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Relacionamento com um Professor Espiritual Durante Duas Vidas

Alexander Berzin, Fevereiro 2002

Um relacionamento profundo com um professor espiritual pode ser o laço mais inspirador e significativo da nossa vida. Também pode ser uma fonte de auto-ilusão, dor e desespero espiritual. Tudo depende em ativamente fazermos do relacionamento algo saudável. Isto, por sua vez, depende de termos uma atitude realista acerca das nossas próprias qualificações e das do nosso professor, acerca do objetivo desse laço e acerca da dinâmica e dos limites desse relacionamento.

Escrevi Relacionando-se com o Mestre Espiritual:  desenvolvendo um relacionamento sadio (Relating to a Spiritual Teacher: Building a Healthy Relationship. Ithaca: Snow Lion, 2000; reprint: Wise Teacher, Wise Student: Tibetan Approaches to a Healthy Relationship.  Ithaca: Snow Lion, 2010) primeiramente porque eu me beneficiei tão significativamente dos meus relacionamentos com os meus professores principais – Tsenzhab Serkong Rinpoche, Sua Santidade o Dalai Lama e Geshe Ngawang Dhargyey – e porque estava entristecido que tantos sinceros buscadores espirituais, que encontrei nas minhas excurções pelo mundo a dar ensinamentos, tivessem tido experiências menos ideais. Muitos, tendo encontrado o abuso sexual, financeiro ou de poder, identificaram-se como vítimas inocentes. Tendo posto a culpa somente nos abusivos professores, eles distanciaram-se de todos os mentores espirituais e, ocasionalmente, até mesmo do caminho espiritual.

Outros viviam em negação dos seus relacionamentos doentios e achavam que a correta “devoção ao guru” não somente justificava, mas até santificava, todo o comportamento do professor, não importando o quão prejudicial esse pareça ser aos padrões convencionais. Estas duas respostas extremas impediam os estudantes de receber todo o benefício que pode ser adquirido num relacionamento saudável.

Em casos onde os estudantes são ocidentais e os professores tibetanos, uma fonte do problema são os mal-entendidos culturais, agravados por expectativas pouco realistas de que a outra parte irá agir de acordo com as nossas normas culturais. Outras fontes de confusão são tirar as apresentações textuais comuns sobre o relacionamento professor-aluno fora dos seus contextos originais, interpretá-las literalmente e se equivocar quanto ao significado dos termos técnicos, muitas vezes devido a traduções errôneas.

Os textos lam-rim (caminho graduado), por exemplo, apresentam este relacionamento como a “raíz do caminho” e o discutem como o seu primeiro tópico principal. Todavia, a finalidade da metáfora é que a árvore deriva o seu sustento das suas raizes e não que ela começa da raiz. A árvore começa a partir de uma semente e Tsongkhapa não chamou a este relacionamento a “semente do caminho.” Afinal, a audiência original do lam-rim não era uma congregação de principiantes, mas consistia de monges e monjas, reunidos para receberem uma iniciação tântrica e que, como preparação, precisavam de uma recapitulação dos ensinamentos do sutra. Para tais pessoas, que já estavam dedicadas ao caminho budista, com prática e estudos prévios, um relacionamento saudável com um professor espiritual é a raiz a partir da qual ganham inspiração para manter o caminho completo para a iluminação. A intenção nunca foi que recém-chegados aos centros de Dharma ocidentais precisavam iniciar por ver os professores espirituais como budas.

No meu caso, o relacionamento mais profundo que eu tenho com um professor espiritual estende-se por duas vidas desse mesmo professor. Passei nove anos como discípulo, intérprete, secretário para a língua inglesa e coordenador de excursões ao estrangeiro de Tsenzhab Serkong Rinpoche, o falecido Parceiro Senior de Debates e Professor Assistente de Sua Santidade, o Dalai Lama.

Rinpoche faleceu em 1983, renasceu exatamente nove meses depois e foi identificado e retornou a Dharamsala com quatro anos de idade. Alguns meses depois, no momento em que nos encontramos, tanto eu como ele reconfirmamos o nosso profundo laço. Quando um assistente lhe perguntou se ele sabia quem eu era, o jovem tulku respondeu, “Não sejas tolo. É claro que eu sei quem ele é.” Desde esse momento Rinpoche me tratou como um membro íntimo da sua família espiritual – algo que um menino com quatro anos não pode fingir. Eu, por minha vez, nunca tive dúvidas acerca da nossa conexão profunda.

Serkong Rinpoche e Alex, 2001

No verão de 2001, passei um mês com Rinpoche no seu mosteiro, Ganden Jangtse, no Sul da Índia, onde, com a idade de dezessete, ele debateu perante uma assembléia de monges numa cerimônia para marcar a sua entrada oficial no séquito dos eruditos. Durante o mês, eu recebi seus ensinamentos, sobre o que ele estava estudando na sua formação de Geshe, e traduzi uma transmissão oral e uma explicação de um texto que ele deu a outro discípulo ocidental, também íntimo do seu predecessor. Quando comentei ao Rinpoche quão maravilhoso era estar traduzindo para ele uma vez mais, ele respondeu, “É claro, esse é o seu carma.” Eu também continuei o processo informal de voltar a dar-lhe muitos pequenos conselhos, do Dharma e mundanos, que ele me tinha dado na sua vida anterior.

O meu relacionamento pessoal com Serkong Rinpoche ao longo de duas vidas deu-me mais confiança no Dharma e no renascimento do que eu poderia ter possivelmente ganho apenas através do estudo e da meditação. É verdadeiramente uma fonte de contínua inspiração ao longo do caminho. Nem ele nem eu nos enganamos acerca dos nossos papéis em relação ao outro, em cada uma das vidas dele. Não somos nem totalmente os mesmos, nem totalmente diferentes do que éramos antes. Cada um de nós é uma continuidade. Com um respeito mútuo profundo, baseado numa atitude realísta acerca dos diferentes estágios em nossas vidas, agora e antes, cada um de nós tanto ensinamos como aprendemos confortavelmente um com o outro. É totalmente natural.

Como um fã de Jornada nas Estrelas, eu vejo a experiência como se eu fosse parte da tripulação, tanto na série original como na Nova Geração, antes sob Capitão Kirk e agora sob a sua reencarnação como Capitão Picard, ainda em formação como um jovem cadete. O meu desafio principal é continuar a construir o carma para servir nas tripulações de todas as futuras Enterprises.