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Trazendo o Budismo à Terra

Alexander Berzin
Munique, Alemanha, Junho de 1996

Sessão 3: O Não-Apercebimento da Realidade

A Segunda Verdade Nobre – Verdadeiras Causas do Sofrimento

Assim como examinámos a Primeira Verdade Nobre, com aceitação e de uma maneira mais pessoal, precisamos também de examinar as outras três Verdades Nobres da mesma forma, de modo a que nossa prática budista nos toque pessoalmente de uma maneira muito mais significativa e transformadora.

Depois de termos reconhecido as dificuldades das nossas vidas e, em determinado sentido, dado um certo apoio emocional a nós próprios, vamos examinar a Segunda Verdade Nobre, as causas do sofrimento. Precisamos de saber qual a causa do entupimento do cano que não está a funcionar, por forma a podermos repará-lo. É muito importante, quando procuramos as causas dos nossos problemas, fazê-lo de uma maneira pessoal, do ponto de vista do caminho do meio. Ou seja, não queremos pôr a culpa apenas em coisas externas: “eu sou assim porque a minha mãe fez-me isto e aquilo quando eu tinha três anos de idade e a sociedade fez isto e a economia fez aquilo”. Por outro lado, não queremos negar esses fatores totalmente, dizendo “é tudo por minha causa” e colocando toda a culpa sobre nós de uma maneira pesada.

Quando falamos sobre a nossa própria ignorância como a causa mais profunda dos nossos sofrimentos e problemas, então é muito fácil distorcer essa verdade, pensando: “eu sou estúpido; sou mau; não sou nada bom. Por isso eu sou culpado”. Tudo isto vem porque pensamos em termos de um EU sólido que é sempre um estúpido que faz tudo errado – o mau. Eu prefiro usar “nós não estamos cientes da realidade”, em vez de “nós somos ignorantes”. Isto talvez nos possa ajudar a reduzir o tom julgador da Segunda Verdade Nobre, as causas verdadeiras das nossas dificuldades na vida.

Para aprofundarmos mais e mais, de uma forma mais saudável, a nossa visão das verdadeiras causas das dificuldades das nossas vidas, temos de combinar a Segunda Verdade Nobre com a compreensão da vacuidade. Não há nenhum EU sólido cá dentro, que é o estúpido que criou esta confusão – o EU sólido que estragou tudo e que é realmente um idiota. Geralmente usamos palavras muito mais fortes nas nossas mentes.

Embora possamos descobrir a fonte das dificuldades das nossas vidas na nossa própria falta de apercebimento, isso não nega o surgimento dependente. Nenhum dos nossos problemas foi causado por uma só coisa – como no exemplo do balde que não fica cheio nem pela primeira nem pela última gota de água. Do mesmo modo, nenhum dos problemas da nossa vida é causado por uma só coisa, com uma linha grande e sólida à sua volta, e nada mais afetou a situação. Não é assim. Tudo surge dependentemente de muitos fatores; por isso há uma combinação da nossa confusão e falta de compreensão juntamente com a sociedade e a economia e o que a minha mãe fez. E todas essas gotas juntas encheram o balde da nossa vida difícil.

Quando dizemos que a causa raiz do sofrimento é falta de apercebimento, o que nos estamos a referir é que o não-apercebimento – o não entendimento da realidade ou o seu incorreto entendimento – é a causa mais profunda do nosso sofrimento e, se quisermos mudar a situação, é disto que realmente temos de nos livrar porque as outras causas e condições ou vêm desse não-apercebimento ou são algo que é impossível mudarmos. Não podemos mudar algo que as nossas mães fizeram quando tínhamos três anos de idade. Isso já passou, já acabou; isso é história. É muito importante trabalharmos com a Segunda Verdade Nobre deste modo não-julgador, aplicando os ensinamentos da vacuidade e do surgimento dependente.

Vocês entendem a ideia geral? O processo é muito semelhante àquele que já percorremos em relação à Primeira Verdade Nobre. Olhamos cá para dentro e vemos que “certo, estou confuso e não sei o que estou fazendo na vida”, mas tentamos reconhecer isto sem nos auto-criticarmos. É uma coisa delicada. É como se nos tivessemos cortado ao descascar vegetais; podemos aceitar que nos cortámos sem fazermos juizos de valor acerca disso: “Oh, sou tão estúpido, sou tão mau…” Se calhar não fomos cuidadosos ou o que quer que seja, mas aconteceu. Essas coisas acontecem. Nós simplesmente aceitamos isso. Além disso, não nos cortámos só por não termos prestado atenção. Isso aconteceu dependentemente também da circunstância da faca estar muito afiada. Se a faca não estivesse tão afiada, não nos teríamos cortado. Aconteceu também dependente do fato de que estávamos com fome e temos um corpo humano que tem de ser alimentado diariamente. Se não tivéssemos isso, repito, o acidente não teria acontecido.

O mesmo é verdade em relação a todos os problemas da nossa vida. Eles surgem de uma combinação de todas estas coisas, como no exemplo do fato de que nós não somos maus lá porque nos cortámos. Uma vez mais, podemos fazer isto usando o método de alimentar o demónio. Quando formos capazes de fortalecer este aspecto não-julgador para conosco sobre as causas dos problemas da nossa vida, então poderemos também fazer isso com os outros. Vamos tentá-lo.

[pausa]

A Terceira Verdade Nobre – O Verdadeiro Parar do Sofrimento

Com a Terceira Verdade Nobre, estamos a lidar com a possibilidade de acabarmos verdadeiramente com os nossos problemas. Isso é o que a palavra cessação significa – nós podemos acabar com os nossos problemas, nós podemos livrar-nos deles. Em inglês, a palavra cessação não tem muito significado para a grande maioria das pessoas. É uma palavra demasiadamente grande e raramente usada. Não é uma palavra comum, de modo que a maioria de nós não sabe o que ela significa. A minha mãe certamente não saberia o significado dessa palavra, nem nunca a usou durante a sua vida. Assim, vamos chamar a Terceira Verdade Nobre o “verdadeiro parar”.

A questão aqui não é só de termos uma paragem dos nossos problemas, mas também das causas dos nossos problemas. E não estamos apenas a falar sobre um problema específico, porque obviamente todos os problemas específicos irão acabar. Quando cozinhamos uma refeição e a comemos, o problema específico da nossa fome naquela altura irá acabar. No entanto, um problema maior é o de voltarmos a ficar com fome outra vez. Por conseguinte, queremos obter uma paragem do problema recorrente e das causas recorrentes desse problema. A causa da minha fome esta noite irá, é claro, desaparecer quando eu jantar. Contudo, a minha fome não irá acabar de uma vez por todas quando, hoje à noite, eu tiver acabado de jantar. Não estamos a falar àcerca da eliminação da causa de um problema particular, como o de estarmos com fome neste momento. Estamos a falar sobre a eliminação do contínuo surgimento da causa. Essa é aqui a questão principal.

A questão é: “acredito que é realmente possível livrar-me do fluxo incontrolavelmente recorrente da continuidade da causa dos meus problemas? E, se acredito que isso é possível, como é que realmente me livro dele?” Ou seja, é realmente possível obter a liberação e alcançar a iluminação?

Estas são questões muito difíceis. Se não estivermos convencidos, pelo menos a um certo nível, de que é possível obter para sempre a liberação dos nossos problemas, então o que é que estamos a fazer no budismo? Estamos a ter por finalidade o quê? Estamos apenas objetivando para a realização de uma fantasia que não acreditamos ser possível de alcançar? Se for esse o caso, então, transformarmo-nos num Buda e tornarmo-nos liberados não passa de uma simples fantasia de uma criança. E estaremos a enganar-nos a nós próprios, desperdiçando o nosso tempo ao tentar alcançar algo que não acreditamos ser possível alcançar. Esta é uma questão séria.

Infelizmente, a linha de raciocínio para compreendermos como é possível obter a liberação e a iluminação é muito difícil. Está relacionada com a apresentação da filosofia Prasangika de que uma verdadeira paragem é equivalente ao vazio. É realmente muito difícil de compreender. Por conseguinte, o que é que isso significa para nós, agora? O que isso significa, no contexto deste curso de fim de semana, é que não vamos compreender imediatamente como é que a liberação é possível. Vai ser um processo longo; mas, a não ser que compreendamos que é possível, não iremos ficar convencidos disso. Se não estivermos convencidos disso, não iremos senti-lo, como já discutimos ontem – através do processo de como aceitamos algo depois de o termos compreendido. O que isso significa é que temos de temporariamente aceitar este ponto com base na fé – que a liberação e a iluminação são possíveis. Esta é uma forma temporária de trabalharmos com isto.

Então isto é “fé cega”? “Eu acredito! Aleluia!?” Como é que acreditamos nisto? Algumas pessoas podem responder: “eu posso acreditar nisso porque o meu guru é um Buda. Eu vejo nele a iluminação, por isso é possível”. Isso não é muito estável para a maioria das pessoas porque podemos ver várias falhas em muitos professores espirituais muitíssimo avançados. Às vezes, erram. Temos de diferenciar entre – e mais adiante falaremos disso – toda a discussão de “o guru é um Buda do seu próprio lado” ou “será que ser o guru um Buda é algo que surge dependentemente do relacionamento entre o estudante e o professor?” Obviamente é o segundo caso. As coisas surgem dependentemente de um ponto de vista. Ser-se um Buda não é um absoluto, estabelecido do lado do próprio professor, como um fato a ser levado literalmente. O que acontece na prática é que descobrimos que muitos destes professores que nós pensávamos que eram tão maravilhosos cometem erros. E depois ficamos decepcionados e desiludidos e podemos começar a pensar que a iluminação não é possível.

Aplicando a Abordagem dos Estágios Graduais do Lam-rim à Crença de que a Liberação é Possível

Podemos usar a estrutura básica do Lam-rim, os estágios graduais do caminho, para nos ajudar a lidar com este dilema de acreditar que a liberação e a iluminação são possíveis. A versão do Lam-rim de Atisha apresenta três níveis de motivação – três alvos, três objetivos. O mais elevado é a iluminação e o médio é a liberação. Também há um nível inicial de motivação, que é renascer-se num dos melhores estados de renascimento. Se quisermos colocar esse alvo inicial numa linguagem um pouco mais simples sem termos de lidar diretamente com o renascimento, basicamente é a motivação de melhorar o samsara – de melhorar a nossa existência samsárica. Antes de podermos pensar em melhorar as nossas vidas futuras, precisamos de primeiro pensar em melhorar esta vida.

[Ver: “ Dharma-Lite” contra o ”Dharma a sério”.]

Aqui, o que é importante é sermos honestos conosco e não sermos espiritualmente pretensiosos. Na verdade, eu penso que, entre os praticantes budistas, muito poucas pessoas podem sinceramente dizer que têm como objetivo a liberação e a iluminação. Se realmente tivermos a liberação como objetivo, isso significaria que teríamos uma renúncia perfeita. A maioria das pessoas nem sequer quer ouvir falar sobre a renúncia, muito menos obtê-la!

O que estamos a renunciar não é o chocolate ou a televisão. O que estamos a renunciar é a causa dos nossos problemas que basicamente são, ao nível inicial, os traços negativos da nossa personalidade e o comportamento destrutivo que deles emerge. É isso o que precisamos de abandonar: a nossa raiva, o nosso egoísmo, a nossa avidez, as nossas defesas. A maioria de nós não está disposta a abandonar nada disto. Queremos adicionar mais coisas no topo das nossas vidas – felicidade e todas essas outras coisas agradáveis – mas sem termos de abrir mão de coisa alguma. Assim, sem a renúncia, quando dizemos “estou apontando para a iluminação, estou apontando para a liberação” não estamos a ser muito sinceros.

É aqui que temos mais uma pincelada a dar nesta questão do “dever”. O que a maioria de nós pensa é: “Eu DEVIA ter como objetivo a iluminação porque, se não o fizer, então sou um mau praticante e o meu guru não vai gostar de mim”. Isso é um pouco infantil, não é? O que precisamos de tentar compreender é que o escopo inicial, o primeiro nível de motivação de termos como objetivo melhorar o nosso samsara, é perfeitamente legítimo. É aceitável estarmos no primeiro nível. De fato, estarmos no primeiro nível é uma grande realização. A maioria das pessoas nem se preocupa em tentar melhorar esta vida, muito menos vidas futuras. E, aqui, não estamos a falar em melhorar a vida economicamente, mas em termos do nosso desenvolvimento interno. A maioria das pessoas deste mundo não está interessada nisso. Apontar para isso é aceitável e, nessa base, podemos começar a prática de Dharma e podemos tentar compreender, num longo período de tempo, que é possível obtermos a liberação e a iluminação, porque pode ser difícil tornarmo-nos realmente convencidos disso.

Ou seja, é mais honesto pensar: “eu realmente não posso dizer que tenho como objetivo a liberação e a iluminação neste momento, porque não estou realmente convencido de que é possível alcançá-las e não quero trabalhar apenas para um conto de fadas. Por conseguinte, o meu objetivo é tentar compreender que isso é possível, porque então poderei trabalhar sinceramente para isso. Entretanto, vou trabalhar ao nível de tentar melhorar a minha situação samsárica, a situação difícil da minha vida e, a respeito disto, tenho alguma confiança de que é possível pelo menos enfraquecer as causas dos meus problemas e eliminar determinadas coisas que são um pouco mais fáceis do que eliminar a minha confusão”. Esta forma de pensar permite-nos realmente trabalhar com um professor espiritual de uma maneira que penso ser mais saudável.

Agora, não é importante que o professor seja ou não realmente liberado ou iluminado. Essa já não é a questão vital. Em vez disso, a questão é que essa pessoa é muito mais desenvolvida do que nós, alguém que, na maior parte das vezes, realmente diminuiu a sua confusão, raiva e assim por diante. Precisamos de pensar: “mesmo se às vezes essa pessoa possa errar e agir de um modo emocionalmente um pouco perturbado, isso é aceitável. Mais tarde, quando eu estiver mais avançado no caminho, lidarei por forma a me relacionar com isso em termos de `o meu professor está tentando ensinar-me algo' e tais coisas. Vou lidar com essa questão mais tarde. Agora, neste nível, é suficiente que eu possa reconhecer que ele é um ser muito desenvolvido. Se o meu professor é perfeito ou não, isso na verdade não me importa agora. Ele pode inspirar-me a progredir pelo seu modo de ser”.

Embora isto não seja explicado deste modo nos ensinamentos budistas, penso que, como pessoas ocidentais, é muito útil usarmos isto como um estágio no nosso desenvolvimento espiritual, porque, como ocidentais, muito frequentemente vemos as coisas em termos de preto e branco. Ou seja, ou o professor é um Buda perfeito ou pensamos: “nem pensar no caminho espiritual, porque eu o vi cometer um erro”. Para evitarmos esse extremo, e também o extremo de dizermos que estamos trabalhando para a liberação e a iluminação quando na verdade não estamos, penso que esta etapa intermediária é muito útil.

Descobri, na minha própria prática pessoal que não importa se os meus professores são realmente Budas ou não, ou se têm todas as qualidades do Buda ou não. Podem andar através de paredes, voar pelo ar e multiplicar-se em dez mil milhões de formas? Eu realmente não me importo. Não me faz diferença nenhuma. Mas o fato de que são muito mais desenvolvidos do que eu, pelo que posso observar e com o que me posso relacionar, como eles lidam com as pessoas, como lidam com a vida e assim por diante, isso mostra-me que eles são muito mais evoluídos do que eu. Isso dá-me a convicção de que é possível conseguir o mesmo.

Este é um nível por onde podemos começar a trabalhar. Penso que ele é muito mais acessível. Convencermo-nos de que este nível de travar as causas dos nossos problemas é possível – mesmo que não seja a verdadeira paragem para se alcançar a liberação – é suficiente para nos permitir funcionar como uma pessoa dentro do escopo inicial de motivação. Este é um nível perfeitamente legítimo de estarmos na nossa prática espiritual e um nível necessário no início. Ou seja, quando vemos um professor de alto nível, começamos a ficar convencidos de que é possível conseguirmos pelo menos algum nível de paragem das causas dos problemas, mesmo que não seja uma verdadeira cessação com a qual alcançamos a liberação. Termos convicção na possibilidade deste nível de paragem das causas dos problemas dá-nos a confiança de sermos capazes de funcionar sinceramente como uma pessoa dentro deste nível de motivação inicial. Este é um estágio muito necessário. Não só é aceitável, mas é um estágio necessário que precisamos de atravessar a fim de termos um desenvolvimento espiritual estável.

Então, no início, o que precisamos é de evitar saltar diretamente para o nível mais elevado de motivação, para não ficarmos desiludidos e cairmos para o chão. Este é um padrão ocidental muito típico do encontro de um estudante com o budismo. Evitamos essa situação não sendo pretensiosos e trabalhando primeiro para melhorar o nosso samsara que, apesar de tudo, é geralmente o motivo por que as pessoas sinceras ingressam no budismo – nós não estamos apenas praticando o budismo como uma espécie de esporte. Este é o primeiro nível de participação sincera no budismo.

Então, chegamos à Quarta Verdade Nobre: a fim de causar esta auto-transformação, nós próprios temos de fazer algo. Precisamos de ser ativos; ela não vai simplesmente acontecer de repente, sem causa alguma, sem nenhum esforço. Na verdade, temos de nos transformar a nós próprios.