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A História do Período Inicial de Budismo e Bon no Tibete

Alexander Berzin, 1996

[Excertos da Interação Histórica entre as Culturas Budistas e Islâmicas antes do Império Mongol.]

2 Do Imperador Tri Songdetsen à Renovação do Budismo no Século XI

Revisão das Relações Tibetanas com a China

O Tibete e a China estabeleceram relações diplomáticas pela primeira vez em 608 d.C. quando Namri-lontsen (gNam-ri slon-mtshan), o pai do imperador Songtsen-gampo, enviou a primeira missão tibetana à corte chinesa por altura da Dinastia Sui (581 – 618 d.C.). Songtsen-gampo, por sua vez, enviou uma missão à corte Tang em 634 d.C. e casou-se, em 641 d.C., com a princesa chinesa Han, Wencheng (Wade-Giles: Wen-ch’eng),Quatro anos depois, ordenou a construção do primeiro templo tibetano em Wutaishan (Wade-Giles: Wu-t’ai shan, Tib. Ri-bo rtse-lnga), a sagrada montanha budista chinesa, a sudoeste de Beijing. Desde então, o Tibete mandou periodicamente outros enviados à corte Tang, apesar da guerra frequente entre os dois impérios.

O imperador Mey-agtsom, um século mais tarde, esteve particularmente interessado no budismo chinês han, indubitavelmente devido à influência da sua esposa budista chinesa han, a imperatriz Jincheng. Apesar do estado fraco do budismo na China Tang depois das restrições impostas nele pelo imperador Xuanzong em 740 d.C., Mey-agtsom tinha lá enviado uma missão em 751 d.C. para aprender mais sobre a religião. O interesse pelo budismo que o seu jovem filho, o futuro imperador tibetano Tri Songdetsen (Khri Srong-lde-btsan) (742 – 797 d.C.), tinha demonstrado também foi um fator the contribuiu para a sua delegação da missão. Foi dirigida por Ba Sangshi (sBa Sang-shi), o filho de um enviado tibetano anterior à China Tang.

Em 755 d.C., os ministros xenofóbicos da oposição assassinaram o imperador Mey-agtsom. Esta era a mesma facção que dezasseis anos antes tinha expelido os monges khotaneses e chineses han do Tibete que Jincheng, a imperatriz chinesa da étnia han, tinha convidado. O assassinato ocorreu no mesmo ano que a rebelião de An Lushan (Wade-Giles: An Lu-shan) e, como antes, os ministros provavelmente temeram que as inclinações do imperador para o budismo e para a China Tang trariam desastre ao Tibete. Talvez, também, o derrubo pelos abássidas do califado Umayyad em 750 d.C. e a rebelião de An Lushan incentivaram a sua intrépida manobra. Reminiscente do ataque contra o budismo chinês han perpetrado por An Lushan, os ministros xenofóbicos instigaram uma supressão do budismo no Tibete que durou seis anos. Seu alvo, porém, era mais provavelmente a facção pró-Tang da corte.

O Convite de Shantarakshita ao Tibete

A delegação à China, conduzida por Ba Sangshi, regressou ao Tibete em 756 d.C., trazendo com ela textos budistas. Ba Sangshi escondeu temporariamente os textos, por causa da atmosfera anti-budista dos tempos, mas encourajou Tri Songdetsen, ainda um menor naquela altura, na direção do budismo.

Em 761 d.C., Tri Songdetsen alcançou a maturidade e, quando ascendeu ao trono, proclamou-se oficialmente budista. Enviou então uma delegação ao recentemente fundado Império Pala (750 – fim do século XII) no norte da India. Incumbiu a missão, dirigida por Selnang (gSal-snang), de convidar o mestre budista Shantarakshita, abade de Nalanda, ao Tibete pela primeira vez.

Pouco depois da chegada do abade indiano, uma epidemia de varíola irrompeu no Tibete. A facção xenofóbica da corte responsabilizou o monge estrangeiro pela epidemia e expulsou-o do Tibete, como tinham feito aos monges khotaneses e chineses han no Tibete quando, em 739 d.C., uma epidemia semelhante irrompeu.

Porém, o imperador Tri Songdetsen não seria dissuadido da sua intenção de fortalecer a posição do budismo no seu reino. Era um líder extremamente poderoso e ambicioso. Durante o seu reino, o Tibete seguiu uma política expansionista agressiva. Tirando vantagem da fraqueza Tang após a rebelião de An Lushan, recapturou grandes partes do nordeste do Tibete que a China Tang tinha previamente tomado. Em 763 d.C. até tomou brevemente a capital Tang, Chang’an, no ano após a conversão ao maniqueísmo do Uighur qaghan, Bogu.

[ Ver Mapa Dezoito: Tibete no Início do Século IX.]

Depois, o imperador Tri Songdetsen moveu-se para o Corredor de Gansu, bloqueando o acesso direto da China Tang à Rota da Seda, cujo ramo nórdico principal se encontrava entre postos Tang em Turfan e Kucha. Isto forçou o comércio chinês a evitar o território dominado pelos tibetanos, passando para o norte através de terras Uighur na Mongólia Interior. Os tibetanos entraram então numa prolongada guerra contra os Uigures e a China Tang para o controle de Turfan e de Beshbaliq, onde o governo Tang mantinha apenas um controle nominal. O comércio chinês, desviado através da Mongólia Interior, precisava passar através destas duas cidades para alcançar a principal rota da seda nórdica.

Com a sua confiança e poder reforçados pelas suas vitórias militares, Tri Songdetsen uma vez mais despachou Selnang à India para tornar a convidar Shantarakshita. Desta vez, o abade indiano trouxe com ele Padmasambhava (Guru Rinpoche), para domesticar as forças espirituais do Tibete que eram hostis ao estabelecimento do budismo.

A Construção do Mosteiro de Samye

As grandes universidades monásticas budistas indianas de Bihar, tal como Nalanda, a instituição donde origina Shantarakshita, tinham apreciado ininterrupto suporte estatal por vários séculos, mesmo durante mudanças de dinastias políticas. O imperador Harsha (606 – 647 d.C.) da prévia Dinastia Gupta tinha suportado mil monges de Nalanda na sua corte e tinha até tocado os pés do moge chinês han, Xuanzang (Wade-Giles: Hsüan-tsang), como sinal de respeito.

A corrente Dinastia Pala estava patrocinando o budismo a uma extensão ainda maior. Gopala (750 - 770 d.C.), o seu primeiro imperador, tinha fundado a universidade monástica budista de Odantapuri, enquanto que o seu segundo, Dharmapala (770 – 810 d.C.), estabeleceu Vikramashila e Somapura. Embora Dharmapala tivesse expandido o seu império até às fronteiras de Gandhara no oeste e às de Bengal no leste, nunca tinha envolvido mosteiros budistas nas vicissitudes políticas e militares do estado. Nem nunca tentou regulá-los. Os mosteiros do norte da India tinham liberdade total para seguir o treinamento religioso.

Em 766 d.C., o imperador Tri Songdetsen, inspirado pelo exemplo do imperador indiano Gopala, mandou construir o Mosteiro de Samye segundo o modelo de Odantapuri. Seria o primeiro mosteiro budista do país a ser dedicado principalmente aos tibetanos. Durante a sua construção, os primeiros sete tibetanos nativos foram ordenados como monges e, pela altura da sua conclusão em 775 d.C., mais de trezentos compatriotas tinham-se juntado a eles. Antes disto, só tinha havido no Tibete templos budistas e alguns pequenos edifícios monásticos construídos para monges estrangeiros, tais como os refugiados khotaneses e chineses han de 720 d.C..

Embora os monges tibetanos tivessem sido ordenados na tradição indiana, o imperador Tri Songdetsen seguiu uma política de síntese cultural. Parte do seu motivo para esta política, porém, pode ter sido expediência política. Precisava balançar as exigências de três facções rivais na sua corte – tibetana nativa, pró-indiana e pró-chinesa. Assim, mandou construir o templo principal em Samye em três andares, com um andar no estilo arquitetural tibetano, um andar ao estilo do norte da India e um andar ao estilo da cultura chinesa han. Isto lembra-nos do fundador da sua dinastia, o imperador Songtsen-gampo e a sua tentativa de conseguir um equilíbrio semelhante casando-se por motivos politicos com princesas de Zhang-zhung, do Nepal e da China Tang.

Contatos Culturais com a China

Embora o imperador Tri Songdetsen lutasse contra a China para ganhar o controle da extremidade ocidental da Rota de Seda, parecia não ter um preconceito cultural contra os chineses han, particularmente a respeito do budismo. Os seus motivos militares eram primeiramente políticos e economicos.

Depois da rebelião de An Lushan ter sido eliminada e do regime imperial restaurado, os subsequentes imperadores Tang não só levantaram as limitações que tinham sido impostas ao budismo pelo imperador Xuanzong, como também patrocinaram a religião. Porém, ao contrário do caso na India Pala, os budistas chineses han, por sua vez, apoiaram igualmente o estado. Não é claro se isto veio da própria iniciativa dos budistas ou de uma política estatal para explorar a popularidade do budismo, a fim de fortalecer o suporte para o seu regime. Isto parece mais provável, devido aos precedentes do fundador da Dinastia Sui declarando-se um imperador chakravartin e a imperatriz Tang Wu declarando-se como o Buda Maitreya.

Em 766 d.C., o imperador chinês Daizong (Wade-Giles: Tai-tsung, 763 – 780 d.C.) fundou um novo mosteiro em Wutaishan chamado “O Templo do Pavilhão Dourado que Protege contra as Forças Demoníacas e Defende a Nação”. Um novo e popular texto budista chinês han apareceu, O Sutra do Rei Bodhisattva Que Defende a Nação . O imperador Tang tornou a impor mais perseguições contra os maniqueístas em 768 e 771 d.C., para defender a “pureza” do budismo desta religião condenada como uma falsa imitação.

Estes desenvolvimentos seguiram o padrão do budismo chinês nórdico durante o Período das Seis Dinastias (280 – 589 d.C.). Naquele tempo, os governantes não-han do norte da China controlavam estritamente os mosteiros budistas e patrocinavam-nos para executar rituais para o seu sucesso militar. Os monges, por sua vez, precisando da proteção imperial para sobreviver os tempos perigosos, foram obrigados a reconhecer estes regentes como Budas, a servir os seus governos e até mesmo a comprometer a pureza dos ensinamentos budistas ao serem obrigados a sancionar mesmo as mais severas políticas destes líderes.

O imperador Tri Songdetsen estava interessado em aprender mais sobre estes desenvolvimentos recentes na China, de acordo com a sua política de seguir uma síntese cultural dos costumes tibetanos, indianos e chineses. Assim, nos finais de 760 d.C., despachou não só Ba Sangshi, como também Selnang numa segunda missão à China Tang. No seu regresso, o imperador construiu o templo budista Nang Lhakang (Nang Lha-khang) em Dragmar (brag-dmar). O local era perto da corte imperial, perto do Mosteiro de Samye, que ainda estava em construção. O templo foi modelado segundo o Templo do Pavilhão Dourado que Protege contra as Forças Demoníacas e Defende a Nação. A implicação era que o budismo tomaria segundo lugar relativamente ao estado, como na China Han, e seria obrigado a servir os interesses sempre-crescentes do poder imperial tibetano.

A Conclusão do Mosteiro de Samye

Samye foi terminado em 775 d.C. e o imperador apontou Shantarakshita como o seu primeiro abade. Padmasambhava, porém, foi-se embora um pouco antes da sua conclusão. Sentiu que os tibetanos ainda não estavam prontos para os ensinamentos budistas mais profundos, particularmente a respeito do dzogchen (rdzogs-chen, a grande compleição). Consequentemente,escondeu textos sobre o assunto nas paredes e nas colunas do mosteiro, para uma recuperação mais tardia quando os tempos estariam mais maduros.

Tanto os professores chineses han como os indianos do norte foram agora convidados a Samye para ajudar a traduzir e a ensinar textos budistas. No entanto, Samye não era originalmente devotado exclusivamente ao budismo. As suas atividades abrangiam um espectro maior da cultura. Mestres da tradição pan-tibetana indígena também estavam presentes, para traduzir materiais da língua de Zhang-zhung para o tibetano. Nesta esfera também, Samye refletia a política imperial de síntese cultural.

Em 779 d.C., o imperador declarou o budismo a religião estatal do Tibete. Exentou certas famílias ricas de pagar impostos e em vez disso atribuiu-lhes o suporte financeiro da comunidade monástica que aumentava rapidamente. Duzentas famílias deveriam fornecer recursos para as oferendas do templo principal em Lhasa, e três famílias deveriam doar provisões para o mantimento de cada monge.

Tri Songdetsen foi inspirado a fazer isto talvez pelo exemplo do rei Shivadeva II (704 – 750 d.C.) da Dinastia Licchavi nepalesa. Em 749 d.C., este rei nepalês, embora não declarando o budismo a religião do estado, tinha incumbido uma vila inteira de manter seu mosteiro pessoal, Shivadeva Vihara. Embora os reis Maitraka e Rashtrakuta de Surashtra tivessem uma política semelhante de apoio aos mosteiros de Valabhi, é menos provável que Tri Songdetsen estivesse ciente deste precedente.

Paz com a China e o Estabelecimento do Conselho Religioso Tibetano

O imperador tibetano, ainda apoiando uma síntese cultural, pediu ao novo imperador Tang, Dezong (Wade-Giles: Te-tsung, 780 – 805 d.C.), em 781 d.C., para enviar, de dois em dois anos, dois monges da China han a Samye para instruir os tibetanos. Dois anos mais tarde, em 783 d.C., a China Tang e o Tibete, após décadas de guerra sobre Turfan e Beshbaliq, assinaram um tratado de paz, deixando as forças Tang com o controle das duas cidades do Turquistão Oriental.

Shantarakshita, o abade indiano de Samye, morreu pouco depois, também em 783 d.C.. Antes de falecer, avisou Tri Songdetsen que, no futuro, os ensinamentos budistas iriam declinar no Tibete por causa da influência chinesa han. Aconselhou o imperador a convidar, nessa altura, o seu discípulo Kamalashila da India para resolver o problema.

Tri Songdetsen apontou Selnang para suceder Shantarakshita como o primeiro abade tibetano de Samye. No mesmo ano, 783, o imperador estabeleceu um Conselho Religioso dirigido pelo abade de Samye, para tomar decisões sobre todas as questões religiosas. Este foi o começo da forma tibetana de governo que eventualmente continha ministros tanto leigos como ordenados.

Análise da Política do Conselho Religioso Tibetano

Nesta altura, havia três facções principais na corte imperial tibetana – a pró-India, a pró-China Tang e os xenofóbicos – cada uma apoiada por clãns específicos. Selnang era um membro do clã que liderava a facção pró-India. Tendo liderado missões imperiais à India Pala e à China Tang, ele sabia quão favorável a situação do budismo era na anterior comparada com a da última. Na India Pala, os mosteiros recebiam patrocínio do estado e apreciavam uma autonomia total, sem obrigações para com o estado. Nenhum estava envolvido nos negócios do outro. Além disso, desde a visita de Selnang, os imperadores Pala estavam enviando pagamentos tributários à corte tibetana, embora esta descrição possa ter sido um eufemismo para o envio de delegações comerciais. Não obstante, a esperança podia lá ter estado que o Estado de Pala também iria suportar as instituições budistas do Tibete. Na China Tang, por outro lado, os mosteiros budistas recebiam apoio estatal, mas somente ao custo de estarem sujeitas ao controlo governamental.

Na China Han, particularmente no norte, o budismo esteve frequentemente sob o patrocínio e o controle governamental. No entanto, dado que as casas governantes eram muitas vezes desafiadas e derrubadas, a religião estava frequentemente em terras instáveis. Por exemplo, a Dinastia Wei nórdica dos Toba (386 – 535 d.C.) teve um departamento do governo para administrar os mosteiros budistas do reino, com um chefe-monge escolhido pelo imperador. Este departamento tinha o poder de expulsar dos mosteiros os monges corruptos que desrespeitavam a disciplina monástica e abusavam da sua posição. Frequentemente o departamento exercitava as suas funções regulatórias de acordo com a lei. Contudo, quando o governo ficou sob o controle de ministros invejosos do favor imperial relativamente ao budismo, o departamento foi dissolvido e seguiram-se grandes perseguições religiosas contra os budistas, por exemplo em 446 d.C..

Ao estabelecer um Conselho Religioso, o imperador Tri Songdetsen estava talvez seguindo o modelo chinês han, mas misturou nele certos elementos indianos e tibetanos. De acordo com precedentes indiano-nepaleses, o estado apoiaria os mosteiros isentando certas famílias de impostos e, em vez disso, deputando-as com o fornecimento de provisões aos mosteiros e aos monges. Como na China Han, os mosteiros, por sua vez, executariam rituais para o bem-estar do estado. Isto também concordava com o antigo costume tibetano de ter os sacerdotes da tradição pré-budista nativa do Tibete servindo na corte imperial, executando rituais. Como no modelo chinês han, o departamento regularia os negócios budistas internos; mas, como no modelo indiano, apreciaria a autonomia do regulamento governamental.

Selnang, como membro do principal clãn pró-India na corte tibetana e chefe do primeiro Conselho Religioso, favoreceu naturalmente laços mais próximos com a India e ligações mais fracas com a China Tang. Além disso, estava especialmente preocupado em evitar o controle pelo governo ou a perseguição ao budismo ao estilo chinês han. Entretanto, o imperador Tri Songdetsen tinha acabado de se submiter à China Han na fronte política. Isto fortaleceu a mão da facção pró-China na corte tibetana. A situação estava favorável para que esta facção pressionasse o imperador para implementar uma política de controle dos mosteiros pelo governo ao estilo chinês han. Estava também favorável para a reação dos xenofóbicos na corte contra a forte ligação que estava sendo forjada com a China Tang e para renovarem a sua própria remoção de influências estrangeiras, incluindo o budismo.

Selnang e o Conselho Religioso precisavam agir rapida e decisivamente. A solução seria fortalecer a posição do Conselho de modo a não só ser autonomo, como ter também uma forte influência no próprio governo. Assim, Selnang convenceu o imperador Tri Songdetsen a permitir os membros do conselho religioso a assistirem a todas as reuniões ministeriais e a terem o poder sobre os seus ministros. Sob a orientação inicial do abade tibetano, o Conselho Religioso se tornou rapidamente mais poderoso do que o próprio Conselho de Ministros do imperador.

Remoção dos Xenofóbicos

Em 784 d.C., como um primeiro passo, o Conselho Religioso instituiu uma remoção dos xenofóbicos conservadores, mandando os seus líderes para o exílio em Gilgit e Nanzhao (Wade-Giles: Nan-chao),a noroeste da atual província Yunnan, na República Popular da China. Dado que esta facção tinha assassinado o pai do imperador vinte e nove anos antes e instigado uma perseguição de seis anos ao budismo, eles claramente apresentavam a maior ameaça.

Cronicas históricas budistas tibetanas do século XII d.C. descrevem o evento como uma perseguição aos sacerdotes bon que eram opostos ao budismo. Embora a presença mais tardia de aderentes ao bon organizado em Gilgit e Nanzhao indicasse que muitos que foram enviados para o exílio seguiam a tradição tibetana pré-budista, a natureza da remoção foi essencialmente política. Não foi baseada em diferenças doutrinais religiosas. Antes do fim do século XI d.C., o bon, afinal, não era uma religião organizada e o termo bon referia-se simplesmente a esta oposição, à facção xenofóbica da corte imperial.

Mestres budistas e da tradição tibetana nativa tinham trabalhado lado a lado traduzindo os seus respectivos textos em Samye até então. Contudo, porque a situação política era extremamente instável nesta altura, Drenpa-namka (Dran-pa nam-mkha’), o principal líder espiritual do sistema indígena em Samye, escondeu cópias da maioria dos textos da sua tradição para salvaguardá-las nas fendas dentro das paredes do mosteiro. Histórias mais recentes do bon tibetano, apoiando o relatório de uma perseguição religiosa, dizem que ele fingiu aceitar o budismo de modo a permanecer em Samye e proteger estes textos. Não obstante os seus motivos, está claro que claro que este mestre nativo permaneceu no mosteiro. Depois da remoção, ele ensinou um híbrido da sua tradição e budismo a mestres tibetanos famosos tais como o tradutor Vairochana.

As histórias religiosas tibetanas, budistas e bon, descrevem frequentemente eventos àluz das suas próprias agendas políticas. Porém, nenhuma fonte tibetana diz que Drenpa-namka ou que algum dos seus companheiros praticantes da tradição nativa foram forçados a renunciar os seus costumes e crenças e a converter-se ao budismo. É muito mais provável que a tradição indígena tibetana e o budismo tivessem sido misturados um com o outro desde pelo menos a época do imperador Songtsen-gampo. O primeiro imperador tibetano tinha requisitado que rituais de ambas as tradições fossem executados, e Drenpa-namka simplesmente continuou, e talvez até promoveu, esta tendência. Em todo o caso, a influência mútua de cada sistema religioso no outro teria ocorrido e expandido naturalmente devido à presença de mestres espirituais de ambos em Samye.

A maioria, ou talvez toda, a facção política xenofóbica que tinha sido removido da corte imperial pode ter seguido a tradição nativa tibetana. Contudo, isso não significa necessariamente que todos os praticantes dos seus rituais ou que todos os elementos do seu sistema foram expulsos do Tibete, como as histórias religiosas nos levariam a acreditar. Em 821 d.C., um segundo tratado de paz com a China Tang foi concluído com os rituais completos da tradição nativa, incluindo o sacrifício animal. Os fundadores da organizada religião bon e os mestres ecléticos bon/budistas no começo do século XI d.C. descobriram os textos escondidos por Drenpa-namka. Estes dois fatos indicam claramente que o Conselho Religioso Tibetano não implementou uma política de conversão forçada ao budismo. Indicam também que a fé nativa continuou a ser tolerada no Tibete central mesmo após as remoções de 784 d.C..

Neutralização da Facção pró-China Tang

Após a remoção de 784 d.C., o governo tibetano ficou com duas facções rivais. Alguns ministros eram do poderoso clãn do nordeste do Tibete que favorecia a China Tang, e donde a imperatriz viúva Trima Lo tinha vindo. A outra facção, à qual Selnang pertencia, vinha de um clãn rival do Tibete central que não confiava na corte Tang, e incentivava constantes guerras contra ela procurando ligações mais próximas com a India Pala e um forte Conselho Religioso.

Em 786 d.C., a paz de três anos com a China Tang terminou. Os Uigures tinham ajudado a rebelião de Jucu (Wade-Giles: Chü-ch’u) (783 – 784 d.C.) contra a casa governante Tang, e os tibetanos tinham ajudado as forças Tang a derrotá-los. A corte Tang tinha prometido entregar Turfan e Beshbaliq aos tibetanos como recompensa pela sua ajuda, mas quando o imperador Tang ignorou o seu acordo, os tibetanos atacaram.

Durante os cinco anos seguintes, os tibetanos tomaram Dunhuang (Wade-Giles: Tun-huang), da China Tang, eliminaram as forças Tang da competição com os Uigures sobre Turfan e Beshbaliq, e reafirmaram o seu forte domínio sobre os estados do sul da Bacia de Tarim, particularmente Khotan. Os Uigures tiraram vantagem da situação e, correndo com os seus vassalos nominais, os Qarluqs, para fora de Dzungaria e de partes do norte do Turquistão Ocidental, também tomaram da China Kucha. Porém, as forças Tang continuaram a desafiar o controle tibetano do Corredor de Gansu.

Nesta juntura das relações sino-tibetanas, o imperador tibetano Tri Songdetsen, convocou o famoso debate em Samye (792 -794 d.C.), no qual os representantes do budismo indiano do norte derrotaram os monges budistas chineses han. Isto decidiu, de uma vez por todas, que a forma principal de budismo a ser praticada no Tibete seria a do norte da India e não a dos chineses han. Um debate semelhante, com igual resultado, ocorreu também a respeito do sistema médico a ser adotado. Contudo, este desenvolvimento foi tanto um triunfo da perspectiva política da facção anti-China Tang como dos sistemas de asserções filosóficas budistas e da prática da medicina indiana. O Conselho Religioso apoiava, sem dúvida, a facção pró-India.Além disso, o fato de que Selnang era o intérprete para a maior parte do debate indica a oportunidade que ele teve de influenciar o resultado.

Sumário da Política Tibetana em Sogdia

O imperador Tri Songdetsen faleceu em 797 d.C. e foi sucedido pelo seu filho Muney-tsenpo (Mu-ne btsan-po) (r. 797 – 800). Este, por sua vez, foi sucedido por um segundo filho, Tri Desongtsen (Khri lDe-srong-btsan) (r. 800 – 815), também conhecido por Saynaleg (Sad-na-legs). Durante o reinado deste último, o califa al-Mamun tinha razões em ver o Tibete como uma poderosa nação quebapresentava ameaça, especialmente quando o Tibete e os seus aliados estavam ameaçando Sogdia e apoiando a revolta. Contudo, a sua análise dos motivos do Tibete e sua declaração subsequente do conflito como uma guerra santa estavam incorretas.

Tendo restabelecido o seu domínio sobre o Turquistão oriental, o Tibete estava certamente procurando expandir o seu território para o Turquistão Ocidental e, por conseguinte, tentaria certamente desestabilizar o regime dos seus inimigos. No entanto, o Tibete não estava preocupado em minar a religião do seu inimigo. O Conselho Religioso dos monges estava obcecado em ganhar o poder interno, sem oposições, do Tibete para assegurar o crescimento do budismo no país. Mal livrou o governo das facções que se poderiam opôr ou tentar controlá-lo, as suas atividades principais foram a compilação de um dicionário para estandardizar as traduções do sânscrito para o tibetano e a regulação dos textos a serem traduzidos paraque o budismo fosse melhor compreendido e permanecesse puro. Não estava preocupado com outras religiões nem em propagar o budismo no interior ou no exterior do Tibete.

Além disso, ao apoiar os seguidores sogdianos do islamismo Musalemiyya e do xiismo maniqueísta na sua rebelião anti-abássida, o Tibete não estava de modo algum mostrando favoritismo em relação às suas seitas religiosas. Os éditos do imperador Tri Songdetsen a respeito da escolha do budismo indiano como o suporte principal para o Tibete também rejeitavam claramente o maniqueísmo. Eles repetem a crítica de Xuanzong, o imperador chinês tang, de que o maniqueísmo é uma fraca imitação do budismo e é baseado numa mentira.

Imperador Tri Relpachen

Uma das razões principais porque os abássidas foram capazes de derrotar o vassalo tibetano, o Xá de Kabul, em 815 d.C. e de fazer , nos anos seguintes, incursões adicionais ao interior de Gilgit, terra controlada pelos tibetanos, foi sem dúvida a morte de Tri Desongtsen nesse ano. O novo imperador tibetano, seu filho Tri Relpachen (Khri Ral-pa-can, r. 815 – 836 d.C.), ascendeu ao trono quando ainda jovem criança e o Tibete não tinha uma liderança forte nessa altura. Contudo, pouco depois, quando Tri Relpachen amadureceu, ele tornou-se extremamente poderoso e fortaleceu a posição do budismo ainda mais.

Em 819 d.C., com a fundação do estado de Tahirid, os abássidas retiraram-se de Kabul e de Gilgit. Em 821 d.C., o Tibete assinou um segundo tratado de paz com a China Tang e no ano seguinte chegou a um acordo semelhante com os uigures. Os tibetanos mantiveram o Corredor de Gansu e Dunhuang, assim como Turfan e Beshbaliq. As últimas duas cidades tinham mudado de mãos entre os tibetanos e os uigures diversas vezes nas três décadas precedentes.

Animado pelas suas vitórias, o imperador Tri Relpachen construiu muitos novos templos budistas em celebração da paz e mudou a sua capital do Vale Yarlung para Lhasa, o local do santuário budista principal do Tibete. De acordo com histórias religiosas tibetanas, Tri Relpachen também fundou um departamento de tradução para compilar um dicionário de sânscrito-tibetano e para estandardizar a terminologia e o estilo de traduzir textos budistas. Na verdade, estes projetos começaram sob seu pai, o imperador Tri Desongtsen. Contudo, as histórias religiosas atribuem-nos a ele para mostrar a sua identificação de Songtsen-gampo, Tri Songdetsen e Tri Relpachan como os três principais patronos imperiais do budismo naquela época e, assim, encarnações das figuras búdicas Avalokiteshvara, Manjushri e Vajrapani. Isto ecoa estas histórias atribuindo as três figuras búdicas como os budas patronos do Tibete, China e os manchus, e Mongólia, respectivamente, e o fundador Gelug, Tsongkapa (Tsong-kha-pa Blo-bzang grags-pa, 1357 – 1419 d.C.), como a personificação de todos três.

Contudo, como a feroz figura Vajrapani, o imperador Tri Relpachen tornou-se um pouco fanático no seu fervor religioso. Ele não só aumentou o número de famílias incumbidas de sustentar cada monge de três para sete, pondo uma forte tensão na economia do estado, mas decretou que qualquer pessoa que apontasse o dedo desrespeitosamente a um monge teria-o cortado. Com o budismo numa posição tão forte e com a atenção dos abássidas desviada para outros lados, a conversão ao islamismo do Xá de Kabul teve pouco impacto duradouro na propagação do islamismo ao Tibete ou aos seus estados vassalos em Kabul ou em Gilgit.

A Dispersão do Império Tibetano

Em 836 d.C.,o imperador Relpachen do Tibete foi assassinado pelo seu irmão, Langdarma (gLang-dar-ma, r. 836 – 842). Assumindo o trono, o novo imperador instituiu uma severa repressão ao budismo por todo o Tibete. Tinha por objetivo acabar com a interferência do Conselho Religioso na política e com o dreno na economia feito pela política de Tri Relpachen de legislar apoio público aos mosteiros cada vez mais grandioso. O imperador Langdarma fechou todos os mosteiros e forçou os monges a abandonarem os hábitos. Porém, ele não destruiu fisicamente estes complexos nem as suas bibliotecas. Mesmo sem acesso à literatura escritural, o budismo continuou entre muitos praticantes leigos tibetanos.

Em 842 d.C., o deposto líder do Conselho Religioso, anterior abade de Samye, assassinou Langdarma. Seguiu-se uma guerra civil sobre a sucessão ao trono, resultando na dispersão do império tibetano. No decurso das duas décadas seguintes, o Tibete gradualmente retirou-se dos seus territórios em Gansu e no Turquistão Oriental. Alguns tornaram-se entidades políticas independentes - primeiro Dunhuang, que se tornou conhecido como o estado de Guiyijun (Wade-Giles: Kuei i-chün, 848 – 890s d.C.), governado por um clã chinês han local, e depois Khotan (851 - 1006 d.C.) governada pela sua própria intacta linhagem real. Noutros, chineses han locais tomaram inicialmente o controle, mas não fundaram um forte regime, por exemplo, Turfan, começando em 851 d.C.. Em 866 d.C., contudo, as comunidades imigrantes uigures destes territórios previamente tibetanos tinham-se tornado suficientemente fortes para estabelecer o seu próprio governo.

A Situação nas Regiões Tibetanas

Entretanto, o Tibete central estava lentamente recuperando-se do conflito civil que tinha seguido o assassinato, em 842, de Langdarma. Depois de vários fracos reinos do filho adotado do último imperador e de seus sucessores, o Tibete dividiu-se, em 929 d.C., em dois reinos. Um continuou, com um nível político fraco, no Tibete central e o outro, a Dinastia Ngari (mNga’- ris), estabeleceu-se na velho terra originária de Zhang-zhung, no oeste. Por fim, ambos tornaram-se interessados em renovar a tradição monástica budista a partir dos monges em Tsongka (Tsong-kha), nordeste do Tibete.

O budismo em Tsongka tinha continuado a prosperar, não afetado pela perseguição de Langdarma. Em 930 d.C., os tibetanos desta área começaram a ajudar a traduzir textos budistas da sua língua para uigure. Isto foi cinco anos depois dos khitans terem adotado o sistema de escrita uigure como o seu segundo sistema de escrita e, assim, foi o período em que a influência cultural uigure sobre os khitans estava alcançando o seu apogeu. Não é claro se a cooperação religiosa dos tibetanos de Tsongka com os uigures foi exclusivamente com os seus vizinhos imediatamente ao norte, os Yugurs amarelos, ou também com os Uigures de Qocho mais para o oeste. Os dois grupos túrquicos compartilhavam a mesma língua e cultura.

O contato religioso tibetano-uigure e o trabalho de tradução aumentaram durante a segunda metade do século X d.C., especialmente durante a época em que os tibetanos e os Yugurs amarelos foram aliados na guerra contra os tangutes. Em 982 d.C., o ano em que o Império Tangute foi fundado, o peregrino chinês han Wang Yande (Wade-Giles: Wang Yen-te) visitou a capital Yugur amarela e relatou mais de cinquenta mosteiros.

Esforços do Rei Yeshey-wo para Revitalizar o Budismo no Tibete Ocidental

A linhagem monástica budista de ordenação foi renovada no Tibete central em meados do século X d.C., a partir dos monges tibetanos centrais que tinham fugido para Tsongka e depois mudado para Kham.

[Ver: A Origem do Chapéu Amarelo Usado pelos Monges da Tradição Gelug.]

Posteriormente, os reis Ngari do Tibete ocidental fizeram grandes esforços para restaurar ainda mais o budismo ao seu nível anterior. Em 971 d.C., o rei Yeshey-wo (Yeshey- wo) enviou Rinchen-zangpo (Rin-chen bzang-po, 958 – 1055 d.C.) e vinte e um jovens a Caxemira para instrução religiosa e de línguas. Visitaram também a Universidade Monástica de Vikramashila na parte central da India setentrional.

Caxemira, nesta altura, estava nas fases finais da Dinastia Utpala (856 – 1003 d.C.) que tinha seguido o regime Karkota. O período Utpala tinha testemunhado muita guerra civil e violência em Caxemira. Determinados aspectos do budismo tinham-se misturado com a forma shaivite do hinduismo. No entanto, pelo começo do século X d.C., o budismo caxemiriano tinha recebido novo ímpeto com a renovação da lógica budista das universidades monásticas do norte da India. Um breve impedimento tinha ocorrido durante o regime do rei Kshemagupta ( 950 – 958 d.C.), quando este regime hindu invejoso tinha destruído muitos mosteiros. Contudo, pela época da visita de Rinchen-zangpo, o budismo estava sendo lentamente reestabelecido.

Embora o budismo tivesse recentemente alcançado o seu ápice em Khotan, que tinha sido proximamente ligada com o Tibete ocidental há séculos, a luta armada entre Khotan e os Qarakhanids tinha começado em Kashgar no ano da partida de Rinchen-zangpo. Khotan já não era um lugar seguro para o estudo budista. Além disso, os tibetanos desejavam aprender sânscrito da sua fonte no subcontinente indiano e fazer, eles mesmos, as traduções da lingual original. Interpretações khotanesas dos textos sânscritos budistas eram frequentemente paráfrases, enquanto que os tibetanos, flagelados pela confusão sobre a doutrina budista, desejavam mais exatidão. Assim, apesar do budismo também estar numa posição precária em Caxemira, era o único lugar relativamente seguro e próximo onde os tibetanos poderiam receber instruções de confiança.

Apenas Rinchen-zangpo sobreviveu à viagem e ao treino em Caxemira e nas Planícies Gangéticas do norte da India. Quando, em 988 d.C., regressou ao Tibete ocidental, Yeshey-wo já tinha estabelecido diversos centros de tradução budistas com os eruditos monges caxemirianos e indianos que Rinchen-zangpo tinha enviado de volta ao Tibete com numerosos textos. Os monges que tinham sido convidados de Vikramashila começaram uma segunda linha de ordenação monástica.

Nos últimos anos do século X d.C., Rinchen-zangpo construiu diversos mosteiros no Tibete ocidental, que naquele tempo incluía partes de Ladakh e de Spiti na atual India trans-himalaiana. Visitou também Caxemira mais duas vezes a fim de convidar artistas a decorar estes mosteiros por forma a atrair a devoção dos tibetanos comuns. Isto aconteceu apesar de uma mudança de dinastia em Caxemira, com a fundação da linha do Primeiro Lohara (1003 – 1101 d.C.). A transição dinástica foi pacífica e não perturbou a situação do budismo caxemiriano.

O cerco de Khotan pelos Qarakhanid tinha começado em 982 d.C., seis anos antes do regresso de Rinchen-zangpo. Por ocasião de sua chegada, muitos budistas já se estavam agrupando no Tibete ocidental como refugiados, o que indubitavelmente também ajudarou a renovação do budismo nessa área. Eles eram provavelmente de Kashgar e das áreas entre Kashgar e Khotan que se encontravam ao longo linha de abastecimento dos Qarakhanids. Embora a maioria dos que fugiram tivesse passado através de Ladakh de caminho para o Tibete, não se voltaram para o oeste e não se estabeleceram em Caxemira, que era próxima, o que teria sido uma viagem muito menos difícil e mais curta. Isto foi talvez devido ao Reino Ngari parecer ser mais estável política e religiosamente face ao patrocínio e forte regime de Yeshey-wo. Outro fator podem ter sido os longos laços culturais entre a região e o Tibete. Em 821 d.C., monges khotaneses tinham também fugido para o Tibete ocidental procurando refúgio da perseguição.

Ajuda Militar Tibetana a Khotan

O reino tibetano ocidental Ngari era ainda muito recente quando, na década de 930 d.C., os Qarakhanids de Kashgar se converteram do budismo ao islamismo. Tendo surgido como uma entidade política a partir de uma ruptura com o Tibete central sobre uma questão de sucessão em 929 d.C., Ngari era de início militarmente fraco. Mal podia arriscar uma rivalidade com os Qarakhanids devido a diferenças religiosas. Por forma a sobreviver, teria de manter relações amigáveis com os seus vizinhos.

Contudo, de acordo com histórias budistas tibetanas que surgiram mais tarde, o rei Yeshey-wo de Ngari, na viragem do século XI d.C., foi ajudar a cercada Khotan. Isto foi sem dúvida devido tanto ao medo de uma maior expansão política Qarakhanid quanto à preocupação pela defesa do budismo. Embora os tibetanos e os Qarluq/Qarakhanids tivessem sido aliados por séculos, nunca tinham ameaçado os territórios um do outro. Além disso, o Tibete tinha sempre visto Khotan dentro da sua esfera de influência legítima. Consequentemente, quando os Qarakhanids excederam o limite desta esfera, as relações entre as duas nações mudaram.

De acordo com histórias budistas tradicionais, o rei Yeshey-wo foi tomado como refém pelos Qarakhanids (Tib. Gar-log, Turk. Qarluq), mas não permitiu que os seus súditos entregassem o exigido pagamento. Aconselhou-os a deixarem-lhe morrer na prisão e a usarem o dinheiro para convidar mais professores budistas do norte da India, especificamente Atisha, de Vikramashila. Muitos mestres caxemirianos estavam visitando o Tibete ocidental no início do século XI d.C. e vários estavam lá espalhando corrupções da prática budista. Como isto estava piorando o nível de compreensão do budismo, que já era pobre no Tibete devido à destruição dos centros de estudos monásticos na altura de Langdarma, Yeshey-wo desejava eliminar esta confusão.

Há muitas inconsistências históricas neste relato religioso sobre o sacrifício do Yeshey-wo. O cerco de Khotan terminou em 1006 d.C., enquanto que Yeshey-wo decretou, em 1027 d.C., da sua corte, um édito final para regular a tradução de textos budistas. Por conseguinte, não morreu na prisão durante a guerra. De acordo com a biografia de Rinchen-zangpo, o rei morreu de doença na sua própria capital.

Não obstante, este relato apócrifo indica indiretamente que os tibetanos ocidentais não eram um forte poder militar naquela época. Não foram eficazes em terminar o cerco de Khotan e não apresentaram uma ameaça séria a qualquer futura expansão Qarakhanid ao longo do ramo da Rota da Seda do sul de Tarim. Não teriam sido capazes de defender os nomades tibetanos que lá viviam.

O Desaparecimento do Budismo em Khotan

Relatos da ocupação Qarakhanid de Khotan, seguindo o cerco e a posterior rebelião, são marcados por um silêncio a respeito da população nativa. Um ano depois de a insurreição ter sido esmagada, a missão khotanesa de comércio e de tributo enviada à China Han continha apenas muçulmanos túrquicos. A língua túrquica dos Qarakhanids substituíu completamente a khotanesa e o estado inteiro tornou-se islâmico. O budismo desapareceu completamente.

Os tibetanos perderam contato com a sua prévia possessão de tal modo que o nome tibetano para Khotan, Li, perdeu o seu significado original e passou a referir-se ao Vale Kathmandu do Nepal como um acrônimo para a sua prévia dinastia governante, a de Licchavi (386 – 750 d.C.). Todos os mitos budistas a respeito de Khotan também foram transferidos para Kathmandu, tal como a sua fundação por Manjushri drenando um lago ao dividir uma montanha com a sua espada. Pelos séculos XII e XIII d.C., os tibetanos tinham esquecido que estes mitos tinham alguma vez sido associados com Khotan. Assim, os relatos budistas tibetanos do sacrifício do rei Yeshey-wo incluem o seu aprisionamento pelo “Garlog”, isto é, os Qarakhanid Qarluqs, ocorrendo anomalamente no Nepal. Embora houvesse uma guerra civil no Nepal entre 1039 e 1045 d.C., nesta altura não haviam lá quase nenhumas tribos túrquicas, muito menos Qarluqs.

A Renovação do Budismo no Tibete Central

Durante todo o século XI d.C, uma corrente constante de tibetanos foi estudar budismo, tanto para a Caxemira como para a India setentrional. Muitos trouxeram de volta mestres destas regiões para ajudar a renovar o budismo em mosteiros recentemente construídos na sua terra. Embora a atividade inicial nesta direção tivesse vindo do reino Ngari do Tibete ocidental, depressa se espalhou também à parte central do país, começando com a fundação, em 1033 d.C., do Mosteiro Nartang (sNar-thang).

Cada mestre indiano ou estudante tibetano de regresso que chegava ao Tibete trazia consigouma linhagem de um estilo particular de prática budista. Muitos deles construíram mosteiros em torno dos quais cristalizaram-se comunidades não só religiosas como também seculares. Só foi a partir do século XIII d.C. que grupos destas linhagens de transmissão se consolidaram para formar as vários seitas das escolas de budismo tibetano do chamado “Período Novo” – Kadam (bKa’- gdams), Sakya (Sa-skya) e um número de diferentes linhas Kagyu (bKa’- rgyud).

Outros mestres tibetanos do século XI d.C. começaram a descobrir os textos que tinham sido escondidos para proteção no Tibete central e no Butão durante os turbulentos anos do fim do século VIII e início do século IX d.C.. Os [textos] budistas encontrados tornaram-se a base escritural para escola do “período antigo” ou Nyingma (rNying-ma), enquanto que aqueles da indígena tradição tibetana, recuperados ligeiramente antes, formaram a fundação para o estabelecimento da organizada religião Bon. Vários mestres descobriram ambos os tipos de texto, que eram frequentemente muito semelhantes uns dos outros. O Bon organizado, de fato, compartilhava tantas características em comum com as escolas budistas da tradução nova e antiga que mestres posteriores de cada uma das religiões afirmavam que a outra tinha plagiado deles.

A família realde Ngari continuou a desempenhar um papel importante no patrocínio não só da tradução de textos budistas recentemente trazidos de Caxemira e do norte da India, como também da revisão de traduções prévias e da clarificação de mal entendidos sobre certos pontos delicados da religião. O Conselho de Toling (Tho- ling), reunido pelo rei Tsedey (rTse-lde) no Mosteiro Toling de Ngari em 1076 d.C., reuniu tradutores das regiões ocidentais, centrais e orientais do Tibete, assim como vários mestres caxemirianos e do norte da India, e foi instrumental na coordenação do trabalho. O édito de 1092 d.C. do príncipe Zhiwa-wo (Zhi-ba ‘od) estabeleceu os critérios para se determinar quais textos eram de confiança.