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Trazendo o Budismo à Terra

Alexander Berzin
Munique, Alemanha, Junho de 1996

Seção Um: Abandonar as Defesas

Introdução

Este fim de semana pediram-me para falar sobre um tópico que não é assim tão fácil de definir: “Como lidar com as nossas fantasias acerca do budismo” ou “Como encarar o budismo realisticamente” ou talvez “como trazer o budismo à terra”. Tenho de admitir que foi um pouco difícil tentar organizar, na minha mente, aquilo que exatamente deveria falar ou fazer durante este fim de semana. Poderia falar sobre a minha própria experiência, sobre as dificuldades que tive ao lidar com o budismo ou sobre as dificuldades que os meus amigos e conhecidos tiveram ao lidar com o budismo, mas talvez nada disso seja relevante face às dificuldades específicas que vocês possam estar a encontrar. Esse é o problema. Assim, por um lado, pode ser útil falar apenas sobre as dificuldades gerais que as pessoas têm; mas se vocês falarem sobre as coisas que gostariam de saber e se eu vos ouvir falar das coisas em que tiveram dificuldades, isso também poderia ajudar a dar forma a este curso.

Agora, eu não gostaria que o curso fosse apenas orientado para perguntas técnicas sobre este ou aquele ponto do budismo. Penso que seria mais útil para todos se falarmos sobre os problemas gerais que muitas pessoas possam partilhar ao tentarem seguir uma abordagem prática do Dharma, como por exemplo dificuldades em aceitar um professor ou em compreender a necessidade do professor, dificuldades de relacionamento com o tantra e assim por diante.

O Modo de Prosseguir

Deixem-me dar-vos uma ideia do que estou a pensar, como uma pequena amostra de uma caixa de chocolates. Por exemplo, a maneira comum de se começar um ensinamento budista é estabelecer ou ajustar a nossa motivação. Na verdade isso não é assim tão fácil de fazer. Eu não acho que isso seja assim tão fácil de fazer porque temos que conseguir um equilíbrio delicado entre as palavras que dizemos ou pensamos e o que realmente sentimos nos nossos corpos e corações.

Penso que para muitos de nós é realmente muito difícil definir com clareza o que significa sentir algo, particularmente uma motivação. Por exemplo, poderíamos sentirmo-nos tristes – nós conhecemos o sentimento de tristeza. Mas para sentirmos uma motivação, não é assim tão fácil sabermos a que isso se refere. Eu penso que seria muito interessante lidarmos com estes tipos de questões durante este fim de semana. São questões um tanto difíceis; não são nada fáceis. Eu penso que isso seria mais benéfico do que questões tal como “quantos sinais de iluminação tem um Buda?” e eu dar-vos-ía um número – esse tipo de perguntas, não. Mas, uma vez mais, como já vos disse no começo, tive muita dificuldade ao tentar pôr tais tipos de questões numa ordem lógica. Gosto que as coisas sejam sistemáticas e isso não foi assim tão simples.

Isso levanta um ponto muito interessante, que eu penso ser relevante talvez a muitas pessoas. É que frequentemente temos não só preconceitos gerais, tal como tudo precisa de estar numa ordem lógica, mas, mais profundamente, gostamos de ter tudo sob controlo. Quando temos controlo sobre as coisas e tudo está “em ordem” ou pelo menos quando pensamos que temos controlo, então de algum modo sentimo-nos um pouco mais seguros. Pensamos que sabemos o que vai acontecer. Mas a vida não é assim. Não podemos ter sempre tudo sob controlo e as coisas não podem estar sempre “em ordem”. O outro lado disso é que gostamos de dar o controlo a alguém de modo a que eles nos controlem ou controlem a situação em que nos encontramos. É a mesma questão de controlo. 

Mas ninguém – nem nós nem ninguém – pode controlar o que acontece na vida. O que acontece é afetado por um milhão de fatores e não apenas por uma pessoa. Por isso precisamos deixar ir, no sentido de abandonar este forte agarramento a um sólido “eu” que existe independentemente de tudo, e que quer ter controlo, não obstante o que esteja a passar à sua volta. É o sólido “eu” que pensa que, tendo o controlo, vai estabelecer a sua existência segura. É como pensar: “se eu controlar as coisas, eu existo. Se eu não tiver controlo, eu não existo”. Quando seguimos um caminho budista, é necessário, em muitas maneiras, abandonar esta idéia do controlo. Isso significa também abandonar o outro lado da questão, ou seja, darmos esse controlo a outrém, especificamente ao guru, professor, de modo a que eles tenham o controlo. É a mesma questão. Estes dois lados do controlo têm que ser superados.

Penso que o que seria muito necessário neste fim de semana, dado que vamos lidar com questões muito humanas, seria falarmos uns com os outros como seres humanos. Assim eu vou falar com vocês como de um ser humano para outro. Espero estar sempre a falar como um ser humano para outro, e não como uma autoridade atrás de um podium como se eu tivesse todas as respostas.

Penso que em vez de tentar controlar o andamento do curso segundo uma ordem lógica, seria melhor, então, deixar o fim de semana desenrolar-se como a pintura de um quadro. Damos uma pincelada aqui e outra pincelada ali, em vez de tentar dar uma apresentação muito em ordem. Como tantos tópicos que podemos discutir durante este fim de semana vão sobrepor-se uns aos outros e interconectarem-se, penso que essa é a maneira mais sensata de prosseguirmos.  

Motivação

Vamos voltar atrás, ao primeiro chocolate da nossa caixa de bombons. Eu ainda não acabei de mastigá-lo, por isso muitos de vocês podem também não ter acabado de o mastigar. É a questão de como sentimos uma motivação. Eu penso – dado que passei por isso no meu próprio desenvolvimento – que todos nós pensamos que os sentimentos têm de ser dramáticos para existirem. Se forem dramáticos, contam como sentimentos, eles existem; se não forem dramáticos, não contam e na verdade não existem. Penso que isto é condicionado um pouco pelos filmes e pela televisão. Um filme não é muito interessante se for algo apenas muito sutil, ou é? Tem de ser dramático, com uma música de fundo emocionante!

Às vezes lemos um texto budista que diz: “a nossa compaixão tem de ser tão emocionante que todos os pêlos do nosso corpo se arrepiam e lágrimas brotam dos nossos olhos”. Mas penso que seria muitíssimo difícil levarmos as nossas vidas constantemente assim. Quando pensamos em criar uma motivação, às vezes temos o sentimento de “eu devia sentir algo” – e este é um tema a que nós vamos retornar muitas vezes durante este fim de semana, a esta palavra “dever”. Pensamos “eu devia sentir algo forte. Se não, eu não estou criando realmente uma motivação se tal não acontecer”. Mas em geral, quando criamos uma motivação, dificilmente é uma sensação, pelo menos pela minha própria experiência. É geralmente muito mais sutil do que os pêlos em pé nos nossos braços. Penso talvez que falar deste modo com vocês seja mais útil – não falando atrás de um podium, mas, em vez disso, partilhando com vocês a minha própria experiência de fazer estas várias coisas no budismo e como tenho lidado com estes problemas típicos que a maioria de nós, como ocidentais, tem. Por isso, vamos fazer assim.

Nos ensinamentos, ouvimos sempre que precisamos tentar relacionarmo-nos com os outros como se fossem a nossa mãe: “Reconheçam todos como vossas mães”. Muitas pessoas, no entanto, têm dificuldades no seu relacionamento com as suas mães, e assim podemos substituir essa idéia ou imagem pela do nosso amigo mais próximo. Isto porque o importante não é a “mãe” mas qualquer um com quem tenhamos um tipo de ligação emocional forte e positiva.

Quando ajustamos a motivação, como por exemplo hoje à noite, o que eu tento fazer é pensar em vocês todos na audiência como se fossem os meus melhores amigos. Quando estamos com o nosso melhor amigo, com o nosso amigo mais próximo, nós somos sinceros. Não estamos a dar nenhuma espécie de espetáculo nem estamos a escondermo-nos atrás de nenhuma espécie de máscara ou de papel. Não é? E quando estamos com o nosso amigo mais próximo, sentimos genuinamente algo por essa pessoa. Nem sempre é dramático, mas é algo que está lá.

Quando começamos a aplicar ensinamentos como “ver todos como a nossa mãe”, no sentido de “ver todos como o nosso amigo mais próximo”, então começamos a ter realmente uma espécie de motivação. Nós temos uma motivação sincera. Queremos sinceramente fazer algo benéfico para essa pessoa. Queremos que o tempo que passamos com essa pessoa seja significativo e útil para ele ou ela – a menos que sejamos alguém muito egoísta que apenas quer explorar a outra pessoa para o seu próprio prazer ou vantagem.

A Importância de Mantermos os Nossos Olhos Abertos

Também acho que ao fazer as várias práticas budistas de igualar e trocar o eu pelo outro, na verdade eu não experiencio uma movimentação do meu coração quando as pratico em forma de visualizações feitas com os meus olhos fechados. Sim, eu poderia fechar os meus olhos e visualizar o meu amigo mais próximo; mas a verdade é que isso não é o mesmo que relacionar-me com pessoas que estão à minha frente, ou à frente de vocês, neste momento. Acho estas práticas muito mais significativas quando as faço com os meus olhos abertos e a olhar para as pessoas.

Quando estamos a praticar sozinhos, no entanto, isso é obviamente outra coisa. Poderemos olhar para fotografias das pessoas, se for difícil imaginá-las. Acho que isso é perfeitamente aceitável. Mas mesmo se estivermos visualizando outros, acho mais benéfico tentar visualizar pessoas individuais específicas do que apenas “todos os seres sencientes” de um modo abstrato. E tento fazer isto com os meus olhos abertos, não me fechando ao mundo à minha volta com os meus olhos fechados.

Quando examinamos as instruções a respeito da visualização na prática tântrica – por exemplo, no estágio da geração do tantra anuttarayoga – um ponto extremamente importante é que deve ser feito com a consciência mental. Não deve ser feito com a consciência sensorial. Ser-se capaz de visualizar com consciência sensorial é algo que ocorre apenas durante o estágio completo [estágio da completude]. O estágio completo [estágio da completude] é muito avançado e requer que tenhamos realmente manipulado os ventos-energia das nossas células sensoriais, de modo a que críem as imagens da visualização. Isso significa que no estágio da geração não estamos a mudar a forma [de] como percepcionamos as coisas; estamos a mudar o modo em que conceptualizamos ou compreendemos aquilo que percepcionamos. Em vez de considerarmos aquilo que vemos como existindo nas suas formas ordinárias, nós consideramo-las como sendo deidades ou figuras búdicas, por exemplo.

Espero que vocês estejam a ficar com a idéia de que para trabalharmos com o Dharma de um modo significativo, precisamos de unir tudo que aprendemos desde o começo. Isso significa que quando estamos a visualizar alguém como uma deidade ou, neste exemplo particular, quando estamos a visualizar todos como sendo a nossa mãe ou o nosso amigo mais próximo, não estamos, no início, a mudar a nossa percepção sensorial da pessoa. Estamos apenas a mudar o modo em que conceptualizamos a pessoa quando a vemos.

Se no entanto virmos a pessoa e perguntarmos “o que queremos dizer com conceptualizarmos a pessoa? O que é uma cognição conceptual?” então precisamos de voltar para os ensinamentos sobre Lorig, maneiras de saber. Lá, aprendemos que uma cognição conceptual é uma [cognição] na qual misturamos o objeto à nossa frente – digamos, um objeto físico – com uma idéia de uma categoria. Pensar apenas na idéia da categoria “o melhor amigo” misturado com uma imagem mental de alguém, contudo, não tem tanta força, digamos assim, como quando pensamos nessa idéia ao vermos realmente alguém.

Por causa disso, o que tem força, então, é a prática de meditação ser feita com os nossos olhos abertos, olhando realmente para as pessoas. Não posso enfatizar isso em demasia! Isso faz realmente muita diferença em todas as várias práticas. Os ensinamentos tibetanos Mahayana dizem muito claramente para se “fazer as meditações com os olhos abertos”. Muitas pessoas não levam isto a sério porque não é assim tão fácil de fazer. Para algumas pessoas, meditando sozinhas, com os olhos fechados, é muito conducente. Especialmente se se distraírem facilmente, então ter outras pessoas à sua volta irá distraí-las. Mas se formos um pouco mais estáveis, as práticas tornam-se muito mais significativas quando as aplicamos a pessoas [da nossa] vida, [da nossa] realidade.

O que isso significa neste exemplo particular de criar a motivação é – do meu próprio exemplo, aqui nesta sala – eu olhar para vocês à minha frente e eu considerar vocês e o modo como me relaciono com vocês como se fossem os meus amigos mais próximos. Se vocês forem realmente os meus amigos mais próximos – não consigo pensar numa palavra agradável para isso, mas em palavras informais – não vos posso mentir. Tenho que ser sincero. Então, naturalmente tenho a motivação de vos beneficiar. Muito bem, podemos também repetir mentalmente algumas palavras, tal como “espero que isto venha a ser verdadeiramente significativo e útil para vocês”. Mas isso, em certo sentido, é apenas tornar um pouco mais consciente aquilo que já tínhamos estabelecido quando olhamos para as pessoas à nossa volta como os nossos melhores amigos.

Quando faço isso, observo que os pêlos dos meus braços não se arrepiam. Isso é verdade. Mas no entanto há algo lá que ajuda o relacionamento entre nós. Penso que em geral esta é a maneira em que podemos criar uma espécie de sentimento para estas coisas muito simples que tomamos por garantidas: “blah blah blah. Ajustei a minha motivação”. Geralmente recitamos apenas em tibetano e, assim, para a maioria de nós, até as palavras que recitamos não têm sentido absolutamente nenhum.

Talvez possamos praticar um pouco com estas coisas. Não quero que este fim de semana seja eu exclusivamente a falar. Dado que não somos uma multidão enorme, vamos sentar em círculo. Quando nos sentamos em fileiras, uns atrás dos outros, tendemos a experienciar a inconveniência de olharmos para a almofada ou para a parte de trás da cabeça da pessoa à nossa frente, o que é realmente estranho depois de algum tempo. Se nos sentarmos em círculo, todos podemos ver as caras uns dos outros.

O que podemos tentar fazer agora é estabelecer a nossa motivação. Dizermos “estabelecer a nossa motivação” soa incrivelmente artificial, não? Mas o que estamos a fazer, se dissermos isso por outras palavras – como sou um tradutor adoro mudar as palavras – é estarmos a “criar um ambiente” em nós. E esse é o ambiente onde estamos com o nosso amigo mais próximo. Como é estarmos com o nosso melhor amigo? Quando estamos com o nosso melhor amigo estamos completamente relaxados. Não estamos "em"; não estamos “no palco”; não temos que fingir sermos qualquer coisa. Não temos de desempenhar nenhum papel. Nas nossas línguas ocidentais temos uma maneira muito engraçada de expressá-lo, que não é nada budista, mas que nós dizemos, “podemos ser nós próprios” seja lá o que isso signifique.

Deitar Abaixo as Barreiras

Podemos deitar abaixo todas as barreiras. Podemos abandonar todas as defesas quando estamos com o nosso melhor amigo. É possível estarmos completamente abertos a compartilhar e a estar com essa pessoa sem nos agarrarmos a ela. Há uma certa alegria que não é uma alegria dramática, mas uma alegria que está lá e não sentimos que temos de fazer o que quer que seja. Mas também temos o desejo sincero de ser útil a essa pessoa. Gostamos dela de uma maneira muito sincera e humana.

O que tentamos fazer, então, é ver todas as pessoas nesta sala dessa maneira. Estamos a misturar uma idéia com uma percepção visual. Não o façam apenas com os vossos olhos fechados, porque então há o perigo de não haver nenhum sentimento durante o processo. Os olhos têm de estar abertos; precisamos de realmente ver as pessoas à nossa volta de uma determinada maneira. Isto não significa que a nossa percepção visual tenha mudado de algum modo. Ficamos incrivelmente confusos com a palavra visualização e pensamos que temos de mudar a nossa percepção visual sensorial de algum modo. Não temos que fazer isso. É uma questão de cognição em geral. Que tipo de idéia temos quando vemos a outra pessoa ou que tipo de disposição temos quando a vemos?

Aprender a Relaxar

Penso que devemos começar com um sentimento de relaxamento e quietude. Bem, para fazermos isto temos que baixar as defesas, não? Quando as defesas estão em baixo, podemos então ser genuinamente sinceros. Vamos tentar fazer isto enquanto olhamos uns para os outros.

[pausa]

Então adicionamos um pouco mais de sabor a isso com o pensamento “que eu possa ser útil”. Este é um sentimento de estarmos dispostos a ajudar e um componente importante. Não é “Oh, eu tenho que ajudar, o que devo fazer? Não sei o que fazer, sou incompetente” ou qualquer outra coisa assim. Em vez dessa negatividade, sentimos que estamos dispostos a ajudar e a abrirmo-nos.

[pausa]

Isso, penso eu, é a pista, a recomendação, para como começar a sentir coisas de uma maneira sincera. A recomendação é que primeiro temos que baixar as defesas. Às vezes temos receio de sentir algo porque na verdade não sabemos o que vai acontecer – como se fossemos perder o controlo. Esse é o grande e sólido “eu” que protegemos com as defesas. Temos que relaxar. Isso é essencial.

Relaxar não significa apenas relaxar os nossos músculos ou a nossa tensão ao nível físico, embora isso obviamente faça parte. Pelo contrário, significa estarmos mentalmente relaxados; e isso vem da compreensão, pelo menos a certo nível, dos ensinamentos sobre o vazio ou a vacuidade. O vazio significa uma ausência de modos impossíveis de existir no que diz respeito a nós, a todos os outros e a tudo o que está acontecendo à nossa volta. Nada nem ninguém existe “solidamente”, por si próprio, independentemente de tudo o mais, alienado do que se está a passar.

Ao nível mais simples, se pudermos relaxar a nossa consciência do “eu”, a nossa inseguranca, a nossa auto-preocupação, isto dar-nos-á uma ideia de como poderá ser ter-se algum nível desse entendimento. Assim, uma vez mais, nos ensinamentos, tudo precisa sempre de se encaixar. Podemos ter uma ideia desta questão sobre a vacuidade mesmo se não a estudarmos profundamente, porque a experienciamos a certo nível com o nosso amigo mais próximo. Se entrarmos em situações da vida ajustando a motivação deste modo, então isso funciona.

Isso significa que entramos em situações de sermos muito sinceros, em vez de darmos espetáculo. Não estamos tentando vender-nos, como quando a pedir um emprego. Não estamos a atuar numa peça de teatro. Em vez disso, estamos totalmente confortáveis com todo o mundo porque estamos fundamentalmente confortáveis com nós próprios. Isto tudo depende da nossa compreensão do “eu” obviamente. Conecta com a nossa compreensão de como o “eu” existe – ou seja, da vacuidade. O “eu” existe vazio de todos os modos impossíveis. “Eu” existo vazio de todas as maneiras impossíveis. E vocês também.

Esta objeção poderia ser levantada: “bem, se eu abandonar todas as minhas barreiras, não ficarei vulnerável a ser ferido?” Não penso que seja esse o caso. Se usarmos um exemplo das artes marciais, então, se estivermos tensos não podemos reagir rapidamente se alguém nos atacar. Mas se as barreiras da consciência do “eu” estiverem em baixo, então estamos totalmente atentos ao que se está a passar. Então é possível reagir muito, muito rapidamente, ao que quer que esteja a ocorrer.

Uma vez mais, é uma questão de lidarmos com este fator do medo, não é? É o medo que nós temos que superar, visto que é o medo que nos está a impedir de abandonar as barreiras. Temos receio que “se eu abandonar as barreiras, irei ficar magoado”. Isso é porque erguemos barreiras em primeiro lugar, e ao fazê-lo estamos, na verdade, a magoar-nos a nós próprios. Mas precisamos de aprender estes fatos através da experiência pessoal e da compreensão. Isto leva-nos a outro tópico importante, que é o tópico da “compreensão”.

Gerando Sentimentos com Base numa Compreensão Inferencial

Muitas pessoas “desligam-se” de algumas das abordagens que vemos no budismo, particularmente no budismo tibetano – e especialmente no budismo tibetano Gelugpa. Estou-me aqui a referir à ênfase dada na lógica e na compreensão inferencial. Mas não há nada aqui para estarmos receosos porque nós funcionamos com esse tipo de compreensão a toda a hora. A compreensão não é necessariamente um processo intelectual pesado. Ouvimos o despertador tocar de manhã e compreendemos que está na hora de acordar. Porque é que está na hora de acordar? Porque o despertador tocou. Há uma linha de raciocínio consciente e é também a maneira como o cérebro funciona inconscientemente. A linha lógica de raciocínio para se compreender que está na hora de acordar é: “Se o despertador toca, está na hora de acordar. O despertador tocou. Por conseguinte, está na hora de acordar”. Podemos pô-lo em um silogismo lógico como este. Não tem de ser um exercício intelectual pesado que tenhamos de atravessar a fim vermos, a partir desse sinal – que é exatamente a palavra que usamos em tibetano – desse sinal ou indicação, que está na hora de acordar. O som do despertador a tocar é o sinal em que confiamos para sabermos que está na hora de acordar.

Similarmente, vermos alguém como o nosso melhor amigo é o sinal ou a indicação de confiança que nos permite compreender que não há nenhuma necessidade de mantermos as barreiras erguidas porque não há nada a recear e não temos de manter aparências com esta pessoa. Como é que sabemos isso? Porque vimos um sinal e inferimos dele logicamente. O sinal é vermos essa pessoa como o nosso melhor amigo. Assim, obtemos uma compreensão inferencial e derivamo-la através de uma simples inferência, em vez de através de um processo de lógica pesado.

A capacidade de se gerar sentimentos está relacionada com a compreensão. Muitas pessoas ficam muito perplexas sobre como é que se vai de algo intelectual a algo emocional. Esse é um grande problema que muitos de nós, ocidentais, temos com a nossa forma de pensar que separa o intelecto do sentimento como se fossem duas coisas separadas e quase não relacionadas.

A maneira de superar essa dificuldade é apercebermo-nos, antes de mais, que sentir-se algo tem dois aspectos – sentir-se algo como verdadeiro, ou seja, acreditar que algo é verdadeiro, e então ter-se um sentimento emocional baseado nessa crença. Compreender algo, acreditando ser verdade, e sentir-se uma emoção sobre isso seguem-se um ao outro. É um modo impossível de existir que estes três não sejam relacionados uns com os outros.

Por exemplo, obtemos uma compreensão de algo confiando em algum tipo de sinal. Poderíamos expressar o processo de uma forma lógica: “Se estou com o meu melhor amigo não preciso de estar na defensiva. Esta pessoa é o meu melhor amigo. Por conseguinte, não preciso de estar na defensiva”. Porque essa compreensão é baseada num silogismo lógico, poderíamos talvez chamá-la de uma compreensão intelectual, mas isso é não compreender. A questão é que, com base nesta compreensão, acreditamos que é verdade que não precisamos de estar na defensiva com essa pessoa. Com base nessa crença, podemos baixar as defesas e sentirmo-nos mais relaxados. Se não baixarmos as defesas e não relaxarmos, o problema reside, em geral, na nossa compreensão e opinião. No entanto, pode haver naturalmente outros fatores externos que nos estejam a influenciar, tal como a tensão de outras coisas que estão a acontecer na nossa vida, naquela altura. Mas penso que vocês entendem o que eu quero dizer.

O que precisamos de ser capazes de entender é o que significa compreender algo. Se conseguirmos entender o que significa compreender algo, então é muito mais fácil de fazermos a conexão entre sentir-se um fato como verdadeiro e sentir-se uma emoção baseada na crença desse fato. Vamos pensar no seguinte; por exemplo, o alarme do despertador a tocar. Nós compreendemos “intelectualmente”, através de um processo de inferência, que isso significa que está na hora de acordar.

Agora, tentem focalizar no sentimento de compreenderem que está na hora de acordar. Que qualidades vocês reconhecem aqui?

Participante: (tradutor) Ele aprendeu, de algum modo, que ele tem de se levantar quando o alarme do despertador soa e ele entende que se se levantar cedo vai para o emprego facilmente. Se não, chegará atrasado.

Alex: Certo, mas agora vamos profundar mais a questão. Não é apenas um sentimento de dever ou outra qualquer coisa assim. Isso é secundário. A um nível mais profundo, precisamos de trabalhar com as duas principais questões emocionais a respeito da crença no que compreendemos quando ouvimos o alarme tocar. A primeira é não estarmos dispostos a aceitar o que ouvimos e que compreendemos que realmente temos de nos levantar.  Essa é a primeira questão principal. A segunda é tomar a decisão de aceitar a verdade e de nos levantarmos realmente para fora da cama. Então poderia haver os aspectos secundários do porquê que tomámos essa decisão – por causa de um sentido de dever, por causa de um sentimento de culpa, ou por causa do que quer que seja. Podemos tomar a decisão por muitas razões e então segue-se o ponto que você mencionou.

Participante: (tradutor) Não é apenas um sentimento de dever que ele sente. Mas, com base na sua experiência, sabe que se se levantar bastante cedo, então ele tem tempo para ter uns minutos para relaxar e começar o dia mais facilmente.  E assim o sentimento que ele tem ao sair da cama é mais positivo.

Alex: Isto é muito importante, porque o que está a acontecer aqui é que, com base numa compreensão, nós aceitamos a lógica de que temos que nos levantar quando o alarme soa e tomamos a decisão de nos levantar. Compreendemos que se nos levantarmos, então sair de casa vai ser um pouco mais relaxante, em vez de ficarmos estressados porque temos dois minutos para organisarmos tudo e sairmos a correr. Assim, como há certas vantagens em levantarmo-nos um pouco mais cedo e como compreendemos essas vantagens, sentimo-nos bem quando nos levantamos. Em todo o caso, a realidade é que temos mesmo que nos levantar – quer a emoção que sintamos sobre isso seja de ressentimento ou de conforto. Nós sentimos ressentimento quando pensamos nas desvantagens de nos levantarmos – não podemos continuar na nossa cama confortável e morna. E sentimo-nos bem quando pensamos nas vantagens de nos levantarmos imediatamente.

Quando examinamos a estrutura dos ensinamentos budistas, eles dão-nos sempre vantagens para cada ponto. Há vantagens em abandonarmos as defesas; há vantagens em vermos todos como nossas mães, em estarmos conscientes de que temos uma vida humana preciosa, em estarmos cientes da impermanência e assim por diante. Precisamos de compreender as vantagens de aceitar e de acreditar a verdade sobre algo. Tudo isto está relacionado com a compreensão. Contudo, quando tivermos compreendido algo, então ainda temos de trabalhar com a questão da sua aceitação. A emoção que sentimos será colorida pela nossa aceitação ou não da verdade da nossa compreensão e pelo modo como nós a aceitamos.

Aceitando Algo que Nós Compreendemos

Na verdade, a aceitação é uma questão muito difícil. Podemos ter dificuldade em aceitar que temos que nos levantar todas as manhãs, com o nosso exemplo do despertador. Também podemos reconhecer esta dificuldade noutros exemplos da nossa vida, como quando queremos comer um bocado de chocolate. Procuramos por toda a casa e não conseguimos encontrar nenhum chocolate. Por conseguinte, a conclusão lógica é que não há nenhum chocolate em casa. Agora, isso pode ser bem difícil de aceitar.

Por exemplo, se estivermos do lado de fora da nossa casa com a porta trancada e procurarmos as nossas chaves em todos os bolsos e malas, elas devem estar num deles. Mas se não estiverem em nenhum desses lugares, esse é um sinal válido para concluirmos logicamente que perdemos as chaves ou que nos esquecemos de as trazer. Estamos trancados fora de casa. Isso é muito difícil de aceitar, não é? Num frenesim procuramos repetidamente as chaves. Estes são exemplos razoavelmente fáceis. Mas quando temos de aceitar que não há nenhum “eu” sólido porque procuramos em toda a parte e não conseguimos encontrá-lo – isso não é assim tão fácil.

Toda esta questão de compreendermos algo e sentí-lo na verdade emocionalmente é muito difícil por causa da forma como concebemos o processo. Temos a ideia de irmos de algo intelectual a algo emocional e de que os dois não estão nada relacionados um com o outro. Mas até conceber o processo como uma forma de irmos de uma compreensão, que penso ser uma maneira mais construtiva de ver, a um sentimento não é assim tão fácil, por causa dessa questão de se aceitar aquilo que compreendemos.

Ganhando a Coragem de Abandonar as Nossas Defesas

Agora, a pergunta é: como é que nós aprendemos a aceitar? Voltemos atrás ao nosso exemplo mais fácil. Vocês aceitam abandonar as vossas defesas? Alguém?

Participante: Quando compreendemos que é útil, é mais fácil de aceitar. Quanto mais compreendemos que isso pode ser útil, mais fácil será aceitá-lo.

Alex: Bom, aceitamos abandonar as defesas e tentamos realmente fazer isso quando compreendemos e aceitamos como verdadeiras as vantagens de as abandonar. Mais alguém?

Participante: Para aceitar algo, você precisa de experienciá-lo. Assim, primeiro você simplesmente tenta. Talvez você mergulhe na água e se afunde, mas primeiro tem que ter a coragem de tentar isso, de ter essa experiência de se afundar.

Alex: Isso é verdade. Para realmente abandonarmos as defesas precisamos de ter muita coragem. E sabermos que abandoná-las é possível também requer algum tipo de compreensão no início. Essa compreensão vem da experiência de termos sido tão magoados quando não abandonámos as defesas nos nossos relacionamentos. Com base nessa experiência e depois com base naquilo que alguém nos diz, e vendo nesse alguém um exemplo vivo de como é viver-se sem defesas, obtemos a coragem de tentar fazer o mesmo.

Agora, podemos dar uma pincelada aqui na parte do quadro que é o guru porque obtemos essa inspiração ao vermos um exemplo de alguém que abandonou as defesas, que seria um professor adequado – mas atenção, há muitos que não são professores adequados. Com um professor adequado veríamos um exemplo vivo do que é ter-se abandonado as defesas. Dá-nos a inspiração e a coragem de nós mesmos tentá-lo.

Aprendendo a Abandonar as Nossas Defesas

Participante: (tradutor) Enquanto criança você não tem essas defesas, mas por causa de más experiências, porque você foi mal tratado, você constrói essas defesas e por isso agora, se estiver suposto a abandonar essas defesas, então este medo ainda está lá. Mas agora que tem contato com o budismo, tenta abandonar as defesas mas ainda há um medo de que os outros possam abusar da sua abertura.

Alex: Esse é exatamente o ponto onde eu queria chegar. Como é que aprendemos que abandonar as defesas é útil? Como podemos aprender a sentí-lo ou a criá-lo? Vem do fato de que quando experienciamos abandonar as barreiras, temos uma experiência direta das vantagens. É assim que aprendemos. Mas, as vantagens nem sempre surgem imediatamente. Deste modo, esta primeira forma de aprender não é assim tão fácil.

O segundo modo em que podemos aprender é, às vezes, abandonarmos as defesas e magoarmo-nos. Isso também vem da experiência passada. Às vezes ficamos magoados; alguém tirou vantagem de nós. Então precisamos tentar compreender o que correu mal. Muitas vezes, se conseguirmos compreender o que correu mal podemos corrigi-lo. Numa dada situação, o problema surgiu porque as defesas foram abandonadas ou porque houve algo impróprio na maneira como lidámos com a situação, em termos de como nos concebemos a nós próprios?

Vamos usar um exemplo. Estávamos com alguém e a pessoa ficou irritada conosco. Poderíamos então ter abordado essa situação de duas maneiras; com ou sem as nossas defesas habituais. Poderíamos pensar, “abandonei as defesas, fiquei vulnerável e ele disse essa coisa ofensiva e eu fiquei magoada”. Poderíamos também pensar, “bom, se tivesse mantido as defesas não teria ficado magoada”.

Temos de estar muito seguros sobre isto porque na verdade é completamente insensata a forma como acabámos de formular isto. Como é que não teríamos ficado magoados se tivéssemos mantido as nossas defesas? Como é que isso teria sido?

Na verdade, teríamos ficado magoados quer tivéssemos mantido as defesas ou não. Tudo depende da forma em que nos concebemos a nós próprios. Se alguém nos atirar uma grande bola de lama e se ficarmos apenas parados e levarmos com ela na cara, essa é uma visão muito sólida de nós próprios. Mas se formos muito flexíveis e alguém nos atirar lama para a cara, nós movemo-nos um pouco para o lado e não deixamos que nos bata na cara. As palavras ofensivas não nos atingirão. A pessoa estava irritada e não levamos as suas palavras em termos pessoais.

Essa é a chave, ser-se flexível e não considerar como ataque pessoal essas palavras ofensivas, não as deixar atingir-nos na cara. Mas se tivermos esta maneira muito sólida de nos ver e se formos rígidos e levarmos tudo como ataque pessoal, então quando as defesas estão em baixo, ficamos muito vulneráveis e tudo nos atinge e bate na cara.

Mas se tivermos esse mesmo sentido sólido do EU que considera tudo como um ataque pessoal, então aumentar as defesas não nos protege de modo algum. Continuamos a considerar tudo como um ataque pessoal. Ou isso ou estamo-nos a esconder atrás das muralhas com medo e insegurança. Ficamos magoados não-conscientemente ou fazemos com que não sintamos a dor, mas por dentro estamos a sentirmo-nos magoados. É um estado de negação, mas de fato estamos muito magoados. Esse é o “eu” sólido, escondendo-se cobardemente atrás da muralha. Assim, temos de estar muito seguros sobre o que se está a passar. Qual é a causa de termos ficado magoados? A causa de termos ficado magoados não são as defesas que estavam em baixo. O que nos faz ficar magoados é a concepção incorreta de um “eu” sólido.

Participante: (tradutor) Talvez ela compreenda intelectualmente o problema e esta coisa de falar acerca da vacuidade do “eu” sólido. Mas se a situação está a acontecer, se o sentimento de estar magoada está presente, ela não consegue aplicar isso ao sentimento e ela não consegue então integrar esse entendimento nos seus sentimentos. Por exemplo, se ela ficar magoada, ela pode saber, “tudo bem, não há ego” mas sente-se magoada na mesma. Então, esse sentimento de estar magoada não se dissolve por pensar nele em termos de não-ego.

Alex: Isso é verdade. Há estágios no caminho. Dor e sofrimento e estas coisas não desaparecem instantaneamente. Mesmo se tivéssemos a cognição nua e não conceptual da vacuidade, isso não significaria o fim do nosso sofrimento. Essa cognição nua precisa de nos infiltrar devagarinho; tem de ir entranhando durante um longo período de tempo, com muita experiência, antes de eliminar realmente o sofrimento. Existe um grande diferença entre ser-se um arya – alguém que tem a cognição não-conceptual da vacuidade – e ser-se um arhat, alguém completamente liberto para sempre do sofrimento. A questão é que não devemos esperar mais do que aquilo que normalmente se segue na progressão de como cada indivíduo obtém a liberação. Vai-se por etapas; é um processo gradual.

Precisamos de nos lembrar da primeira verdade nobre. A vida é difícil! Essa é a primeira verdade nobre. Mesmo se compreendermos a vacuidade, os nossos problemas não vão acabar imediatamente. A vida é difícil! O sofrimento não desaparece num instante. É um processo longo e gradual. No princípio ficaríamos magoados mas a diferença é que não ficaríamos agarrados a esse sentimento. Se conseguíssemos fazer isso, então a mágoa passaria muito mais depressa. Essa é a diferença que se nota. Devíamos então estar satisfeitos com esse resultado e, eventualmente, com mais familiaridade, o efeito se tornaria melhor. Não devemos ficar desencorajados por isso; antes pelo contrário.

Dizer “Não”

Há uma outra questão que queria explorar a respeito de abandonar as defesas. Esta é a experiência que muitas pessoas têm quando põem as defesas para baixo: sentem que têm sempre que dizer “sim” e que não conseguem dizer “não” a ninguém. Em vez de serem magoados diretamente pela outra pessoa, inadvertidamente não tomam cuidado das suas próprias necessidades porque nunca dizem “não”. Ficam magoados indiretamente. Vocês reconhecem isto?

Nessa situação, temos de tentar reconhecer que quando dizemos “não” e quando tomamos conta das nossas próprias necessidades, isso não é equivalente a tornar a pôr as defesas de pé. Obviamente, poderíamos tornar a pôr as defesas mas isso não significa necessariamente tornar a pôr-se as defesas. Podemos ainda estar totalmente abertos, totalmente receptivos, e simplesmente dizer “tenho muita pena mas não posso fazer isso” ou “agora preciso de descansar” e permanecemos ainda abertos. Mas, quando temos esta ideia deste “eu” sólido então o “pobre de mim, estão-se a aproveitar de mim” manifesta-se e começamos a ficar muito perturbados. Ou sentimos, “se eu disser que ‘não’ então a outra pessoa vai “me” abandonar, por isso devo manter a minha boca calada”. E então dirigimos toda a hostilidade, culpa e raiva internamente, a este “eu”. De novo, tudo isto anda à volta da ideia de um “eu” sólido – que é a concepção errada que precisa de ser abandonada.

Respondendo Aos que Têm as Suas Defesas Bem Estabelecidas

Participante: Eu observo, na minha vida, outra coisa que está sempre a acontecer. Eu tenho expectativas como, “se eu abandono as minhas defesas então as outras pessoas também deviam fazê-lo. Não há nada a temer, por isso porque é que elas não as abandonam?” E se elas se agarram às suas defesas, fico muito irritado.

Alex: Duas coisas vêm-me à mente quando você diz isso. A primeira é uma conversa que tive recentemente num trem com uma mulher que, quando eu disse que estava a ensinar budismo e a como superar o egoísmo, respondeu, “o que está errado com ser-se egoísta? Se todos forem egoístas e eu não o for, então estou simplesmente a ser estúpida!” Você está falando da mesma coisa; se todos se agarrarem às suas defesas, todos exceto eu, então estou simplesmente a ser estúpido. A resposta que lhe dei foi: “bem, por essa lógica, se todos andassem por aí a matar pessoas e você não fizesse o mesmo, você seria estúpida”. Então, obviamente, temos de ser um pouco mais objetivos sobre as vantagens e as desvantagens de matar pessoas e de nos agarrarmos às nossas defesas.

A segunda coisa que me ocorreu foi o exemplo da minha mãe. A minha mãe costumava ficar muito perturbada ao ver as notícias na televisão. Via as notícias e ouvia sobre todos os assassinatos, todos os roubos e violações que tinham acontecido nesse dia, e ficava muito irritada, “porque é que as pessoas agem desta maneira?”

Agora, penso que aqui a questão é a da moralidade excessiva. Podemos ser excessivamente moralistas e sem quaisquer reservas. A minha mãe não era assim. Mas também podemos tê-la de uma maneira muito mais sutil. Isso é o que eu penso que ela tinha, uma forma mais sutil de “eu sou tão maravilhosa e toda a gente é tão má”. Repito, penso que tudo isto anda à volta desta concepção errada de um “eu” sólido. Ou seja, identificamo-nos como alguém que age de uma maneira benéfica, como alguém que abandonou as defesas ou como alguém que não anda por aí a matar e a roubar. Identificamos um “eu” sólido com essas atitudes. Usamo-las para fortificar a nossa identidade numa tentativa de tornar este “eu” seguro. Então usamos todo o mecanismo da forte rejeição dos outros que não agem como nós, para tentarmos fazer com que esse “eu” se sinta menos ameaçado e ainda mais seguro.

Podemos compreender, com o exemplo seguinte, como poderíamos responder diferentemente. Por exemplo, bebemos água de um copo, deste modo. O nosso cão não bebe água dessa forma. Assim, se houver muitos cães e estiverem todos a beber água lambendo-a com as suas línguas das tigelas no chão, isso faz-nos sentir excessivamente moralistas porque nós bebemos da maneira certa e todos os cães são maus porque bebem da maneira errada? Não. Porque é que isso não nos faz sentir tensos?

Por outro lado, se estivermos abertos e os outros à nossa volta não estiverem, porque é que isso nos faz sentir tensos? Qual é a diferença entre isso e [o exemplo de] bebermos água de uma maneira diferente de um animal? Penso que a diferença está em termos de identificarmos um “eu” sólido com uma certa posição. Não importa a maneira como bebemos, isso é trivial. Assim, nós não nos afeta como o cão bebe. Mas este “eu” sólido – “Eu estou tentando, com tanto esforço, ser aberto e ser `bom' .....”

Agora temos que dar uma outra pequena pincelada noutra parte da nossa pintura, no que diz respeito a ficarmos perturbados quando os outros não se comportam como nós. Esta é a pincelada a respeito da questão do “dever” – “Eu devia fazer isto.”

Não Nos Importarmos com o que os Outros Dizem ou Fazem

Participante: (tradutor) Ele diz que há uma outra abordagem. Se você quiser ser uma pessoa respeitada e alguém lhe disser, “você é um idiota”, então você fica irritado. Mas se você não quiser ser uma pessoa respeitada e alguém lhe disser dez vezes, “você é um idiota” então você não se importa com isso. E se alguém quiser sair com a sua esposa por qualquer razão e você quiser ficar com a sua esposa, então vocês começam a lutar. Mas se você pensar, “tudo bem, se a minha esposa quiser sair, não tenho problema com isso. Eu aceito isso”. Então, como você não tem o desejo de ficar com ela, você não começa uma luta.

Alex: Aqui, temos de diferenciar duas verdades. Nós chamamo-las a verdade convencional e a verdade última ou a verdade convencional e a verdade mais profunda. Do ponto de vista da verdade mais profunda, sim, nós tentamos não ser apegados às coisas, vendo que as coisas não têm uma existência sólida. Mas, do ponto de vista da verdade convencional, há “coisas a serem aceites e coisas a serem rejeitadas”. Do ponto de vista convencional, é mais benéfico estarmos abertos do que estarmos fechados e é mais benéfico proteger a nossa esposa do que deixar que qualquer um a viole ou a leve. Isso não contradiz a verdade mais profunda de que nós não estamos apegados. Precisamos de ter cuidado para não confundir essas duas verdades.

Exercício Conclusivo

Está na hora de acabarmos a nossa sessão desta noite. Vamos terminar com um pouco de prática experiencial, e vamos fazer isto, uma vez mais, olhando em redor e estando abertos. Queremos estar abertos, não no sentido de um “eu” sólido que abandonou as defesas e qualquer lama que seja atirada contra mim… whop! direitinho na cara. Mas pelo contrário, as defesas foram abandonadas e não há nada de sólido com que tenhamos de nos preocupar e que nos possa vir a magoar. Mas obviamente nós estamos aqui. Reagimos ao que quer que seja que se esteja a passar sem termos de estar na defensiva com um grande apego e com medo. De onde é que o medo vem? O medo vem do pensamento de que há um “eu” sólido que pode ficar magoado. Então, naturalmente, ficamos com medo.

A verdade convencional é que, se alguém nos atirar com alguma coisa, desviamo-nos para o lado. Se esperarem demasiado de nós, dizemos “Não”. Convencionalmente, lidamos com tais coisas com uma consciência discriminadora ou com a capacidade de fazermos distinções objetivas, em vez de com julgamentos subjetivos e excessivamente moralistas.

Participante: Se você abandonar as defesas, isso está relacionado com a flexibilidade, de modo que quer oiçamos coisas boas ou ofensivas, queremos à mesma ajudar? Sermos capazes de fazer isso significa que temos flexibilidade?

Alex: Exatamente. Só quando abandonarmos as defesas é que poderemos ser verdadeiramente flexíveis e espontâneos. Se nos agarrarmos às defesas nunca poderemos responder de uma forma totalmente livre. Por isso somos muito rígidos. Andamos por aí com todas estas muralhas à nossa volta.

Participante: Arrasarmos essas muralhas significa sermos flexíveis a um certo nível. Mas não significa apenas a flexibilidade, pois não? Abandonarmos as muralhas não significa ser-se só flexível, pois não?

Alex: Exatamente. Não significa apenas ser-se flexível. Também significa sermos capazes de nos relacionarmos de um modo realmente adequado. Significa muitas coisas. Tudo está interligado. E poderemos ser mais sensíveis quando abandonarmos as nossas defesas. E quanto mais sensíveis formos, mais flexíveis nos tornaremos. E se formos mais sinceros, isso faz com que a outra pessoa se sinta mais relaxada conosco. São muitas coisas e todas elas estão interligadas. Se as nossas defesas estiverem em baixo e estivermos realmente a ver o que se está a passar com as pessoas, é muito mais fácil termos a consciência discriminadora e termos uma ideia clara de como agir. Diz-se que a discriminação e os meios hábeis surgem naturalmente quando as defesas estão em baixo.

Mesmo se não pudermos criar este tipo de sentimento das muralhas estarem em baixo com base na compreensão da vacuidade, podemos criá-lo com base no entendimento de que todos são os nossos melhores amigos. Porquê? Porque vários métodos de viajar podem-nos levar ao mesmo destino, várias causas podem conduzir ao mesmo resultado que queremos alcançar, como abandonarmos as nossas defesas. Isso vem dos ensinamentos sobre a vacuidade da causa e do efeito. Assim, há muitas formas diferentes de se alcançar uma compreensão e há muitos níveis diferentes de compreensão, e todos eles podem ser úteis.

Então, vamos tentar criar essa abertura com base na compaixão; vendo todos como se fossem o nosso amigo mais próximo. E depois, se também conseguirmos criar essa abertura com base numa compreensão correta da vacuidade, isso será ainda mais útil. As duas estão sempre conectadas – a compaixão e a sabedoria. Lembram-se? É a imagem das duas asas.

Tomando Responsibilidade pelos Outros

Participante: (tradutor) Mas se você vir o outro como o seu melhor amigo, então isso significa que você tem de tomar toda a responsabilidade por ele e, por isso, desse ponto de vista, ela tem medo.

Alex: Porque é que temos medo? Por causa de um “eu” sólido – “Eu vou falhar”. Então isso significa que temos que dar outra pincelada no nosso quadro, para incluirmos também o lado da vacuidade da causa e efeito. O exemplo padrão que o Buda usou foi o de um balde de água, que não se enche pela primeira nem pela última gota de água; enche-se pela combinação de todas as gotas. Quando tentamos ajudar alguém a superar o seu sofrimento, não é totalmente dependente apenas do que fazemos. Isso seria uma inflação exagerada do “eu”. O resultado vem da combinação de muitas, muitas, muitas causas.

Por um lado, não dizemos que somos unicamente responsáveis no sentido de que se eles não melhorarem então somos culpados de termos falhado. Mas por outro lado, não vamos também ao outro extremo, que é não fazermos nada. Contribuímos o melhor que podemos. Mas se irão ou não superar o seu sofrimento, não sabemos, porque a maior parte depende do que eles fazem.

Uma vez mais, este é um tópico que nos permite dar umas pinceladas na pintura que estamos fazendo, mas amanhã iremos aprofundar isto mais e mais – toda esta ideia de “eu devia”. “Eu devia fazer isto. Eu devia ajudar-lhes. Eu devia resolver todos os seus problemas e assim por diante. E se o que eu fizer não resultar e não eu conseguir resolver os seus problemas, então sou culpado de ter feito algo de errado”.

E isso conduz-nos naturalmente à discussão de Deus, de onde vem esta nossa forma de pensar no “dever”. Imaginamos que deveríamos ser onipotentes, tal como Deus, e deveríamos conseguir realizar tudo o que queremos, através apenas do nosso próprio poder. Falaremos sobre isso amanhã.

Assim, vamos terminar com alguns minutos, estando abertos sem nenhum medo, e depois com o desejo “seria maravilhoso se todos nós pudéssemos estar abertos e sem medo. Possamos todos ser assim. Que eu possa ajudar todos a tornarem-se assim”.

Lembrem-se de que temos que nos interrogar, a nós próprios, do que temos medo, porque temos medo e, é claro, quem é que tem medo.