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Esboço Histórico do Budismo e do Islamismo no Afeganistão

Alexander Berzin
Novembro de 2001, revisto em Dezembro de 2006

Geografia

Várias escolas budistas Hinayana estiveram presentes no Afeganistão desde os tempos mais antigos, ao longo dos reinos que se encontravam na rota comercial em direção à Ásia Central. Os reinos principais eram Gandhara e Bactria. Gandhara incluía as áreas do passo Khyber, tanto do lado do Punjabe paquistanês como do lado afegão. Posteriormente, a metade afegã, desde o passo Khyber até ao Vale de Kabul, recebeu o nome Nagarahara; enquanto que o lado punjabe reteve o nome Gandhara. Bactria estendia-se do Vale de Kabul para o norte e incluia o Usbequistão e o sul do Tajiquistão. A seu norte, no Usbequistão Central e no noroeste do Tajiquistão estava Sogdia. A parte sul de Bactria, a norte do Vale de Kabul, era Kapisha; enquanto que mais tarde a parte norte recebeu o nome Tocharistan [Tocaristão].

Primeiro Estabelecimento do Budismo

De acordo com as antigas biografias Hinayana do Buda, tais como o texto Sarvastivada O Sutra do Jogo Extensivo (Sânsc.: Lalitavistara Sutra), Tapas­su e Bhallika, dois irmãos mercadores de Bactria foram os primeiros discípulos a receber votos leigos. Isto ocorreu oito semanas após a iluminação de Shakyamuni, tradicionalmente fixada em 537 a.C.. Mais tarde, Bhallika tornou-se monge e construiu um mosteiro próximo da sua cidade natal, Balkh, perto da atual Mazar-i-Sharif. Trouxe com ele como relíquias oito cabelos do Buda, para os quais construiu um monumento stupa. Bactria tornou-se por esta altura parte do Império Aquemênida do Irão.

Em 349 a.C., vários anos após o Segundo Conselho Budista, a tradição Mahasanghaka Hinayana saiu da Theravada. Muitos Mahasanghikas mudaram-se para Gandhara. Em Hadda, a cidade principal do lado afegão, perto da atual Jalalabad, fundaram por fim o Mosteiro Nagara Vihara, levando com eles uma relíquia do crânio do Buda.

Um Theravada idoso, Sambhuta Sanavasi, depressa seguiu o exemplo e tentou estabelecer a sua tradição em Kapisha. Não teve sucesso, e Mahasanghaka tornou-se a principal tradição budista do Afeganistão.

Posteriormente, os Mahasanghikas dividiram-se em cinco escolas secundárias. No Afeganistão, a principal era Lokottaravada a qual mais tarde se estabeleceu no Vale de Bamiyan, nas montanhas Hindu Kush. Aí, entre os séculos III e V d.C., os seus seguidores construíram a maior estátua ereta do Buda do mundo, de acordo com a sua asserção do Buda como figura transcendente, super-humana. Em 2001 d.C., os talibã destruiram o colosso.

Em 330 a.C., Alexandre o Grande da Macedónia conquistou a maioria do Império Aquemênida, incluindo Bactria e Gandhara. Era tolerante com as tradições religiosas dessas regiões e parecia estar principalmente interessado na conquista militar. Os seus sucessores estabeleceram a Dinastia Selêucida. Porém, em 317 a.C., a Dinastia Mauryana indiana tomou Gandhara aos selêucidas e, assim, a área foi apenas superficialmente helenizada durante esse curto período.

Ashoka, o imperador de Maurya (governou 273 – 232 a.C.), favorecia o budismo Theravada. Na parte final do seu reinado, enviou uma missão theravadan a Gandhara, conduzida por Maharakkhita. A missão erigiu “colunas de Ashoka” com declarações baseadas em princípios budistas tão longe ao sul até Kandahar. Através dessas missões, Theravada estabeleceu uma pequena presença no Afeganistão.

A Escola Sarvastivada e o Reino Greco-Bactriano

Para o final do regime de Ashoka, após o Terceiro Conselho Budista, a Escola Sarvastivada Hinayana também se separou da Theravada. Após a morte de Ashoka, o seu filho Jaloka introduziu Sarvastivada em Caxemira.

Em 239 a.C., a aristocracia grega local de Bactria revoltou-se contra o regime selêucida e ganhou a independência. Nos anos que se seguiram, conquistaram Sogdia e Caxemira, estabelecendo assim o reino greco-bactriano. Os monges de Caxemira depressa difundiram a Escola Sarvastivada Hinayana até Bactria.

Em 197 a.C., os greco-bactrianos conquistaram Gandhara aos mauryanos. Posteriormente, Sarvastivada chegou também à parte sudeste do Afeganistão. Devido à forte interação entre as culturas gregas e indianas que se seguiram, o estilo helenístico influenciou fortemente a arte budista, particularmente a sua representação da forma humana e o drapejar dos mantos.

Embora Theravada nunca tivesse sido forte no reino greco-bactriano, um dos seus reis, Menandros (Pali: Milinda, governou 155 – 130 a.C.), era um seguidor Theravada devido à influência de Nagasena, um visitante monge indiano. O rei fez muitas perguntas a esse mestre indiano e o seu diálogo tornou-se conhecido como As Perguntas de Milinda (Pali: Milindapanho). Pouco depois, o estado greco-bactriano estabeleceu relações com Sri Lanka e enviou uma delegação de monges à cerimónia de consagração do grande stupa construído ali pelo rei Dutthagamani (governou 101 – 77 a.C.). Devido ao contato cultural que se seguiu, os monges greco-bactrianos transmitiram oralmente As Perguntas de Milinda ao Sri Lanka. Tornou-se mais tarde um texto extra-canônico da tradição Theravada.

O Período Kushan

Entre 177 e 165 a.C., a expansão para o Ocidente do Império Han da China, para Gansu e Turquistão Oriental (em chinês: Xinjiang), forçou mais para o Ocidente muitas das tribos nómadas nativas da Ásia Central. Uma destas tribos, os Xiongnu, atacou uma outra, os Yuezhi (Wades-Giles: Yüeh-chih), e assimilou uma grande parte deles. Os Yuezhi eram um povo caucasiano que falavam um antigo idioma indo-europeu ocidental e representavam a emigração da raça caucasiana mais para o Oriente. De acordo com algumas fontes, uma das cinco tribos aristocráticas dos Yuezhi, conhecida em fontes gregas como os tocarianos, emigrou para o atual Cazaquistão Oriental, forçando para sul os nómadas shakas (Iraniano Antigo: Saka) locais, conhecidos pelos gregos como os citas [Scythians]. Tanto os tocarianos como os shakas, no entanto, falavam línguas iranianas. Devido a esta diferença de idiomas, é discutível se estes tocarianos eram ou não aparentados com os descendentes dos Yuezhi, também conhecidos como “ tocarianos”, que estabeleceram no segundo século d.C. prósperas civilizações em Kucha e Turfan, no Turquistão Oriental. É óbvio, no entanto, que os shakas não eram aparentados com a tribo Shakya da parte central do norte da India, na qual Buda Shakyamuni nasceu.

Os shakas conquistaram primeiro Sogdia aos greco-bactrianos e depois, em 139 a.C., durante o reinado do rei Menandros, conquistaram também Bactria. Ali, os shakas voltaram-se para o budismo. Em 100 a.C., os tocarianos conquistaram Sogdia e Bactria aos shakas. Ao estabelecerem-se nestas áreas, assimilaram também o budismo. Este foi o começo da Dinastia Kushan, que se estendeu por fim à Caxemira, ao norte do Paquistão e ao noroeste da India.

O rei mais famoso de Kushan foi Kanishka (governou 78 – 102 d.C.), cuja capital ocidental era em Kapisha. Ele apoiava a Escola Sarvastivada Hinayana. A sua subdivisão Vaibhashika era especialmente proeminente no Tocaristão. Ghoshaka, o monge tocariano, foi um dos compiladores dos comentários Vaibhashika sobre o abhidharma (tópicos especiais de conhecimento), aceites durante o Quarto Conselho Budista, conduzido por Kanishka. Quando, após o Conselho, Ghoshaka regressou a Tocaristão, fundou a Escola Vaibhashika Ocidental (Balhika). Nava Vihara, o mosteiro principal em Balkh, rapidamente se tornou o centro de estudos superiores budistas para toda a Ásia Central, comparável ao Mosteiro Nalanda na India Setentrional Central. Enfatizava principalmente o estudo do abhidharma Vaibhashika e apenas admitia monges que já tivessem composto textos sobre o tema. Visto que abrigava uma relíquia do dente do Buda, era também um dos principais centros de peregrinação ao longo da Rota da Seda, da China à India.

Balkh tinha sido o local do nascimento de Zoroastro, cerca do ano 600 a.C.. Era a cidade santa do zoroastrismo, a religião iraniana que cresceu dos seus ensinamentos e que enfatizava a veneração do fogo. Kanishka seguiu a política greco-bactriana de tolerância religiosa. Assim, o budismo e zoroastrismo coexistiram pacificamente em Balkh, onde influenciaram o desenvolvimento um do outro. Por exemplo, mosteiros-caverna desse período tinham nas paredes pinturas de Budas com auras de chamas e com inscrições chamando-os “Buda-Mazda”. Isto era uma amálgama do Buda e de Ahura Mazda, o deus supremo do zoroastrismo.

Em 226 d.C., o Império Sassânida persa derrubou o domínio Kushan no Afeganistão. Embora fossem fortes admiradores do zoroastrismo, os sassânidas toleraram o budismo e permitiram a construção de mais mosteiros budistas. Foi durante o seu reinado que os seguidores de Lokottaravada erigiram as duas estátuas colossais do Buda, em Bamiyan.

A única exceção à tolerância sassânida foi durante a segunda metade do século III, quando Kirder, um alto sacerdote zoroastriano, dominou a política religiosa do estado. Ele ordenou a destruição de vários mosteiros budistas no Afeganistão, dado que a amálgama do budismo e do zoroastrismo parecia-lhe uma heresia. Contudo, o budismo recuperou rapidamente após a sua morte.

Os Hunos Brancos e os Turki Shahis

No começo do século V, os Hunos Brancos – conhecidos pelos gregos como Heftalitas e pelos indianos como Turushkas – tomaram a maioria dos antigos territórios Kushan aos sassânidas, incluindo o Afeganistão. Inicialmente, os Hunos Brancos seguiam a sua própria religião, que se assemelhava ao zoroastrismo. Porém, depressa se tornaram fortes aderentes ao budismo. O peregrino han chinês Faxian (Fa-hsien) viajou através do seu território entre 399 e 414 d.C., e relatou o florescimento de diversas escolas Hinayana.

Os Turki Shahis eram um povo túrquico descendente dos Kushans. Depois da queda da Dinastia Kushan pelos sassânidas, eles incorporaram partes do antigo império que se estendiam na India Setentrional e Noroeste. Governaram-os até à fundação da Dinastia Gupta Indiana, no início do século IV, e depois fugiram para Nagarahara. Conquistaram partes dela aos Hunos Brancos e, em meados do século V, expandiram o seu domínio até ao Vale de Kabul e Kapisha. Como os Kushans e os Hunos Brancos antes deles, os Turki Shahis apoiaram o budismo no Afeganistão.

Em 515, Mihirakula, o rei Huno Branco, sob a influência na sua corte de facções invejosas não-budistas, suprimiu o budismo. Destruiu mosteiros e matou muitos monges por todo o noroeste da India, Gandhara e especialmente em Caxemira. A perseguição foi menos severa nas zonas de Nagarahara que ele controlava. O seu filho inverteu esta política e construiu novos mosteiros em todas essas áreas.

Os Turcos Ocidentais

Vindos do Turquistão Ocidental Setentrional, os turcos ocidentais incorporaram em 560 a zona ocidental da Rota da Seda Asiática Central. Lentamente, expandiram para o interior de Bactria, conduzindo os Turki Shahis mais para o leste, em Nagarahara. Muitos líderes turcos ocidentais adotaram o budismo do povo local e, em 590, construiram um novo mosteiro budista em Kapisha. Em 622, Tongshihu Qaghan, o regente turco ocidental, adotou formalmente o budismo sob a orientação de Prabhakaramitra, um monge visitante do norte da India.

De caminho para a India, o peregrino chinês han Xuanzang (Hsüan-tsang) visitou os turcos ocidentais aproximadamente em 630. Descreveu que o budismo estava florescendo na parte bactriana do seu império, especialmente no Mosteiro Vihara Nava, em Balkh. Citou a universidade monástica não só pela sua erudição, como também pelas suas bonitas estátuas do Buda, drapejadas com vestes de seda e adornadas com jóias ornamentais, de acordo com o costume zoroástrico local. Naquela altura, o mosteiro tinha ligações próximas com Khotan, um reino fortemente budista do Turquistão Oriental, e enviou muitos monges para lá ensinar. Xuanzang descreveu também um mosteiro perto de Nava Vihara, dedicado à avançada prática de meditação do Hinayana, vipashyana (Pali: vipassana) – a percepção excepcional da impermanência e da falta de identidade independente da pessoa.

Em Nagarahara, sob os Turki Shahis, Xuanzang encontrou o budismo numa condição muito pior. Como no lado punjabe de Gandhara, a área parecia não ter recuperado completamente da perseguição pelo rei Mihirakula, há mais de um século. Embora Nagara Vihara, com a sua relíquia do crânio de Buda, fosse um dos locais mais sagrados de peregrinação do mundo budista, Xuanzang relatou que os seus monges tinham-se tornado degenerados. Estavam cobrando a cada peregrino uma moeda de ouro para ver a relíquia, e não havia nenhuns centros de estudo em toda a região.

Além disso, embora Mahayana tivesse avançado, durante os séculos V e VI, de Caxemira e Gandhara punjabe para o interior do Afeganistão, Xuanzang apenas anotou a sua presença em Kapisha e nas regiões Hindu Kush, no oeste de Nagarahara. Sarvastivada permaneceu como tradição budista predominante de Nagarahara e de Bactria Setentrional.

O Período Umayyad e a Introdução do Islamismo

Cinco anos após a morte do profeta Maomé, em 637 os árabes derrotaram os sassânidas persas e, em 661, fundaram o Califado Umayyad. O califado governava o Irão e grande parte do Médio Oriente. Em 663 atacaram Bactria, que os Turki Shahis tinham por essa altura conquistado aos turcos ocidentais. As forças de Umayyad capturaram a área em torno de Balkh, incluindo o mosteiro Nava Vihara, forçando os Turki Shahis a recuarem para o Vale de Kabul.

Nas terras que conquistavam, os árabes permitiam que os seguidores de religiões não-muçulmanas mantivessem a sua fé desde que se submetessem pacificamente e que pagassem um imposto (árabe: jizya). Embora alguns budistas em Bactria, e até um abade de Nava Vihara, se tivessem convertido ao islamismo, a maioria dos budistas da região aceitaram o estatuto dhimmi como sujeitos leais não-muçulmanos protegidos dentro de um estado islâmico. Nava Vihara permaneceu aberto e a funcionar. Por volta de 680, o peregrino chinês han Yijing (I-ching) visitou Nava Vihara e relatou que estava florescendo como um centro de estudos Sarvastivada.

Al-Kermani, um autor persa de Umayyad, elaborou uma descrição detalhada de Nava Vihara do começo do século VIII, preservada na obra do século X, o Livro das Terras (árabe: Kitab al-Buldan), por al-Hamadhani. Descreveu-o em termos facilmente compreensíveis para os muçulmanos, fazendo a analogia com o Kaaba, em Mecca, o local mais santo do islamismo. Explicou que o templo principal tinha um cubo de pedra ao centro, drapejado com panos, e que os devotos o circunvagavam e faziam prostrações, como é o caso com o Kaaba. O cubo de pedra referia-se à plataforma em que os stupas assentavam, como era costume nos templos bactrianos. O pano que o drapejava estava de acordo com o costume iraniano de mostrar veneração, aplicado igualmente às estátuas de Buda como também a stupas. A descrição de al-Kermani mostra uma atitude aberta e respeitosa dos árabes de Umayyad ao tentarem compreender as religiões dos não-muçulmanos que encontravam nos seus territórios recentemente conquistados, tal como o budismo.

A Aliança Tibetana

Em 680, Husayn liderou no Iraque uma rebelião contra os Umayyads sem sucesso. Esse conflito desviou o foco da atenção dos árabes para fora da Ásia Central, ali enfraquecendo o seu controlo. Em 705, tirando vantagem da situação, os tibetanos formaram uma aliança com os Turki Shahis e, juntos, tentaram em vão expulsar de Bactria as forças de Umayyad.

Os tibetanos tiveram conhecimento do budismo a partir da China e do Nepal cerca de sessenta anos antes, embora nessa época ainda não tivessem nenhuns mosteiros. Em 708, Nazaktar Khan, o príncipe Turki Shahi, conseguiu expulsar os Umayyads e estabelecer em Bactria um fanático regime budista. Ele até decapitou o abade anterior de Nava Vihara que se tinha convertido ao islamismo.

Em 715, o general árabe Qutaiba reconquistou Bactria aos Turki Shahis e seus aliados tibetanos. Como punição pela insurreição precedente destruiu Nava Vihara. Muitos monges fugiram em direção ao leste, para Khotan e Caxemira, estimulando o crescimento do budismo, especialmente no último. O Tibete muda então de aliança e, como expediente político, alia-se às forças de Umayyad contra as quais tinha acabado de lutar.

Nava Vihara rapidamente recuperou e depressa começou a funcionar como outrora, indiciando que a danificação dos mosteiros budistas em Bactria pelos muçulmanos não tinha sido um ato motivado pela religião. Se tivesse sido, eles não teriam permitido a sua reconstrução. Os Umayyads estavam apenas repetindo, em relação ao budismo, a política que tinham seguido anteriormente nesse mesmo século quando conquistaram as regiões Sindh, do atual Paquistão Meridional. Eles destruiram apenas seletivamente os mosteiros sobre os quais suspeitavam que mantinham oposição ao seu domínio, mas depois permitiam a sua reconstrução e que os outros [mosteiros] prosperassem. O seu objetivo principal era a exploração económica e, assim, exigiam um imposto aos budistas e um imposto de peregrinação aos visitantes dos locais sagrados.

Apesar da tendência geral de tolerância religiosa por anteriores califas de Umayyad, decretou Umar II (governou 717 – 720) que todos os aliados de Umayyad tinham que adotar o islamismo. A sua aceitação, contudo, devia ser voluntária, baseada na aprendizagem dos seus princípios. Para tranquilizar os seus aliados, os tibetanos mandaram em 717 um enviado à corte de Umayyad para convidar um professor muçulmano. O califa enviou al-Hanafi. O fato de não haver registros de sucesso deste professor em obter conversos no Tibete demonstra que os Umayyads não eram insistentes nas suas tentativas de difundir a sua religião. Além disso, a fria recepção que al-Hanafi teve foi devida principalmente à atmosfera xenófoba disseminada pela facção da oposição na corte tibetana.

Durante as décadas subsequentes, as alianças políticas e militares mudaram frequentemente conforme árabes, chineses, tibetanos, Turki Shahis e várias outras tribos túrquicas lutavam pelo controlo da Ásia Central. Os Turki Shahis reconquistaram Kapisha aos Umayyads e, em 739, os tibetanos restabeleceram a sua aliança com eles através de uma visita a Kabul pelo imperador tibetano, na comemoração de uma aliança de casamento entre os Turki Shahis e Khotan. Os Umayyads continuaram a governar o norte de Bactria.

O Período Inicial Abássida

Em 750, uma facção árabe derrubou o Califado Umayyad e fundou a Dinastia Abássida. Eles mantinham o controlo sobre o norte de Bactria. Os abássidas não só continuaram a política de conceder o estatuto dhimmi aos budistas da região, como também tomaram um grande interesse pela cultura estrangeira, particularmente a da India. Em 762, o califa al-Mansur (governou 754 – 775) envolveu arquitetos e engenheiros indianos na planejamento da nova capital abássida, Bagdá. Tirou o seu nome do sânscrito Bhaga-dada, significando “Oferta de Deus”. O califa também construiu uma Casa do Conhecimento (árabe: Bayt al-Hikmat), com um departamento de tradução. Convidou eruditos de várias culturas e religiões para traduzirem textos para o árabe, particularmente sobre lógica e tópicos científicos.

Os primeiros califas abássidas eram patronos da Escola Mu’tazila de Islamismo que procurava explicar os princípios do Quran [a partir] do ponto de vista da razão. A ênfase principal estava na aprendizagem do grego antigo, mas também era dada atenção às tradições sânscritas. Contudo, na Casa do Conhecimento não eram traduzidos apenas textos científicos. Eruditos budistas traduziram para o árabe alguns sutras do Hinayana e do Mahayana que lidavam com temas devocionais e éticos.

O califa seguinte, al-Mahdi (governou 775 – 785), ordenou que as forças abássidas em Sindh atacassem Surashtra ao sudeste. Face a um pretendente rival da Arábia, que também tinha sido declarado Mahdi, o messias islâmico, a invasão fazia parte da campanha do califa no sentido de estabelecer o seu prestígio e supremacia como líder do mundo islâmico. O exército abássida destruiu os mosteiros budistas e os templos jainistas, em Valabhi. Porém, como foi o caso com a conquista de Sindh pelos Umayyad, parece que destruiram apenas os centros sob suspeita de abrigar oposição ao seu regime. Mesmo sob o califa al-Mahdi, os abássidas deixaram em paz os mosteiros budistas no resto do seu império, preferindo explorá-los como fontes de rendimento. Para além disso, al-Mahdi continuou a aumentar as atividades de tradução da Casa do Conhecimento, em Bagdá. Não tinha a intenção de destruir a cultura indiana, mas dela aprender.

Yahya ibn Barmak, o neto muçulmano de um dos chefes administrativos budistas (sânsc.: pramukha, árabe: barmak) do Mosteiro Nava Vihara, foi ministro do califa abássida seguinte, al-Rashid (governou 786 – 808). Sob sua influência, o califa convidou a Bagdá muitos eruditos e mestres da India, especialmente budistas. Um catálogo de textos muçulmanos e não-muçulmanos preparado nessa altura, Kitab al-Fihrist, incluía uma lista de obras budistas. Entre elas estava uma versão árabe da narrativa das vidas passadas de Buda, L ivro do Buda (árabe: Kitab al-Budd).

Nessa época, o islamismo estava ganhando terreno em Bactria entre os latifundiários e as classes urbanas superiores e educadas devido à atração ao seu alto nível de cultura e aprendizagem. Para estudar o budismo tinham de entrar para um mosteiro. Nava Vihara, embora ainda funcionasse durante esse período, era limitado na sua capacidade e requeria treinamento extensivo antes da entrada. Os estudos e a alta cultura islâmica, por outro lado, eram mais facilmente acessíveis. O budismo permaneceu forte principalmente entre as classes mais pobres do campo, geralmente na forma de práticas devocionais em locais religiosos.

O hinduismo também estava presente por toda a região. Visitando-a em 753, o peregrino chinês han Wukong (Wu-k’ung) relatou a existência de templos, tanto hindus como budistas, especialmente no Vale de Kabul. Enquanto o budismo declinava entre as classes dos mercadores, o hinduismo crescia mais forte.

Rebeliões Contra os Abássidas

Os primeiros abássidas foram afligidos por rebeliões. O califa al-Rashid morreu em 808 no seu trajeto para pôr fim a uma rebelião em Samarkand, a capital de Sogdia. Antes da sua morte, dividiu o império entre os seus dois filhos. Al-Ma'mun, que tinha acompanhado seu pai na campanha de Sogdia, recebeu a metade oriental, incluindo Bactria. Al-Amin, o mais poderoso dos dois, recebeu a mais prestigiosa metade ocidental, incluindo Bagdá e Meca.

Para obter apoio popular na conquista da metade de al-Amin do império abássida, al-Ma'mun distribuiu terras e bens em Sogdia. Depois, atacou o seu irmão. Durante a destruidora guerra que se seguiu, os Turki Shahis de Kabul, juntamente com os seus aliados tibetanos, uniram forças com os rebeldes anti-abássidas, em Sogdia e em Bactria, a fim de obterem vantagem da situação e tentarem derrubar o regime abássida. Al-Fadl, ministro e general de al-Ma'mun, encorajou o seu regente a declarar uma jihad, uma guerra santa contra essa aliança a fim de realçar ainda mais o prestígio do califa. Apenas os regentes que mantêm uma fé pura podem declarar uma jihad para se defenderem daqueles que cometem agressão contra o islamismo.

Após ter derrotado o seu irmão, al-Ma'mun declarou essa jihad. Em 815, derrotou o regente Turki Shahi, conhecido como o Xá de Kabul, e forçou-lhe a converter-se ao islamismo. O que mais ofendia os credos muçulmanos era a idolatria. Os cultos árabes pagãos que precederam Maomé adoravam ídolos e mantinham as suas estátuas em Meca, na sagrada Kaaba. Ao estabelecer o islamismo, o profeta destruiu-os todos. Consequentemente, como símbolo de submissão, o al-Ma'mun fez o Xá enviar para Meca uma estátua de ouro do Buda. Indubitavelmente com finalidades de propaganda a fim de assegurar a sua legitimidade, al-Ma'mun manteve a estátua em exposição pública no Kaaba, durante dois anos, com o anúncio de que Alá tinha convertido o rei do Tibete ao islamismo. Os árabes estavam a confundir o rei do Tibete com o seu vassalo, o Xá Turki de Kabul. Em 817, os abássidas derreteram a estátua do Buda para fazerem moedas de ouro.

Após o seu sucesso contra os Turki Shahis, os abássidas atacaram a região de Gilgit, controlada pelos tibetanos, no atual Paquistão Setentrional, e em pouco tempo também a anexaram. Enviaram de volta para Bagdá um comandante tibetano capturado e humilhado.

As Dinastias Taharid, Safárida e Hindu Shahis

Por essa altura, os líderes militares locais em várias partes do Império Abássida começaram a estabelecer estados islâmicos autónomos, apenas com lealdade nominal ao califa de Bagdá. A primeira região a declarar a sua autonomia foi Bactria Setentrional, onde o general Tahir fundou a Dinastia Tahirid, em 819.

Voltando a sua atenção para estas matérias mais pressionantes, conforme os abássidas se retiravam de Kabul e de Gilgit, os tibetanos e os Turki Shahis adquiriam novamente as suas terras anteriores. Apesar das conversões forçadas dos líderes destas terras, os abássidas não perseguiram lá o budismo. De fato, os árabes mantiveram o comércio com os tibetanos durante todo esse período.

O general islâmico seguinte a declarar autonomia sob os abássidas foi al-Saffar. Em 861, o seu sucessor estabeleceu a Dinastia Safárida no sudeste do Irão. Após ter obtido o controlo do resto do Irão, os safáridas invadiram o Vale de Kabul em 870. Face à iminente derrota, o último dos regentes Turki Shahi budistas foi derrubado pelo seu ministro brâmane, Kallar. Abandonando Kabul e Nagarahara aos safáridas, Kallar estabeleceu a Dinastia Hindu Shahi em Gandhara punjabe.

Os safáridas eram conquistadores especialmente vingativos. Pilharam os mosteiros budistas do Vale de Kabul e de Bamiyan, e enviaram ao califa as suas estátuas de “ídolos” de Buda como troféus de guerra. Esta severa ocupação militar foi o primeiro golpe sério contra o budismo na área de Kabul. A derrota anterior e a conversão ao islamismo do Xá de Kabul, em 815, tinham tido apenas pequenas repercussões no estado geral do budismo na região.

Os safáridas continuaram para norte a sua campanha de conquista e de destruição, capturando Bactria aos Tahirids em 873. Porém, em 879, os Hindu Shahis retomaram Kabul e Nagarahara. Continuaram a sua política de patrocínio entre os seus povos, tanto ao hinduismo como ao budismo, e os mosteiros budistas de Kabul depressa adquiriram uma vez mais a sua anterior riqueza.

As Dinastias Samânida, Gaznávida e Seljúcida

Ismail bin Ahmad, o governador persa de Sogdia, declarou autonomia a seguir e fundou a Dinastia Samânida, em 892. Conquistou Bactria aos safáridas em 903. Os samânidas promoviam o retorno à cultura iraniana tradicional, mas eram tolerantes ao budismo. Por exemplo, durante o reinado de Nasr II (governou 913 – 942), ainda eram feitas e vendidas imagens esculpidas do Buda na capital samânida, Bukhara. Não eram proibidas como “ídolos” budistas.

Os samânidas escravizaram os povos das tribos túrquicas do seu reino e alistaram-nos nos seus exércitos. Se os soldados se convertessem ao islamismo, davam-lhes a liberdade nominal. Os samânidas, entretanto, tinham dificuldade em manter o controlo sobre estes homens. Em 962, Alptigin, um chefe militar túrquico que tinha adotado o islamismo, tomou Ghazna (atual Ghazni), a sul de Kabul. Ali, em 976, o seu sucessor, o Sebuktegin (governou 976 – 997), fundou o Império Gaznávida como vassalo dos abássidas. Depressa conquistou o Vale de Kabul aos Hindu Shahis, correndo com eles de volta para Gandhara.

O budismo tinha florescido no Vale de Kabul sob o regime Hindu Shahi. Asadi Tusi, em seu N ome de Garshasp, escrito em 1048, descreveu a opulência do seu mosteiro principal, Subahar (Su Vihara), quando os gaznávidas invadiram Kabul. Parece que os gaznávidas não o destruiram.

Em 999, o regente gaznávida seguinte, Mahmud de Ghazni (governou 998 – 1030) derrubou os samânidas, com a ajuda dos soldados escravos túrquicos ao serviço samânida. O império gaznávida incluia agora Bactria e Sogdia Meridional. Mahmud Ghazni também conquistou a maioria do Irão. Continuou a política samânida de promover a cultura persa e de tolerar religiões não-muçulmanas. Al-Biruni, um erudito persa e escritor ao serviço da corte gaznávida, relatou que, no dobrar do milénio, os mosteiros budistas em Bactria, incluindo Nava Vihara, ainda estavam funcionando.

Contudo, Mahmud de Ghazni era intolerante às seitas islâmicas, à excepção da sunita ortodoxa que suportava. Seus ataques a Multan, no Sindh Setentrional, em 1005 e de novo em 1010, eram campanhas contra a seita ismaelita do islão xiita, suportada pelo estado, que os samânidas também tinham favorecido. A Dinastia Fatímida ismaelita (910 – 1171), centrada no Egipto desde 969, era a principal rival dos abássidas sunitas na supremacia do mundo islâmico. Mahmud estava também empenhado a terminar o derrube dos Hindu Shahis, que seu pai tinha iniciado. Assim, atacou e expulsou os Hindu Shahis de Gandhara, e depois prosseguiu para a conquista de Multan.

Nos anos que se seguiram, Mahmud expandiu o seu império conquistando as regiões para o leste, até Agra, na India Setentrional. Suas pilhagens e destruição de ricos templos hindus e mosteiros budistas, pelo caminho, faziam parte da sua tática de invasão. Como na maioria das guerras, as forças invasoras causavam frequentemente tanta destruição quanto possível por forma a convencerem a população local a render-se, especialmente se oferecessem resistência. Durante as suas campanhas no subcontinente indiano, Mahmud Ghazni deixou em paz os mosteiros budistas sob seu regime em Kabul e Bactria.

Em 1040, os túrquicos seljuques, vassalos dos gaznávidas em Sogdia, revoltaram-se e estabeleceram a Dinastia Seljúcida. Rapidamente conquistaram Bactria e a maioria do Irão aos gaznávidas, que se retiraram para o vale de Kabul. Por fim, o império Seljúcida estendeu-se até Bagdá, à Turquia e à Palestina. O seljuques foram os “terríveis infiéis” contra os quais o Papa Urbano II declarou, em 1096, a Primeira Cruzada.

Os seljuques eram pragmáticos no seu regime. Estabeleceram centros de estudos islâmicos (madrasah) em Bagdá e na Ásia Central, a fim de ensinarem a burocracia civil a administrar as várias partes do seu império. Toleravam nos seus domínios a presença de religiões não-islâmicas, tal como o budismo. Assim, al-Shahrastani (1076 – 1153) publicou, em Bagdá, o seu Kitab al-Milal wa Nihal – um texto em árabe sobre religiões e seitas não-muçulmanas. Continha uma explicação simples dos sistemas de asserções filosóficas budistas e transcrevia o relato feito em primeira-mão por al-Biruni um século antes, segundo o qual os indianos aceitavam o Buda como um profeta.

As muitas referências budistas, existentes na literatura persa do período, fornecem também provas deste contato cultural islâmico-budista. A poesia persa, por exemplo, usava frequentemente a analogia para palácios: eles eram “tão bonitos quanto um Nowbahar (Nava Vihara)”. E mais, em Nava Vihara e em Bamiyan, as imagens de Buda, particularmente de Maitreya, o futuro Buda, tinham discos de lua atrás das suas cabeças. Isto levou à descrição poética da beleza pura como alguém que tem “a cara em-forma-de-lua de um Buda”. Assim, os poemas persas do século XI, tais como Varqe e Golshah por Ayyuqi, usavam a palavra bot como uma conotação positiva para “Buda” e não como seu segundo significado negativo como “ídolo”. Implicava o ideal da beleza assexual em homens e mulheres. Tais referências indicavam que, ou os mosteiros e imagens budistas estiveram presentes nestas áreas culturais iranianas pelo menos durante o primeiro período mongol no século XIII, ou, no mínimo, que um forte legado budista tivesse lá permanecido durante séculos entre os budistas conversos ao islamismo.

As Dinastias Qaraqitan e Ghurad

Em 1141, os Qaraqitans, um povo que falava mongol e que governava o Turquistão Oriental e o norte do Turquistão Ocidental, derrotaram os Seljuques em Samarkand. O seu regente, Yelu Dashi, anexou Sogdia e Bactria ao seu império. Os gasnávidas controlavam ainda a área do Vale de Kabul para o oriente. Os Qaraqitans seguiam uma mescla de budismo, taoísmo, confucionismo e xamanismo. Yelu Dashi, entretanto, era extremamente tolerante e protegia todas as religiões nos seus domínios, incluindo o islamismo.

Em 1148, Ala-ud-Din, dos turcos Guzz, nómadas das montanhas do Afeganistão Central, conquistou Bactria aos Qaraqitans e estabeleceu a Dinastia Ghurid. Em 1161, prosseguiu e tomou Ghazna e Kabul aos gasnávidas. Em 1173, colocou o seu irmão, Muhammad Ghuri, como governador de Ghazna e incentivou-o a invadir o subcontinente indiano.

Tal como o seu precedente Mahmud Ghazni, Muhammad Ghuri capturou primeiro, em 1178, o domínio ismaelita de Multan no Sindh Setentrional, o qual tinha retomado independência ao regime gasnávida. Prosseguiu então na conquista de toda a região punjabe, do Paquistão, e do norte da India e, depois disso, a planície Gangética até ao atual Bihar e Bengal Ocidental. Durante a sua campanha, saqueou e destruiu, em 1200, muitos dos grandes mosteiros budistas, incluindo Vikramashila e Odantapuri. O rei Sena local tinha-os transformado em postos militares numa tentativa de prevenir a invasão.

Os líderes Ghurid podem ter estimulado as suas tropas ao fervor da batalha mediante instrução religiosa, tal como qualquer nação usa a propaganda política ou patriótica. No entanto, o seu objetivo principal, como o da maioria dos conquistadores, era ganhar território, riqueza e poder. Assim, os Ghurids destruiram apenas os mosteiros que se encontravam na linha direta da sua invasão. Os mosteiros Nalanda e Bodh Gaya, por exemplo, estavam situados fora da rota principal. Assim, quando o tradutor tibetano Chag Lotsawa os visitou, em 1235, encontrou-os danificados e pilhados mas ainda funcionando com um pequeno número de monges. O Mosteiro Jagaddala, em Bengal Setentrional, não foi afetado e estava florescendo.

E mais, os Ghurids não procuraram conquistar Caxemira nem lá converter os budistas ao islamismo. Caxemira estava empobrecida naquela época, e os mosteiros quase não tinham nenhuma riqueza para pilhar. Além disso, visto que os Ghurids não pagavam aos seus generais ou governadores, nem lhes forneciam provisões, esperaram que eles suportassem as suas tropas e a si próprios mediante ganhos locais. Se, à força, os governadores convertessem ao islão todos sob a sua jurisdição, não poderiam explorar grande parte da população com impostos adicionais. Assim, tal como no Afeganistão, os Ghurids continuaram o costume tradicional de conceder, na India, o estatuto dhimmi aos não-muçulmanos e de exigir o imposto jizya.

O Período Mongol

Em 1215, Gengis Khan, o fundador do Império Mongol, conquistou o Afeganistão aos Ghurids. Tal como era sua política noutros lugares, Gengis destruiu aqueles que se opuseram à sua invasão e devastou as suas terras. Não é claro como se desembaraçaram nessa época os vestígios do budismo que ainda existiam no Afeganistão. Gengis era tolerante a todas as religiões desde que os seus líderes rezassem pela sua longa vida e pelo seu sucesso militar. Em 1219, por exemplo, chamou ao Afeganistão um famoso mestre taoista, da China, a fim de executar ceremónias pela sua longa vida e para lhe preparar o elixir da imortalidade.

Após a morte de Gengis, em 1227, e a divisão do seu império entre os seus herdeiros, o seu filho Chagatai herdou o governo de Sogdia e do Afeganistão, e estabeleceu o Chagatai Khaganate. Em 1258, Hulegu, um neto de Gengis, conquistou o Irão e derrubou o califado abássida de Bagdá. Estabeleceu o Il-Khanato e depressa convidou para a sua corte, no noroeste do Irão, monges budistas do Tibete, de Caxemira e de Ladakh. O Il-Khanato era mais poderoso do que o Chagatai Khaganate e, inicialmente, lá dominava os seus primos. Dado que os monges budistas tinham de atravessar o Afeganistão a caminho do Irão, receberam sem dúvida apoio oficial pelo caminho.

De acordo com alguns eruditos, os monges tibetanos que foram ao Irão eram muito provavelmente da Escola Drikung (Drigung) Kagyu e o motivo que levou Hulegu a convidá-los pode ter sido político. Em 1260, o seu primo Khubilai (Kublai) Khan, o regente mongol da China Setentrional, declarou-se a si próprio o Grande Khan de todos os mongóis. Khubilai apoiava a Tradição Sakya do budismo tibetano e deu aos seus líderes a suserania nominal sobre o Tibete. Antes disso, os líderes Drikung Kagyu tinham ascendência política no Tibete. O principal rival de Khubilai era um outro primo, Khaidu, que governava o Turquistão Oriental e apoiava a linha Drikung Kagyu. Hulegu poderia querer aliar-se ao Khaidu nesta luta pelo poder.

Há quem especule que o motivo para a viragem de Khubilai e Khaidu para o budismo tibetano era o de obter o apoio sobrenatural de Mahakala, o protetor budista praticado pelas tradições Sakya e Kagyu. Mahakala tinha sido o protetor dos tangutes,os quais tinham governado o território entre o Tibete e a Mongólia. Afinal, o seu avô, Gengis Khan, tinha sido morto em batalha pelos tangutes, que devem ter recebido ajuda sobrenatural. É improvável que os líderes mongóis, incluindo Hulegu, tivessem escolhido o budismo tibetano por causa dos seus profundos ensinamentos filosóficos.

Após a morte em 1266 de Hulegu, o Chagatai Khaganate tornou-se mais independente dos Il-Khans e formou uma aliança direta com Khaidu, na sua luta contra Khubilai Khan. Entretanto, a linha de sucessores de Hulegu alternava o seu apoio ora ao budismo tibetano ora ao islamismo, aparentemente também por motivações políticas. Abagha, o filho de Hulegu, continuou a apoiar o budismo tibetano tal como seu pai. Porém, Takudar, o irmão de Abagha que o sucedeu em 1282, converteu-se ao islamismo quando invadiu e conquistou o Egipto para obter ajuda e suporte local. Arghun, o filho de Abagha, derrotou o seu tio e tornou-se Il-Khan em 1284. Fez do budismo a religião estatal do Irão e ali fundou diversos mosteiros. Quando Arghun morreu em 1291, o seu irmão Gaihatu tornou-se o Il-Khan. Monges tibetanos tinham dado a Gaihatu o nome tibetano Rinchen Dorje, mas ele era um bêbado degenerado e dificilmente uma honra à fé budista. Ele introduziu no Irão o dinheiro de papel da China, o que causou um desastre económico.

Gaihatu morreu em 1295, um ano após a morte de Khubilai Khan. Ghazan, filho de Arghun, sucedeu-lhe ao trono. Restabeleceu o islamismo como religião oficial de Il-Khanato e ali destruiu os novos mosteiros budistas. Alguns eruditos afirmam que a mudança de Ghazan Khan à política religiosa de seu pai era para se distanciar das reformas e das crenças de seu tio, e para afirmar a sua independência da China Mongol.

Apesar de ordenar a destruição de mosteiros budistas, parece que Ghazan Khan não pretendia destruir tudo o que estivesse associado com o budismo. Por exemplo, ordenou que Rashid-al-Din escrevesse uma Historia Universal (árabe: Jami’ al-Tawarikh), com versões tanto em persa como em árabe. Na sua seção sobre a história das culturas dos povos conquistados pelos mongóis, Rashid-al-Din incluiu a V ida e os Ensinamentos de Buda. Para ajudar o historiador na sua pesquisa, Ghazan Khan convidou à sua corte Bakshi Kamalashri, um monge budista de Caxemira. Tal como o trabalho mais antigo de al-Kermani, o trabalho de Rashid apresentou o budismo de uma forma que os muçulmanos pudessem facilmente compreender, apresentando o Buda como um Profeta, os deuses deva como anjos e Mara como o Diabo.

Rashid-al-Din relatou que, na sua época, onze textos budistas traduzidos em árabe estavam circulando no Irão. Estes incluiam textos Mahayana, tais como: O Sutra sobre o Ornamento da Terra Pura da Bem-Aventurança (Sânsc.: Sukhavativyuha Sutra, sobre a Terra Pura de Amitabha), O Sutra sobre o Ornamento como uma Cesta Entretecida (Sânsc.: Karandavyuha Sutra, sobre Avalokiteshvara, a personificação da compaixão) e Uma Exposição sobre Maitreya (Sânsc.: Maitreyavyakarana, sobre Maitreya, o futuro Buda e personificação do amor). Estes textos estavam sem dúvida entre aqueles que foram traduzidos sob o patrocínio dos califas abássidas, na Casa do Conhecimento em Bagdá, começando no século VIII.

Rashid-al-Din terminou a sua história em 1305, durante o domínio de Oljaitu, o sucessor de Ghazan. Contudo, parece que os monges budistas ainda estavam presentes no Irão, pelo menos até à morte de Oljaitu em 1316, dado que os monges tentaram, em vão, fazer com que o regente mongol voltasse de novo para o budismo. Assim, pelo menos até essa altura, os monges budistas ainda transitavam pelo Afeganistão e, deste modo, podiam ainda ser bem-vindos na corte de Chagatai.

Em 1321, o Império Chagatai dividiu-se em dois. O Chagatai Khaganate Ocidental incluia Sogdia e Afeganistão. Desde o início, os seus khans converteram-se ao islamismo. O Il-Khanato, no Irão, fragmentou-se e desfez-se em 1336. Depois disso, não há nenhuma indicação de uma presença continuada do budismo no Afeganistão. Tinha lá durado quase mil e novecentos anos. Contudo, o conhecimento do budismo não morreu. Timur (Tamerlão) conquistou, em 1364, o Chagatai Khaganate Ocidental, e os pequenos estados sucessores do Il-Khanato, em 1385. Shah Rukh, filho e sucessor de Timur, patrocinou o historiador Hafiz-i Abru para escrever, em persa, Uma Coleção de Histórias (árabe: Majma’ al-Tawarikh). Completada, em 1425, na capital de Shah Rukh, Herat, Afeganistão, a história continha uma descrição do budismo modelada no trabalho de Rashid-al-Din, um século antes.