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Trazendo o Budismo à Terra

Alexander Berzin
Munique, Alemanha, Junho de 1996

Seção Dois: Direção Segura (Refúgio)

Derrubando as Barreiras em Relação à Aprendizagem

Como discutimos ontem, o que estamos tentando fazer é tornarmo-nos abertos a ser prestáveis aos outros – relacionando-nos com eles diretamente, com as nossas barreiras em baixo. As barreiras têm que estar em baixo não só em relação a pessoas, mas também em relação a aprendizagem. É um tipo de processo semelhante. Devem estar em baixo para podermos estar abertos e aplicar a nós próprios, pessoalmente, as coisas que aprendemos, em vez de erguermos uma muralha ou outro tipo de barreira criada com a nossa intelectualidade. Ou seja, podemos construir uma muralha para proteger um “eu” interior aparentemente sólido, e pensar “estou a ouvir estas coisas apenas como um exercício em intelectualidade, de modo a aprender algo curioso ou interessante. Porque se eu tiver que tocar em algo profundo dentro de mim, isso será demasiado ameaçador, e então irei erguer as muralhas”. Também precisamos de derrubar essas barreiras.

Deste modo, tentamos estar abertos a aprender e a fazer uma espécie de auto-transformação, de modo a que possamos ser, deste modo, prestáveis a outros em relação aos quais estamos abertos a um nível pessoal. Como descrevemos ontem, podemos desenvolver esta espécie de sentimento do coração primeiramente olhando para os outros à nossa volta, para as outras pessoas nesta sala ou para os retratos dos budas nas paredes, e então, depois de termos derrubado as muralhas, sentindo a motivação de estarmos abertos a transformar as partes mais profundas de nós próprios e as nossas relações com os outros.

Vamos fazer isto por um momento. E por favor façam-no com a intenção de estarem atentos e concentrados. Nós não queremos apenas sentarmo-nos e deixar as nossas mentes vaguear por todo o lado.

[pausa]

Usando a “Prática” Budista como Uma Muralha

Quando nos aproximamos do budismo, estamos basicamente trabalhando em algum nível de auto-transformação. A auto-transformação é algo que pode meter medo. Ontem, falámos um pouco sobre o medo. A fim de evitarmos ter que mudar, nós construímos muralhas. Então, com as as nossas muralhas, aproximamo-nos do budismo como uma espécie de diversão, como uma espécie de um esporte ou de um passatempo. Vemos a prática budista como algo que é completamente alheio às nossas vidas.

É muito interessante quando perguntamos a pessoas que já estão envolvidas com o budismo há algum tempo “qual é a sua prática?” muito frequentemente dizem que a sua prática é algum tipo de ritual diário, que haviam recebido numa iniciação tântrica. Têm de recitar algo todos os dias e isso é a sua prática. Talvez até a vejam de uma maneira cristã: “Tenho que recitar as minhas orações todos os dias”. E, de fato, muitas pessoas chamam a estes textos rituais as suas “orações”. Como, neste fim de semana, temos usado a metáfora da pintura de um quadro, podemos adicionar aqui algumas pinceladas no lado da pintura que está a lidar com o sentimento do “dever” – “Eu devo recitar as minhas orações porque quero ser uma boa pessoa, porque prometi fazê-lo….” Então começamos a ficar envolvidos com a ideia de Deus e do guru.

Agora começamos a dar pequenas pinceladas sobre muitas partes da pintura. Mesmo se não estivermos a fazer nenhuma espécie de ritual tântrico como aquele, talvez estejamos a fazer prostrações ou outro tipo de prática da mesma maneira. Como já disse, é muito fácil fazê-las como um esporte; algo que é completamente separado da nossa realidade interna. Ou seja, dizemos que fazemos a nossa “prática” como um dever – “algo que devo fazer porque disse que o iria fazer” – ou como alguma espécie de esporte que não está realmente relacionada com as nossas vidas – “e essa é a minha prática!”

Esse é um grande erro quando abordamos o budismo. Muitas pessoas já estão envolvidas com o budismo há muitos, muitos anos nesse nível e, no entanto, por causa dessa visão errada, retiram apenas um benefício mínimo. Pode haver algum benefício, é certo; e eu não estou a negar isso. Mas não é tão grande como poderia ser. Quando nós ou alguém – geralmente é alguém – diz “a minha prática é a compaixão, a vacuidade, a impermanência e assim por diante” algumas pessoas têm reações muito estranhas. Se estivermos, como nossa prática, fazendo rituais e alguém nos disser isso a nós, podemos pensar que essa pessoa está a ser pretensiosa e muito orgulhosa e, em certo sentido, a deitar-nos abaixo e a criticar-nos por estarmos a fazer práticas rituais. Num certo sentido, vemos isso quase como uma ameaça.

Voltamos uma vez mais à concepção errada de um EU sólido que está dentro das muralhas, recitando todas estas várias fórmulas rituais, quase como um modo de tornar estas muralhas mais fortes. Estamos fazendo isso de modo a que, estando dentro das muralhas, nós não temos que nos confrontar com nós mesmos e com as nossas vidas. Mantemo-nos muito, muito ocupados com rituais de modo a evitarmos lidar com os outros ou com nós próprios. Vocês sabem como algumas pessoas ligam o rádio ou põem música a tocar, mal acordam de manhã, e mantêm-no a tocar o dia inteiro, ou têm a televisão ligada em casa durante todo o dia. Muitas pessoas agora andam por aí o dia inteiro com os fones de ouvido e walkman com música bem alta nos seus ouvidos. Embora não estejam conscientes, o efeito disso é que nunca têm que pensar ou estar sozinhos com eles mesmos. É uma forma estranha de trabalhar com a solidão mas, de qualquer forma, como pessoas com um estilo de vida ocidental, nós sabemos o que isso significa. De fato, o que esses hábitos fazem é distraírem-nos e, por conseguinte, evitamos examinar seriamente as nossas mentes e as nossas vidas.

É muito fácil seguirmos o mesmo tipo de padrão com a prática budista. Fazemos um ritual ou dizemos um mantra o dia inteiro, que é semelhante a ouvirmos música durante todo o dia. Não está tocando realmente na nossa parte mais profunda. Ou seja, estamos usando essa prática como outra muralha; é outra camada de uma grande muralha à nossa volta. Mesmo se nos tornarmos muito sofisticados na nossa prática – digamos que passamos os dias visualizando mandalas, deidades e coisas assim – é muito fácil usar-se isso como outra muralha de modo a não termos que nos relacionar com a vida. Penso que é muito importante não termos, como estrutura básica da nossa prática, uma coisa extra alheia às nossas vidas, que fazemos todos os dias durante uma hora. As nossas vidas têm que ser a nossa prática.

A Primeira Verdade Nobre – Sofrimentos Verdadeiros

Para fazermos das nossas vidas a nossa prática, precisamos de voltar à estrutura básica dos ensinamentos do Buda, que são as quatro verdades nobres, os quatro fatos da vida. É necessário levá-los a sério. A primeira destas verdades, como a formulámos ontem à noite, é “a vida é difícil.” Você pode dizer, “tudo é sofrimento” mas isso é uma maneira muito incômoda de fraseá-la. É muito mais relevante dizer que “a vida é difícil”.

A questão é que é necessário enfrentar esse fato e aceitar que a vida é difícil. Às vezes, estamos num estado de negação sobre isso. Ou, erguendo as muralhas, dizemos apenas com palavras teóricas “sim, há todo este sofrimento” mas não aplicamos este fato a nós próprios nem o vemos como verdadeiro nas nossas próprias vidas. Estamos demasiadamente preocupados com as nossas tentativas de encontrar a felicidade. Discutiremos toda esta questão da felicidade e se é aceitável sermos felizes, enquanto praticantes budistas, hoje à tarde ou amanhã. Essa é outra questão muito delicada para os praticantes ocidentais, que temos muita dificuldade em reconciliar. Mas, vamos deixá-la por enquanto.

Muitas pessoas, particularmente as mulheres, mas não apenas elas, encontram-se em situações difíceis na vida, por exemplo, terem que tomar conta das crianças e cuidar da casa, além de terem também que trabalhar. Às vezes encontram muita dificuldade com os seus maridos ou os homens nas suas vidas, porque eles não as ajudam ou não se apercebem da dificuldade da situação. Frequentemente, os homens têm muita dificuldade em se relacionarem com a situação das mulheres, porque a forma típica masculina de responder é “diz-me, qual é o problema?” e depois ele quer resolvê-lo do mesmo modo como arranjar um cano entupido. Isso não é o que a mulher está realmente procurando nessa situação. Frequentemente, o que ela está procurando é apenas o reconhecimento da dificuldade e receber empatia, não no sentido de “Oh, coitadinha de você” mas empatia no sentido de suporte emocional e compreensão. Esta é uma verdadeira prática de generosidade, o primeiro paramita ou atitude de vasto alcançe.

Outra questão muito relevante é a do mestre indiano Shantideva, que disse, e eu estou a parafraseá-lo, “vocês não podem realmente contar com os seres comuns para nada, porque são infantis e imaturos e deixam-vos sempre desiludidos”. Obrigado, Shantideva. Isso é relevante em muitas situações domésticas, porque o marido frequentemente não consegue dar o tipo de apoio que a mulher realmente deseja. É relevante para a nossa discussão da Primeira Verdade Nobre porque a situação da mulher que cuida do lar e das crianças é apenas um exemplo de que “a vida é difícil”. A vida também é difícil para os homens, que sentem a responsabilidade de fazer tudo por forma a dar segurança financeira à familia e, de algum modo, de proteger tudo e todos. Isso também é difícil.

Quando falamos sobre esta Primeira Verdade Nobre, como poderemos nós falar sobre ela sem estarmos num estado de negação e de tal modo que pareça realmente relevante para nós? Penso que o que precisamos é de satisfazer, de algum modo, este ímpeto para conseguir alguma espécie de apoio emocional e compreensão de que a nossa vida é de fato difícil e que a vida em geral é difícil.

Voltando-nos para as Três Jóias em Busca de Apoio

A pergunta é: para quem é que nos viramos para essa compreensão, empatia e apoio? Se nos voltarmos para seres comuns, eles têm os seus próprios problemas e é difícil obtermos suporte deles. Isto traz-nos ao tópico do refúgio. Eu não gosto muito de “refúgio” como vocábulo, porque penso que é muito passivo. Penso sempre nisto como um processo mais ativo de dar uma direção segura e positiva à nossa vida. Se nos quiséssemos dirigir a algo que realmente nos pudesse dar suporte e empatia, então como budistas, dentro do contexto do refúgio, viramo-nos para as três jóias – os Budas, seus ensinamentos e realizações – ou seja, o Dharma – e a comunidade Sangha.

No ocidente, começámos a usar a palavra sangha de uma maneira totalmente não-budista, como equivalente de uma congregação de uma igreja. Usamo-la como se significasse o conjunto das outras pessoas que vão a um centro budista. Esse não é o significado original. Não obstante, embora os outros membros da nossa comunidade budista não sejam objetos de refúgio, no entanto podemos obter uma certa quantidade de companheirismo e o reconhecimento deles dentro deste contexto de que a vida é difícil – a MINHA vida é difícil, e não apenas a vida em geral é difícil.

E também, a Segunda, Terceira e Quarta Verdades Nobres são parecidas com a maneira tipicamente masculina de resolver coisas: “Vamos encontrar a causa e depois resolver o problema”, como desentupir um cano entupido. Mas precisamos de fazer isso dentro do contexto desta abordagem mais feminina, ou seja, do reconhecimento e da confirmação de que a vida é difícil. É difícil. Quer sejamos homens ou mulheres, precisamos de uma combinação de ambos. Não devemos pensar que o género determina um ponto de vista exclusivo.

Como é que obtemos esse apoio? Por um lado parece muito agradável voltarmo-nos para os outros membros da nossa comunidade budista. Mas frequentemente vemos que as pessoas da nossa comunidade não são muito maduras e que nós, consequentemente, tendemos a ser julgadores; tendemos a ser fechados uns com os outros. Em muitas das comunidades budistas ocidentais, as pessoas têm defesas muito fortes porque pensam que têm de apresentar uma imagem de santas e espiritualmente avançadas. Assim, frequentemente, reunimo-nos para assistir a uma palestra, para praticar qualquer espécie de ritual ou para meditarmos juntos. Depois, vamo-nos todos embora, pensando que sentarmo-nos juntos a meditar ou a recitar mantras é o que significa praticar em grupo; do mesmo modo que pensamos que isso é o que significa praticar individualmente. De fato, o verdadeiro foco para a prática budista em grupo é sermos amigáveis uns com os outros, sermos prestáveis uns aos outros, tentarmos compreender os outros, sermos abertos e amáveis. Se estivermos focalizando nisto como uma prática de grupo então, de fato, podemos obter uma espécie de apoio emocional uns dos outros relativamente ao fato de que a vida é difícil e que estamos todos a trabalhar em nós próprios dentro dos confins desta verdade. Contudo, nós somos seres comuns e às vezes é muito difícil darmos realmente esse nível de suporte a outra pessoa.

Se olharmos para o verdadeiro Refúgio de Sangha, isso refere-se aos seres arya, aqueles que tiveram a cognição não-conceptual da vacuidade. Isso faz muita diferença, não? Embora tais pessoas ainda não se tenham libertado a si próprias do sofrimento, elas estarão muito menos dominadas pelos seus egos, de modo que terão a capacidade de nos apoiar muito mais facilmente. Mas não temos muitos aryas à nossa volta, pois não?

Então, talvez possamo-nos virar para o refúgio do Buda para obtermos esse tipo de apoio. Nós sentimos “o Buda compreende-me; o Buda compreende as dificuldades da minha vida”. Isso dá-nos certamente algum conforto. É reminiscente da função no cristianismo que é demonstrada pela afirmação “Jesus ama-me”. Se Jesus me ama, então eu não posso ser tão horrível. Quanto mais acreditamos que Jesus realmente nos ama, mais reforçamos o nosso valor como seres humanos, o que nos dá então força para lidarmos com as nossas vidas. De certa forma, não é suficiente acreditarmos no fato de que o meu cão me ama!

Podemos transferir este tipo de atitude cristã para o Buda: “o Buda ama-me, o Buda compreende-me”. Isso dá-nos uma espécie de conforto e de apoio. Agora podemos dar mais uma pincelada na parte do quadro que estamos a pintar que é a parte do professor espiritual – um professor espiritual adequado e não qualquer um. Lembro-me muito bem de Serkong Rinpoche, o meu professor principal. Uma das suas qualidades proeminentes era a de que levava todos a sério. Não importava quão absurdos fossem os pedidos que as pessoas lhe fizessem – como um hippie muito estranho que veio da rua e disse: “ensina-me os seis Yogas de Naropa”; não importava quão estranha fosse essa pessoa, ele levava-a a sério. Ele dizia, “Oh, isso é maravilhoso! Você está mesmo interessado neste ensinamento maravilhoso e se você genuinamente quiser aprender, bem, terá de começar a preparar-se a si mesmo interiormente”. Depois ensinava-lhe algo que estava adequado ao seu nível. Isso funcionou muito bem com essa pessoa, porque se o professor os levasse a sério, então eles podiam começar também a levar-se a si próprios a sério.

Podemos ver que “o meu professor compreende-me e ama-me” funcionaria de uma maneira paralela àquela de “o Buda compreende-me e ama-me”. Mas nós nem sempre temos um contato pessoal próximo com o professor – e o mesmo passa-se com o Buda. E ás vezes os professores com quem temos contato não são idealmente qualificados. No entanto, olhamos para eles porque nos parece um pouco teórico e distante demais dizer que “o Buda compreende-me” ou que “o Buda me ama”.

Assim, temos de nos voltar para outro nível de refúgio. Podemos tomar uma direção segura não só no Buda, Dharma e Sangha como uma espécie de inspiração que faz com que continuemos no caminho espiritual; podemos também tomar refúgio e direção segura no estágio resultante que nós próprios iremos alcançar ao seguir esse caminho. Isso significa que, no fim, temos de obter esse conforto e compreensão de nós mesmos, porque nós, todos nós, temos as capacidades e os potenciais completos dentro do contexto da natureza búdica, para alcançar esse estado de liberação e iluminação do Buda, Dharma e Sangha. Temos também todos os potenciais para dar essa compreensão e suporte não só a nós próprios como também aos outros. Penso que este é realmente um ponto muito importante. Achei-o muito importante no meu próprio desenvolvimento.

Shantideva disse – e minha mãe também – “se você quiser fazer algo bem feito, faça você mesmo. Se pedir a alguém que o faça, ninguém vai fazê-lo da maneira que você quer que seja feito”. O mesmo é verdade em relação ao desenvolvimento dessa compreensão, desse reconhecimento e conforto que necessitamos a fim de obtermos suporte face ao fato de que a vida é difícil. É mais seguro darmos esse suporte a nós mesmos através da compreensão de nós próprios, da própria aceitação da nossa situação da vida, e da nossa própria bondade para conosco relativamente a estas circunstâncias – sendo não-julgadores durante todo o processo.

Não Sendo Juizes para Nós Próprios

Se formos julgadores, estamos apenas a dar mais outra pincelada na pintura de “eu devia fazer isto e não devia fazer aquilo; eu quero ser bom e não quero ser mau”. Se tivermos essa atitude, então estamos na verdade olhando para nós dizendo, “a minha vida é difícil porque eu sou ‘mau’. Há algo de errado comigo”. Se olharmos para as nossas vidas de uma forma julgadora de “eu quer ser boa, eu não quero ser má” então julgamo-nos em termos da nossa vida: “A minha vida é difícil. Devo estar fazendo algo de errado. Sou mau”. Em vez de darmos apoio emocional a nós próprios, acabamos por nos repreender e por apontar o dedo a nós próprios de uma maneira julgadora. Isso não nos dá apoio nenhum; isso só nos faz sentir pior.

No entanto, darmos simpatia a nós próprios não significa tratarmo-nos como uns bebês e depois não fazermos nada sobre a nossa situação. Obviamente, quando uma mulher pretende simpatia e compreensão do seu marido, não é só isso que ela quer. Também seria bom se ele lavasse os pratos! Do mesmo modo, podemos pretender que alguém nos faça festinhas na cabeça como a um cão, mas também queremos ajuda genuína. A mesma coisa é verdade em relação a virarmo-nos para nós próprios. Por uma lado, precisamos de ser compreensivos e afetuosos conosco, mas depois também temos de desentupir o cano entupido e de fazer algo para satisfazer as nossas necessidades mais profundas.

Tudo isto é muito complexo. É uma matéria muito delicada. Pensem no exemplo das pessoas que não tiveram infâncias muito agradáveis nem pais muito compreensivos. Frequentemente, tais pessoas estão procurando substitutos para os pais, quer seja uma mãe ou um pai. Entram em relacionamentos e então, sem estarem conscientes disso, projetam a mãe ou o pai na outra pessoa e exigem que a outra pessoa lhes dê o tipo de compreensão que não tiveram quando crianças.

Como lidamos com alguém com este tipo de problema? Estes relacionamentos são muito neuróticos. Podemos dizer: “tente ver o padrão não-consciente do que você está fazendo; veja como você é estúpido, veja quantos problemas está causando a você mesmo e deixe de o fazer!” É como quando um cão suja o assoalho e algumas pessoas põem o nariz do cão na sujeira e dizem: “veja a porcaria que você fêz! Deixe de fazer isso!”. Mas isso não resulta. Talvez resulte com o cão, mas não irá resultar conosco, porque isso apenas reforça o sentimento de que somos uma má pessoa e gera sentimentos de culpa e de ânsia, “eu quero ser uma boa menina; quero ser um bom menino”. Todas estas coisas julgadoras andam à volta desta idéia de um EU sólido.

Reconhecendo os Nossos Direitos

Se olharmos para métodos psicológicos um pouco mais sofisticados, o que seria muito útil era dizermos a essas pessoas que reconhecemos que elas tinham o direito de ter tido pais afetuosos e compreensivos. Todos temos direito a isso e é pena que elas não o tenham tido. O psicólogo diz que reconhece isso de modo a que as próprias pessoas possam também elas reconhecer e aceitar isso. O paralelo seria reconhecermos, a nível interior, que a vida é difícil e, em particular, que a nossa vida é difícil e que nós temos o direito de ser felizes. Temos o direito de tornarmo-nos num Buda, porque possuímos a natureza búdica.

Com base nesse reconhecimento, o que geralmente descobrimos é que a necessidade de termos tido bons pais no passado transforma-se. Essa necessidade é satisfeita ao sermos um bom pai ou uma boa mãe de alguém. Descobri, através da minha própria experiência, que isso dá realmente resultado. Reconhecendo que a nossa vida é difícil e, num certo sentido, dando a nós próprios apoio emocional através desse reconhecimento, então o que irá ser realmente mais terapêutico em todo este processo de lidarmos com as dificuldades das nossas vidas é darmos esse reconhecimento e compreensão aos outros. Quanto mais dermos aos outros de uma forma muito sincera, mais seremos capazes de lidar com as dificuldades das nossas próprias vidas e, de fato, apercebemo-nos que essas dificuldades tornam-se muito menos intensas. Isso é muito diferente de sermos um trabalhador social compulsivamente benfeitor que está sempre tentando fazer coisas para os outros sem nunca enfrentar a sua própria vida. Geralmente a sua vida pessoal é uma confusão. Tudo isto está relacionado com o modo como, no fim, tomamos refúgio em nós próprios.

Passemos uns momentos admitindo a nós próprios a dificuldade das nossas vidas – sem fazermos julgamentos de valor acerca delas. Tentem simplesmente reconhecê-la. Obviamente que reconhecê-la significa enfrentá-la. Não com as muralhas erguidas. Não com qualquer tipo de prática estranha sobre a qual dizemos “isto é o meu budismo”. Isso significa também fazê-lo de tal forma que não venhamos a sentir pena de nós próprios. Assim como a mãe exausta não quer que o marido diga “Oh, coitadinha de você…” e sinta pena dela, nós também não queremos ter essa atitude para conosco.

Este tipo de reconhecimento de que estamos a falar é algo muito delicado. É como “estarmos presentes” – se conseguirmos imaginar esta maneira estranha de conceptualizar – estarmos simplesmente “presentes” conosco. Se estivermos muito doentes, não queremos que alguém venha e diga “Oh, coitadinho de você” e nos trate desse modo. O que realmente ajudaria seria alguém que não ficasse assustado com a nossa doença e que tivesse a capacidade de se sentar ao nosso lado, de nos dar a mão e de nos fazer companhia. Embora a sua conceptualização seja completamente oposta à compreensão da vacuidade, ao nível emocional o que precisamos de fazer é darmo-nos a nossa própria mão, sem receio e sem sentirmos que temos de dramatizar a nossa simpatia ou os nossos sentimentos de auto-piedade. Tentemos fazê-lo.

[pausa]

Alimentando o Demónio

Podemos achar difícil fazermos esta prática de um modo abstrato como acabámos de fazer e, assim, podemos fazer esta prática na forma de “alimentar o demónio”. Podemos examinar os problemas diferentes que estamos a ter como uma espécie de demónio dentro de nós. Podemos então começar a fazer uma ideia da aparência deste demónio e das suas qualidades – este demónio que quer, por exemplo, simpatia: “A minha vida é tão difícil. Tenho tantas responsabilidades. Tenho tantas coisas por fazer. Não tenho tempo que chegue, não tenho energia, não tenho suporte nenhum…”

Primeiro, perguntamo-nos qual é a aparência desse demónio? Quando tivermos uma imagem da aparência desse demónio, mandamos esse demónio para fora de nós e mandamos-lhe sentar-se numa almofada à nossa frente. Depois, perguntamos a esse demónio: “o que é que você quer?” Podemos sentarmo-nos na almofada e responder a essa pergunta ou fazer isso apenas na nossa imaginação: “Quero compreensão. Quero apoio. Quero reconhecimento das dificuldades que tenho na vida”. Então, da posição donde estamos sentados, imaginamos que vamos alimentar o demónio. Damos ao demónio o apoio, a compreensão, o reconhecimento ausente de juízos de valor – damos-lhe o que quer que ele queira.

Ao fazê-lo, descobrimos que é um método muito mais eficaz de darmos apoio a nós próprios do que simplesmente sentarmo-nos a meditar, tentando fazê-lo de um modo abstrato. Alimentar o demónio também é muito útil no sentido em que começamos a treinar a darmos essa compreensão a outras pessoas também. Lentamente, começamos a aperceber que dar compreensão e ajuda aos outros e ser uma boa mãe para alguém também é um processo terapêutico para nós. Funciona da mesma maneira. Assim como darmos compreensão ao demónio é terapêutico para nós, assim tambem, darmos apoio a outra pessoa é igualmente terapêutico para nós.

Vamos, apenas por alguns momentos, dar essa compreensão e reconhecimento ao demónio – que a vida também é díficil para o demónio e que isso é o que me está a roer por dentro. Façam este processo, começando do início, vendo essa necessidade dentro de nós, e depois exteriorizando e alimentando-a. Dêem ao demónio dentro de vocês o que ele precise e o que ele queira.

[pausa]

Agora, olhem para algumas das pessoas nas vossas vidas e dêem-lhes essa mesma compreensão e aceitação da dificuldade da vida delas. Se estiverem doentes ou velhas ou tiverem demasiado trabalho ou o que quer que seja, reconheçam isso, aceitem isso, e dêem-lhes apoio. Isto inclui as pessoas que têm dificuldades emocionais – alguém que esteja sempre irritado ou alguém que esteja sempre agindo horrivelmente com as pessoas. Reconheçam que a sua vida também é difícil. Alimentem essa pessoa, assim como alimentaram o demónio. Imaginem que temos uma fonte infinita daquilo que a outra pessoa quer, assim como temos uma fonte infinita daquilo que o demónio quer.

Deixando simplesmente essa fonte infinita de compreensão e aceitação passar através de nós para a outra pessoa, podemos experienciar a nossa generosidade de uma maneira não-perturbadora. Se ficarmos perturbados com isso, sentimos “Oh, eu tenho que fazer algo sobre esta situação difícil, mas na verdade não posso fazer nada. Não tenho poder nenhum; não tenho esperança. Toda esta situação é tão horrível!”; e então ficamos emocionalmente muito perturbados com tudo isso. Pelo contrário, deixamos simplesmente a generosidade percorrer através de nós como se fosse uma corrente infinita de água refrescante.

Isso é um pouco o que é simbolizado quando imaginamos que os néctares dos budas fluem para nós nessas visualizações. É um tipo de coisa semelhante mas a um nível mais simples. Podemos emitir essa corrente para fora tanto quanto for preciso. Não há nenhum problema da corrente secar; ela simplesmente flui em direção aos outros de uma maneira muito refrescante e inspiradora. É sem esforço; ela simplesmente flui. Como é que fazemos com que ela flua? Derrubamos as muralhas! Não há nada a recear nem nada a perder.