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Um Retrato de Tsenzhab Serkong Rinpoche
Parte 4: A Abordagem de Rinpoche como Grande Professor
Uma dedicação sincera a um professor espiritual é uma das práticas budistas mais difíceis e
delicadas. Para que esta dedicação seja corretamente estabelecida e mantida, são necessários muitos
cuidados. Desde que seja estabelecida numa base saudável, nada a pode destruir. Serkong Rinpoche
deu-se a grandes trabalhos para assegurar que este fosse o caso entre ele e eu. Uma noite, no fim
do grande festival de Monlam, em Mundgod, Rinpoche contou-me a complicada história sobre as
finanças da sua propriedade naquele local. Embora os seus outros assistentes achassem que não fosse
necessário, Rinpoche disse que era importante que eu estivesse a par da situação. Mesmo que mais
tarde eu viesse a ouvir falsos rumores vindos de localidades invejosas, ele queria se assegurar que
eu nunca viesse a ter nem um só momento de dúvida acerca da sua integridade ou acerca da minha
dedicação sincera.
Uma dedicação sincera a um professor espiritual requer um mútuo exame, minucioso e
prolongado, entre os futuros discípulos e os professores. Embora após cuidadoso escrutínio os
discípulos precisem de ver os seus lamas como budas, isto não quer dizer que os mestres espirituais
sejam infalíveis. Os discípulos têm sempre de verificar o que os professores dizem e, se
necessário, fazer sugestões adicionais de um modo educado. Sempre alertas, eles devem corrigir
respeitosamente quaisquer coisas estranhas que os seus lamas digam ou façam.
Uma vez, Rinpoche procurou demonstrar este ponto aos monges ocidentais do Mosteiro de
Nalanda, em França. Durante o discurso, ele propositadamente explicou algo de uma maneira
totalmente incorreta. Embora o que ele tivesse sido fosse escandalosamente absurdo, todos os monges
registaram as suas palavras respeitosamente nos seus cadernos. Na sessão seguinte, Rinpoche ralhou
com os monges, dizendo que na sessão anterior ele tinha explicado algo de um modo completamente
ridículo e errado. Por que razão ninguém o tinha questionado? Disse-lhes, como o próprio Buda tinha
aconselhado, que eles nunca deviam aceitar, cegamente e sem análise, o que o professor disser.
Ocasionalmente, até os grandes mestres se enganam; os tradutores muitas vezes cometem erros; e os
estudantes invariavelmente tomam apontamentos imprecisos e confusos. Se alguma coisa parecer
estranha, eles devem questionar sempre e verificar se todos os pontos correspondem aos dos grandes
textos.
Pessoalmente, Rinpoche chegava até a questionar os comentários budistas mais comuns. Ao
fazê-lo, ele seguiu o precedente de Tsongkapa. Este reformador do século XIV notou que muitos dos
textos respeitados, tanto por mestres indianos como por mestres tibetanos, contradiziam-se uns aos
outros e continham asserções ilógicas. Tsongkapa trouxe à luz e escrutinou estes pontos, rejeitando
posições que não podiam resistir à razão e dando novas e profundas interpretações às passagens que
tinham anteriormente sido mal interpretadas. Somente aqueles com vasto conhecimento das escrituras
e experiência de profunda meditação estão qualificados para abrir novos caminhos. Serkong Rinpoche
era um deles.
Por exemplo, um pouco antes da sua morte, Rinpoche chamou-me e mostrou-me uma passagem de um
dos mais difíceis textos filosóficos de Tsongkapa,
A Essência da Excelente Explicação dos Significados Interpretáveis e Definitivos (Drang-nges legs-bshad snying-po). Todos os dias Rinpoche recitava de memória este tratado
de várias centenas de páginas, como parte da sua prática diária. A passagem era a respeito dos
estágios para a remoção da confusão mental e, mais especificamente, sobre a questão das “sementes”
da confusão. Os comentários mais comuns interpretam estas sementes, que não são algo físico nem um
modo de se saber algo, como fenómenos variáveis. Para exprimir este ponto, eu tinha andado a
traduzir o termo como “tendências” em vez de “sementes”. Citando lógica, experiência, e outras
passagens do texto, Rinpoche explicou que uma semente de arroz ainda é arroz. Por conseguinte, a
semente da confusão é um “traço” da confusão. Esta interpretação revolucionária tem ramificações
profundas acerca de como entender e trabalhar com o inconsciente.
Apesar da claridade inovadora de Serkong Rinpoche, ele, em todas as alturas e de todas as
maneiras, enfatizava a humildade e a falta de pretensão. Assim, embora ele fosse o lama de mais
alto nível no seu mosteiro em Mundgod, Rinpoche não construiu uma casa magnífica e aparatosa, mas
apenas uma simples cabana. Sua casa em Dharamsala também era extremamente modesta, apenas com três
quartos para quatro pessoas, hóspedes frequentes, dois cães e um gato.
Assim como Rinpoche evitava quaisquer demonstrações da sua grandeza, ele também procurava
impedir que os seus discípulos o pusessem num pedestal. Muitas práticas de meditação centram-se ao
redor do relacionamento com o professor espiritual, assim como, por exemplo, as elaboradas
visualizações conhecidas como Guru-yoga e as repetidas recitações de um mantra contendo o nome do
lama em sânscrito. Nas práticas de Guru-yoga, Rinpoche dizia sempre aos seus discípulos para
visualizarem Sua Santidade o Dalai Lama. Quando lhe perguntavam qual era o mantra do seu nome,
Rinpoche dava sempre o nome do seu pai para repetirem. O pai de Rinpoche, Serkong Dorjey-chang, foi
um dos melhores praticantes e professores do princípio do século XX. Na sua época ele era o titular
da linhagem de Kalachakra, o que significa que ele era o mestre reconhecido pela responsabilidade
de transmitir à próxima geração a coleção do seu conhecimento e experiência de meditação.
A modéstia de Rinpoche manifestava-se de inúmeras maneiras. Por exemplo, quando Rinpoche
viajava, seguia o exemplo de Mahatma Gandhi, insistindo viajar em trens indianos em
terceira-classe, a não ser que houvesse uma necessidade específica de viajar de outro modo. Isto
era verdade mesmo que significasse dormir ao lado de um banheiro fedorento, o que aconteceu quando
deixámos Dharamsala para Delhi, na primeira digressão que juntos fizemos ao Ocidente. Rinpoche
dizia que era ótimo viajar-se deste modo, uma vez que nos ajuda a desenvolver a compaixão. Se as
três classes chegam ao destino ao mesmo tempo, então para quê desperdiçar dinheiro? Rinpoche não
gostava nada que as pessoas gastassem dinheiro com ele, tanto ao pagar bilhetes de trem em primeira
classe ou ao levá-lo a restaurantes luxuosos e caros.
Uma vez, quando Rinpoche estava regressando de Spiti para Dharamsala, eu e vários outros
discípulos fomos esperá-lo a um bazar indiano para lhe dar as boas vindas, por ocasião da sua
chegada. Depois de vermos muitos carros e ônibus passarem sem o Rinpoche neles, um camião velho e
sujo estacionou no mercado. Ali estava Serkong Rinpoche, sentado na carroceria apinhada do
caminhão, com o seu rosário na mão. Ele e os seus assistentes tinham viajado todo o caminho durante
três dias desde Spiti neste meio de transporte, completamente despreocupados com relação ao
conforto ou às aparências.
Quando Rinpoche, seus assistentes e eu estávamos regressando a Dharamsala, [vindos] do grande
festival de Molan, em Mundgod, tivemos em Poona de esperar um dia inteiro pelo trem. Rinpoche
ficou, alegremente, num quarto de hotel de terceira classe, extremamente barulhento e quente, que
um vendedor de camisolas tibetano dessa localidade nos tinha oferecido para desfrutar. Na verdade,
Rinpoche sugeria muitas vezes que, ao viajarmos pela Índia, usássemos o ônibus durante a noite, uma
vez que era mais fácil e mais barato. Ele nunca se importava de esperar em estações de ônibus
apinhadas de gente, e dizia que tinha muitas práticas de meditação para se manter ocupado. O
barulho, o caos e a sujidade em seu redor nunca perturbavam a sua concentração.
Rinpoche nunca ficava muito tempo no mesmo lugar, mudando frequentemente de localidade. Ele
dizia que isso era bom para ultrapassar o apego. Assim, durante as digressões, ele nunca ficava
mais do que uns dias na mesma casa, de modo a não exceder a bondade do alojamento e para que não
nos tornássemos um peso para os nossos anfitriões. Sempre que ficávamos num centro budista onde o
professor era um monge tibetano mais idoso, Rinpoche tratava esse monge como se fosse o seu melhor
amigo. Nos seus relacionamentos, ele nunca limitava a sua sinceridade a uma só pessoa em
especial.
Rinpoche não se importava para onde fosse, uma vez que mantinha uma prática rigorosa durante
todo o dia, e quase não dormia durante a noite. Recitava mantras e textos com visualisações
tântricas (sadhanas) não só entre as consultas, mas até durante as pausas, enquanto esperava pela
minha tradução quando tinha visitantes estrangeiros. Fazia suas sadhanas em carros, em trens, em
aviões – as circunstâncias exteriores nunca lhe faziam diferença. Ele enfatizava que uma sólida
prática diária proporciona às nossas vidas uma sensação de continuidade, onde quer que nós
estejamos e o que quer que façamos. Ganhamos grande flexibilidade, auto-confiança, e estabilidade.
Rinpoche também nunca deu espetáculo com a sua prática. Dizia para fazermos as coisas em
silêncio e em privado, tal como por exemplo abençoar a comida antes de a comer ou fazer orações
antes de ensinar. Recitar longos e solenes versos antes de comer com os outros, apenas lhes poderá
trazer desconforto ou lhes fazer sentir que estamos a tentar impressioná-los ou a envergonhá-los. E
mais, ele nunca impôs nenhuns costumes ou práticas a ninguém, mas fazia, antes e depois de ensinar,
as orações ou rituais que o centro que o tinha convidado normalmente seguia.
Embora Rinpoche tivesse feito extensas oferendas a Sua Santidade e a mosteiros tanto
tibetanos como ocidentais, ele nunca se gabava e nunca falava disso. Ele ensinava a nunca o
fazermos. Uma vez, em Villorba, na Itália, um homem humilde de meia-idade foi visitar Rinpoche. Ao
sair da sala, ele colocou silenciosamente e nem sequer num lugar proeminente, mas numa mesinha, um
envelope contendo uma generosa doação. Rinpoche disse em seguida que esta é a maneira de se fazer
oferendas a um lama.
Contudo, Rinpoche enfatizava muito que a nossa humildade fosse sincera e não falsa. Não
gostava de que as pessoas se fingissem de humildes, quando eram de fato orgulhosas e arrogantes, ou
quando pensavam ser grandes yogis. Ele costumava contar a estória de um praticante orgulhoso,
originário de uma família nômade, que foi visitar um grande lama. Agindo como se antes nunca
tivesse visto nada da civilização, o homem perguntou que instrumentos eram os que estavam na mesa
do lama, usados nos rituais. Quando ele apontou para o gato do lama e perguntou que maravilhoso
bicho era aquele, o lama correu com ele para a rua.
Rinpoche não gostava nada quando as pessoas pretensiosamente se gabavam das suas
práticas. Dizia que se estivéssemos pensando fazer um retiro para a prática de meditação, ou
até mesmo se tivéssemos acabado de o fazer, não o devíamos anunciar aos outros. Seria melhor
manter essas coisas em privado e que ninguém soubesse o que fazemos. Se assim não for, as
conversas das outras pessoas acerca disso irá causar-nos muitos obstáculos, tal como a competição,
o orgulho ou as invejas alheias. Ninguém sabia qual era a principal figura búdica da prática
tântrica de Tsongkapa. Foi somente quando o seu discípulo Kaydrubjey o viu fazer sessenta e duas
ofertas com sua tigela para oferendas internas, mesmo antes da sua morte, que ele deduziu que era
Chakrasamvara, a figura búdica que expressa a felicidade interior. Do mesmo modo, ninguém sabia
qual era a principal prática de Serkong Rinpoche, apesar de ser um especialista e perito de
Kalachakra de renome.
Rinpoche falava frequentemente dos Geshes Kadampa, que de tal modo escondiam as suas práticas
tântricas que as pessoas só se apercebiam do que eles tinham praticado depois deles morrerem, ao
encontrarem um pequeno vajra e sino costurado num cantinho dos seus robes. Rinpoche viveu a sua
vida de acordo com este modelo. Normalmente na sua casa ia dormir meia-hora antes dos outros, e
levantava-se de manhã um pouco depois deles. Porém, seus assistentes e eu frequentemente observámos
que a luz do seu quarto se acendia depois de toda a gente estar supostamente a dormir e apenas se
apagava um pouco antes da família acordar.
Uma vez em Jägendorf, na Alemanha, Chondzeyla, o assistente sénior de Rinpoche, partilhou o
quarto de dormir com Rinpoche. Fingindo estar a dormir, Chondzeyla viu Rinpoche levantar-se a meio
da noite e adoptar várias posturas difíceis, associadas às seis práticas de Naropa. Embora
normalmente Rinpoche precisasse de ajuda para se levantar e movimentar durante o dia, na verdade
ele possuia força e flexibilidade para se dedicar a esses exercícios de yoga.
Rinpoche evitou sempre mostrar as suas boas qualidades. Ele não gostava sequer de revelar a
sua identidade a desconhecidos. Uma vez, um casal mais velho da Indonésia ofereceu-nos uma boleia
de carro, de Paris para Amsterdão. Depois de chegar a Amsterdão, o casal convidou Rinpoche para
uma refeição em sua casa. Só depois, quando do centro budista local telefonaram ao casal
convidando-o para os ensinamentos de Rinpoche, é que o casal se apercebeu quem realmente era o seu
convidado. O casal pensava que ele era apenas um velho e amigável monge vulgar.
Com este mesmo espírito, quando viajava pelo estrangeiro, às vezes Rinpoche jogava xadrez com
crianças, ou punha Ngawang, seu assistente mais jovem, a jogar enquanto ele ficava ajudando os dois
lados. As crianças pensavam que ele era apenas um velho e bondoso avô. Certa vez, quando Rinpoche
passeava pelas ruas de Munique, na Alemanha, na época de Natal, as crianças começaram a seguí-lo,
pensando que ele fosse o Pai Natal devido aos seus robes vermelhos.
Rinpoche até escondia que sabia um pouco de inglês. Depois da iniciação de Kalachakra, em
Spiti, um mês antes de Rinpoche ter falecido, eu deixei-o no Mosteiro de Tabo para regressar a
Dharamsala. Eu tinha fretado um ónibus para um grupo de ocidentais e estava na hora da partida. Um
dos estrangeiros, contudo, à última da hora, tinha ido visitar o Mosteiro de Kyi, que ficava a umas
vinte milhas mais acima do vale, e não regressou na altura esperada. Enquanto fui procurá-lo a Kyi,
um discípulo italiano foi visitar Rinpoche, mas sem tradutor. Rinpoche, que antes nunca tinha
falado uma palavra de inglês com estrangeiro algum, voltou-se para o italiano e perguntou, num
inglês perfeito: “Onde está o Alex?” Quando o homem exclamou: “mas Rinpoche, você não fala Inglês”,
Rinpoche simplesmente sorriu.
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