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Equívocos Comuns em Relação ao Budismo

Alexander Berzin, 

Berlin, Alemanha, Novembro 2010
Traduzido ao português por Antonella Yllana

Hoje é o dia 19 de novembro de 2010. Pediram que eu falasse sobre alguns dos equívocos comuns em relação ao budismo. E há muitas diferentes variedades disso, por muitas diferentes razões.

Alguns são específicos às culturas, ou à nossa cultura ocidental, ou à asiática e outras culturas que são influenciadas por nosso pensamento moderno ocidental. Há equívocos que podem vir de áreas culturais: o pensamento tradicional chinês e assim por diante. Pode haver equívocos que surgem de forma mais geral, devido às emoções perturbadoras das pessoas. Pode haver equívocos que surgem do simples fato de que o material é difícil de entender. Equívocos podem surgir por causa de professores que não explicam as coisas de forma clara ou deixam coisas sem ser explicadas, e então projetamos nelas o que pensamos que significam. Poderia ser também que os próprios professores entenderam os ensinamentos de forma errônea. Isso ocorre às vezes. Pois não todos os professores estão plenamente qualificados; muitos são enviados para ensinar ou lhes é pedido que ensinem antes de que estejam qualificados. E mesmo se os professores explicares as coisas de forma clara, pode ser que não escutemos de forma apropriada. Muitas pessoas não escutam muito bem e os ensinamentos não são assimilados por elas de forma correta em termos daquilo que o professor de fato disse. Ou elas fazem anotações pouco precisas e não se lembram delas corretamente, e assim por diante.

Então, há muitas razões para equívocos. Hoje eu me sentei e comecei a fazer uma lista de alguns deles e eu consegui identificar trinta. Isso me veio à mente enquanto eu estava sentado na frente do computador, e então eu parei. Eu acho que podemos achar – por causa de todas essas diferentes razões para os equívocos – muitos, muitos erros que fazemos ou confusões que nós temos. E como eu digo, não todos eles estão limitados a nós ocidentais; nós achamos muitos equívocos entre os tibetanos e também outros asiáticos tradicionais.

Então, eu pensei em limitar o que eu mencionarei aqui a alguns tópicos gerais, ao invés de prosseguir indefinidamente. Aliás, é possível que não consigamos falar sobre tudo que eu anotei aqui. As áreas nas quais eu gostaria de focar são a ética, o tópico dos gurus, o tópico da prática e o tópico do tantra. Então são apenas alguns. Obviamente, eu deixei de fora a vacuidade e todas essas outras coisas nas quais poderíamos facilmente nos equivocar.

Então comecemos. Já que há muitos pontos aqui, eu não entrarei em muitos detalhes em relação a eles, mas apenas os mencionarei para a sua consideração. E essas são coisas nas quais podemos pensar depois.

Equívocos sobre a Ética e os Votos

Em termos de ética, eu penso que neste caso e em muitos casos, o equívoco pode muitas vezes surgir por causa de termos de traduções. Muitas vezes, projetamos conceitos não-budistas nos ensinamentos. E, por exemplo, podemos usar a terminologia bíblica – terminologia que tem conotações de nossa tradição bíblica, com palavras como virtuoso, não-virtuoso, mérito, pecado – este tipo de palavras que projetam no ensinamento sobre ética no budismo a ideia do julgamento moral e da culpa. Isto é, que algumas coisas são virtuosas, o que quer dizer boas e apropriadas, e seremos boas pessoas se fizermos isso. E desenvolvemos méritos, como um tipo de recompensa. E se agirmos de uma forma não-virtuosa, de um modo não sagrado, então somos ruins e desenvolvemos pecados, pelos quais sofremos. Esta é claramente uma projeção da ética bíblica dentro da ética budista, pois no budismo a ética está basicamente baseada no desenvolvimento da consciência que discrimina entre aquilo que é construtivo e aquilo que é destrutivo, entre aquilo que será benéfico e aquilo que será prejudicial.

O próximo equívoco é ver os votos como leis. Então, trata-se da crença de que a ética budista está baseada na obediência a leis ao invés de baseada na consciência que discrimina. Então, dependendo da cultura da qual viemos... Em algumas culturas as pessoas levam as leis muito a sério e por isso se tornam bastante inflexíveis; tanto que não queremos quebrar a lei: “As coisas são assim, sem discussão.” Enquanto os tibetanos são bastante relaxados em relação às diretrizes éticas. O que não quer dizer que eles são desleixados, mas que em certas situações a pessoa tem que usar a consciência que discrimina em termos de como ela aplica a diretriz. Porque o que estamos tentando discriminar aqui é se estamos agindo sob a influência de uma emoção perturbadora ou se há uma razão construtiva para a nossa forma de comportamento.

No outro extremo, poderíamos olhar para os votos – estou falando especificamente sobre votos aqui – como um advogado. Então, vamos procurar por brechas na apresentação do karma para achar desculpas por agir de forma destrutiva ou por comprometer e diluir um voto. Deixe-me dar um exemplo de como buscamos por essas brechas de uma forma legalista. Por exemplo, podemos fazer um voto de evitar o comportamento sexual impróprio, e então afirmamos que o sexo oral é bom porque trata-se de uma expressão de amor. Então, nós nos desculpamos, pois gostamos deste tipo de comportamento sexual. Ou, depois de fazer um voto de largar o álcool, dizemos que está okay beber vinho durante uma refeição com nossos pais para não ofendê-los, ou é bom beber ocasionalmente, contanto que não fiquemos bêbados. Então, fazemos este tipo de desculpas para tentar contornar um voto. O ponto é que, se você fizer um voto, você faz o voto completo. Você não faz um voto parcial. Se não pudermos manter todos os detalhes do voto ou de nenhum voto específico, como está especificado no texto, então não façamos o voto. Não há obrigação de fazer o voto.

Há uma alternativa. Na discussão do abhidharma sobre votos, eles possuem três categorias: há um voto no qual você se compromete basicamente a evitar algo que seja destrutivo. Depois, há algo que realmente é difícil de traduzir – é literalmente um anti-voto. É um voto para não evitar, por exemplo, matar – se você for para o exército, você atirará no inimigo – ou algo assim. E depois também há um meio-termo. E trata-se desta categoria de meio-termo que podemos aplicar aqui. Em outras palavras, podemos evitar parte daquilo que está especificado em um voto – como não ter sexo com o parceiro de outra pessoa; ou não ter violência em nosso sexo; ou não estuprar alguém, forçá-lo a ter sexo; algo assim – se houver partes do voto que pensamos que realmente não seremos capazes de manter. E fazer uma promessa que não é realmente o voto como está especificado no texto. Mas é bem mais positivo, desenvolve força moral positiva – eu prefiro força positiva ao invés de mérito, e força negativa ao invés de pecado – então, isso desenvolve mais força positiva em nosso contínuo mental do que apenas evitar aquele tipo de comportamento. Então, isso não compromete o voto e ainda assim se torna uma forma muito forte de prática ética.

Outro erro sobre a ética é fazer o equívoco de que a ética budista é humanista. “Humanista” quer dizer que apenas evitamos coisas que machucariam os outros. Então, enquanto não machucar ninguém, tudo bem. E o que queremos evitar é machucar outros. Isto é a ética humanista, ou pelo menos a minha compreensão de ética humanista. E embora isto seja muito bacana, muito bom, isto não é a base da ética budista. A base da ética budista é a ênfase em evitar aquilo que é autodestrutivo, pois não sabemos aquilo que machucará os outros: você poderia dar a alguém um milhão de euros pensando que assim isso o beneficiará. No próximo dia, por terem aquele dinheiro, a pessoa é roubada e assassinada. Então, não sabemos o que será de benefício para outra pessoa. Não podemos ver o futuro. O que está especificado nos ensinamentos budistas é que se agirmos de forma destrutiva, com base nas emoções destrutivas – raiva, cobiça, desejo, ciúme, ingenuidade, este tipo de coisas – é autodestrutivo. Isso desenvolve o hábito negativo de repetir isso e causará que façamos a experiência do sofrimento. Esta é a base da ética budista.

Equívocos sobre o Renascimento

O corolário disso é que esta ideia de ética budista ser humanista – apenas não machucar os outros – muitas vezes parece vir de uma ênfase prematura na prática Mahayana, ao pensar que podemos pular os estágios lam-rim iniciais e intermediários. Os primeiros estágios, os estágios iniciais: evitar renascimentos piores. Bem, nós nem mesmo acreditamos em renascimento. O nível intermediário: evitar o renascimento e o samsara. Bem, ainda não acreditamos em renascimento, então nada disso nos parece importante; vamos pular isso. E nos sentimos atraídos pelos ensinamentos Mahayana porque, de várias maneiras, soa muito como algumas das tradições ocidentais de amor e paciência e compaixão e ser generoso, praticar caridade, e assim por diante. Soa muito legal e assim nós nos sentimos atraídos por isso, pulando ou minimizando a importância dos escopos iniciais – nos quais você trabalha para superar as emoções perturbadoras, o comportamento destrutivo, etc, pois é autodestrutivo. Você apenas pula para a parte de ajudar os outros. Este é um erro. Embora seja importante enfatizar o Mahayana, tem que ser baseado nos escopos iniciais e intermediários.

Uma forte razão pela qual muitos de nós prefeririam pular os ensinamentos dos escopos iniciais é porque pensamos que o renascimento não existe. Afinal, a ênfase aqui está em evitar piores renascimentos; por isso tomamos refúgio (tomamos um direcionamento positivo em nossas vidas) e seguimos as leis do karma para evitar comportamentos destrutivos, pois isso nos trará renascimentos piores. Então, pulamos isso ou não enfatizamos a coisa, pois não acreditamos em renascimento. Certamente, não acreditamos em reinos infernais e nos reinos dos fantasmas aprisionados (espíritos famintos), nem nos deuses e anti-deuses. Pensamos que eles não realmente existem e que as descrições nos textos do Dharma referem-se apenas a estados psicológicos humanos. Isto realmente é uma injustiça em relação aos ensinamentos e é um grande equívoco.

Não quero detalhar demasiadamente aqui, mas se pensarmos em termos que uma mente, um contínuo mental, que seja o nosso ou de outra pessoa, pode vivenciar muito além no espectro – na verdade, o espectro completo – de felicidade ou infelicidade e prazer e dor, e não apenas uma quantidade limitada do espectro definida pelos parâmetros de nosso corpo e mente humanos. Os animais podem ver além. Alguns deles podem escutar melhor. E assim por diante. Então por que os limites, em termos daquilo que podemos vivenciar – em termos de felicidade, infelicidade, prazer e dor – não podem também ser estendidos e ter uma forma física apropriada como base?

Então, embora esteja na apresentação do karma que pode haver algumas consequências [em uma vida humana], algumas sobras de vidas passadas nesses outros reinos, achamos coisas que são semelhantes a elas; ainda assim, isso não significa que possamos reduzir a discussão sobre esses outros tipos de formas que podemos vir a ter, e outros podem vir a ter, simplesmente a estados psicológicos humanos. Por não aceitar o renascimento e esses outros estados de existência, nós equivocamos o karma, como se ele descrevesse meramente consequências de nossas ações que acontecerão nesta vida; e isso causa muitos problemas. Porque há grandes criminosos que parecem conseguir escapar ilesos – ninguém nunca os prende – e porque nós poderíamos vivenciar todos os tipos de coisas terríveis acontecendo em nossas vidas sem que nunca tenhamos feito nada de extraordinariamente destrutivo. Então, o karma não parece fazer sentido algum se limitarmos a nossa discussão e nossa visão apenas a essa vida.

Equívocos sobre o Dharma

E tudo isso salienta um problema bem maior, um equívoco bem maior sobre o Dharma, que diz que podemos escolher dentro do Dharma – dentro do budismo – apenas aquilo de que gostamos, e podemos descartar ou ignorar aquilo que temos dificuldade em aceitar: o assim chamado budismo “higienizado”. Nós o higienizamos ou limpamos de todas as coisas difíceis.

Bem, essas histórias sobre o karma com elefantes que vão para debaixo da terra e excretam ouro, e todas essas outras coisas... “Ah! Me poupe! Esses são contos de fadas para crianças!” Não enxergamos que há uma lição ali. A questão não é se tomamos isso de forma literal ou não (da forma que alguns tibetanos o fazem). A questão é não rejeitá-lo; faz parte dos ensinamentos. Ou a ideia de que nos sutras Mahayana os Budas estão ensinando a centenas de milhões de seres; e há centenas de milhões de budas presentes; e em cada poro de um Buda, outra centena de milhão; e assim por diante. Apenas ficamos envergonhados por causa disso e dizemos, “isso é esquisito demais”, e não aceitamos.

Então, [estou falando de] escolher as partes de que gostamos. Bem, há certos votos tântricos e de bodhisattva contra isso: pegar apenas partes dos ensinamentos e ignorar outras, apenas tomar aquilo de que gostamos. Se vamos aceitar o budismo como o nosso caminho espiritual, pelo menos precisamos ser abertos o suficiente para dizer, “não entendo este ensinamento”, mesmo se ele soar muito estranho para nós, e “pelo menos, eu adiarei meu julgamento até ter um entendimento melhor, uma explicação melhor e mais profunda.” Não [deveríamos] apenas fechar nossas mentes e rejeitar os ensinamentos.

Outro equívoco é, mesmo se aceitamos o renascimento, pensar que será fácil ter novamente uma preciosa vida humana. Muitas vezes pensamos que “sim, sim, creio no renascimento. E claro, serei um ser humano. Claro que terei todas as oportunidades para continuar praticando.” e assim por diante. Isso é ser muito, mas muito ingênuo. Especialmente se pensarmos na quantidade de comportamento destrutivo que tivemos, na quantidade de tempo que passamos sob a influência de emoções perturbadoras – raiva, cobiça, egoísmo, etc. – comparada com a quantidade de tempo que agimos sob puro amor e compaixão, então ficará bem claro que será bem difícil conseguir um precioso renascimento humano novamente.

Outra falácia que ocorre aqui, outro equívoco, é que, por apego a amigos e família, nos empenhamos por ter um precioso renascimento humano para continuarmos com eles. Ou então pensamos que, se eu alcançar novamente um precioso renascimento humano, bem, é claro que eu encontrarei todos os meus amigos e parentes e entes amados de novo. Isso também é um equívoco. Há tantas incontáveis formas de vida, seres sencientes, e todos renasceremos em diferentes situações. Então não há absolutamente nenhuma garantia – de fato, há uma possibilidade bem maior de que transcorrerá um tempo muito longo antes de encontrarmos alguém que conhecemos nesta vida. Pode ser que encontremos. Não é que isso seja impossível. Mas é um equívoco pensar que isso será tão fácil ou está garantido.

Equívocos sobre o Karma

Outra coisa em termos de karma e renascimento é que, mesmo se aceitarmos que o sofrimento nesta vida é o amadurecimento de potenciais kármicos negativos desenvolvidos em vidas passadas – pensando que “bem, se eu sofrer, se algo ruim acontecer comigo, eu mereço.” Ou você merece, se algo aconteceu com você. O equívoco aqui é que isso implica um “eu” sólido que existe e quebrou a lei, é culpado e ruim, e agora estou recebendo a punição que eu mereço.

Colocamos a culpa, então, em “mim” – este “eu” sólido que é tão ruim e agora está sendo punido – porque simplificamos demais as leis do karma, da causa e do efeito comportamentais. Não vemos que há muitos fatores envolvidos com a experiência do amadurecimento do karma, como todas as circunstâncias nas quais os vários resultados kármicos amadurecem. Há causas para eles. Trata-se de um erro, um equívoco, pensar que eu sou a causa do amadurecimento do karma de outras pessoas. A nossa experiência depende de todos esses fatores, não apenas de mim.

Vou dar um exemplo. Somos atropelados por um carro. O que eu fiz na minha vida passada não é a causa da outra pessoa me atropelar. Nós pensamos, “bem, sou responsável por me atropelarem”. Não. Somos responsáveis pela nossa experiência do atropelamento. O karma da outra pessoa é responsável por ela nos atropelar. Assim, o que ocorre conosco é um resultado da interação de muitos, muitos diferentes fatores kármicos e emoções perturbadoras, e fatores gerais – como o clima: estava chovendo, a estrada estava escorregadia, etc. Tudo isso se junta para gerar o amadurecimento, bem, digamos não o amadurecimento, mas o surgimento de uma situação na qual sofremos e temos problemas.

Então, esses são alguns dos equívocos que podem surgir em termos de ética, karma, e assim por diante. Tenho certeza de que há muitos, muitos mais. Esses são apenas aqueles que me vieram à mente e nos quais eu estava pensando hoje.

Equívocos sobre Gurus

Agora, em relação aos gurus, eu acho que há uma grande área de equívocos, não apenas entre os ocidentais. Antes de tudo, por causa da ênfase na importância do guru, o nosso equívoco é relacionado ao fato de que o guru precisa ser qualificado – tem que ser um guru qualificado – e há listas de qualificações. E mesmo se o guru for qualificado, temos que nos sentir inspirados pela pessoa. Pois uma das principais razões da importância de um professor espiritual é que o professor nos traz inspiração, a energia para praticarmos, o modelo que queremos seguir. Podemos receber informação de livros, da Internet, e assim por diante. É claro que eles precisam responder a perguntas. Eles têm que ser capazes de nos corrigir quando estamos cometendo erros em nossa prática de meditação. Mas se eles não nos inspiram, não vamos muito longe.

Mas por causa deste equívoco – que eles realmente precisam ser qualificados e realmente precisam nos inspirar – temos pressa em aceitar alguém como o nosso guru sem examiná-lo/a plenamente de forma apropriada primeiro, por causa desta ênfase: “Você tem que ter um guru; você tem que ter um guru.” Então, arriscamos a possibilidade de ter uma desilusão quando, mais tarde, virmos de forma objetiva que ele/a tem defeitos. Não examinamos de forma apropriada. Este é um grande problema, pois muitos escândalos surgiram em relação a professores espirituais que foram, com ou sem razão, acusados de comportamento inadequado. Às vezes as acusações são corretas; eles não eram realmente qualificados. E talvez nos tenhamos sentido pressionados por esta ênfase que há em relação ao guru para aceitar esta pessoa como nosso guru. Depois, vemos essas coisas acontecendo e nos sentimos arrasados.

Como auxílio para isso, é um equívoco pensar que todos os tibetanos – ou, mais limitado que isso, todos os monges e monjas; ou, até mais limitado ainda, todos os Rinpoches, Geshes e Kenpos – são perfeitos exemplos de prática budista. Este é um equívoco muito comum. Nós pensamos, “ah, eles devem ser budistas perfeitos: são tibetanos.” ou “budistas perfeitos: estão vestindo mantos.” “ Perfeitos budistas: têm um título de Rinpoche, devem ser seres iluminados.” Isto é muito ingênuo. Trata-se de pessoas comuns.

Deve haver uma proporção maior de budistas praticantes entre os tibetanos do que na maioria das sociedades; deve haver certos valores budistas que são parte da cultura deles; mas isso não quer dizer que todos eles são perfeitos, de forma alguma. E se um deles se torna monja ou monge, pode haver muitas razões para isso. Entre os tibetanos, poderia ser que a família colocou a pessoa nos monastério quando ainda era criança, pois não era capaz de alimentá-la, e ali a pessoa receberia comida e educação. Poderia ser por uma razão mais motivada pelo ego – que a pessoa tem problemas e precisa da disciplina da vida monástica para superar tais problemas.

Como disse um de meus amigos Rinpoches, “vestir o manto é um sinal de que preciso desta disciplina, pois sou uma pessoa muito indisciplinada e tenho muitas emoções perturbadoras e realmente estou empregando todo o meu esforço para superá-las” Isso não quer dizer que ele as superou. Então, não deveríamos pensar de forma ingênua que eles são iluminados, especialmente com esses rinpoches e assim por diante. Como a Sua Santidade o Dalai Lama sempre diz: apenas confiar no grande nome de um antecessor realmente é um grande erro. [Ele enfatiza] que esses rinpoches têm que demonstrar e provar suas qualificações nesta vida, e não apenas confiar na reputação de seus nomes.

Do outro lado, é um equívoco não respeitar nem dar suporte a monges e monjas, mas torná-los servos de leigos nos centros do Dharma. Isso ocorre muitas vezes, quando há um centro do Dharma e eles tem um monge ou uma monja residente – e eles têm que limpar a casa, organizar e arrumar tudo para os ensinamentos, e eles têm que cobrar as taxas. Se for um centro residencial, eles têm que cuidar da roupa de cama e todos esses tipos de coisas. E eles não podem nem mesmo assistir aos ensinamentos. Os leigos pensam que eles são nossos servos. Mas é justamente o oposto disso. Como monges e monjas, eles merecem todo o respeito, independentemente do nível de ética que eles tiverem. E esta é uma parte dos ensinamentos: devem-se respeitar até mesmo os mantos. Isso não quer dizer que achamos que eles são perfeitos e somos ingênuos a esse respeito. Mas é preciso demonstrar um certo respeito.

Também há um grande equívoco em relação à devoção ao guru; ou o assim chamado termo. Eu acho que não é uma tradução muito útil porque parece implicar em uma adoração quase cega ao guru, como em uma seita. Este é um grande equívoco. O termo usado aqui em termos de relacionamento com o professor espiritual significa confiar em um professor espiritual qualificado como nós confiaríamos em um médico qualificado. O mesmo termo é usado para a relação com o nosso doutor. Mas por causa da instrução de ver o guru como um Buda, nós fazemos o equívoco de pensar que o professor é infalível e assim temos que ter uma obediência cega ao guru, como em uma seita. Isto é um erro. Por causa disso, nós renunciamos a toda habilidade crítica e responsabilidade por nós mesmos, e nos tornamos dependentes ao perguntar, muitas vezes, aos “mos” (mo, adivinhação com dados) – que joguem os dados e tomem todas as nossas decisões por nós.

Nós temos o objetivo de nos tornar budas, desenvolver a consciência que discrimina para ser capazes de tomar decisões inteligentes e compassivas. Então, se um/a professor/a apenas tem como objetivo nos tornar dependentes dele/a, como em uma luta de poder, há algo de errado aqui. E trata-se de um equívoco pensar que isso está okay e participar nisso, deste tipo de síndrome de poder e controle com um professor que não está realmente seguindo as orientações de forma apropriada.

Também é um equívoco projetar em um professor de budismo o papel de um pastor ou terapeuta com quem falamos de nossos problemas pessoais e buscamos conselhos. Este não é um papel de um professor espiritual budista. Um professor espiritual budista tradicionalmente dá ensinamentos e cabe a nós descobrir como aplicá-los. É realmente apenas apropriado perguntar sobre as questões que tem a ver com nosso entendimento dos ensinamentos e sobre a nossa prática de meditação. Se você tiver problemas psicológicos, você vai ver um terapeuta; não um professor espiritual. E o que é especialmente inadequado é discutir problemas maritais ou de relacionamento ou sexuais com um monge ou uma monja. Eles são celibatários. Não estão envolvidos com isso. Não são pessoas às quais se deve perguntar sobre este tipo de problemas. Mas novamente, nós esperamos – vindos de uma tradição na qual há pastores, padres, rabinos ou o que quer que seja, em nossas igrejas – que eles assumam esta função geral de nos guiar através das coisas de nossas vidas, lidando conosco naquele nível pessoal sobre nossas vidas pessoais e assim por diante.

Vou dar um exemplo. Eu estive com o meu professor espiritual Serkong Rinpoche por nove anos, de forma muito próxima; na maior parte do tempo, todos os dias. Nunca nesses nove anos ele me perguntou algo de pessoal. Nunca. Sobre a minha vida pessoal. Sobre a minha família. Sobre as minhas origens. Nada. Era tudo no dia-a-dia em termos de ou ele me ensinava ou eu trabalhava com ele para beneficiar pessoas – traduzindo para ele, organizando suas viagens, coisas do gênero. Então, era um tipo bem diferente de relacionamento, que para nós não é muito fácil de entender.

Em termos de trabalhar com o professor, isso nos traz para o tópico do refúgio, que eu gosto de chamar do “direcionamento seguro”. Trata-se de colocar um direcionamento em nossas vidas, indicado pelo Buda, Dharma e Sangha. É um equívoco em relação ao refúgio trivializar isso como se fosse apenas se tornar sócio de um clube. Vocês sabem como é, vocês cortam um pequeno pedaço de cabelo, recebem um pequeno fio vermelho, um novo nome, e agora fazem parte de um clube. Especialmente quando o professor é de uma específica linhagem tibetana, consideramos que o clube ao qual estamos nos associando é uma específica linhagem do budismo tibetano, ao invés de ser o budismo em geral. “ Agora eu meu tornei um Gelugpa.” “Agora eu me tornei um Karma Kagyu” “Agora eu me tornei um Nyingma.” “Agora eu me tornei um Sakya.” Ao invés de “Agora estou seguindo o caminho do Buda.” Por causa deste equívoco, nos tornamos sectários, exclusivistas, e nunca vamos a outros centros do Dharma. Realmente, isso é bem interessante. Vemos este fenômeno no ocidente: a maioria das pessoas apenas fica em um centro do Dharma e nunca vai a outros.

O que ainda é mais confuso é que cada professor que vem parece querer formar o seu próprio centro do Dharma e sua própria organização, o que é um grande erro, eu sinto, pois então isso se torna insustentável. Não se pode sustentar quatrocentos diferentes tipos de budismo indefinidamente no futuro – isto é muito confuso para novos alunos. E trata-se de um grande dreno financeiro e um peso dar suporte a todos esses locais com seus altares e suas livrarias, pagando aluguel, e assim por diante. No Tibete, embora viessem muitos diferentes professores e diferentes monastérios se estabelecessem, eventualmente eles todos se reuniam e formavam grupos distintos. Não os mesmos grupos que se tinha na Índia – não se tinha Kagyu ou Sakya na Índia – mas grupos que então se tornavam sustentáveis, que reuniam várias linhagens. Então, embora tenhamos grandes organizações no Dharma ocidental – em termos daquilo que foi iniciado pelo Trungpa Rinpoche, Sogyal Rinpoche, Lama Yeshe, Lama Zopa, etc. – precisamos, de certa maneira, ir mais nesta direção... Bem, torna-se muito difícil, pois há dois extremos aqui. Um deles é: se for fragmentado demais, não funciona. Por outro lado, se for regulado demais, também não funciona. Então, é preciso ser muito cuidadoso aqui, mas eu acho que a sustentabilidade é uma questão importante.

Em termos de não ir aos centros do Dharma, também se trata de um equívoco pensar que não podemos estudar com outros professores, mesmo de dentro da linhagem de nosso próprio professor. A maioria dos tibetanos têm muitos professores, não apenas um. Atisha teve 155 professores, está gravado. Diferentes professores têm diferentes especialidades. Um é bom ao explicar isso; um é bom ao explicar aquilo. Um vem desta linhagem; outro vem daquela linhagem. Não é ser desleal ao seu professor ter vários professores. Como diz a Sua Santidade o Dalai Lama: podemos olhar para nossos professores como o Avalokiteshvara de onze cabeças, cada professor é como uma face diferente, todos em termos de uma figura central sendo a nossa orientação espiritual. Algo assim.

Então, é muito importante não ter muitos professores que estão em conflito uns com os outros. Isso não funciona. Vocês têm que achar professores que têm um bom, – o que é chamado de dam-tshig em tibetano – um elo próximo entre si; que têm harmonia uns com os outros. Pois, infelizmente, há tais coisas que às vezes chamamos de uma “guerra nas estrelas” espiritual entre vários professores que discordam de forma muito violenta sobre algumas questões – seja sobre os protetores, ou sobre quem é o real Karmapa, ou o que quer que seja. Este tipo de coisas. Então, é preciso escolher professores que têm harmonia uns com os outros, se tivermos mais que um professor. E o que é essencial aqui é realizar que apenas escutar uma aula de um professor budista não automaticamente tornará esta pessoa o nosso professor espiritual com todas as implicações da devoção ao guru, embora tenhamos que lhe demonstrar respeito. Como diz a Sua Santidade, “você pode ir à aula de qualquer pessoa e assistir como se fosse uma palestra, como você assistiria a uma palestra na universidade.” Isso não implica em nada além disso. Okay?

Equívocos sobre a Prática

Agora, em relação à prática, é um equívoco pensar que a tradição Gelug é puramente uma linhagem de estudo e a Kagyu e a Nyingma são puramente linhagens de prática, e assim, se seguirmos uma delas, negligenciaremos o outro aspecto -negligenciaremos ou o nosso estudo ou a nossa meditação. Quando os professores enfatizam um ou o outro desses dois – estudo ou meditação – isso não quer dizer que devemos fazer apenas um deles e ignorar o outro. Está bastante claro que precisamos de ambos.

Recentemente, em uma audiência com o grupo de ocidentais que tinha estudado na Biblioteca (Tibetana) de Dharamsala nos anos 70 e 80, a Sua Santidade usou um exemplo muito bom. Ele disse que tantra, mahamudra e dzogchen – este tipo de práticas, são como os dedos de uma mão. A palma da mão, a base, são os ensinamentos na tradição indiana do monastério Nalanda, os ensinamentos dos mestres indianos Nalanda sobre sutra. O equívoco é colocar demasiada ênfase nos dedos – às vezes os professores fazem isso também – colocam ênfase demais nos dedos e se esquecem da mão. Os dedos são uma extensão da mão e não são funcionais se estiverem sozinhos. Esta foi a imagem, a analogia que a Sua Santidade usou, e eu penso que se trata de um conselho muito útil. É um equívoco pensar que “ bem, tudo o que tenho que fazer é praticar dzogchen; apenas sentar e ser natural e assim por diante.” Então, isso é simplificar demais esses tipos de ensinamentos sem ter a base.

Da mesma forma, trata-se de um equívoco pensar que somos Milarepas; que todos – especificamente nós – temos que fazer um retiro de uma vida inteira, ou pelo menos um retiro de três anos. Apenas poucas pessoas são aptas para uma vida de meditação a tempo integral; a maioria precisa se envolver no bem-estar social. Este é diretamente o conselho de Sua Santidade o Dalai Lama. É muito, muito raro que sejamos realmente aptos para passar nossas vidas em um retiro de meditação. Ou que possamos seriamente nos beneficiar de um retiro de três anos sem simplesmente sentar ali e repetir mantras por três anos, mas não realmente trabalhando em um nível profundo de nós mesmos.

É claro que a prática intensiva do Dharma a tempo integral é necessária para se liberar ou iluminar, e é um erro nos superestimar pensando que podemos alcançar a liberação ou a iluminação sem uma prática a tempo integral. Pensamos, “bem, eu posso apenas praticar em meu tempo livre e vou me libertar e iluminar”. Isso também é um equívoco. Mas também é um erro não ser objetivos conosco e com nossa capacidade de conseguir fazer aquele tipo de prática intensiva agora. Pois, o que acontece especialmente é que, se nos esforçarmos e realmente não formos capazes de fazer este tipo de prática, realmente nos tornamos frustrados, nós ficamos com aquilo que os tibetanos chamam de lung (rlung), energia frustrada e nervosa – e isso realmente nos confunde psicológica, emocional e fisicamente.

Então, isso também envolve um pouco o fato de não acreditar no renascimento, pois se não acreditarmos no renascimento, não estaremos olhando seriamente em termos de objetivos a longo prazo depois de muitas, muitas eras de prática. Há o ensinamento que diz que é possível atingir a iluminação nesta vida, mas isso não deveria ser uma desculpa para pensar, “bem, apenas temos esta vida, pois não há o renascimento” e, por isso, nos esforçar além do que somos capazes de fazer neste momento.

Também, olhando para o outro lado disso, é um erro subestimar a importância da prática de meditação diária. É muito importante, se queremos sustentar a nossa prática do Dharma, ter uma rotina diária de meditação. Há muitos, muitos benefícios disso em termos de disciplina; em termos de compromisso; em termos de trazer estabilidade para as nossas vidas; confiança: que sempre façamos isso todos os dias, não importa o que acontecer. Se seriamente queremos desenvolver mais hábitos benéficos – e é disso que a meditação trata – precisamos praticar.

A “prática” significa: em um ambiente controlado, pratique ser paciente, e assim por diante, imaginando diferentes situações, analisando quais são as causas de nossos problemas: “Por que estou chateado com esta ou aquela situação? Porque fico irritadiço quando estou doente? É porque...” Aí se vai mais e mais fundo, e vê-se. “Bem, estou focando em mim. Estou sofrendo. Pobre de mim.” Mesmo se não pensarmos conscientemente “pobre de mim” enquanto estivermos doentes, o nosso foco estará em “mim”- e faremos com que este “mim” seja forte. E então, por não gostarmos daquilo que estamos vivenciando, nos tornamos irritados e projetamos isso em outras pessoas. Então, isso é o que fazemos quando estamos meditando; analisamos isso, o que está acontecendo a cada dia. Uma prática diária na qual examinamos essas coisas, na qual trabalhamos em algum hábito benéfico de uma forma regular, isso é muito benéfico. É um grande equívoco pensar que podemos passar sem isso.

Também é um equívoco pensar que a prática budista significa apenas fazer um ritual e não primariamente trabalhar em nós mesmos. Muitas pessoas pensam assim. “Bem, eu vou fazer esta sadhana ou aquela sadhana” e recitá-la algumas vezes em tibetano – uma língua que nem mesmo entendemos – e pensamos que isso é prática. Dzongsar Khyentse Rinpoche, que esteve aqui alguns meses atrás, deu um maravilhoso exemplo. Ele disse que se os tibetanos tivessem que recitar orações e várias práticas todos os dias em alemão, escrito foneticamente com letras tibetanas, sem ter a mínima ideia do que estavam dizendo, ele duvida que muitos tibetanos realmente fizessem isso. No entanto, nós ocidentais fazemos isso, consideramos isso prática e cremos que isso basta. Uma verdadeira prática significa trabalhar em nós mesmos. Trabalhar para mudar nossas atitudes. Trabalhar com as emoções perturbadoras. Analisar. Entender. Desenvolver mais hábitos benéficos de amor, compaixão, e entendimento correto, e assim por diante.

Outro equívoco em termos de prática é pensar que para praticar o Dharma de forma apropriada temos que seguir os costumes tibetanos ou outros tipos de costumes asiáticos – em termos de ter um altar elaborado no estilo tibetano, ou um santuário, ou até mesmo um centro do Dharma. É claro que muitos tibetanos que vêm gostam de criar um centro do Dharma como uma gompa tibetana, um templo tibetano, com as cores das paredes e as pinturas e com... – vocês podem ver isso aqui nesta sala. Mas pensar que isto seja necessário... Como diria um tibetano, se os ocidentais gostam disso, por que não? Não fará mal... Mas pensar que é absolutamente necessário é um grande erro. Especialmente quando há um gasto tremendo, no qual o dinheiro poderia ser usado de uma forma muito mais benéfica de outras maneiras. Então, que seja em um centro do Dharma ou em nossa casa, e assim por diante, não precisamos de nada elaborado, no estilo tibetano, para praticar o budismo tibetano.

Embora a ênfase principal no Dharma seja eliminar para sempre as causas do sofrimento – isto é, a nossa ignorância, nossa inconsciência em relação à realidade, nossas emoções perturbadoras, este tipo de coisas – o equívoco é pensar que superar as emoções perturbadoras acontecerá rapidamente, esquecendo que ainda as teremos, em uma extensão que diminuirá gradativamente, durante todo o percurso até nos tornarmos um arhat. Apenas então, quando nos tornarmos um arhat, um ser liberado, seremos completamente livres da raiva e do apego e assim por diante. Se nos esquecermos disso, ficaremos desencorajados quando ainda acontecer de termos raiva após anos de prática. Isso é muito, muito comum.

É um erro não ter paciência com nós mesmos. Temos que entender que a prática do Dharma tem altos e baixos. E a longo prazo, podemos ter esperanças de melhorar. Não será fácil. Então, trata-se de um erro não ter paciência com nós mesmos quando tivermos os baixos. Por outro lado, temos que evitar o extremo de ser permissivos demais com nossos hábitos negativos e sermos negligentes ou preguiçosos em relação a trabalhar em nós mesmos. Então, um caminho do meio aqui seria: não nos mortificar quando ainda ficarmos com raiva, mas não apenas dizer “bem, estou sentindo raiva” ou “ estou com mau humor” sem tentar aplicar algum método do Dharma para superar isso.

É muito interessante ver ao que recorremos quando estamos com mau humor; o que procuramos como alívio. Será que recorremos à meditação? Será que recorremos ao refúgio? Ou será que comemos chocolate, recorremos ao sexo, à televisão, ou à conversa com amigos? Ao que recorremos? Eu acho que isso revela bem a nossa prática do Dharma – como lidamos com nossos episódios de mau humor.

Trata-se de um equívoco – e este é difícil – e é um mal entendido pensar que podemos nos liberar ou iluminar sem ter que superar a biologia, especificamente o sexo. Apesar do fato de que no tantra é possível, em estágios avançados, usar desejo e energia sexual para se livrar do desejo; mas isso ocorre apenas quando estamos em estágios extremamente avançados e temos controle sobre o nosso sistema de energia sutil. É um erro sério considerar o tantra como um método para ter sexo erótico. Estamos buscando a liberação. A liberação significa liberação disso – desse tipo de corpo físico com todos os seus impulsos biológicos, e assim por diante – e ter o tipo de corpo de um ser liberto e iluminado: feito de luz, e assim por diante, e não estar sujeito a essas limitações. Então, muitas vezes queremos nos liberar e iluminar de forma barata, sem ter que renunciar a esses tipos de prazeres do corpo. Então, este é um equívoco.

Equívocos sobre Tantra

Então, isso nos traz ao tantra, e há muitos, muitos equívocos a este respeito. Muitas vezes, esses equívocos vêm por causa do marketing. Tantra, dzogchen, essas coisas são comercializadas de forma muito inteligente como sendo caminho fácil, mais rápido, e tudo isso; o melhor caminho e assim por diante. E por causa deste marketing – quer sejam comercializadas por professores tibetanos ou vários praticantes ocidentais ou tibetanos – qualquer que seja a razão deles apresentarem isto desta forma, trata-se de um equívoco em relação ao tantra e ao dzogchen, por exemplo, que se trata de caminhos fáceis.

Estar atraídos por eles por esta razão – por pensarmos que são fáceis e rápidos – por que faríamos isso? Como apontou um de meus professores, poderia ser porque somos preguiçosos e assim queremos algo que seja fácil e rápido (não queremos fazer o trabalho) ou queremos encontrar uma pechincha. É como querer conseguir uma iluminação barata, da mesma forma que procuramos por descontos quando vamos fazer compras em uma loja. Temos aquela mentalidade frequentemente quando olhamos para vários métodos do Dharma. Qual é a promoção? O que está à venda esta semana? Este tipo de coisas. A prática do tantra e do dzogchen, e todas essas coisas, requerem uma tremenda quantidade de trabalho. São tremendamente difíceis. Muito, muito sutis. E todas elas especificam que precisamos fazer práticas preliminares, que não são fáceis – centenas de milhares de prostrações e assim por diante.

E trata-se de um equívoco, mesmo se aceitarmos que precisamos fazer essas práticas preliminares como a prostração, pensar que vamos alcançar milagres ao fazê-las. Isso também pode vir do marketing, ou poderia apenas ser de nossa própria superestimação do poder dessas preliminares. “ Estou tão desesperado. Apenas diga-me o que fazer. Okay, eu me jogarei ao chão cem mil vezes, repetirei algumas sílabas em outro idioma cem mil vezes, e então todos os meus problemas irão embora.” Este é um equívoco. Então, por desespero, você o faz, você o faz, você o faz, esperando que no final algum milagre acontecerá. E não acontece. Então, você fica completamente desiludido sobre as práticas do Dharma.

Agora, é claro, as práticas de purificação podem ser efetivas, mas não se 99% do tempo a sua mente estiver divagando e você não estiver focado naquilo que está fazendo. Ou se você não tiver uma motivação forte ou adequada.

Para que essas práticas sejam efetivas – e mesmo quando são efetivas, não produzem milagres – isso significa fazer isso de forma apropriada, com uma completa concentração e uma motivação plena e apropriada, e assim por diante. Isso não é fácil, não é mesmo? Ou apenas pensar, depois que fiz cem mil práticas, “Eu paguei as minhas dívidas, e agora vamos às coisas boas”. Então, novamente, de certa maneira, estou quase maldizendo essas práticas preliminares. Apenas quero acabar logo com isso. E não realmente vejo o valor que elas têm, em si e a partir de si, de desenvolver alguma força positiva. Como quando, sempre de novo, colocamos este direcionamento positivo em nossas vidas, o refúgio, reafirmando o Buda, o Dharma, e a Sangha. Esta é a direção para a qual eu vou. Sempre de novo gerando bodhicitta. Este tipo de preliminares é muito útil.

Também em termos das preliminares ngondro, é um erro fazê-las antes de ter um entendimento básico sobre o budismo, e portanto pensar que trata-se simplesmente de uma forma de purificar nossos pecados, como se fosse isso. Você vai a um professor – e isso ocorre frequentemente no ocidente – vamos ver um professor e imediatamente, antes de quaisquer ensinamentos, antes de qualquer entendimento, “façam cem mil prostrações!” E as pessoas fazem, o que é incrível. Então você se pergunta, “por que elas fazem isso?”. Geralmente, é porque estão desesperadas, pensando que algum milagre acontecerá a partir daí. Ou elas entram em algum tipo de seita e apenas obedecerão ao professor, como no exército. Este é um erro, pensar apenas que a relação com o professor é como a relação com algum oficial do exército: você apenas obedece sem questionar. É muito importante nunca perder a faculdade crítica. A Sua Santidade sempre enfatiza isso. Seja crítico. Isso não significa criticar, embora a palavra soe assim em português. Ser “crítico” significa examinar o que está ocorrendo. “Criticar” significa pensar, “eu sou tão melhor, e você é terrível”, menosprezando a pessoa com uma atitude muito negativa. Então, é importante termos a base, se quisermos fazer essas práticas de ngondro -quisermos fazer entendendo o que estamos fazendo.

E isso indica um equívoco maior, que é engajar-se prematuramente na prática do tantra, mesmo se começarmos com ngondro. Por exemplo, em tradições que apresentam uma forte ênfase no ngondro, nessas práticas preliminares, há um ngondro em comum ou compartilhado, que são os quatro pensamentos que voltam a nossa mente para o Dharma – basicamente, isso é o material lam-rim (o material sobre o caminho em etapas) – e aquela práticas incomuns, especiais, não compartilhadas, que são as prostrações e assim por diante. Então, pular ou trivializar ou minimizar essas preliminares compartilhadas (os ensinamentos lam-rim básicos) e apenas pular imediatamente para a prostração, e assim por diante, muitas vezes leva a, como eu digo, atitudes muito irrealistas em relação às prostrações e aos Vajrasattvas e assim por diante, e isso pode criar problemas. Depois de um tempo, você começa a questionar “Por que será que estou fazendo isso? Qual o sentido?” No entanto, se tivermos um entendimento anterior claro – pelo menos até um certo nível – da importância de desenvolver a força positiva, eliminando potenciais negativos (ou pelo menos minimizando-os) porque queremos alcançar este e aquele tipo de objetivo espiritual, então as preliminares fazem sentido.

Então, como eu digo, o problema aqui não é apenas entrar prematuramente no ngondro, mas entrar prematuramente no tantra. E isso ocorre tão, mas tão frequentemente por que... Pode ser porque pedimos a lamas que estão de visita para dar iniciações, mesmo se o nosso grupo não estiver preparado para ser capaz de praticá-las. Ou os próprios lamas que estão de visita oferecem iniciações, mesmo quando a maior parte da audiência está despreparada. Então, não somos totalmente responsáveis por esse equívoco de dar demasiada ênfase ao tantra e que a sua apresentação e prática sejam prematuras para a maioria das pessoas.

Por que pedimos por uma iniciação? Pode haver muitas razões. Pensamos que é tão elevado. Que esta é a coisa verdadeira. É exótico. Atrairá mais pessoas, o que significa que coletaremos mais dinheiro, para que possamos pagar o professor que está de visita e manter o nosso centro. Então, pode ser por razões de ordem financeira; e é bem lamentável que isso aconteça. Os próprios professores podem estar motivados ao pensar que “okay, eles não vão praticar, mas plantaremos sementes para as próximas vidas.” Bem, a maioria dos ocidentais não acredita em vidas futuras. Então trata-se de um mal-entendido. Ou os próprios professores não realmente entendem que os ocidentais não têm experiência nem conhecimento para ser capazes de praticar o tantra de forma efetiva. Ou novamente, eles podem estar sendo pressionados por terem que arrecadar dinheiro para manter o monastério e os monges. Pode haver muitas razões para isso. Mas o que sempre é aconselhado é que, se houver um professor de visita, deve-se pedir a eles os ensinamentos básicos. E se quisermos, ensinamentos mais avançados, como os ensinamentos dos sutras avançados, vocês sabem: ensinamentos avançados sobre bodhicitta, vacuidade, e assim por diante.

Também quando estivermos envolvidos com o tantra e quisermos instruções de como praticar, novamente trata-se de um equívoco pensar que a ênfase principal na prática é a visualização e nós nos preocuparmos muito em relação a fazermos todos os detalhes de forma correta. O meu professor, Serkong Rinpoche costumava usar um exemplo, caçoando do equívoco ocidental. Ele dizia, “as pessoas vem me ver perguntando se Yamantaka ou Vajrayogini tem um umbigo. Isto é ridículo. Isto mostra que estão perdendo a essência, quais são os pontos importantes nesta prática”

Claro, quando queremos desenvolver uma concentração focada, e assim por diante, precisamos de todos os detalhes, mas não é nisso que focamos ou enfatizamos no início. Queremos conseguir um entendimento básico – Tsongkhapa diz isso de forma muito clara – dos três aspectos principais do caminho.

  • A renúncia, renunciar à aparência comum, ao apego às coisas em termos de que existam com uma existência verdadeira, e assim por diante. Requer uma determinação tremenda ser livre, renunciar a isso.
  • Bodhicitta. Estamos buscando alcançar a iluminação. Essas figuras de Budas, esses yidams, representam a nossa iluminação futura que estamos buscando alcançar, então imaginamos que somos eles agora. Sem bodhicitta, por que você se imaginaria nesta forma e faria todas as atividades de beneficiar a outros? Então, obviamente, queremos que seja assim para beneficiar aos outros.
  • E todo o entendimento da vacuidade; que não existimos verdadeiramente agora, mas que (ainda assim) temos os potenciais. Temos que adicionar a causa e o efeito, a originação interdependente, e assim por diante. Não que eu seja Tara – nem a Cleópatra, por exemplo.

Então, se recebermos ensinamentos sobre o tantra, temos que ter certeza que se trata de ensinamentos neste tipo de nível. É isto que precisamos enfatizar. Qual o sentido de tudo isso? O que estamos tentando fazer? Por isso, precisamos de todas as preparações anteriores. Não devemos apenas nos preocupar com todos os mínimos detalhes da visualização. Como é a aparência das jóias, coisas desse gênero. Embora haja instruções de como é a aparência delas, não enfatizem isso, especialmente não no início.

É interessante: na iniciação do Kalachakra em Toronto, no Canadá, em 2004, a Sua Santidade deu ensinamentos sobre – eu me esqueci qual foi o texto, mas um dos textos de Nagarjuna – sobre a vacuidade, como a preliminar. Então isso durou três dias. E depois disso, ele deu a iniciação. O que foi notável é que muito mais pessoas estavam lá para a iniciação do que para os ensinamentos sobre a vacuidade. E a Sua Santidade disse que ele realmente apreciou aquelas pessoas que vieram apenas para os ensinamentos de Nagarjuna e não ficaram para a iniciação, mais do que quem fez o oposto disso – quem pulou os ensinamentos iniciais, básicos, e apenas veio para a iniciação. Então isso nos diz muito; realmente muito.

Em termos dessas práticas do tantra, é um equívoco olhar para os yidams como santos aos quais rezamos pedindo por ajuda, Santa Tara, Santo Chenrezig, e assim por diante, desta forma – e não se trata aqui de apenas um equívoco ocidental – e, neste sentido, adorá-los. Eles podem nos inspirar, como também os Budas e os gurus das linhagens, mas temos que fazer o trabalho nós mesmos.

Vejam bem, alguns dos equívocos vêm de um problema de tradução quando pedimos aos vários gurus e yidams, e assim por diante, para fazer orações. Antes de tudo, a nossa palavra oração carrega a conotação de rezar para Deus e “Deus, dai-me algo.” Ou rezar para um santo, e o santo será um deus intermediário para mim, então Deus me concederá algo. Podemos ver que aqui já estamos sendo enganados com um pouco de projeção. Mas quando fazemos pedidos, a palavra aqui é chingylab (byin-gyis rlabs) em tibetano e isso geralmente é traduzido como bênçãos. Bem, isso dá uma conotação completamente diferente e enganadora. Pedimos, “Abençoe-me para que eu seja capaz de fazer isso”, “Abençoe-me para que eu seja capaz de fazer aquilo.” como se apenas precisássemos que o poder dessas figuras viesse nos abençoar e, de repente, teríamos todas as realizações e assim por diante.

Isso não é budismo. O termo literalmente quer dizer elevar e esclarecer. Este é o significado. Adhisthana em sânscrito. Adhisthana – quer dizer colocar-nos em uma posição mais elevada; elevar. Isso tem a conotação de tornar mais claro. Então, prefiro traduzir isso como inspirar. Então, pedimos a eles que nos inspirem a alcançar isso e aquilo e mais aquilo. Mas essas figuras – que sejam gurus, Budas, ou yidams – não podem por si mesmas, por seu próprio poder, conceder-nos nossos desejos e fazer tudo por nós, de forma que apenas tenhamos que nos submeter a elas. Isso novamente é uma interpolação: projetar uma ideia ou um conceito ocidental no budismo. A ênfase principal é sempre que precisamos fazer o trabalho nós mesmos. Temos os Budas, os gurus – eles podemos nos inspirar, nos ensinar, nos guiar, mas eles não podem fazer o trabalho por nós. Nós mesmos que temos que entender.

Equívocos sobre Protetores

Semelhante a isso, é um equívoco enfatizar demasiado a prática do protetor. Muitas vezes isso ocorre. Em centros do Dharma, por exemplo, todas as semanas, eles fazem uma prática do protetor. Ou todos os dias, eles fazem uma prática do protetor. E até recém-chegados fazem a prática do protetor, sem ter a mínima ideia realmente daquilo que estão fazendo. E ver o protetor como alguém que nos protegerá (como a palavra proteger implica) de todos os obstáculos e perigos e assim por diante, e esquecer que precisamos nos proteger, em termos de... O que será que aconteceu com o karma e o refúgio?

Nós vamos em uma direção segura (Buda, Dharma e Sangha) para evitar renascimentos piores – os ensinamentos do escopo inicial. Em algum lugar isto foi dito nos ensinamentos, não foi? Vá para o Buda, Dharma e Sangha. E eles não nos protegerão no sentido de nos salvar. Eles nos ensinam o que fazer. Nós mesmos temos que fazer o que há para ser feito. Eles são o exemplo. E o karma: é evitar o comportamento destrutivo. O que significa ir na direção segura de Buda, Dharma e Sangha? A direção segura primariamente é o Dharma. Dharma refere-se – a Jóia mais profunda do Dharma – refere-se à terceira e quarta nobres verdades. E assim à verdadeira cessação das causas do sofrimento, e, portanto, à verdadeira cessação do sofrimento. E o verdadeiro caminho da mente que nos levará a isso – o entendimento da vacuidade, etc. – e os resultados disso. Esta é a direção para a qual vamos. E isso existe plenamente no contínuo mental de um Buda – os Budas, muitos Budas – e em parte no contínuo mental da Sangha Arya. E esta é a direção. Se fizermos isso, nos protegeremos do sofrimento. A palavra Dharma, em sânscrito, vem da raiz que significa para nos deter. Ele nos detém para evitarmos o sofrimento.

Não é que um protetor faz isso por nós. Um protetor é como um suplemento. Há muitas maneiras de ver os protetores. Serkong Rinpoche costumava descrever os protetores como um grande cachorro raivoso. Ele disse que se você estiver no centro de uma mandala como uma deidade – digamos Yamantaka, uma deidade realmente cheia de força – você precisa ser capaz de ter o poder de controlar esses protetores. Eles são como um cão selvagem. Embora você possa ficar parado na porta e afugentar os ladrões, por que fazer isso se você puder ter um cão que faça isso? Mas você tem que ser o mestre; você tem que estar no controle. Então, mesmos se pensarmos em termos de um protetor que nos ajuda, em termos de afugentar as interferências e os ladrões e assim por diante, somos nós que estamos basicamente no controle de tudo isso.

Em outras palavras, protetores, se acreditarmos que se trata de seres reais – e os tibetanos acreditam – se acreditarmos que se trata de seres reais, espíritos e o que quer que seja, eles podem proporcionar circunstâncias para que nosso próprio karma amadureça. Se não tivermos um karma para amadurecer, aquilo que eles fazem não ajudará. O mesmo ocorre ao fazer pujas do Buda da Medicina e coisas do gênero. Não será efetivo; não é a causa em si de nossa melhora. É uma circunstância para que nosso próprio karma positivo amadureça. Ou em alguns casos com protetores, trata-se de uma circunstância para que nosso próprio karma negativo amadureça de uma forma muito trivial, para que não chegue a se formar... Para que quaisquer obstáculos mais sérios que viríamos a ter no futuro e que impediriam o nosso sucesso sejam queimados. Isso pode funcionar de muitas formas.

Mas o erro aqui, o equívoco, é enfatizar demasiado as práticas do protetor; tornar isso uma coisa mais central do que Buda, Dharma e Sangha. E isso se torna quase uma adoração de algum tipo de espírito. E há muitos problemas que vêm a partir disso, como está ilustrado com a questão controversa do protetor entre os tibetanos. Então, temos que realmente ser muito cuidadosos com isso. E eu acho que não é muito sábio para um centro de Dharma ter uma prática pública do protetor todos os dias, ou todas as semanas, ou todos os meses, para a qual todos podem vir – novatos podem vir – porque... Especialmente se esses textos forem traduções; eles são bem pesados. “Esmague os intrusos, os inimigos” e assim por diante. Pode ser bem pesado e facilmente provocar equívocos. Então é necessário ser muito cauteloso com isso.

Equívocos sobre a Iniciação

Agora, em relação às iniciações em termos do tantra. Trata-se de um equívoco tomar uma iniciação do tantra sem examinar o professor ou a prática. E mesmo se nós os examinarmos, trata-se de um erro ou equívoco fazer a iniciação sem ter a intenção de realmente praticar o sistema do tantra. O propósito de uma iniciação ou um empoderamento é ativar e fortalecer – aumentar o os fatores da nossa natureza búdica para sermos capazes de exercer a prática de um sistema específico de uma deidade. Este é o único propósito disso. Os vários rituais e visualizações, e assim por diante, daquilo que está ocorrendo – ativam essas sementes, plantas e mais sementes, para que possamos exercer uma prática específica. Trata-se de uma iniciação para começar a prática.

Quando fazemos este equívoco, nós participamos de forma indiscriminada de qualquer iniciação proporcionada por qualquer lama para qualquer prática. E nós vamos ou por causa das bênçãos ou da pressão do grupo. Trata-se de um erro fazer isso. Ir a um empoderamento, uma iniciação, é coisa séria. E temos que examinar plenamente o professor. Será que quero estabelecer uma relação especial com este professor como o meu guru tântrico? A maioria de nós não faz ideia do que isso realmente significa. E será que quero fazer esta específica prática de deidade ao invés de alguma outra? Será que quero realmente isso agora ou será que realmente tenho a intenção de fazer isso depois? Mas apenas ir... – quero dizer, é claro que podemos ir da mesma forma que vamos a um evento antropológico. Você vai lá como um antropólogo para ver o que este tipo de nativos estão fazendo em um ritual nativo. Okay. A Sua Santidade diz que se você quiser ir, e ele chama isso assim, como um observador neutro, não há problemas. Mas apenas ir assim realmente trivializa o processo iniciatório.

E trata-se de mais um equívoco pensar que se formos assim para uma iniciação – como um evento antropológico, ou apenas pelas bênçãos, ou pressão do grupo: todos os outros estão indo, então temos que ir – é um equívoco pensar que recebemos os votos e comprometimentos por apenas estarmos presentes na iniciação sem conhecimento de causa e com a boa vontade de levá-los adiante. Você apenas recebe votos se você conscientemente levá-los adiante. Apenas estar lá não significa que você tomou os votos ou recebeu a iniciação. Os tibetanos levam seus cachorros com eles para a iniciação. Não significa que os cachorros fazem os votos e que a partir de então eles estão iniciados na prática. Quero dizer, é óbvio que eles os fazem por causa das bênçãos ou o que quer que seja. Mas será que queremos participar da iniciação apenas como um cachorro? Este é o ponto. Ou pensar, “ah, isso vai nos dar um barato”. Algo assim.

Por outro lado, é igualmente um equívoco pensar que podemos receber uma iniciação e exercer uma prática sem ter feito e mantido os votos. Um dos aspectos mais importantes de uma iniciação, de um empoderamento, são os votos. Está dito de forma muito clara em muitos textos: “Não há iniciação sem os votos.” Então, no mínimo, temos os votos de bodhisattva. Em todas as iniciações de todas as classes, incluindo dzogchen, Tsongkhapa e Atisha enfatizam que precisamos de algum tipo de nível de um voto ou uma prática de pratimoksha como base para isso, mesmo se forem apenas os votos de leigo. Não tem que ser nem mesmo todos os cinco votos – evitar matar, roubar, mentir, etc. Algum tipo de uma base de ética geral. E depois os votos de boddhisattva. E se for as duas classes mais elevadas de tantra, os votos tântricos. Isto é absolutamente essencial. E precisamos fazer isso de forma bastante séria, examinando: será que posso realmente manter esses votos?

Se houver um compromisso com a prática – às vezes há compromissos com a prática com uma iniciação – trata-se de um equívoco que poderemos negociar com o professor para diminuir o compromisso, como pechinchar com um lojista em um mercado oriental para obter um preço mais barato. Às vezes, eu realmente vi alguns ocidentais fazendo isso. Em Dharamsala, a Sua Santidade oferece um empoderamento e o compromisso é fazer a prática todo dia pelo resto de sua vida. Por exemplo, o Lama Chopa (O Puja do Guru). A Sua Santidade oferece ensinamentos sobre isso e o compromisso é fazer isso todos os dias pelo resto de sua vida. Então, os ocidentais querem ir, mas negociarão, ou tentam negociar – bem, temos uma vida atarefada, e assim por diante, será que temos que realmente fazer isso? Podemos apenas fazer de vez em quando, quando tivermos tempo? Eles tentam receber a coisa barata; a um preço mais em conta. Este é um grande equívoco.

Se vamos receber os ensinamentos, a questão é que queremos fazer a prática. Somos sérios a este respeito. Caso contrário, por que receber esses ensinamentos? Só por curiosidade? Não é por aí. Esses ensinamentos deveriam ser preciosos, algo de sagrado que você apenas aprenderia com a base de realmente querer fazer isso. É claro que isso se torna uma questão difícil com a Internet e os livros e coisas assim, porque do outro lado, como diz a Sua Santidade o Dalai Lama, de qualquer maneira, há tantas coisas disponíveis. E há tantas informações erradas sobre o Dharma e sobre o tantra, que é melhor ter a informação correta circulando. Como a Sua Santidade às vezes brinca, “é melhor ir para o inferno com um entendimento correto do que com um entendimento errado. Com um entendimento correto, você pula fora dele bem mais rápido.” Então, se isso é para ser compreendido literalmente ou como uma piada, eu não sei, mas isso nos dá algo para pensar. Porém, isso não é uma desculpa. Vamos receber esses ensinamentos. Há um compromisso nisso. Levem isso a sério.

Se há um compromisso de recitação diária, trata-se de um equívoco não levar isso a sério e pensar que podemos deixar de fazer um dia quando não temos vontade de fazer: “Eu apenas farei quando eu sentir vontade de fazer.” Ou comprometer-se com muitas práticas de toda uma vida sem considerar de forma realista se seremos ou não capazes de mantê-las. Este foi um erro muito, muito comum na Índia nos anos 70. Naqueles tempos, as iniciações eram dadas muito mais facilmente – as iniciações completas com o compromisso pleno das práticas – e nós ocidentais as recebíamos. Nós recebíamos esses empoderamentos e fazíamos esses compromissos, pensando que seríamos capazes de mantê-los sempre. E se você olhasse apenas dez anos mais tarde – sem falar em vinte, trinta, quarenta anos mais tarde – quantas pessoas realmente as mantiveram? E continuaram a fazê-las? Apenas um punhado. E mesmo naqueles dias, muitas pessoas tinham dificuldades em fazer a prática diária e a deixaram... Estavam ocupadas demais de manhã. Elas pensavam: “De manhã não é um bom momento para mim”. E elas deixavam para fazer à noite, e então tinham duas ou três horas de prática para fazer. E elas adormeciam durante a prática, sentavam e cochilavam, e levavam metade da noite para terminar. E a coisa se tornava uma tortura. Então, este é um grande problema.

Se vamos fazer compromissos de práticas, sejamos realistas a este respeito – em relação àquilo que de fato podemos fazer. E esses compromissos de prática, eles são sérios quando dizem que são para fazer todos os dias pelo resto de suas vidas. E por que queremos fazer isso todos os dias pelo resto de nossas vidas? Porque realmente levamos a sério alcançar a liberação e a iluminação. E entendemos o método tântrico básico – isso é muito importante. A Sua Santidade sempre enfatiza que se você estiver envolvido com tantra trata-se principalmente de ter confiança na efetividade do método. Senão, por que vocês fariam isso? Especialmente se você pensar que ele apenas inclui alguma visualização esquisita e murmurar alguns mantras, então depois de um tempo você desiste porque parece ridículo: “Por que estou fazendo isso?” Então, é importante realmente considerar se podemos ou não realmente cumprir esses compromissos.

E por último, trata-se de um equívoco da prática tantra considerá-la meramente uma recitação de um ritual ou meramente ume repetição de um mantra. Sem uma meditação forte sobre bodhicitta e vacuidade, teremos o equívoco: Eu apenas estou fazendo este ritual; eu apenas estou recitando “ blábláblábláblá”... Tentando visualizar – na maior parte do tempo, não conseguimos visualizar; é complicado demais. Então queremos fazer as versões mais fáceis e pensamos que algo realmente acontecerá baseado nisso. E muitas vezes torna-se apenas uma fuga para o País da Fantasia sem que este seja realmente um método efetivo para reunir todos os ensinamentos.

O tantra é uma forma de reunir todos os ensinamentos, de forma que durante o roteiro do ritual – neste ponto, você gera as quatro atitudes imensuráveis; neste ponto, refúgio, neste ponto, bodhicitta; neste ponto, você reafirma os votos; neste ponto (muitos, muitos pontos) você faz a meditação da vacuidade – em diferentes pontos do roteiro, geramos diferentes entendimentos e realizações do Dharma. Então, se você não praticou métodos do Dharma antes disso, quando houver o chamado no ritual para, apenas em algumas palavras, explicar, “agora eu tenho o entendimento sobre vacuidade” o que você faz? Então, você apenas está recitando palavras. Não adianta nada apenas recitar palavras. Então, a prática do tantra requer muito desse background. Trata-se de um erro pensar que basta fazer “blábláblá” com alguma recitação – que, de qualquer maneira, geralmente é feita com a mente dispersa.

Conclusão

Então, esses são alguns dos equívocos que vieram à minha mente apenas quando eu me sentei e pensei nisso. Tenho certeza de que há muitos, muitos mais que poderíamos listar. Como eu disse, há muitos equívocos que vêm simplesmente por causa da dificuldade do material; e este é especialmente o caso em termos de equívocos relativos à vacuidade, aos diferentes sistemas de asserções, e assim por diante. Um dos pontos sobre o Dharma é: o que quer que o Buda tenha ensinado foi para o benefício dos outros. Então, se levarmos isso a sério, tentamos descobrir quando é o propósito de tudo isso – de qualquer uma dessas coisas. Se não entendermos, perguntamos. Examinamos. Seguimos os métodos do Dharma.

Se houver alguns bloqueios mentais, então desenvolver mais força positiva é a forma de superar esses obstáculos mentais ou emocionais. Está dito muito claramente no texto, então temos que levar isso a sério. Trata-se de um equívoco não levar isso a sério. Não entendemos isso. Então, façam muita prática de Manjushri, por exemplo. E isso não significa apenas fazer “blábláblá” com o mantra, mas com uma clara visualização e imaginação de que a minha mente se torna mais e mais clara, com luzes vindo a nós na visualização, o que nos ajuda a imaginar isso de forma gráfica. Então, o que isso faz é estabelecer com uma grande força de vontade que a minha mente ficará mais clara; ficar inspirado para ficar mais claro. Isso pode ser uma grande ajuda. Mas apenas tentar e tentar e tentar sem confiar nos métodos do Dharma para superar esses obstáculos e bloqueios... [não ajuda sempre]. E isso provavelmente requer um grande esforço.

Eu costumava considerar algumas de minhas viagens – eu era convidado para muitos lugares para ensinar – como sendo retiros de bodhicitta. Eu ficava, de certa maneira, estagnado naquilo que eu estava escrevendo ou traduzindo, e então eu ia fazer uma turnê ou algo assim. E através disso – em termos de interação com os outros, tentando ser generoso com os ensinamentos, e assim por diante – [eu considerava que] isso desenvolveria uma certa quantidade de força positiva para voltar, e então a minha mente ficaria mais clara para superar os bloqueios que eu poderia estar tendo. Então, tentem olhar para as coisas desta forma.

Enfim, esses são alguns de meus pensamentos. Talvez vocês tenham algumas perguntas.

Perguntas

Pergunta sobre Como Devemos nos Relacionar com Ensinamentos que Parecem Mágicos

Pergunta: Às vezes soa muito mágico, aquilo que está sendo prometido, se você fizer isso ou aquilo. Como, por exemplo, eu li em algum texto sobre refúgio: você está protegido de seres humanos, não-humanos e todos os tipos de coisas que acontecem. Ou então você pratica este mantra e quarenta mil eras estão purificadas. Então, isso soa como um conto de fadas. E, por exemplo, em relação ao refúgio – eu sempre tenho esta pergunta para mim mesmo: o que significa quando eu me levanto pela manhã e tomo refúgio? Trata-se, novamente, de apenas conseguir aquilo que eu quero alcançar em minha vida – pois eu quero ir rumo à iluminação – ou trata-se apenas de uma espécie de espada mágica que criei para mim mesmo?

Alex: A sua questão traz dois pontos. Um deles diz: como nos relacionamos com alguns ensinamentos que soam muito mágicos? Como quando tomamos refúgio e estamos protegidos de seres humanos e não-humanos. E o refúgio neste Buda purifica a força negativa por quarenta mil eras; e naquele Buda, por trinta e cinco mil; e naquele outro, quinhentos e cinquenta e cinco mil – eu apenas estou inventando números – como os trinta e cinco assim chamados Budas da Confissão, e assim por diante. E você se pergunta: como será que eles pensaram nesses números? E como me relaciono com isso? Isso soa como magia.

Qual era o outro aspecto de sua pergunta?

Participante: Era sobre refúgio. Quando eu tomo refugio de manhã...

Alex: Ah, sim. Quando você toma refúgio de manhã, trata-se de tomar o direcionamento para nossas vidas de Buda, Dharma e Sangha, ou será, novamente, algum tipo de fórmula mágica que dizemos?

Bem, eu disse que as fórmulas mágicas realmente são um equívoco dos ensinamentos. Quero dizer, magia quase quer dizer que as coisas ocorrem sem nenhuma razão, e certamente isto não é aceito pela lógica budista – que um resultado possa ocorrer sem uma causa. Então, não temos a magia aqui. Se reafirmarmos o nosso direcionamento todas as manhãs, um direcionamento seguro e o refúgio, isto realmente está colocando uma intenção forte para aquilo que farei com o meu dia. Isto está enfatizado em tantos ensinamentos. Então, isto tem certo valor.

Pergunta: Então é disso que se trata?

Alex: É disso que se trata.

E isso me protege deste e daquele mal. Bem, se eu alcançar a liberação, as terceira e quarta verdades nobres, então estou fora do samsara, então não experienciarei nenhum sofrimento. Então, okay, podemos compreender isso assim.

Quanto a esses números, tenho que confessar que tenho uma grande dificuldade em aceitá-los de forma literal. E não realmente presto muita atenção nisso. Será então que estou sendo seletivo em termos desses ensinamentos? Não sei. Eu vejo isso mais em termos de: fazer isso é muito poderoso. Recitar isso – como está dito em alguns dos sutras do Mahayana – até mesmos recitar o nome de um bodhisattva desenvolve um mérito inumerável de tantas eras, e assim por diante. Então, okay, recitem-no ou façam algo assim, mas eu não posso imaginar que apenas ele... Ainda que dê a impressão que apenas recitá-lo será suficiente, eu realmente questiono se isso pode ser levado de forma literal. Eu penso que tem que haver algum entendimento do que o bodhisattva fez para se tornar um bodhisattva. Também os nomes deles realmente significam algo. Então, apenas recitar os nomes deles em sânscrito ou tibetano e não saber o que significam é um problema. Como com os números, como eu disse, pessoalmente, eu não presto muita atenção neles. Não importa se são trinta e cinco mil ou quarenta e cinco mil eras. Porém, não é que eu diria que isso é uma estupidez. Isso seria rebaixar os ensinamentos; certamente não é positivo fazer isso. Mas eu não vejo isso como uma parte essencial dos ensinamentos – quantas eras estão sendo purificadas para você.

Então, novamente, temos que aplicar o que achamos no Mahayana, que é a divisão entre os ensinamentos que podem ser interpretados e aqueles que são definitivos. Ensinamentos que podem ser interpretados literalmente quer dizer que eles nos levarão a um entendimento mais profundo; e definitivos é para onde eles nos estão levando. Então, os definitivos são a respeito da vacuidade, e todo o resto que nos leva para lá. Então, ao dizer que isso desenvolve trinta e cinco mil eras de força positiva e aquilo quarenta e cinco mil, eu penso que isso apenas nos encoraja a desenvolver força positiva que nos levará a um entendimento mais profundo. Então, eu entendo isso neste nível. E não penso nisso em termos de magia. Este é um ponto muito bom que você mencionou. Pois muitos lamas têm enfatizado a leitura de alguns dos sutras, e a recitação destes, que certamente é algo muito positivo: O Sutra da Luz Dourada, e assim por diante. E neles nós achamos esses trechos com os quais não é fácil lidar.

Participante: Gire a roda e isso pode curá-lo de câncer.

Alex: Bem, dizer "gire uma roda de orações e isso vai curá-lo de câncer”, eu acho que isso é um pouco ingênuo. Um pouco ingênuo.

Participante: Isso soa como magia. Se você tiver uma roda de orações ou...

Alex: Bem, não tem tanto a ver com magia. Eu quero dizer, vocês conhecem aquela piada? A piada que diz “que eu ganhe na loteria. Que eu possa ganhar na loteria...” Estamos rezando para Buda ou Deus. E Deus ou Buda ou quem quer que seja aparece e diz: “você tem que comprar um bilhete da loteria!”

Então, temos que desenvolver a causa. Assim, se desenvolvermos as causas em termos de força positiva e assim por diante – bem, pode ser que a roda de orações nos ajude a desenvolver uma atitude mais positiva e otimista que ajuda a fortalecer o sistema imunitário, e assim por diante. Mas apenas por si mesma, ela com certeza não pode nos curar de câncer. Isso é ingênuo.

Participante: Às vezes é isso que parece estar sendo dito.

Alex: É o que parece, mas é um equívoco, penso eu, de tomar tudo de forma literal. Embora haja pessoas que o façam. Mas os ensinamentos têm significados mais profundos. “Não confie em seu professor, mas confie em suas palavras. Não confie apenas nas palavras, mas em seu significado. Não confie em seu significado, mas em seu significado definitivo – aquilo para o que elas estão apontando.” Então, temos essas quatro confianças.

Alguma outra pergunta?

Pergunta sobre Lembrar aos Budas que nos Ajudem

Participante: Quando você recita uma oração, às vezes há uma ou duas frases que dizem, “ por favor, protejam-nos, Budas. Lembrem-se dos votos que vocês fizeram, protejam-nos e façam algo de bom para nós.” E eu sempre penso, bem, isso deve ser um erro ou algo que não foi expressado de forma adequada em nosso idioma, e assim por diante. Pois eu penso que é ofensivo fazer com que um Buda se lembre de seus votos. Ele conhece os seus votos. Então, eu não entendo por que estamos sempre lembrando isso aos Budas.

Alex: Então, ela disse que algumas das orações pedem aos Budas para “lembrar-se de seus votos de nos proteger”. Pessoalmente, eu não conheço textos que dizem algo assim dirigido aos Budas. Geralmente, há recitações para aqueles assim-chamados protetores juramentados. E trata-se de vários espíritos que foram domados pelo Guru Rinpoche ou outra pessoa e lhes foi dado um juramento de proteger os ensinamentos e os praticantes.

Participante: Também está no Buda da Medicina e na sadhana.

Alex: Okay. Então, está na sadhana do Buda da Medicina, com a qual não estou familiarizado, que nós lembramos ao Buda o seu voto de ajudar aos outros com a doença. E a sua pergunta é: por que precisamos lembrar aos Budas? Não precisamos lembrar a eles. É a mesma coisa – por que precisamos solicitar aos Budas que façam qualquer coisa? Eles farão de qualquer maneira.

Então, trata-se de tornar-nos mais receptivos e, de certo modo, nos lembrar que eles têm este voto e fizeram esses juramentos, para que tenhamos uma atitude um pouco mais positiva que fortalecerá o nosso sistema imunitário. Embora esta não seja a forma de o texto tradicionalmente explicar as coisas, mas é assim que essas coisas funcionam.

Participante: Será que isso também pode ter a ver com a tradução?

Alex: Se pode ter a ver com a tradução? Eu não sei. Eu teria que ver o texto.

Pergunta sobre Má Conduta Sexual

Pergunta: Existe um voto sobre má conduta sexual. A má conduta sexual sempre foi um grande mistério para mim. O que realmente é a má conduta sexual? O que os votos incluem ou excluem?

Alex: Esta é uma pergunta muito difícil, muito importante, em termos de comportamento sexual impróprio ou má conduta sexual. O que está de fato incluído nisso? E por quê? Quando olharmos para a evolução da explicação do voto, ou apenas para a explicação das dez ações destrutivas ou assim chamadas “não-virtuosas” sobre o comportamento sexual impróprio, descobrimos que, na história, mais e mais coisas são especificadas. Começando pela literatura em pali e então indo à Índia, mais e mais coisas são especificadas, e depois os tibetanos assumem o controle. E não é que a coisa se desenvolve de forma cumulativa; alguns comentários na Índia adicionam certas coisas e outros adicionam outras coisas, e então os tibetanos vêm e tomam diferentes peças disso e juntam tudo em diferentes apresentações e diferentes textos.

Então isso se torna uma questão difícil, não é mesmo? Porque a pessoa poderia – e eu quero dizer, eu mesmo tive muitas discussões com os Geshes tibetanos a esse respeito. A pessoa poder dizer, bem, será que essas coisas que foram adicionadas não estavam lá inicialmente? No início, era basicamente apenas sobre ter sexo com o parceiro impróprio – alguém que esteja sob o controle ou a guarda de outra pessoa, que seja um marido, um parente, o que quer que seja. E estava apenas especificado em termos de homens heterossexuais. Em termos de mulheres – não estava especificado em termos de uma praticante mulher. Então, obviamente, as coisas precisavam ser expandidas.

Assim, a ideia era que, se havia coisas sendo adicionadas, não poderia ser que mais coisas foram adicionadas e certas coisas tiradas? O que os Geshes disseram foi, basicamente, que apenas porque algo não havia sido especificado em uma versão mais antiga, isso não quer dizer que aquela não havia sido a intenção. Mais tarde, apenas foi especificado o que aquilo significava. Como eles sabiam o que aquilo significava? Esta é outra questão, é claro. Mas suponhamos que eles sejam grandes seres realizados e saibam o que produzirá sofrimento. A questão toda é minimizar o sofrimento que a pessoa causa a si mesma sob a influência de um desejo ardente, de emoções perturbadoras, e assim por diante.

Um Geshe, Geshe Wangchen, explicou isso de uma forma muito, muito legal. Ele é o tutor de Ling Rinpoche, a reencarnação do tutor mais velho da Sua Santidade. E ele explicou que aquilo que queremos fazer, com esses votos sobre o comportamento sexual impróprio, é colocar limites. Como eu disse em minha palestra, estamos buscando a liberação da biologia. Assim, em última instância, precisamos superar toda a sexualidade. Isso não significa que temos que nos tornar monges e monjas agora mesmo. Mas como um arhat ou um Buda, certamente não teremos sexo, e não teremos este tipo de corpo que teria os hormônios que nos levariam a ter sexo. Então, no final das contas, isso é parte do pacote de se tornar um ser liberto ou iluminado, quer gostemos disso ou não. Agora a pergunta é: será que colocaremos limites em nosso comportamento sexual com a intenção de eventualmente superar o desejo sexual? O que esses votos fazem é colocar limites. Então, se dentro de uma tradição os limites são colocados de tal e tal forma, como está especificado no texto – bem, esses são os limites. Como eu disse, se você não puder manter esses limites, tudo bem; ninguém força você a manter esses limites. Então você define um limite diferente. Mas a questão é definir um limite. Tipo, tudo bem, eu não vou me permitir absolutamente qualquer coisa sexual, qualquer desejo sexual, que me vem à mente, como um cachorro, mas eu vou exercitar alguma espécie de autocontrole. Não vou cegamente agir de acordo com os meus hormônios e meu desejo. Então, esta é a intenção de um voto – para que possamos superar, não importa como. Há um aspecto do desejo e do apego envolvido com o sexo, não importa o que dissermos, nem importa quanto amor estiver presente. Então, esta é a intenção dos votos.

Agora, o que está realmente especificado nos votos? Teríamos que ler isso no texto em si. No texto de sua linhagem. Isto é o que chamamos de especificar. Porém, só porque não está especificado – não diz que é impróprio ter sexo com animais – será que isto quer dizer que está tudo bem se você tiver sexo com animais? Com uma ovelha? Não. Só porque o texto não fala disso, não quer dizer que isso é bom. Então, a pessoa tem que analisar de forma um pouco mais profunda. O texto nunca fala sobre ser infiel ao próprio parceiro – apenas fala sobre ter sexo com o parceiro de outra pessoa – então, isso quer dizer que está tudo bem?

Esta coisa da ética sexual se torna muito, muito complicada e muito difícil. Pois ela diz que a prostituição está okay, enquanto você pagar pela prostituta, mesmo se você for casado. Então, isso não combina com a nossa ética ocidental. Então, podemos adicionar coisas que seriam impróprias? Pois, com certeza, de um ponto de vista ocidental, isso seria impróprio. Eu acho que sim. Eu acho que temos que entender o espírito geral do voto. Então, será que ele está culturalmente definido? Como, por exemplo, este tópico da prostituição? Esta é uma pergunta muito difícil de responder. Muito difícil de responder.

Mas eu acho que se alguém vai fazer o voto, ele precisa ler o que é o voto especificado no texto. Será que sou capaz de manter tudo isso? Se eu não for, então, como eu costumo dizer, faça uma dessas promessas de categoria intermediária que dizem que eu evitarei certos aspectos da coisa. E isto está bem; você está sendo honesto, não um hipócrita. Eu acho que o que causa problemas é ser hipócrita: fazer o voto, mas apenas mantendo parte dele. Pois então, sem dúvidas, sentimentos de culpa emergem, e eventualmente você apenas se sentirá como um hipócrita. Trata-se basicamente de fazer a sua própria versão do voto. Então, se você vai inventar a sua própria versão, não chame isso de voto – em termos de limite. Mas eu acho que é muito importante, em termos de conduta sexual, ter certos limites com o entendimento de que eu não vou ser apenas como um cachorro. Eu estou buscando superar estar sob o controle disso, pois isso apenas perpetua o karma, o renascimento, etc, e o sofrimento.

Trata-se de uma dificuldade. Com a qual nós, como ocidentais, muitas vezes tentaremos regatear. Como no mercado oriental, o mercado indiano, tentaremos conseguir um preço bom; queremos pechinchar.

Participante: De certa forma, ter sexo significa ser culpado. Pois você está fazendo algo que não leva à iluminação, ou algo assim...

Alex: Certo. Bem, isso é, mais uma vez, sentir-se culpado, pensar que o sexo é sujo, que não é o caminho para a iluminação, e assim por diante. Isso pode acontecer. Mas, novamente, isso vem do equívoco em relação à ética, como eu disse bem no início. Pensar que trata-se de leis e que você tem que obedecê-las, e se não obedecê-las você é uma má pessoa; e que o sexo, por si só, é sujo... Quero dizer, não é o ato sexual que é o problema. O problema é o estado mental. E o estado mental está sob a influência do desejo e do apego, independentemente de quanto amor possa estar envolvido também. Muitas vezes, isso é uma desculpa, uma justificativa.

Eu sempre aconselho: se você vai fazer sexo, apenas faça sexo. Não torne isso maior do que é, não fique preso demais ao desejo e exagere na coisa. “Sou um ser samsárico. Tenho essas funções corporais, e é isto que acontece, mas estou buscando algo melhor.” Não se trata de que seja algo ruim.

Isso entra na questão da renúncia e da determinação de ser livre, o escopo intermediário, que é muito difícil, este escopo intermediário lam-rim. No escopo inicial, eu quero ter um renascimento precioso humano. Mas depois, no escopo intermediário, olhamos para as desvantagens até mesmo deste precioso renascimento humano. Que até mesmo se eu tiver um precioso renascimento humano, terei todo um período no qual serei um bebê, que é bastante inútil. Há as doenças. Há a frustração. Estou sob a influência de hormônios. Todos esses tipos de desvantagens – o lixo, a bagagem que vem junto com este renascimento humano. Então, você quer superar isso e alcançar a iluminação, mas, ainda assim, você precisa do veículo do precioso renascimento humano para fazer isso.

Então, a questão é de não exagerar demais a ênfase e não olhar para isso em termos de uma consideração incorreta – considerar o que é basicamente sujo e confuso como sendo lindo e tão maravilhoso e etc. Não venerar o corpo. Então, dado o fato de que tenho um corpo como esse, tenho que comer, tenho que dormir, tenho que limpá-lo, e há certas funções sexuais que estão ali. Se eu não estiver no nível do compromisso, basicamente, de me tornar um monge ou uma monja celibatária, então, okay, eu farei sexo. Não se trata de que seja ruim. Não devo me sentir culpado por isso. Mas eu uso isso como uma base na qual eu ponho limites. Então, o fato de que coloco limites no meu comportamento sexual... Da mesma forma como posso vir a colocar limites na quantidade de comida que vou ingerir, e não ser um porco e me empanturrar e ficar obeso, da mesma forma, posso também por limites ao meu comportamento sexual – como com certas coisas que eu evito. Pois eu vejo, bem, que é apenas ter um desejo. Então, desta forma, você não se sente culpado em relação a sexo.

Isso é muito delicado para nós ocidentais, especialmente vindos de muitas tradições que talvez considerem o sexo como algo sujo ou como a melhor coisa do mundo – por exemplo, que se pode chegar à iluminação tendo um orgasmo perfeito. Então, nós nos movemos em um chão muito delicado aqui quando lidamos com esta questão sexual. Mas, como eu digo, se você fizer sexo, não torne a coisa maior do que é. Não faça demais. Não exagere. A coisa é o que é. Nada mais. Okay?

Então, vamos terminar aqui com uma dedicação. Pensamos que qualquer entendimento, qualquer força positiva que veio disso, possa se aprofundar mais e mais e agir como causa para alcançar a iluminação para o benefício de todos.