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Pontos Principais a Respeito da Meditação

Alexander Berzin
Kiev, Ucrania, Setembro de 2011
Traduzido por Rosa Frazão

Seção Dois: Preliminares para a Meditação

Ambiente Conducente à Meditação

Para nos engajarmos na prática da meditação, precisamos de circunstâncias conducentes. Existem muitas listas de fatores conducentes à meditação, geralmente são discutidas ou apresentadas no contexto de um retiro de meditação, ao passo que a maioria de nós medita em casa.

Mesmo em casa, o melhor é não ter distrações. O ambiente precisa ser o mais silencioso possível. Muitos de nós moramos em ruas barulhentas, com trânsito, portanto o melhor é meditar de manhã bem cedo ou tarde da noite. Além disso, não deve haver música ou TV ligada no cômodo ao lado. Essas coisas são bastante importantes. Se não for possível ter um ambiente silencioso, pode-se tentar usar tampões de ouvido. Eles não bloqueiam totalmente o barulho, mas certamente deixam-no menos intenso.

Muitos de nós não temos o privilégio de um quarto separado para meditação, mas você pode usar qualquer espaço disponível. Medite em sua cama se precisar, isso não é um problema. A maioria dos tibetanos que moram na Índia meditam em suas camas.

Outrofator bastante importante é ter um quarto limpo e arrumado. Um ambiente limpo e arrumado influencia a mente a ficar limpa e arrumada. Se o quarto for desleixado, bagunçado ou sujo, a mente tende a ficar da mesma forma. Por isso uma das preliminares que é sempre colocada como requisito antes da meditação é limpar o quarto e fazer algum tipo de oferenda, mesmo que seja um simples copo de água. Precisamos demostrar respeito pelo que estamos fazendo, e se estamos pensando em convidar os Budas e bodisatvas, queremos convidá-los para um quarto limpo e não um quarto desarrumado e sujo. Mesmo em um nível psicológico normal, é importante termos respeito pelo que estamos fazendo, e tratar como algo especial. “Especial” não quer dizer um ambiente elaborado, como um filme de Hollywood, com velas e incensos, mas simples, básico, organizado, limpo e respeitável.

Postura

Entre as diferentes culturas asiáticas, a postura utilizada para a meditação varia. As posturas de meditação da India/Tibet, China/Japão, e Tailândia são todas diferentes. Todos sentam em uma postura diferente, portanto não podemos dizer que uma determinada postura é a única postura correta. Os indianos e tibetanos sentam de pernas cruzadas. Frequentemente os japoneses e em alguns casos os chineses, sentam ajoelhados. Os tailandeses sentam com as pernas para o lado. Para práticas tantricas, nas quais trabalhamos com as energias do corpo, o lótus completo (rdo-rje skyil-krung) é exigido, mas a maioria de nós não está nesse estágio de prática. Se você aspira fazer esse tipo de prática, recomenda-se fortemente que comece a sentar na postura de lótus completo desde muito jovem, porque é muito difícil começar a sentar em lótus completo mais tarde na vida. Para ocidentais, se conseguir sentar em qualquer uma dessas posturas tradicionais asiáticas, funcionará muito bem; se não, sentar em uma cadeira está ótimo. O mais importante é manter a coluna ereta.

Direcionando o Olhar

No que diz respeito aos olhos, algumas meditações são feitas com os olhos fechados, algumas com os olhos abertos, algumas olhando para baixo, algumas olhando para cima; depende da meditação. Em geral os tibetanos desencorajam meditar com os olhos fechados. Além do fato de ser muito mais fácil adormecer quando temos os olhos fechados, também tende a criar um obstáculo mental em que você sente que para meditar precisa fechar os olhos. Se você sente que é preciso ter os olhos fechados para meditar, torna-se mais difícil integrar o que você desenvolve na meditação com a vida real. Por exemplo, se estou falando com alguém e para gerar um sentimento amoroso preciso fechar os olhos, isso é estranho. Portanto, na tradição tibetana, mantemos os olhos semiabertos,ligeiramente desfocados, olhando para o chão.

A Almofada

Sentando-sede pernas cruzadas é importante escolher uma almofada adequada. Algumas pessoas se sentem confortáveis sentando diretamente no chão e suas pernas não adormecem. Sua Santidade o Dalai Lama, por exemplo, senta assim quando vai ensinar. Mas para a maioria de nós, se sentarmos sem uma almofada, nossas pernas adormecem mais rapidamente. Portanto você pode tentar sentar-se em uma almofada, deixando os quadris mais elevados que os joelhos. Você precisa escolher o tipo de almofada que melhor se adapte: grossa ou fina, firme ou macia, e assim por diante. Para cada pessoa é diferente. O ponto mais importante é que seja confortável e que previna suas pernas de adormecerem, porque isso pode ser muito desagradável.

Muitos centros budistas tem zafus grossos, redondos ou quadrados, mas esses zafus Zen são para a postura japonesa, ajoelhada. Zafus grossos não são o tipo de almofada correta para sentarmos de pernas cruzadas – são muito altos. Talvez algumas pessoas consigam sentar nelesde pernas cruzadas confortavelmente. Mas para a maioria das pessoas eles são muito altos e muito firmes. Se o seu centro tem apenas zafus altos, e você senta de pernas cruzadas, vai querer levar sua própria almofada.

Escolhendo uma Hora para Meditar

Para a maioria das pessoas a melhor hora para meditar é logo ao acordar ou antes de dormir, pois estamos menos distraídos com as atividades diárias. Algumas pessoas se sentem mais acordadas de manhã e outras à noite. Você seconhece e a seu estilo de vida melhor do que ninguém, então você é quem deve determinar qual o melhor horário para meditar. O que nunca é recomendado é meditar quando estiver sonolento. Se estiver com sono à noite, mas tentar meditar antes de ir para cama, pode adormecer no meio da meditação, o que não ajuda em nada. E da mesma forma de manhã cedo: se ainda estiver meio dormindo sua meditação não será muito eficaz. Portanto, julgue por você mesmo o que funciona melhor. Não tem problema tomar um café ou chá antes de meditar pela manhã, mas os tibetanos não tem esse hábito.

Meu professor, Serkong Rinpoche, era um dos professores de Sua Santidade o Dalai Lama. Ele descrevia como eles mediavam nas universidades monásticas tântricas do Tibet, onde ele recebeu seu treinamento. Todos os monges sentavam-se na sala de meditação e dormiam lá, sentados em seus lugares, meio que encostando a cabeça no colo do companheiro ao lado (tibetanos não tem problemas com contato físico). O sino tocava para eles acordarem muito, mas muito cedo de manhã, e era esperado que eles imediatamente se sentassem eretos e começassem suas meditações, recitações e assim por diante. Mas a não ser que seja um médico acostumado a acordar no meio da noite e imediatamente levantar e fazer uma cirurgia, ou algo do gênero, é bastante difícil começar a meditar imediatamente após acordar.

Por Quanto Tempo Meditar

Quando você está começando a praticar meditação, é importante que suas sessões sejam curtas, porém frequentes. Quando se é principiante, tentar sentar-se e meditar por horas é uma provação. Em alguns lugares faz-se isso, mas em geral os tibetanos desencorajam esse tipo de prática, porque se meditação for uma provação, você não vai querer meditar! Ficará esperando a sessão terminar. Portanto, no começo medite apenas em torno de cinco minutos – é o suficiente. Nos monastérios da tradição Teravada, eles alternam meditação sentada com meditação caminhando, de modo que não ficam fazendo a mesma atividade por um longo período.

A analogia que os tibetanos usam é a de um amigo que vem lhe visitar e fica por muito tempo. Você acaba ficando impaciente, esperando que ele vá embora logo. E quando ele se vai você não fica muito ansioso em vê-lo novamente. Mas se o amigo se vai quando você gostaria de ficar mais um tempo com ele, você ficará muito feliz em vê-lo novamente. Da mesma forma, nossa postura, o lugar onde sentamos e a duração da sessão de meditação devem ser confortáveis, para que tenhamos entusiasmo com nossa prática.

Estabelecendo a Intenção

Antes de começar a meditar é importante estabelecer sua intenção. Na verdade, estabelecer sua intenção é algo que se recomenda fazer logo que abrimos os olhos de manhã. Assim que acordar, enquanto ainda estiver na cama, estabeleça sua intenção para o dia. Você pode pensar: “Hoje tentarei não me aborrecer. Tentarei ser mais tolerante. Tentarei desenvolver mais sentimentos positivos pelos outros. Tentarei fazer com que esse dia seja significativo, e não desperdiçá-lo”.

Tem um Koan que é maravilhoso, meu favorito: “A morte pode chegar a qualquer hora: Relaxe”. Se pensar bem, é um pensamento muito profundo. Se você for muito ansioso, nervoso e se transtornar porque a morte pode chegar a qualquer hora, não conseguirá realizar nada. Poderá ter pensamentos como: “Não estou fazendo o suficiente. Não sou bom o suficiente”. Mas se sabe que a morte pode vir a qualquer momento, e relaxar, então fará o que for possível, de forma significativa, realista, sem ansiedade ou nervosismo. Portanto, tente lembrar-se que a morte pode chegar a qualquer hora, e relaxe!

Antes de meditar, estabeleça a intenção de que “tentarei meditar por ‘x’ minutos. Tentarei me concentrar. Se sentir que vou adormecer, me despertarei. Se a minha atenção se dispersar, a trarei de volta”. Leve isso a sério, não deixe que sejam apenas palavras – realmente tente manter sua intenção em mente e siga. Manter-se fiel à sua intenção pode ser bastante difícil. Se você desenvolver o mau hábito de usar sua sessão de meditação para pensar sobre outras coisas, mesmo que sejam outros conceitos do Dharma, é um hábito muito difícil de quebrar. Falo por experiência própria: é um hábito difícil de quebrar, portanto, estabeleça, e siga, uma intenção correta antes da sessão de meditação

Motivação

A seguir vem a motivação. No contexto do Budismo Tibetano a motivação tem duas partes. A primeira parte é o objetivo: O que estamos tentando conseguir? Os objetivos padrões são descritos no “caminho de etapas” (lam-rim). Conforme descrito no lam-rim, os objetivos são: (a) melhorar as vidas futuras, (b) libertar-se completamente do renascimento, e (c) alcançar a iluminação para ajudar todos os outros a se libertarem do renascimento.

Ao pensar sobre sua motivação, é necessário ser honesto consigo mesmo. Você realmente acredita em renascimento? A maioria de nós não e, portanto, dizer que “estou fazendo isso para garantir que terei outro renascimento humano precioso na próxima vida” ou “estou fazendo isso para me libertar completamente do renascimento” ou “estou fazendo isso para me iluminar, de forma que possa ajudar todos os outros a se libertarem do renascimento” – é como jogar palavras ao vento se não acreditamos em renascimento. Se estamos praticando meditação como parte do que chama “Dharma-lite”, não tem problema, mas seja honesto consigo mesmo. Você não precisa contar para todo mundo, mas seja honesto consigo no que diz respeito a sua motivação: “Estou fazendo isso para melhorar minha situação nesta vida”. Está tudo certo, é uma motivação legítima, contanto que seja sincera. Por outro lado, é importante ter respeito pelos legítimos objetivos de longo prazo do Budismo e não achar que a prática budista é só para melhorar as coisas nesta vida.

A primeira parte da motivação é: O que estamos visando? A segunda parte é a emoção que está por trás, nos empurrando nessa direção. Por exemplo: “Viso um renascimento humano precioso em vidas futuras (o objetivo) porque tenho medo de como deve ser horrível nascer como uma mosca ou uma barata ou qualquer outro renascimento inferior (a emoção). Eu realmente quero evitar renascimentos inferiores, e estou confiante de que existe uma maneira de evitarmos renascimentos inferiores.” Esse não é um medo paralisante, como “não há esperança para essa situação, estou perdido”, mas sim um sentimento sadio de “eu realmente não quero isso e vejo que há uma forma de evitar”. Parecido com meu medo de sofrer um acidente ao dirigir – tomarei cuidado, mas não estou tão paralisado pelo medo que nunca mais dirigirei.

Um outro exemplo de motivação é “Estou totalmente desgostoso, entediado e cheio de todo o sofrimento envolvido no renascimento (a emoção) e quero sair (o objetivo)”. A essência da emoção por trás da renúncia é: “É inacreditavelmente tedioso ser um bebê novamente, aprender tudo novamente, estudar e descobrir como ganhar a vida. É um tédio ter que ficar doente e envelhecer de novo e de novo. Quero dizer, é muito tedioso. Estou cheio disso!” A motivação para bodhicitta, para alcançar a iluminação é que sou movido por compaixão: “Não consigo aguentar tanta gente sofrendo tanto. Tenho que conseguir alcançar um estado em que consiga ajudar todo mundo a se livrar do sofrimento”.

Portanto, motivação inclui um objetivo, e uma razão emocional para querermos alcançar o objetivo. Motivação também envolve o que faremos uma vez que tenhamos atingido nosso objetivo: “Com o meu nascimento humano precioso eu vou trabalhar para alcançar a iluminação”. Quando praticamos dentro da tradição Mahayana, cada um dos três níveis de motivação está no contexto final de trabalharmos para alcançarmos a iluminação. O primeiro nível de motivação é “Quero conseguir mais um renascimento humano precioso para continuar no caminho da iluminação, porque levarei muitas vidas para alcançar meu objetivo”. O segundo nível de motivação é “Quero me libertar do carma e de emoções perturbadoras, porque não consigo ajudar os outros se estiver zangado com eles, se me apegar a eles, ou se agir compassivamente. Não conseguirei ajudar os outros se sentir orgulho e arrogância com isso. Portanto, preciso me libertar”. E finalmente, a motivação mais elevada é “Eu quero alcançar a iluminação para ter total conhecimento da melhor maneira de ajudar cada uma das pessoas individualmente”.

Motivação é muito importante. Tsongkhapa enfatiza que motivação é algo que precisamos ter durante todo o dia, não apenas no começo de uma sessão de meditação. E a motivação não deve ser apenas belas palavras; tem que ser sincera. E o que significa ser sincera? Significa que internalizamos tanto a motivação, pela prática da meditação, que a motivação é autêntica, uma emoção natural, e torna-se parte efetiva de nosso dia a dia.

Aquietando-se Antes de Meditar

Uma vez que tenhamos criado o ambiente físico correto, e estabelecido nossa motivação, precisamos nos acalmar. Normalmente fazemos isso com algum tipo de meditação focada na respiração, como contar as respirações. Além de contar as respirações, existem vários exercícios que podemos fazer com a respiração que são mais complicados.

A Prática dos Sete Ramos

Frequentemente recomenda-se acumularmos energia positiva no começo de uma sessão, e para isso utilizamos o que chamamos de “prece dos sete ramos” ou “prática dos sete ramos”. Nesse contexto, “ramo” significa “passo”.

(1) Prostração, com Refúgio e Bodhicitta

O primeiro ramo é prostração, que significa demonstrar respeito para com aqueles que atingiram a iluminação; demonstrar respeito à nossa própria futura iluminação, que pretendemos atingir com bodhichitta; e demonstrar respeito à nossa natureza búdica, que nos possibilitará atingir nosso objetivo.

(2) Oferendas

O segundo passo é fazer oferendas, que também é uma forma de demonstrar respeito.

(3) Admitir Erros e Imperfeições

A seguir vem admitirmos abertamente nossos erros e imperfeições. Isso não significa sentirmo-nos culpados por nossas imperfeições; culpa não é apropriada. Sentir culpa é nos apegarmos a algo que fizermos e rotularmos como mau; nos apegarmos a nós mesmos rotulando-nos como maus por termos cometido tais ações, e nunca deixarmos que isso passe. É como não jogarmos fora o lixo, mas mantê-lo em nossa casa pensando: “Esse lixo é realmente horrível. Cheira tão mal”. Ao invés de ser culpa, o terceiro ramo é arrependimento pelos nossos erros: “Eu me arrependo de minhas ações e farei o meu melhor para não repetí-las. Tentarei ao máximo sobrepujar minhas imperfeições.”

(4) Regozijar-se

O quarto passo é regozijar-se nas coisas positivas que nós e os outros fizemos, para que tenhamos uma atitude mais positiva em relação a nós mesmos e aos outros.

(5) Requisitando Ensinamentos

Então requisitamos aos professores e aos Budas que ensinem: “Por favor ensinem sempre. Estou aberto e receptivo”

(6) Rogando aos Professores que Não Nos Deixem

O próximo ramo é: “Não se vá. Não morra. Tenho muita seriedade em aprender e rogo para que fique comigo”.

(7) Dedicação

Finalmente vem a dedicação. A dedicação é, de certo modo, direcionar a energia para uma determinada direção. Pensamos: “Qualquer força positiva, qualquer compreensão que possa ter se acumulado, que contribua para minha intenção realizar-se”.A analogia que gosto de usar é salvar nosso trabalho em um computador. Se não o salvarmos em uma pasta especial, a pasta para “Libertação” ou “Iluminação”, a configuração normal fará com que nosso trabalho seja automaticamente salvo na pasta “Melhorar Samsara”. Salvar nosso trabalho na pasta “Melhorar Samsara” é muito bom, mas se esse não for nosso objetivo, se quisermos que nosso trabalho seja direcionado para conseguirmos nos libertar ou atingirmos a iluminação, devemos propositalmente salvá-lo na pasta “Iluminação”. Essa é a dedicação. E é para valer, não estamos apenas jogando palavras ao vento. Dedicamos a energia positiva com alguma emoção por tras, com compaixão, etc.

Depois da prece dos sete ramos vem a meditação efetivamente, e quando concluímos a meditação fazemos outra dedicação.

Conclusão

Você pode observar que a meditação é um processo muito sofisticado e as instruções são bastante precisas. Aqui eu só dei as instruções gerais; cada tipo de meditação tem instruções específicas. É muito, mas muito importante saber o que estamos fazendo, como fazer e por que fazer.

Existem algumas tradições dentro do budismo, como o Zen, que simplesmente diz “sente-se, medite e você decobrirá ao longo do caminho”. Isso pode funcionar para algumas pessoas, mas pode ser bastante difícil para outras. Muitas pessoas acham essa abordagem muito difícil, portanto apresentei a tradição indo-tibetana.

Perguntas e Respostas

Pergunta: Quando você explicou os tipos de meditação, havia três tipos. Um era concentração. E todos,mais ou menos, envolviam algum tipo de atividade mental. Minha pergunta é: É possível alcançarmos algum nivel que nos possibilite ir a meditações mais avançadas – como ir de shamata para vipassana para o tantra e dzogchen – sem ter desenvolvido concentração com shamata?

Alex: Eu acredito que não. Acho que todas as várias instrucões de meditação que ouvi e manuais que li certamente requerem que desenvolvamos concentração primeiro. Agora, se você precisa atingir shamata é outra coisa. No tantra, por exemplo, existem métodos especiais para sermos capazes de desenvolver shamata e vipassana simultaneamente. Em cada sistema pode haver diferentes formas de atingirmos shamata e vipassana.

Shamata é um estado mental calmo e estável: calmo porque todo o devaneio e torpor foram aquietados,e estável porque é focado em um objeto ou em um determinado modo de perceber as coisas. Portanto é 100% assim, totalmente concentrado. Além disso, existe uma sensaçãode aptidão física e mental, que é um entusiasmo(mas não perturbador) que vem da sensação de ser capaz de focar, física e mentalmente, em qualquer coisa pelo tempo que quisermos. É como quando você tem um treinamento físico muito, mas muito bom, e tem a sensação de que pode fazer qualquer coisa. É um estado mental cheio de entusiasmo.

E então a definição de vipassana, ou o verdadeiro vipassana, é um estado mental excepcionalmente perceptivo, alem de shamata, que é capaz de perceber qualquer coisa, e uma sensação adicional de aptidão física e mental.

Então, quer seja meditação dzogchen ou meditação tantra normal ou qualquer outra, esses componentes estarão presentes.

Pergunta: Ultimamente, professores vem com frequência para a Ucrânia e Russia ensinar tópicos profundos como tantra e atiyoga, e o curso de dez dias de vipassana, por exemplo, também é amplamente disponível. Minha pergunta é, primeiro, se faz sentido ir a esses ensinamentos, uma vez que você ainda não desenvolveu shamata fortemente. E segundo, por que os professores dão esses ensinamentos se não existe uma base forte de shamata nos alunos?

Alex: Primeiro, é muito difícil atingir shamata (apesar dos textos dizerem que se você trabalhar duro pode atingir em três meses). Para ouvir qualquer ensinamento é necessário concentração. Se você simplesmente dorme durante toda a palestra, ou se fica divagando ou distraído durante a palestra, sua presença não tem sentido. Portanto, precisamos ter ao menos algum nível de concentração para ouvirmos qualquer palestra e para que valha a pena. Não é necessário termos atingido shamata. Aliás, se esperarmos até atingirmos shamata, nunca iremos a nenhuma palestra.

Tibetanos acreditam firmemente em vidas futuras. Quando os professores ensinam esses tópicos mais avançados, frequentemente dizem que estão fazendo isso para plantar sementes para suas vidas futuras; eles não esperam que você compreenda ou pratique esses ensinamentos avançados nessa vida. E é dessa forma que muitos tibetanos leigos (e até monges e monjas) vão aos ensinamentos – para plantar sementes para vidas futuras. Do lado dos tibetanos, os professores estão pensando de uma maneira completamente diferente no que diz respeito ao porquê de eles darem esses ensinamentos, comparado com como nós ocidentais pensaríamos.

E ainda temos que considerar o ponto de vista dos organizadores dos centros de Dharma. Se os organizadores dos centros de Dharma oferecem um curso em tantra ou dzogchen ou algum outro tópico esotérico, esse tópico atrairá mais pessoas do que se eles oferecessem um curso sobre refúgio ou algum outro tópico que pareça mais mundano. Os organizadores dos centros de Dharma tem a pressão de pagar o aluguel do centro e pagar os professors para virem e assim por diante. Portanto, existem razões econômicas samsáricas também. E também tem algo semelhante do lado dos tibetanos, apesar não ser tão forte, porque apesar deles não insistirem sobre o que vão ensinar (bom, alguns insistem), ainda assim eles têm uma pressão tremenda para levar dinheiro de volta para alimentar os monges em seus monastérios. Essa é uma pressão muito real que eles têm e, portanto, é bom para eles que a audiência seja grande. Infelizmente não vivemos em um mundo ideal.

Portanto, quando os professores vêm e ensinam esses tópicos avançados, se a questão é ir ou não ir, por muitos motivos é melhor ir. Mas não devemos ser pretensiosos e pensar: “Sou tão avançado que posso praticar tudo isso agora, nessa vida”. E o contrário também é verdadeiro: não devemos nos desencorajar pensando “Ah, isso é muito avançado, é impossível que eu algum dia consiga praticar”. Quanto mais você pratica (estamos falando de décadas e décadas), mais você percebe que tem que voltar ao início e trabalhar naqueles passos iniciais muito, muito cruciais. Sem os passos iniciais, nada do que estiver além faz sentido, tem substância, e acaba sendo apenas palavras vazias. Devemos nos esforçar para pensar: “O que estou fazendo para me preparar para ser capaz de continuar no caminho nas minhas vidas futuras? Será que estou levando isso a sério? Quais os passos que estou efetivamente dando nessa direção?” Alcançar esse nível, ser sincero, isso é extraordinário.

Pergunta: Tenho uma pergunta sobre renascimentos. Acho estranha a ideia de um humano renascer como um animal, porque a consciência humana é tão mais desenvolvida. Como uma consciência humana pode renascer como um animal ou um inseto ou algo assim? Talvez o budismo seja apenas uma religião para grandes audiências, para as massas, e os professores não acreditam realmente em renascimento?

Alex: Bom, primeiro eu posso lhe dizer que os professores acreditam firmemente em renascimento. Eles não estão fingindo acreditar – eles realmente acreditam. O que estamos falando aqui é de atividade mental. O que caracteriza a atividade mental humana é a inteligência, e essa inteligência, como sabemos, pode estar em uma escala que vai de “não muito inteligente” até “muito inteligente”. Mas existem outros fatores que fazem parte da atividade mental, como a raiva, por exemplo, a ganância, o apego, a distração, e comportamentos compulsivos derivados desses fatores mentais. Em algumas pessoas esses fatores dominam a atividade mental de forma que elas não usam sua inteligência humana, e operam principalmente com base em sua raiva, ganância e assim por diante. Existem pessoas, por exemplo, que tem um tremendo desejo sexual e vão de bar em bar procurando outras pessoas e tendo relações sexuais com praticamente qualquer um que encontrem – essas pessoas agem como cachorros, não acham? Um cachorro tem relações sexuais com qualquer outro cachorro que encontre, a qualquer hora, ele não exercitará nenhum autocontrole. Se um ser humano se comportar dessa maneira, estará construindo um hábito de uma mentalidade animal. Portanto, não é surpreendente, se pensarmos em termos de renascimento, que a mentalidade de desejo dessa pessoa será o modo dominante de atividade mental que ela terá em uma vida futura e ela renascerá em um corpo que será uma base adequada para tal atividade mental, ou seja, um animal.

Portanto é muito útil examinarmos nosso comportamento: “Será que estou agindo como esse ou aquele animal?” Pense em uma mosca. A mentalidade de uma mosca é de total distração mental. Uma mosca não consegue permanecer em um ponto por maisde alguns momentos; está constantemente se movendo e constantemente distraída. Nossa mente é assim, como a mente de uma mosca? Se sim, o que podemos esperar da próxima vida? Podemos esperar sermos inteligentes e termos boa concentração?

Esses são alguns dos pensamentos que nos ajudam a entender que podemos renascer em muitas formas de vida diferentes. Há muito, mas muito mais o que falar sobre esse tópico, e infelizmente não temos tempo suficiente hoje. Mas é importante entender que não há nada intrínseco na atividade mental humana que faz dela atividade mental humana. Não há nada que faça a atividade mental ser especificamente humana, ou que a faça masculina ou feminina ou qualquer outra coisa. É simplesmente atividade mental. E, portanto, o tipo de renascimento que temos depende do carma, dos vários hábitos que construímos com nosso comportamento compulsivo, e em vidas futuras teremos um corpo que funcionará como uma base apropriada para agirmos de acordo com nossos hábitos.

Então vamos terminar por aqui. Uma vez que estafoi uma palestra budista, podemos terminar com uma dedicação. Podemos pensar: “Qualquer entendimento que tivemos, qualquer força ou energia positiva que tenha sido gerada, que ela se aprofunde cada vez mais e seja a causa para que possamos continuar em um caminho espiritual e para que todos nós e todos os seres alcancem a iluminação para o benefício de todos.”

Obrigado.