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A História do Período Inicial de Budismo e Bon no Tibete

Alexander Berzin, 1996

[Excertos da Interação Histórica entre as Culturas Budistas e Islâmicas antes do Império Mongol.]

1 Do Imperador Songtsen-gampo até ao Imperador Tri Songdetsen

A Religião Bon Organizada e a Tradição Tibetana Nativa

As duas tradições religiosas principais do Tibete são o bon e o budismo. A primeira era a fé nativa do Tibete, enquanto que a segunda tinha sido introduzida pelo primeiro imperador do Tibete, Songtsen-gampo (Srong-btsan sgam-po, 617 – 649 d.C.). De acordo com narrativas tibetanas tradicionais, havia muita rivalidade entre as duas. Porém, a erudição moderna apresenta uma situação mais complexa.

Bon, contudo, só se tornou uma religião organizada depois do século XI d.C., e nessa época compartilhava muitas características em comum com o budismo. Antes disso, a tradição nativa pré-budista do Tibete, às vezes também confusamente chamada “bon”, consistia primeiramente em rituais para suportar um culto imperial, tais como elaborados sacrifícios para funerais imperiais e para o assinar de tratados. A tradição incluia também sistemas de divinação, astrologia, rituais curativos para acalmar espíritos maléficos e a fitoterapia.

Na sua literatura histórica, a organizada religião bon tem suas origens em Shenrab (gShen-rab), um professor da lendária terra de Olmo-lungring (‘ Ol-mo lung-ring) na extremidade oriental de Tagzig (sTag-gzig), que a trouxe para Zhang-zhung (Zhang-zhung) num passado remoto e distante. Zhang-zhung era um reino antigo com a sua capital no Tibete ocidental perto do sagrado Monte Kailash. Alguns eruditos russos modernos, baseando-se na análise linguística, identificam Olmo-lungring com Elam no antigo Irã ocidental, e Tagzig com Tajik, referindo-se a Bactria. Aceitando a asserção Bon que os seus aspectos parecidos com o budismo pré-datam Songtsen-gampo, estes eruditos postulam que o ímpeto original para o sistema veio de um mestre budista de Bactria visitando Zhang-zhung, talvez via Khotan ou Gilgit e Caxemira, algures durante o início do primeiro milenio d.C.. Tradicionalmente, Zhang-zhung teve relações economicas e culturais próximas com ambas estas regiões vizinhas. Concordando com a narrativa bon, eles explicam que este mestre, mal chegou a Zhang-zhung, combinou muitas características parecidas com as budistas com práticas rituais indígenas.

Relação de Songtsen-gampo com Zhang-zhung

Songtsen-gampo foi o trigésimo segundo regente de Yarlung (Yar-klungs), um pequeno reino no Tibete central. No decurso da expansão do seu território e do estabelecimento de um vasto império que se esticava desde as fronteiras de Bactria às da China Han e desde o Nepal às fronteiras do Turquistão oriental, ele conquistou Zhang-zhung. De acordo com os seus registros históricos, Zhang-zhung numa dada altura também cobria todo o platô tibetano. No entanto, na altura da sua derrota incluía apenas o Tibete ocidental.

Vamos deixar de lado a questão da extensão mais longínqua das fronteiras de Zhang-zhung, da presença de características semelhantes às budistas em Zhang-zhung no apogeu do seu império, e da sua possível origem. Ainda assim, podemos razoavelmente supor, a partir da evidência encontrada nos túmulos dos reis de Yarlung que precedem Songtsen-gampo, que pelo menos o sistema de Zhang-zhung de rituais da corte era comum a ambos a região natal do imperador como também à terra que ele conquistou no Tibete ocidental. Não como o budismo, os rituais de Zhang-zhung não eram um sistema estrangeiro de práticas e crenças, mas uma parte integral da herança pan-tibetana.

Para estabilizar alianças políticas e a sua própria posição de poder, Songtsen-gampo casou com princesas: primeiro a de Zhang-zhung e depois, tarde no seu reinado, da Tang China e do Nepal. Depois de se casar com a princesa de Zhang-zhung, mandou assassinar o seu pai, Lig-nyihya (Lig-myi-rhya), último rei de Zhang-zhung. Isto permitiu que o foco do suporte ritual nativo do culto imperial mudasse para ele e para o seu estado em rápida expansão.

A Introdução do Budismo

O Imperador Songtsen-gampo introduziu o budismo ao Tibete mediante a influência das suas esposas chinesa han e nepalesa. Porém, nesta altura, não criou raiz nem se propagou à população geral. Alguns eruditos modernos questionam a historicidade da esposa nepalesa, mas evidência arquitetural do período indica pelo menos uma certa quantidade de influência cultural do Nepal nesta época.

A manifestação principal da fé estrangeira era um grupo de treze templos budistas que o imperador tinha construído em locais geomânticos especialmente escolhidos em torno de seu reino, incluindo Bhutan. Com o Tibete concebido como uma demonia deitada de costas para baixo e os locais para os templos cuidadosamente selecionados de acordo com regras da acupuntura chinesa aplicadas ao corpo da demonia, Songtsen-gampo esperava neutralizar qualquer oposição ao seu regime por espíritos malévolos locais.

Dos treze templos budistas, o principal foi construído a oitenta milhas da capital imperial, no local que se tornou mais tarde conhecido por “Lhasa” (Lha-sa, o Lugar dos Deuses). Naquela altura, era chamado “Rasa” (Ra- sa, O Lugar das Cabras). Eruditos ocidentais especulam que o imperador foi persuadido a não construir o templo na capital de modo a não ofender os deuses tradicionais. Não está claro quem povoou estes templos budistas, mas presumivelmente foram monges estrangeiros. Os primeiros monásticos tibetanos não foram ordenados até quase século e meio mais tarde.

Embora pias histórias descrevessem o imperador como a perfeita personificação da fé budista e embora rituais budistas fossem indubitavelmente executados para o seu benefício, não eram a forma exclusiva de ceremonia religiosa patrocinada pela corte imperial. Songtsen-gampo manteve na sua corte sacerdotes da tradição nativa e a aristocracia que os apoiava, e mandou fazer estátuas de deidades nativas para serem colocadas ao lado das budistas no templo principal em Rasa. Tal como os seus predecessores, ele e os seus sucessores foram todos enterrados em Yarlung de acordo com antigos ritos pan-tibetanos pré-budistas. Tal qual Gengis Khan quase seis séculos mais tarde, o imperador tibetano deu as boas-vindas não só à sua tradição nativa, mas também a uma religião estrangeira, nomeadamente ao budismo, que podia fornecer rituais para aumentar o seu poder e para beneficiar o seu império.

Adaptação do Sistema de Escrita Khotanês

Evidência adicional da política de Songtsen-gampo de usar invenções estrangeiras para promover o seu poder político é a sua adoção de um sistema de escrita para a língua tibetana. Tirando vantagem da longa história de Zhang-zhung de relações culturais e economicas com Khotan, Gilgit e Caxemira, o imperador enviou uma missão cultural, conduzida por Tonmi Sambhota (Thon-mi sambhota) à região. Em Caxemira, encontrou-se com o mestre Khotanês, Li Chin (Li Byin) – Li, a palavra tibetana para Khotan, indica claramente o país de origem deste mestre. Com a sua ajuda, a missão formulou um alfabeto para escrever a língua tibetana baseado na adaptação Khotanesa do sistema de escrita Gupta Vertical indiana. Registros históricos tibetanos confundem o lugar da composição da nova escrita com o local de origem do seu modelo e, assim, explicam que o tibetano escrito é baseado no alfabeto de Caxemira.

Eruditos tibetanos modernos descobriram que, antes deste desenvolvimento, Zhang-zhung já tinha um sistema de escrita e que este foi a base para as letras tibetanas cursivas. O modelo para o sistema de escrita de Zhang-zhung, contudo, teria também sido o alfabeto Khotanês.

Songtsen-gampo supostamente usou o novo sistema de escrita para uma tradução que mandou fazer de um texto budista em sânscrito que tinha alcançado Yarlung como uma oferta da India dois séculos antes. Porém, a atividade principal de tradução nesta altura era de textos astrológicos chineses e de textos médicos indianos e chineses, e isto era muito limitado. O imperador usou o sistema da escrita principalmente para enviar mensagens militares secretas aos seus generais no campo de batalha. Isto seguia o costume de Zhang-zhung de usar mensagens escritas codificadas (Tib. lde’u ) para tais fins.

A Facção da Oposição [Errôneamente] Chamada “bon”

Uma facção da corte imperial tibetana era contra o suporte e a confiança que o imperador Songtsen-gampo tinha no budismo. Ela esteve indubitavelmente por trás da sua decisão para não ter o principal templo budista construído na capital imperial ou até no Vale de Yarlung. Histórias tibetanas mais tardias chamam-nos de proponentes da religião “bon”. Por mais de um século, fizeram forte resistência à política imperial. Mas quem eram estes seguidores do “bon” que se opuseram ao budismo e, mais tarde, foram sem dúvida responsáveis pela fria recepção ao islamismo? E quais eram as razões para a sua hostilidade?

De acordo com eruditos tibetanos, a palavra bon significa um encantamento usado para controlar forças espirituais e refere-se a um sistema de doze partes que inclui a divinação, a astrologia, rituais curativos e a fitoterapia.

Antes do final do século XI d.C., o bon não era uma religião organizada. De acordo com alguns eruditos, a palavra tibetana bon nem sequer era ainda usada, naquele tempo, para o sistema nativo pré-budista de crenças e rituais que incluía as quatro artes tradicionais de divinação, astrologia, ritos curativos e fitoterapia. Era aplicada apenas a uma facção específica na corte imperial. Embora esta facção bon incluísse certos sacerdotes (Tib. gshen) da tradição nativa e aristocracia específica com eles associada, a característica definidora do grupo era não a sua crença religiosa, mas principalmente a sua posição política. Havia seguidores das tradições nativas de divinação e assim por diante tanto dentro como fora da corte, incluindo até o próprio imperador, que não eram chamados “aderentes ao bon”. Havia uma aristocracia “bon” na corte que não confiava necessariamente nestas quatro artes tradicionais. Nem todos os sacerdotes da tradição nativa faziam parte desta facção. Por exemplo, dentro da corte havia aqueles que executavam rituais para suportar o culto imperial e, na ocasião da morte do imperador, conduziam os ritos funerários imperiais tradicionais. Fora da corte, havia aqueles que faziam divinações ou rituais curativos para superar espíritos maléficos. Nenhuns deles eram considerados “membros do bon”.

O grupo “bon”, então, era limitado a uma facção anti-imperial, conservadora e, sobretudo, xenofóbica de partidos interessados na corte. Era uma facção da oposição que queria tomar o poder. Estando contra o imperador, estavam naturalmente opostos a qualquer coisa que poderia promover a força imperial, particularmente se era uma invenção estrangeira. Assim, a hostilidade desta facção relativamente a rituais e crenças estrangeiras não era simplesmente uma manifestação de intolerância religiosa, como histórias budistas tibetanas mais recentes possam querer dizer. Embora possam ter usado motivos religiosos para justificar as suas recomendações de políticas anti-budistas – por exemplo, uma presença budista irritaria os deuses tradicionais e traria desastre – isto não implica que eles necessariamente suportavam a inteira tradição religiosa nativa. A facção “bon”, afinal, não incluía os sacerdotes que faziam rituais nativos para apoiar o imperador.

O sentimento anti-budista da suposta facção “bon” também não era sinal de uma insurreição de Zhang-zhung. Os sacerdotes nativos e a aristocracia que os apoiava que formavam a oposição eram indubitavelmente do Tibete central, e não de fora de Zhang-zhung. Este era um território ocupado, e não um distrito político integrado do império. É improvável que os seus líderes teriam servido como membros de confiança da corte imperial.

Em resumo, a facção anti-budistaerrôneamente chamada de “bon” era nem religiosa nem um grupo definido regionalmente. Consistia de oponentes ao regime imperial em Yarlung que eram motivados por razões de política do poder. Resistiam e obstruiam quaisquer ligações estrangeiras que pudessem fortalecer a posição política do imperador tibetano, enfraquecer o seu próprio estado, e ofender os seus deuses tradicionais. Mesmo após a morte do imperador Songtsen-gampo, a xenofobia desta facção continuou a crescer.

Os Reinados dos Dois Imperadores Tibetanos Subsequentes

Os pressentimentos da facção xenofóbica na corte tibetana acabaram por ser bem fundados quando, durante os primeiros anos do reinado do imperador tibetano seguinte, Mangsong-mangtsen (Mang-srong mang-btsan, 649 – 676 d.C.), a China Tang invadiu o Tibete. As forças chinesas han alcançaram chegaram até Rasa e causaram grandes danos antes de terem finalmente sido repelidas e derrotadas.

Durante os anos seguintes do seu regime, Mangsong-mangtsen foi dominado por um ministro poderoso de outra facção que procurou expandir o império ainda mais. Este ministro conquistou Tughuhun, um reino budista ao nordeste do Tibete que seguia o estilo khotanês de budismo, e Kashgar, também dentro da esfera cultural Khotanesa. Em 670 d.C., conquistou o próprio Khotan e tomou controle do resto dos estados oásis da Bacia de Tarim à excepção de Turfan. O rei khotanês fugiu para corte imperial Tang, onde o imperador chinês lhe ofereceu apoio, elogiando-o pela sua resistência aos tibetanos.

De acordo com registos khotaneses, os tibetanos causaram muita destruição durante a conquista do estado oásis, incluindo a danificação de mosteiros e santuários budistas. Contudo, pouco depois arrependeram-se das suas ações e tomaram um grande interesse pela fé budista. Este relato pio, porém, pode ser uma interpolação do modelo do rei Ashoka, o imperador indiano máuria que destruiu muitos templos e monumentos budistas antes de se arrepender e adotar o budismo. Não obstante, alguns eruditos ocidentais traçam o envolvimento mais sério do Tibete com o budismo a partir deste ponto. Se o budismo já fosse forte entre os tibetanos, eles teriam honrado os mosteiros khotaneses em vez de destruí-los.

Adotando a forma khotanesa de traduzir o vocabulário técnico budista através de uma etimologia de cada sílaba, os tibetanos começaram agora a importar e a traduzir alguns textos budistas khotaneses escolhidos. O contato cultural dava-se nos dois sentidos porque os eruditos também traduziram um trabalho médico indiano para o khotanês que tinha sido previamente traduzido do sânscrito para o tibetano. Com a corte imperial estabelecendo ligações estrangeiras fortes como estas, a apreensão da oposição xenofóbica começou a crescer uma vez mais.

Uma luta pelo poder entre o imperador tibetano subsequente, Tri Dusong (Khri ‘ Dus-srong, 677 – 704 d.C.), e a tribo deste ministro precedente enfraqueceu seriamente a corte de Yarlung. Tibete perdeu o seu controlo militar e político sobre os estados de Tarim, embora tivesse mantido uma presença cultural nos seus oásis do sul. O império tibetano, contudo, era ainda ambicioso. Em 703 d.C., o Tibete aliou-se aos turcos orientais contra a China Tang.

O Domínio das Imperatrizes

Durante este período, a imperatriz chinesa Wu (Wade-Giles: Wu, 684 – 705 d.C.) liderou um golpe de estado derrubando temporariamente a Dinastia Tang, declarando que ela era Maitreya, o futuro Buda. A mãe-rainha tibetana, Trima Lo (Khri-ma Lod), mãe do imperador Tri Dusong, era de uma poderosa tribo do nordeste do Tibete que tinha não só simpatias budistas khotanesas devido à influência de Tughuhun, como também ligações estreitas com a China Tang. Ela estava em comunicação com a imperatriz Wu e quando o seu filho, o imperador tibetano, morreu em 704 d.C., ela removeu do poder o seu próprio neto e governou como uma imperatriz viúva até a sua morte em 712 d.C.. Ela planejou, com a imperatriz Wu, que uma princesa chinesa han, Jincheng (Wade-Giles: Chin-ch’eng), viesse ao Tibete como noiva para o seu bisneto, Mey-agtsom (Mes ag-tshoms), conhecido também por Tri Detsugten (Khri lDe-gtsug-brtan), que era naquela época um mero infante. A princesa Jincheng era uma budista devota e trouxe consigo um monge chinês han para ensinar as senhoras na corte tibetana.

A facção xenofóbica de sacerdotes e aristocracia nativos tornou-se extremamente agitada com este desenvolvimento. A sua influência na corte era agora uma vez mais desafiada por monges budistas chineses han, como nos dias do imperador Songtsen-gampo. Porém, desta vez a ameaça era mais séria dado que os estrangeiros estavam agora presentes na própria capital. Com as forças sobrenaturais desta religião estrangeira convidadas uma vez mais a fortalecer o poder imperial, temiam uma represália pelos seus deuses nativos como havia se manifestado sessenta anos antes com a invasão Tang do Tibete central. Por agora, porém, a facção “bon” só podia esperar.

A viúva imperatriz Trima Lo, sendo amigável com a corte chinesa, voltou agora às ambições militares do Tibete para longe dessa direção e formou uma aliança em 705 d.C. com os Turki Shahis em Gandhara e Bactria, desta vez contra os árabes Umayyad. Quando a viúva imperatriz faleceu em 712 d.C. e Mey-agtsom ascendeu ao trono imperial tibetano ( 712 – 755 d.C.), era ainda menor. A imperatriz Jincheng, tal como a falecida viúva imperatriz, exerceu subsequentemente uma forte influência na corte tibetana.

A Aliança Tibetano-Umayyad

Entretanto, a luta pelo poder sobre o Turquistão Ocidental continuava. Em 715 d.C., depois do general árabe, Qutaiba, ter retomado Bactria de novo dos Turki Shahis, o Tibete trocou de lados e aliou-se às forças Umayyad contra quem tinham acabado de lutar. As tropas tibetanas depois ajudaram o general árabe a tirar Ferghana dos Turgish e a preparar-se para um avanço contra Kashgar, território segurado pelos Turgish. A aliança dos tibetanos com os Turki Shahis e depois com os Umayyads foi sem dúvida uma expediência para manter uma base em Bactria com a esperança de restabelecer a sua presença militar, economica e política na Bacia de Tarim. Impostos obtidos do lucrativo comércio da Rota da Seda formavam a constante atração para as suas ações.

Poderiamos especular que a prévia aliança tibetana com os Turki Shahis para defender Bactria dos Umayyads era devido à tal chamada facção “bon” tê-la identificado com Tagzig, a terra originária do bon, e ter desejado impedir o destruição do seu mosteiro principal, Nava Vihara. No entanto, esta conclusão não está correta, mesmo se concordássemos com as suas duas premissas enganadoras que o bon nesta época era uma religião organizada e que a facção bon era um grupo religioso definido. Mesmo se alguns aspectos da fé bon pudessem ter tido uma origem budista bactriana, os seguidores do bon não identificavam estas características como budistas. Tendo aderido ao bom mais tarde, de fato, afirmavam que os budistas no Tibete tinham plagiado muitos dos seus ensinamentos.

Por isso, a facção bon na corte tibetana não estava conduzindo uma “guerra santa” em Bactria. Além disso, nem estavam os budistas, como é indicado pelo fato que após a perda de Bactria e a devastação de Nava Vihara, os tibetanos não continuaram a defender o budismo em Bactria, mas mudaram de alianças e juntaram-se aos árabes muçulmanos. A principal força motivadora por trás da política estrangeira dos tibetanos era o auto-interesse político e economico, e não a religião.

Análise da Missão Muçulmana ao Tibete

Em 717 d.C., para não desagradar aos seus aliados Umayyad e a não prejudicar o relacionamento entre eles, a corte tibetana concordou, à insistência do califa Umar II, convidar um professor muçulmano. Contudo, o convite teve pouco a ver com um verdadeiro interesse pelas doutrinas do islamismo. Na melhor das hipóteses, a imperatriz Jincheng pode tê-lo visto como o imperador Songtsen-gampo tinha originalmente considerado o budismo, nomeadamente como outra fonte de poder sobrenatural que pudesse fortalecer a posição imperial. Os sacerdotes e a nobreza conservadores na corte tibetana, por outro lado, teriam sido hostis em relação ao clérigo árabe. Teriam temido mais influências estrangeiras, os rituais das quais poderiam fortalecer o culto imperial ainda mais, enfraquecer o seu próprio poder, e convidar desastre sobre o Tibete.

A recepção fria que o professor muçulmano recebeu no Tibete, então, foi primeiramente devida à atmosfera geral de xenophobia, propagada pela facção da oposição na corte tibetana. Não era uma indicação de um conflito religioso islâmico-budista ou islâmico-bon. Durante quase setenta anos, a hostilidade desta facção tinha sido dirigida para o budismo e continuou a ser assim dirigida. Para apreciar como a sua atitude em relação ao islamismo encaixa neste padrão de xenofobia, vamos olhar brevemente para os eventos que se seguiram no Tibete.

Monges Refugiados de Khotan no Tibete

A Dinastia Tang tinha restaurado o seu domínio em 705 d.C. com a abdicação da imperatriz Wu. No entanto a situação não se estabilizou até ao reinado de Xuanzong (Wade-Giles: Hsüan-tsung, 713 – 756 d.C.), o neto da imperatriz. Este poderoso novo imperador seguiu uma política anti-budista para tentar enfraquecer o suporte pelo movimento da sua avó. Em 720 d.C., um simpatizante anti-budista do imperador Tang removeu o rei budista local de Khotan e tomou o trono. Seguiram-se muitas perseguições religiosas e muitos budistas fugiram. Dado que um grande influxo de monges bactrianos refugiados tinham chegado a Khotan cinco anos antes devido aos danos de Nava Vihara causados por Umayyad, não é absurdo suspeitar que eles teriam sido os primeiros a fugir de Khotan, temendo uma repetição da sua experiência traumática em Bactria.

Em 725 d.C., a imperatriz Jincheng fez arranjos para os monges budistas refugiados de Khotan e da China Han receberem asilo no Tibete e mandou construir sete mosteiros para eles, incluindo um em Rasa. Este passo tornou os ministros xenofóbicos na corte ainda mais agitados. Quando a imperatriz morreu em 739 d.C.. durante uma epidemia de varíola, usaram a ocasião para deportar todos os monges estrangeiros no país para Gandhara, governada pelos tradicionais aliados budistas do Tibete, os Turki Shahis. Convencidos que os seus deuses tinham ficado uma vez mais ofendidos e que tinham retribuido, os ministros declararam que a presença dos estrangeiros e dos seus ritos religiosos no Tibete tinha sido a causa da grande epidemia. Gandhara era um destino razoável para os monges dado que os Turki Shahis tinham também sido governadores de Bactria, da qual muitos dos monásticos seriam indubitavelmente nativos. Um grande número estabeleciu-se finalmente na região montanhosa de Baltistan, a norte da parte Oddiyana de Gandhara.

O poder desta facção xenofóbica culminou dezesseis anos depois quando, em 755 d.C., assassinaram o imperador Mey-agtsom devido à sua forte inclinação para a China Tang e para o budismo. Quatro anos antes, no mesmo ano em que as forças Tang foram massivamente derrotadas e expulsadas do Turquistão ocidental, o imperador tinha enviado uma missão tibetana à China Han para aprender mais sobre o budismo. Foi dirigida por Ba Sangshi (sBa Sang-shi), o filho de um enviado tibetano anterior à corte Tang. Quando o imperador tang Xuanzong foi removido durante uma rebelião em 755 d.C., a facção “bon” estava convencida que se não fizessem com que Mey-agtsom parasse com a sua loucura e, como uma continuação a esta missão, deixasse de convidar mais monges chineses han à corte tibetana, não só iriam perder o poder, como seria certamente desastre para o país uma vez mais, tal como tinha na China Tang. Consequentemente, depois de terem mandado assassinar o imperador, instituíram uma perseguição de seis anos ao budismo no Tibete.