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Um Retrato de Tsenzhab Serkong Rinpoche
Parte 7: Conselhos Específicos de Rinpoche à Prática Tântrica
Embora os retiros de meditação tântrica a tempo inteiro e de longa duração sejam benéficos, a
maior parte das pessoas não pode dar-se ao luxo de os fazer. Por isso, Rinpoche achava que ao
pensarmos que só poderíamos fazer esse tipo de retiro se tivéssemos três ou mais meses de tempo
livre, isso demonstraria uma visão limitada. Um retiro não significa um período durante o qual nos
afastamos dos outros, mas sim um período de prática intensiva para tornar as nossas mentes
flexíveis a uma prática. É perfeitamente aceitável fazer-se uma sessão cada manhã e cada noite, e
viver-se de um modo normal durante o resto do dia. O próprio Rinpoche fez muitos dos seus retiros
desta maneira, sem nunca ninguém saber que ele o estava fazendo.
As únicas restrições com este método de prática são: durante o decurso do retiro, dormir-se
na mesma cama, e fazer-se a meditação no mesmo assento e no mesmo local. Se assim não for, é
quebrado o ímpeto de acumulação de energia espiritual. Além disso, cada sessão deve conter pelo
menos uma quantidade mínima de mantras, prostrações, ou de outra prática repetitiva, tal como ficou
decidido pelo número repetido durante a primeira sessão do retiro. Portanto, Rinpoche aconselhava
apenas serem feitas três repetições da prática escolhida durante a sessão inicial. Desse
modo, uma grave doença não quebraria a continuidade do retiro, forçando-nos a recomeçar outra vez
do princípio.
No entanto, como em todas as formas de disciplina budista, “a necessidade por vezes anula o
interdito”, mas apenas em casos muito especiais. Certa ocasião, em Dharamsala, a meio de um retiro
de meditação, recebi um pedido de tradução durante um empoderamento e ensinamentos que Sua
Santidade o Dalai Lama estava dando em Manali, outra cidade nos Himalaias, na Índia. Eu consultei
Rinpoche, que me disse que fosse sem qualquer hesitação ou dúvida. Assistir Sua Santidade seria
mais benéfico do que qualquer outra coisa que eu pudesse possivelmente fazer. O ímpeto da minha
prática não seria quebrado, desde que eu fizesse uma sessão de meditação por dia, repetindo o
número mínimo de mantras que tinha previamente decidido. Segui este método e depois de dez dias com
Sua Santidade retornei a Dharamsala e completei o meu retiro.
Rinpoche enfatizava sempre que os processos rituais são sérios, cheios de significado e têm
de ser seguidos corretamente. Por exemplo, os retiros tântricos requerem que se repitam certos
mantras num número específico de vezes, e que depois se faça então um “puja de fogo”. O puja de
fogo é um ritual complexo onde se oferecem substâncias especiais para dentro de um fogo. O
propósito do ritual é a compensação quaisquer deficiências na nossa prática e a purificação de
quaisquer erros cometidos.
Certos retiros são muito difíceis. Um que eu fiz, por exemplo, requeria a repetição de um
mantra um milhão de vezes e, durante um elaborado puja de fogo, a oferta de dez mil pares de longos
juncos de grama e a recitação de um mantra com cada par. Todos os dez mil pares têm que ser
atirados para dentro do fogo na mesma sessão, sem interrupção. Quando no final desse retiro fiz o
meu puja de fogo, os juncos de grama esgotaram-se pouco antes da quantidade requerida. Depois
de completar o resto do ritual, contei a Rinpoche o que se tinha passado. Ele fez-me repetir
inteiramente o puja de fogo, uns dias mais tarde. Desta vez, assegurei-me de que tinha realmente
dez mil pares de juncos!
Uma vez que os especialistas de rituais não estão sempre disponíveis, Rinpoche enfatizava a
necessidade de sermos auto-suficientes. Por isso ensinou os seus discípulos ocidentais mais
avançados a fazerem pujas de fogo. Isso incluia o modo de se preparar a superfície onde a fogueira
iria ser feita, e de se desenhar no chão com pós coloridos o necessário modelo de mandala. Mesmo
que os ocidentais precisassem de alguém para recitar o ritual, se este não estivesse ainda
disponível nas suas próprias línguas, Rinpoche explicou que eles mesmos precisavam de oferecer as
várias substâncias ao fogo. Aplica-se isto até quando se faz um retiro em grupo.
Contudo, o seguimento correto dos métodos não entra em contradição com a sua abordagem
prática. Por exemplo, os retiros tântricos começam com a feitura, num altar em casa, dos arranjos
de oferendas especiais, e depois oferecê-las nos dias subsequentes a fim de repelir obstáculos.
Estes obstáculos são visualizados na forma de espíritos intrometidos e são todos os dias convidados
a participarem nas oferendas. Rinpoche dizia que caixas de bolachas ou biscoitos são substitutos
perfeitamente aceitáveis para as requintadas tormas, usadas tradicionalmente para este fim.
Rinpoche não gostava que as pessoas tentassem fazer práticas avançadas enquanto não
estivessem qualificadas para isso. Há quem tente, por exemplo, fazer práticas do estágio completo
quando não estão nem dispostas nem interessadas em fazerem as longas sadhanas, e nem sequer as
conhecem a fundo. A classe superior de tantra, anuttarayoga, primeiro contém as práticas do estágio
de geração e depois as do estágio completo. O primeiro treina os poderes de imaginação e
concentração através da prática de sadhana. O último estágio utiliza os desenvolvidos poderes da
mente para trabalhar com o sistema de energia sutil do corpo a fim de produzir uma verdadeira
auto-transformação. Sem as capacidades adquiridas através da prática da sadhana, o trabalho com os
chakras, canais e ventos-energia deste sistema sutil não passa de uma farsa.
Rinpoche avisava que as práticas tântricas avançadas podem ser muito prejudiciais se forem
incorretamente feitas por alguém sem qualificações para as fazer. Por exemplo, a transferência da
consciência (powa), que na antecipação da morte implica imaginarmos a nossa consciência saindo
disparada através do topo da nossa cabeça, pode encurtar nossa vida. A prática da tomada da
essência de pílulas (chulen), durante a qual se faz jejum por semanas, tomando-se apenas as
consagradas pílulas feitas de relíquias pulverizadas, pode causar uma fome na área, especialmente
se for feita em grupo. Além disso, alguém que pratique deste modo pode ficar gravemente doente
devido à falta de alimentação e de água, e pode até vir a morrer.
Os próprios retiros tântricos são uma prática avançada, e Rinpoche aconselhava a não
ingressarmos nela prematuramente. Às vezes, por exemplo, as pessoas resolvem fazer um retiro para a
recitação de cem mil mantras sem ainda estarem familiarizadas com a prática. Imaginam que vão
ganhar experiência no decurso do retiro. Embora sejam benéficos os períodos intensivos de estudo e
familiarização a uma determinada prática, esse não é o trabalho a fazer-se durante um formal retiro
tântrico. Alguém que não saiba nadar não começa a aprender praticando doze horas por dia na
piscina. Tal imprudência simplesmente nos levaria a ter cãibras e à exaustão. O treino intensivo é
restrito a nadadores experientes que pretendem ser grandes atletas. O mesmo é verdade em relação
aos retiros de meditação tântrica.
E mais, a prática tântrica necessita de permanecer privada porque se assim não for podem
surgir muitas interferências. Rinpoche reparava que muitos ocidentais não só não se mantinham
calados àcerca das suas práticas e realizações, como também se gabavam delas. Ele dizia que era
absurdo gabarem-se de serem grandes praticantes yogi de uma certa figura búdica, quando tudo o que
estavam fazendo ou já tinham feito era o seu curto retiro, com a recitação de centenas de milhares
de vezes dos mantras apropriados. E serem tão pretensiosos e arrogantes, quando nem sequer
praticam diariamente a longa sadhana da figura, é ainda mais patético. Rinpoche explicava sempre
que as longas sadhanas são para os principiantes. Em geral, essas sadhanas contêm mais de cem
páginas e são como roteiros de longas óperas de visualizações. As sadhanas curtas e abreviadas são
para os praticantes avançados, que estão tão familiarizados com toda a prática, que conseguem
completar todas as visualizações e métodos ao recitarem umas poucas palavras.
Rinpoche dizia também que os ocidentais precisavam de refrear as suas tendências por quererem
que todos os ensinamentos e instruções fossem apresentados por ordem desde o princípio,
especialmente no que diz respeito ao tantra. Os grandes mestres indianos e tibetanos eram
perfeitamente capazes de escrever textos claros. No entanto, eles escreveram propositadamente num
estilo vago. Tornar o material tântrico acessível e claro de mais pode facilmente causar
interferências e a degeneração da prática. Por exemplo, as pessoas podem começar a tomar os
ensinamentos por garantidos e a não exercerem neles um esforço sério.
Uma parte importante da técnica pedagógica budista é pôr os outros a questionarem o
significado. Se os estudantes estiverem realmente interessados, irão procurar mais clarificações.
Isto elimina automaticamente os “turistas espirituais” que não estão dispostos a fazerem o trabalho
árduo, necessário para se tornarem iluminados. Se, no entanto, a razão para a clarificação dos
tantras for a dissipação das impressões distorcidas e negativas que as pessoas têm deles, Sua
Santidade o Dalai Lama tem permitido a publicação de explicações explícitas. No entanto,
estas dizem respeito apenas à teoria, e não a práticas especifícas de figuras búdicas individuais.
É claro que um manual “Faça Você Mesmo” pode encorajar as pessoas a tentarem fazer práticas
avançadas sem a supervisão de um professor, o que pode ser muito perigoso.
A coisa mais perigosa, avisava Rinpoche, era o tratamento leviano dos protetores do dharma.
Os protetores do Dharma são forças poderosas, muitas vezes espíritos, que os grandes mestres
conseguiram amansar. Eles fizeram com que esses seres normalmente violentos jurassem proteger, do
mal e de obstáculos, os ensinamentos de Buda (o Dharma) e os seus sinceros praticantes. Somente os
grande yogis conseguem mantê-los sob controlo.
Rinpoche contava muitas vezes a estória de um protetor que tinha jurado salvaguardar a
prática de um mosteiro dedicado ao debate. Ele deveria causar interferências, por exemplo doenças e
acidentes, a qualquer pessoa que estivesse tentando praticar tantra dentro do mosteiro quando devia
estar no debate. Só tinham autorização para a prática tântrica os monges que tinham acabado sua
formação em dialética e que posteriormente tinham continuado seus estudos num dos dois colégios
tântricos – e mesmo assim, nunca dentro das paredes do mosteiro.
Um Geshe, enquanto ainda estudante, costumava fazer, dentro dos terrenos do mosteiro, uma
oferenda de fumo de folhas queimadas de junípero, associada ao tantra. Ele andava continuamente
atormentado com obstáculos. Ele então ingressou num dos colégios tântricos e, depois da sua
graduação, recomeçou a fazer aquela oferenda, mas fora do mosteiro, junto a uma montanha próxima.
Uns anos mais tarde, depois de Geshe ter atingido a percepção direta e não-conceitual da vacuidade,
o protetor apareceu-lhe numa visão. O espírito, de aparência feroz, pediu desculpas, dizendo, “Eu
peço desculpa por no passado te ter feito mal, mas isso fazia parte da minha promessa ao fundador
do teu mosteiro. Agora que alcançaste a percepção nua da vacuidade, mesmo que eu quisesse não te
poderia causar mal algum”.
Rinpoche enfatizava a importância deste exemplo. Brincar-se com forças que estão para além da
nossa capacidade de as controlar pode trazer resultados desastrosos. Ele citava muitas vezes
Sua Santidade, o qual tinha dito que nos lembrássemos sempre de que os protetores do dharma são
servidores das figuras búdicas. Apenas se deveriam meter nisso aqueles que fossem completamente
competentes no estágio-geração do tantra anuttarayoga, e que tivessem o poder de comando enquanto
figura búdica. Senão, o encontro prematuro seria como uma pequena criança chamando um enorme leão
para a proteger. O leão poderia simplesmente devorar a criança. Sua Santidade aconselha
que o nosso melhor protetor é o carma criado pelas nossas ações. Afinal, o que aconteceu com a
tomada de refúgio nas Três Jóias – nos Budas, no Dharma e na comunidade espiritual altamente
realizada?.
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