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Arquivos sobre Budismo do Dr. Alexander Berzin

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Bon e Budismo Tibetano

Alexander Berzin
Amsterdão, Holanda, 23 de Dezembro de 2001
Transcrito do curso e ligeiramente revisado

Preliminares

Vamos nos aquietar focalizando na respiração. Se as nossas mentes estiverem muito distraídas podemos contar a respiração – para fora, para dentro, um; para fora, para dentro, dois – até onze, umas poucas vezes. Se as nossas mentes estiverem relativamente quietas não há necessidade de contar. Podemos focalizar apenas na sensação da respiração entrando e saindo do nariz.

A seguir reafirmamos a nossa motivação. No oeste, "motivação" parece implicar as razões psicológicas ou emocionais para se fazer algo. Esse não é o significado da palavra tibetana 'dun-pa. Em vez disso, é o objetivo, o que nós queremos alcançar. O nosso objetivo ou alvo ao vir aqui escutar esta palestra é obter uma imagem mais clara sobre Bon e seu relacionamento com o budismo. Estamos fazendo isto de modo a podermos seguir o caminho que estamos seguindo, seja ele Bon ou budista, com mais claridade e sem visões sectárias. Isto para que possamos colocar toda a nossa atenção no caminho espiritual para alcançar a iluminação para o benefício de todos. Nós reafirmamos este objetivo.

Depois tomamos a decisão consciente de escutar com concentração. Assim como tomamos essa decisão antes de meditar, ela também é importante antes de uma aula, antes do trabalho, ou antes de fazer alguma coisa. Decidimos que se a nossa atenção vaguear, nós a traremos de volta, e que se ficarmos com sono tentaremos nos despertar, de modo a podermos tirar toda a vantagem de aqui estar. Tomamos essa decisão consciente.

Introdução

Esta noite pediram-me para falar sobre a tradição Bon e a sua relação com o budismo. Quando Sua Santidade o Dalai Lama fala das tradições tibetanas, refere-se frequentemente às cinco tradições do Tibete: Nyingma, Kagyu, Sakya, Gelug e Bon. Do ponto de vista de Sua Santidade, Bon tem um lugar igual com as quatro linhagens do budismo tibetano. Sua Santidade é muito aberto. Não todos concordam com essa posição. Houve, e ainda há, várias ideias muito estranhas sobre Bon entre professores budistas. Do ponto de vista da psicologia ocidental, quando as pessoas estão tentando com muito esforco enfatizar coisas positivas das suas personalidades antes que terem realmente resolvido coisas a um nível profundo, então o lado-sombra é projetado em um inimigo. "Nós somos os bons, seguindo um trajeto puro e correto e eles são o diabo". Infelizmente, os Bonpos têm sido os objetos tradicionais desta projeção na história tibetana. Olharemos para as razões históricas para isto. Isto precisa mesmo de ser compreendido dentro do contexto da história política tibetana.

De fato o Bon recebeu muita publicidade negativa e uma má imagem dentro do próprio Tibete. Os ocidentais são frequentemente atraídos à controvérsia, como se algo que recebesse uma má imagem fosse mais interessante. As outras tradições são menos excitantes e mais diretas . Uma ideia igualmente estranha é que o Bon é mais exótico do que o budismo tibetano. Alguns ocidentais vêem-no como um lugar onde podem encontrar magia, coisas tipo Lobsang Rampa, como perfurar um buraco nas testas das pessoas para abrir os seus terceiros olhos. Nenhuma das perspectivas é exata. Nós temos de tentar obter uma perspectiva mais equilibrada e olhar para o Bon com respeito, como faz Sua Santidade . É importante compreendermos a história tibetana para vermos como a opinião negativa sobre o Bon se desenvolveu e para vermos como a sua abordagem ao desenvolvimento espiritual se relaciona ao budismo tibetano.

Traçando as Origens do Bon – Shenrab Miwo

De acordo com a própria tradição Bon, foi fundada por Shenrab Miwo, que viveu há trinta mil anos. Isso colocá-lo-ia algures na Idade da Pedra. Eu não acho que isto significa que ele era um homem das cavernas. Uma maneira comum de demonstrar grande respeito a uma linhagem é dizer que ela é antiga. Em qualquer caso, as datas reais da sua vida não são possíveis de provar. Shenrab Miwo viveu em Omolungring. A descrição deste lugar parece ser uma mistura das ideias sobre Shambhala, Monte Meru, e Monte Kailash. É a descrição de uma terra espiritual ideal. Diz-se estar dentro de uma área maior chamada Tazig. A palavra "Tazig" pode ser encontrada tanto no persa como no árabe para se referir à Persia ou à Arábia. Em outros contextos, refere-se a uma tribo nomádica. Na tradição Bon, Tazig é descrita como sendo a oeste do reino de Zhang-zhung, que era no Tibete Ocidental.

Isto sugere que o Bon veio da Ásia Central, e provavelmente de uma área cultural iraniana. É possível que Shenrab Miwo tenha vivido numa cultura iraniana antiga e tenha depois ido para Zhang-zhung. Algumas versões dizem que ele veio entre os séculos XI e VII a.C. Isso também foi há muito tempo atras e, uma vez mais, não há maneira de provar uma posição ou outra. O que é claro é que na altura da fundação da Dinastia Yarlung no Tibete Central (127 a.C.) já havia algo como uma tradição nativa. Nós nem sequer sabemos o que era chamada nessa altura.

A Conexão Iraniana

A conexão iraniana é fascinante. Houve muita especulação sobre ela. Tem de ser analisada não só sob o ponto de vista Bon, como também do ponto de vista budista. Há uma tremenda quantidade de material em comum entre Bon e o Budismo. Os bonpos dizem que os budistas obtiveram-no deles e os budistas dizem que os bonpos o obtiveram deles. Cada lado afirma ser a fonte. É uma questão difícil de decidir. Como é que sabemos?

O budismo foi da India para o Afeganistão muito cedo. De fato, diz-se que dois dos discípulos do próprio Buda vieram do Afeganistão e que levaram o Budismo para lá. Nos séculos I e II a.C., vemos que o Budismo foi para o próprio Irã e até mesmo à Ásia Central. O Budismo estava lá. Se Bon diz que ideias que parecem ser muito semelhantes ao que o Buda ensinou vieram de uma área persa para dentro do Tibete Ocidental durante um período muito antes de terem vindo diretamente da India, é muito possível que tenham vindo de uma mistura de Budismo e ideias culturais iranianas locais que estavam presentes nessa área. A área que parece ser a mais lógica fonte das ideias budistas iranianas é Khotan.

Khotan

Khotan é para o norte do Tibete Ocidental. Como sabem, o Tibete é um platô muito elevado com muitas montanhas. Ao irmos mais para o norte para o fim desse platô, há outra cadeia de montanhas, e depois [o terreno] vai para baixo, até chegar abaixo do nível do mar, a um deserto no Turquistão Oriental, que é agora a província Xinjiang da China. Khotan estava no pé dessas montanhas ao entrarmos no deserto. Era uma área cultural iraniana; o povo veio do Irã. Era um enorme centro de Budismo e de comércio. Teve um impacto cultural significativo no Tibete, embora os tibetanos minimizem isto e digam que tudo veio da India ou da China.

Até sistema de escrita tibetano veio do alfabeto khotanês. O imperador tibetano Songtsen-gampo enviou um ministro a Khotan para obter um sistema de escrita para a língua tibetana. A estrada comercial para Khotan atravessava Caxemira, e o grande professor de Khotan que esperavam encontrar estava lá. Assim, obtiveram dele o sistema de escrita em Caxemira, e a história passou a ser que obtiveram um sistema de escrita de Caxemira. Se analisarmos o sistema de escrita, podemos ver que vem realmente de Khotan. É claro, o sistema khotanês veio originalmente da India. O ponto é que havia muito contato cultural com Khotan.

Podemos ver que a apresentação do Bon é muito plausível. Pode bem ser que veio de Khotan. Deste ponto de vista, poderíamos dizer que o budismo chegou ao Tibete de duas direções: de Khotan ou das culturas iranianas para o Tibete Ocidental e depois, mais tarde, da India. No primeiro caso, poderia ter vindo na forma do antigo Bon. É bastante possível que o Budismo, e em especial o dzogchen, tenha vindo de ambos os lados e que cada lado tenha emprestado do outro. Isso está provavelmente mais perto da verdade.

Descrição do Universo e da Vida Após Morte

Um elemento Bon que vem de uma crenca cultural iraniana é a narrative de como o universo evoluiu. O Budismo tem os ensinamentos do abhidharma sobre Monte Meru e assim por diante, mas essa não é a única explicação. Há também a explicação de Kalachakra, que é ligeiramente diferente. Os textos Bon contêm a explicação do abhidharma, tal como está no Budismo, mas também têm a sua própria explicação para com certos aspectos que parecem totalmente iranianos, como um dualismo entre a luz e a escuridão. Alguns eruditos russos observaram semelhancas entre os nomes persas antigos e osnomes tibetanos para vários deuses e figuras. Esta conexão iraniana é para onde estão apontando.

O que é muito único ao antigo Bon é uma ênfase na vida após a morte, especialmente no estado intermediário. Quando os reis morriam, íam para uma vida após a morte. Porque precisavam de coisas para a sua viagem, havia sacrifício de animais, e possivelmente até sacrifícios humanos, embora isso seja discutível. Certamente, enterravam retratos, alimentos e todas as coisas que uma pessoa necessitaria na sua viagem após a morte.

É bastante interessante reparar que o Budismo tibetano adotou esta ênfase no estado entre vidas. No Budismo indiano há menção do bardo, mas ele recebe uma ênfase muito pequena, enquanto que há muitos rituais de bardo e assim por diante no budismo tibetano. Também podemos encontrar uma ênfase na preparação para a vida após a morte na antiga cultura persa. O único aspecto do antigo Bon de que podemos falar com confiança é a prática de rituais de enterro, e o que é encontrado nos túmulos mostra essa crença na vida após a morte. Todo o resto é é apenas especulação. Podemos ainda ver os túmulos dos reis antigos.

A influência de Zhang-zhung chegou à área Yarlung do Tibete Central e durou desde os tempos mais antigos até à fundação do primeiro império tibetano por Songsten-gampo. Ele criou alianças casando com princesas de países diferentes. Todos sabem que casou com uma princesa da China e outra do Nepal. Contudo, ele também se casou com uma princesa de Zhang-zhung. Por conseguinte, este primeiro imperador tibetano foi influenciado por cada uma destas culturas.

Os ensinamentos completos do Budismo não chegaram ao Tibete durante este período mais antigo, e a sua influência foi na verdade muito pequena. No entanto, o imperador construiu templos budistas em vários "pontos-poder". O Tibete era visto como uma demónia deitada de costas, e acreditava-se que a construção de templos em vários pontos de acupuntura iria subjugar as forças selvagens. Ver as coisas em termos de pontos de acupuntura, subjugar demonios e assim por diante é uma coisa muito chinêsa. Esta era a forma de Budismo presente no Tibete naquela época. Aqui, o que é relevante é que o imperador Songtsen-gampo, apesar da sua adoção do Budismo, manteve os rituais Bon de enterro que eram praticados em Yarlung antes dele. Isto foi obviamente reforçado pela sua [esposa] rainha de Zhang-zhung. Assim, os rituais de enterro, com os sacrifícios e assim por diante, continuaram neste primeiro período budista.

O Exílio dos Bonpos

Por volta de 760, o imperador Songdetsen convidou Guru Rinpoche, Padmasambhava, da India. Construíram o primeiro mosteiro, Samyay, e começaram uma tradição monástica. Em Samyay, tinham um departamento de tradução para traduzir textos não só das línguas indiana e chinesa, como também da de Zhang-zhung, que pelos vistos já era uma língua escrita nessa época. Há dois sistemas tibetanos de escrita. O sistema impresso é aquele que o imperador Songtsen-gampo obteve de Khotan. De acordo com a pesquisa de alguns grandes eruditos, como Namkhai Norbu Rinpoche, Zhang-zhung teve um sistema de escrita mais antigo, que era a base para a forma do tibetano escrito à mão. Em Samyay, estavam traduzindo textos Bon, supostamente sobre enterros e assim por diante, da língua de Zhang-zhung em sua própria escrita, para o tibetano.

Em Samyay, houve o famoso debate entre o budismo indiano e chinês; a seguir um conselho religioso foi estabelecido e, em 779, o Budismo foi declarado a religião estatal do Tibete. Estiveram envolvidas, sem dúvida, muitas considerações políticas. Pouco depois, em 784, houve uma perseguição à facção Bon. É aqui que toda a hostilidade começa. É importante analisar isto. O que se estava realmente se passando?

Dentro da corte imperial havia uma fação pró-China, uma fação pró-India e uma fação nativa xenófoba ultra-conservadora. O pai do imperador Tri Songdetsen tinha casado uma rainha chinesa que tinha muita influência e consequentemente o pai tinha sido pró-Chinês em muitos assuntos políticos. A fação conservadora tinha assassinado o pai. Eu penso que esta é uma das razões por que os chineses perderam o debate. Não havia maneira de conseguirem ganhar um debate. Os chineses não tinham a tradição do debate e foram postos contra o melhor debatente da India. Não tinham uma língua em comum, por isso em que língua debateram? Tudo estava sendo traduzido. Obviamente, foi uma estratégia política para se livrarem da fação chinesa. Por causa dos chineses, o pai do imperador tinha sido morto. Agora, além disso, o rei também se queria livrar da fação anti-estrangeiros. A fação indiana era a menor ameaça ao poder político do imperador. Assim, a fação política conservadora foi enviada para o exílio. Esses eram os bonpos.

O que é confuso é quando as pessoas dizem que os bonpos estavam a fazer rituais de enterro na corte. Esses não eram os bonpos que foram enviados para o exílio. Os bonpos que estavam exilados eram estes ministros conservadores e figuras políticas que tinham sido expulsas. Interessante, os rituais de enterro e os rituais de sacrifício continuaram na corte mesmo após o seu exílio. Para comemorar um tratado com a China assinado em 821, uma coluna foi erigida que descrevia as cerimónias. Sacrificaram animais. Embora já não tivessem enterros imperiais, ainda havia ali alguma influência. Eu penso que é muito importante compreender que a hostilidade entre os budistas e os bonpos era na verdade uma coisa política; não era realmente sobre religião ou rituais.

A facção conservadora foi enviada para duas áreas. Uma é Yunnan, na atual área do sudoeste da China, norte de Burma, e a outra foi Gilgit, no noroeste do Paquistão, muito perto de onde tinha vindo Guru Rinpoche. Podemos inferir que os Bonpos podem ter obtido alguns ensinamentos sobre dzogchen dessa área, onde Guru Rinpoche também os recebeu, e que os Bonpos os poderiam ter mais tarde levado de volta para o Tibete, independentemente de Guru Rinpoche. Há muitas explicações possíveis para Bon ter uma tradição de dzogchen separada da tradição budista vinda de Guru Rinpoche. Não é apenas uma questão de alguém diz que sim e por isso é verdade. Temos de investigar a história.

Textos-Tesouro Bon Enterrados

Muitos textos Zhang-zhung foram enterrados na altura do exílio, colocados nas paredes de barro do mosteiro Samyay por um grande mestre chamado Drenpa-namka. Guru Rinpoche também estava enterrando textos ao mesmo tempo , porque sentiu que na época , as pessoas não eram suficientemente sofisticadas para os compreender. Enterrou apenas textos dzogchen. Os Bonpos enterraram todos os ensinamentos Bon, incluindo dzogchen. Assim, embora Bonpos e Nyingmas tivessem enterrado textos ao mesmo tempo, as razões para o fazer e os textos enterrados eram bastante diferentes.

O imperador tibetano seguinte, Relpachen, era um fanático. Decretou que cada sete casas sustentassem um monge. Muitos dos impostos foram desviados para sustentar os mosteiros. Os monges do conselho religioso tinham uma quantidade enorme de poder político. O imperador que se seguiu, Langdarma, é retratado como o diabo porque perseguiu o conselho religioso e fez com que todos os impostos deixassem de ir para os mosteiros. Dissolveu os mosteiros, mas não se livrou das bibliotecas. Nós sabemos disto porque quando Atisha foi para o Tibete no século XI, ele comentou que as bibliotecas eram maravilhosas. Langdarma basicamente acabou com as instituições monásticas porque estas se estavam tornando demasiado fortes politicamente. Assim, houve uma época em que os mosteiros estavam abandonados.

Os textos Bon enterrados em Samyay foram descobertos pela primeira vez em 913. Alguns pastores estavam de estadia no mosteiro e quando se inclinaram contra uma parede, esta quebrou-se, revelando alguns textos. A maior parte dos textos Bon foi descoberta cerca de um século depois, por um grande mestre bonpo chamado Shenchen Luga. Em 1017, ele os codificou. Eram, na maior parte, material não-dzogchen, cobrindo o que chamaríamos de ensinamentos em comum com o Budismo tibetano. Foi só depois disto que os Nyingmas começaram a descobrir textos em Samyay e em outros mosteiros. Uns quantos mestres encontraram textos Bon e Nyingma, e muitas vezes no mesmo lugar . Os textos Nyingma eram principalmente sobre dzogchen. Aqui, na nova fase de Bon, a historia é mais sólida , em contraste com a antiga fase que decorreu antes do exílio e dos textos serem enterrados.

Comparando Bon com o Budismo Tibetano

Podemos ver que há muito em comum com as tradições do Budismo tibetano. É por isso que Sua Santidade chama ao Bon uma das cinco tradições. Os bonpos não gostariam, mas poderiamos chamá-los uma outra forma de Budismo tibetano. Depende de como definimos uma tradição budista. A maior parte da terminologia é a mesma. O Bon fala sobre a iluminação, alcançar a iluminação, Budas, e assim por diante. Certos termos são diferentes, tal como o são os nomes de várias deidades, mas os ensinamentos fundamentais estão lá. Há algumas diferenças muito triviais, tais como circumambular no sentido anti-horário em vez de no sentido horário. O tipo de chapéu cerimonial é diferente. As vestes dos monges são idênticas, exceto que parte da veste é azul em vez de ser vermelha ou amarela.

O Bon tem uma tradição de debate, tal e qual as tradições budistas tibetanas. A tradição de debate é muito antiga, por isso, uma vez mais, podemos perguntar quem a começou. Ela estava certamente presente nos mosteiros indianos muito antes de ter aparecido no Tibete. Contudo, poderia ter chegado à tradição Budista tibetana através do Bon. Por outro lado, não tem necessariamente de ser que uma a copiou da outra.

O que é muito interessante é que a tradição de debate dos bonpos segue a tradição de debate Gelug muito proximamente. Muitos dos monges bonpos treinam em debate nos mosteiros Gelug e até fazem cursos de Geshe. Isso sugere que embora o Bon tenha dzogchen, a interpretação Madhyamaka está mais perto da interpretação Gelug do que da interpretação Nyingma. Senão, não poderiam participar nos debates Gelug. As similaridades entre Bon e o Budismo tibetano não são apenas em relação a Nyingma. Não é apenas um clone de Nyingma com nomes diferentes. É muito mais complexo do que isto. Bon também enfatiza as várias ciências indianas tradicionais, que eles estudam com muito maior intensidade do que nos mosteiros budistas – medicina, astrologia, métrica poética, e assim por diante. Dentro dos mosteiros budistas, estas matérias são enfatizadas muito mais em Amdo, no Tibete Oriental, do que no Tibete Central.

Tanto o Bon como o Budismo tibetano possuem mosteiros e votos monásticos. É bastante interessante que embora muitos dos votos sejam os mesmos nas duas tradições, o Bon tem certos votos que esperariamos que os budistas tivessem mas não têm. Por exemplo, os bonpos têm um voto de serem vegetarianos. Os budistas não. A moralidade Bon é um pouco mais rigorosa do que a budista.

O Bon tem um sistema de tulkus, que é o mesmo do que o dos mosteiros budistas. Têm Geshes. Têm prajnaparamita, madhyamaka, abhidharma, e todas as divisões que encontramos nos textos budistas. Parte do vocabulário e das apresentações são ligeiramente diferentes, mas a variação não é mais dramática do que aquela entre uma linhagem budista e outra. Por exemplo, o Bon tem a sua própria narrativa da criação do mundo, mas nós também encontramos uma narrativa particular em Kalachakra. Este é um retrato geral. Bon não é assim tão estranho.

Cultura Tibetana e Ensinamentos Essenciais

Eu penso que é importante tentarmos discernir os aspectos do budismo que foram adotados do Bon, que refletem a nativa abordagem tibetana, de modo a termos uma ideia mais clara do que é a cultura tibetana e do que é Budismo essencial. É também importante tentarmos discernir aspectos culturais dos ensinamentos Bon essenciais.

Um processo de cura com quatro partes foi adotado por todas as tradições budistas tibetanas. Para alguém que aparece com uma doença, a primeira coisa que se faz é jogar um mo, que é um método de predição. Isso vem do Bon. Em épocas antigas, não se faziam mos com os dados, como geralmente o fazem agora, mas com uma corda amarrada em vários nós. Omo indica se espíritos nocivos estão causando a doença e, se assim for, que rituais executar para fazer paz com eles. Em segundo lugar, consulta-se a astrologia para determinar o momento mais eficaz de fazer os rituais. A astrologia é feita em termos dos elementos (segundo a tradição)chinesa – terra, água, fogo, metal e madeira. Em terceiro lugar, são feitos os rituais para remover as influências nocivas externas. Depois disso, em quarto lugar, toma-se medicina.

A teoria por trás dos rituais é ligeiramente diferente no Budismo e no Bon. De um ponto de vista budista, nós trabalhamos com o carma e olhamos para a situação externa como sendo basicamente uma reflexão do carma. Um ritual ou um puja ajudam a ativar potenciais cármicos positivos. O Bon coloca uma ênfase igual na harmonização das forças externas e na situação cármica interna.

Em ambos os casos, estes pujas para a cura usam tormas, que são resquícios atenuados dos antigos rituais de sacrifício. As tormas, feitas de farinha de cevada, moldadas na forma de pequenos animais, e usadas como bodes espiatórios, vêm indubitavelmente do Bon. São dadas aos espíritos nocivos: "Tomem isto e deixem a pessoa doente em paz".

Toda a questão dos sacrifícios é muito interessante. Os bonpos dizem: "Nós não fizemos isso, isso era uma tradição do Tibete mais antiga ". Os budistas dizem: "Foram os bonpos, nós não fizemos isso". Obviamente, todos querem negar terem feito sacrifícios – porém, não há duvida que haviam sacrifícios. Milarepa menciona que estavam ocorrendo no seu tempo. Até tão recentemente quanto 1974, quando Sua Santidade o Dalai Lama deu o empoderamento de Kalachakra em Bodhgaya pela primeira vez, ele falou muito fortemente às pessoas vindas das regiões fronteiriças do Tibete sobre o abandono das práticas do sacrifício de animais. Este é algo que vem ocorrendo há muito tempo.

Retratos de várias deidades são usados em rituais do bardo bonpo e também em muitos rituais do bardo budistas. Isto já vem dos rituais de enterro iranianos/bonpo onde coisas eram colocadas no túmulo com a pessoa morta.

Outra coisa emprestada por Bon ao Budismo tibetano é a "teia de harmonia do espaço", uma configuração, tipo teia de aranha, de cordas multicoloridas representando os cinco elementos. Vem da ideia de termos de harmonizar os elementos externos antes de podermos trabalhar nos elementos ou carma interno. Uma teia é desenhada de acordo com a predição e outras coisas, e é pendurada lá fora. São chamadas às vezes agarra-espíritos, mas não é bem isso que são. Sua função é a de harmonizar os elementos e dizer aos espíritos para nos deixarem em paz. É muito tibetano.

O conceito de espírito vital (bla), que se encontra no Bon e no Budismo, vem da ideia túrquica, da Ásia Central, de qut, o espírito de uma montanha. Quem governava a área em torno de uma certa montanha sagrada era o Khan, o governador dos turcos e mais tarde dos mongóis. O rei era a pessoa que representava este qut ou espírito vital. Ele tinha carisma e podia governar.

O espírito vital de alguém podia ser roubado por espíritos nocivos. Todas as tradições budistas tibetanas têm pujas para enganchar de volta um espírito vital que tinha sido roubado por espíritos nocivos. Envolvem um resgate: aqui está uma torma, dá-me de volta o meu espírito vital. Como é que sabemos que o nosso espírito vital foi roubado? De um ponto de vista ocidental, podemos chamá-lo um esgotamento nervoso ou estresse pós-traumático, onde não podemos lidar com a vida. Alguém cujo espírito vital foi roubado é incapaz de organizar a sua vida. Este espírito vital governa a nossa vida como o Khan domina o país. A palavra tibetana para espírito vital, "la", é usada na palavra lama. Um lama é alguém que tem realmente um espírito vital. “La” é usado também em alguns contextos para traduzir a “bodhichitta branca”, por isso é uma força ou essência material muito forte dentro do corpo.

Depois há o espírito da prosperidade. Se for forte, tudo correrá bem e seremos prósperos. A palavra tibetana é "yang" (g.yang). "Yang" também é a palavra chinesa para carneiro. No Losar, o ano novo tibetano, come-se a cabeça de um carneiro e molda-se uma cabeça de carneiro no tsampa, grão de cevada torrado. Isto representa o espírito da prosperidade. Vem claramente dos antigos rituais Bon.

A ideia das bandeiras de orações também vêm do Bon. Elas vem com as cores dos cinco elementos e são penduradas para harmonizar os elementos externos para que as coisas estejam equilibradas para que possamos fazer o trabalho interno. Muitas bandeiras de orações têm a imagem do cavalo de vento (lungta, rlung-rta), que está associado com o cavalo da fortuna. A China foi o primeiro país a desenvolver um sistema de correio, em que os carteiros andavam de cavalo. Havia certos lugares onde paravam e mudavam de cavalos. Esses cavalos dos correios eram os cavalos do vento. As palavras chinesas são as mesmas. A ideia é que a boa fortuna virá num cavalo como o carteiro traz bens, cartas, dinheiro, etc. É muito tibetano/chinês.

Certos aspectos da cura Bon vieram para o Budismo, tal como borrifar água consagrada com uma pena. Em todos os rituais de iniciação budistas, encontramos uma pena de pavão num vaso. O queimar das folhas e ramos da árvore de junípero, chamada sang em tibetano, é feito nos topos das montanhas para saudar alguém que está vindo. Fazem-no ao longo do lado da estrada quando Sua Santidade regressa a Dharamsala. É associado com o fazer-se oferendas aos espíritos locais.

A ênfase nos oráculos no Budismo tibetano é frequentemente confundida com o xamanismo, mas os oráculos e os xamãs são bastante diferentes. Um oráculo é um espírito que fala através de um medium. Está canalizando. Os xamãs, encontrados na Sibéria, Turquia, África, etc., são as pessoas que entra num transe em que vão a reinos diferentes e falam com vários espíritos, geralmente os espíritos dos antepassados. Os espíritos dão-lhes respostas a várias perguntas. Quando os xamãs saem do transe, entregam a mensagem dos antepassados. Em contraste, um médium geralmente não tem nenhuma memória do que o oráculo disse através dele ou dela. Os oráculos foram associados aos protetores. O oráculo de Nechung também é o protetor chamado Nechung. Porém, um traço de xamanismo é refletido numa divisão das coisas como estando na terra, acima e abaixo da terra, que é prevalente no material Bon e depois chegou ao Budismo.

Buda ensinou muitíssimo sobre muitos tópicos. Onde quer que o Budismo esteve na Ásia, as pessoas salientaram os elementos que íam ao encontro da sua cultura. No Budismo indiano existe uma menção de terras puras porém não foi enfatizada. (Por outro lado,) os chineses, que tinham a ideia taoista de irem para a terra ocidental dos imortais, puseram uma enorme ênfase nas terras puras e expandiram-na muitíssimo. Assim, temos o Budismo da terra pura. É uma das escolas budistas chinesas mais significativas. Do mesmo modo, dentro do budismo indiano, nós encontramos a discussão dos protetores, dos vários espíritos, do oferecimento de pujas, e assim por diante, mas os tibetanos expandiram muitíssimo estes elementos porque se encontravam na sua cultura.

Conclusão

Eu penso que é muito importante ter-se muito respeito pela tradição Bon. Há muitas coisas que podem ser identificadas como Bon ou como cultura tibetana que não são completamente em comum com o Budismo tibetano. Há vários elementos nos ensinamentos budistas que também são encontrados no Bon. O debate sobre quem copiou o que de quem não é útil. O Budismo e o Bon tiveram contato um com o outro e não há razão porque não se influenciariam um ao outro.

É importante compreender que fazer dos bonpos os “maus” é, por um lado, político – um resquício de terem sido super-conservadores no século VIII. Por outro lado, é psicológico – as pessoas que salientam os seus próprios lados positivos tendem a projetar os seus lados negativos em alguém. Este fenômeno é encontrado especialmente em tradições budistas fundamentalistas com super-devoção ao guru e uma grande ênfase num protetor. O protetor torna-se a coisa importante. Os textos dizem coisas terríveis sobre quem quer que seja contra o Dharma ou contra a dita tradição. Esmagar os nossos inimigos, espezinhá-los, retirar seus olhos, etc. Eu penso que é muito mais correto seguir o exemplo de Sua Santidade, de pensar que há cinco tradições tibetanas, cada uma ensinando caminhos totalmente válidos à iluminação. Compartilham muitas coisas em comum e falam de alcançar o mesmo objetivo, a iluminação.

Dentro do que compartilham em comum, há certas coisas que podem ser identificadas como cultura tibetana e outras que são mais budistas. Somos nós que temos de decidir o que queremos seguir. Se quisermos aceitar certas coisas da cultura tibetana, tudo bem, porque não? Porém, não é necessário. Se conseguirmos distinguir os elementos (da cultura) tibetana do Budismo essencial, então pelo menos poderemos estar claros sobre o que estamos seguindo. Não podemos ser puristas no Budismo. Até o Budismo indiano estava de acordo com a sociedade indiana. Não podemos divorciar o Budismo da sociedade em que foi ensinado, mas podemos estar claros sobre o que é cultural e o que é valido acerca das quatro verdades nobres, o caminho à iluminação, bodhichitta e assim por diante.

Perguntas e Respostas

Pergunta: Um argumento sobre a diferença entre Bon e o Budismo é que o Budismo vem de Buda, um ser inteiramente iluminado como também, está bem documentado e há uma linhagem, enquanto que o Bon não vem de um ser inteiramente iluminado.

Alex: Como é que sabemos que Buda era um ser inteiramente iluminado? Nada foi escrito [na altura] e não haviam gravadores de cassetes. Como é que sabemos que as escrituras budistas são realmente aquilo que Buda ensinou? Nada apareceu em escrito até cerca de quatrocentos anos depois de Buda. Tudo foi transmitido oralmente. Como é que sabemos que as pessoas que transmitiram os ensinamentos se lembraram de tudo corretamente? Será que todos da linhagem tinham memórias fotográficas e nunca se enganaram nem numa palavra, mesmo se a tivessem ouvido apenas uma vez? Isso é muitíssimo improvável.

Eu não acho que é um argumento válido dizer que Buda era iluminado mas Shenrab Miwo não era. Como é que podemos dizer que não era? Eu não estudei a sua biografia, por isso não estou a par dos detalhes, mas que diferença faz? Isto leva a uma grande discussão àcerca de se o Buda ensinou os sutras Mahayana. É o mesmo tipo de argumento. Tudo depende de como nós definimos um Buda. Se nós definirmos um Buda como Hinayana define, como uma pessoa histórica, então é claro que Buda não ensinou os sutras Mahayana, a não ser que disséssemos que ele os ensinou secretamente e que não foram transmitidos publicamente. A verdade é que o professor dos sutras Mahayana era Buda como descrito pelos sutras Mahayana – como tendo três corpos, se manifestando num zilião de formas por todo o espaço e tempo, e assim por diante. Esse tipo de Buda poderia facilmente ter ensinado os sutras Mahayana. Do mesmo modo, quando falamos sobre a origem de uma linhagem, eu acho que temos que estar muito claros àcerca de que conceito de Buda nos estamos a referir. Estamos falando de uma pessoa histórica, como o Buda Shakyamuni ou Shenrab Miwo, ou estamos a falar sobre a maneira que eles próprios descreveriam um ser iluminado?

No fim, o teste é se os ensinamentos da pessoa realmente podem levar alguém à iluminação. É assim que conhecemos a validez de um ensinamento. A não ser que já tenhamos alcançado uma mente onisciente, não somos capazes de ver se outra pessoa a alcançou. Assim, como é que podemos saber se a outra pessoa a alcançou? Nós não sabemos. Podemos obter uma ideia a partir do fato de que cada tradição produziu alguns seres fantásticos. Para mim, isso é suficiente. Eu não sou uma pessoa que interpreta as coisas literalmente. Eu acho que temos de ser um bocadinho mais objetivos ao considerar estas coisas. A nossa descrição de um Buda afeta muito a nossa apresentação da origem de um ensinamento.

Participante: Falam de três tipos de Bon: o Bon antigo, antes dos textos terem sido enterrados; o Bon Yung-drung, referindo-se ao tipo de Bon mais tradicional com dzogchen, madhyamaka, prajnaparamita e assim por diante; e depois o novo Bon, com linhangens em comum com Guru Rinpoche. Shartse, um grande mestre no começo deste último século atingiu o corpo de arco-íris através deste novo método Bon.

Alex: Eu não tinha ouvido falar do novo Bon. É bastante claro que há pessoas que praticam Bon juntamente com Nyingma sem problemas. E há eruditos Bon que vão para as escolas de debate Gelug. Como já mencionei, muitas pessas que descobriram textos-tesouro enterrados descobriram textos de ambas as tradições. Tradutores de ambas as línguas estavam trabalhando juntos no mosteiro Samyay. Houve sempre alguma influência mútua. Eu não sei que distinção especifica haveria entre o Bon Yung-drung e o novo Bon. O Yung-drung também tem linhagens em comum com Nyingma. Talvez seja apenas em termos do Guru Rinpoche estar na linhagem ou não. Eu penso que a lição a ser aprendida é que o Bon é uma linhagem de ensinamentos espirituais tibetanos e não algo que devemos temer como se eles fossem os maus ou adoradores do diabo.

Pergunta: Este conhecimento mais aberto sobre o Bon é um desenvolvimento recente?

Alex: Eu penso que é. A projeção do que é negativo num grupo é geralmente baseado na total falta de conhecimento sobre esse grupo, como fazer dos muçulmanos o diabo. Certamente, o conhecimento aberto sobre o Bon é mais recente. Sua Santidade o Dalai Lama foi muito instrumental nisso, mas ele não é o único. Durante a época do quinto Dalai Lama, os mongóis acabaram com uma guerra civil de 150 anos e fizeram do quinto Dalai Lama o líder político do Tibete. Haviam muitas razões para isso.

O quarto Dalai Lama era mongol. O primeiro Panchen Lama foi o tutor do quarto e quinto Dalai Lamas, e foi quem escolheu o quinto Dalai Lama. É bastante razoável que os mongóis apoiariam a reencarnação do seu quarto Dalai Lama mongol. A política do quinto Dalai Lama era a reconciliação entre todas as diferentes fações dentro do Tibete para acabar com este horrível período de guerra civil. Ele não só reuniu todas as tradições e organisou lugares para elas no festival de Monlam, como fez com que os vários mosteiros Nyingma das duas principais linhagens Nyingma fizessem rituais para o sucesso do governo tibetano. Também mandou os mosteiros Bon fazer rituais para o sucesso do governo. O próprio Dalai Lama atual diz que tenta continuar a política do Grande Quinto . Agora, por causa da situação dos refugiados, todas as tradições são igualmente abertas ao olho público. Nós agora temos informação sobre todas elas.

Pergunta: Um ocidental escreveu uma tese sobre Bon em 1927.

Alex: Sim. Os mosteiros Bon estavam incluidos. Snellgrove estava investigando isso nos anos cinquenta e sessenta.

Pergunta: Há elementos dzogchen na cultura iraniana?

Alex: Acho que não. Até os mitos de criação Bon são completamente diferentes dos mitos de criação zoroastrianos do antigo Irão. O que eu estava dizendo era que o Budismo estava presente nas áreas culturais iranianas desde muito cedo. Se definirmos um ensinamento budista como um que nos levará à iluminação, com todas as qualidades de um ser iluminado, então esse ensinamento é budista quer o chamemos budista ou não. O Bon não veio necessariamente de uma área cultural iraniana, embora a área para o oeste do Tibete fosse uma área cultural iraniana, e os bonpos digam que a sua tradição veio de lá. É provável que através do contato que o Tibete Ocidental teve com Khotan, que está bem documentado, também houvesse contato cultural entre o Tibete Ocidental e áreas culturais iranianas. Pelo menos, é possível.

Pergunta: Não está estabelecido que Bon é mais antigo do que o Budismo?

Alex: Como é que sabemos que é mais antigo? Vamos aceitar que Shenrab Miwo viveu há trinta mil anos na idade da pedra ou do bronze? Quão importante é isso? O meu modo de ver isso é que o Bon influenciou o Budismo no Tibete: influenciaram a maneira que os budistas tibetanos apresentam o Budismo. Isso está claro. Eu concordaria com isso. Mas não sei se será possível virmos um dia a saber objetivamente quem veio primeiro.

Pergunta: A prática de dzogchen é mais antiga do que o Budismo, não é?

Alex: Aqui, também não vejo como seria possivel alguém saber. Depende de como definirmos dzogchen. Se o definirmos como um ensinamento para nos levar à iluminação, veio antes de Shakyamuni? Os próprios budistas diriam que havia Budas antes de Shakyamuni que ensinaram métodos para alcançar a iluminação. Se alguém chamou a um Buda mais antigo Shenrab Miwo, muito bem. Por que não? Que diferença faz? Você está perguntando sobre dzogchen como um sistema totalmente desenvolvido para nos levar à iluminação ou sobre certos métodos que são usados dentro do dzogchen que vêm de práticas mais antigas? Dzogchen certamente que não está no Zoroastrismo. Zoroastro só viveu cerca de cinquenta anos antes do Buda, e não trinta mil anos antes. Não há nenhuma religião documentada que chegue assim tão para trás. Um outro ponto é que se uma tradição for rotulada como sendo “os maus”, irá certamente compensar a má publicidade afirmando ser mais antiga. Isso é para ser interpretado literalmente? Eu não interpretaria literalmente. Se alguém quiser interpretar literalmente, tudo bem.

Pergunta: Há alguma evidência histórica de dzogchen no antigo Bon?

Alex: Tanto quanto sei, e posso estar enganado, não há nada em escrito que foi preservado. A única evidência histórica é a arqueologia e a única evidência arqueológica vem dos túmulos reais. Está claro que os bonpos tinham rituais, mas não há nenhuma evidência de que praticavam meditação dzogchen. Há uma linhagem que acredita nisso porque "o meu professor disse-me que sim". "Como é que seu professor sabe?" "O professor dele disse-lhe".

O fato de que os ensinamentos Bon beneficiaram muitas pessoas demonstra que é um caminho eficaz à iluminação, ou pelo menos ao que podemos ver da iluminação. Na minha opinião, as datas do fundador são irrelevantes. Eu penso que todo o debate é como o seguinte argumento "o meu professor é melhor do que o seu professor". Alguém deu as datas, e agora é um ensinamento da linhagem. Para que preocuparmo-nos com isso? Pratiquem e tentem obter resultados. Tanto o Bon como o Budismo são linhagens que podem ser traçadas até ao começo do último milénio. Para mim, isso basta . Com o tempo, sua eficácia já foi provada. Pratiquem os ensinamentos. Não faz sentido entrar num debate to tipo "o meu pai é melhor do que o seu".

Pergunta: Dentro dos grupos tibetanos, há competição e más línguas. Não há lá espaço para melhoria?

Alex: Absolutamente. Sua Santidade o Dalai Lama advoga sempre o não-sectarismo, como muitos dos líderes e dos grandes lamas das outras tradições. Porém, ainda há umas fações sectárias. É muito triste, mas existem . Nós não precisamos segui-las.

Pergunta: Pode falar mais sobre a visão Bon de Madhyamaka?

Alex: Eu não estudei textos Bon sobre Madhyamaka. A interpretação de Madhyamaka varia em cada uma das quatro tradições tibetanas. Mesmo dentro de cada tradição, os vários livros didáticos e autores têm opiniões diferentes. Imagino que dentro do Bon também há variações. Estou indo apenas pela inferência. Se os bonpos estão aprendendo debate em mosteiros Gelug – embora alguns também debatam em mosteiros Sakya – eles têm de aceitar a visão do mosteiro em que estão treinando. Não faria sentido nenhum que eles não aceitassem essa visão. Poderiam igualmente fazer o treinamento do debate num mosteiro Nyingma se aceitassem a visão Nyingma de Madhyamaka.

Precisamos de uma visão correta do vazio para alcançar a iluminação. Contudo, há muitas maneiras de explicar a visão correta. Temos de ter muito cuidado ao examinar as diferentes tradições tibetanas. Elas definem os termos centrais de uma maneira muito diferente. Se dermos as definições Gelug aos termos Kagyu, por exemplo, então o que dizemos soará muito estranho. Mas se lermos a apresentação Kagyu do ponto de vista das suas próprias definições, fará perfeitamente sentido.

Também temos de ter o cuidado de considerar a teoria de percepção de cada escola. Se apenas olharmos para a apresentação de Madhyamaka de uma escola independentemente da sua definição de cognição conceptual e não-conceptual, esta se torna muito confusa. As teorias de percepção Nyingma, Kagyu e Sakya são muito diferentes da Gelug. Nós, no ocidente, vindos de uma visão biblica do mundo, queremos Uma Verdade, Um Deus – esta é a maneira que é, e acabou. Mas não é assim.

Uma visão correta pode ser descrita de muitas maneiras diferentes. A diferença principal está em falar do vazio como um objeto que é compreendido pela mente ou então como a mente que compreende o vazio. Dzogchen descreve o vazio do ponto de vista da mente que o compreende. Gelug discute-o, no sutra, do ponto de vista do próprio vazio. No tantra anuttarayoga, com a discussão da luz clara, a apresentação Gelug é semelhante à de dzogchen. Pareceria que o Bon segue Gelug na tradição do sutra, mas segue o estilo Nyingma pelo menos em dzogchen. Eu não sei sobre as classes do tantra mais baixas. Não fiz um treino aprofundado sobre Bon. Apenas li sobre ele.

Eu penso que, de tudo isto, temos de concluir que este assunto é na verdade muito complexo. Todas estas linhagens não existiam isoladas umas das outras no Tibete. As coisas não existem assim. Elas tiveram contato e interação. Linhagens independentes não existem. Mesmo dentro de cada escola tibetana há várias linhagens de tantra, várias interpretações de Madhyamaka, etc., cada uma com uma história diferente. Algumas são em comum com outras escolas. É como um entrelaçar de diferentes tranças de cabelo, ou como uma família. Não é que cada linhagem tenha permanecido igual desde sua fundação. As coisas são muito mais fluidas. Nós gostamos de traçar um grande círculo à volta das coisas e de transformá-las em entidades sólidas, mas essa não é a realidade.

Pergunta: Você diria que a religião no Tibete era, antes da tradição monástica, uma atividade principalmente de família, que era mantida localmente?

Alex: Eu não diria isso. Não é como a religião judaica, por exemplo, em que depois da destruição do Segundo Templo, os rituais foram continuados dentro da família de modo que a mãe conduzia os serviços sexta-feira à noite e a família tinha a responsabilidade pela educação das crianças. No Tibete a religião não era uma tradição de família nesse sentido. A única evidência que temos vem dos sacrifícios e das ceremónias de enterro oficiais para o rei.

Como é que era ao nível local? Imagino que haviam clérigos locais que faziam rituais nas vilas para as pessoas, tal como os budistas fazem agora. Os monges são convidados a ir às suas casas fazer rituais e outras práticas. . Como é que os antigos clérigos das vilas eram treinados? Era de pai para filho? As mulheres estavam envolvidas? Era uma casta? Não faço ideia.

Uma vez mais, há muito pouca evidência. Devem ter tido uma tradição escrita. Havia tradutores de Zhang-zhung em Samyay que obviamente estavam traduzindo algo. Penso que o nível de educação e sofisticação nas áreas remotas do antigo Tibete não era muito elevado. Em muitos países das épocas antigas, os rituais eram exclusivos às cortes reais e não estavam muito difundidos à população, especialmente nas áreas remotas.

Lembrem-se por favor que o Tibete não tinha grandes cidades. Não era como a antiga Roma. Havia pequenas vilas e nômades. Como seria dissiminada a instrução sobre os rituais ? As pessoas estavam muito isoladas. Havia crenças em espíritos das montanhas locais e assim por diante? Certamente. Eram organizadas? Quem sabe. Pujas e sacrifícios aos espíritos das montanhas locais ainda são feitos por toda a Ásia Central.

Eu acho que temos de colocar a ênfase principal no que podemos aprender do Bon agora. Se gostarmos dos professores, do estilo de prática e da ênfase – ótimo. No que quer que escolhermos, o importante é não termos uma atitude sectária. Em vez de dizer "Esta é a melhor coisa do mundo!" podemos simplesmente reconhecer que “Isto está bem para mim”.

Dedicação

Vamos acabar agora com uma dedicação. A dedicação é muito importante. Quando fazemos algo de positivo, como por ejemplo tentar obter mais claridade sobre o Budismo e Bon, isso acumula uma certa força positiva. Se não a dedicarmos, essa força positiva agirá como uma causa para melhorar o samsara. Nós não queremos que apenas contribua para obtermos mais conhecimentos intelectuais para podermos arranjar um bom emprego numa universidade, ensinar um curso e ganhar dinheiro. Vamos dedicar-la como uma causa para atingir a iluminação. Com mais claridade sobre o caminho e livres de visões sectárias, podemos por todas as nossas energias em alcançar a iluminação para podermos beneficiar a todos. Se dedicarmos a força positiva como uma causa para a iluminação, agirá como uma causa para a iluminação. É por isso que a motivação é importante no começo: ajusta o tom.

Que aquilo que aprendemos se possa aprofundar mais e mais e atuar como uma causa para sermos verdadeiramente capazes de seguir o caminho budista ou Bon até ao fim, com claridade e sem visões sectárias, de modo a podermos ser da maior ajuda a todos.

Obrigado.