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Tomar a Iniciação Kalachakra

Publicado originalmente como
Berzin, Alexander. Taking the Kalachakra Initiation. Ithaca, Snow Lion, 1997

Reimpressão: Introduction to the Kalachakra Initiation.
Ithaca: Snow Lion, 2010.

Parte I: Introdução e Breve Descrição

1 Introdução ao Tantra

A Necessidade de uma Abordagem Realista

Transformarmo-nos num Buda, alguém que está totalmente desperto, significa superartodas as falhas e realizar todos os potenciais a fim de ajudar os outros. Com tanto sofrimento no mundo, precisamos urgentemente encontrar os métodos mais eficazes para alcançar este objetivo. A iniciação Kalachakra oferece uma oportunidade de nos encontrarmos com tais métodos. A palavra tibetana para iniciação, wang, significa poder, e uma iniciação é, mais exatamente, um empoderamento. Ela dá-nos o poder e a habilidade de engajar em certas práticas meditativas para alcançarmos a iluminação, e assim transformarmonos num Buda, a fim de beneficiar os outros da melhor maneira possível.

Kalachakra é um sistema de meditação do nível mais elevado do tantra budista, anuttarayoga. Algumas pessoas têm noções esquisitas sobre o tantra e imaginam, com grande antecipação, que uma iniciação é uma entrada para um mundo mágico de sexo exótico e superpoderes. Quando compreendem que este não é o caso, mas que em vez disso a prática tântrica é complexa, avançada e requer um compromisso sério e o manter de muitos votos, ficam assustadas e desanimadas. Tais reações, de excitamento ou medo, não são corretas. Precisamos abordar o tantra e a iniciação Kalachakra de maneira sensata. Como meu professor principal, Tsenzhab Serkong Rinpoche, uma vez disse: "se você praticar métodos fantasiados, você obtem resultados fantasiados. Se você praticar métodos realistas, você obtem resultados realistas".

O Que é o Tantra?

A palavra tantra significa um eterno continuum. Continuums eternos funcionam em três níveis: como base, caminho e resultado. No nível da base, o eterno continuum é a nossa mente – especificamente o seu nível mais sutil conhecido como a clara luz primordial – que dá continuidade a todas as nossas vidas. Como um feixe de puro laser de meras claridade e consciência, não adulterado pelas grosseiras oscilações do pensamento conceptual ou das emoções perturbadoras, está subjacente a cada momento da nossa experiência, quer estejemos acordados ou a dormir. Se a mente for considerada como um rádio que toca para sempre, seu nível mais sutil é semelhante à máquina estar simplesmente ligada. Um rádio permanece ligado durante o processo de se deixar uma estação, estar entre ondas/faixas e sintonizar noutra frequência. Do mesmo modo, a nossa mente mais sutil nunca desliga e, por isso, é a base para as nossas experiências da morte, bardo (o estado entre renascimentos) e concepção de uma nova vida. Nem a estação, o volume, e nem o estático temporário afetam o fato de que o rádio está ligado. Do mesmo modo, nem o estatuto do renascimento, a intensidade da experiência, e nem as "máculas passageiras" dos pensamentos ou sensações passageiras afetam a nossa mente de luz clara. Esta mente mais sutil prossegue até à budeidade e é a base para alcançar a iluminação.

Além disso, cada continuum de luz clara, quer antes quer depois da iluminação, é individual. Todos os rádios não são o mesmo rádio, embora cada receptor funcione da mesma maneira. Assim não existe uma mente de luz clara universal ou tantra-base em que cada uma das nossas mentes participa..

O segundo nível de tantra, o eterno continuum do caminho, refere-se a um método específico para nos transformarmos num Buda, ou seja, a práticas meditativas que envolvem figuras búdicas. Este método é às vezes chamado "yoga da deidade". O terceiro nível, o eterno continuum resultante, é a continuidade sem fim dos corpos búdicos ou Corpuses de um Buda que obtemos com a iluminação. Ajudar aos demais de maneira completa requer corpos ou corpuses de conhecimento, sabedoria, experiência, e formas para se adequar a cada ser e cada ocasião. Resumindo, o tantra envolve um eterno continuum de prática com figuras búdicas para purificar o nosso eterno continuum mental das suas máculas passageiras, a fim de conseguir, na sua base, o eterno continuum dos Corpuses de um Buda. Os textos que discutem estes tópicos também são chamados "tantras."

Yoga da Deidade

Existem pessoas que ficam perplexas com a prática tântrica de confiar/depender em deidades, que algumas línguas traduzem como "deuses". No entanto, estas deidades não são criadores onipotentes nem seres em estados limitados de renascimento repletos de prazeres celestiais. Em vez disso, são formas extraordinárias, masculinas e femininas, em que os Budas se manifestam a fim de ajudar pessoas com variadas inclinações a superar as suas falhas e realizar os seus potenciais. Cada uma destas figuras búdicas representa ambos o estado totalmente iluminado, mais uma das suas características específicas, como, por exemplo, a compaixão ou a sabedoria. Avalokiteshvara, por exemplo, é uma manifestação da compaixão, e Manjushri é uma personificação da sabedoria. Kalachakra representa a capacidade de lidar com todas as situações a qualquer momento. A prática meditativa estruturada em torno de uma destas figuras e da característica que ela representa fornece um foco e uma estrutura clars, permitindo uma progressão mais rápida à iluminação do que a meditação sem elas.

Aliviar os sofrimentos dos outros o mais rápido possível requer o método mais eficiente de se obter as faculdades iluminadoras do corpo, palavra e mente de um Buda. A base para obtê-los é a forte determinação de livrarmo-nos das limitações, e ao mesmo tempo, adquirir o amor e a compaixão não erráticos, a autodisciplina ética, rigorosa concentração, uma firme compreensão da realidade e também a habilidade de ajudar os outros de varias maneiras. Quando tivermos chegado a certo nível, precisamos de combiná-los e aperfeiçoa-los para que dêem os seus resultados. O tantra nos proporciona esse método, que é a yoga da deidade. Tal como fazer o ensaio final de uma peça de teatro, imaginamos que, como figuras búdicas, já possuímos a inteira gama destas faculdades iluminadoras, todas juntas ao mesmo tempo. Fazê-lo age como causa eficaz para integrar estas qualidades e obter tal forma mais depressa.

Este é um método avançado. Não é possível imaginar que possuimos todos os recursos de um Buda simultaneamente a não ser que primeiro tivessemos praticado cada um individualmente. Precisamosaprender e ensaiar cada cena antes de poder ensaiar a peça inteira. Por conseguinte, seria incorreto e insensato tentar a prática tântrica sem antes ter obtido considerável experiência meditativa.

Treinar a Imaginação

A prática tântrica usa o poder da imaginação – uma poderosa ferramenta que todos nós possuimos. Assim, imaginar repetidamente que já alcançamos algum objetivo é um método que nos compele a alcançá-lo mais depressa. Suponhamos, por exemplo, que estamos desempregados. Se todos os dias imaginarmos que arranjámos um emprego, obteremos sucesso mais rapidamente do que se remoermos, com depressão e tristeza, na falta de trabalho. Isto porque mantemos uma atitude positiva sobre a nossa situação. Com uma atitude negativa, até nos falta a autoconfiança para procurar emprego. O sucesso ou fracasso na vida dependem da nossa autoimagem e, no tantra, nós trabalhamos para melhorá-la através de figuras búdicas. Imaginar já sermos um Buda dá-nos uma autoimagem extremamente potente para destruir hábitos negativos e/ou sentimentos de incapacidade.

O método tântrico não envolve apenas o poder do pensamento positivo. Ao usar a imaginação, é essencial sermos prático e manter uma clara distinção entre a fantasia e a realidade. Se não, sérios problemas psicológicos poderão surgir. Por isso todos os professores e textos enfatizam que um pré-requisito indispensável para a prática tântrica é um nível estável de compreensão do vazio – a ausência de maneiras fantasiadas e impossíveis de existir – e do surgir dependente – o surgir de tudo dependendo de causas e circunstâncias. Todos somos capazes de arranjar um emprego porque ninguém existe como um "fracasso" completamente incompetente, e arranjar um trabalho depende de esforço pessoal e da situação econômica.

Algumas pessoas consideram a yoga tântrica da deidade como uma forma de auto-hipnose. Contudo, imaginar já sermos um Buda, não é uma forma de autoilusão. Cada um de nós possui já os fatores que nos permitem alcançar esse objetivo : todos nós já temos a "natureza búdica". Ou seja, porque cada um de nós tem mente, coração, capacidade comunicativa e energia física, já possuímos todos os materiais naturais /crus necessários para criar as faculdades iluminadoras de um Buda. Desde que estejamos cientes que na verdade ainda não alcançamos esse estágio, e não nos inflemos com ilusões de grandeza, podemos trabalhar com estas figuras búdicas sem correr perigos psicológicos.

No tantra, então, imaginamos que já possuímos a forma, ambientes, habilidades e os prazeres de um Buda. O corpo físico de um Buda é feito de clara luz transparente, capaz de ajudar os outros sem cansar, e nunca é deficiente em coisa alguma. Imaginarmo-nos deste modo como uma figura búdica repleta de ilimitada energia não nos torna "workaólicos" nem mártires incapazes de dizer a palabra “ não”. É claro que os praticantes tântricos também descansam quando estão cansados. Não obstante, manter este tipo de autoimagem ajuda-nos a expandir os nossos limites. Todos possuímos um armanezamento quase infinito de energia ao qual temos acesso em casos de emergência. Ninguém está cansado demais para correr e acudir o seu filho que caiu e se machucou.

Além disso, ao praticarmos o tantra, imaginamos que o ambiente à nossa volta é completamente puro e conducente para o progresso de todos. Imaginar isto não significa ignorar as questões ecológicas ou sociais. Porém, para ajudar aos outros e a nós próprios superar a depressão e os sentimentos de desespero, deixamos de remoer nos aspectos negativos. A motivação suficientemente forte e os métodos eficazes para transformar as nossas atitudes nos trarão progresso espiritual, não importa aonde estejamos. Em vez de nos queixarmos incessantemente e sermos uns profetas de catástrofes, tentamos trazer esperança a nós e ao mundo.

Nós também imaginamos que, agindo como um Buda age, beneficiamos os outros. Sentimos que, pela nossa maneira de ser, exercemos sem esforço uma influência positiva e iluminadora em todos à nossa volta. Podemos compreender o que isto significa se estivemos alguma vez na presença de um grande ser espiritual, como Sua Santidade o Dalai Lama ou a Madre Teresa. A maioria das pessoas, mesmo se em geral poucoreceptivas, sentem-se inspiradas e são levadas a agir de maneira mais nobre. Nós imaginamos que temos um efeito semelhante nos outros. A nossa mera presença, ou mesmo a menção dos nossos nomes, acalma os outros, trazendo-lhes paz mental e alegria, e estimulando-os a atingir novas alturas.

Finalmente, imaginamos que somos capazes de apreciar as coisas da mesma maneira pura com que um Buda as aprecia. Nosso modo normal de apreciação é misturado com a confusão, traduzida muitas vezes como "prazer contaminado". Somos sempre críticos, e nunca estamos satisfeitos. Ouvimos música, mas não a podemos apreciar totalmente porque estamos sempre pensando que a reprodução sonora não é tão boa como seria se fosse no equipamento do nosso vizinho. Um Buda, porém, deleita-se em tudo sem nem um traço de confusão. Nós imaginamos fazer isto, por exemplo, ao apreciar as oferendas de luz, incenso, comida e assim por diante nos vários rituais.

Usando a Visualização para Expandir as Nossas Capacidades

Muitas figuras búdicas têm múltiplas características físicas numa variedade de cores. Kalachakra, por exemplo, tem um arco-íris de quatro caras e vinte e quatro braços. No início pode parecer estranho, mas há razões profundas para isto. Todas as formas imaginadas no tantra têm diversas finalidades, e cada uma das suas partes e cores tem muitos níveis de simbolismo. Sua complexidade reflete a natureza do objetivo da transformação em um Buda. Budas precisam manter ativamente na mente, em simultâneo, a toda a gama das suas realizações e qualidades para usá-las eficazmente ao ajudar os outros. Além disso, Budas têm de estar atentos às inúmeras características pessoais daqueles que estão ajudando de modo a fazer sempre o que é adequado.

Este não é um objetivo impossível, porque já mantemos muitas coisas na mente em simultâneo. Se dirigirmos um carro, por exemplo, nós estamos cientes da nossa velocidade, da distância em que precisamos parar ou ultrapassar outro veículo, a velocidade e a posição dos carros à nossa volta, às regras de condução, à finalidade e o objetivo da nossa viagem, os sinais da estrada e assim por diante. Ao mesmo tempo, coordenamos os nossos olhos, mãos e pés, estamos alertas a ruídos estranhos do motor, e até podemos ouvir música e manter uma conversa. As visualizações tântricas ajudam a expandir esta habilidade.

Sem nenhum método, seria muito difícil treinar para mantermos simultaneamente em mente vinte e quarto insights e qualidades tais como a impermanência, a compaixão, a paciência e assim por diante. Um dispositivo mnemônico verbal, tal como uma frase composta das letras iniciais de cada item na lista, é útil para nos lembrarmos deles em ordem. Contudo, representar cada insight e qualidade de uma forma gráfica, tal como os vinte e quatro braços de uma figura búdica, faz com que seja muito mais fácil mantermo-nos cientes de todos ao mesmo tempo. Considerem o exemplo de um professor de uma classe de vinte e quatro crianças. Para a maioria das pessoas seria muito difícil manter em mente as personalidades e as necessidades especiais de cada criança ao planear uma lição em casa. Rever uma lista com os seus nomes pode ser um tanto útil, mas estar aíem frente da classe venod os alunos traz imediata e vividamente à mente todos os fatores necessários para modificar a lição do dia.

Um mandala, literalmente um universo simbólico, é uma ajuda adicional neste processo de expandir nossa atenção mental e de ver tudo de maneira pura. Neste contexto, mandala refere-se ao palácio em que uma figura búdica vive e o terreno à sua volta. Assim como as partes do nosso corpo, cada característica arquitetural corresponde a um entendimento ou a uma qualidade positiva que precisamos manter ativamente em mente. Como um palácio, um mandala é uma estrutura tridimensional. Um mandala feito de pós coloridos ou desenhado sobre pano é como o plano arquitetural desse edifício. Durante os empoderamentos e a subsequente prática de meditação, ninguém visualiza o desenho bidimensional, apenas a estrutura que ele representa.

Prática dos Estágios de Geração e Completo

O tantra anuttarayoga tem duas fases de prática. A primeira, o estágio de geração, envolve complexas visualizações. Durante a meditação diária, imaginamos uma sequência de acontecimentos que inclui nos gerarmos como uma ou mais figuras búdicas dentro do mundo simbólico de um mandala e trazermos à mente uma compreensão ou um sentimento de varias caracteristicas, tais como o vazio e a compaixão. Para ajudar a manter a sequência, nós geralmente lemos – ou recitamos de memória – uma sadhana, que é uma espécie de livreto para esta prática diária de visualização.

A segunda fase da prática é o estágio completo, traduzido às vezes como o "estágio de completude". Como resultado dos esforços feitos durante a etapa prévia, tudo está agora completo para o seguimento dos procedimentos que produzem o resultado, que é a transformação em Buda. Tendo treinado o poder da imaginação, usamo-lo como a chave para destrancar o nosso sistema de energia sutil – os canais e as forças invisíveis dentro do nosso corpo que afetam a nossa disposição e estado mental. Sem a prática do estágio de geração anterior, este sistema continua não-acessível para o uso meditativo. Contudo, depois de termos acesso a ele, movermos conscientemente as energias sutis através dos seus canais traz a nossa mente de luz clara mais sutil à superfície. O trabalho meditativo com este nível da mente cría então as causas imediatas para realmente obtermos os corpos físicos e a mente de um Buda. O processo deixa de ser um de imaginação.

O sucesso no tantra, como em tudo na vida, segue as leis de causa e efeito. O nosso objetivo final é a habilidade mais plena de beneficiar a todos. Para alcancarmos este objetivo de um tantra resultante – um continuum eterno de Corpuses de um Buda – nós temos que transformar o nosso tantra base, o continuum eterno da nossa mente de luz clara primordial. Temos de faze-lo funcionar como um corpo de sabedoria que causa um vasto Corpus de Formas Iluminadoras. Isto requer um tantra do caminho, um continuum eterno de práticas do estágio completo e de geração. Com o anterior, nós revelamos a mente de luz clara trabalhando com o nosso sistema de energia sutil, enquanto que com o segundo desenvolvemos as ferramentas para realizar essa tarefa, ao treinar os nossos poderes de concentração e imaginação. Assim, cada estágio da prática tântrica age como a causa para o alcance da sua fase subsequente.

O Significado de Receber Empoderamento e Tomar Votos

Cada um de nós possui, com nosso tantra base, os materiais de trabalho a partir dos quais formar os Corpuses de um Buda. Todos os potenciais que precisamos estão na nossa mente de luz clara – o aspecto principal da nossa natureza búdica, o fator principal que permite a transformação de cada um de nós num Buda. Porém, antes de poder trazer estes potenciais à fruição, temos que ativá-los. Esta é a função de se receber o empoderamento, e portanto, é necessário obte-lo. A iniciação dada por um mestre totalmente qualificado primeiro remove os obstáculos iniciais que impedem o acesso e o uso destes potenciais búdicos. Depois desperta e reforça estas habilidades. Este processo duplo é chamado "receber purificação e plantar sementes". Porém, o processo só é eficaz se imaginarmos ou sentirmos que isso está realmente acontecendo. O empoderamento requer a participação ativa de ambos o professor e o discípulo.

Um mestre espiritual é essencial neste processo. Ler um ritual num livro ou ver um vídeo do ritual sendo feito não é suficientemente poderoso para ativar os potenciais búdicos. Temos que participar pessoalmente numa experiência “ao vivo”. Isto não é difícil de entender. Todos nós conhecemos a diferença que existe entre ouvir uma gravação em casa e ir a um concerto ao vivo. Através de um empoderamento dado por um mestre totalmente qualificado, nós ganhamos a inspiração, confiança e uma fonte de orientação para suster toda a prática tântrica subsequente. Estabelecemos também uma forte ligação não só com o professor que dá a iniciação, mas com toda a linhagem dos mestres de onde a prática deriva, voltando ao próprio Buda. Saber que várias pessoas obtiveram repetidamente sucesso espiritual com estes métodos é psicologicamente muito importante e proporcionauma grandeconfiança na prática. Ao receber o empoderamento, não estamos embarcando num empreendimento trivial. Não estamos fantasiando ser o Mickeymouse na Disneylandia. Estamo-nos juntando a uma longa linha de praticantes sérios que século após século validaram os métodos tântricos.

Sem uma treliça onde crescer, a videira nunca se levantaria do chão. Do mesmo modo, uma estrutura claramente definida é essencial para o desenvolvimento dos potenciais búdicos depois destes terem sido ativados. Esta é a função dos votos e compromissos que tomamos num empoderamento anuttarayoga – eles fornecem a estrutura de suporte necessária para todo o progresso subsequente. A prática tântrica não é um passatempo ocasional, nem é limitada ao assento de meditação. A transformação pessoal que com o tantra empreendemos abrange todos os aspectos da vida. Como poderiamos prosseguir sem claras recomendações? Estas recomendações são fornecidas pelos compromissos do refúgio e pelos votos tântricos e do bodhisattva.

Tomar refúgio dá uma direção segura e positiva à vida. Esforçamo-nos por remover as nossas falhas e realizar os nossos potenciais, como os Budas fizeram e os praticantes altamente realizados estão fazendo. Com os votos de bodhisattva, abstemo-nos do comportamento negativo contrário a esse objetivo. Prometemos não agir de maneiras que prejudicam a nossa habilidade de ajudar os outros. Manter os votos tântricos faz com que não nos desviemos do nosso objetivo durante as complexidades da prática tântrica. Em resumo, é um presente maravilhoso, e não um peso sufocante, que Buda nos deu as recomendações destes votos e treinamentos. Não temos que aprender quais comportamentos adotar ou evitar a fim alcançar a iluminação para o benefício de todos através dos nossos erros.

Receber empoderamento através de uma elegante cerimónia dá-nos um ponto de referência que podemos rever como o começo do nosso compromisso formal à via tântrica. Quando marcamos as grandes transições da vida com rituais antigos, nós as tomamos muito mais seriamente do que as tomaríamos se as deixássemos passar apenas casualmente. Embarcar no veículo tântrico e numa fase mais avançada da prática budista é uma dessas granges transições. Um empoderamento, com os seus processos de ligação com um mestre tântrico e a tomada de votos, marca este evento de uma maneira memorável.

Compromisso

Muitas pessoas têm medo de compromisso com qualquer coisa – quer com um parceiro, uma carreira ou com um caminho espiritual. Temendo perder a sua liberdade, abordam qualquer compromisso com indecisão e hesitação. Outros sentem que um compromisso é uma obrigação moral, e que se o quebrarem serão más pessoas. Não querendo tomar uma decisão errada nem arriscar serem maus, têm dificuldade de dar qualquer grande passo na vida. Ainda outros consideram os compromissos como temporários e participam neles apenas se houver uma cláusula de escape, tal como um divórcio. Fazem compromissos sem seriedade e quebram-nos facilmente assim que experienciam inconveniência.

Tais atitudes são um obstáculo ao progresso espiritual, especialmente quando aplicadas ao nosso compromisso à prática tântrica, a um mestre espiritual ou à manutenção dos votos. Um caminho do meio é necessário. Por um lado, seria insensato apressarmo-nos com qualquer coisa antes de termos seriamente examinado as consequências. Por outro lado, na vida temos que tomar algumasdecisões, senão nunca chegaremos a lugar nenhum. A maneira de superar a indecisão é avaliar honestamente a nossa capacidade e seriedade em fazer um compromisso, saber claramente a quê que nos estamos comprometendo, e compreender profundamente a relação entre compromisso e liberdade. Precisamos de tempo e sabedoria.

Correspondendo a diferentes níveis de compromisso, há duas maneiras de estar presente em uma iniciação:odemos ou assistir comoparticipante ativo ou então somente como um observador interessado. Os participantes ativos tomam todos os votos associados à prática, tentam fazer as visualizações o melhor que podem e, assim, receber realmente o empoderamento. Subsequentemente modelam as suas vidas de acordo com as recomendações dos seus votos e engajam pelo menos nos níveis iniciais da meditação tântrica. Se recebermos um empderamento anuttarayoga da tradição Gelug, por exemplo, começamos uma prática meditativa diária conhecida como a yoga em seis sessões. Aqueles que não se sentem prontos para tomar tal passo assistem como observadores e não recebem o empoderamento.

Não há vergonha ou culpa envolvida em ser um observador. É muito mais sensato assistirmos desta maneira do que fazermos um compromisso prematuro que mais tarde lamentamos. No entanto, os observadores interessados não precisam apenas de se sentar confortavelmente e prestar atenção à cerimónia como a um divertido espetáculo antropológico. Há uma grande oportunidade de ganhar muito da experiência. Ambos participantes e observadores, então, acham a iniciação mais significativa quando compreendem de antemão os fatos fundamentais acerca do tantra.

Escolher um Sistema Tântrico

Suponhamos que já temos uma perspectiva budista básica, uma base funcional de introvisão, e uma crença e confiança na eficácia e necessidade dos métodos do tantra anuttarayoga. Se sentirmos que estamos prontos para receber o empoderamento, ou que gostaríamos de assistir a um como observador interessado a fim de fazer uma conexão forte para futura participação, a pergunta seguinte é: que sistema anuttarayoga escolher? O menu é enorme, numa língua estrangeira, e a maior parte de nós carece de um relacionamento próximo com um professor espiritual a quem poderíamos pedir conselho. Às vezes, porém, não temos muita escolha visto que mestres qualificados raramente vêm à nossa área local e ainda mais raramente dão um empoderamento desta classe mais elevada.

Antes de se receber uma iniciação, a consideração mais importante diz respeito às qualificações do professor. Se uma pessoa não qualificada der iniciação a um sistema tântrico no qual temos grande interesse, não haverá benefícios. Qualquer pessoa treinada em rituais pode recitar e seguir os movimentos de uma cerimónia de iniciação, mas, sem as qualificações adequadas, um charlatão não nos dá nada. Mesmo se o professor for adequado, a nossa escolha de sistemas tântricos é às vezes ditada pelo que outros pediram e organizaram. A disponibilidade, contudo, não é o melhor critério para a escolha de um sistema tântrico de meditação. Às vezes a nossa prioridade é estabelecer uma ligação próxima com o professor, e não necessariamente com a figura búdica para quem ele ou ela está dando o empoderamento. O melhor, porém, é encontrar o professor certo e o sistema tântrico certo. Para determinar se esse sistema seria o de Kalachakra, precisaríamos conhece-lo mehor.