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A Ciência, a Psicologia e a Religião Budistas

Alexander Berzin
Sofia, Bulgária, 2012
Tradução de Antonella Yllana

Estou muito feliz de estar com vocês hoje à noite. Pediram que hoje eu falasse sobre “Por que o Budismo?”. É claro que se trata de uma questão válida, especialmente no ocidente, onde temos as nossas próprias religiões, então por que precisamos do budismo?

Eu acho que é muito importante compreender que quando falamos sobre budismo, há muitos diferentes aspectos nisso. Há aquilo que pode ser chamado de ciência budista, psicologia budista, e religião budista:

  • Quando falamos sobre ciência budista, isso se refere a coisas como a lógica, como sabemos das coisas e, basicamente, a visão da realidade – como surgiu o universo, etc., este tipo de coisas – a relação entre a mente e a matéria. Tudo isso lida com tópicos específicos, e o budismo tem muito a oferecer nessas áreas.
  • Depois, a psicologia budista lida com vários estados emocionais, especialmente as emoções perturbadoras que nos causam muita infelicidade (raiva, ciúme, cobiça, etc.). E o budismo é muito rico em métodos para como lidar com os problemas que vêm dessas emoções perturbadoras.
  • Por outro lado, a religião budista lida com vários aspectos rituais, orações; lida com tópicos como o renascimento. E esta também é uma área muito rica. Então, quando perguntamos, “por que o budismo? Qual a necessidade que temos do budismo no mundo ocidental e contemporâneo?”, então, eu acho temos que olhar especificamente para a ciência budista e a psicologia budista. Se as pessoas estiverem interessadas nos aspectos mais religiosos do budismo, isso é muito bom; sem problemas. Mas, em geral, não é muito fácil, se você foi criado em uma religião, mudar para outra religião, e para a maioria das pessoas isso cria conflitos dentro delas, conflitos de lealdade, e particularmente isso pode causar problemas na hora da morte – a pessoa fica muito confusa em relação a em que realmente deve acreditar. Então, temos que ter muito cuidado em relação a ser pessoas ocidentais que cresceram em tradições ocidentais e se voltam para os aspectos religiosos do budismo, pois há problemas adicionais que podem surgir nisso, como a superstição e a expectativa de milagres nos rituais budistas. Então, é muito melhor, bem mais recomendável, pelo menos no início, focar na ciência budista e na psicologia budista. Essas são áreas que podem ser integradas muito bem em nossas tradições ocidentais sem conflito. Então, olhemos para alguns desses aspectos da ciência e da psicologia budistas.

A Ciência Budista

Lógica

A lógica é uma parte muito importante do treinamento budista, e a forma como ela é estudada é em termos de debates. Então, qual o propósito do debate? O propósito do debate é não ganhar do seu oponente, nem provar que seu oponente está errado. Ao invés disso, o debate tem a ver com o fato de que há um proponente, e ele afirma uma certa posição ou um entendimento de um dos ensinamentos budistas, e a outra pessoa desafia este entendimento e tenta testá-lo para ver o quão consistente ele é em seu entendimento. Então, se você acredita nisso ou naquilo, é lógico que outra coisa decorrerá disso. E se aquilo que decorre disso não fizer sentido, não fizer nenhum sentido, então há algo de errado com seu entendimento. Então, isso é muito importante, pois se vamos tentar entender algo profundamente em relação aos fatores básicos da realidade, digamos, como a impermanência, então devemos – e isso é chamado de meditação – pensar profundamente sobre isso e tornar isso uma parte da forma como vemos o mundo.

Tudo está mudando de um momento para outro momento e outro momento, e isso é algo que é importante entender em termos de nossa paz mental geral. Por exemplo, você compra um novo computador, eventualmente ele quebra, e você fica bem chateado com isso: “Por que ele tinha que quebrar?” e assim por diante. Mas se você pensar sobre isso de forma lógica, a razão pela qual ele quebrou é, primeiramente, que ele foi fabricado. O fato de que ele foi feito de tantas diferentes partes e tantas diferentes coisas que estão interconectadas, faz com que seja muito instável, e claro que em algum momento ele quebrará.

Mesmo se encontrarmos alguém e desenvolvermos uma forte amizade ou até mesmo uma relação amorosa, eventualmente ela terminará. Então, por que terminou? Por que nos separamos? Nós nos separamos porque nos encontramos. Cada momento depois que nos encontramos, as circunstâncias e as condições mudaram na vida desta pessoa e na minha vida. As circunstâncias que levaram ao início de nossa amizade não mais estão presentes, e a amizade depende de todas essas condições. Assim sendo, quando ela acaba – bem, é claro que acabará, porque as condições que davam suporte a isso mudaram. Então, o evento final que parece ter causado a separação – digamos, uma briga – apenas é a condição para a amizade acabar. Se não fosse essa condição, teria sido alguma outra coisa. Mas a real causa da relação acabar é por ela ter começado.

Então, a mesma coisa ocorre em termos de nossas vidas (esta é a atitude budista em relação à morte): Qual a razão de termos morrido? A razão é termos nascido. A doença ou o acidente foi apenas a circunstância da morte. Então, se você nasceu, você morrerá. Simples assim. Essa é a realidade. Esses são os aspectos da ciência budista, e isto é lógico. Assim, em um debate, a outra pessoa testaria a sua compreensão disso e tentaria achar lacunas no seu argumento:

  • "Bem, você poderia dizer, ‘se eu não comesse isso ou não fosse para tal lugar, eu não teria morrido.’”
  • Enquanto a outra pessoa diria, “Sim, mas haveria outras circunstâncias. Por você ter nascido, você morrerá.”

Então, assim, através da lógica, através do debate, a pessoa chega a uma compreensão definitiva, sem nenhuma indecisão (“é assim, ou é assado?”). Desta forma, a nossa compreensão se torna muito firme, muito estável. E se estivermos fazendo meditação após termos feito isso ou qualquer que seja a prática que fizermos, ela se tornará muito mais efetiva. Então, este tipo de discussão, debate, lógica, é uma grande ajuda para qualquer pessoa em qualquer situação. Muitas vezes, pensamos de formas que são muito pouco claras; não pensamos nas consequências de nossas ações ou de nossa forma de pensar. Então, se pudermos aprender a pensar de forma lógica, teremos bem menos problemas em nossas vidas.

Este é um aspecto da ciência budista.

Realidade

Em termos de realidade, um ponto que já discutimos tem a ver com a impermanência. Tudo muda de um momento para o outro momento e para o próximo momento e se aproxima a cada momento de seu fim. Isso é verdade em relação à nossa idade. Podemos pensar, “ah, a cada dia estou envelhecendo”, e pensar, “tudo bem”, mas quantos de nós pensam todos os dias que: “eu estou me aproximando de minha morte. Esta é a realidade.”? Mas se estivermos conscientes disso, que a cada dia estamos nos aproximando de nossa morte e que ela pode ocorrer a qualquer momento, o que é verdade, então não desperdiçaremos o nosso tempo. Não deixaremos as coisas para amanhã, amanhã, amanhã, mas usaremos as nossas vidas da forma mais significativa que pudermos. E o que é mais significativo é tentar beneficiar aos outros. Então, esta é a realidade. E é muito útil pensar, “Se este for o meu último dia, o que eu gostaria de fazer neste último dia? Como eu o usaria de uma forma significativa?” Pois nunca sabemos quando será o nosso último dia. Podemos ser atropelados por um carro quando sairmos desta sala. Não pensamos nisso para ficarmos deprimidos, mas para que façamos um uso muito mais significativo de nosso tempo.

Vamos tomar outro exemplo em termos de realidade. Imagine que está em um elevador com dez outras pessoas, e o elevador entra em pane. Há um apagão e você está preso neste elevador com essas dez outras pessoas por um dia inteiro. Como vocês lidariam uns com os outros? Se vocês começarem a brigar, a discutir, e assim por diante, será como um inferno dentro deste elevador. A única maneira de sobreviver é se todos forem úteis, amigáveis e gentis uns com os outros, pois vocês estão todos presos juntos neste elevador, todos presos na mesma situação. Isso é lógico. Isto é sensato, não é? Então, podemos estender isso ao planeta como um todo: o planeta inteiro é como um grande elevador, e estamos todos presos juntos neste planeta. Se discutirmos e brigarmos uns com os outros, a coisa ficará absolutamente miserável para todos. Então, a única forma de sobrevivermos é se todos formos amigáveis e gentis e úteis uns para com os outros, pois estamos todos juntos aqui e estamos todos na mesma situação. Respiramos o mesmo ar; compartilhamos o mesmo oceano, a água, a terra. Estamos todos no mesmo elevador. Assim são as coisas. Esta é a realidade, juntamente com a lógica.

Também temos muitas fantasias e projeções. Imaginamos que nós, os outros e o mundo existimos de todas possíveis maneiras. Nós projetamos isso e parece que é assim que as coisas existem, mas isso não corresponde à realidade; é apenas a nossa fantasia, a nossa projeção.

Por exemplo, eu talvez pense que posso agir de certa forma e isso não terá quaisquer consequências. Então, “posso não ter uma boa educação, ser preguiçoso, e de alguma forma isso não terá efeito em minha vida; ainda assim terei sucesso.” Ou “posso chegar atrasado, dizer coisas cruéis para você, e isso não terá consequências.” Muitas pessoas pensam que as outras pessoas não realmente têm sentimentos. Elas nunca pensam que aquilo que dizem pode machucar a outra pessoa. Então “posso chegar atrasado, não faz mal.” Bem, essa não é a realidade. Esta é uma projeção ou fantasia sobre a causa e o efeito. Mas a realidade é que todos têm sentimentos, como eu, e aquilo que eu digo e como eu ajo com você afetará seus sentimentos, da mesma forma que a maneira que você me trata e fala comigo afeta meus sentimentos. Então, esta é a realidade, não é? Quanto mais entenderemos isso e ficarmos conscientes disso, mais atenciosos seremos com os outros. Nós nos importamos como os afetamos, e modificamos o nosso comportamento de acordo com isso.

Ou eu posso imaginar que existo independentemente de todos os outros. Esta não é a realidade, ou é? Se eu pensasse assim, então eu pensaria “as coisas sempre deveriam ser como eu penso. Sou mais importante. Então, eu sempre deveria ser servido antes de todos os outros no restaurante.” E se não for feito da minha maneira, eu fico muito chateado, com muita raiva. Mas é claro que o problema é que todos os outros pensam que são a pessoa mais importante e ninguém concordará que nós somos mais importantes. Então, esta é a nossa projeção. Esta é a nossa fantasia. Não é a realidade. Ninguém é o centro do universo. Ninguém é mais importante. Somos todos iguais no sentido de que todos querem ser amados, ninguém quer ser desprezado. Todos aqueles que estão esperando no restaurante querem comer, não apenas eu. Todos esperando no consultório médico querem ser atendidos, não apenas eu. Então somos todos iguais. Isso, novamente, é a realidade.

A Ciência Budista e a Ciência Ocidental

Isto é parte da ciência budista, entender a realidade e modificar o nosso comportamento de acordo com ela. É claro que há outros aspectos dos ensinamentos sobre a realidade. E é muito interessante como os cientistas ocidentais estão começando a descobrir que muitas das afirmações feitas pela ciência budista são corretas – diferentes formas de olhar para as coisas que eles não tinham considerado antes.

Por exemplo, temos na ciência ocidental a lei da conservação de matéria e energia: a matéria e a energia não podem nem ser criadas nem destruídas, apenas transformadas. Se pensarmos nesses termos, a conclusão lógica é que não há início nem fim. Então, quando pensamos em termos do Big Bang, então talvez pensemos que o Big Bang veio do nada – começou do nada – mas o ponto de vista budista é que havia algo antes do Big Bang. O budismo não tem problemas com o Big Bang como sendo o começo deste universo em particular, mas houve incontáveis universos antes e haverá incontáveis universos depois. E a ciência ocidental está lentamente começando a também pensar nesses termos. Também é lógico de um ponto de vista científico básico ocidental. Então, aqui chegamos à lógica. Se você acredita que a matéria e a energia não podem ser nem criadas nem destruídas, mas apenas transformadas, então é totalmente inconsistente afirmar, “mas tudo começou com o Big Bang.” Então, este é um exemplo claro da aplicação desta lógica budista e do debate com as afirmações que achamos na ciência ocidental.

Uma das principais afirmações na ciência budista é a relação entre a mente e a matéria. A mente e a matéria estão inter-relacionadas. Não se pode reduzir a mente apenas ao cérebro e algum processo químico. Veja, o problema é que quando você usa a palavra mente você tende a pensar que se trata de algum tipo de coisa, mas este não é o conceito budista. O conceito budista fala sobre a atividade mental. E a atividade mental – que significa saber coisas – podemos descrevê-la com algum processo químico ou elétrico no cérebro, mas também podemos descrevê-la de um ponto de vista da experiência, e é este ponto de vista da experiência do qual falamos quando mencionamos a mente.

E os cientistas médicos estão descobrindo que aquilo que o budismo diz é verdade, que o nosso estado mental, a qualidade de nossa experiência de vida, afeta a nossa saúde física. Então, se tivermos paz mental, calma interna... Isso significa estar livre de sempre se preocupar e reclamar e pensar de uma forma muito negativa e pessimista. Se pensarmos de formas negativas, isso é prejudicial à saúde. Mas se formos otimistas, gentis, pensarmos nos outros, se formos amigáveis e calmos – isso fortalecerá o sistema imunitário e conduzirá a uma saúde melhor. Então, a medicina, em vários centros espalhados pelo mundo, está pesquisando sobre isso, e estão descobrindo que aquilo que o budismo diz é verdade, que o nosso estado mental afeta o corpo, ou seja, afeta a matéria. E temos muitos programas agora no ocidente usando aquilo que é chamado de meditação da “consciência plena” para o controle da dor e para ajudar as pessoas que têm que lidar com estresse, dor, e situações difíceis. Isso está basicamente focado na respiração, que nos mantém calmos. Ela nos conecta com a terra, de certa forma, a um elemento físico, para que não fiquemos chateados pensando, “eu, eu, eu, e a minha dor e a minha preocupação” e “estou tão chateado”. Então isso acalma e é uma grande ajuda para o gerenciamento da dor. Então, com certeza, não temos que seguir a religião budista para nos beneficiar de tais métodos.

Esta é a ciência budista.

Psicologia Budista

Agora, a psicologia budista, lida com como sabemos das coisas; em outras palavras, a ciência cognitiva (a diferença entre a psicologia e a ciência não é tão rigorosa). Então, temos o estudo das formas de saber – como sabemos das coisas? – e também temos como lidamos com problemas emocionais. Essas são as duas áreas da psicologia budista.

Formas de Saber as Coisas

O que é muito importante é ser capaz de reconhecer qual é a diferença entre formas válidas de compreender e formas inválidas de entender ou saber coisas. O budismo tem muito a dizer sobre isso. Uma forma válida de saber algo está definida como uma forma de saber que é tanto exata quando decisiva. Exata quer dizer que ela é correta – ela corresponde à realidade; pode ser validada pelos outros. E decisivo quer dizer que temos certeza; é definitivo para nós. Não é o seguinte estado mental: “Bem, talvez seja assim, ou talvez seja assado, mas eu não realmente sei.”

Então, quais são as formas válidas de saber das coisas? Aquilo que é conhecido pode ser uma simples percepção. Trata-se de ver, escutar, cheirar, degustar, e sentir as sensações físicas (e também podemos ter isso em sonhos, então será mental). Então, quando vemos alguém, isso precisa ser válido. Não é sempre válido: “Eu pensei ter visto algo ali, mas não tenho certeza.” “Eu vi você na multidão, mas eu não tenho certeza. Eu pensei ter visto você, mas na verdade era outra pessoa.” Isso não é válido, não é mesmo? Não é exato e decisivo.

E pode haver muitas causas de distorção. Como quando eu tiro os meus óculos e tudo fica embaçado à minha frente. Mas você não é embaçado, ou é? Há algo de errado com meus olhos, e por isso a imagem está distorcida. Se eu perguntar a alguém, “Você está vendo algo embaçado ali na frente?” as pessoas dirão não, então eu saberei que isso está errado.

Então temos a percepção simples, e aqui estamos falando sobre a percepção exata, decisiva.

E também é válida a compreensão inferencial. No entanto, ela tem que ser válida, não incorreta. A inferência. O raciocínio. “Onde há fumaça há fogo.” é o exemplo clássico. Você vê fumaça saindo de uma chaminé lá longe na montanha. Então temos uma percepção válida – vemos a fumaça – e podemos inferir que há um fogo (não realmente vemos o fogo). Onde há fumaça, tem que haver fogo. Então, isso é válido.

Mas há certas coisas que não podemos saber pela lógica, como o nome da pessoa que vive naquela casa, e para isso você precisa de uma fonte válida de informação. Este também é um tipo de inferência – que esta pessoa é uma fonte válida de informação, portanto, o que ela diz é verdade. O melhor exemplo para isso é: “Quando é o meu aniversário?” Não há forma de saber sozinhos quando é nosso aniversário. A única forma de saber o nosso aniversário é perguntando à nossa mãe e consultando os registros, isto é, uma fonte válida de informação. Há muitas formas de inferência. Há uma inferência baseada em convenções conhecidas: você escuta um som. Como você sabe que se trata de uma palavra? E como você sabe qual o significado dela? Este é um processo bastante incrível se você pensar sobre ele. Estamos basicamente apenas escutando sons, mas por termos aprendido certas convenções, nós inferimos que quando escutamos este som trata-se de uma palavra, e inferimos que ela tem um certo sentido. É claro que temos que checar, porque às vezes pensamos que uma pessoa quer dizer uma coisa quando diz algo quando na verdade quer dizer algo de completamente diferente.

Então, isto é aquilo de que estamos falando quando falamos sobre este aspecto da psicologia budista, a ciência cognitiva. Temos que checar. “Eu infiro daquilo que você disse que é isso que você quer dizer, mas será que isso é correto ou não?” Muitas vezes nós entendemos errado o que a outra pessoa está querendo dizer, não é? Alguém diz, “eu amo você”, e poderíamos pensar que isso significa que a pessoa está interessada sexualmente em nós, enquanto isso não é absolutamente o que a pessoa está querendo dizer. Muitos equívocos podem vir por causa desta inferência incorreta.

Então, se for uma inferência válida, ela é exata e decisiva.

Presumir é inválido. “Eu presumo que você quis dizer isso, mas não tenho certeza.” Presumir é basicamente como supor. “Eu acho que é isso que você quer dizer.” Poderia estar certo, ou errado, mas não há certeza. “Eu penso que é isso que você quer dizer.” Isso é uma presunção. Mas não temos certeza.

Depois, há uma maneira indecisa de vacilar: “Você quer dizer isso, ou aquilo?” Ficamos indo e voltando.

E há a cognição distorcida, quando pensamos algo que está completamente incorreto. Não é absolutamente o que a outra pessoa quis dizer.

Então, é assim que funciona a cognição, e o budismo fala muito sobre isso. É muito, muito útil para a nossa compreensão, de onde quer que venhamos, nos perguntarmos, “Será que a minha forma de saber disso é correta ou incorreta?” Se eu ainda não tiver certeza, então preciso reconhecer isso e tentar corrigir isso, tentar descobrir novamente o que é a realidade. Isso é útil para todo mundo. A religião e os rituais budistas não são necessários para isso.

As Emoções Perturbadoras

Então, o outro principal assunto na psicologia budista tem a ver com emoções. Temos tanto emoções positivas quanto negativas. As negativas são as emoções perturbadoras; elas perturbam a nossa paz mental. Estamos falando de coisas como raiva. A definição diz que isso é um estado mental que, quando surge, ele nos leva a perder a nossa paz mental – então, ficamos um pouco chateados, um pouco nervosos – e isso nos leva a perder o nosso autocontrole. Então, quando ficamos com raiva, a nossa energia – podemos sentir isso, fica perturbada. E dizemos e fazemos coisas das quais talvez nos arrependeremos mais tarde. Apenas agimos de forma compulsiva.

Ouvimos falar muito no budismo sobre karma. O karma fala deste aspecto compulsivo de nosso comportamento baseado no hábito prévio. Assim, quando temos um grande apego ou desejo ou cobiça, novamente não estamos calmos – ficamos chateados porque queremos ter algo – e não temos autocontrole, como com aquele chocolate que eu simplesmente tenho que comer.

Assim são as emoções perturbadoras. Por outro lado, há aquelas que são positivas. O budismo não está dizendo que você deve se livrar de todas as suas emoções. Há coisas como o amor, que é o desejo de que os outros sejam felizes e tenhas as causas da felicidade, independentemente daquilo que fizerem, independentemente de como me tratarem ou aos meus entes queridos. E há a compaixão, o desejo de que os outros sejam livres de sofrimentos e das causas do sofrimento. Há a paciência. Há o respeito. Então, há também muitas emoções positivas. Precisamos aprender a ser capazes de diferenciar entre aquilo que é construtivo e aquilo que é destrutivo em nossas emoções e nossa forma de agir. E o budismo é muito rico em nos ensinar não apenas sobre todos esses diferentes estados emocionais para que possamos reconhecê-los, mas também tem riqueza em métodos para nos ajudar a nos livrar desses estados mentais perturbadores.

Então, vocês se lembram de que estávamos falando sobre equívocos, sobre projeções daquilo que simplesmente não é real? Uma das projeções mais proeminentes é sobre como nós existimos. Como eu estava dizendo, em um estilo muito simples, pensamos que somos mais importantes, que existimos de forma sólida e sozinhos, e as coisas sempre deveriam ser à nossa maneira, e todos deveriam gostar de nós. O que é muito interessante é pensar em termos de: “Não todos gostavam do Buda, então por que eu deveria esperar que todos gostem de mim?” É muito útil lembrar-se desta afirmação.

Assim sendo, pensamos em termos de: “Sou esta coisa sólida sentada dentro da minha cabeça, o autor da voz contínua em minha cabeça que se preocupa com o que eu devo fazer? O que as pessoas pensam de mim?” Como se houvesse um pequeno eu sentado na cabeça vendo toda a informação aparecendo em uma tela com autofalantes nos sentidos, pressionando os botões que fazem o corpo se mover ou a fala funcionar: “Agora farei isso. Agora direi aquilo.” Então, este é um equívoco perturbador a nosso respeito. Como sabemos que é perturbador? Pois todos nos sentimos inseguros. Pensando assim, há insegurança e preocupação em relação a mim mesmo. “O que as pessoas pensam sobre mim?”, etc, etc.

Então, o que ocorre é que temos essas projeções não apenas sobre nós mesmos, mas também sobre tudo ao nosso redor. Vemos vários objetos, e exageramos em relação às boas qualidades que eles possuem. Projetamos até mesmo boas qualidades que eles não têm. Como quando nos apaixonamos por alguém. “É a pessoa mais maravilhosa do mundo.” Totalmente ignoramos quaisquer defeitos que ela talvez tenha. “É a pessoa mais bonita e desejável que eu já vi.” Se não conseguirmos ter esta pessoa, sentimos um ardente desejo: “Tenho que conseguir que esta pessoa seja minha parceira, minha amiga.” E se a tivermos como amiga, teremos apego (não queremos soltar a pessoa) e cobiça (queremos mais e mais de seu tempo).

Então, este é um estado mental perturbador, não é? Temos que ver a realidade: todos têm pontos fortes e fracos. Muitas vezes pensamos, e isso é completamente irreal, que: “Sou mais importante. Sou a única pessoa na sua vida. Você deveria me dar todo o seu tempo.” E esquecemos completamente que a pessoa tem outras pessoas em suas vidas, outras coisas com as quais está envolvida, não apenas nós. Então, ficamos com raiva. Nos sentimos inseguros. Se ela não nos ligar, exageramos a qualidade negativa disso, e não queremos ver nenhuma das qualidades positivas de nossa relação com esta pessoa. Ficamos com raiva; queremos afastar isso de nós, então gritamos com a pessoa, “por que você não me ligou? Por que não veio?” Então, isto está baseado na existência do pequeno eu, que as coisas sempre deveriam ser à minha maneira, eu deveria ser mais importante, e a irrealidade de que eu deveria ser único na vida desta pessoa.

O budismo oferece uma análise muito clara daquilo que nos chateia, do que é incorreto, nesta forma de pensar e sentir. Porque, veja bem, as nossas mentes fazem com que as coisas aparentem assim, e o problema é que acreditamos que isso corresponde à realidade. Então, temos todos esses métodos para, de certa forma, estourar o balão de nossa fantasia. Pode parecer que eu sou a única pessoa que existe, pois ao fechar os olhos eu não vejo ninguém além de mim e há ainda a voz em minha cabeça. Mas isso é besteira. Não é a realidade. Não corresponde à realidade. Você não para de existir quando eu fecho meus olhos. Então, esta é a psicologia budista básica.

Desenvolvendo Amor e Compaixão

Ou em termos de amor e compaixão. Temos muitos métodos para desenvolver o que é ensinado no budismo, e qualquer pessoa pode se beneficiar deles (novamente sem seguir os aspectos religiosos do budismo). O amor e a compaixão são baseados no fato de que todos são iguais: todos querem ser felizes; ninguém que ser infeliz. Todos gostam de ser felizes. Somos todos iguais.

Estamos todos interconectados. A minha vida inteira depende da gentileza e do trabalho alheio. Podemos pensar em todas as pessoas envolvidas em plantar a comida que comemos, transportá-la, trazê-la para as lojas. Depois, há as pessoas que constroem as estradas e as pessoas que constroem os caminhões que carregam a comida. E de onde veio o metal? Alguém tem que minerar o metal para fazer os caminhões. E a borracha para os pneus? De onde veio ela? Tantas pessoas envolvidas nessa indústria também. E o petróleo, e os dinossauros, e assim por diante, cujos corpos se decompuseram e fizeram este petróleo? Então, se pensarmos assim, veremos que somos totalmente interconectados e dependentes de todas as outras pessoas. E isso se torna até mesmo mais evidente em termos da nossa economia global.

Então, baseados na compreensão da igualdade de todos e da nossa interdependência com todos, pensamos em termos de “quaisquer que sejam os problemas, eles têm que ser solucionados.” Pois, como disse o grande mestre budista indiano: “os problemas e o sofrimento não têm um proprietário; o sofrimento tem que ser removido, não porque se trata de meu ou seu sofrimento – ele tem que ser removido simplesmente porque ele machuca.” Então, quando há um problema com o meio ambiente, digamos, não se trata apenas de meu ou se problema; é o problemas de todos. Não há um proprietário para o problema. Ele tem que ser solucionado, pois é um problema, simplesmente porque é um problema e causa transtorno para todos.

Então, assim nós desenvolvemos o amor e a compaixão em um método que não tem nada a ver com religião, mas é totalmente baseado na lógica e na realidade.

A Religião Budista

Então, quando perguntamos, “por que o budismo?” esses são aspectos que tornam o budismo relevante para nós no mundo ocidental, os aspectos científicos e psicológicos. Para alguns poucos de nós ocidentais, pode ser que os aspectos religiosos do budismo pareçam benéficos – os rituais, os ensinamentos sobre renascimento, as orações, e assim por diante. Mas como eu disse, é muito importante examinar muito cuidadosamente qual a razão de nossa atração por isso. Trata-se apenas de uma fascinação para com algo exótico? Será que estamos procurando por alguma espécie de milagre? Será que estamos nos rebelando contra nossos pais e nossas tradições? Essas razões não são válidas, pois não duram; não são estáveis. Se nos sentirmos atraídos e acharmos que é benéfico para nós (isso me ajuda a ser uma pessoa mais gentil e compassiva), e isso complementa os aspectos científicos e psicológicos – e isso é muito importante, que isso precisa complementar a ciência e a psicologia, e não substituí-los – mas se os aspectos religiosos têm essas características para nós, então tudo bem.

Então, assim diferenciamos a ciência budista, a psicologia e a religião. Esta foi a minha apresentação. Talvez vocês tenham algumas perguntas. Perguntas?

Perguntas sobre a Mente e o Renascimento

Participante: Quando falamos sobre o renascimento, usamos a noção de uma mente. Como isso se sobrepõe à ideia de uma alma?

Alex: Quando falamos de renascimento, falamos sobre a mente. Como isso se sobrepõe à alma? Temos que entender o que queremos dizer com mente e o que queremos dizer com alma.

O renascimento fala da continuidade. Assim como a matéria e a energia não podem nem ser criadas nem destruídas, mas apenas transformadas, de forma semelhante, a nossa atividade mental individual e subjetiva não pode nem ser criada nem destruída. É ilógico que ela comece do nada. E se cada momento gera um próximo momento na continuidade, então é ilógico que simplesmente tenha um fim e se transforme em nada. É claro que sempre há um suporte físico para a atividade mental, mas pode ser uma energia muito, muito sutil; não tem que ser um corpo denso com um cérebro. Então, é isso que vai de uma vida para outra vida e outra vida, até o estado búdico, a continuidade da atividade mental subjetiva e individual, que pode ser muito sutil ou muito densa, ter muitos diferentes níveis, mas continua de um momento para outro momento e para outro momento, sem pausa.

Agora, quando falamos de alma, é claro que se trata de uma palavra ocidental. E em línguas diferentes – também línguas ocidentais – temos palavras para mente, temos palavras para espírito, temos palavras para a alma. Elas não correspondem umas às outras, e até mesmo em nossos idiomas ocidentais, as diferentes religiões definirão a alma de forma diferente em diferentes idiomas. Nas religiões ocidentais, há a relação entre a alma e Deus. E nas religiões da Índia temos atman, e novamente há diferentes ideias sobre atman. Então, é difícil apenas generalizar em termos da palavra alma.

Mas o que é bem mais fácil discutir sou eu, o conceito do eu – não o conceito do eu, mas o que é o eu? O eu ou o ego é algo que todos nós temos, mas projetamos nisso formas de existência que não correspondem à realidade. Como se houvesse algum tipo de eu sólido, como uma mala ou uma correia transportadora, que passa por nossa vida inteira e vai também rumo à nossa próxima vida. É muito interessante: você olha para uma foto de si mesmo como bebê, e diz, “esse sou eu”. O que é eu nesta foto? Todas as células do corpo mudaram. A forma de pensar, a forma de saber as coisas, tudo está completamente diferente de quando você era bebê. Ainda assim, nós dizemos, “esse sou eu.” Então, o que é o eu? O eu é uma palavra que rotula todos esses instantes mutantes de nossas vidas. E o eu não é nenhuma dessas fotos, mas a palavra eu se refere a algo baseado em todos esses diferentes momentos de minha vida, que está mudando de um momento para o outro momento e para o outro momento.

O exemplo que eu sempre uso é um filme, digamos “A Guerra nas Estrelas”. O que é a “Guerra nas Estrelas”? Nós dizemos, “eu assisti a ‘Guerra nas Estrelas’”, mas será que podemos ver o filme inteiro em apenas um momento? Não. Será que um momento específico do filme é a ‘Guerra nas Estrelas’? Bem, sim. É um momento do filme ‘Guerra nas Estrelas’. Então a ‘Guerra nas Estrelas’ não é o mesmo que cada momento do filme. A ‘Guerra nas Estrelas’ não é apenas o título ‘Guerra nas Estrelas’. O nome ‘Guerra nas Estrelas’ se refere a um filme – há um filme ‘Guerra nas Estrelas’, ele existe – mas você não pode achá-lo em nenhuma parte do filme, em nenhuma cena, mas ele existe como algo que muda de um momento para outro momento e outro momento.

Então, com o eu ou o ego também é assim. Há a palavra eu. Ela se refere a algo – estou sentado aqui; estou fazendo isso; estou falando com você. Porém isso não é idêntico à minha mente ou ao meu corpo ou a qualquer momento disso. No entanto, baseados na continuidade do corpo e da mente, podemos rotulá-lo de eu. Não é você. É algo que está mudando de um momento para outro, e não é nada de sólido. Então, você quer chamar isso de alma? Do que você quer chamar isso?

Mais perguntas?

Participante: Qual foi o termo que o Buda Shakyamuni usou em sânscrito ou pali sobre esta mesma coisa?

Alex: O termo que o Buda usou foi anata em pali ou anatman em sânscrito, que “não é a atman” da qual falam as outras escolas de filosofia indiana. As outras escolas de filosofia indiana afirmam que atman é algo de estático (nunca muda e não pode ser afetado por nada), indivisível (o que significa que ela ou é do tamanho do universo, é o mesmo que Brahma, o universo inteiro, ou que atman é uma minúscula faísca de vida) e que pode existir totalmente separada de um corpo e uma mente em estado de liberação.

Algumas filosofias indianas afirmam que este tipo de atman tem consciência. Trata-se da escola Samkhya. E a escola Nyaya diz que ela não tem consciência. Aquela que diz que ela tem consciência diz que ela apenas habita neste corpo e usa o cérebro. E aquela que diz que ela não tem consciência diz que ela entra no corpo e que a a consciência emerge da base física do corpo.

Então, o Buda refutou essas posições ao dizer que “não há atman”. Ele queria dizer que não há atman da forma que ela é definida e afirmada por essas escolas. Mas há um atman, há um ego, que existe de uma forma diferente – que é chamada de “ego convencional”, o “atman convencional”.

Mais alguma coisa?

Participante: Se alguém acredita em renascimento e diz que renascerá, qual a certeza que ele pode ter que todas as características e toda a informação armazenada em sua consciência irá para a próxima vida?

Alex: Antes de tudo, o budismo afirma que o renascimento não tem início – é sem início – o que quer dizer que temos hábitos e instintos de infinitas vidas. Então, dependendo de muitos, muitos diferentes fatores, apenas alguns desses instintos e tendências se manifestarão em uma vida em particular. Certamente, não é o caso que todos os nossos instintos e aprendizados da vida que precedeu a presente vida se manifestarão novamente na próxima vida mesmo se renascermos como seres humanos com um precioso renascimento humano, o que é raro. Muito depende daquilo que estávamos pensando e nosso estado mental quando morremos. E depois há todas as circunstâncias e condições de nossa próxima vida, que não estão limitadas apenas às condições de nossa família, mas pode haver uma penúria no país, pode haver guerra – pode haver tantas coisas que afetarão aquilo que se manifestará.

Então, é muito importante tentar colocar a ênfase principal em nossas vidas em pensamentos positivos, não pensamentos ou comportamentos negativos, e morrer com uma mente calma e em paz, com intenções e pensamentos positivos para pode continuar no caminho espiritual.

Dedicação

Talvez este seja um bom momento para terminar. Então, desejamos que qualquer entendimento, qualquer força positiva advinda disso, se aprofunde mais e mais.

Isso pode soar como a religião budista, mas também é bastante científico. Se você tem um encontro legal com alguém, e está tendo uma conversa significativa e positiva com essa pessoa, e esta acaba com o telefone tocando, então a energia apenas cai completamente e você se esquece totalmente da conversa positiva que teve antes. Mas se você acabar uma interação pensando “que ela tenha uma influência positiva para mim”, então aquela sensação positiva, aquele entendimento, o acompanhará e poderá ajudá-lo em sua vida. Então, é assim que acabamos a nossa discussão, e esta é uma forma muito útil de terminar qualquer interação positiva com qualquer pessoa.