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Introdução para “Integrando os Vários Aspectos da Vida”

Alexander Berzin
Moscou, Russia, Outubro de 2012
Traduzido para o português por Daniel Ribas Tandeitnik

Seção Um: Teoria

Introdução

Fui convidado, nesta noite e amanhã, para falar sobre um tipo particular de prática que desenvolvi chamada “Integrando os Vários Aspectos da Nossa Vida.” Ela se encaixa com a ideia geral que a Sua Santidade o Dalai Lama gosta de apresentar. Ele sempre fala como o budismo tem a ciência budista, a filosofia budista e a religião budista:

  • A Psicologia budista – ou ciência, devo dizer – fala sobre os aspectos psicológicos, como a mente funciona. Também fala sobre cosmologia e muitos tópicos que são de interesse para vários cientistas.
  • A filosofia budista tem um sistema lógico altamente desenvolvido e uma análise muito profunda da realidade – de causa e efeito, como o mundo funciona.
  • A religião budista fala sobre várias maneiras de nos desenvolvermos no contexto de vidas passas e futuras, carma e envolve rituais, preces, etc.

O Dalai Lama sempre diz que, nos campos da ciência budista e da filosofia budista, o budismo tem muito a oferecer ao mundo, coisas que podem ser de benefício sendo totalmente separadas da religião budista. O sistema que quero lhes apresentar nesta noite cai nesta categoria – uma mistura de um pouco de ciência e filosofia budista. Assim, é um sistema que pode ser usado num contexto terapêutico, sendo em grupos ou individualmente, mas não acredito que ele precisa ser restrito às pessoas que estão com dificuldades emocionais. Acredito que possa ajudar a qualquer um.

O Eu na Psicologia Ocidental

Na psicologia falamos sobre um ego saudável e um ego inflado, e acredito que todos nós concordaríamos que ter um ego saudável é muito importante para sermos capazes de lidarmos com as dificuldades e a realidade do nosso dia-a-dia. Com um ego saudável temos uma visão positiva de nós mesmos, temos um senso de autoconfiança e conseguimos lidar com qualquer problema que possa surgir em nossas vidas; enquanto que, com um ego inflado ou com um ego não saudável, temos dificuldades porque nosso senso do eu não é baseado numa visão realística. Com um ego inflado nós pensamos que somos mais importantes que as outras pessoas, que estamos sempre certos, que devemos sempre conseguir as coisas do jeito que queremos e assim por diante, e isto obviamente causa conflitos com as outras pessoas. Todavia, há muitas atitudes não saudáveis que podemos ter sobre nós mesmos que talvez não caiam nesta categoria do ego inflado, como ter uma autoimagem muito negativa, e isto pode também nos causar tremendos problemas ao lidarmos com a vida. Não é um ego saudável.

O Eu no Budismo

É claro que o budismo tem muito o que falar sobre o eu. Não usamos muito a palavra ego porque – não sei em russo, mas em inglês este termo é definido de maneira bem específica por diferentes sistemas filosóficos e psicológicos, então é melhor não usa-lo. Falamos no budismo sobre o eu (“self”) convencional, ou o eu (“me”) convencional, e o falso eu. Quando temos um ego saudável no senso budista, então estamos pensando em nós mesmos nos termos que o budismo chamaria de eu convencional. Quando temos um ego inflado, ou baixa autoestima, então estamos pensando em termos de um eu falso.

Então, como entendemos o eu no budismo? Nós explicamos como no nosso dia-a-dia precisamos desconstruir cada momento da nossa experiência. Portanto, cada momento da nossa experiência é feita de muitos componentes:

  • Normalmente temos algum tipo de experiência sensorial que está acontecendo no momento. Estamos vendo coisas, ouvindo coisas, sentindo sensações físicas (calor, frio, conforto, desconforto, etc.). Tudo que está acontecendo.
  • Temos fatores mentais básicos que estão sempre lá, em algum grau, em termos de prestar atenção, concentração, interesse, estes tipos de coisas, cansaço e estar acordado.
  • E temos várias emoções que acompanham cada momento. Elas podem ser positivas, como amor, paciência e compaixão. Podem ser negativas, como raiva, ganância, inveja e assim por diante.
  • Também sempre sentimos algum nível de felicidade ou infelicidade. Pode até ser que não seja forte, mas está sempre lá.
  • E, para a maioria de nós, há uma certa compulsividade que está lá também, o que nos leva a agir ou falar de uma certa maneira. As vezes agimos ou pensamos numa maneira bastante consciente na qual sentimos que estamos sob controle, mas até isto é condicionado pelos nossos hábitos, nossa educação, nosso ambiente e assim por diante.

Todas essas coisas mudam com velocidades diferentes a todo momento, e é isto que acontece em termos da nossa própria experiência subjetiva momento a momento. E há todo um contínuo disto que está acontecendo desde o dia quando nascemos até o dia que morreremos.

Portanto, de que forma conseguimos nos referir a isto? De que forma nós o experienciamos? Experienciamos em termos de um eu. O que dizemos é que a gente rotula o eu em termos disto, esta base que constantemente muda. Porém, é bem interessante quando analisamos este eu. Há algo nele que é sempre igual? Se você pensar sobre isto, se você olhar a si mesmo em termos de uma foto sua quando era um bebê e você diz “este sou eu”, depois você olha outra foto sua na qual era um adolescente (“também sou eu”), após você olha uma foto sua adulto e diz “também sou eu” – bem, o que há ali em comum em termos deste eu? O que há ali que você está reconhecendo? Não há nada sólido sobre este eu no qual estamos identificando em cada uma destas fotografias. Mesmo assim, sou eu – não é você; não é outra pessoa. Então, desta forma, este eu pode ser rotulado em cada momento da experiência desta longuíssima continuidade, e pode ser rotulado em todo seu ínterim.

Agora, se você pensar nisto numa maneira bastante fluida – em que cada momento é “agora eu estou fazendo isto. Agora eu estou fazendo aquilo. Agora eu estou experienciando isto, experienciando aquilo” – então não há nenhum grande problema. Certo? Este é o que chamaríamos de o eu convencional. É nesta base com que podemos ter um senso saudável do eu. O problema surge quando temos uma ideia fixa de um sólido eu, e nós nos identificamos com somente uma fotografia nesta longa série de experiências de toda nossa vida. É como se, num senso, a gente parasse o filme da nossa vida e simplesmente identificassemo-nos com um quadro, ou até mesmo uma pequena parte deste quadro, e é claro que em diferentes momentos o quadro com o qual nos identificamos pode ser diferente. Obviamente isto acontece.

Na linguagem coloquial, falaríamos que estamos nos fixando a uma certa identidade de alguém que achamos que somos. Pode ser “eu sou uma pessoa jovem com um corpo forte e atraente,” e é claro que isto pode não encaixar com a nossa experiência, portanto há muita insatisfação. Você se olha no espelho, ou se pesa, e pensa “este não sou eu. Minha autoimagem é tal que não posso pesar tanto assim.” Ou podemos nos identificar com nossa inteligência, identificar com nosso dinheiro, identifica com nossa profissão – há muitas coisas com as quais podemos nos identificar.

Acredito que um dos melhores exemplos disto é: quando estamos em um relacionamento com alguém, baseamos nossa identidade como sendo um membro de um casal. Esta é uma cena do filme da nossa vida. Porém, quando o relacionamento termina – a pessoa termina com a gente – a gente sofre tremendamente. Por que sofremos tremendamente? Porque continuamos a identificar-nos como sendo um membro de um casal, mas não o somos mais. A única maneira de realmente superar isto é quando você tem mais e mais experiências após o término de uma maneira que você possa se identificar com elas e afirmar “agora é isto que eu sou.” E, até termos uma certa quantidade de experiências após o relacionamento onde podemos pensar em termos de o eu e minha vida, continuaremos presos no pensamento de pensarmos em nós mesmos em termos de sermos um membro de um casal.

Desenvolvendo um Senso Saudável de Eu

O que é necessário para um ego saudável ou um senso saudável de eu é poder lidar com – ou o que chamaríamos de “designar” – o eu em termos do que está acontecendo agora e não ficar preso ao passado ou preso a alguma visão do futuro. OK, então este é um princípio geral. Ele tem a ver com... os termos técnicos são “o eu” e “a base para designar ou rotular o eu.” Esta base são os momentos da nossa experiência.

Agora, se olharmos para todo o continuo da nossa vida, experienciamos e fomos influenciados por tudo que ocorreu neste continuo, quer lembremos ou não. Fomos influenciados por todos os vários membros da nossa família, pelos nossos amigos e nossos parentes. Fomos influenciados por onde estudamos – todos os professores, todas as várias coisas que aprendemos. Fomos influenciados por todos os trabalhos que tivemos. Fomos influenciados por toda a mídia e entretenimentos que assistimos. E fomos influenciados por todos os lugares diferentes que vivemos, e todos os lugares diferentes que viajamos. Portanto, nossa vida – a vida de todo mundo – é composta por uma tremenda quantidade de expêriencias e uma tremenda quantidade de influências, e todas essas influências afetam o que estamos sentindo agora, o que estamos pensando, como estamos nos comportando, como estamos falando. Tudo isto exerce uma influência – talvez não tudo ao mesmo tempo a cada momento, mas há toda esta vasta extensão de experiências que se juntam e modelam o jeito que nós somos.

Bem, uma das principais fontes dos nossos problemas é quando, de princípio, não estamos cientes de todas essas influências que afetam a maneira que pensamos, falamos e nos comportamos, ou há algumas influências das quais estamos cientes e com as que nos identificamos fortemente, com a exclusão de outros fatores. Há influências inconscientes acontecendo das quais não temos o conhecimento, ou estamos ativamente negando certas influências.

Então, todo o processo que quero introduzir aqui, de integrar os vários aspectos da nossa vida, lida com uma abordagem holística da nossa vida. O que tentamos fazer é ficarmos conscientes de todas essas influências que tivemos e tentar integrá-las numa imagem holística. Assim, conforme mais e mais experiências acontecem na nossa vida, a base à qual chamamos de o eu, em termos na nossa experiência, irá crescer continuamente. Portanto, mesmo que tudo que está acontecendo é um momento de cada vez – então estamos rotulando o eu neste momento – não obstante, dentro deste momento a influência de toda nossa vida estará presente.

Conheço algumas terapias nas quais a pessoa tenta se identificar com os aspectos negativos, com as influências negativas, que tivemos com, vamos dizer, nossos pais. Você faz uma lista de hábitos e coisas que você faz que são parecidos sua mãe e os que são parecidos com seu pai, esses tipos de coisas, para tentar ficar consciente deles. E, normalmente, os focos são nas coisas negativas. Ou podem ser somente coisas neutras, como gostar de manter a casa arrumada, ou gostar de jogar coisas fora ou gostar de guardá-las. Certo? Gosto de comer numa certa hora. São coisas neutras, não são?

Porém, as coisas negativas ou neutras são somente parte da imagem. Também é muito importante ficarmos conscientes das coisas positivas que aprendemos ou que fomos influenciados pelos nossos pais – e não restringir isto a somente nossos pais, como eu estava falando, já que fomos influenciados por tantas outras coisas, há tipos similares de listas em termos dos nossos irmãos e irmãs, nossos parentes, amigos, escola, ocupação, etc.

Há uma tendência natural nas pessoas de quererem ser leais – leais à sua família, leais à sua ocupação, leais ao seu gênero, leais a tantas coisas diferentes. Muitas vezes o que acontece é que, inconscientemente, somos leais a aspectos negativos. Então, se nossos pais estão sempre nos dizendo que não somos bons, acabamos por agir de forma terrível para sermos aceitos, num sentido – que sim, somos bons. Mas isso não ajuda muito, sermos leais aos nossos aspectos negativos, não é? É claro que é importante não negar estas influências, mas reclamar delas não ajuda. Não ajuda jogar a culpa nos nossos pais, ou na escola, ou na sociedade e assim por diante, nessas coisas que temos, num sentido de os termos herdados, essas coisas negativas. Mas é claro que precisam serem reconhecidas. “OK, tenho estas influências negativas.”

Então as reconhecemos, as entendemos. OK, mas e depois? O ponto é não insistir nelas. “OK, tenho sido influenciado por estes aspectos negativos, mas não é algo que eu quero que perpetue e continue. Ao contrário, quero enfatizar os aspectos positivos que eu herdei.” E, se fizermos isto, teremos uma atitude bastante positiva, não teremos? De gratidão ao invés de acusação – “você foi tão horrível comigo quando me criou. Vocês são pais terríveis” – somos gratos pelas coisas que aprendemos com eles; apreciamos isto. Se pensamos que nossos pais foram ruins, bem, o que geram pais ruins? Eles geram crianças ruins. É isto que pensamos. Pode ser que isto seja inconsciente, mas é o que pensamos. Portanto, sou ruim também: “meus pais foram ruins. Eu sou ruim.” Há uma tendência de se ter uma autoestima bem baixa.

É claro que há exceções de pessoas que conseguem superar isso, porém estou falando do que normalmente acontece. Enquanto que, se você pensa nas coisas positivas que você herdou dos seus pais, seus amigos, da sua escola, da sociedade e assim por diante, isto lhe dá uma visão muito mais positiva de si mesmo, o que nos dá um senso de auto-confiança. E, com este senso de auto-confiança, contanto que não inflemos o eu em “eu sou tão maravilhoso,” desta forma, contanto que mantermos uma visão realística de nós mesmos, então é um ego saudável, um senso saudável de o eu.

Integrando os Vários Aspectos da Nossa Vida

Este sentimento de respeito a nós mesmos, autoconfiança e assim por diante, é um fator muito importante. Podemos aprender a desenvolver este senso ao integrar os vários aspectos da nossa vida, particularmente os positivos. Um jeito de treinar a fazer isto é olhar os vários fatores, várias esferas, que nos influenciaram na nossa vida:

  • Olhamos a nossa família e amigos, e cada um dos membros individuais da nossa família e dos nossos amigos, desde a infância até o presente.
  • Então podemos também olhar para o nosso país nativo, nossa região nativa dele à qual nós pertencemos, a cultura na qual crescemos. E se crescemos dentro de uma religião ou não.
  • Depois podemos olhar para os principais campos de estudo que aprendemos na nossa vida, e os esportes que jogamos (para muitas pessoas isto tem um papel significativo para suas vidas).
  • E os nossos professores, aqueles com os quais aprendemos algo significativo para nossa vida, sendo espirituais ou não.
  • Depois os vários parceiros que nos relacionamos. E, se formos casados, nossos filhos (ou talvez você não é casado e tem filhos).
  • E, como disse antes, parentes, a família que crescemos, e a família que temos no presente, e também os amigos próximos que tivemos, especialmente aqueles que nos amaram.
  • Também pode ser que tivemos incidentes significativos na nossa vida. Talvez você sofreu um acidente. Talvez você teve uma doença séria. Estes também deixaram uma grande marca na maneira na qual você lida com sua vida.
  • E os trabalhos diferentes que tivemos, os diferentes escritórios em que trabalhamos, as pessoas com as quais trabalhamos e a situação financeira que tivemos (às vezes foi bom, às vezes foi difícil).

Se pararmos para pensar, há uma longa lista de coisas que compuseram nossa experiência durante nosso tempo de vida e que influenciaram o jeito que nós somos agora, a maneira como lidamos com as coisas.

Então, pegamos cada experiência por vez e pensamos os seus aspectos negativos que nos influenciaram. Não queremos negá-los. Porém, decidimos que “não há porque reclamar. Não irá me ajudar de forma alguma.” E então, olhamos para os aspectos positivos que ganhamos e os vemos com a atitude de “estas coisas são importantes e podem ser muito úteis na minha vida; portanto são a essas as coisas que quero ser leal e dar importância no meu comportamento, e não simplesmente inconscientemente ser leal aos aspectos negativos.”

Podemos executar este processo dentro de um contexto maior de um treinamento, que é basicamente: primeiro, quando estamos numa sessão como esta, ou realizando uma sessão como esta, acalme-se. É muito importante acalmar nossa mente para que possamos pensar sobre essas coisas. E, para isso, precisamos treinar uma técnica que é, colocando em palavras simples, chamada de “desapegue-se” – desapegue-se dos pensamentos compulsivos, dos sentimentos compulsivos, particularmente dos negativos. Pois, quando trazemos a tona as coisas negativas que nos foram influenciados pelos outros, então é muito fácil ficar preso em pensamentos negativos sobre eles – “isto foi tão terrível,” “esta pessoa foi tão ruim. Ele me feriu tanto” – e então este diálogo interno fica com uma força muito forte. Portanto, é necessário – quero dizer eventualmente, claro – parar este diálogo, este dialogo interno, ou pelo menos temporariamente acalmá-lo para que possamos focar nas coisas positivas. Se você ficar preso no pensamento compulsivo de como foram ruins essas coisas negativas, você nunca conseguirá prosseguir para as positivas.

Há muitos métodos que são sugeridos pelo treinamento budista. Porém, como eu falei, o mais fácil é chamado de “desapegue-se.” Para isto você simplesmente imagina... quero dizer, a maneira na qual eu treino as pessoas a fazer isto é usando a sua mão. Você tem sua mão em forma de punho, e então você a abre e se desapega. Tente fazer isto com a sua mente – visualize sua mente como este punho (ela está segurando fortemente o pensamento compulsivo, ou a emoção compulsiva), e tente relaxar e se desapegar. Bem, é claro que há a possibilidade do pensamento ou sentimento perturbador voltar imediatamente, então você terá que repetir o método.

Há outro método, um pouco mais difícil de se aplicar, que é visualizar sua mente – e quando digo mente quero dizer toda seu conjunto de pensamentos e emoções – como um grande oceano, e estes pensamentos negativos são como ondas que não perturbam as profundezas do oceano. Não queremos ser que nem um barco que está na superfície do oceano sendo jogado para todos os lados pelas ondas. E não é como ser um submarino, que vai pelas profundezas evitando as ondas, porém a imagem é ser o oceano inteiro, e o oceano inteiro não é perturbado por essas pequenas ondas na sua superfície. Você pode acalmar-se pensando assim.

De qualquer forma, este é o contexto que acho bastante importante para começarmos qualquer tipo de sessão e também para podermos utilizar quando pensamos nas coisas negativas que herdamos, e então você se desapega.

“Tentarei ficar ciente de todas estas influências negativas que eu tenho, mas não ficarem sob o controle delas” – esta é a ideia basicamente – “porque vejo e compreendo que, se eu ficar sob o controle destas influências negativas, isto simplesmente me fará ficar infeliz.”

O próximo pensamento que precisamos ter é que “eu quero ser feliz. Todo mundo quer ser feliz. Ninguém quer ser infeliz. E eu tenho sentimentos, eu tenho emoções, como todo mundo. E da mesma forma que a maneira que as pessoas me tratam afeta como eu me sinto, a maneira como eu me trato afeta como eu me sinto. Portanto, por que ser autodestrutivo? Não é porque sou ruim e tenho que me punir. Isto é bobagem. Quem sofre com isto além de mim mesmo? Então, se quero ser feliz, preciso agir numa forma positiva que irá me trazer felicidade.”

Então, pensamos nas coisas positivas que ganhamos da pessoa que é o tema da nossa sessão particular – vamos dizer, nossa mãe, ou nosso pai ou quem for – e pensamos com muita apreciação e gratidão. Pode ser em termos de como essa pessoa nos tratou diretamente – nossos pais cuidaram da gente, ou nos ensinaram a fazer coisas, ou nos ensinaram a ler ou qualquer coisa que eles fizeram. E tente identificar não somente as qualidades boas na outra pessoa, mas também se as temos em nós mesmos. O que ganhamos deles? E há algo a mais que podemos ganhar? Porque, possivelmente, havia várias facetas em relação aos nossos pais, por exemplo, que não diretamente afetaram a maneira que nos trataram quando éramos crianças – por exemplo, a maneira que nossos pais eram com os amigos deles, ou a maneira que eles eram nos seus trabalhos. Todavia, eles eram seres humanos. Eles tiveram uma vida inteira, não somente a parte da vida deles que estava envolvida em interagir conosco. Quais foram os aspectos da integridade das suas vidas que me influenciaram de uma forma boa? Então apreciamos; temos respeito por estas boas qualidades. E é preciso que seja realístico – quero dizer, eles não foram santos, provavelmente, a maioria dos nossos amigos e pais – baseamos na realidade de como eles foram. Portanto, tenha uma atitude realista com eles.

Pode ser útil ter uma fotografia da pessoa enquanto estamos fazendo o processo; ou simplesmente pense nela, imagine-a. Então adotamos uma prática budista dentro desta visualização: você pode imaginar que a pessoa emana uma luz amarela que entra em você e te enche com a inspiração de desenvolver mais as boas qualidades. Uma visualização ajuda a torná-lo mais fácil de desenvolver-se como um estado mental. Se você quiser ir além com isto, você pode também imaginar que a luz amarela emana de você e inspira as outras pessoas a terem essas boas qualidades também – seus filhos, seus colegas, seus amigos, ou o mundo todo se você realmente tem um grande escopo. Pois, especialmente se você tem filhos, certamente você não quer passar a eles as coisas negativas que seus pais ou seu passado lhe influenciou. Você quer passá-los coisas positivas. Então, sinta estas boas qualidades irem a eles também.

Depois que passamos por este processos em cada uma das categorias de influência – a família na qual crescemos, nossa educação, nossa família atual, nossos amigos, nossa ocupação, todas essas coisas, nosso país, nossa religião, etc. – então o que você quer é integrar todos eles em uma visão holística. O que você faz é imaginar dois deles, sua mãe e seu pai. Após fazer cada um individualmente, você pode imaginar a combinação que eles fazem em você, e você tanta sentir um sentimento holístico das influências positivas dos dois juntos.

Vá fazendo isto por toda sua vida – os irmãos e irmãs com quem você cresceu, seus amigos (de infância), sua educação, tudo que envolveu sua vida. Quais coisas positivas ganhamos aprendendo matemática na escola? Quero dizer, houve algo positivo nisto? “Pode ser que eu não use isto no meu trabalho atual, mas há uma maneira de pensar que talvez me ajudou na vida?” Em outras palavras, o que tentamos cultivar é a eliminação do sentimento de que algo na nossa vida serviu para nada, que foi uma perda de tempo. Nada foi uma perda de tempo. Sempre houve algo que pudemos nos beneficiar, que acabamos nos beneficiando. Aprendemos algumas lições até mesmo nos acontecimentos mais difíceis na nossa vida. Nós crescemos, os superamos e eles nos deram mais força para sermos capazes de lidar com outras dificuldades que vieram depois na vida. Portanto, aprendemos uma coisa positiva.

O objetivo deste treinamento é ter uma visão holística de nós mesmos e, então, como eu estava dizendo no começo, pensar em rotular o eu em termos deste todo. Para pensarmos em termos do eu, queremos ter a base mais ampla possível. E, nesta base, mesmo que contenha coisas negativas que me influenciaram, estas não são as que eu enfatizo; somente as positivas.

Podemos fazer isto numa maneira bem formal. Você faz uma lista:

  • Agora pensar em termos do que herdei da minha mãe, ou do que aprendi com meu pai.
  • Ou a influência de ter crescido – para aqueles que são velhos o bastante – na União Soviética. Qual foi a influência disto na minha vida?
  • Qual é a influência da situação econômica presente?

Você especifica todas estas coisas. E, se ser um pouco mais organizado te ajuda, faça uma lista, como se fosse dever-de-casa. Isto é parte de todo o processo que, numa linguagem simples, é chamado de “conhecendo a si mesmo.” Bem, realmente conheça a si mesmo, e então você conseguirá distinguir entre o que é positivo e o que é negativo. O que devo enfatizar? O que quero diminuir? Portanto, uma visão holística.

Bem, talvez isto seja o suficiente como uma introdução para esta noite. Amanhã poderemos fazer alguns destes exercícios. Porém, talvez vocês tenham algumas questões sobre a teoria geral. Devo completamente confessar que não sou um psicologista clínico. Não lido com outras pessoas neste tipo de ambiente terapêutico, mas acredito que este tipo de sistema pode ser usado beneficamente neste tipo de ambiente.

Perguntas e Respostas

Alguma pergunta ou comentário?

Participante: Como um dos axiomas, você estabeleceu que cada ser quer obter felicidade, e você desenvolveu adiante toda sua lógica se baseando nisto. Da onde você tirou este axioma?

Alex: Este axioma de que “todo mundo quer ser feliz, ninguém quer ser infeliz” é um axioma básico dos ensinamentos budistas. Mas, se você pensar sobre ele, ele acaba fazendo bastante sentido. A definição de felicidade nos textos budistas é “o sentimento no qual, quando acontece, você não quer ser separado dele; você quer que ele continue.” E infelicidade é “o sentimento no qual, quando você o experiência, você quer que acabe; você quer ser separado dele.” Então, todo o instinto de sobrevivência – o instinto de continuar, preservação da espécie, autopreservação – é baseado nisto. Você quer continuar. O que você quer que continue? Você quer que continue sua felicidade. O fato de que você quer continuar é uma demonstração que o que você quer é felicidade, porque felicidade é continuar. Isto é praticamente toda a direção do crescimento, por exemplo. Você vê isto em plantas – você vê isto em tudo – continuar, crescer. Por isso, é tomado como um axioma básico da biologia.

É interessante. Pode ser que você queira punir-se e fazer a si mesmo infeliz. Pode ser que você coloque sua mão num fogo porque você quer se punir e te fazer infeliz, mas o instinto é tirar sua mão do fogo, e você realmente tem que lutar para superar este instinto – ou lutar contra o instinto para conseguir manter sua cabeça de baixo d'água para se afogar.

Participante: Entendi corretamente o fato que você considera estes métodos de integrar a vida como um dos estágios de trabalhar em si mesmo, ou podem ser usados em situações críticas da vida?

Alex: Acredito que possam ser usados nos dois casos. Este é um caminho geral no qual treinamos no budismo, talvez você já saiba disto. Treinamos dentro de situações controladas para lidarmos com as situações. Isto é chamado de meditação. Não obstante, queremos aplicá-lo em situações críticas da vida.

Por exemplo, se alguma situação difícil acontece e começarmos a identificar e rotular o eu nisto, e nada a mais – e começa o sentimento de “pobre de mim!” e nos sentimos deprimidos – na hora, se treinamos este método, pensaremos “bem, há todo o conjunto da minha vida inteira, todo o contínuo da minha vida inteira. Este é somente um episódio particular que aconteceu.” Por isso, se pensarmos em termos de todo o conjunto da nossa vida, então este único episódio não é tão grande assim. Não o inflamos. Percebemos que as vezes as coisas acabam indo bem, algumas vezes não tão bem. Nada de especial nisto. Não há nada de especial sobre qualquer evento particular quando não vai bem ou quando vai bem. Então não o inflamos. Não tiramos uma foto dele e então nos identificamos somente com esta única coisa.

Isto não é somente útil em termos de nós mesmo, mas também em termos dos outros. Tendemos a pensar que, se temos um amigo próximo, ou um amante, ou um familiar, “sou o único na vida deles, portanto eles deveriam sempre estar disponíveis para mim. Eles devem sempre estar agradáveis quando vierem e interagirem comigo,” perdemos de vista o fato de que eles têm outros amigos também, que têm outras coisas que estão acontecendo na vida deles, não somente eu. Portanto, quando eles não nos ligam, não imediatamente pulamos para a conclusão que eles não nos amam, porque somos tão autocentrados, porém eles talvez estão ocupados com outra pessoa porque outra coisa está acontecendo na vida deles. Por isso precisamos expandir a base que rotulamos – usando a terminologia budista – não somente de nós, mas dos outros, não limite algo somente a uma coisa pequena e a congele nesta fotografia.

Participante: A pergunta é em termos do eu. Há algo central que permanece estável durante toda nossa vida, ou o eu é algo que está mudando momento a momento?

Alex: Há, de um ponto de vista budista, nada sólido ou encontrável que persiste indo de momento a momento, como uma mala que se move em cima de uma esteira através do tempo. Mesmo assim, há individualidade e continuidade. Mas, se você perguntar “o que me faz eu e não você?” é muito difícil achar algo dentro de mim que me faz ser eu. Todas as células do nosso corpo mudaram durante nossa vida. Nossos pensamentos e emoções certamente mudaram durante nossa vida. Tudo que aprendemos e o nosso conhecimento muda durante nossa vida. Até o DNA – bem, ele é feito de moléculas, e moléculas são feitas de átomos, e tudo nisto está se movendo e mudando, e o que há aí? Todavia, há continuidade.

A analogia que normalmente uso é de um filme. Um filme – Star Wars – não é somente um momento. Há muitos, muitos momentos. Não estamos falando do filme plástico ou do arquivo digital; estamos falando do que você realmente vê. Está mudando de momento a momento. Há uma trama, então há uma continuidade, mas não há nada em cada momento do que você está vendo que estampa e diz que este é um momento de Star Wars. Porém, a cada momento você pode dizer, “estou assistindo Star Wars. Não estou assistindo outro filme.” Todavia, o que é Star Wars? Não é o título “Star Wars” – este é somente o título – mas o título se refere a este filme, que está acontecendo de momento a momento. Então, desta forma, não há nada encontrável e sólido em cada momentos que está fazendo isto ser Star Wars. Porém, isto tem uma individualidade e uma continuidade; e se queremos nos referir à isto, referiríamos a isto como Star Wars. É assim que é.

Participante: Mas Star Wars tem um início.

Alex: Star Wars tem um início e um final. Mas esta é somente uma analogia. Não é exata. Também, estamos falando somente dentro da esfera da ciência e filosofia budista – o que eu normalmente chamaria de “Dharma-lite” – não estamos falando de vidas passadas e futuras. Mas, se você quiser expandir o assunto, então é claro que podemos pensar em termos das influências das vidas passadas. Como no meu caso: absolutamente nenhum interesse, ou informação ou qualquer coisa vindo da minha família quando eu era criança, assim mesmo instintivamente eu era muito interessado em budismo e na cultura asiática. Da onde isto veio? Então, isto você pode pensar como “não há outra explicação a não ser uma influência de vidas passadas.” Você pode também trazer isto se você quer pensar de uma maneira budista mais expandida. Você pode também trazer astrologia se você quiser, os aspectos difíceis no meu horóscopo e os aspectos harmoniosos. Traga para dentro – por que não? – como parte da fotografia.

Participante: No começo, você mencionou o conceito do eu e o conceito da base para a designação do eu. Então, quando estou tratando de eventos da minha vida passada, ou o que aconteceu comigo no passado – por exemplo, influências sobre o meu pai ou as influências sobre mim – e estou contemplando os aspectos negativos e positivos destes fatores influenciadores, tenho que levar em consideração a base de designação do eu que existia quando eu era uma criança (já que, naqueles tempos, eu tinha uma imagem diferente de mim mesmo comparado com o que tenho hoje)? Portanto, qual é mais importante, contemplar a base de designação do eu que tenho agora ou incluir a base que eu tinha quando eu era uma criança influenciada por alguém?

Alex: O ponto é não se identificar somente com a base de designação de uma fase particular da sua vida, mas com o todo. Assim como o filme Star Wars é o filme completo Star Wars, também somos a coisa toda. Quando eu era um bebê, não sabia ler e escrever. Agora sei como ler e escrever. Então não estamos nos identificando mais com não saber ler ou escrever. Porém, a visão holística disto é que aprendi e que sou capaz de aprender coisas. Aprendi a como ler e escrever. Talvez aprendemos a como falar bem cedo, ou talvez aprendemos a falar tarde – este também é um certo padrão que existe ao longo da vida. Podemos identificar padrões, mas não quer dizer que precisamos ser escravos à esses padrões, especialmente quando são padrões negativos.

Algo a mais?

Participante: Iremos tentar.

Alex: Iremos tentar. Bom.

Então, na próxima vez – amanhã – tentaremos alguns destes exercícios. E se vocês tiverem mais perguntas depois, podemos lidar com elas também.

Porém, acredito que é muito útil para os que entre nós estão envolvidos com a prática budista – budismo como religião, se usarmos aquela divisão em três partes – não deixar de lado estes aspectos da ciência e filosofia budista. A Sua Santidade o Dalai Lama abriu vários institutos (há um na Áustria, por exemplo) que são devotados especificamente a treinar pessoas com a ciência e filosofia budista, não a religião. Assim como tópicos desta área podem ajudar com terapia e psicoterapia, eles também podem ajudar, por exemplo, com o direito. A Sua Santidade estava dizendo, por exemplo, que o sistema de debate e lógica pode ser muito útil aos advogados. Há muitos aspectos da lógica budista, mas somente a maneira na qual você analisa as coisas de um jeito lógico, pode ser muito, muito útil em muitas situações diferentes além do treinamento espiritual. Portanto, há muitas coisas do budismo das quais não-budistas também podem se beneficiar e, como a Sua Santidade diz, há muitas coisas de fora da esfera budista que o budismo pode aprender. Por isso ele introduziu o estudo de ciências nos monastérios, e tem havido esforços para se aprender dos monastérios cristãos sobre o serviço social no qual os monges e freiras deles estão envolvidos, em termos de terem escolas ou orfanatos, estes tipos de coisas. Então, desta forma, podemos todos aprender uns com os outros.

Muito obrigado.