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Lidando com as Experiências Difíceis que Surgem Durante a Meditação e os Retiros

Alexander Berzin
Julho de 2002

Introdução

Em termos das quatro nobres verdades, Buda ensinou: problemas, suas causas, o estado da sua total eliminação, e os caminhos mentais interiores que conduzem a essa eliminação. Consequentemente, para lidarmos com as experiências difíceis que surgem na meditação e nos retiros, e para eliminá-las, precisamos de saber as causas dos problemas.

Perspectiva, Meditação e Comportamento

Uma prática equilibrada do budismo abrange três áreas:

  1. uma atitude, visão ou perspectiva constructiva (lta- ba),

  2. meditação nela (sgom), ou seja, acostumarmo-nos à atitude,

  3. integração da perspectiva no nosso comportamento diário (spyod- pa).

Se qualquer destas estiver ausente, a nossa prática terá apenas um mínimo de resultados benéficos. Provavelmente enfrentaremos dificuldades e frustrações, não só na meditação, como também na vida.

  • Tentar meditar, mas sem uma perspectiva ou atitude construtiva como o estado mental que desejamos desenvolver através da meditação, pouco produz.

  • Aprender sobre uma atitude construtiva sem nela meditar pouca mudança faz em nós.

  • Meditar numa atitude construtiva sem a pôr em prática nas nossas vidas diárias, torna a nossa meditação um passatempo e produz pouco efeito.

  • Tentar adotar uma atitude construtiva nas nossas vidas sem nela meditar é extremamente difícil.

Escutar, Refletir e Meditar

Para meditar, precisamos de aprender acerca de uma atitude, visão, perspectiva ou estado mental construtivo. Assim, precisamos do poder de escutar (thos) uma explicação correta para, com essa informação, obtermos uma ideia verbal correta (sgra-spyi):

  • do estado de mente e coração que desejamos desenvolver – em quê que focaliza (dmigs- pa) e como toma esse objeto cognitivamente (‘dzin-stangs), tal como a compaixão dirigida ao sofrimento dos outros e suas causas, com o desejo de que eles sejam livres de ambos;

  • da função do estado mental – a emoção ou atitude destrutiva ou perturbadora que anula, e como funciona para a anular;

  • das vantagens de se desenvolver o estado;

  • das desvantagens de não o desenvolver;

  • daquilo que o estado mental depende – do que precisamos desenvolver antecipadamente, que irá servir como a base para se desenvolver o estado;

  • das instruções para desenvolvê-lo;

  • de como funcionam os métodos de desenvolvimento do estado para produzir o estado.

Depois, precisamos do poder de reflexão (bsam, pensar, contemplar, refletir) de modo a:

  • compreendermos todos os pontos acima;

  • termos uma ideia correta do que realmente significam as palavras que descrevem o estado (don-spyi) e do que as instruções realmente envolvem;

  • ficarmos convencidos de que o estado e os métodos para o atingir estão de acordo com a lógica, a experiência e os ensinamentos de Buda;

  • ficarmos convencidos das vantagens de obtermos o estado e das desvantagens de não o desenvolver, e termos consequentemente o forte desejo e intenção (‘dun-pa) de o alcançar. No budismo, o significado de motivação (kun-slong) é este desejo e intenção. A intenção pode ser não só conseguir este estado como nosso objetivo ou alvo, como também, quando o tivermos atingido, fazer algo com ele, como por exemplo ajudar todos os outros. A motivação ou alvo precisa ser acompanhada e apoiada por uma emoção ou atitude construtiva, tal como a compaixão;

  • ficarmos convencidos de que podemos alcançar o estado, com base numa compreensão realista do modo não-linear em que crescem as boas qualidades – o progresso ora sobe ora desce.

Com base nos poderes de correta escuta e reflexão, podemos então praticar a meditação para alcançarmos o estado mental construtivo e a ele nos acostumarmos. Para isso, precisamos de um professor espiritual para nos guiar, verificar o nosso progresso e corrigir quaisquer erros na nossa prática.

Meditação Diária

Para haver qualquer progresso com a meditação, é essencial termos uma prática diária. Tal como com a tomada de votos, se tivermos prometido fazer diariamente uma prática, nós eliminamos a dificuldade da indecisão sobre o meditar ou não diariamente. O bom hábito de meditar precisa de se tornar tão enraizado quanto o nosso hábito de escovar os dentes.

Além de seguirmos os métodos budistas gerais para a superação da preguiça e frustração, e para o desenvolvimento da auto-disciplina ética, paciência e perseverança alegre, são úteis etapas adicionais para minimizarmos as dificuldades no estabelecimento de uma prática diária de meditação.

  • Meditar de manhã cedo ao acordar ou à noite antes de deitar. Isto minimiza as distrações originadas pelas tarefas diárias e pelos ruídos da casa e da rua. Porém, à noite, não esperem até estarem tão cansados que se torne um esforço manterem-se acordados.

  • Não meditem com o estômago cheio, para não se sentirem pesados ou sem vivacidade.

  • Varram o chão e arrumem a sala de meditação, para ajudar a mente a se tornar mais tranquila.

  • Façam oferendas, pelo menos de tigelas de água, e ofereçam prostrações antes de se sentarem a meditar, para mostrar respeito.

  • Certifiquem-se de que a almofada de meditação é confortável, a fim de minimizar a dor física.

  • Façam com que a prática mínima diária seja curta, de modo a que seja realizável mesmo quando estiverem muito ocupados, doentes, ou a viajar.

  • Estruturem o período de meditação com: (1) preliminares – tais como, acalmar focalizando na respiração, reafirmar a motivação e fazer a prática dos sete-ramos; (2) a meditação principal; e (3) a dedicação. A menos que a força positiva da meditação seja dedicada ao alcance da iluminação para o benefício dos outros, ela apenas servirá para beneficiar a nossa existência samsárica.

  • Não tentem uma meditação demasiado avançada sem estarem bem preparados e prontos – não só em relação a possuirem os poderes de escuta e reflexão, e de terem meditado nas etapas a ela conducentes, como também em relação a possuirem suficiente maturidade e estabilidade emocionais.

Retiros Tântricos

Geralmente, no tradicional budismo tibetano, retiro significa fazer-se um retiro de servicibilidade (las-rung) com uma específica figura búdica (yidam, deidade). Completar tal retiro, juntamente com o seu puja de fogo final (sbyin-sreg), torna as nossas mentes serviçais [para] com a figura búdica e sua prática. Torna as nossas mentes serviçais para a auto-iniciação (bdag-‘jug) a fim de renovarmos os nossos votos tântricos, e serviçais para o engajamento em práticas mais avançadas da figura búdica.

Durante um retiro de servicibilidade, recitamos a sadhana para nos visualizarmos como uma figura búdica, e repetimos os associados mantras centenas de milhares de vezes. Podemos fazer isto num contexto de quatro, três, duas ou uma sessão por dia.

O número de mantras que recitamos durante a primeira sessão do retiro estabelece o número mínimo que precisamos de recitar cada dia. Por isso, recomenda-se que apenas se recite o mantra algumas vezes durante esta sessão inicial, por exemplo, apenas três vezes, de modo a que, se ficarmos doentes, possamos pelo menos fazer esse número. É importante nunca se quebrar a continuidade no retiro, faltando um dia de prática. Tendo apenas três repetições do mantra como o nosso número requerido, minimizaremos as dificuldades se ficarmos doentes.

Os retiros de servicibilidade não são intendidos como um período de estudo e familiarização com uma prática tântrica – para obter um “sabor” ou uma “experiência” deles. Os praticantes só os fazem depois de já os terem estudado e praticado; assim, deste modo, eles já têm uma profunda familiaridade e estão livres de questões ou de dúvidas.

Muitos praticantes tiram um tempo das suas vidas diárias para fazerem uma, ou mais, das práticas preliminares especiais para o tantra – tipicamente cem mil repetições de prostrações, do mantra de cem-sílabas de Vajrasattva, oferendas da mandala, e guru-yoga. Tal prática intensiva não é formalmente chamada “retiro”.

Uso do Termo Retiro no Ocidente Atual

Os atuais budistas ocidentais usam frequentemente o termo retiro para qualquer curso residencial de meditação, mesmo se apenas por um fim de semana, e para qualquer período de tempo tirado das suas ocupadas vidas diárias, passado em isolada meditação sobre qualquer tema. Isto pode incluir o tempo passado na reflexão sobre temas, tais como os do lam-rim (caminho gradual para a iluminação), para adquirir uma compreensão básica deles.

Alguns ocidentais também chamam um “retiro” ao tempo passado isoladamente no estudo e na familiarização de uma prática específica. O objetivo declarado é obter um “sabor” ou uma “ experiência”, para inspirá-los para a prática adicional.

Estes tipos de retiro podem conduzir à competição com outros praticantes, e ao desapontamento se não obtivermos nenhuma experiência. Se o objetivo de um retiro for a obtenção de uma experiência, é importante fazê-lo sem quaisquer esperanças ou expectativas de quaisquer resultados vindos dele.

Retiros Solitários Versus Retiros em Grupo

Tradicionalmente, os budistas tibetanos fazem retiros solitários. Por isso, dependem de si próprios para a disciplina. Se fizerem um retiro com outros – feito na maior parte para partilhar recursos económicos – geralmente cada pessoa medita sozinha; e, quando o retiro envolve a repetição de mantras, ao seu próprio ritmo.

Muitos ocidentais preferem os retiros em grupo onde todos os participantes meditam juntos. A principal vantagem é que tal método de prática faculta a disciplina que seria difícil de sozinhos estabelecerem. A desvantagem é que pode conduzir à dependência, à competição, distração e irritação.

Manter durante o retiro um silêncio rigoroso pode minimizar alguns destes perigos. Periódicas sessões de discussão opcionais podem dar a oportunidade de compartilhar experiências. Periódicas consultas obrigatórias com os professores espirituais que guiam os retiros facultam a supervisão que pode ajudar os participantes a evitarem erros e a tirarem dúvidas.

Lung (Distúrbios da Energia Sutil)

Quer em retiro, quer em meditação diária, é importante não puxarmos demasiado por nós. Puxar por nós causa ansiedade e frustração, geralmente referida em tibetano como distúrbios de lung (rlung, vento-energia sutil). Lung também pode surgir devido à insuficiente preparação para o retiro ou prática de meditação, e à confusão e frustração que vêm da falta de clareza sobre o que estamos fazendo ou porquê.

O lung pode manifestar-se como um pulso acelerado, dor em torno do coração e nas costas, e um sentimento geral de nervosismo, inquietação e irritabilidade. Pode causar visões, zumbidos nos ouvidos, experiências aparentemente “fora do corpo”, e/ou insónias.

Os distúrbios de lung não são fáceis de aquietar. Saber quando parar e descansar é útil, como também ver à longa distância, rir, afeição amigável, e mantermo-nos quentes. Se for necessário fazer uma sesta durante o dia, dormir durante vinte minutos é bastante para nos avivar, e suficientemente curto para nos evitar o sentimento pesado e mole que surge quando dormimos demasiado durante o dia. Evitar apanhar frio, estar em correntes de ar, vento ou debaixo de uma ventoinha, e evitar ouvir música alta, especialmente música com forte baixo e bateria. Máquinas, televisão alta e monitores de computador que emitem muita radiação também podem agravar o lung.

A dieta também afeta o lung. Alimentos que agravam os distúrbios de lung incluem:

  • café, chá preto, chá verde, chocolate, e quaisquer produtos contendo cafeína;

  • lentilhas;

  • galinha;

  • carne de porco.

Alimentos que acalmam os distúrbios de lung incluem:

  • produtos lácteos gordos;

  • leite morno;

  • borrego;

  • produtos de trigo, como o pão.

Distúrbios Emocionais Durante os Retiros

Frequentemente, durante os retiros, memórias profundas e emoções suprimidas vêm ao de cima. Isto acontece especialmente quando refletimos sobre os ensinamentos e quando fazemos meditações analíticas, especialmente com referência às nossas próprias experiências da vida. O ambiente calmo do retiro e a meditação baixam as nossas defesas internas e, consequentemente, elas [as memórias profundas e emoções suprimidas] surgem naturalmente. Em termos psicológicos ocidentais, o processo de meditação ajuda-nos a ganhar acesso ao inconsciente.

Se tais memórias e emoções surgirem, e a experiência delas for extremamente perturbante, é útil recitar um mantra, tal como om mani padme hum, com um sentimento de compaixão, e não as reprimir. O mantra e a compaixão fornecem um recipiente estável para a experiência. Especialmente quando não engajados num retiro de servicibilidade ou num retiro para desenvolvimento da concentração, o trabalho com esse material emocional, aplicando os métodos do Dharma, pode ser muito benéfico.