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O Que é Meditação?

Alexander Berzin
Moscou, Rússia, junho de 2010

Introdução

Quando escutamos a palavra “meditação”, muitas pessoas têm várias ideias sobre isso. Para alguns, isso traz a imagem de uma prática mística na qual, de alguma forma, a pessoa vai para um plano diferente dentro de sua mente. Para outros, talvez isso evoque a ideia de certo tipo de disciplina que apenas é praticado na Ásia por certas pessoas. Porém, se quisermos investigar melhor a meditação, temos que perguntar – e, é claro, também responder – três questões: O que é meditação? Por que eu quero meditar? E como realmente faço isso?

O Que é Meditação?

A primeira questão é: O que é meditação? Meditação é um método para nos treinar a ter um estado mental mais benéfico ou uma postura mental mais saudável. Isso é alcançado ao gerar repetidamente um específico estado mental, para nos acostumarmos a ele e para que este se torne um hábito. É claro que há muitos diferentes estados e posturas mentais que são benéficos. Um destes estados mentais poderia ser estar mais relaxado, menos tenso e preocupado; outro poderia ser um estado mental mais focado, ou mais tranquilo, sem tagarelices e preocupações constantes. Outro ainda poderia ser um estado mental com mais entendimento sobre nós mesmos, sobre a vida, e assim por diante; e outro poderia ser um estado com mais amor e compaixão pelos outros. Assim sendo, há muitos diferentes tipos de estados mentais benéficos que poderíamos alcançar através da meditação.

Qual o Propósito da Meditação?

A segunda questão é: Por que eu teria vontade de gerar tais estados mentais? Para responder a esta pergunta, temos que olhar para dois fatores: primeiro, o que estou buscando? Segundo, de uma perspectiva emocional, por que eu gostaria de alcançar tal objetivo?

Por exemplo, por que eu gostaria de ter uma mente mais calma e clara? Uma razão óbvia seria porque a nossa mente não é calma e ela nos torna muito perturbados. Isso nos causa uma grande infelicidade e nos impede de alcançar o melhor desempenho em nossas vidas. Nossa mente perturbada pode também estar afetando a nossa saúde de forma negativa, causando ou agravando problemas em nossas famílias e comprometendo nossas outras relações; ela pode estar criando dificuldades para nós em nosso local de trabalho. Então, neste exemplo, nosso objetivo é superar um tipo de deficiência, um tipo de problema que temos, tanto mental quanto emocional. E nós tomamos a decisão de tomar a responsabilidade de superar este problema de uma forma metódica, através da prática da meditação.

Qual tipo de estado emocional nos levaria a começar uma prática de meditação? Bem, pode ser que estejamos totalmente fartos e enojados por causa deste nosso difícil estado mental. Então, nós dizemos a nós mesmos: “Agora chega! Eu tenho que sair desta situação. Tenho que fazer algo a este respeito.” Se, por acaso, nosso objetivo for ajudar mais aos nossos entes queridos, então o estado emocional seria, além deste estado de descontentamento, um sentimento de amor e compaixão. A combinação de todas essas emoções nos leva a achar algum método que nos possibilitará ajudá-los de forma mais efetiva. No entanto, é muito importante ter um entendimento realista da meditação. É irrealista pensar que apenas a meditação resolverá nossos problemas. A meditação é uma ferramenta; é um método. Quando queremos alcançar um resultado e temos uma emoção positiva nos levando rumo a este objetivo, temos que compreender que um resultado não é alcançado por uma causa apenas. Muitas, muitas causas e condições têm que congregar para produzir um resultado. Por exemplo, se eu tenho uma pressão alta e hipertensão, é claro que a meditação será uma ajuda. A meditação diária pode me ajudar a me preocupar menos. Mas apenas a meditação não baixará a minha pressão. Ela pode ajudar, mas talvez eu também tenha que mudar a minha dieta, fazer mais exercícios físicos, e talvez eu tenha que tomar remédios também. Muitos fatores aplicados juntos trarão o resultado desejado de baixar a minha pressão.

Os métodos usados na meditação podem, é claro, também ser usados para fortalecer um estado mental negativo. Por exemplo, eu posso meditar sobre o quão terrível é meu inimigo. Mas geralmente a meditação não é usada desta forma. A meditação geralmente é usada como um método para fortalecer um estado mental positivo que será benéfico para nós e para os outros.

Como Meditamos?

A terceira questão é: como meditamos? Há vários métodos que são usados, dependendo do estado mental que queremos desenvolver. Mas uma coisa que todos os métodos têm em comum é a necessidade da prática. “Prática” significa repetir um tipo de exercício de novo, e de novo, e de novo. Se quisermos treinar nossos corpos, precisaremos praticar alguma atividade física com regularidade; da mesma forma, temos que praticar com nossas mentes.

Desenvolvendo Novos Estados Mentais Através da Meditação

Meditação é lidar com nosso estado mental. Por isso, faz sentido usar um método mental para gerar uma mudança positiva. Poderíamos usar métodos físicos para tentar mudar nosso estado mental; por exemplo, sentar em várias posturas de yoga ou praticar várias artes marciais, como Tai Chi. Por si só, elas não são meditação. Esses métodos físicos podem ajudar a gerar certo estado mental, mas a meditação é algo que se faz apenas com a mente. No entanto, é claro, vocês podem meditar enquanto estiverem fazendo posturas de yoga ou enquanto estiver fazendo Tai Chi. Mas a atividade física e a atividade mental são duas coisas diferentes: uma fazemos com nossos corpos e a outra fazemos com nossas mentes.

Para gerar o resultado desejado, é possível que tenhamos que usar muitas causas diferentes, tanto físicas quanto mentais. Talvez tenhamos que trabalhar com o corpo físico, por exemplo, mudando a nossa dieta, que pode afetar nosso estado mental. Mas a meditação é trabalhar com a mente em si. Assim sendo, se quisermos atingir certo objetivo, então teremos que investigar o que precisamos mudar em nossas vidas, a nível físico e mental, para atingir esta meta. Pode ser que precisemos começar uma prática de meditação, mudar nossa dieta, aumentar o exercício físico, ou talvez todas essas opções.

Quando feitas de forma apropriada, nossas sessões de meditação começam a afetar nossos cotidianos entre as sessões. Se praticarmos um específico estado mental durante nossas sessões de meditação, que seja um estado mais calmo, mais focado ou mais amoroso, a ideia não é apenas conseguir gerar este estado mental enquanto estivermos sentados em meditação silenciosa. A meta principal é fortalecer este estado positivo de forma tão meticulosa que ele se torne um hábito, um hábito que possamos aplicar sempre que dele precisarmos, a qualquer hora do dia. No final das contas, ele se torna algo que é simplesmente natural, está presente o tempo todo: nós nos tornamos mais amorosos, compreensivos, focados, e calmos.

Se descobrirmos que não estamos neste tipo de estado mental, apenas temos que lembrar a nós mesmos: “seja mais amoroso”. E como este estado se tornou tão familiar a nós através da prática, conseguimos instantaneamente ir para este estado mental. Por exemplo, quando percebemos que estamos perdendo a paciência com alguém, imediatamente notamos isso e nos lembramos, consciente ou inconscientemente: “ Não quero ser assim!”. Então, como em um estalar de dedos, mais ou menos como quando reiniciamos nosso computador quando surge uma mensagem de erro, fechamos esta “sessão” de falta de paciência e regeneramos nossa postura em relação à pessoa, tornando-nos mais amorosos.

Gerar esses estados mentais, como a gentileza amorosa, não é apenas uma questão de disciplina. Por exemplo, para sermos mais amorosos, temos que ter certa compreensão do porquê de termos que ser mais amorosos. Podemos nos lembrar que somos todos interconectados uns com os outros, ao pensarmos: “você é um ser humano, exatamente como eu; você tem sentimentos, exatamente como eu; você quer ser amado e não ignorado ou detestado – exatamente como eu. Estamos todos juntos neste planeta e temos que conviver uns com os outros.”

O próximo exemplo pode ajudar. Imaginem que estão em um elevador com dez pessoas e, de repente, o elevador para e vocês estão presos nele por alguns dias. Como vocês se relacionariam com as outras pessoas no elevador? Vocês estão lá – estão todos presos juntos. Vocês estão todos na mesma situação. De alguma forma, vocês têm que conviver uns com os outros. Se vocês começarem a brigar uns com os outros nesse pequeno espaço, será um desastre, não é mesmo? Ao invés disso, vocês têm que cooperar uns com os outros e ter paciência com todos. Vocês têm que trabalhar juntos para tentar sair desta situação. Ou seja, talvez ajude pensar neste planeta como se ele fosse um elevador bem grande!

É em meditações detalhadas deste tipo que podemos gerar um estado mental amoroso e tolerante para com os outros. É muito duro gerar qualquer sentimento real apenas sentado em meditação e simplesmente dizendo a si mesmo: “eu serei mais amoroso”. Então, quando perguntamos como meditar, um dos métodos é fortalecer um estado mental específico, como este exemplo de ser mais amoroso e tolerante. Aprendemos a usar um cenário mental, como a cena do nosso elevador. Nós pensamos sobre ele até que o entendamos e que ele faça sentido para nós. E então, sentados em meditação silenciosa, imaginando outras pessoas ao nosso redor, pessoas que conhecemos, ou desconhecidos, tentamos gerar um estado mental de amor e compaixão.

Aquietando a Mente

Outro método de meditação é aquietar a mente para chegarmos a um estado mais natural da mente. Há um ponto muito importante para entender aqui: Quando estivermos tentando aquietar a mente, não se trata de buscar ter uma mente “em branco”, como um rádio que está desligado. Este não é em absoluto o objetivo. Se este fosse o caso, vocês poderiam ir dormir. O objetivo é aquietar todos os estados mentais perturbadores. Algumas emoções podem ser bem perturbadoras, como ficar nervoso, preocupado ou com medo. Precisamos calmar todas essas emoções que nos perturbam.

Quando calmamos a nossa mente, queremos alcançar um estado mental que é muito claro e alerta, um estado mental no qual ou somos capazes de gerar amor e compreensão, ou somos capazes de expressar a delicadeza natural e humana que todos nós temos. Isso requer um relaxamento muito, mas muito profundo – não apenas um relaxamento dos músculos no corpo, que obviamente é necessário. Mas também um relaxamento da tensão ou rigidez mental e emocional que nos impede de sentir qualquer coisa – mais especificamente, que nos impede de sentir a delicadeza e clareza naturais da mente. Não se trata de um exercício para apenas desligar e se tornar um robô sem quaisquer pensamentos. Algumas pessoas também pensam que a meditação é parar de pensar. Isto é um mal-entendido. Ao invés de parar todos os pensamentos, a meditação deveria parar todos os pensamentos irrelevantes e desnecessários, como pensamentos distraídos sobre o futuro (O que será que eu vou comer no jantar?), e pensamentos negativos ou inúteis (Você foi ruim comigo ontem. Você é uma pessoa horrível.). Tudo isso faz parte da categoria de distrações mentais e pensamentos perturbadores.

Ter uma mente quieta, porém, é uma ferramenta; não é apenas a meta final. No entanto, se tivermos uma mente mais quieta, mais relaxada, mais clara e mais aberta, então poderemos usá-la de forma construtiva. Podemos usá-la para nos ajudar no cotidiano, é claro; mas também podemos usar este tipo de mente ao sentarmos em meditação para tentar ganhar uma melhor compreensão em relação à atual situação de nossas vidas. Com uma mente livre de emoções perturbadoras e pensamentos irrelevantes, podemos pensar com muito mais clareza sobre temas importantes como: O que eu tenho feito com a minha vida? Ou então: o que está ocorrendo com esta relação importante? Ela é saudável? Ela não é saudável? Podemos ser analíticos. Isso se chama introspeção – ser mais introspetivo em relação ao que está ocorrendo dentro de nós, o que está acontecendo em nossas vidas. Para compreender esse tipo de questões e ser introspetivos de uma forma produtiva, precisamos de clareza. Precisamos de uma mente calma e quieta. A meditação é uma ferramenta que pode nos trazer para este estado.

Estados Mentais Conceituais e Não Conceituais

Muitos textos de meditação nos instruem a nos livrar de pensamentos conceituais e sossegar em um estado não conceitual. Antes de tudo, [é preciso saber que] esta instrução não se aplica a todas as meditações. Ela se refere especificamente a uma meditação avançada que visa focar na realidade. Ainda assim, há uma forma de conceitualidade da qual todos os tipos de meditação precisam se livrar. Mas para compreender as diferentes formas de conceitualidade discutidas nos textos de meditação, temos que compreender o que queremos dizer com a palavra “conceitual”.

Algumas pessoas pensam que “ser conceitual” se refere aos pensamentos normais e verbais do cotidiano que passam por nossas mentes – a assim chamada “voz em nossas cabeças”- e que se tornar não conceitual simplesmente significa aquietar esta voz. Mas aquietar esta voz é apenas o início. Já discutimos isso no contexto de aquietar pensamentos estranhos e perturbadores para ter uma mente mais clara e mais calma. Outros pensam que para realmente compreender algo, temos que compreendê-lo de forma não conceitual, e que o pensamento conceitual e o entendimento correto se excluem mutuamente. Este também não é o caso.

Para desvendar as complexidades relativas à conceitualidade, temos que primeiro diferenciar o ato de verbalizar algo em nossos pensamentos do ato de entender algo. Podemos verbalizar algo em nossos pensamentos com ou sem entendimento da coisa em questão. Por exemplo, podemos recitar uma oração mentalmente em uma língua estrangeira entendendo ou não entendendo o que aquilo significa. Da mesma forma, podemos entender algo e ser ou não ser capazes de explicar isto mentalmente em palavras, por exemplo, como é a sensação de estar apaixonado.

No entanto, a questão entre a cognição conceitual e não conceitual na meditação não é uma questão de compreender ou não compreender algo. Tanto na meditação como no cotidiano, sempre temos que manter um entendimento, seja ele conceitual ou não, quer o verbalizemos mentalmente ou não. Às vezes a verbalização é uma ajuda; às vezes não é nada útil e nem mesmo necessária. Por exemplo, amarrar os sapatos: nós entendemos como amarrar nossos sapatos. Vocês realmente precisam verbalizar o que fazem com este ou aquele cadarço quando o amarram? Não precisam. Na verdade, eu acho que a maioria de nós teria uma grande dificuldade para descrever em palavras como amarramos os nossos sapatos. Ainda assim, temos o entendimento. Sem entendimento, vocês não podem fazer nada na vida, não é mesmo? Vocês não podem nem mesmo abrir uma porta.

Vista a partir de muitas diferentes perspectivas, a verbalização de fato é útil; precisamos da verbalização para sermos capazes de nos comunicar com os outros. No entanto, a verbalização em nosso pensar não é absolutamente necessária, a verbalização em si é neutra. Temos algumas meditações úteis que envolvem verbalização. Por exemplo, repetir mentalmente mantras é uma forma de verbalização que gera e mantém certo tipo de ritmo ou vibração na mente. O ritmo regular do mantra é muito útil; ele nos ajuda a ficar focados em certo estado mental. Por exemplo, quando estiver gerando compaixão e amor, se estiverem recitando um mantra como OM MANI PEME HUNG, será um pouco mais fácil ficarem focados no estado amoroso, embora seja claro que é possível ficar focado em um estado amoroso sem dizer nada a nível mental. Assim sendo, a verbalização em si não é o problema. Por outro lado, é claro, nós certamente precisamos aquietar nossas mentes quando estas estão apenas tagarelando com palavreado inútil.

Então, se a questão da conceitualidade não é uma questão que diz respeito à verbalização ou ao entendimento, qual é a questão? O que é a mente conceitual e o que a instrução de meditação quer dizer quando nos indica que precisamos nos livrar dela? Será que esta instrução se refere a todos os estágios e níveis de meditação, tanto quanto ao cotidiano? É importante esclarecer esses pontos.

A mente conceitual significa o pensar em termos de categorias, o que, em termos simples, significa pensar em coisas colocando-as em “caixinhas”, como “bom” ou “ruim”, “preto” ou “branco”, “cachorro” ou “gato”. Agora, com certeza, quando vamos fazer compras, temos que ser capazes de diferenciar entre uma maçã e uma laranja, ou entre uma fruta verde ou uma fruta madura. Nesses casos do cotidiano, pensar em categorias não é um problema. Mas há outros tipos de categorias que são um problema. Um deles é aquilo que chamamos de “preconceito”.

Um exemplo de preconceito é: “Eu sei que você sempre será ruim comigo. Você é uma pessoa terrível porque no passado você fez isso e aquilo. E agora eu predigo que, não importa o que acontecer, você continuará a ser uma pessoa terrível.” Nós pré-julgamos que aquela pessoa é horrível e continuará a ser horrível conosco – isso é um preconceito. Em nossos pensamentos, nós colocamos aquela pessoa na categoria ou na caixinha chamada “pessoa horrível”. E é claro que, se pensarmos desta forma, e projetarmos em alguém o pensamento: “Ele é mau; ele sempre é terrível comigo.”, então haverá um grande bloqueio entre nós e aquela pessoa. O nosso preconceito afeta como nos relacionamos com ela. Ou seja, o preconceito é um estado mental no qual nós categorizamos; colocamos as coisas em caixinhas mentais.

Há muitos e muitos níveis de não conceitualidade, mas um deles é simplesmente estar aberto a uma situação quando ela surge. Isso não quer dizer que temos que nos livrar de todo entendimento conceitual. Por exemplo, se há um cachorro que mordeu muitas pessoas, então pensamos no cachorro em termos da categoria “um cachorro que morde” e isso nos faz ser cuidadosos perto deste cachorro. Temos uma precaução razoável perto deste animal, mas não temos o preconceito: “Este cachorro com certeza vai me morder, então não tentarei nem mesmo chegar perto dele.” Há um gentil equilíbrio entre aceitar a situação que está surgindo, enquanto, ao mesmo tempo, não temos preconceitos que nos impedem de vivenciar a situação plenamente.

Portanto, o nível de não conceitualidade que é necessário em todas as meditações é uma mente livre de preconceitos. Uma das instruções mais comuns é meditar sem expectativas e sem quaisquer preocupações. Preconceitos relativos a uma sessão de meditação poderiam ser, por exemplo, a expectativa de que a sessão de meditação será uma maravilha, ou a preocupação de que nossas pernas doerão, ou o pensamento: “eu não serei bem-sucedido”. Estes pensamentos de expectativa e preocupação são preconceitos, não importa se os verbalizamos ou não. Tais pensamentos colocam nossa meditação que está por vir dentro da caixinha mental, ou da categoria, de “uma experiência fantástica” ou “uma experiência dolorosa”. Uma abordagem não conceitual seria simplesmente aceitar o que quer que aconteça e lidar com isso de acordo com as instruções de meditação, sem julgar a situação.

Situações Propícias à Meditação

Também precisamos de uma situação propícia à meditação. Algumas pessoas pensam que a situação propícia tem que ser algo que eu chamaria de “cenário hollywoodiano”. As pessoas pensam que elas precisam de um quarto especial com velas e certo tipo de música e incenso; elas pensam que precisam de um set de filmagem completo no estilo de Hollywood. Se vocês quiserem ter este tipo de entorno, tudo bem; mas com certeza, ele não é necessário. Nós precisamos demonstrar respeito para conosco e aquilo que estamos fazendo com a meditação, então, o que geralmente é recomendado é que o local físico seja arrumado e limpo. Geralmente, faz parte da prática limpar o quarto no qual se meditará. Arrumem o quarto, não tenham roupas espalhadas pelo chão, etc. Se o ambiente ao nosso redor é ordenado, isso ajuda a mente a se ordenar. Se o ambiente for caótico, isso afetará a mente de forma negativa.

Também ajuda muito, especialmente no início, se o ambiente for silencioso. Na tradição budista, nós com certeza não meditamos com música. A música é uma fonte externa que tocamos para tentar nos acalmar. Porém, ao invés de confiar em uma fonte externa de tranquilidade, nós queremos ser capazes de gerar a paz internamente. A música também pode ser bastante hipnótica, e não queremos estar em transe. Nós não precisamos nos tranquilizar, como se estivéssemos em uma sala de espera de um dentista, com música suave tocando para nos acalmar. Este não é um bom ambiente para meditação.

No que diz respeito à postura de meditação, se olharmos para as diferentes tradições asiáticas, há muitas diferentes maneiras de sentar para meditar. Os tibetanos e indianos sentam com as pernas cruzadas, os japoneses se ajoelham com as pernas dobradas embaixo deles e os pés voltados para trás; as pessoas na Tailândia se sentam com as duas pernas dobradas para um lado. O mais importante é sentar em uma posição confortável. Se precisarem sentar em uma cadeira, tudo bem. Em exercícios muito avançados de meditação, nos quais trabalhamos com os sistemas energéticos do corpo, a postura é importante. Mas em geral, temos que ser capazes de meditar em qualquer tipo de situação. Talvez vocês estejam acostumados a sentar com as pernas cruzadas em uma almofada, mas se estiverem em um avião ou um trem e não puderem sentar com as pernas cruzadas, então simplesmente meditem sentados normalmente no assento.

Especialmente para os meditadores com menos experiência, é importante que o ambiente seja silencioso. Para muitos de nós, não é tão fácil achar um local que seja silencioso, especialmente na cidade. Assim, muitas pessoas meditam cedo de manhã ou à noite quando já é tarde e há menos barulho. Eventualmente, quando nos tornamos suficientemente avançados, então o barulho não nos perturba mais; mas no início é muito fácil ser distraído pelo barulho externo.

Em geral, é importante determinar para nós mesmos, pessoalmente, qual hora do dia é melhor para meditar. Por exemplo, muitas pessoas acham que a energia delas diminui depois de comer, elas ficam cansadas, então, esta não é a melhor hora para meditar. Algumas pessoas se sentem muito vivazes e alertas quando despertam de manhã, mas outras ficam sonolentas a maior parte da manhã. Algumas pessoas são mais alertas à noite, mas outras lutam para ficar despertas se tentam meditar antes de ir dormir, o que não é producente. Portanto, é importante avaliar por si mesmos qual hora do dia se aplica melhor para vocês.

Também temos que descobrir o que é melhor para a nossa pessoa em termos de postura. Se estivermos sentados com as pernas cruzadas, por exemplo, então, sempre é recomendado que tenhamos uma almofada sob nossas nádegas. Mas há muitas pessoas que não usam almofadas. E se vocês usarem uma almofada, vocês têm que ver que tipo de almofada lhes é útil, grossa ou fina, dura ou mole. Vocês têm que achar um tipo de almofada e um tipo de postura que minimizem as possibilidades de suas pernas ficarem dormentes e ajudem a evitar que a sua inteira sessão seja cheia de dor e desconforto. A sessão de meditação não deve se tornar uma sessão de tortura na qual estamos sentados nos sentindo muito mal porque nossos joelhos doem e mal podemos esperar até que acabe. Portanto, o tipo de almofada que usamos é muito importante; pode fazer uma grande diferença. E quando envelhecermos e não pudermos mais sentar de pernas cruzadas, não há problemas em sentar em uma cadeira, mas as nossas costas devem permanecer retas.

Também a quantidade de tempo que meditamos variará de acordo com nosso progresso. No início, sempre é recomendado meditarmos por períodos muito curtos – três a cinco minutos – pois será muito difícil nos concentrarmos e ficarmos focados por mais tempo que isso. É melhor ter um período curto no qual estamos mais focados que um longo período no qual estamos divagando mentalmente, sonhando acordados, ou adormecendo.

Se estivermos fazendo certo tipo de meditação zen, então manter a postura e não se mover é muito importante. Em outros tipos de meditação, se vocês precisarem mover suas pernas, vocês podem mover suas pernas – não é um problema. Em todos esses tipos de práticas espirituais, é muito importante estar relaxado; não se forcem nem sejam duros demais consigo mesmos. É claro que é bom demonstrar respeito para com aquilo que estamos fazendo, mas não deveríamos tornar isso uma situação dramática, como por exemplo: “Sou um ser sagrado sentado aqui e preciso ser perfeito. ”

Um dos princípios mais importantes a ser lembrados é que sempre há altos e baixos. Alguns dias nossa meditação irá bem, outros dias será pior. Alguns dias sentiremos vontade de meditar; outros dias não sentiremos. Nossa meditação nunca será melhor e melhor e melhor. O progresso não é linear; sempre haverá altos e baixos. Talvez, após alguns anos, vocês serão capazes de observar uma tendência geral de que a sua meditação está melhorando, mas sempre haverá dias melhores que outros. Como dizia um de meus professores: “Não é nada de especial”. Está indo bem – não é nada de especial. Não está indo bem – não é nada de especial. Vocês apenas continuam. O mais importante é perseverar. Meditem todos os dias. Como praticar o piano, vocês também têm que fazê-lo todos os dias. E se vocês fizerem por apenas alguns minutos a cada vez, tudo bem. Façam uma pausa, e depois voltem a meditar por alguns minutos. Façam outra pequena pausa e mais alguns minutos de meditação. É melhor praticar assim do que sentar por uma hora em uma sessão de tortura.

A Meditação na Respiração

Muitas pessoas querem saber: como começo a meditar? Para a maioria das pessoas em muitas tradições, a maneira de começar é focar na respiração. Quando vocês meditam na respiração, vocês apenas respiram normalmente: não rápido demais, nem devagar demais; não profundamente demais, nem superficialmente demais. Apenas respirem normalmente através do nariz. Com certeza, não é para hiperventilarem. Se respirarem profundamente demais, ficarão muito, muito tontos e isto não é nem um pouco útil.

Vocês podem focar na respiração em dois lugares: ou na sensação da respiração entrando e saindo do nariz, ou na sensação do ventre encolhendo e dilatando. Se a mente estiver divagando muito e vocês estiverem nas nuvens – o que chamamos de “spaced out” em inglês * (nota da tradutora: “fora de órbita” em português) – então, focar na área do ventre ao redor do umbigo entrando e saindo ajudará a ancorá-los. Por outro lado, se vocês ficarem muito sonolentos e entorpecidos, então focar na sensação da respiração entrando e saindo do nariz ajudará a elevar a energia. Assim sendo, avaliem o que é necessário para vocês a cada momento. A questão principal é focar na respiração de forma consciente. Vocês não desligam a mente; estão conscientes da sensação provocada pela respiração, sem se perderem em constantes comentários dentro de suas mentes.

O trabalho real consiste em reconhecer o mais rápido possível quando a sua atenção vai embora e então trazê-la de volta. Caso vocês comecem a ficar entorpecidos e sonolentos, vocês têm que se despertar. Este é o trabalho envolvido aqui. E não devemos nos enganar: este trabalho não é fácil, pois temos a tendência a nos apegar muito a nossos pensamentos e nossas divagações mentais, e esquecemos que precisamos trazer a atenção de volta. Especialmente, se há alguma emoção perturbadora envolvida com um pensamento, como pensar em alguém a quem estamos muito apegados, alguém de quem sentimos falta, ou alguém de quem temos muita raiva, então será ainda mais difícil trazer a atenção de volta. Mas a respiração está sempre presente; ela é estável e podemos sempre voltar a trazer nossa atenção para ela.

Focar na respiração traz muitos outros benefícios. A respiração é muito conectada ao corpo. Se somos um tipo de pessoa que se preocupa demais com os seus pensamentos ou alguém que tem “a cabeça nas nuvens”, então focar na respiração, independente de focarmos no ventre ou nas narinas, nos ajudará a nos ancorar, nos trazer mais de volta ao corpo, e à realidade. Focar na respiração também é muito útil se tivermos dor. De fato, as meditações da respiração têm sido adotadas em alguns hospitais, especialmente nos Estados Unidos, para as pessoas lidarem melhor com a dor. Pensem nisso: quando um bebê está chorando, e a mãe segura o bebê perto de seu peito, o bebê sente que a respiração da mãe está entrando e saindo, o que é muito relaxante. Da mesma forma, se focarmos em nossa própria respiração, isso pode ajudar a nos acalmar, especialmente se tivermos muita dor. E a respiração não apenas alivia a dor física; ela também pode aliviar ou diminuir a dor emocional.

Depois, vocês têm que saber o que fazer com seus olhos. Em algumas tradições, medita-se com os olhos fechados. A vantagem é que se tem menos distrações. A desvantagem é que é mais fácil adormecer com os olhos fechados. Outra desvantagem de meditar com os olhos fechados é que isso faz com que vocês criem o hábito de ter que fechar os olhos para se acalmar ou meditar. Frequentemente, é muito difícil fazer isso na vida real. Os tibetanos meditam com os olhos abertos, não muito abertos e olhando em volta, mas apenas mantendo um olhar gentil e desfocado, direcionado ao chão. Novamente aqui, temos que avaliar o que é melhor para nós.

Gerar Amor pelos Outros

Uma vez que tivermos aquietado nossas mentes com uma meditação na respiração, podemos usar o estado silencioso e alerta da mente. Podemos usá-lo para ser mais conscientes de nosso estado emocional, mas também podemos usá-lo, por exemplo, para gerar mais amor pelos outros. Para gerar amor, vocês têm que trabalhar progressivamente até alcançar um estado de amor. No início, não dá para apenas pensar: “Agora eu amo a todos” e aí realmente sentir isso. Não há poder por detrás de um pensamento desses. Portanto, vocês usam um processo de pensamento para chegar a um sentimento de amor, como, por exemplo: “Todos os seres vivos são interconectados; estamos todos juntos aqui. Todos somos iguais: todos queremos ser felizes, ninguém quer ser infeliz; todo mundo quer ser amado, ninguém quer ser detestado ou ignorado. Todos os seres são exatamente como eu.”

Já que somos todos juntos e interconectados, o amor é o seguinte sentimento: “Que todos sejam felizes e possuam as causas da felicidade. Que maravilha seria se todo mundo fosse feliz, se ninguém tivesse problemas”. Ao nos desenvolvermos rumo a este estado mental e este coração do amor, então podemos imaginar uma luz amarela e cálida como a luz do sol, resplandecendo a partir de nós, com amor, e tocando a todos. Se a nossa atenção divagar, nós a trazemos de volta para o sentimento: “Que todos sejam felizes”.

Criando Hábitos Benéficos para o Cotidiano

Se nós nos acostumarmos a esses tipos de meditação, desenvolveremos ferramentas que poderemos usar em nossos cotidianos. Focar simplesmente na nossa respiração não será a única atividade de nossos cotidianos. Esta não é a meta final, não é mesmo? No entanto, a capacidade desenvolvida por nós, a habilidade de sempre voltar a trazer a atenção para um foco – com certeza, nós poderemos usá-la no cotidiano. Por exemplo, se estivermos conversando com alguém e nossas mentes começarem a vagar, e pensarmos: “Quando ela vai se calar?” e fizermos todos os tipos de julgamentos e comentários em nossas mentes sobre aquilo que ela está dizendo, assim que reconhecermos o que está acontecendo, teremos que aquietar tudo isso e apenas voltar a nossa atenção para a pessoa e aquilo que ela estiver dizendo. Estamos usando as habilidades que praticamos na meditação para gerar a compreensão: “Este é um ser humano. Esta pessoa quer ser amada. Ela quer ser ouvida quando está falando comigo. Ela quer ser levada a sério, exatamente como eu.”

Portanto, a meta é sermos capazes de aplicar as capacidades que desenvolvemos na meditação nas experiências de nosso cotidiano. Não estamos buscando ganhar a medalha de ouro olímpica por sermos capazes de sentar em perfeita meditação; este não é o objetivo! Ao invés disso, queremos meditar para que a prática de meditação nos ajude em nossas vidas, tanto pessoalmente quanto em nossas interações com outros. E para fazer isso, temos que desenvolver mais hábitos benéficos. Este é o objetivo real, o cerne de toda meditação.