Os Arquivos de Berzin

Arquivos sobre Budismo do Dr. Alexander Berzin

Mudar esta página para Versão Texto. Saltar para navegação principal.

Home > Prática Diária > Votos e Compromissos > Votos-raiz do Bodhisattva

Votos-raiz do Bodhisattva

Modificado, Março de 2002
Berzin, Alexander. taking the Kalachakra Initiation.
Ithaca, Snow Lion, 1997.

Contexto

Um voto (sdom-pa) é uma forma invisível, sutil, num continuum mental, que molda o comportamento. Especificamente, é um refreamento de uma "ação não recomendável" (sdom-pa), que é naturalmente destrutiva (rang-bzhin-gyi kha-na ma-tho-ba) ou que o Buda proibiu (bcas-pa'i kha-na ma-tho-ba) a indivíduos específicos que estão treinando para alcançar objetivos específicos. Um exemplo do primeiro tipo de ação seria matar alguém; um exemplo do segundo seria comer depois do meio-dia, que os monásticos precisam evitar para que suas mentes estejam mais claras ao meditarem à noite e na manhã seguinte.

Dos dois estágios do desenvolvimento da bodhichitta, aspirativa (smon-pa'i sems-bskyed) e engajada (' jug-pa'i sems-bskyed), somente com o último fazemos votos de bodhisattva.

[Para a diferença entre os dois estágios, veja: Ações para Praticar o Estado Prometido de Bodhicitta Aspirativa.]

Tomar votos de bodhisattva (byang-sems sdom-pa) envolve a promessa de refrear dos dois grupos de atos negativos que Buda proibiu àqueles que estão treinando como bodhisattvas para alcançar a iluminação, para serem de tanto benefício a outros quanto possível:

  1. dezoito ações que, se cometidas, constituem uma queda- raiz (byang-sems-kyi rtsa-ltung),
  2. quarenta e seis tipos de comportamentos errados (nyes-byas).

Uma queda-raiz significa a perda de toda a série dos votos de bodhisattva. É uma "queda" porque conduz a um declínio no desenvolvimento espiritual e dificulta o crescimento das qualidades positivas . A palavra raiz significa que é uma raiz a ser eliminada. Para facilidade de expressão, esses dois grupos são geralmente chamados votos de bodhisattva- raiz e secundários. Eles oferecem guias excelentes para os tipos de comportamento a evitar se desejarmos beneficiar os outros de uma maneira tão pura e completa quanto possível.

Atisha, o mestre indiano dos finais do século X, recebeu essa versão particular dos votos de bodhisattva do seu professor de Sumatra, Dharmakirti (Dharmapala) de Suvarnadvipa e depois os transmitiu ao Tibete. Esta versão deriva do Sutra de Akashagarbha (Nam-mkha'i snying-po mdo, Skt. Akashagarbhasutra), como citado em Compêndio de Treinamentos (bSlabs-btus, Skt. Shikshasamuccaya), que foi escrito na India por Shantideva no oitavo seculo. Atualmente, todas as tradições tibetanas seguem-no, enquanto que as tradições budistas que derivam da China observam versões variantes dos votos de bodhisattva.

A promessa de manter os votos de bodhisattva aplica-se não só a esta vida, mas também a cada vida subsequente até à iluminação. Assim, como formas sutis, esses votos perduram nos nossos continuums mentais em vidas futuras. Se tivermos feito os votos numa vida passada, não os perderíamos se agora cometêssemos uma transgressão total sem saber, a não ser que os tivéssemos tomado recentemente durante a nossa vida atual. Retomar os votos pela primeira vez durante esta vida fortalece o momentum dos nossos esforços em direção à iluminação que têm crescido desde que os tomamos pela primeira vez. Por conseguinte, os mestres Mahayana enfatizam a importância de morrer-se com os votos de bodhisattva intactos e fortes. Sua presença duradoura em nossos continuums mentais estará acumulando força positiva (mérito) em vidas futuras, mesmo antes de os revitalizarmos tomando-os uma vez mais.

Seguindo Uma Explanação da Disciplina Ética dos Bodhisattvas: O Principal Caminho à Iluminação(Byang-chub sems-dpa'i tshul-khrims-kyi rnam-bshad byang-chub gzhung-lam), um comentário do século XV sobre os votos de bodhisattva por Tsongkhapa, o fundador da tradição Gelug, vamos examinar as dezoito ações negativas que constituem uma queda- raiz. Cada uma tem várias estipulações que precisamos saber.

(1) Elogiarmo-nos a nós mesmos e/ou rebaixar os outros

Esta queda refere-se a falar assim com alguém de posição inferior. A motivação tem de conter o desejo de obter lucro, elogio, amor, respeito, e assim por diante da pessoa a quem nos dirigimos, ou ciúmes da pessoa que rebaixamos. Não faz diferença se o que dissermos é verdadeiro ou falso. Os profissionais que se dizem budistas necessitam ter cuidado para não cometerem essa queda.

(2) Não partilhar ensinamentos de Dharma ou riqueza

Aqui, a motivação deve ser especificamente o apego e a avareza. Esta ação negativa inclui não só não querer compartilhar nossos apontamentos ou gravações (de ensinamentos), como também ser avarentos com nosso tempo e recusar oferecer ajuda se for preciso.

(3) Não escutar as desculpas dos outros ou atacá-lo

A motivação para qualquer uma destas ações é a raiva. A primeira refere-se a uma situação em que estamos gritando ou batendo em alguém que nos pede perdão ou na qual outra pessoa nos pede para parar e nós recusamos. A segunda é simplesmente bater em alguém. Às vezes, pode ser necessário dar uma palmada em crianças ou animais de estimação traquinas para fazer com que não corram para a estrada por não prestarem atenção (no que estamos lhes dizendo), mas nunca é correto ou útil disciplinar movido pelaa raiva.

(4) Rejeitar os ensinamentos Mahayana e prop ô r outros fictícios

Significa rejeitar os ensinamentos corretos sobre tópicos a respeito dos bodhisattvas, tal como sobre seu comportamento ético, e inventar em seu lugar uma instrução plausível, mas enganadora, sobre o mesmo assunto, afirmá-la ser autêntica e, depois, ensiná-la a outros a fim de obter seguidores. Um exemplo dessa queda é quando professores, ansiosos por não assustar possíveis estudantes, desculpam o comportamento moral liberal e explicam que qualquer tipo de ação é aceitável, desde que não prejudique ninguém. Não precisamos ser um professor para cometer essa queda. Podemos cometê-la até em conversações com os outros.

(5) Tirar oferendas destinadas à Tripla Jóia

Esta queda é roubar ou defraudar, pessoalmente ou através de outra pessoa, qualquer coisa oferecida ou pertencente aos Budas, Dharma ou Sangha, e depois considerá-la como nossa. Sangha, nesse contexto, refere-se a qualquer grupo de quatro ou mais monásticos. Exemplos incluem: defraudar fundos doados para a construção de um monumento budista, para imprimir livros sobre Dharma, ou para alimentar um grupo de monges ou monjas.

(6) Abandonar o sagrado Dharma

Rejeitar ou, exprimindo as nossas opiniões, fazer com que os outros rejeitem os ensinamentos escriturais dos veículos dos shravakas (nyan-thos), pratyekabuddhas (rang-rgyal), ou bodhisattvas como as palavras de Buda. Shravakas são aqueles que escutam os ensinamentos de um Buda enquanto ainda estão vivos, enquanto que os pratyekabuddhas são praticantes que auto-evoluíram e que viverão principalmente durante as eras das trevas, quando o Dharma já não estará diretamente disponível. Para fazerem progresso espiritual, confiam na sua compreensão intuitiva, obtida através do estudo e da prática feitas durante vidas passadas. Coletivamente, os ensinamentos para ambos constituem o Hinayana, ou o "veículo modesto" para obter a liberação pessoal do samsara. O veículo Mahayana enfatiza métodos para se alcançar a completa iluminação. Negar que todas ou mesmo apenas determinadas escrituras de qualquer veículo (budista) derivam do Buda é uma queda de raiz.

[Veja: Os Termos Hinayana e Mahayana.]

Manter este voto não significa abdicar de uma perspectiva histórica. Os ensinamentos de Buda foram transmitidos oralmente durante séculos, antes de serem postos em escrito e, assim, ocorreram, sem dúvida, corrupções e falsificações. Os grandes mestres que compilaram o cânone budista tibetano certamente vão haver rejeitado textos que consideraram inautênticos. Porém, em vez de basearem as suas decisões em preconceitos, usaram o critério de Dharmakirti, mestre indiano do século VII, para avaliar a validade de todo o material – que é a possibilidade de praticá-los para realizar os objetivos budistas: um renascimento melhor, a liberação, ou até mesmo a iluminação. Diferenças estilísticas entre escrituras budistas, e até dentro de um texto específico, indicam frequentemente diferenças na época em que várias partes dos ensinamentos foram escritas ou traduzidas em línguas diferentes. Portanto, estudar as escrituras através de métodos de análise textual modernos pode frequentemente ser frutífero e não está em conflito com esse voto.

(7) Expulsarr os monásticos ou cometer ações como roubar as suas vestes

Esta queda refere-se especificamente a fazer algo que cause dano a um, dois ou três monges ou monjas budistas, não obstante o seu status moral ou nível de estudo ou prática. Tais ações são motivadas pela inimizade ou malevolência, e incluem bater ou insultá-los, confiscar seus bens, ou expulsá-los dos seus mosteiros. No entanto, expulsar os monásticos não é uma queda, caso eles tiverem quebrado um dos seus quatro votos principais, que sao: não matar, especialmente outro ser humano; não roubar, particularmente algo pertencendo à comunidade monástica; não mentir, especificamente sobre realizações espirituais; e manter o celibato total.

(8) Cometer qualquer um dos cinco crimes abomináveis

Os cinco crimes abomináveis (mtshams-med lnga) são: (a) matar nossos pais, (b) nossas mães, ou (c) um arhat (que é um ser liberado), (d) com más intenções ferir até sangrar um Buda, ou (e) causar uma divisão na comunidade monástica. Este último crime abominável refere-se a rejeitar os ensinamentos de Buda e a instituição monástica, atraindo os monásticos para longe deles, e alistá-los na nossa própria recentemente fundada religião e tradição monástica. Não se refere a deixar um centro ou organização de Dharma – especialmente devido à corrupção na organização ou nos seus professores espirituais – e a fundar outro centro que ainda siga os ensinamentos de Buda. E mais, nesse caso, o termo sangha refere-se especificamente à comunidade monástica. Não se refere à "sangha" no uso não traditional do termo inventado por budistas ocidentais como equivalente à congregação de um centro ou de uma organização de Dharma.

(9) Mantendo uma perspectiva distorcida e antagonista

Significa negar o que é verdadeiro e de valor – tal como a lei de causa e efeito comportamental, uma direção segura e positiva na vida, o renascimento e a liberação – e ser antagonista em relação a tais ideias e àqueles que as mantêm.

(10) Destruir lugares tais como cidades

Esta queda inclui intencionalmente demolir, bombardear, ou degradar o ambiente de uma vila, cidade, distrito ou área no campo, e torná-la inadequada, nociva ou, para os seres humanos ou animais, difícil de nela viver.

(11) Ensinar a vacuidade àqueles cujas mentes não estão treinadas

Os principais objetos desta queda são pessoas com motivação bodhichitta que ainda não estão prontas para compreender a vacuidade. Essas pessoas ficariam confusas ou assustadas com esse ensinamento e, consequentemente, abandonariam a via do bodhisattva e seguiriam para o caminho de liberação pessoal. Isso pode acontecer como o resultado de se pensar que, já que todos os fenômenos são vazios de existência inerente e encontrável, então ninguém existe e, neste caso, para quê incomodarmo-nos trabalhando para o benefício de outros? Essa ação também inclui ensinar a vacuidade a qualquer pessoa que a entendesse mal e, como resultado, abandonasse completamente o Dharma, pensando por exemplo que o budismo ensina que nada existe e que por isso é totalmente absurdo. Sem percepção extrassensorial é difícil saber se as mentes dos outros estão suficientemente treinadas de modo a que não interpretem mal os ensinamentos sobre a vacuidade de todos os fenômenos. Portanto, é importante conduzir os outros a esses ensinamentos através de explanações de níveis graduais de complexidade, e verificar periodicamente a sua compreensão.

(12) Desencorajar os outros de procurarem a completa ilumina ção

Os objetos para esta ação são as pessoas que já desenvolveram a motivação bodhichitta e estão se esforçando em direção à iluminação. A queda é dizer-lhes que são incapazes de constantemente agir com generosidade, paciência e assim por diante – dizer-lhes que não é possível que se tornem um Buda, e que por isso seria muito melhor se se esforçassem apenas pela sua própria liberação. Porém, a não ser que realmente rejeitassem a iluminação como sua meta, essa queda raiz ficaá incompleta.

(13) Afastar os outros dos seus votos de pratimoksha

Pratimoksha, ou votos de liberação individual (so-thar sdom-pa), incluem aqueles que se destinam a homens e mulheres leigos, monjas provisórias, monges noviços, monjas noviças, monges completos e monjas completas. Aqui, os objetos são pessoas que estão mantendo um desses grupos de votos pratimoksha. A queda é dizer-lhes que, como bodhisattvas, não faz sentido manter os votos pratimoksha, porque todas as ações de um bodhisattva já são puras. Para que essa queda seja completa eles têm que realmente abandonar os seus votos.

(14) Rebaixarmos o veículo do shravaka

A sexta queda- raiz é rejeitar os textos dos veículos dos shravakas ou dos pratyekabuddhas como sendo as palavras autênticas do Buda. Aqui, aceitamos que são, mas estamos negando a eficácia de seus ensinamentos e afirmando que é impossível livrarmo-nos das emoções e atitudes perturbadoras por intermédio das suas instruções, por exemplo, as do vipassana (meditação da introvisão).

(15) Falsamente proclamarmos que compreendemos a vacuidade

Cometemos esta queda se, embora não compreendamos completamente a vacuidade, a ensinamos ou escrevemos sobre ela fingindo que a compreendemos, devido à nossa inveja dos grandes mestres. Não faz diferença se quaisquer estudantes ou leitores forem enganados pela nossa pretensão. No entanto, é necessário que compreendam o que explicamos. Se não compreenderem o que dissemos, a queda é incompleta. Embora esse voto se refira a proclamar falsas realizações, especificamente sobre a vacuidade, é claro que também precisamos evitar cometê-lo, mesmo quando ensinamos bodhichitta ou outros tópicos do Dharma. Porém, não há falha em ensinar a vacuidade antes de a compreendermos inteiramente, desde que admitamos abertamente estarmos apenas explicando com o nosso nível atual de compreensão.

(16) Aceitar o que foi roubado da Jóia Tripla

Esta queda consiste em aceitar como um presente, oferenda, salário, recompensa, multa ou suborno algo que alguém roubou ou apropriou-se fraudulentamente, (pessoalmente ou delegando a outra pessoa), dos Budas, Dharma ou Sangha, incluindo os pertences de somente a um, dois ou três monges ou monjas.

(17) Estabelecendo procedimentos injustos

Significa ser parcial ou preconceituoso contra praticantes sérios, por causa de raiva ou hostilidade em relação a eles, e favorecer os que tem pouca ou nenhuma realização, devido ao apego a eles. Um exemplo dessa queda é, como professores, darmos a maior parte do nosso tempo a estudantes particulares ocasionais que podem pagar quantias elevadas, e negligenciar estudantes sérios que não podem pagar.

(18) Abandonar a bodhichitta

É abandonar o desejo de alcançar a iluminação para o benefício de todos. Dos dois níveis de bodhichitta, aspirativa e engajada, refere-se especificamente a rejeitar a aspirativa. Ao fazê-lo, abandonamos também a engajada.

Ocasionalmente, uma décima nona queda -raiz é especificada:

(19) Rebaixar os outros com versos ou palavras sarcásticas

Porém, isto pode também já estar incluído na primeira quedaraiz do bodhisattva.

Mantendo os Votos

Quando as pessoas aprendem sobre votos como esses, às vezes sentem que são difíceis de manter e têm medo de recebê-los. Evitamos esse tipo de intimidação, ao saber claramente o que significam os votos. Há duas maneiras de explicá-los. A primeira é que votos são uma atitude que adotamos em relação à vida, de nos abstermos de certos modos de conduta negativa. A outra é que são uma forma ou um delineamento sutil que damos às nossas vidas. Em qualquer dos casos, manter os votos envolve plena atenção (dran-pa), vigilância (shes-bzhin), e autocontrole. Com a plena atenção, mantemos nossos votos na mente todos os dias. Com vigilância, mantemos vigia no nosso comportamento para verificar se concorda com os votos. Se descobrirmos que estamos a transgredí-los, ou quase a transgredí-los, exercitamos o autocontrole. Dessa maneira, definimos e mantemos uma forma ética nas nossas vidas.

Guardar os votos e manter a plena atenção deles não é assim tão estranho ou difícil de fazer. Se dirigirmos um carro, concordamos seguir determinadas regras a fim de minimizar acidentes e maximizar a segurança. Essas regras dão forma ao nosso dirigir – evitamos acelerar e mantemo-nos no nosso lado da estrada – e delineiam a maneira mais prática e mais realística de chegar ao nosso destino. Depois de alguma experiência, seguir as regras torna-se tão natural que estarmos cientes delas sem esforco e nunca são um peso. A mesma coisa acontece quando mantemos votos de bodhisattva ou quaisquer outros votos éticos.

Os Quatro Fatores que Amarram que fazem Perder Votos

Perdemos nossos votos quando os abandonamos totalmente, ou desistimos de tentar mantê-los. Isto e o que chamamos de uma queda-raiz. Quando ocorre, a única maneira de adquirir novamente essa forma de ética é reformarnossas atitudes, seguindo um processo de purificação, tal como a meditação no amor e compaixão, e retomando os votos. De entre as dezoito quedas-raiz do bodhisattva, se chegamos ao estado mental da nona ou décima oitava queda-raiz – manter uma atitude distorcida e antagonista ou abandonar a bodhichitta – perdemos, pelo fato da nossa própria mudança de atitude, a forma ética das nossas vidas proporcionada pelos votos do bodhisattva e, assim, abandonamos quaisquer esforços para mantê-la. Consequentemente, perderemos imediatamente todos os nossos votos de bodhisattva (e não apenas aquele que rejeitamos especificamente).

Transgredir os outros dezesseis votos de bodhisattva não constitui uma queda- raiz a não ser que a atitude acompanhando o ato contenha os quatro fatores que amarram (kun-dkris bzhi), que precisariam de ser sustentados e mantidos desde o momento imediatamente depois de se desenvolver a motivação de quebrar o voto, até o momento imediatamente após ter-se completado o ato de transgressão.

Os quatro fatores que amarram são:

(1) Não considerar a ação negativa como sendo prejudicial, ver apenas vantagens e cometer a ação sem nenhum arrependimento.

(2) Tendo tido anteriormente o hábito de cometer a transgressão, não ter nenhum desejo ou intenção de deixar de repeti-la agora ou no futuro.

(3) Ter prazer na ação negativa e cometê-la com alegria.

(4) Não ter autodignidade moral (ngo-tsha med-pa, não ter sentido de honra) nem consciência de como as nossas ações afetam outros (khrel-med, nenhum sentido de vergonha) como nossos professores e pais e, assim, não ter nenhuma intenção de reparar os danos que estamos fazendo a nós próprios.

Se todas essas quatro atitudes não estão acompanhando a transgressão de qualquer dos dezesseis votos, a forma bodhisattva das nossas vidas continuapresente, assim como o esforço de mantê-la, mas ambas se tornaram fracas. Em relação aos dezesseis votos, há uma grande diferença entre apenas quebrá-los e perdê-los completamente.

Por exemplo, suponhamos que não queremos emprestar um dos nossos livros a alguém devido ao apego e à avareza. Não vemos nada de errado com isso – afinal, essa pessoa poderia derramar café nele ou não devolvê-lo. Nunca o emprestamos antes e não temos intenção de mudar esse procedimento agora ou no futuro. Além disso, quando recusamos, sentimo-nos felizes com a nossa decisão. Faltando-nos autodignidade moral, não temos vergonha de recusar. Também não nos importamos com as conseqüências da nossa recusa, apesar de que estamos, supostamente, desejando levar todos à iluminação.. Sendo assim, como poderíamos não estar dispostos a partilhar qualquer fonte de conhecimento que temos? Sem nenhuma vergonha, não nos importamos de como nossa recusa se reflete nos nossos professores espirituais ou no budismo em geral. Além do mais, não temos nenhuma intenção de contrabalançar o nosso ato egoísta.

Se tivermos todas essas atitudes ao recusar emprestar o nosso livro, perdemos definitivamente a forma bodhisattva da nossa vida. Fracassamos totalmente no treinamento Mahayana e perdemos todos os votos de bodhisattva. Por outro lado, se nos faltarem algumas dessas atitudes ao não emprestar o livro, o que fizemos foi apenas relaxar nossos esforços de manter uma forma bodhisattva na nossa vida. Ainda temos os votos, mas numa forma enfraquecida.

Enfraquecendo os Votos

Na verdade, transgredir um dos dezesseis votos sem nenhum dos quatro fatores obrigatórios presentes não enfraquece nossos votos de bodhisattva. Por exemplo, não emprestamos o livro a alguém que nos pede, mas basicamente sabemos que isso está errado. Não pretendemos fazer disso um hábito, sentimo-nos tristes em dizer não, e estamos preocupados sobre como a nossa recusa se reflete em nós e nossos professores. Temos uma razão válida para recusar emprestá-lo, tal como uma necessidade imediata do livro, ou talvez já o tínhamos prometido à outra pessoa. Aqui, a nossa motivação não é o apego ao livro nem a avareza. Portanto, desculpamo-nos por não poder emprestá- lo agora e explicamos o porquê, assegurando que o emprestaremos o mais cedo possível. Para compensar a perda, oferecemos partilhar nossas notas. Dessa forma, continuamos mantendo completamente a forma bodhisattva das nossas vidas.

Progressivamente, ao ficarmos cada vez mais sob a influência do apego e da avareza, começamos a enfraquecer essa forma bodhisattva de vida e a relaxar o controle dos nossos votos. Notem, por favor, que manter o voto de abster-se de não partilhar os ensinamentos de Dharma ou quaisquer outras fontes de conhecimento não nos livra do apego ou da avareza com relação aos nossos livros. Apenas nos ajuda a não agir sob a sua influência. Podemos emprestar o nosso livro ou, devido a outra razão, não o emprestar agora, mas podemos continuar apegados a ele e sermos basicamente avarentos. Os votos, contudo, ajudam na luta para eliminar essas emoções perturbadoras e obter a liberação dos problemas e do sofrimento que trazem. No entanto, quanto mais fortes forem as emoções perturbadoras que causam problemas, mais difícil será exercitar o autocontrole e não as deixar ditar o nosso comportamento.

Ficamos progressivamente mais dominados pelo apego e avareza – e os nossos votos ficam progressivamente mais fracos – quando, ao não emprestar o nosso livro, sabemos que isso está errado, mas temos presente um, dois, ou todos os três dos outros fatores obrigatórios. Estes constituem os níveis menor, médio, e principal de corrupção menor (zag-pa chung-ba) dos nossos votos. Por exemplo, sabemos que não emprestar o livro é errado, mas isto já e hábito e não fazemos exceções. Se nos sentíssemos mal sobre isso e ficássemos envergonhados com o reflexo da nossa recusa sobre nós e nossos professores, o estilo de vida bodhisattva que estamos tentando adotar ainda não está demasiado fraco. Mas se, adicionalmente, agora nos sentíssemos felizes sobre isto e , além disso, não nos preocupássemos com o que os outros pensam de nós ou dos nossos professores, estaríamos caindo mais e mais vítimas do nosso próprio apego e avareza.

Um nível ainda mais fraco de manter essa forma nas nossas vidas começa quando não reconhecemos que haja algo de errado em recusar emprestar o livro. Esse é o nível menor de corrupção média (zag-pa 'bring). Acrescentando um ou dois dos outros fatores que amarram, enfraquecemos essa forma ainda mais, com corrupção média principal e corrupção principal (zag-pa chen-po) respectivamente. Quando todos os quatro fatores que amarram estão presentes, cometemos uma queda- raiz e perdemos completamente nossos votos de bodhisattva. Estamos agora inteiramente sob o controle do apego e da avareza, o que significa que já não estamos engajados na sua superação ou na realização dos nossos potenciais de modo a podermos beneficiar os outros. Ao abandonarmos o estágio engajado da bodhichitta, perdemos nossos votos de bodhisattva que estruturam esse nível.

Fortalecendo os Votos Enfraquecidos

O primeiro passo para restaurar os nossos votos de bodhisattva, se os tivermos enfraquecido ou perdido, é admitir que fizemos um erro. Podemos fazer isso por meio de um ritual de expiação (phyir-'chos, phyir-bcos). Esse ritual não envolve confessar nossos erros a outra pessoa ou procurar o perdão dos Budas. Precisamos simplesmenteser honestos conosco e com nosso compromisso (de bodisattva). Se ao quebrar um voto específico já havíamos sentido que era errado, agora tornamos a admitir nosso erro. Depois, geramos os quatro fatores que agem como forças oponentes (gnyen-po bzhi). Estes quatro fatores são:

(1) Sentir arrependimento pela nossa ação. O arrependimento (' gyod-pa),quer na altura da transgressão de um voto ou mais tarde, não significa sentir a culpa. O arrependimento é o desejo de nãocometer o ato que estamos cometendo ou que já cometemos. É o oposto de sentir prazer ou de mais tarde regozijarmo-nos coma nossa ação. A culpa, por outro lado, é um sentimento forte de que a nossa ação é ou foi realmente má e, que isto nos torna verdadeiramente maus. Considerando estas identidades como intrínsecas e eternas, amofinamo-nos morbidamente e não as largamos. Por isto, a culpa nunca é uma resposta apropriada ou útil aos nossos erros. Por exemplo, se comermos algo que nos faz mak, arrependemo-nos dessa ação – foi um erro. Porém, o fato de termos comido algo que nos fez mal não nos torna intrinsecamente maus. Somos responsáveis pelas nossas ações e suas consequências, mas não somos culpados por elas no sentido condenador que nos priva de qualquer sentimento de autovalor ou dignidade.

(2) Prometer tentar não repetir o erro. Mesmo se tivéssemostido essa intenção ao transgredir o voto, reafirmamos conscientemente a nossa resolução.

(3) Voltar à nossa base. Isso significa reafirmar a direção segura e positiva nas nossas vidas e tornar a dedicar os nossos corações a conseguir a iluminação para benefício de todos – ou seja, revitalizar e fortificar o nosso refúgio e nível aspirativo de bodhichitta.

(4) Tomar medidas corretivas para contrabalançar a nossa transgressão. Essas medidas incluem a meditação no amor e na generosidade, pedir desculpas pelo nosso comportamento cruel, e engajar noutras ações positivas. Agir de maneira positiva requer autodignidade moral e consciência de saber como nossas ações afetam aqueles que respeitamos, por isto contrabalança a falta dessas (qualidades positivas) que pode ter acompanhado o nosso ato negativo. Mesmo se tivéssemos sentido envergonhados e acanhados no momento da transgressão, esses passos positivos fortalecem o nosso auto-respeito e consideração pelo que os outros possam pensar dos nossos professores.

Observações Conclusivas

Podemos ver, então, que os votos de bodhisattva são de fato muito difíceis de perder completamente. Desde que os respeitemos sinceramente e tentemos mantê-los como diretrizes, na verdade nunca os perderemos porque os quatro fatores que amarram nunca estarão completos – mesmo se nossas emoções perturbadoras nos fizerem quebrar um voto. E, mesmo no caso de uma atitude distorcida e antagonista ou se houvermos abandonado a bodhichitta, se admitirmos o nosso erro, reunirmos as forças oponentes do arrependimento e assim por diante, e retomarmos os votos, podemos recuperar e recomeçar o nosso caminho.

Consequentemente, ao decidir se tomamos os votos ou não, é mais razoável basear a decisão numa avaliação da nossa capacidade de sustentar um esforço contínuo em mantê-los como diretrizes, em vez de baseá-la na nossa capacidade de mantê-los na perfeição. O melhor, contudo, é nunca enfraquecer ou perder os nossos votos. Embora possamos voltar a andar outra vez depois de quebrar um pé, podemos também acabar coxeando.