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Mahamudra na Tradição Gelug-Kagyu

Publicado originalmente como
H. H. the Dalai Lama e Berzin, Alexander. The Gelug/Kagyü Tradition of Mahamudra. Ithaca, Snow Lion, 1997

Parte I: Introdução ao Mahamudra e à Sua Aplicação Prática na Vida

Alexander Berzin
Julho de 1996

2 As Práticas Preliminares

Reconhecendo os Nossos Bloqueios Mentais

Os ensinamentos mahamudra também salientam a importância e a necessidade de extensas práticas preliminares. O propósito de tais práticas, de por exemplo fazer-se centenas de milhares de prostrações, é o de purificar os níveis mais grosseiros dos obstáculos e acumular força positiva de modo a que a nossa meditação mahamudra seja mais eficaz para nos levar à iluminação. Neste contexto, "obstáculos" não se refere a problemas economicos, sociais ou outros problemas externos, mas a dificuldades dentro de nós. A força positiva, traduzida geralmente como "potencial positivo" ou "mérito", refere-se a um estado interno positivo que resulta de ações construtivas, ou "virtuosas", do corpo, fala, mente e coração.

Para apreciar como este processo de purificação trabalha para podermos empreendê-lo da maneira mais eficaz, é essencial compreender o que são obstáculos internos. Shantideva escreveu: "Sem estabelecer contato com o objeto a ser refutado, você não pode obter uma compreensão da sua refutação". Não é possível eliminarmos os obstáculos mentais e emocionais ao nosso sucesso espiritual a não ser que saibamos o que eles são.

Podemos compreender estes obstáculos em muitos níveis. Há obstáculos que impedem a liberação e outros que impedem a onisciência. Os primeiros referem-se às emoções e atitudes perturbadoras, às "aflições", como o orgulho e a confusão teimosa, enquanto que os últimos referem-se aos instintos dessa confusão. As práticas preliminares ajudam-nos a purificar os níveis mais grosseiros dos obstáculos que impedem a liberação. As prostrações, por exemplo, ajudam a enfraquecer o nosso orgulho. Porém, dentro do contexto de mahamudra, talvez possamos compreender melhor os obstáculos como sendo bloqueios mentais. Deixem-me desenvolver este tema examinando uma vez mais o mecanismo da tensão.

Se estivermos constantemente tensos, um dos principais bloqueios mentais que causa isso é a nossa fixação nos conteúdos do que estamos atualmente experienciando. Por exemplo, estamos preenchendo nosso formulários para pagamento de impostos – uma tarefa que detestamos. Porque a detestamos tanto, fixamo-nos morbidamente e ficamos obsecados em cada linha do formulário, sentindo-nos cada vez mais tensos e nervosos. Mentalmente, começamo a queixar-nos, a sentir pena de nós mesmos, a duvidar da nossa capacidade de executar a tarefa, a preocupamo-nos sobre se vamos ser capazes de terminar, desejando que não tivessemos de fazer isto, e fantasiamos sobre nos divertir outra coisa em vez disto. Distraímo-nos com um cigarro, um snack ou uma chamada de telefone. É como se estes formulários fossem um terreno de areia movediça arrastando-nos para o fundo. Essa atitude impede-nos severamente de terminar de preenche-los. Do mesmo modo nos incapacitamos, através de um mecanismo semelhante, quando nos fixamos morbidamente, com tensão e preocupação, nos conteúdos de uma experiência ou de uma experiência futura que antecipemos com pavor.

A vida, contudo, é um processo que continua de um momento ao seguinte sem nunca fazer uma pausa. Cada momento da vida é o momento seguinte da experiência, e cada experiência tem os seus próprios conteúdos. Há sempre algo diferente que estamos experienciando a cada momento. A vida sempre continua, embora, infelizmente, muitas vezes significa ter que fazer coisas que nós não gostamos de fazer. O primeiro verdadeiro fato, afinal, é que a vida é difícil.

Contudo, quando estamos tensos, ficamos parados no aspecto do conteúdo de um momento particular da nossa experiência. É como se tivéssemos congelado um momento de tempo e não conseguíssemos ir avante / sair dele. Estamos encrencados no conteúdo do que estamos fazendo ou antecipando fazer, em vez de simplesmente desempenharmos a tarefa e acabarmos com ela. Esta fixação funciona como um severo bloqueio mental – um obstáculo que nos impede de fazer eficazmente seja o que for, muito menos libertarmo-nos de todo o sofrimento.

A minha falecida mãe, Rose, tinha um conselho muito sábio e útil. Ela costumava sempre dizer: "faz as coisas direitas, para cima e para baixo, e não para os lados! O que quer que tenhas de fazer, faz e termina de fazer". Assim, se tivermos de lavar os pratos ou lever o lixo para a rua, façam o que têm a fazer direito, para cima e para baixo, e acabem a tarefa. Se, na nossa mente, fizermos disso um grande drama, vamos também experienciá-lo como um grande drama.

Ficarmos presos e grudados nos conteúdos das experiências da nossa vida diária de tal modo que nos sentimos tensos e queixamo-nos, além de ficarmos irritados, é um bloqueio mental sério. É um obstáculo que nos impede de ver o contínuo processo da natureza da nossa mente. Como é essencial vermos esse processo a fim de superarmos a confusão sobre a realidade que cria os nossos problemas e nossa incapacidade de ajudar os outros eficazmente, precisamos remover esses obstáculos. As práticas preliminares, tais como a repetição de cem mil ou mais prostrações, são planejadas para enfraquecer e, assim, começar a eliminar estes bloqueios.

Prostrações

Fazer prostrações não é uma punição ou arrependimento, não é nenhuma coisa horrível que temos de fazer e acabar rapidamente de modo a continuar indo para as partes boas. Buda não é como um pai dominador insistindo que temos de fazer os nossos deveres antes de podermos jogar qualquer jogo. Ao invés, fazer prostrações ajuda-nos a afrouxar o bloqueio mental de estarmos grudados nos conteúdos da nossa experiência. Nós simplesmente fazemos as prostrações, "como deve ser, para cima e para baixo", como Rose Berzin diria. Isto não significa que as fazemos mecanicamente, mas sim, diretamente. Fazemos o que temos a fazer, sem mais.

Naturalmente, acompanhamos as nossas prostrações com a motivação correta, visualização e recitação de uma das fórmulas de refúgio ou de um texto curto útil para purificar, tal como A Admissão das Quedas. Fazendo assim deixa pouco espaço na nossa mente para queixas, sentir pena de nós mesmos ou preocuparmo-nos com o fato de conseguir completar as cem mil. Mas até meramente fazer as prostrações, por si, pode familiarizar-nos com a abordagem à vida de fazer as coisas diretamente, acima e abaixo, sem nos sentirmos tensos. Isto ajuda-nos a purificar até um certo ponto, alguns dos nossos bloqueios ou obstáculos mentais e a acumular mais força positiva para sermos capazes de realmente ver diretamente a natureza da mente.

Prática de Vajrasattva

Uma outra prática preliminar importante é a recitação, cem mil vezes ou mais, do mantra de cem-sílabas de Vajrasattva, para a purificação da força negativa que acumulamos das ações destrutivas, ou "não-virtuosas" previamente cometidas. Acompanhamos a nossa recitação com uma honesta admissão destas ações negativas e o reconhecimento que tê-las cometido foi um erro. Sentimos remorso, mas não nos culpamos; oferecemos a nossa promessa de tentar não cometê-las de novo; reafirmamos a nossa direção segura do refúgio e o nosso compromisso de alcançar a iluminação para podermos beneficiar a todos; e imaginamos graficamente uma purificação ocorrendo com uma complexa visualização enquanto repetimos o mantra.

O estado mental com que nos engajamos nesta preliminar, então, é o mesmo com que fazemos as prostrações recitando A Admissão das Quedas. Desta maneira, a prática de Vajrasattva purifica-nos das forças negativas as quais, como obstáculos cármicos, iriam amadurecer na nossa experiência de infelicidade ou de situações desagradáveis que impediriam, respectivamente, a nossa liberação ou capacidade total de ajudar os outros. Porém, além do seu benefício usual, esta prática serve também como uma excelente preliminar especificamente para a meditação mahamudra.

Uma das maneiras em que experienciamos termos acumulado força negativa é sentindo-nos culpados. Suponhamos que tolamente dissémos palavras ásperas ao nosso chefe numa demonstração de irritação momentânea que fêz com que perdêssemos o nosso emprego e pode causar-nos dificuldades de arranjar outro emprego no futuro. Se ficarmos grudados nos conteúdos dessa experiência, nós solidificamos o acontecimento na nossa mente. Nós o congelamos no tempo e, depois, o recordamos o tempo todo, identificando-nos completamente com o que fizemos nesse momento e julgando-nos como sendo estúpidos, sem valor e maus. Esta culpa clássica é geralmente acompanhada por um sentimento de estresse e ansiedade, e muita preocupação com o que fazer agora. Enquanto não largarmos o nosso forte agarramento aos conteúdos dessa experiência, seremos incapazes de agir claramente e com auto-confiança para remediar a situação arranjando um novo emprego.

A visualização, de forma gráfica, das nossas negatividades nos deixando, enquanto recitamos o mantra de cem-sílabas de Vajrasattva com um estado mental correto, ajuda-nos a largar a nossa fixação pelos conteúdos da nossa experiência passada de termos agido destrutivamente. Por conseguinte, ajuda-nos a abandonar a nossa culpa. Isto ajuda a treinar-nos a abandonar a nossa fixação nos conteúdos de cada momento da nossa experiência, que é a essência dos níveis iniciais da prática mahamudra. Desta maneira, Vajrasattva serve como uma preliminar excelente para mahamudra.

Guru-Yoga

Outra preliminar sempre salientada como um método para ganhar inspiração, ou "bençãos", é o guru-yoga. É bem fácil praticar guru-yoga a um nível superficial. Visualizamos perante nós o nosso professor espiritual, guru ou lama na aparência do Buda Shakyamuni, ou de uma figura búdica, tal como Avalokiteshvara, ou de um mestre da linhagem, tal como Tsongkhapa ou Karmapa. Depois imaginamos luzes de três cores emanando desta figura para nós enquanto recitamos, cem mil vezes ou mais, um mantra ou verso adequado, fazemos pedidos fervorosos para inspiração para sermos capazes de ver a natureza da nossa mente. No entanto, ao nível mais profundo é muito difícil de compreender o que estamos realmente tentando fazer durante, e por meio de, tal prática. O que estamos tentando cultivar a um nível psicológico? A resposta anda à volta de um dos aspectos mais difíceis dos ensinamentos budistas – a relação correta com um professor espiritual.

Em quase todos os textos mahamudra nós lemos algo do estilo: "Como preliminar essencial para a prática de mahamudra, façam guru-yoga diligentemente. Imaginem que os vossos corpos, fala e mente se tornam se um com os do vosso guru. Façam fervorosos pedidos de inspiração para serem capazes de ver a natureza da vossa mente". Na primeira leitura, quase que parece como se tudo que precisamos é fazer essa visualização e esses pedidos, e depois viveremos felizes para sempre, como num conto de fadas. Nós receberemos a inspiração que, como mágica, agirá como a única causa para a nossa obtencao de realização, independentemente de termos de fazer qualquer outra coisa. Mesmo na escola do budismo japonês de Jodo Shinshu em que nós confiamos unicamente no poder de Amitabha para alcançar a liberação e a iluminação, nós compreendemos implicitamente desta formulação do caminho espiritual que devemos parar todos os esforços baseados no ego, o que depende de termos compreendido a natureza mais profunda de "mim" e da mente. Assim, é óbvio que temos de ir além do nível superficial de rezar ao nosso guru pedindo inspiração para vermos a natureza da nossa mente, sem fazer mais nada, sentindo que se tivermos bastante fé e formos verdadeiramente sinceros, o nosso desejo será concedido. De repente, como se tivéssemos sido tocados na cabeça com a varinha mágica de um mágico, nós veremos e reconheceremos a natureza da nossa mente.

A mente tem uma natureza com dois níveis. Sua natureza convencional é mera claridade e apercebimento. É o que permite o surgimento de qualquer coisa como um objeto de cognição e que seja conhecido. Sua natureza mais profunda, ou "última", é que é vazia de existir de maneiras fantasiadas e impossíveis, como surgir independentemente das aparências que cria como sendo os objetos que conhece. Guru-yoga é uma ajuda profunda, embora não mística, para ver ambos. Deixem-nos examinar o mecanismo de cada um.

Quando praticamos guru-yoga, pedimos inspiração ao nosso guru, e depois dissolvemos uma réplica do nosso guru para dentro de nós. Quanto mais forte e fervorosa for a nossa consideração e respeito por ele ou ela, mais experienciaremos um estado mental bem-aventurado e vibrante como consequência deste processo. Se a nossa fé estiver misturada com apego, o estado mental que obtemos é um de mero excitação – confundido, distraído e não muito claro. Mas se a nossa fervorosa consideração e respeito forem baseadas na razão, este estado mental bem-aventurado e vibrante estará fundado numa crença confiante. Sendo emocionalmente estável, é extremamente conducente a utilizar tanto a mente que vê a sua própria natureza convencional como a mente que tem esta natureza, sobre a qual focalizar.

Para compreender como o processo de guru-yoga e de pedir inspiração funciona para facilitar a nossa visão da natureza mais profunda da mente, precisamos compreender como a visão do nosso guru como um Buda encaixa dentro do contexto dos ensinamentos sobre a vacuidade e o surgimento dependente. Vacuidade significa uma ausência – uma ausência de maneiras impossíveis de existir. Quando imaginamos que um guru existe por examplo, como um Buda independentemente, do seu próprio lado, nós estamos projetando uma maneira impossível de existir nesse professor. Esse modo de existência não refere a qualquer coisa real, porque ninguém existe como "isto" ou "aquilo", ou como qualquer coisa, do seu próprio lado. Alguém existe como um mentor espiritual, um Buda, ou ambos, somente em relação a um discípulo. Um "professor" surge dependente não só de uma mente na qual alguém aparece como um professor e não só daquilo a que a palavra ou rótulo mental "professor" se refere, como também da existência de estudantes.

O papel de "professor" não pode existir independentemente da função de ensinar. É definido, de fato, como alguém que ensina. A função de ensinar não poderia possivelmente existir se a aprendizagem ou os estudantes não existisse. Assim, ninguém poderia ser um professor se não houvessem estudantes. Ou seja, ninguém – nem mesmo o Buda Shakyamuni, Tsongkhapa, Karmapa, e nem mesmo o nosso guru pessoal – poderia existir como mentor espiritual se não existisse também alguém como estudante. Mesmo se alguém não estiver ensinando neste momento nem tiver nenhum estudante agora mesmo, essa pessoa só poderia existir como professor se ele ou ela tivesse feito o curso de professor, o que poderia acontecer apenas se houvessem estudantes no universo. Além disso, alguém está funcionando como professor apenas quando esté realmente ensinando, e isso só pode acontecer em relação a um estudante.

A mesma linha de raciocínio aplica-se à existência de origem interdependente de Budas e dos seres sencientes. Seres sencientes são aqueles com consciência limitada, enquanto que os Budas são aqueles com a maxima capacidade de ajuda-los. Ninguém poderia ser um Buda se os seres sencientes não existissem. É por isto que se diz que a bondade dos seres sencientes é muitíssimo maior do que a bondade dos Budas em capacitar-nos de alcançar a iluminação.

Dado que os gurus e os Budas não existem independentemente dos discípulos ou estudantes, segue-se que nem os professores nem os discípulos existem como entidades totalmente independentes, como dois postos sólidos e concretos, cada um deles existindo por si próprio mesmo se o outro nunca tivesse existido. Podemos por conseguinte logicamente concluir que é uma fantasia imaginar que um guru pode produzir um efeito num discípulo como se fosse alguém sólido, "lá fora", transmitindo um efeito sólido, como lançar uma bola, a alguém sólido "cá dentro", ou seja, "eu". Efeitos, tais como obter a compreensão da natureza da mente, só podem surgir dependendo não só de um esforço comum de um guia espiritual e de um discípulo, mas de muitos outros fatores também. Como Buda explicou, "um balde não é enchido com água pela primeira nem pela última gota de água. É enchido por uma coleção de um número enorme de gotas".

A compreensão da natureza convencional e da natureza mais profunda da mente é o resultado de um longo e árduo processo, durante vidas incontáveis, de acumulação e de limpeza (colecionar e purificar). O primeiro refere-se a fortalecer as duas redes construtoras de iluminação: de força positiva (ou de potencial positivo) e de consciência profunda – as "duas coleções de mérito e sabedoria"; enquanto que o último significa purificarmo-nos da força negativa (ou do potencial negativo) e dos obstáculos. Além disso, temos de ouvir ensinamentos corretos sobre os dois verdadeiros níveis da natureza da mente – convencional e mais profunda – , refletir neles até obtermos um nível funcional básico de compreensão, e depois meditar neles correta e intensivamente. Praticando desta maneira, acumulamos as causas para obtermos compreensão e realizações. A inspiração do nosso guru não pode substituir este processo.

No entanto, a inspiração que vem de um mentor espiritual é o meio mais eficaz para fazer com que as sementes do potencial para a compreensão,que acumulamos através destes métodos, amadureçam mais depressa para produzir os seus resultados mais rapidamente. A inspiração, embora sendo uma circunstância para o amadurecimento de causas, não pode produzir quaisquer resultados por si, se não houverem causas ou se estas forem insuficientes para que amadureçam. A inspiração ou as "bençãos" de um guru, de um fundador da linhagem, ou até do próprio Shakyamuni, não podem funcionar magicamente para nos levar à compreensão e à iluminação. Por conseguinte, não nos devemos iludir pensando que podemos evitar o trabalho árduo de superar os nossos problemas para sermos capazes de obter a profunda eterna felicidade e a capacidade de sermos do maior benefício aos outros. A inspiração pode definitivamente ajudar-nos a alcançar mais rapidamente os efeitos dos nossos esforços – e é extensamente elogiada como o meio mais eficaz para isto – mas nunca pode substituir o esforço sustentado, sobre muitas vidas, para acumular as causas para esses efeitos.

Em resumo, para que um discípulo obtenha inspiração e depois realize a natureza da mente, é crucial que não só ele ou ela, mas também o professor, compreendam como cada um deles existe e como o processo de causa e efeito só pode funcionar com base na vacuidade – a ausência de maneiras impossíveis de existir. Se um deles ou ambos acreditarem que ele ou ela e o outro existem independentemente e concretamente como postes de cimento, que a inspiração e a compreensão existem como uma bola dura, e que o processo de causa e efeito de obter inspiração e compreensão trabalham como o lançamento dessa bola de um poste ao outro, então não importa quão hábil o mentor espiritual possa ser e quão receptivo e sincero o discípulo possa ser, o efeito será bloqueado. Se acreditarmos que o que experienciamos em relação ao nosso guru, mesmo como um Buda, existe algures concretamente "lá fora" e não surge dependendo de muitos fatores – incluindo a nossa mente – como poderia ele ou ela transmitir-nos inspiração ou compreensão da natureza da nossa mente, mesmo se pedíssemos isso com total sinceridade e motivação correta?

O Relacionamento com um Professor Espiritual

Para compreendermos o guru-yoga mais claramente, precisamos examinar mais profundamente o tópico da "devoção ao guru". A fim de evitar uma possível má interpretação, vamos traduzir o termo técnico como "um compromisso de todo coração a um professor espiritual", ou seja, o compromisso de considerar esta pessoa como um Buda. Fazer este compromisso não é lidar com a questão de se o nosso mentor espiritual existe "lá fora" como um Buda ou não. Afinal, só podemos falar do nosso professor em termos da nossa experiência dele ou dela. A maneira em que um mentor espiritual existe só pode ser formulada em termos da mente. Por conseguinte, estamos cometendo-nos a considerar a nossa experiência do nosso professor como a experiência de um Buda.

Então, este relacionamento com um professor espiritual como sendo um Buda é fundamentalmente um contrato muito pessoal. Falando do ponto de vista de um discípulo, o nosso contrato com essa pessoa seria: "Não me interessa, durante este estágio da minha prática, como é que você gera e experiencia a sua motivação para o que você está fazendo. Eu quero ser capaz de ajudar os outros tão plenamente quanto possível e alcançar o estado de um Buda de modo a ter mais capacidade de produzir esse benefício. Portanto, tendo-nos examinado, a você e a mim, com muito cuidado, e tendo visto que nós dois estamos prontos para entrar neste tipo de relacionamento, eu agora pretendo considerar a minha experiência do que quer que você diga ou faça como um ensinamento pessoal. Irei experienciar as suas ações e palavras como motivadas unicamente pelo desejo de me ajudar a desenvolver de modo a que eu possa superar os meus problemas e falhas e ser de maior benefício para os demais. Cada pensamento, palavra e ação de um Buda beneficia os outros, ou seja, é alguém que está sempre ensinando. Assim, vou considerar você como me ensinando o tempo todo.

"Nem o nosso relacionamento nem o benefício que eu posso derivar dele existem como algo vindo só do seu lado ou como uma entidade sólida, como uma corda amarrada entre nós. O nosso relacionamento existe apenas em termos da sua experiência em nossa mente, a qual é dependente de nós dois. Como só posso experienciar o nosso relacionamento da maneira em que eu o entendo e percebo, vou experienciá-lo de maneira a maximizar o benefício que possa receber. É para este fim que vou considerar minha experiência de você como sendo minha experiência de um Buda. E, de fato, se a considerar como tal, será a minha experiência de um Buda e funcionará como tal. Não é auto-ilusão feita para um propósito bom e digno".

A maneira principal que o nosso professor espiritual, ou qualquer Buda, pode ajudar-nos a libertar dos nossos problemas e confusão e a usar eficazmente todos os nossos potenciais para ajudarmos os outros, é treinando-nos a desenvolver a consciência discernente, ou a "sabedoria". Precisamos cultivar a mente que é capaz de discernir entre a realidade e a fantasia, e entre o que é útil e o que é prejudicial. Assim, nossa relação com o nosso guru não é a mesma de um soldado no exército com o seu general. Sempre que o general fala, pômo-nos em posição, saudamos e gritamos "Sim, Senhor!", e obedecemos sem questionar. Não é assim. Quando o nosso mentor espiritual fala, nós somos, naturalmente, respeitosos, mas também usamos a situação como uma oportunidade de desenvolver a nossa consciência discernente.

Além disso, se no exército obedecermos sempre e formos um bom soldado, o nosso general pode-nos promover. Mas é totalmente diferente com um professor espiritual. Se nós obedecermos sempre ao nosso professor sem questionar, isso não faz de nós um bom discípulo. E se nós pedirmos sinceramente, o nosso guru não nos promoverá à posição de alguém que vê a natureza da mente. O surgimento da visão da natureza da nossa mente depende diretamente do desenvolvimento da nossa consciência discernente. A maneira em que experienciamos o nosso professor contribui para o nosso sucesso de uma maneira indireta, ajudando-nos a cultivar esse discernimento.

O exemplo clássico deste processo vem de um relato de uma vida anterior de Buda. Uma vez, numa vida passada, Buda teve um mentor espiritual que lhe disse, e a todos os seus outros discípulos, para irem à cidade e roubar coisas para ele. Todos foram roubar exceto Buda, que permaneceu no seu quarto. O guru foi ao quarto de Buda e gritou iradamente: "Por que você não foi roubar para mim? Você não me quer agradar?" Buda respondeu calmamente: "Como é que roubar pode fazer alguém feliz?” O guru respondeu: "Ah, você é único que compreendeu a finalidade da lição".

Assim, se considerarmos e experienciarmos tudo que o nosso mentor espiritual diz ou faz como um ensinamento, poderemos usá-lo para nos ajudar a desenvolver o nosso discernimento e sabedoria. Não importa o que seja que o nosso professor diga que façamos, examinamos para ver se faz sentido. Se estiver de acordo com os ensinamentos de Buda e formos capazes de fazê-lo, nós o faremos "como deve ser, para cima e para baixo", como a minha mãe diria. No processo, o nosso professor ensinou-nos a pensar cuidadosamente sobre as coisas antes de agir, e depois agir decididamente com auto-confiança. E se ele ou ela nos pedísse para fazermos algo que achamos totalmente incorreto, nós não o fazemos e educadamente explicamos por quê. Uma vez mais, o nosso guia espiritual deu-nos uma oportunidade para treinar e exercitar a sabedoria discernente.

Então, o relacionamento mais benéfico com um guru certamente não anda à volta de um culto de personalidade. Quando consideramos o nosso professor como um ícone de culto, estamos presos e fixados nos conteúdos da nossa experiência. Nós exageramos e solidificamos o objeto da nossa experiência, neste caso um guru, e pomos-lhe num pedestal quase literalmente, como uma estátua de ouro sólida, sempre que vemos ou imaginamos esta pessoa num trono de ensino. Com este estado mental, abnegamo-nos e adoramos os conteúdos da nossa experiência, adicionando título após título ao seu nome. Não estamos cientes da, nem concentrados na, natureza da própria mente e sua relação com a nossa experiência do nosso mentor espiritual. Com uma atitude tão confusa e ingênua, abrimo-nos a sério abuso.

O outro extremo em que poderíamos cair quando ficamos presos no lado do objeto da nossa experiência do professor é criticar o guru com hostilidade e, talvez, com profunda desilusão e desapontamento. Ele ou ela eram supostamente perfeitos e nós vemos sérias falhas éticas ou de julgamento. Ou ficamos calados devido ao medo, pensando que se dissermos que não ao nosso professor, estaremos a ser um mau discípulo e seremos rejeitados. Ou pensamos que dizer que não é semelhante a admitir que fomos estúpidos por termos escolhido essa pessoa como nosso guia espiritual e, em vez de parecermos estúpidos a nós e aos outros, aceitamos cegamente e concordamos com tudo o que o nosso mentor diz. Em todos estes casos, perdemos de vista o nosso contrato de aprender a utilizar nossa consciência discernente a partir da nossa interação com o professor, não importa quais sejam os conteúdos dessa interação. Obviamente, entrar em tal acordo requer não só um mestre espiritual altamente qualificado, mas também um discípulo altamente qualificado que seja emocionalmente maduro e não esteja procurando um substituto de pai ou mãe para tomar todas as suas decisões.

Por isso, quando praticamos guru-yoga, mesmo se ainda não tivermos um mentor pessoal com quem temos esse contrato, tentamos seguir as recomendações sobre como obter o maior benefício desse relacionamento. Tentamos evitar ficar presos nos conteúdos das visualizações e ficarmos apaixonados com eles. Não nos tornamos extáticos em quão maravilhoso o nosso guru ou Buda são ao emitir-nos luzes extasiantes. Em vez disso, concentramo-nos no lado experiencial do que está acontecendo – na mente que está permitindo o intercâmbio de luzes e a inspiração que essas luzes simbolizam. Assim como podemos desenvolver consciência discernente do que é correto ou não experienciando cada ação do nosso guia espiritual como um ensinamento, do mesmo modo também podemos desenvolver consciência discernente do surgimento dependente e da vacuidadente a partir da prática de guru-yoga.

Quando fazemos pedidos ao guru, o que é que estamos fazendo? Quando pedimos fervorosamente "Que eu possa ser capaz de ver a natureza da minha mente", estamos gerando um desejo muito forte de ver e compreender a natureza da mente através de uma interação correta com um professor espiritual. Assim como a tensão não existe "lá fora" mas pelo contrário é dependente da mente, do mesmo modo, a compreensão estável ou até um passageiro momento de insight sobre a natureza da mente e da realidade, assim como a inspiração para receber qualquer um deles, não são coisas "lá fora" que alguém nos pode atirar como a uma bola. São coisas que surgem dependentemente, com relação a uma mente, como resultado de um enorme complexo de causas.

A Inseparabilidade da Nossa Mente e do Nosso Guru

Gampopa, o mestre tibetano do início do século XII, disse: "Quando eu experienciei a inseparabilidade da minha mente e meu guru, eu percebi mahamudra." Podemos compreender a afirmação de recomendação de Gampopa a vários níveis, tais como dizendo respeito à obtenção de inspiração mediante a constante lembrança do nosso professor; à obtenção de um estado mental bem-aventurado e vibrante a partir da ferverosa consideração e respeito por ele ou ela; e assim por diante. Mas ele certamente não quiz dizer que quando teve uma união mística com o seu guru, como com Deus ou com seu amor, ele viu mahamudra como um presente enviado do céu. Pelo contrário, ele viu que o relacionamento com o seu mentor espiritual era uma experiência mental que envolvia aprender de cada momento de encontro. Assim, o benefício resultante surgia em dependência da mente e só podia existir dependendo da mente. Neste sentido, ele compreendeu que o seu guru e a sua mente eram inseparáveis.

A implicação da afirmação de Gampopa não é que o relacionamento com um mestre espiritual está apenas na nossa cabeça comodiscípulos. Isso é tão equivocado como dizer que tudo vem do lado de um guru/Buda todo-poderoso. Uma relação entre um professor e um discípulo surge dependendo não só das duas pessoas, como também de uma mente que experiencia a interação de momento a momento. Quando compreendemos isto, não ficamos presos nos conteúdos da experiência de fixar no lado-do-objeto do "santo guru" ou no lado-do-sujeito do "pobre de mim". Pelo contrário, permanecemos concentrados na experiência e na natureza mais profunda da mente e da realidade que permite que o relacionamento de causa e efeito da inspiração e benefício ocorra entre as duas pessoas envolvidas. Isto é simbolizado por um fluir de luzes transparentes do guru ao discípulo, ambos os quais nós visualizamos e, assim, experienciamos, como também sendo feitos de luz clara. Não há nenhum guru sólido, concreto "lá fora" enviando luzes brilhantes sólidas a um eu sólido e concreto, sentado, independentemente "aqui dentro", na minha cabeça. Então, tal prática de guru-yoga é extremamente útil para nos treinarmos a nós próprios a concentrar, com consciência discernente, na natureza mais profunda da mente, em meditação mahamudra.

Guru-Mantra

Quando praticamos guru-yoga, acompanhamos a nossa visualização com a repetida recitação de um guru-mantra ou de um verso que inclua um pedido. Na tradição Karma Kagyu, por exemplo, que se desenvolveu a partir de um dos discípulos de Gampopa, o Primeiro Karmapa, nós recitamos o mantra, "Karmapa kyenno," que significa, literalmente, "Karmapa, sabe oniscientemente!" Na tradição Gelug-Kagyu de mahamudra, nós substituímos a visualização e mantra de Tsongkhapa pelos de Karmapa. Exceto isto, o procedimento e o processo são exatamente os mesmos.

Se a nossa compreensão do guru for como send alguém externo, então a recitação do mantra de Karmapa, por exemplo, se transforma apenas num exercício de devoção, e nada mais. Basicamente, recitamos o equivalente de "Karmapa, escute e saiba dos meus problemas! Só você sabe oniscientemente como removê-los". No melhor isto leva-nos a ver Karmapa como um Buda indicando a direção segura do refúgio que tomamos na nossa vida. A um nível menos ótimo, isto conduz ao sentimento que só Karmapa nos pode salvar de todos os nossos problemas. Assim, os nossos pedidos ao guru com o mantra de Karmapa transformam-se no equivalente da recitação repetida de "Oh Deus, ajuda-me!"

Mas quando conhecemos a inseparabilidade da nossa mente e do nosso guru, nós estamos de fato repetindo "Mente, sabe oniscientemente!" sempre que recitamos "Karmapa kyenno". Então, com os nossos pedidos fervorosos ao guru, estamos dirigindo as nossas energias numa maneira forte para a compreensão de mahamudra com base na confiança de que a nossa mente, como a parte da nossa natureza búdica, tem os recursos para ver a realidade. Mesmo se nós ainda não tivermos um guru pessoal para agir como canal para a linhagem que vem das suas figuras fundadoras, a nossa natureza búdica liga-nos à linhagem e, assim, pode funcionar como fonte de inspiração interior. Assim, não só confiamos em gurus externos, temos também um guru interior – a natureza da nossa mente. Quando vemos a inseparabilidade da nossa mente e do nosso guru neste sentido mais profundo, nós ganhamos o nível mais profundo de inspiração.

O guru interno, então, não é uma figura existindo independentemente na nossa cabeça, de quem podemos receber mensagens especiais que devemos definitivamente seguir. Quando pensamentos, tais como ideias de fazer isto ou aquilo, ou até compreensões, surgem, podem ser ideias boas ou tolas, compreensões corretas ou falsas. Apenas porque algo novo e inesperado surge repentinamente na nossa mente, isso não significa, de modo nenhum, que é mesmo assim. Sempre precisamos examinar a sua validez.

Além disso, não existe nenhuma pequena pessoa na nossa cabeça enviando-as para nós, supostamente como uma mensagem. Os pensamentos e as compreensões, tanto válidos como inválidos, surgem através de um processo de causa e efeito, como o amadurecimento de alguma semente ou potencial. As sementes são plantadas pelas nossas ações habituais passadas, que podem ser construtivas ou destrutivas, bem informadas ou iludidas. Elas amadurecem quando as circunstâncias corretas estão presentes. O reconhecimento da natureza da nossa mente como natureza búdica e a compreensão da inseparabilidade da nossa mente e nosso guru – mais precisamente, da nossa mente e nossa natureza búdica como nosso guru interno – agem como circunstâncias para que as compreensões corretas amadureçam das sementes do potencial que acumulamos através das nossas práticas anteriores de acumulação e purificação, assim como de escuta, reflexão e meditação. Assim como é crucial não romantizar transformando o nosso guru externo num fazedor de mágica e de milagres, o mesmo é verdade do nosso guru interno.

Investigando o Significado de Cada Ensinamento

É muito importante, na prática do budismo, olharmos profundamente para todos os ensinamentos, especialmente aqueles que repetem em quase todos os textos sobre um tópico particular, tal como a afirmação que o guru-yoga e a súplica ao guru por inspiração são as preliminares mais importantes para a prática de mahamudra. Atisha, o mestre indiano do início do século XI , disse, "Tomem tudo nos grandes textos como instruções de recomendações para a prática pessoal". Contudo, isto não significa que nós os consideremos simplesmente como ordens do nosso general que devemos obedecer sem pensar. Precisamos investigar profundamente para tentar compreender a significância e o significado de cada instrução.

Os ensinamentos de Buda podem ser divididos em interpretáveis e definitivos – literalmente, naqueles que pretendem levar-nos mais fundo e naqueles sobre o significado mais profundo ao qual somos levados. O ponto mais profundo ao qual todos os ensinamentos de Buda conduzem é a compreensão da vacuidade. Por conseguinte, a fim de compreender, nas palavras de Atisha, como "todos os ensinamentos encaixam sem contradição", nós temos de encaixar as instruções sobre o que quer que estejamos praticando com os ensinamentos sobre tudo o mais – particularmente com os aqueles sobre a vacuidade. O estudo do budismo é como ser-nos dado peças de um enorme puzzle. Cabe-nos a nós reunir todas as peças, tais como o guru-yoga e a vacuidade, e encaixá-las. Até o processo de pensar sobre como elas encaixam e tentar entender, e não apenas intelectualmente, age como uma preliminar para eliminar obstáculos e fortalecer as redes construtoras de iluminação de força positiva e consciência profunda.

Assim, as práticas preliminares são um pré-requisito essencial para conseguirmos atingir qualquer sucesso com os métodos mahamudra. Sem elas, podemo-nos sentar e fazer o que pode parece ser meditação mahamudra. Não é difícil imaginar que estamo-nos concentrando no estado natural da mente. Mas, de fato, tudo que estamos fazendo é estarmos ali sentados, sonhando acordados ou, na melhor das hipóteses, concentrando-nos em nada, completamente "no espaço", com a nossa cabeça nas nuvens. Podemos ficar um pouco mais relaxados no processo, mas basicamente a nossa meditação não vai chegar a nenhum lado profundo.