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Arquivos sobre Budismo do Dr. Alexander Berzin

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Reflexões do Dalai Lama Sobre a Abordagem Realista do Budismo: Palestras para Antigos Residentes Ocidentais de Dharamsala

A Sua Santidade o 14° Dalai Lama
Dharamsala, Índia, 2-3 de Novembro, 2010
Transcrito por Sean Jones and Michael Richards
Editado por Luke Roberts and Alexander Berzin
Com esclarecimentos indicados em cor violeta entre chaves
Traduzido por Antonella Yllana

Terceira Parte: O Budismo no Século Vinte e Um

Como ser Budistas do Século Vinte e Um

Eu sempre digo aos tibetanos e também aos chineses e japoneses, aos ladakhis e todos os budistas do Himalaia – eu sempre lhes digo que agora estamos no século vinte e um, que devemos ser budistas do século vinte e um. Isto significa ter um conhecimento mais pleno sobre a educação moderna, a ciência moderna, todas essas coisas, e também saber como utilizar as facilidades modernas, mas ao mesmo tempo mantendo a total convicção dos ensinamentos do Buda sobre o altruísmo infinito, a bodhichitta e a visão da interdependência pratityasamutpada [origem dependente]. Então você poderá ser um budista genuíno e também pertencer ao século vinte e um.

Recentemente, eu estive em Nubra [Ladakh] e parei na estrada para almoçar. Alguns residentes locais vieram – alguns deles nós já conhecíamos há vinte ou trinta anos – e eu conversei com eles. Eu disse a eles que precisamos ser budistas do século vinte e um e também que o estudo é muito, mas muito importante. Então perguntei a eles: “O que é o budismo?”. E eles disseram: “ Buddham saranam gacchami. Dharmam saranam gacchami. Sangham saranam gacchami.” [Eu tomo refúgio no Buddha, no Dharma e na Sangha. Isso é budismo.] Isso é simples demais. Depois, eu perguntei quais são as diferenças entre Buda, Jesus Cristo e Mohammed? Eles disseram: “Não há diferenças”. Isto não está correto. Eles são iguais por serem grandes mestres da humanidade. Mas no que diz respeito aos seus ensinamentos, há uma grande diferença. O budismo é não-teísta. Eu perguntei a vocês um dia se o budismo é ou não é uma forma de ateísmo e vocês mencionaram que o ateísmo significa “antideus”. O budismo não é antideus – o budismo respeita todas as religiões – mas o budismo é não-teísta no sentido de que não há um criador, não há o conceito de um criador. Assim, na questão dos ensinamentos, no lado filosófico, há grandes diferenças entre o budismo e essas outras religiões, mas esses locais sentiam que elas são a mesma coisa.

Isso me lembra uma coisa: uma vez no Tibete, um lama estava oferecendo ensinamentos, e as pessoas perguntaram para ele: “Onde estão as Três Jóias? Onde está o Buda?” Ele ficou em silêncio por um tempo e aí ele apontou para o céu e disse: “Ah, o Buda está em um palácio de cristal no espaço, rodeado de luzes brilhantes.” Isso não é verdade. Em última análise, o Buda está aqui, em nossos corações – trata-se da natureza búdica.

Por isso, quero compartilhar com vocês que temos que ir para a real base do Dharma do Buda [os ensinamentos do Buda]. É como quando você tem o prato principal – arroz ou farinha ou, no caso dos tibetanos, tsampa – e alguns legumes. São legumes bonitos e muito bons. Mas sem a comida principal, tendo apenas alguns legumes – somente os acompanhamentos – isto não é uma refeição completa. E é importante compreender isso.

O Tronco e os Galhos da Tradição

Costumo descrever o budismo tibetano como sendo a pura tradição Nalanda [no sentido de que ele é herdeiro dos ensinamentos dos dezessete grandes mestres na antiga universidade monástica indiana de Nalanda]. Esta é a base. Eu também explico a nossos grupos budistas, incluindo aqueles em Ladakh, sobre a analogia do tronco da árvore e seus diferentes galhos. A tradição Nalanda é como o tronco da árvore. Depois, vêm [as tradições tibetanas] Nyingma, Sakya, Kagyu, Gelug, Kadam, Jonang – todas elas são como galhos.

Recentemente, eu estava em um centro Dorzong, um centro da Drugpa Kagyu. Os rinpoches dessa escola sempre têm programas de estudo muito bons, não apenas para seus próprios monges, mas também para os jovens estudantes leigos tibetanos. Eu perguntei a Dorzong Rinpoche sobre o programa deles, e trata-se de um programa muito bom. Então, eu expliquei a eles sobre o tronco e os galhos e como, naquilo que diz respeito à unidade, as escolas Sakya, Nyingma, Kagyu, Gelug, Kadam, and Jonang – todas são ligadas às raízes. Não há diferenças. Mas quando há demasiada ênfase nos galhos, então as pequenas diferenças aqui e ali se tornam aparentes demais. Os galhos são importantes; há algumas coisas especiais neles, como dzogchen [a grande completude], mahamudra [o grande selo] e Sakya lamdray [o caminho junto com seus resultados] e seltong-zungjug [o par unido de clareza e vacuidade]. Cada um deles é bom, mas todos estão relacionados ao tronco. É muito bom quando essas características especiais são adicionadas ao pleno conhecimento dos ensinamentos básicos do tronco. Então a coisa fica completa. Mas se você negligenciar os ensinamentos básicos e apenas se segurar nos galhos, então isto não será completo, e também aqui haverá o perigo da falsa interpretação.

Ou seja, eis o tronco: os mestres Nalanda. Eu costumo descrever dezessete mestres Nalanda.

Seus textos são a explicação sobre o budismo básico. Os outros são galhos.

A Importância do Ceticismo

Segundo o tronco – os ensinamentos budistas básicos – o ceticismo é essencial. Eu penso e acho que sou um budista, mas eu já não tenho mais nenhuma convicção a respeito do Monte Meru. As duas verdades e as quatro verdades nobres são as verdadeiras explicações para o cosmo, para as galáxias e o big bang. Este é o real ensinamento do Buda e do budismo.

A apresentação dos textos clássicos é estruturada ao redor das quatro confianças corretas:

[Não deposite a sua confiança na pessoa, deposite-a em seus ensinamentos; não deposite a sua confiança em suas palavras, deposite-a em seus significados; não deposite a sua confiança nos seus significados interpretáveis, deposite-a em seus significados definitivos; (para entendê-los) não deposite a sua confiança em sua consciência classificadora, deposite-a em sua consciência profunda.] Os textos clássicos mencionam que o real público para esses livros, seus leitores mais sérios, têm que ter uma postura cética. Eles têm que investigar se o conteúdo do livro é relevante para as suas vidas ou não. Qual o benefício temporário disso? E a longo prazo, qual o benefício disso? O público sério tem que estar claramente ciente da relevância do texto antes de seguir seus ensinamentos.

Esta é exatamente a abordagem Nalanda. As pessoas do público têm que ser céticas. O ceticismo traz questionamentos, os questionamentos trazem investigação, a investigação traz respostas. Esta é a única abordagem lógica.

Refutando as Crenças Sobre o Monte Meru e a Localização dos Reinos Infernais

Quando eu estava em Sar Ashram, quarenta anos atrás, em certa ocasião eu mencionei: “O Buda não veio para este planeta para fazer um mapa. Assim sendo, não é problema dos budistas se há ou não há um Monte Meru. Isso não importa.” Simples assim. Assim, sendo, temos a liberdade de rejeitar a explicação de Vasubandhu [em Abhidharmakosha, Tesouro de Temas Especiais Relativos ao Conhecimento]. Temos que distinguir entre literalidade e significados simbólicos. No Kalachakra, é mencionado que o Monte Meru e todas essas coisas simbolizam o corpo humano da cabeça às plantas dos pés. Há muitas explicações tântricas semelhantes. Esses símbolos têm certo significado, certo propósito.

No que diz respeito aos infernos, ao conceito dos infernos: eu acho muito difícil aceitar o que o Abhidharmakosha de Vasubandhu mencionou, que trinta léguas [ pagtse (dpag-tshad), Skt. yojana] abaixo de Bodhgaya há oito diferentes reinos infernais. O pagtse é bem mais longo que um quilômetro. Então, se você descer cada vez mais, o mais provável é que os infernos sejam na América! Mas é inadequado dizer que a América é um inferno. Assim sendo, essas coisas não são difíceis de refutar.

Há três maneiras de entender as coisas: através da percepção sensorial, através da inferência baseada na razão, e através da confiança na autoridade das escrituras. Isto significa, [no caso da escritura], confiar em uma terceira pessoa. Eu digo com frequência às pessoas que isso é como o nosso próprio aniversário: não temos nenhuma maneira de investigar qual o nosso verdadeiro aniversário. Temos que confiar em outra pessoa, por exemplo, em nossa mãe. Para aceitar a descrição desta pessoa, primeiro temos que provar que a pessoa é honesta, confiável, e que tem uma mente normal. Temos que testar alguma outra coisa que esta pessoa mencionou, algo que possamos investigar. Se investigarmos e descobrirmos que está correto, saberemos que esta pessoa é de confiança e não tem razão para mentir ou imaginar coisas. Então podemos aceitar as afirmações desta pessoa.

Da mesma forma, pode haver fenômenos misteriosos que estão além do nosso nível de entendimento e que não constam em nossa experiência. Se há pessoas que dizem ter vivenciado tais fenômenos, podemos investigar seus escritos e ver se são confiáveis em relação a outros pontos. Se elas o são, podemos confiar na explicação desta pessoas sobre coisas que estão além da nossa razão. Esta é a forma de abordar algumas explicações na literatura budista.

Quanto à pramana – lógica e epistemologia – [há diferentes tipos de provas e refutação. Um tipo de refutação envolve um fenômeno que deveria ser observável, mas não é]. Por exemplo, de acordo com o Abhidharmakosha, o sol e a lua estão na mesma distância em relação à Terra, e à medida que eles giram ao redor do Monte Meru, dia e noite ocorrem. Aparentemente, durante a noite estamos na sombra do Monte Meru, mas se estivéssemos na sombra, também deveríamos ser capazes de ver a montanha. Em tempos antigos, na Índia, Vasubandhu não tinha a possibilidade de verificar se havia um Monte Meru. Mas agora que temos veículos espaciais, deveríamos ser capazes de vê-lo. Mas já que não podemos vê-lo, podemos dizer que ele não existe.

Assim sendo, existem refutações que envolvem não ser capaz de observar fenômenos que você está tentando provar ou nos quais você observa o oposto disso. Dignaga e Dharmakirti claramente mencionaram isso nos textos deles. Ou seja, utilizando a nossa própria epistemologia budista, a não-existência do Monte Meru é facilmente comprovada. Não há problema algum em refutar coisas.

Uma vez, no sul da Índia, durante um grande encontro de monges estudantes – acho que eram mais de dez mil monges (todos os estudantes das maiores instituições monásticas estavam reunidos ali) – eu mencionei a minha opinião sobre a importância da ciência e que temos que aprender a ciência moderna. Eu comentei que não acredito no Monte Meru e todas essas coisas. Aí eu disse, “Oh, mas por favor, não me considerem um niilista.” No primeiro dia, os meus ensinamentos eram mais sobre a relação entre a ciência budista e a ciência ocidental. No segundo dia, eu expliquei sobre os ensinamentos budistas. Ou seja, no primeiro dia, eu estava sendo mais inovador com meu ensinamento e no segundo dia foi um ensinamento mais tradicional e religioso. Por isso, não há problema em refutar essas coisas.

Os Possíveis Perigos da Devoção ao Guru

Se voltarmos à raíz, não há ênfase na importância da devoção. Mas se você for aos galhos, como mahamudra ou dzogchen, então a guru-yoga será muito importante. Na verdade, isto corrompe alguns lamas, e os centros deles se tornam seitas. Por quê? Por esquecerem os ensinamentos básicos e focarem apenas nos galhos.

Como no caso de Naropa, o principal professor de Marpa, a figura principal da linhagem Kagyu. Naropa foi um dos grandes eruditos da instituição Nalanda. Depois, ele praticou Tantrayana vestido como um mendigo ou sadhu. Naropa tinha o potencial para praticar essas coisas porque ele tinha estudado todos os importantes textos disponíveis na tradição Nalanda. Mas agora alguns dos praticantes no ocidente – e também entre os tibetanos e os Ladakhis – sem conhecer a fundação do Buda-dharma, eles fazem qualquer coisa que o lama disser. Mesmo se o lama disser “ocidente é oriente”, ele ou ela acreditam: “ah, é o oriente.”. Isso vai contra a tradição Nalanda.

É claro que a pessoa que estiver totalmente qualificada no conhecimento básico sobre o budismo será diferente de um lama que apenas senta em um trono elevado – como eu, sentado em um trono elevado – mas cuja experiência real é muito limitada. Talvez pareça que tenho um pouco de ciúmes desses lamas! Mas de acordo com a minha experiência, eu penso que eles não têm um conhecimento adequado e pleno, e eles apenas enfatizam os galhos. Isso cria muitos mal-entendidos. É importante entender isso.

Adaptando o Budismo ao Ocidente

A ideia de ter um budismo ocidental é totalmente correta, totalmente correta. Vocês sabem que o budismo se originou na Índia. Quando ele então chegou a diferentes lugares, ele se mesclou às tradições locais e se tornou o budismo tibetano, chinês, japonês: foi simplesmente assim.

Alguns dos instrumentos musicais que nossos monastérios tibetanos usam não provêm da tradição Nalanda, mas do lado chinês. Há um instrumento chamado gyaling (rgya-gling) [a charamela ou oboé tibetano], que literalmente quer dizer “flauta chinesa”. E em alguns desses monastérios, as pessoas que os tocam também se vestem como chineses. Isso é uma besteira, não é? Isso não faz parte do budismo; isso é apenas um aspecto cultural. Da mesma forma, na comunidade do budismo ocidental, você pode usar instrumentos modernos e rezar escutando uma canção ocidental. Tudo bem. Não há problema.

Porém, no que diz respeito às ideias das quatro nobres verdades, do altruísmo e tudo isso: veja bem, o budismo lida com emoções, e as emoções humanas hoje em dia são as mesmas que as emoções de 2600 anos atrás. Acho que as emoções das pessoas foram as mesmas pelos últimos três ou quatro mil anos e permanecerão as mesmas por alguns milhares de anos. Depois de dez ou vinte mil anos, algum novo tipo de cérebro terá se desenvolvido e talvez então as coisas sejam um pouco diferentes. Mas isso é pensar muito longe. Não há necessidade de modificar os ensinamentos durante a nossa geração, a próxima ou a terceira depois dessa – é o mesmo cérebro humano e são as mesmas emoções humanas. Você pode perguntar os cientistas a esse respeito, aos especialistas do cérebro, e eles dirão: “Ah, será o mesmo cérebro pelos menos por alguns séculos por vir. Não haverá mudança nisso.” Simples assim. Assim sendo, o ensinamento budista básico tem que ser autêntico.

Uma vez na França eu mencionei a Nova Era. Você pega algo daqui, algo dali, e o resultado final não é autêntico. Isso não é bom. Acho que temos que manter a real tradição Nalanda. Isso é muito importante. Mas aspectos culturais podem mudar.

O Problema de Mal-entendidos em Relação aos Ensinamentos Mais Avançados

Agora tenho algumas críticas construtivas a fazer. No ocidente, eu encontrei algumas pessoas que apenas sabem um pouco, mas que sentem: “Ah, eu tenho pleno conhecimento!” Então, por causa de seu conhecimento limitado e seus conceitos errôneos, eles inventam ensinamentos. É claro que isto também é possível entre tibetanos, especialmente para aqueles que não estudam esses grandes textos filosóficos.

Há um exemplo que eu posso compartilhar com vocês. Eu visitei São Francisco imediatamente depois de um grande terremoto. O meu motorista naquele tempo não era do Departamento do Estado . Tratava-se de um carro privado e o motorista era um dos membros do centro do Dharma que praticava dzogchen. Por acaso, eu lhe perguntei: “o que você sentiu no momento do terremoto?” E ele disse “ Ah, foi uma grande oportunidade de praticar dzogchen, pois foi um grande choque, um grande choque"

Mas estar em um estado de choque sem pensamentos – se ele sentiu que era uma prática de dzogchen genuína, então eu penso que seria muito fácil: ter o choque e praticar dzogchen! Dzogchen não é tão fácil. Eu pratiquei dzogchen. Ah, é muito difícil, muito difícil.

Há um provérbio que diz: “Um pouquinho de conhecimento é uma coisa perigosa.” Há um pouco de verdade nisso, então tenham cuidado. Estudem. E não confiem nas instruções do lama; confiem nos livros autênticos. Isso é importante. Não confiem na minha palavra. Estudem esses textos autênticos escritos por Nagarjuna, Aryadeva, todos esses mestres budistas. Os ensinamentos foram testados por séculos por esses eruditos. Arya Asanga escreveu e debateu com outros filósofos. Por exemplo, alguns dos escritos de Nagarjuna foram ligeiramente criticados por Arya Asanga. Depois, outro mestre analisou o trabalho de Arya Asanga e o criticou. Esses grandes textos, escritos por esses mestres, foram testados e experimentados durante séculos. Ou seja, são realmente confiáveis.

Há também as “doha”, as canções espirituais [as canções espirituais espontâneas dos mestres realizados]. Esses praticantes muito peculiares, como Naropa ou Tilopa, estudaram meticulosamente as tradições Nalanda. Então, através da prática, eles abdicaram da vida mundana, incluindo a vida monástica, e viveram como mendigos e iogues. Depois disso, através de suas próprias experiências, eles compuseram poemas que falavam com palavras simples do profundo entendimento que tinham. Então, há um perigo de entendê-los de forma errônea se uma pessoa apenas conhecer a tradição básica [sem estudar mais que isso].

A tradição Nalanda descreve um sistema de nove yanas [veículos]. Os primeiros três yanas – o shravaka-yana, pratyekabuddha-yana, e bodhisattva-yana [os veículos dos três sutras] – são baseados principalmente no entendimento das quatro nobres verdades. Depois, os próximos três yanas – kriya, upa, e yoga [veículos relativos às três classes externas de tantra] – enfatizam a prática de aprimoramento. E então os últimos três yanas – maha, anu, and ati [veículos relativos às três classes internas de tantra] – enfatizam as práticas de controlar a própria mente.

O real significado por detrás desses últimos três yanas é permitir que as emoções se desenvolvam e, então, ao invés de ser aprisionada pela emoção, a mente principal é capaz de olhar para a natureza absoluta da emoção. Esta é a clara luz. Assim, nesses três últimos yanas, as emoções destrutivas não são algo que você tem que superar, mas você olha para a natureza dessas emoções destrutivas e vê a realidade. Isso é a base de uma experiência mais profunda, e é uma forma de prática muito diferente daquela dos estágios anteriores. Assim sendo, alguns dos ensinamentos de praticantes de alto nível que já passaram por esses estágios são difíceis de praticar em nosso nível. Esses nove estágios não são fáceis.

Deveríamos Agir em Nome da Humanidade ou em Nome do Budismo?

Recentemente, eu estava em Patna, no estado de Bihar. Eles fizeram uma grande construção de um vihara budista, um templo budista. Eles adquiriram algumas relíquias de diferentes países budistas, e eu também ofereci algumas relíquias. Então, o ministro-chefe mencionou que, graças às bênçãos do Buda, o estado do Bihar progredirá rapidamente. Então, eu disse a ele – porque eu o conheço, trata-se de um amigo próximo – “se as bênçãos do Buda pudessem ajudar a desenvolver o estado do Bihar, ele teria se desenvolvido bem antes, pois as bênçãos do Buda já estavam lá. Até que chegue um ministro-chefe efetivo, o desenvolvimento não acontecerá. As bênçãos do Buda têm que vir através da ação humana.”

A oração não tem um efeito real, embora seja algo muito bom, mas fazer algo é diferente, não é? Efeitos reais requerem ações. Por isso, o budismo diz “karma, karma”. A palavra karma envolve “ação”. Então temos que ser ativos.

Ações deveriam ser realizadas com a seguinte crença: “Sou um de quase sete bilhões de seres humanos. Tenho a responsabilidade de levar a sério a preocupação sobre o bem-estar de quase sete bilhões de seres humanos.” Simples assim. Quando oferecemos uma oração budista, sempre dizemos que é para todos os seres sencientes. Nenhum budista diz orações apenas para tibetanos. Nunca reze desta forma. Ou apenas para este mundo – há infinitos mundos, infinitos seres sencientes. E temos que implementar isso, caso contrário, nossa oração se tornaria hipocrisia. Orar baseado em um grande conceito de “nós”, mas ter nosso karma real, nossas “ações” reais – baseadas em um forte sentimento de “nós” e “eles”, isso é hipocrisia.

Ou seja, será que nossas ações deveriam ser realizadas em nome da humanidade ou em nome do budismo? Se você tentar promover valores humanos básicos baseado nos ensinamentos budistas, então sua ação será restrita e não poderá ser universal. A tradição de mil anos da Índia envolvia pluralismo de todas as religiões, e era secular – sem preferência por nenhuma religião em particular e com respeito por todas as religiões. Além das religiões nacionais, todas as maiores religiões do mundo acabaram se estabelecendo na Índia. Pelos últimos dois mil anos, pelo menos, as maiores religiões do mundo viveram juntas neste país. Naturalmente, por causa desta realidade, elas desenvolveram uma ética secular. Isso é muito bom. Há tantas religiões que não podemos colocar muita ênfase na fé religiosa. Portanto, o único caminho prático e realista é não tocar no tema religião – simplesmente limitar-se à ética secular.

Eu sou um budista completamente comprometido. Se alguém demonstra interesse no budismo, às vezes eu me sinto contente com isso; mas eu nunca tento propagar o budismo. A fé religiosa é um assunto pessoal. A ética secular é assunto de todos os seres humanos. Nós, a comunidade budista – além de nossa prática diária como budistas – deveria seguir mais esta linha de pensamento.

Eu realmente aprecio o trabalho de nossos irmãos e irmãs cristãos. Penso que eles fizeram uma grande contribuição para a educação em todo o planeta. Você não vê nenhuma outra religião fazendo isso. Recentemente, na Índia, o movimento Ramakrishna está fazendo algo [na área de educação em massa], mas todos os outros grupos religiosos permanecem em seus templos e coletam dinheiro. Vejam bem, temos que ser ativos ao promover uma sociedade melhor, mais saudável. Neste nível, penso que nosso irmãos e irmãs cristãos fizeram um tremendo serviço aos seres humanos. Porém, no meio tempo, eles também fazem um trabalho missionário de conversão, e isso é complicado.

Uma vez, em Salk Lake City, os mórmons me convidaram para a sede de sua igreja. Eu encontrei seus líderes e mais tarde dei uma palestra ali. Eu mencionei que, quando trabalhadores missionários vão para áreas nas quais não há uma tradição religiosa sólida, é bom converter as pessoas nesses locais ao cristianismo. Se não há filosofia sólida em algum lugar ainda, isso é muito bom. Mas em áreas que já têm crenças sólidas, a conversão cria conflitos e dificuldades.

Às vezes, os mórmons oferecem dinheiro quando realizam suas conversões. A cada conversão, eles oferecem quinze dólares. Os mongolanos são bem espertos em relação a isso: eles se convertem uma vez por ano, e assim a cada ano eles recebem quinze dólares!