Em seguida, pensamos sobre as desvantagens de termos uma atitude de auto-apreço. Por causa do interesse egoísta da atitude de auto-apreço, agimos destrutivamente, cometemos as dez ações negativas e consequentemente temos renascimentos infernais. Desde aí e durante o caminho todo até os arhat (seres liberados) que não alcançaram a iluminação – esse interesse egoísta causa a perda de toda a paz e felicidade. Embora os bodhisattvas estejam perto da iluminação, alguns estão mais perto do que outros. As diferenças que existem entre eles vêm da quantidade de auto-apreço que ainda têm. Desde as disputas entre países até à discórdia entre mestres espirituais e discípulos, dentro das famílias ou entre amigos – todas vêm do auto-apreço. Por isso, precisamos de pensar que se eu não me livrar desta terrível inflamação de egoísmo e de auto-apreço dentro de mim, nunca chegarei, de modo algum, um dia experienciar qualquer felicidade. Assim, eu nunca me devo deixar vencer pela onda do auto-apreço. Oh, meu mentor espiritual, inspira-me por favor a livrar-me de todo o interesse egoísta. Estes são os pensamentos com o segundo verso:

Inspira-nos a ver que esta doença crónica do auto-apreço
É a causa que faz surgir o nosso não-procurado sofrimento,
Assim, vendo-o como o responsável,
Inspira-nos a destruir o demónio monstruoso do egoísmo.

Assim, com o segundo verso, tomamos a firme decisão de nos livrarmos das nossas atitudes de auto-apre ço e interesse egoísta.

Eu Farei com que a Minha Prática Principal Seja Estimar os Outros

A seguir, pensamos sobre os benefícios e as boas qualidades que advêm da estima aos outros. Nesta vida, toda a felicidade e tudo a nos correr bem; em vidas futuras, nascimento como seres humanos ou deuses; e em geral, toda a felicidade até à realização da iluminação que vem da estima pelos outros. Precisamos de pensar bastante sobre isto, usando muitos exemplos. Vejamos, a popularidade de um oficial muito amado é devida à sua estima e interesse pelos outros. A nossa auto-disciplina ética de abstermo-nos de tirar a vida aos outros ou de roubar deriva da nossa estima pelos outros, e isto é o que nos pode conduzir ao renascimento como seres humanos.

Sua Santidade o Dalai Lama, por exemplo, pensa sempre sobre o bem-estar de todos em toda a parte, e todas as suas boas qualidades vêm da sua estima pelos outros. O bodhisattva Togmey-zangpo não podia ser prejudicado por Kama, o deus do desejo, que estava decidido a causar-lhe prejuizos. Este grande praticante tibetano era o tipo de pessoa que chorava se um inseto voasse para dentro de uma chama. Ele interessava-se sinceramente por todos os outros e por isso até os próprios espíritos e os tais interferentes não conseguiam prejudicá-lo, embora querendo, porque, como os próprios espíritos disseram, ele só tem pensamentos de nos beneficiar e estimar.

Numa das vidas passadas do Buda, quando ele nasceu como um Indra, um rei dos deuses, houve uma guerra entre os deuses e os anti-deuses. Os anti-deuses estavam a ganhar e então o Indra fugiu na sua carroça. Ele chegou a um ponto da estrada onde muitos pombos se tinham agrupado e, temendo atropelar algum deles, parou a sua carroça. Vendo isto, os anti-deuses pensaram que ele tinha parado a sua carroça para voltar para trás e atacá-los, e então fugiram. Se analisarmos isto, vemos que eles fugiram devido à atitude do Indra de estimar os outros. Assim, deste modo, precisamos de pensar sobre as vantagens de se estimar os outros, a partir de muitos pontos de vista.

Quando um juiz ou qualquer oficial muito formalmente se senta num escritório, a sua posição e tudo o que lhe diz respeito é devido à existência dos outros. Neste exemplo, a bondade dos outros consiste simplesmente no fato de que eles existem. Se não existisse nenhuma outra pessoa a não ser ele, não poderia ser juiz. Ele não teria nada que fazer. Além disso, mesmo se as pessoas existissem, mas se nunca ninguém lhe fosse ver, este juiz ficaria apenas sentado sem fazer nada. Por outro lado, se muitas pessoas o fossem ver, na esperança de que ele lhes resolvesse os seus casos, então, na dependência a eles, sentar-se-ia confortavelmente e servi-los-ia. O mesmo é verdade em relação a um lama. Na dependência aos outros, senta-se confortavelmente e ensina. Toda a sua posição é devida à existência de outros para ele os ajudar. Ele ensina o Dharma para os beneficiar e assim a ajuda que ele dá vem da sua dependência aos outros, tal como da sua lembrança com relação às bondades deles.

Do mesmo modo, é através do amor, da compaixão e da estima aos outros que podemos rapidamente nos tornarmos iluminados. Por exemplo, se um inimigo nos ferir e nós desenvolvermos a paciência e, desse modo, aproximarmo-nos da iluminação, ela surgiu devido à nossa estima pelos outros. Assim, uma vez que todos os seres limitados sem exceção são a base e a raiz de toda a felicidade e bem-estar, precisamos de decidir estimar sempre os outros, independentemente do que eles nos possam fazer ou como nos possam prejudicar. Os outros seres são como meus mentores espirituais, Budas ou jóias preciosas no sentido em que os vou estimar e ter um sentimento de perda se qualquer coisa de mal lhes acontecer, e nunca os irei rejeitar de modo algum. Terei sempre um coração amável e afetuoso para eles. Por favor, inspira-me, óh meu mentor espiritual, para nunca ser separado, nem por um momento, deste coração e sentimento pelos outros. Este é o significado do terceiro verso:

Inspira-nos a ver que a mente que estima as nossas mães
e que as levaria ao tranquilo-permanecer
É a passagem que conduz a infinitas virtudes,
E assim, a estimar estes seres vagantes mais do que as nossas vidas,
Mesmo que eles apareçam como nossos inimigos.

Deste modo, decidimos fazer, como o nosso foco central, a prática da estima pelos outros.

Eu Sou Definitivamente Capaz de Trocar as Minhas Atitudes sobre o Eu e o Outro

Confiando no método de se pensar sobre as muitas desvantagens do auto-apreço e sobre as muitas qualidades de estimarmos os outros, quando sentimos que devemos mudar os nossos valores sobre quem estimamos, e quando depois nos interrogamos se somos realmente capazes de o fazer, nós somos definitivamente capazes. Podemos mudar as nossas atitudes porque, antes de se tornar iluminado, o Buda era tal e qual como nós. Ele também estava similarmente vagueando de renascimento a renascimento, nas situações e problemas incontrolavelmente recorrentes do samsara. Não obstante, o Hábil Buda trocou as suas atitudes acerca de quem ele estimava. Agarrando-se à ideia de estimar os outros, ele alcançou o topo e a capacidade de satisfazer os seus próprios objetivos e os dos outros.

Nós, em contraste, apenas estimámos a nós mesmos e ignorámos todos os outros. Pondo de lado a realização de qualquer coisa em benefício aos outros, nós nem sequer realizámos o mais pequeno benefício para nós. Estimando-nos a nós próprios e ignorando os outros tornou-nos completamente incapazes de ajudar e incapazes de realizar qualquer coisa de verdadeiro significado. Não podemos desenvolver uma verdadeira renúncia ou determinação de sermos livres dos nossos problemas. Nós nem sequer conseguimos impedir que venhamos a cair num dos piores estados de renascimento. Assim, pensamos sobre as desvantagens do auto-apreço e sobre os benefícios de se estimar os outros. Se o Buda conseguiu mudar a sua atitude e começou tal como nós, também nós podemos mudar a nossa atitude.

E não apenas isso; com familiaridade suficiente até é possível estimar os corpos dos outros tal como estimamos os nossos. Afinal, nós retirámos fluidos do esperma e do ovo dos corpos de outras pessoas, ou seja, dos nossos pais, e agora os estimamos como nossos próprios corpos. No início eles não eram nossos. Portanto, precisamos de pensar que não é impossível mudar a minha atitude. Eu posso trocar as atitudes que tenho em relação ao eu e aos outros. Por isso, quer o que seja que eu pense sobre isso, tal não servirá, a não ser que eu troque as atitudes que tenho em relação ao eu e aos outros. Isto é algo que posso fazer; não é algo que não possa fazer. Assim, ó meu mentor espiritual, inspira-me a fazê-lo. Esta é a ideia do quarto verso.

Em breve, inspira-nos a desenvolver as mentes que compreendem as distinções entre
As falhas dos seres infantis que trabalham como escravos apenas para os seus fins egoístas
E as virtudes dos Reis dos Sábios que trabalham unicamente por causa dos outros,
E assim, a sermos capazes de equalizar e trocar as nossas atitudes
a respeito de nós e dos outros.

Assim, a decisão que aqui tomamos é a de sermos definitivamente capazes de trocar as nossas atitudes a respeito do auto-apreço e de estimar os outros.

Eu Irei Definitivamente Trocar as Minhas Atitudes a Respeito do Eu e dos Outros

Pensamos uma vez mais sobre as desvantagens do auto-apreço e das vantagens de se estimar os outros, mas desta vez fazêmo-lo numa forma alternada, misturando juntamente os dois. Ou seja, percorremos uma a uma as dez ações destrutivas e as dez ações construtivas, alternativamente, uma de cada lista de cada vez, e vemos os seus resultados em termos de auto-apreço e de estima aos outros. Por exemplo, se me estimar a mim mesmo não hesitarei em tirar a vida dos outros. Como resultado, irei renascer num reino infernal sem alegria e, mesmo quando nascer mais tarde como um ser humano, terei uma curta vida cheia de doenças. Por outro lado, se estimar os outros, deixarei de tirar as suas vidas e, como resultado, serei renascido num estado melhor, terei uma vida longa e assim por diante. Depois, repetimos o mesmo processo com o roubar e o deixar de roubar, ser indulgente para comportamentos sexuais impróprios e abandonar tais ações e assim por diante. Em breve, como o quinto verso diz:

Uma vez que estimar a nós próprios é a entrada para todo o tormento,
Enquanto estimar as nossas mães é a fundação para tudo o que é bom,
Inspira-nos a fazer com que a nossa prática central Seja o yoga de trocar os outros por nós próprios.

Assim, a quinta decisão é: eu irei trocar definitivamente as minhas atitudes em relação ao eu e aos outros. Isso não significa, é óbvio, decidir que agora eu seja você e que você seja eu. Em vez disso, significa trocar os pontos de vista a respeito de quem estimamos. Em vez de estimarmos a nós próprios e ignorarmos os outros, agora passamos a ignorar os nossos interesses egoístas e a estimar todos os outros. Se não fizermos isto, não há nenhuma outra maneira de conseguirmos alcançar qualquer coisa. Mas se fizermos esta troca de atitudes, então, nessa base, podemos depois treinar com as visualizações de dar a nossa felicidade aos outros e de receber os seus sofrimentos, como uma forma de se desenvolver o amor sincero e interessado e a simpatia compassiva. Com essa base, seremos capazes de cultivar a decisão excepcional de aliviar os problemas e os sofrimentos de todos e de trazer-lhes a felicidade, como tambem de cultivar o coração dedicado da bodhichitta com o qual nos esforçamos para a iluminação, de modo a sermos capazes de o fazer tanto quanto possível.

A fonte destes ensinamentos são o Engajando no Comportamento do Bodhisattva (Bodhisattvacharyavatara), por Shantideva, os ensinamentos dos mestres Kadampa e, naturalmente, Uma ceremónia de oferendas aos mestres espirituais, pelo Primeiro Panchen Lama. Aparecem nesta forma com seções numeradas em Os trabalhos coletados, de Kyabjey Trijang Dorjechang, o falecido Tutor Júnior de Sua Santidade o Dalai Lama. Contudo, ter-se demasiado interesse no esquema e nos números dentro dele é como se ter uma placa de sete momos (pequenas bolas ou tiras de massa cozida) à nossa frente e, em vez de os comer, queremos que alguém ateste quantos lá estão, qual foi a causa da sua forma e assim por diante. Em vez disso, sentem-se e comam!