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Estados Extra-Corpóreos no Budismo – Tsenzhab Serkong Rinpoche I

Tsenzhab Serkong Rinpoche I
Traduzido e editado por Alexander Berzin e Sharpa Tulku, 1976

A literatura e tradição oral budistas registram muitos exemplos da consciência viajando com uma forma sutil fora do corpo grosseiro. Tais fenómenos foram também observados no ocidente e frequentemente designados por "viagem astral do corpo". Embora seja difícil correlacionar experiências e identificar casos individuais de uma cultura para uma outra dentro do esquema de classificação dessa outra cultura, não obstante, pode ser útil esboçar algumas variedades desse fenómeno, como verificado nas tradições budistas da Índia e do Tibete.

Corpo Ilusório

Através da prática intensiva e profunda da meditação, é possível conseguirmos um corpo ilusório (sgyu-lus). Este é o resultado da prática extremamente avançada do estágio completo (rdzogs-rim, estágio da completude) da classe mais elevada do tantra, o anuttarayoga. É com este corpo que adquirimos a compreensão não-conceptual da vacuidade com a mente mais sutil de luz clara. Desta forma, é possível viajarmos vastamente para além dos limites do nosso corpo físico, trabalhando para benefício dos outros.

A fim de alcançarmos um corpo ilusório, é necessário conseguirmos antecipadamente a renúncia do sofrimento, uma orientação bodhichitta para atingir a Budeidade a fim de podermos ajudar todos os outros a conseguir o mesmo, e uma correta compreensão conceptual da vacuidade. Além disso, o praticante [já] deve ter alcançado a concentração absorta unifocada (ting-nge-`dzin, sânsc. samadhi), ter recebido as iniciações tântricas apropriadas de um mestre tântrico totalmente qualificado, ter mantido puramente todos os votos e ter alcançado proficiência no estágio da geração (bskyed-rim) e nas práticas iniciais do estágio completo do anuttarayoga tantra.

O Corpo Onírico

Com muita meditação, também podemos obter a faculdade de usar um corpo onírico (rmi-lam-gyi lus). Esta forma é particularmente apropriada para a prática da atenção unifocada, uma vez que, enquanto adormecidos, não temos as distrações das consciências sensoriais. Por conseguinte, os praticantes cultivam-na frequentemente a fim de obterem um adicional progresso nos seus estudos. Tendo obtido controlo sobre o estado onírico e dominado este tipo de emanação, podemos preparar os livros no nosso quarto e memorizá-los enquanto adormecidos. Porém, como o corpo onírico é incapaz de ter contato com objetos concretos e não pode virar as páginas, é necessário arranjar diversas cópias dos livros de modo a que não haja necessidade de mudar de página.

Além disso, o corpo onírico e o corpo ilusório estão ligados ao corpo grosseiro meramente pelo carma. Não há nenhuma ligação física entre os dois.

Distúrbios do Corpo Sutil

O que é conhecido como corpo sutil (lus phra-mo) não é um corpo que pode deixar a nossa forma física grosseira. Em vez disso, é o sistema de energia sutil dentro dos nossos corpos grosseiros. É a rede dos canais invisíveis de energia (rtsa, sânsc . nadi), dos nós de energia (rtsa-`khor, sânsc. chakra), das gotas de energia criativa (thig-le, sânsc . bindu) neles situadas, e dos ventos de energia (rlung, sânsc. prana) que correm através deles. Partes deste sistema estão envolvidas no funcionamento normal da percepção dos sentidos. Com absorta concentração e treinamento avançado de yoga, é possível fazermos um uso especial deste sistema para obtermos poderes extra-físicos e extra-sensoriais, tais como telepatia e clarividência. No entanto, há também muitas doenças que resultam de distúrbios e desequilíbrios dos ventos de energia. Tais desordens podem produzir alucinações e percepções anormais, tal como a sensação de se estar fora do próprio corpo.

Os Efeitos Colaterais das Práticas de Visualização

Além disso, existem muitos tipos de meditação em que cultivamos e exploramos os poderes da imaginação a fim de progredirmos espiritualmente. Por exemplo, aprendendo a visualizar todos os seres como esqueletos, podemos diminuir a nossa atração compulsiva e o nosso desejo obsessivo pelo corpo e, assim, eliminar o sofrimento e a ansiedade do desejo ardente. Podemos treinar a nossa mente a visualizar simultaneamente todas as direções e até a ver os órgãos internos do corpo. Com a mestria de tais práticas, é possível termos essa alargada percepção mesmo fora das nossas sessões de meditação. Conseguindo ver tudo ao nosso redor, podemo-nos sentir como se estivéssemos para além dos limites do nosso próprio corpo.

Corpos com Estados Mistos de Existência

Devido ao carma precedente, registra-se que uma pessoa pode renascer como alguém meio-humano, meio-espírito. Alguém nessa situação pode verificar que quando o seu corpo humano está inconsciente ou de alguma forma inativo, a parte “como espírito” da sua natureza viajará juntamente com a sua consciência. Houve também casos conhecidos de pessoas que eram meio-humanas e meio-celestiais (deuses). Aqui, um ser celestial tomou um corpo humano grosseiro, mas sob certas condições atuou à parte dessa forma. Os casos acima descritos envolvem a consciência de apenas um ser vivo que pode ter aspectos, contudo, de dois estados diferentes de existência.

Entrando na Cidadela de um Outro Corpo

É também possível que uma experiência extra-corpórea envolva mais do que um ser. Existem certas meditações tântricas avançadas do anuttarayoga denominadas "entrar na cidadela" de um outro corpo (grong-`jug). Com concentração absorta, pode-se projetar a mente para dentro do corpo de alguém que acabou de morrer ou de alguém que esteja inconsciente. Como isso podia ser facilmente usado e abusado com fins nocivos, a tradição oral direta da sua prática foi interrompida no século XI, antes que fosse levada da Índia para o Tibete.

Possessão

É também possível que o nosso corpo ou mente seja possuído por um ser do reino dos espíritos. Isto pode ocorrer por razões benéficas, como no caso dos oráculos em transe, ou por razões nocivas, como com um encosto (espíritos famintos). Na literatura budista também há referências de seres que morreram e renasceram como espíritos ou criaturas do inferno e que, nestes estados, comunicaram com os seus anteriores familiares e amigos. Isto é baseado em fortes conexões cármicas, como é o reconhecimento, por exemplo, de um asno como a reencarnação do seu falecido tio.

Experiência Extra-Corpórea Devida à Prática de Meditação Anterior

Não importa o tipo de fenómeno extra-corpóreo que alguém não treinado em meditação possa experienciar, pois isso é o resultado das suas anteriores ações nesta vida ou em vidas anteriores. Pessoas diferentes têm experiências diferentes, e até um indivíduo raramente experienciará a mesma coisa duas vezes. Isto é devido aos diferentes carmas e instintos das vidas anteriores.

Se previamente alguém tenha treinado a mente com meditações budistas avançadas envolvendo visualizações ou os corpos ilusórios, oníricos ou sutis, poderá nascer com fortes instintos para essas práticas. Assim, sem qualquer esforço, o fenómeno extra-corpóreo poderá ocorrer. Em tais situações, esse alguém também demonstraria uma forte inclinação para as outras meditações e introvisões em cujo contexto seriam feitas essas práticas avançadas. Por outras palavras, teria instintos para todo o conjunto da prática e não só para os seus pontos avançados. Assim, desde a infância, teria também um sentimento intuitivo para a causa e efeito, renascimento, renúncia, compaixão, vacuidade e assim por diante. Pelo menos teria uma crença instintiva sobre vidas passadas e futuras. Para tais pessoas, valeria a pena ser encontrado um mestre espiritual totalmente qualificado a fim de ser recebido o treinamento apropriado de meditação para o desenvolvimento dos seus potenciais.

Experiências Extra-Corpóreas Causadas por Distúrbios

Se alguém não tiver qualquer inclinação para as meditações básicas, podem haver outras causas cármicas para as suas experiências extracorpóreas. Se a experiência for precedida por uma sensação de aperto e ânsia no plexo solar, descargas de energia do coração à cabeça, zumbidos ou silvos nos ouvidos, ranger de dentes, períodos de inconsciência e assim por diante, isto pode ser sinal de um distúrbio no sistema de energia do corpo sutil. Com estes sintomas, não é aconselhável o engajamento nos estados de percepção anormal que este tipo de distúrbios vai produzir. Um sério desequilíbrio de energia no corpo, particularmente quando centrado na região do coração, pode conduzir a uma paranóia extrema, à insanidade e mesmo à morte. Deve consultar-se um médico tibetano para tratamento.

Pode acontecer que espíritos ou forças nocivas estejam fazendo com que a pessoa tenha percepções alteradas ou perca o controlo da sua consciência. Esta é também uma situação perigosa e deve ser cuidada por um lama, por um médico [medicina tibetana] ou por um oráculo que seja perito nos rituais de exorcismo. Se a sensação extracorpórea for uma alucinação causada por uma droga, esta também não deve ser engajada. Podem ocorrer efeitos a longo prazo causados por uma exposição prolongada à distorção da consciência.

Conclusão

Em resumo, se, sem prática de meditação e treinamento específico, alguém tiver uma experiência extracorpórea descontrolada, não deve tratá-la levianamente ou como uma curiosidade divertida. A causa pode ser uma das explicações acima, uma combinação de fatores ou algo completamente diferente. Qualquer que seja a causa, se alguém se alarmar quando a sua consciência sai do corpo físico, a conexão entre ambos é muito facilmente cortada. A literatura budista registra muitos casos de tais mortes. Por conseguinte, é extremamente importante não se fazer experiências com tais estados extra-corpóreos isoladamente. No entanto, com uma correta orientação, boa motivação e intensa prática de meditação, esses estados podem ser aproveitados para aumentar os nossos potenciais com vista a ajudarmos a nós e aos outros para benefício de todos.