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Trazendo o Budismo à Terra

Alexander Berzin
Munique, Alemanha, Junho de 1996

Sessão 7: A Prática Tântrica

Tantra é uma Prática Avançada

Nesta nossa última sessão vamos falar um pouco sobre o tantra. Nós também precisamos de trazer o tantra à terra.

Ao aproximarem-se dos ensinamentos tântricos do budismo tibetano, as pessoas do Ocidente caem frequentemente em um de dois extremos. Um extremo é o de terem medo deles e de não quererem ter nenhum envolvimento com o tantra. O outro extremo é o de quererem mergulhar imediatamente para dentro do tantra. Estes dois extremos têm as suas falhas.

O tantra é uma prática extremamente avançada. Não é algo de que se deva ter medo nem algo onde se deva ingressar prematuramente. A nível do sutra, nas nossas iniciais práticas budistas, o que fazemos é aprender a desenvolver muitas qualidades diferentes que nos ajudarão a melhorar o samsara, a alcançar a liberação ou a nos tornarmos um Buda a fim de podermos ajudar os outros tão inteiramente quanto possível. Atingir estes objetivos requer o desenvolvimento da concentração, do amor e da compaixão, uma compreensão correta e profunda da impermanência, da vacuidade, da renúncia, e assim por diante. Tudo isto é absolutamente necessário pois são as causas da obtenção desses objetivos. Embora possamos descrever o tantra de muitas formas diferentes, um aspecto da prática tântrica é que [ela] é um método de unir e praticar tudo isto simultaneamente.

[Ver: Compreender o Tantra.]

Não podemos obviamente praticar todas estas coisas simultaneamente se as não tivermos anteriormente desenvolvido uma a uma. Entrarmos diretamente na prática tântrica sem termos previamente desenvolvido estas qualidades irá simplesmente degenerar numa prática ritual sem nenhum conteúdo ou profundidade. Para realmente obtermos qualquer benefício profundo de um ritual, temos de o ver como uma estrutura unificadora de todas as qualidades que nós temos vindo a desenvolver.

Precisamos por exemplo de dar uma direção segura e positiva de refúgio nas nossas vidas. O que estamos fazendo com a prática de um ritual tântrico? Apenas isso: estamos indo nesta direção segura, tentando através do ritual o desenvolvimento de nós próprios. Não estamos fazendo o ritual como um divertimento ou como uma distração, como ir à Disneyland, ou como um escape para as nossas vidas quotidianas. Pelo contrário, estamos usando a prática ritual como uma forma de ajudar o nosso auto-desenvolvimento a fim de alcançarmos os vários objetivos budistas. Estes objetivos são as Três Jóias de Refúgio: o que Buda ensinou, o que ele conseguiu por completo, e o que o altamente realizado Sangha conseguiu em parte.

A Necessidade da Renúncia

A renúncia é outra parte extremamente necessária de qualquer prática tântrica e, deste modo, necessitamos também de salientar aquilo a que ela se refere. A renúncia tem dois aspectos. Um é a forte determinação de nos livrarmos dos nossos problemas. Esse aspecto permite-nos usar a prática tântrica como um método para nos libertarmos dos nossos problemas através da obtenção da iluminação. Se não tivermos esse aspecto de renúncia, essa determinação de estarmos livres, seremos incapazes de aplicar as práticas a nós próprios como uma parte integral do nosso percurso espiritual.

O outro aspecto da renúncia é a disposição de abrir mão não só do nosso sofrimento, como também das causas do nosso sofrimento. Isso é muito importante. Se não estivermos dispostos a abdicar das causas do nosso sofrimento, não haverá outra forma de nos livrarmos desse sofrimento, não importa o quanto pretendemos nos livrar dele. Infelizmente, a causa do nosso sofrimento não é apenas algo trivial, como ir ao cinema ou comer chocolate ou até fazer sexo. É algo que é totalmente abrangente na nossa vida. A um certo nível, são todos os traços negativos da nossa personalidade – toda a nossa raiva, apego, arrogância, ciúme e assim por diante. Se formos um pouco mais fundo, inclui a nossa insegurança, a nossa ansiedade e preocupação. E se formos ainda mais fundo, é a nossa confusão – são todos os conceitos errados que temos acerca de nós e acerca de tudo na vida.

Ainda mais profundo do que isso, o que precisamos realmente de nos livrar é do nosso habitual tipo de mente, que faz com que as coisas pareçam de uma maneira que não está de acordo com a realidade. Com base nestas chamadas “aparências impuras”, o nosso não-apercebimento de que elas são enganadoras e falsas faz-nos então acreditar que elas são verdadeiras. Todos os nossos problemas vêm daí.

Não é a mente em si que é o problema; é este funcionamento ou esta atividade mental que provoca o surgimento destas aparências enganadoras e a nossa errada crença de que estas aparências são verdadeiras. Por conseguinte, a causa dos nossos problemas também não são as próprias aparências que a mente produz. É um grande erro pensar-se que o problema está nas próprias aparências. Pensar-se dessa forma é uma falha que vem da má interpretação da palavra tibetana nangwa, que pode significar “aparências” ou “produtor de aparências”.

Quando falamos sobre a libertação de “aparências comuns” ou “aparências duplas”, não estamos falando sobre um substantivo; não estamos falando sobre aparências “aí fora”. Estamos falando sobre um modo de estar ciente de algo; estamos falando sobre um verbo. Especificamente, estamos falando sobre a função da mente que faz com que as coisas apareçam de uma maneira que não está de acordo com a realidade. É disso que nos estamos tentando livrar; é disso que estamos tentando conseguir uma verdadeira paragem. E, infelizmente, a vida é difícil – as nossas mentes fazem constantemente as coisas aparecerem [em termos] irracionais, sem começo.

Por exemplo, mesmo se tivermos algum entendimento sobre a impermanência e de nenhum self sólido, quando nos levantamos de manhã e nos vemos ao espelho, as nossas mentes fazem parecer como se fôssemos idênticos à mesma pessoa que éramos na noite anterior. Parece que somos permanentes. Ou acabámos de magoar o pé e a nossa mente faz com que pareça que existe um “eu” separado do pé: “Eu magoei o MEU pé”. As nossas mentes conceituais, baseadas na nossa linguagem, fazem com que as coisas pareçam ser dessa maneira.

O que precisamos é de estar dispostos a abandonar todo este processo mental que faz com que as coisas pareçam ser dessa maneira – e ao qual, infelizmente, estamos incrivelmente habituados – e toda a confusão, problemas, preocupações e assim por diante que derivam dele. Se não estivermos dispostos a abrir mão disso, como poderemos transformar, através do tantra, o nosso self, a nossa auto-imagem e todo este tipo de coisas?

Sem estarmos dispostos a abandonar a nossa habitual auto-imagem, que é a auto-imagem de um “eu” sólido com uma espécie de identidade sólida, e depois imaginarmo-nos como uma espécie de deidade, isso será o caminho para a esquizofrenia em vez do caminho para a liberação. Nós teríamos ainda essa ideia louca, completamente irritadiça e apegada de nós próprios. Depois iríamos adicionar ao topo dela esse exagero que é “eu sou uma deidade”. Então poderíamos ter facilmente a loucura de dizer, por exemplo: “estou com raiva: este é o meu aspecto como deidade irada”. Ou fazemos sexo com qualquer pessoa que encontramos, porque: “eu sou uma deidade com uma consorte, e esta é uma avançada prática tântrica de fazer sexo com todos”. Tudo isto é um grande perigo que pode acontecer se nos metermos no tantra sem termos como base esta determinação de sermos livres – esta renúncia da nossa habitual auto-imagem.

E para renunciar a essa auto-imagem é absolutamente necessário ter uma compreensão correta do vazio; porque de outro modo, como poderíamos transformar o conceito de nós próprios? Sem uma compreensão correta, podemos ficar completamente loucos, pensando de uma maneira muito estranha “ tudo à minha volta é uma perfeita mandala e toda gente é Buda”, e depois somos atropelados por um carro porque não prestámos atenção quando atravessámos a rua.

Além disso, é absolutamente necessário ter-se amor, compaixão e bodhichitta. Nós estamos fazendo todas estas práticas para ajudarmos os outros e devido ao nosso interesse pelos outros. A bodhichitta, como um método para lidarmos com o mundo e com os outros, leva-nos realmente a aplicar tudo isto. Sem bodhichitta, é muito fácil cairmos sozinhos numa Disneyland budista, num estranho reino imaginário.

Quando estamos fazendo as práticas tântricas, imaginamos que temos todos aqueles braços e pés e que estamos rodeados por cinco luzes coloridas, etc. Cada uma dessas coisas é uma representação de vários entendimentos, de várias qualidades, como o amor, a compaixão, os cinco tipos de consciência profunda e assim por diante. Imaginando essas coisas sob uma forma gráfica, tal como os braços e os pés múltiplos, ajudar-nos-á a gerá-los todos em simultâneo. É neste sentido que o tantra é uma prática muito avançada e requer uma forte preparação para sermos capazes de o praticar corretamente.

A Necessidade das Práticas Preliminares

Quando falamos sobre outros tipos de preparação, como prostrações e repetição [do mantra] de cem-sílabas de Vajrasattva, isso está para lá do que acabámos de falar. Isso ajuda-nos a acumular o potencial positivo para o sucesso da nossa prática tântrica e para nos purificar do potencial negativo que impediria que tal acontecesse. Mas, por si só, fazermos estas práticas preliminares, sem também termos juntamente com elas esses fatores do amor, da compaixão, da concentração, da vacuidade etc., não será o suficiente para se obter sucesso. Poderíamos, por exemplo, estar fazendo cem mil prostrações tendo como motivação uma razão muito neurótica; tal como agradar a nosso professor, juntarmo-nos ao clube de “pessoas especiais”, como castigo por sermos uma “má” pessoa ou coisas assim.

Estas práticas preliminares necessitam de ser feitas não só com base em todos estes vários aspectos do Dharma, tais como o amor e a compaixão, como necessitam também de ter como objetivo a promoção do nosso desenvolvimento nesses aspectos. Isto é semelhante ao que já discutimos em termos de como progredir na nossa compreensão da vacuidade ou do que quer que seja, e como para isso é necessário acumular muito potencial positivo e eliminar alguns bloqueios mentais. Estas práticas, como as prostrações, ajudam-nos a criar energia positiva para conseguirmos unir todos os aspectos do Dharma. Se tivermos falta destes aspectos que necessitamos unir, em si, a energia positiva das práticas preliminares não será suficiente.

A forma de se acumular o potencial positivo e de se eliminar os obstáculos pode ser estruturada em termos tradicionais, mas não tem de o ser. Poderia ser o cuidado com as nossas crianças ou o trabalho num hospital – qualquer coisa construtiva ou positiva que fazemos frequentemente. Eis um exemplo tradicional: Buda teve um discípulo muito difícil que não tinha grande capacidade intelectual. Como prática preliminar para essa pessoa, Buda mandou-o varrer o templo durante muitos anos com a recitação: “sujeira, vá-se lá embora; sujeira, vá-se lá embora”. Esta era a prática preliminar para essa pessoa. Buda não o mandou fazer prostrações. Assim, necessitamos de ser um pouco flexíveis e compreender que o mais importante é o próprio processo de acumulação e de purificação. A estrutura desse processo pode ser feita especificamente para cada indivíduo.

O Professor Espiritual e a Tomada de Votos

Por outro lado, não há nenhuma necessidade de se ter medo do tantra e sentir que “eu não me quero meter nisso de forma alguma”. Mas temos de ter cuidado sobre isso e praticar corretamente. Para isso, a relação com o professor espiritual é muito importante porque, como estávamos mencionando, quando vemos o professor como uma dessas deidades, como uma dessas formas búdicas, isso também funciona de outra maneira: permite-nos ver essas figuras búdicas como humanas. Ou seja, aprendemos o que na verdade significa transpor para a vida humana toda a prática tântrica. Isto é muito importante. Se assim não for, podemos ficar com umas ideias muito estranhas acerca do que significa a visualização de nós próprios nessas formas, durante todo o dia.

Outra coisa muito importante com relação ao tantra é a tomada de certos grupos de votos – os votos leigos, os votos bodhisattva e, nas duas classes mais elevadas do tantra, os votos tântricos. Mas temos de ter cuidado a fim de evitarmos a tomada de votos sob o ponto de vista de que existimos como um “eu” sólido e que “eu devo fazer isto e não devo fazer aquilo”. Assim, a compreensão da vacuidade é muito importante para a nossa capacidade da tomada de votos de uma forma não neurótica, por forma a não carregarmos sentimentos de culpa sobre o que fizemos no passado ou o que possamos vir a fazer no futuro, ou sentimentos de que estamos perdendo o controlo devido a termos tomado esses votos, ou “agora eu dei o controlo a outra pessoa e me tornei num escravo do professor”. Se assim pensarmos, em termos da questão do controlo, podemos então vir a ficar com tanto medo de tomar votos que acabamos por não nos envolver no tantra.

Para superarmos tudo isso e para sermos capazes de tomar e manter os votos de uma forma não neurótica, necessitamos uma vez mais da compreensão da vacuidade. Repito e torno a repetir, para praticarmos o tantra, NECESSITAMOS de renúncia, bodhichitta e compreensão da vacuidade. Se estivermos corretamente preparados, o tantra é então extremamente importante porque nos permite unir tudo. É correto sermos muito cautelosos e cuidadosos e não mergulharmos para o tantra antes de estarmos preparados, mas precisamos também de evitar pensar que: “eu nunca irei estar preparado e por isso não me quero meter nisto”. Na nossa abordagem, precisamos de uma espécie de caminho do meio.

Quando é que a Nossa Compreensão é Suficiente?

Quando é que sabemos que “agora eu tenho uma compreensão suficiente da vacuidade, da bodhichitta e da renúncia para me envolver com o tantra?” Isso não é assim tão fácil. Antes do mais, nós conhecemo-nos melhor do que qualquer outra pessoa. Dizer que “o guru sabe” e assim por diante, é realmente romantizar toda esta situação. Torna-se num método para fugirmos à tomada de responsabilidade pelas nossas vidas, o que é muito imaturo. Obviamente, se tivermos uma relação próxima com um professor espiritual, a discussão com o professor pode ser útil. Precisamos de evitar pensar, de uma forma arrogante, que “eu não tenho que consultar o meu professor”. Mas nem todos temos uma relação pessoal e próxima com um professor, e por isso não é assim tão fácil. Eu penso que temos de olhar para dentro de nós, sermos honestos conosco e não nos distrairmos com jogos de auto-engano: “sou muito avançado”, etc.

Penso que a coisa principal a focalizar em nós próprios – e penso que só nós podemos julgar isso – é na intensidade da nossa compaixão, que irá então determinar a intensidade da nossa bodhichitta. Ou seja, estou realmente preocupado com as outras pessoas e em ser capaz de as ajudar? Se isso for bastante forte, pode nos conduzir a uma firme renúncia e a uma firme bodhichitta. “Tenho de abrir mão a todas as causas que me estão impedindo de ajudar os outros, e tenho de desenvolver todas as boas qualidades de modo a ser capaz de os ajudar tanto quanto possível”.

A única forma possível de abrir mão às causas das nossas limitações e de desenvolver todas as nossas boas qualidades é através da obtenção da compreensão correta e completa da vacuidade e do não-agarramento ao conceito sólido do “EU – eu sou tão horrível, não consigo fazer nada” ou “eu sou tão maravilhoso, sou a oferenda de Deus ao mundo, não preciso de aprender nada”. É compreender a causa e efeito.

Quando compreendemos a vacuidade, respeitamos naturalmente a causa e efeito – como desenvolver as qualidades para ajudar os outros. Com esta forte determinação em ajudar os outros (eu tenho que abandonar as causas do meu sofrimento. Eu quero fazê-lo. Não é que eu ‘deva’ abandoná-las, mas quero e sinto mesmo a necessidade de fazer isso.), somos motivados ou movidos, de uma maneira altruísta, a fazer isso. E nos apercebemos que necessitamos de seguir a causa e efeito para sermos realmente capazes de ajudar os outros. Precisamos de reunir todas as qualidades para sermos capazes de melhor ajudar os outros, e isso só pode ser através de um processo de causa e efeito, que apenas pode funcionar com base na vacuidade.

Com base nessa motivação e compreensão, precisamos depois examinar o que se está passando com a prática do tantra, e o que é o tantra. Precisamos de ter confiança que o tantra oferece os métodos mais poderosos para nos livrarmos do que nos está impedindo de ajudar os outros e para desenvolvermos as qualidades com as quais podemos ajudar os outros, tanto quanto possível. Ou seja, precisamos de ter confiança de que a prática do tantra é a maneira mais eficiente de realizar os objetivos da iluminação e de sermos capazes de melhor ajudar os outros.

Quando temos a motivação correta e alguma compreensão da vacuidade, assim como também uma apreciação e uma compreensão do processo da prática tântrica, de tal modo que já temos nela alguma confiança e alguma ideia do que estamos fazendo com ela, então estamos prontos a entrar na prática tântrica. Então estamos realmente atraídos a ela de uma forma muito positiva e construtiva e iremos usá-la de uma forma positiva e construtiva.

Sumário

Resumindo, penso que nós somos os melhores juizes de nós próprios a respeito da sinceridade do nosso desejo em ajudar os outros; ou será que as nossas palavras são ocas? Se praticarmos o tantra antes de estarmos prontos, há uma enorme quantidade de perigos. Na verdade, podemos ficar psicologicamente arruinados se estivermos meramente praticando algum ritual vazio, por algum motivo neurótico. Por um lado, tal prática incorreta pode facilmente funcionar como base para uma enorme sobrestimação de nós próprios com estranhas fantasias, arrogância e assim por diante; e, por outro lado, desilusão por a prática ritual não estar na verdade a alcançar coisa alguma. Quando estamos fazendo uma certa prática ritual diária apenas para manter o compromisso, e ficamos desiludidos por não sabermos pô-la em prática na nossa vida, então a nossa prática diária torna-se uma completa aflição porque a vemos como uma obrigação, um dever: “Eu tenho de fazê-la”. Depressa começa a criar-se uma aversão e ela se torna muito desagradável. Se estivermos preparados corretamente e tivermos a atitude correta em relação ao tantra, então a prática tântrica torna-se extremamente benéfica. Mas isso requer a efetiva união de todo o Dharma.

Precisamos também de ter em mente que, quando estivermos envolvidos com a prática tântrica, a nossa prática irá se desenvolver. Precisamos de evitar colocar uma linha sólida à sua volta pensando que a nossa prática será a mesma coisa enfadonha dia após dia: “eu estou recitando este ritual e poderia recitá-lo de trás para a frente”. A prática desenvolve-se com o tempo. É um processo, mais do uma tarefa fastidiosa de recitar a mesma coisa para o resto da eternidade. Embora a ética, a renúncia, bodhichitta, concentração e a compreensão da vacuidade sejam coisas que queremos ter para sempre, o nível da nossa aquisição irá desenvolver-se à medida que nós usamos a prática ritual para as unir.

Mas tenham sempre presente que, assim como uma característica do samsara é o andar sempre aos altos e baixos, a nossa prática tântrica também irá andar aos altos e baixos. Nunca se desenvolve de uma forma linear, melhorando diariamente. Precisamos de paciência e de perseverança.

Que perguntas têm vocês?

Iniciações

Participante: [trad.] No Ocidente, acontece muitas vezes que você recebe iniciações e depois tem de fazer rituais sem ter estes entendimentos; e o fato de você precisar de ter estes entendimentos não lhe é explicado antes de receber a iniciação.

Alex: Sim, infelizmente isso acontece com demasiada frequência. Repare, um dos problemas é que todas estas iniciações estão a ser dadas, e nós, como ocidentais, as recebemos como: “agora eu devo fazer isto e não devo fazer aquilo”. Um tibetano não as aborda dessa maneira. Quando estas iniciações são dadas, a atitude da maioria do tibetano comum é: “ estou assistindo para plantar sementes ou instintos no meu fluxo mental para as vidas futuras”. A maioria não tem nenhuma intenção de praticar tantra durante esta vida.

Mas eu estou a falar acerca do comum tibetano leigo. Eles levam às iniciações os seus bebês e até os seus cães. Acreditam que qualquer um, incluindo o bebê e o cão, tem, ao assistir à iniciação e para as vidas futuras, sementes implantadas nos seus fluxos mentais. É assim que eles vêem as iniciações. Mas nós, como ocidentais, na verdade não pensamos dessa maneira. Vamos às iniciações e mesmo se não tivermos nenhuma ideia do que se passou durante a cerimónia, depois dizemos: “Ó meu Deus! Eu fiz este compromisso e agora DEVO fazer isto e se não o fizer vou parar ao inferno de Vajra!!”

Isso é um grande mal-entendido sobre a vacuidade e o surgimento dependente. As coisas não acontecem de um só lado. O recebimento de uma iniciação é dependente tanto do que está fazendo a pessoa que está dando a iniciação, como do que está fazendo a pessoa que a está recebendo. Por exemplo, para recebermos realmente uma iniciação, precisamos de fazer os votos muito conscientemente, com todo o entendimento do que estamos fazendo. Se não fizermos isso, então não somos diferentes do que o cão que lá estava.

Uma pergunta interessante é: o cão fica ou não com instintos implantados por estar lá? Da literatura clássica, parece que o cão fica, porque o cão experiencia o estar lá. Assim, há alguma espécie de impressão no seu fluxo mental, mesmo que seja muito fraca. Nós também podemos estar presentes e ter uma certa impressão de lá estar. No Ocidente, nós chamamos a isso fazer uma iniciação como uma “benção”. Mas fazê-lo desta forma não significa que realmente recebemos a iniciação e que a partir de agora temos dela todos os compromissos e votos. A menos que tivéssemos muito conscientemente aceitado os compromissos e os votos; nós não os temos.

Não há nada de errado em receber uma iniciação como um tibetano comum a receberia – como uma espécie de evento que inspira e cria uma impressão que no futuro será algo que poderemos usar em benefício dos outros e de nós próprios. Precisamos de evitar sermos pretenciosos, pensando que agora somos praticantes tântricos muito avançados, quando apenas assistimos à iniciação a um nível superficial e não nos comprometemos conscientemente a nada. Temos de estar dispostos a aceitar que: “eu assisti a nível de cão e isso é aceitável”.

Não obstante, assistir a uma iniciação a nível de cão pode ser muito útil e inspirador – tudo bem. Mas é a nossa vaidade que faz com que não queiramos aceitar que dela só pode vir este nível de benefício. Obviamente, podemos ficar confusos e pensar: “se eu andar por aí a coletar tantas iniciações quanto possível, eu vou ser uma pessoa muito avançada”. Isso também é um pouco frívolo, não é? Mesmo se compulsivamente coletarmos iniciações porque as achamos úteis e inspiradoras, é importante não nos considerarmos uns grandes praticantes tântricos. A humildade é sempre essencial em todos os aspectos da prática do Dharma.

Vamos terminar nesta nota. Que o potencial positivo e a compreensão que veio da nossa discussão sobre estas coisas possam agir como causas para obtermos a iluminação em benefício de todos.