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Votos Secundários Tântricos

Agosto de 1997
Partes publicadas em
Berzin, Alexander. Taking the Kalachakra Initiation.
Ithaca, Snow Lion, 1997
Modificado em Abril de 2002

Introdução

Ambos os votos-raiz tântricos comuns e aqueles específicos a Kalachakra envolvem a promessa de não cometer oito ações grossas (sbom-po, ações pesadas) que enfraquecem a prática da meditação e dificultam o progresso ao longo do caminho do anuttarayoga tantra. Os danos que infligimos são proporcionais ao número e à força dos fatores que amarram (kun-dkris) que os acompanham. Como com as quarenta e seis ações erradas que prometemos não cometer com os votos secundários de bodhisatva, cometer qualquer das oito, até com todos os quatro fatores que amarram presentes, não nos faz perder nossos votos tântricos.

[Veja: Os Votos Secundários Do Bodhisatva .]

As Oito Ações Grossas

(1) Apropriando a consciência discernente pela força

Consciência discernente (shes-rab, Sânsc. prajna, sabedoria), aqui, é outro nome para mulheres. Dependendo no êxtase e alegria que vêm da união com uma, sem liberação orgásmica, o homem acentua a sua consciência discernente bem-aventurada da vacuidade. A mulher pode realizar o mesmo quando em união com o homem, também sem liberação orgásmica, dependendo no fato de ser mulher.

Esta ação grossa é denominada alternativamente "depender numa parceira de selar não qualificada" (phyag-rgya, Sânsc. mudra). Parceiro de selar e parceira de consciência pura (rig-ma, mulher de conhecimento) também são outros nomes para mulheres. Elas ajudam a realizar o mahamudra – o grande selo da vacuidade compreendido com atividade mental de luz clara - ou puro apercebimento [pura consciência] (rig-pa), o equivalente disto no sistema Nyingma de Dzogchen.

Tal como com a quinta queda-raiz de Kalachakra, considerar o sexo comum e o êxtase da liberação orgásmica como um caminho à liberação ou à iluminação destrói completamente a prática tântrica. Este tema fornece o contexto para compreender esta e a seguinte ação grossa tanto no sistema Kalachakra como nos outros sistemas de anuttarayoga. Mesmo se não estivermos ainda no estágio de já ter algum nível da bem-aventurada consciência da vacuidade – que a união sexual sem liberação orgásmica pode elevar – e mesmo se não tivermos a capacidade, obtida através do domínio dos nossos ventos-energia através de métodos de yoga, de evitar o orgasmo quando em união, não obstante, como alguém com votos tântricos, iríamos naturalmente admirar e sinceramente desejar alcançar estes estágios. Precisamos considerar as nossas vidas sexuais dentro desta perspectiva.

Para esta resolução não enfraquecer, é importante que o nosso parceiro sexual partilhe a nossa atitude em relação ao sexo. Um/a parceiro/a não-qualificado/a é alguém que não vê o sexo de uma perspectiva tântrica. Mais especificamente, nosso parceiro/a precisa ter recebido empoderamento, estar manteendo os votos tântricos, e estar mantendo fortes ligações com as práticas. E o mais importante, ele ou ela precisam proteger de forma pura o quinto voto-raiz de Kalachakra e não considerar o sexo comum e o êxtase da liberação orgásmica como algo espiritual, ou como um caminho à liberação ou à iluminação.

Quando vemos o sexo de uma perspectiva tântrica enquanto nosso/a parceiro/a sexual apenas deseja partilhar amor e conforto, não precisamos sentir que estas duas atitudes são mutuamente exclusivas. Elevar a nossa bem-aventurada consciência do vazio através da união com um/a parceiro/a é baseado numa fundação de partilha mútua de amor e apoio. Contudo, se nosso/a parceiro/a estiver meramente obcecado/a com o apego e a avidez pelo prazer carnal, ou considerando o orgasmo saudável como a cura para todos os distúrbios psicológicos, facilmente nos tornaremos vítimas dessas emoções ou idéias, e perderemos a nossa perspectiva.

Se já tivermos um/a parceiro/a sexual e depois nos envolvemos com o tantra, enquanto que ele ou ela não, certamente não devemos abandonar esse parceiro nem procurar relações extra maritais com alguém que já estiver mantendo votos tântricos. Nem precisamos converter nosso/a parceiro/a ao budismo e exercer pressão sobre ele ou ela para receber a iniciação. Por outro lado, não nos aproveitamos desta pessoa para a nossa prática espiritual, sendo desonestos com os nossos sentimentos, nem fazemos sexo de má vontade, como se fosse o nosso dever, abrigando ressentimento. Olhamos para os votos e os treinamentos do bodhisatva como guia. Como noss/a parceiro/a poderia, compreensivelmente, tornar-se completamente chateado por nós, pelo tantra e pelo budismo se arrogantemente o/a denunciássemos como não-qualificado/a e não-merecedor/a de partilhar a nossa cama, continuamos a fazer sexo com a pessoa, motivados pelo amor e pela compaixão, para pelo menos evitarmos que isto aconteça. Assim como nas práticas de elevar o nosso estado prometido de bodhichita aspirativa,evitamos fazer com que o nosso parceiro lamente ações positivas, tais como demonstrar-nos amor e desejar fazer-nos felizes. Em vez disso, se receptivos, podemos delicadamente incentivá-lo/a a superar limitações e a realizar potenciais através de métodos eficazes, e não do sexo comum. Tentamos, deste modo, tornar as nossas duas atitudes em relação ao sexo, se não iguais, pelo menos mais compatíveis.

[Veja: Ações para Praticar o Estado Prometido de Bodhicitta Aspirativa .]

E mais, um/a potencial parceiro/a não deve ser obrigado a entrar em união sexual – nem através de pressão psicológica sutil nem pela força. Um exemplo do primeiro seria lisonjear a pessoa como se fosse espiritualmente avançada, dizendo que ele ou ela está a ajudar-nos, como grandes bodhisatvas tântricos, a avançar no caminho e a ajudar mais aos outros. Forçar pode ser batendo, abaixando a pessoa, ou humilhando-a.

Mesmo se um/a parceiro/a potencial recebeu o empoderamento, estiver mantendo os votos tântricos, e partilhando a nossa perspectiva sobre o sexo, também incorreremos esta primeira ação pesada se o/a forçarmos a sentar-se em união conosco quando as circunstâncias são impróprias. Isto pode ocorrer se a pessoa estiver doente, for casada com outra pessoa, estiver sob o cuidado de alguém, mantendo outros votos que restringem tal conduta, tímida, ou sem vontade. Todas estas recomendações também se aplicam ao nosso comportamento sexual em geral.

(2) Apropriar o néctar dela por força

Esta ação grossa é também denominada "sentar-se em união sem os três reconhecimentos". Isto significa estar em união sexual, mesmo até com alguém partilhando nossas atitudes, sem seguir os processos tântricos. Quando usamos o êxtase da união para elevar a nossa bem-aventurada consciência do vazio – quer com um/a parceiro/a físico/a real ou com um/a apenas visualizado/a nas nossas imaginações – distinguimos e consideramos a nossa mente, fala e corpo como estando desassociados da confusão (zag-med, não-contaminados). Chamamos a isto os três reconhecimentos (' du-shes gsum). Sem essa atitude, o êxtase da união apenas aumenta o nosso desejo e apego, em vez da nossa bem-aventurada consciência do vazio.

Primeiro, o nosso estado de mente em união é uma bem-aventurada consciência do vazio, a qualquer nível que possamos mantê-la. Não abrigamos pensamentos comuns nem preocupações, por exemplo, sobre como o nosso desempenho sexual se compara com o de outras pessoas.

Segundo, a nossa fala rotula os fenômenos como o que eles convencionalmente são quando não apreendidos por uma mente confusa, mas por aquela que é uma bem-aventurada consciência do vazio. Representamos isto usando um aspecto das nossas mentes, que a um nível mais profundo ainda está bem-aventuradamente ciente do vazio, para visualizar os nossos próprios órgãos sexuais e os do nosso parceiro surgindo dependentemente – de sílabas-semente – em forma de vajra e sino. Estes dois objetos rituais, usados extensivamente na prática tântrica, simbolizam a consciência bem-aventurada e a consciência discernente do vazio. Nós imaginamo-los marcados por estas sílabas como uma indicação adicional do puro rotulamento mental. Com confusão e seu conseqüente apego, rotulamos os órgãos sexuais como objetos desejáveis para obter o êxtase momentâneo da liberação orgásmica. Porém, livres da confusão, os rotulamos de uma maneira mais pura, como objetos que nos podem ajudar a elevar a nossa bem-aventurada consciência discernente do vazio.

Terceiro, os nossos corpos e os dos nosso/as parceiro/as aparecem em forma de figuras búdicas que as nossas mentes fazem surgir ao manterem, simultaneamente, a um nível mais profundo, bem-aventurada consciência discernente do vazio. Como a mente que gera esta aparência não é uma de desejo ansioso, esta visualização não é, de modo algum, o mesmo que fantasiar que nós e nosso/as parceiro/as somos estrelas sexy do cinema.

Devemo-nos lembrar uma vez mais que mesmo se mantivermos esta maneira pura de ver a nossa mente, fala e corpo durante a união sexual, se considerarmos o êxtase da liberação orgásmica experienciado dentro deste contexto como um meio para alcançar a liberação ou a iluminação, incorremos uma queda-raiz tântrica. Isto ocorre quer causemos a liberação orgásmica propositadamente ou quer a experienciemos involuntariamente. Além disso, mesmo quando visualizamos os nossos próprios corpos e os do nosso/a parceiro/a em formas puras como figuras búdicas, não perdemos de vista a nossa existência convencional como sendo pessoas. Assim, permanecemos sempre sensíveis aos nossos próprios sentimentos e necessidades e aos do/a nosso/a parceiro/a. Isto é pertinente quer nosso/a parceiro/a compartilhe da nossa atitude e visualização, quer não esteja envolvido na prática tântrica.

(3) Mostrar objetos confidenciais a recipientes impróprios

Com a sétima queda-raiz tântrica comum, expomos ensinamentos confidenciais àqueles sem empoderamento. Aqui, mostramos objetos confidenciais a essas pessoas, ou àqueles com empoderamento, mas sem respeito por eles. Estes objetos incluem retratos, pinturas ou estátuas de figuras búdicas, livros contendo instruções explícitas para a prática tântrica, e os nossos vajra e sino cerimoniais. Embora não percamos os nossos votos tântricos ao deixar estes objetos em exposição pública nas nossas casas, arruinamos a nossa prática quando as pessoas nos fazem observações rudes e impudicas sobre as figuras búdicas representadas em união, zombam de nós como sendo supersticiosos ou loucos, ou usam os nossos artigos rituais como pesos para papeis. É melhor cobrir esses itens, ou mantê-los num quarto privado. Os tibetanos, por exemplo, penduram uma cortina em frente das suas pinturas de figuras búdicas – especialmente daquelas cujas formas estariam abertas a mal-entendidos pelos não iniciados – e só as abrem ao meditar ou fazer rituais.

[Veja: Votos-Raiz Tântricos Comuns .]

(4) Discutir durante um banquete oferecido de tsog

Durante pujas-tsog, visualizamo-nos como figuras búdicas, com um nível mais profundo das nossas mentes estando bem-aventuradamente ciente do vazio, e fazemos oferendas especiais com o desejo de que todos as apreciem puramente e que sejam felizes. Fazemos isto para acumularmos força positiva (mérito) e consciência profunda. Quando discutimos ou brigamos durante tal ritual, esquecemo-nos das nossas visualizações e corretos estados mentais. Por conseguinte, a nossa participação no puja para melhorar os nossos caminhos espirituais torna-se ineficaz.

(5) Indicar ensinamentos discrepantes àqueles com cren ç a de fato (àqueles com fé)

Esta ação grossa também é chamada "dar falsas respostas a perguntas feitas com sinceridade". Quando alguém que é um recipiente apto, com empoderamento apropriado, faz uma pergunta sincera sobre práticas tântricas, se evitarmos a pergunta mudando de assunto e falando sobre algo estranho, ou respondendo num nível diferente daquele com que a pessoa perguntou, cometemos esta ação grossa. Tal comportamento evasivo é carmicamente prejudicial ao nosso próprio futuro recebimento de respostas diretas às nossas perguntas. Mesmo se alguém com fé no tantra, mas sem empoderamentos, nos fizer sinceramente uma pergunta, nós não a ignoramos. Respondemos; mas de maneira a não expor as instruções explícitas que devem ser mantidas confidencialmente.

(6) Permanecer mais do que sete dias entre sravakas

Neste contexto, sravakas (ouvintes) não se refere aos praticantes Theravada, mas a qualquer um que trivialize ou zombe do tantra. Permanecer por muito tempo entre tais pessoas desanima-nos dos nossos caminhos, especialmente se forem ativamente hostis à nossa prática de meditação. E mais, se as pessoas com quem vivemos estiverem apenas interessadas no seu próprio bem-estar e continuamente nos disserem que somos estúpidos em tentar ajudar os outros, as suas perspectivas auto centradas lentamente nos infetarão. Não haverá falha, contudo, se não tivermos escolha sobre com quem vivemos, tal como num acampamento de treino ou quando precisamos ficar num bloco de hospital. Porém, é crucial nessas situações – e até simplesmente quando vivemos numa sociedade que não oferece apoio nem simpatia – mantermos as nossas práticas e crenças tântricas totalmente confidenciais. Se nos sentarmos contando grânulos do rosário e recitando mantras altos, numa cela de prisão apinhada, podemos ser espancados até à morte!

(7) Falsamente suster o orgulho de ser um iogue

Isto também é chamado "gabar-se de ser um iogue, sem na verdade o ser". É uma ação grossa, prejudicial ao nosso progresso, imaginar e dizer que somos praticantes altamente realizados quando apenas recitamos diariamente uma sadhana por já algum tempo ou completamos um retiro de meditação durante o qual repetimos uns mantras cem mil vezes mas não tendo obtido nenhuma realização.

(8) Indicar o sagrado Dharma àqueles que não acreditam o que é fato

Com a sétima queda-raiz tântrica comum, nós expomos ensinamentos confidenciais àqueles sem empoderamento. Aqui, revelamo-los àqueles que têm o empoderamento, mas que lhes falta a fé e o respeito por eles. Algumas pessoas recebem um empoderamento a fim de se purificarem de quedas-raiz tântricas e retomarem os seus votos, ou revitalizar os seus votos se os tiverem enfraquecido. Se fizerem isto durante um empoderamento num sistema tântrico no qual não têm interesse ou crença particular, seria uma ação grossa ensinar-lhes práticas explícitas específicas a este sistema.

Três Ações Grossas Auxiliares

Alguns textos suplementam a lista de oito votos tântricos secundários com as três ações grossas auxiliares que também dificultam a nossa prática tântrica. Por exemplo, Pabongka, (Pha-bong-kha Byams-pa bstan-'dzin 'phrin-las rgya-mtsho), o mestre Gelug do século XX, incluiu as três na lista de votos tântricos secundários quando expandiu Extensive Six-Session Yoga [Extenso Yoga de Seis Sessões] (Thun-drug rnal-'byor rgyas-pa) do Primeiro Panchen Lama com a recitação das listas dos votos.

(1) Engajar incorretamente em ritos de mandala, tal como sem um retiro

Podemos dar empoderamentos a outros ou executar a auto-iniciação (bdag-'jug) para restaurar os nossos perdidos ou enfraquecidos votos tântricos apenas se tivermos completado o retiro de meditação na correta figura búdica, repetindo os prescritos mantras centenas de milhares de vezes, e oferecido o puja de fogo conclusivo (sbyin-sreg).

(2) Transgredir os nossos votos pratimoksha ou de bodhisatva quando não houver necessidade

A não ser que haja uma necessidade urgente de transgredi-los por forma a beneficiar outros, e não haja outra alternativa, nós protegemos os nossos votos a toda a hora.

(3) Agir contrariamente aos ensinamentos das "Cinquenta Versos/Estrofes Sobre o Guru"

Cinquenta Versos/Estrofes Sobre o Guru (Bla-ma lnga-bcu-pa, Sânsc. Gurupanchashika), pelo mestre indiano do século X Ashvaghosha II, é a fonte das instruções para o comportamento dos discípulos para com os seus mestres tântricos. Quando o tempo permite, os mentores espirituais ensinam este texto antes de darem um empoderamento.