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Trazendo o Budismo à Terra

Alexander Berzin
Munique, Alemanha, Junho de 1996

Seção Quatro: As Implicações de se Tomar Refúgio

Refúgio como Orientação Básica das Nossas Vidas

Temos falado sobre vários problemas que às vezes enfrentamos no budismo, em particular sobre a dificuldade que frequentemente muitos de nós temos em realmente aplicar os ensinamentos budistas às nossas vidas. Outra area que é importante examinar, a fim de lidarmos com este problema, é o tópico do refúgio. Há muitas coisas nos estágios iniciais do caminho budista que muitas vezes trivializamos ou evitamos examinar. Para muitas pessoas, o refúgio é uma delas. Isso é muito triste porque, quando o refúgio se torna algo trivial e sem sentido para nós, privamo-nos do alicerce de toda a prática budista.

Tomar refúgio não é apenas a repetição de uma fórmula e cortar-se um bocadinho de cabelo, como algumas tradições fazem, e talvez receber-se um nome budista – isso não é a essência do refúgio. Ao invés, é uma mudança fundamental de atitude para toda a vida. É um estado mental com que ativamente damos uma direção segura à nossa vida, no sentido de trabalharmos em nós próprios – tentando desenvolvermo-nos para tornar o nosso samsara um pouco melhor, como já discutimos, ou para alcançar a liberação, ou para alcançar a iluminação de modo a podermos ajudar os outros tão inteiramente quanto possível. Não é que, com o refúgio, nos estejamos a comprometer a ser leais a uma espécie de culto. E por culto, eu não quero apenas dizer um culto organizado; poderia também ser um culto da personalidade de algum professor. Pelo contrário, a tomada de refúgio envolve uma nova orientação que damos às nossas vidas de modo que, quando essa orientação se torna estável em nós, sabemos o que estamos a fazer com as nossas vidas, para onde as nossas vidas estão a ir e qual é a finalidade das nossas vidas. É crescer.

Quando temos uma ideia de para onde estamos a ir na vida – do que estamos fazendo na vida – todos os ensinamentos ficam então baseados neste alicerce. Especificamente, olhamos para os ensinamentos e o exemplo do Buda para dar-nos essa direção segura e positiva. Não é necessário dar-vos agora um longo ensinamento sobre o refúgio, mas penso que a atitude que desenvolvemos em relação aos ensinamentos quando temos essa direção segura do refúgio nas nossas vidas é muito útil. O que isso significa é que vemos todos os ensinamentos como sendo relevantes à diminuição ou eliminação do sofrimento e a sermos capazes de ajudar os outros. Levamos os ensinamentos muito seriamente e temos confiança que o Buda os ensinou, ou mais tarde um discípulo os ensinou, unicamente com a finalidade de nos ajudar a eliminar o sofrimento e a tornarmo-nos mais prestáveis aos outros. Essa é a finalidade de todos os ensinamentos. Tentamos compreender o que em cada ensinamento nos ajuda a atingir esses objetivos.

Examinando a Finalidade Mais Profunda da Prática Ritual

Vamos usar o exemplo destes vários rituais a que geralmente chamamos a nossa prática budista. Todas estas práticas com deidades – os rituais, pujas e assim por diante – são ensinamentos do Buda. Isso significa que nos devem ajudar a eliminar problemas e a ajudar os outros. Como fazem isso? Ter-se refúgio significa que levamos esses rituais a sério e que realmente os analisamos para tentarmos compreender como é que esses rituais atingem esses objetivos. E depois, então, aplicamo-los para essa finalidade. Tentamos abordar essas práticas rituais dessa maneira.

A resposta de como eles nos ajudam a atingir a liberação e a iluminação pode não ser assim tão óbvia. Contudo, isso apenas significa que é um desafio. Se não tivermos esta atitude de dar a direção segura do refúgio às nossas vidas, então todas estas várias práticas rituais serão irrelevantes para a nossa vida – não nos tocam realmente e assim têm pouco ou nenhum efeito. De fato, ter-se esse tipo de atitude em relação a estas práticas, pensando, “são apenas uma espécie de rituais orientais exóticos talvez divertidos de fazer, quando estamos bem dispostos, mas que em outros momentos são um pouco impositivos e de aborrecimento”; quando temos essa atitude, nada vem deles. Não têm nenhum efeito positivo. O que isso indica, subjacente a esta falta de qualquer efeito positivo, é que nós, na verdade, não estamos a levar os ensinamentos muito a sério. Na verdade, não temos essa atitude de abertura e de respeito pelo Buda ou pelo fato que ele ensinou práticas que nos vão ser úteis. Ele não ensinou apenas coisas que são divertidas ou incrivelmente enfadonhas, que temos de as fazer porque pensamos que devemos, para evitarmos sentimentos de culpa ou a fim de sermos “bons”.

Estas questões persistem não só nestes tipos de práticas rituais, como em tudo nos ensinamentos. Ouvimos várias coisas muito estranhas nos ensinamentos budistas. Às vezes a estranheza é causada por problemas de tradução. Há muitos exemplos disso onde a palavra, que usamos para traduzir para línguas ocidentais, apenas nos dá uma interpretação totalmente incorreta. Os meus exemplos favoritos são: virtude e não-virtude, mérito, pecado, etc. Tudo isso é terminologia cristã; não é budista. Tudo isso anda à volta da ideia do DEVER: “Eu devo fazer isto e não devo fazer aquilo; se fizer isto, sou bom e se não fizer aquilo, sou mau”. Tudo isto está relacionado com um contexto julgador, com Deus como juiz. Esse não é, de modo nenhum, o contexto budista.

Quando temos confusão e dificuldades com os ensinamentos, o que precisamos verificar em primeiro lugar é um possível problema vindo da tradução. Esta é uma etapa muito necessária. Mas como já disse, há muitas coisas estranhas nos ensinamentos, como ensinamentos sobre os reinos do inferno, por exemplo, ou sobre o monte Meru e esses tipos de coisas. Podemos encará-las e dizer: “isto é estúpido e eu não gosto disto”; ou podemos tentar compreender: “qual é a intenção por trás disso que os torna num mecanismo que nos ajuda a obter um renascimento melhor, a liberação ou a iluminação?”. Se tivéssemos uma direção firme de refúgio nas nossas vidas, tentaríamos compreender todos estes ensinamentos e não apenas ignorá-los.

Ensinando Estórias

Eu recordo os ensinamentos sobre o carma. Serkong Rinpoche costumava ensinar o carma com exemplos clássicos, tais como o exemplo da pessoa que tinha um elefante que defecava ouro. Sempre que tentava livrar-se desse elefante, porque atraía multidões enormes e grande agitação, nunca conseguia livrar-se dele. O elefante voltava sempre. Como pessoas ocidentais, ouvimos uma estória destas e dizemos: “Ora! Isso é ridículo!” Sentimo-nos também um pouco vergonhosos. Não gostaríamos de mostrar aos nossos pais um livro sobre o que estamos a estudar, contendo coisas deste tipo. Eles poderiam pensar que nós estamos a ficar malucos. Quando disse isso a Serkong Rinpoche, a sua resposta foi muito interessante. Disse ele: “se o Buda quisesse ter feito uma boa estória, ele teria feito uma estória melhor do que essa”.

Podemos compreender de duas maneiras o que disse Rinpoche. Uma é a de interpretar a estória como sendo totalmente literal, e tenho a certeza que há muitas pessoas das culturas asiáticas tradicionais que interpretam estas estórias literalmente. Contudo, não acho que esse seja o único significado que podemos derivar da resposta de Serkong Rinpoche. A outra maneira de o entender é que a estória não foi contada apenas para entretenimento, uma vez que o Buda poderia entreter-nos muito melhor do que isso. Mas a estória pretende dar-nos uma lição. No ocidente, também temos uma tradição oral como essa; há uns tipos de estórias chamadas fábulas, lendas, mitos e contos de fadas que são contadas para todas as idades. Há uma lição a aprender em cada estória, geralmente sobre causa e efeito, e este é um método de ensino muito válido e eficaz. Não precisamos de ensinar apenas em termos de simples listas. Podemos também ensinar através deste tipo de estórias.

Se o nosso refúgio for muito forte, então, quando lermos todas estas coisas fantásticas nos textos, como “há milhões de Budas em milhões de campos búdicos e em cada poro minúsculo de cada Buda há milhões de outros campos búdicos”, tentamos compreender qual é o objetivo. “Sem dúvida que é o de me ajudar a mim e não apenas o de ajudar alguma pessoa estúpida noutro país que acreditaria nessas coisas. O objetivo é ajudar-me a superar os problemas da minha vida, para ajudar-me a ser mais prestável aos outros. Como é que esta estória me pode ajudar a conseguir isso? Qual é a lição a ser aprendida?” Com esta atitude podemos começar a nos relacionar pessoalmente com todos os ensinamentos muito mais facilmente.

Unindo as Peças do Quebra-Cabeça

É muito importante compreender o método de ensino budista básico. O método básico dá ao estudante peças do puzzle. Depois, a responsibilidade de as organisar é do estudante. E um professor hábil não nos dá as peças todas do puzzle de uma vez. Nós temos de pedir mais. Se não pedirmos mais, isso significa que não estamos realmente interessados, que não estamos realmente motivados. Assim, se o professor nos tivesse dado mais, teria sido um desperdício.

A apresentação dos ensinamentos dessa maneira ajuda o estudante a desenvolver o entusiasmo, a paciência, o trabalho duro – todas essas coisas que permitem os ensinamentos criar raizes em nós. O processo budista de ensinar não é o de simplesmente fazer uma cópia de um documento num computador e de transferí-la para uma disquete vazia. Não é simplesmente transferir informação de um professor para um discípulo. Todo o processo de ensino pretende desenvolver as nossas personalidades enquanto estudantes.

Precisamos, então, de abordar os ensinamentos dessa maneira e de não sermos impacientes, lamentando-nos “você não explicou tudo” ou “não está claro”, e assim por diante. Precisamos de recolher as várias peças do puzzle e de trabalhar com elas – tentando uni-las. Entender o que elas realmente significam e como estão relacionadas com a vida . O refúgio ajuda-nos a estarmos abertos ao desenvolvimento dessa atitude sobre o processo de aprendizagem. Este é um dos objetivos do refúgio.

Fontes Provisórias e Definitivas de Refúgio

A outra questão sobre o refúgio é: para aonde nos viramos quando a vida é difícil e as coisas nos estão a correr mal? Algumas pessoas, quando acontece qualquer coisa desagradável ou quando começam a sentirem-se nervosas, vão ao frigorífico. Ou voltam-se para o álcool ou para as drogas, para o sexo ou para os esportes. Há tantas coisas onde as pessoas tomam refúgio. É muito interessante examinarmos este aspecto do refúgio em nós. Quando as coisas estão bem difíceis, viramo-nos para quê ou para quem? Para um amigo? Para uma bebida? Podemos dizer, “eu DEVIA voltar-me para o Buda, Dharma e Sangha”. Mas isso torna-se um pouco incômodo, porque essa atitude facilmente degenera em “Deus ajude-me – Buda ajude-me”.

Os ensinamentos falam sobre a tomada de refúgio provisória e definitiva. Deixem-me usar o meu próprio exemplo. Quando estou nervoso ou agitado sobre algo, a minha tendência é ir ao frigorífico. Como qualquer coisa de que gosto e isso ajuda-me um bocado. Lembrem-se que falámos sobre a Primeira Verdade Nobre: a vida é difícil. É necessário termos uma certa aceitação disso. Eu sei que comigo, quando os meus ventos-energia estão a começar a ficar um pouco nervosos ou a perder o equilíbrio, se eu comer alguma coisa, especialmente pão integral, isso acalma esses ventos e dá-me um pouco mais de estabilidade. É como tomar uma aspirina quando não nos sentimos bem; eu sei que isso não é a solução definitiva dos meus problemas. Sei disso muito bem. Digo a mim mesmo, “bem, eu sei que isto me vai ajudar apenas a um nível superficial, mas tenho a direção mais profunda para onde me viro para me ajudar com o problema”.

Naturalmente, temos aqui de exercitar um certo discernimento, porque se a ajuda provisória de lidar com problemas fosse a única variável envolvida, poderíamos dizer: “se eu consumir heroína, isso também é a minha aspirina provisória e eu estou ciente da solução mais profunda”. Há uma diferença entre comer uma barra de chocolate e consumir heroína. Precisamos de certificar-nos de que qualquer refúgio provisório que tomamos não seja algo de brutalmente prejudicial para nós ou para os outros. Não deve ser como: “sair e disparar num coelho dá-me uma boa sensação, por isso quando ficar nervoso vou sair e matar algo”.

Assim, precisamos de trabalhar um pouco em termos de “para onde me volto em horas de necessidade?” em vez de “eu DEVIA voltar-me para o Buda, Dharma e Sangha, por isso vou sentar-me aqui a meditar. E se em vez disso eu comer uns bolinhos, isso significa que sou uma pessoa má ou um mau budista”. É aceitável tomar essa aspirina, comer esses bolinhos ou esse chocolate ou o que quer que seja – falar com alguém ao telefone – isso é perfeitamente aceitável, desde que estejamos conscientes de que essa não é a solução definitiva. Se virmos isso como a solução mais profunda, então ficaremos decepcionados quando não resultar. Qualquer conforto que nos dê não pode possivelmente ser duradouro. É superficial. Afinal, a vida é difícil. Estes são alguns aspectos sobre o refúgio.

Têm algumas perguntas?

Ética Bíblica

Participante: [trad.] Se ele tivesse o desejo de disparar num coelho, então viria também a ideia “eu não devia disparar em coelhos”. Essa ideia do “dever” surge de novo.

Alex: Talvez precisemos de deixar de dar apenas umas pequenas pinceladas nesta parte da pintura que é o “devia” e o “não devia” e irmos ao fundo desta questão.

A discussão de “devia” e “não devia” anda à volta de várias coisas: da ética e de toda a abordagem à ética, e também dos ensinamentos sobre a vacuidade.

A ética bíblica, por exemplo, é um sistema que está baseado numa autoridade superior que estabeleceu determinadas regras e leis, e assim a ética em tal sistema basicamente consiste em ser-se obediente. Uma pessoa ética, neste contexto, é uma pessoa obediente que obedece a estas regras superiores. Se as obedecermos, somos bons. Se as desobedecermos, somos maus e vamos ser castigados. Esta autoridade superior tem uma certa reação emocional básica com relação a nós, assim, se obedecermos a esta autoridade superior, essa autoridade superior vai gostar de nós e vai recompensar-nos. Se desobedecermos, essa autoridade superior não vai gostar de nós, vai deixar de nos amar e vai-nos castigar. Essa é a qualidade emocional deste tipo de ética.

Podemos falar sobre isso em termos de Deus, ou podemos falar sobre isso em termos dos nossos pais. Também projetamos isso nos nossos pais, que estão sempre a dizer-nos “seja uma boa menina; seja um bom menino; não seja mau”. Se desobedecermos, então, somos maus e sentimos que já não nos amam e por isso queremos agradar-lhes. A nossa conduta ética é baseada em querermos agradar a esta autoridade superior que estabeleceu as regras.

Assim, para a maioria de nós que cresceu em culturas que seguem a Bíblia, toda a nossa ética está baseada no “devia” e “não devia”. Queremos saber “o que é que devo fazer?” de modo a que gostem de nós, a sermos recompensados, e a que as coisas nos corram bem. Embora talvez, a um certo nível, o que estou a explicar seja um pouco simplista de mais, é incrível quanto agimos desta maneira. Quando ingressamos numa situação nova, queremos saber o que DEVEMOS fazer. Queremos que alguém nos diga quais são as regras. Desde que saibamos quais são elas, sabemos a que obedecer e então sentimo-nos bem e confortáveis. Então tudo está em ordem e sentimos que estamos controlando tudo.

A Questão do Controlo

Este ponto toca na questão de “estar em controlo”. Quando conhecemos todas as leis e sabemos que precisamos de as seguir, então sentimos que se nós de fato as seguirmos, estaremos “controlando” da situação. Sentimos que sabemos o que vai acontecer, e por isso estarmos a par de todas as regras faz-nos sentir um pouco mais seguros. Quando abordamos a vida em termos desta atitude de querer estar em controlo, desta atitude de obediência, destas regras e de tudo estar em ordem, então, num certo sentido, estamos baseando a nossa conduta na emoção de querermos ser bons e de querermos agradar.

Este tipo de abordagem está muito baseado no conceito de um EU sólido e de um VOCÊ sólido, que estabelece as regras. Deste modo, estamos sempre preocupados com este EU que vai ser rejeitado ou abandonado – expulso do Jardim do Paraído – se formos maus. Por causa dessa preocupação com o EU sólido, temos todo este medo e todas estas questões sobre o controlo que vêm à superfície – esta preocupação sobre estar em controlo. Sentimos que a única alternativa é o caos absoluto e isso é semelhante a este medo de que, se abandonarmos as muralhas, será caótico e não teremos defesas nenhumas. Tendemos, como nosso forte legado cultural no ocidente, a ter este tipo de atitude em relação à ética, baseado no “devia” e “não devia” e cumprir as regras.

Então, se temos esta atitude, tendemos a ver os ensinamentos budistas e a abordá-los da mesma maneira. Vemos a ética budista também em termos de regras sobre o que eu “devia” e “não devia” fazer: “Não devo matar. Devo fazer a minha prática de recitação diária. Se não, sou mau e os meus gurus vão deixar de me amar. Ficarão desagradados e já não me vão amar”.

Alguém mencionou durante o nosso intervalo para o almoço, que às vezes é realmente muito difícil seguirmos os ensinamentos que o nosso guru nos dá. Mas, no entanto, nós queremos ser um bom discípulo; queremos ser apreciados e agradar ao nosso professor. Assim, em vez de seguirmos o que o nosso professor nos ensinou, adotamos uma espécie de mentalidade de culto com esse professor, baseada no pensamento: “o meu professor é melhor do que qualquer outro”. Achamos, talvez sem estarmos conscientes, que isso irá agradar ao nosso professor. Em vez de sermos leais ao nosso professor pondo os ensinamentos em prática, pensamos que ser leal significa adorá-lo. Assim, sobrepomos a ideia de “devia” e “não devia” à da idolatração ao nosso professor, como num culto. Fazemos isto porque é muito difícil seguir o Dharma que o nosso professor nos está a ensinar.

Ética Budista

A ética ocidental é, na verdade, uma combinação da abordagem bíblica e da abordagem da Grécia Antiga. Na versão grega, em vez das leis serem dadas por uma autoridade superior do céu, as leis são feitas por uma legislatura de cidadãos. Os cidadãos reúnem-se e fazem as leis para o bem da sociedade. Então, uma vez mais, é uma questão de “obedece e as coisas vão bem; desobedece e você vai para a cadeia e é punido como um mau cidadão da sociedade”.

A sociedade ocidental, então, combina éticas bíblicas e civis de uma maneira interessante, mas nenhuma delas é relevante à ética budista. Na ética budista, o objetivo principal não é descobrir quais são as leis e, depois de as sabermos, apenas obedecê-las e nada mais. Essa não é a orientação de modo nenhum. Basicamente, o Buda não disse o que é que “devemos” ou “não devemos” fazer. O Buda disse, “se você agir deste modo, surge este resultado. Se você agir daquela forma, o resultado será aquele”. Ou seja, cabe-nos a nós decidir o que queremos fazer. A escolha do que fazer é nossa. Se continuarmos a bater com as nossas cabeças na parede, vamo-nos magoar. Se deixarmos de bater as nossas cabeças na parede, seremos mais felizes. Não estava dizendo, “você deve parar de bater com sua cabeça na parede”. Estava apenas dizendo o que acontece quando você bate na parede e quando você não bate na parede.

Assim, a responsibilidade é nossa, como indivíduos, de discernir e de fazer essa escolha. Se quisermos deixar de sofrer e de criar problemas a nós mesmos, então modificamos o nosso comportamento desta ou dessa maneira. Se não nos importarmos… bem, isso é conosco. Não mudamos. Não é uma questão de bem ou mal. É apenas: “Se você quer continuar a sofrer, essa escolha é sua – é seu privilégio. Se você quiser deixar de sofrer, você precisa modificar o seu comportamento”. Isso não nega que, na sociedade, é necessário termos determinadas leis. Ainda temos de pôr criminosos na prisão de modo a não continuarem a andar por aí a matar pessoas. A ética budista não contradiz isso.

Para desenvolvimento pessoal, então, desenvolvemo-nos nós próprios, desenvolvendo a chamada “ consciência discernente” ou “sabedoria.” Precisamos de discernir entre o que é útil e o que é prejudicial para nós e para os outros. É mais difícil saber o que irá prejudicar os outros, por isso a ênfase está em evitar o que nos irá prejudicar. Por exemplo, podemos dar uma rosa a alguém com a intenção de fazê-lo feliz e ele apanhar um ataque de alergia. É muito difícil sabermos o que irá realmente ajudar a outra pessoa. Assim, a ênfase aqui está em discernir entre o que é prejudicial e o que é benéfico para nós – isto é mais fácil de se diferenciar. Não é uma questão do “eu devo fazer isto e não devo fazer aquilo”. Mas, em vez de entendermos isto, abordamos frequentemente os nossos professores em termos de “diz-me o que devo fazer. Como devo praticar? O que devo fazer?” Isso não é útil.

Como Lidar com o Medo da Punição

Participante: Mas quando descubro este aspecto sobre a verdade cármica da causa e efeito, eu ainda tenho um sentimento de medo quando faço uma ação nociva – tenho medo do castigo. Realmente, gostaria de ser capaz de poder escolher livremente o que eu faço, sem medo. Gostaria de fazer essa escolha de um modo saudável em vez de tentar livrar-me do comportamento nocivo devido ao medo. É infantil e não gosto disso. Assim, como é que eu posso exercitar-me, treinar-me, para me livrar deste medo e deste sentimento de culpa?

Alex: O medo é baseado no agarramento a um EU sólido. Pensamos que há este EU sólido e queremos aprovação para esse “eu” sólido e temos medo da desaprovação e da punição. Nós temos medo. Podemos ter essa concepção errada apenas a respeito do “eu” ou podemos complicá-la ainda mais com a crença em figuras de autoridade solidamente existentes a quem este eu sólido quer agradar e de quem quer obter aprovação. Isso apenas complica ainda mais as coisas, visto que temos medo de ser abandonados por essas figuras de autoridade solidamente existentes.

Eu sei que não é justa a forma com que estou explicando isto, porque na verdade nós precisamos de penetrar muito mais profundamente na discussão da vacuidade, de modo a não reagirmos a este ensinamento profundo no budismo pensando, uma vez mais, que “eu sou mau; eu sou estúpido porque não compreendo” ou indo ao outro extremo de dizer “eu não existo”. Assim, deixem-me explicar um pouco mais.

Aparências Enganadoras

Basicamente, a mente faz com que as coisas apareçam de uma forma que não corresponde à realidade. Isto acontece automaticamente. Todos nós experienciamos uma voz falando dentro das nossas cabeças e as nossas mentes fazem isso parecer como se houvesse alguém falando lá dentro. Parece que há um autor da voz que está falando lá dentro, dizendo: “o que é que eu devo fazer agora? Oh, não! Isto vai acontecer”. Aparece dessa forma e nós pensamos que o autor dessa voz é o EU, um EU que existe solidamente.

Quando falamos sobre as chamadas “aparências engadoras”, estamos falando sobre o tipo normal de aparências que todos nós temos, como esta. As nossas mentes fazem parecer como se houvesse uma pequena pessoa, “eu”, cá dentro, que está sentada atrás da cabine de controlo nas nossas cabeças. Toda esta informação entra pelos olhos e pelos ouvidos, e então esse pequeno eu diz, “Oh, o que devo fazer? Talvez deva fazer isto, talvez deva fazer aquilo. Oh, eu vou fazer isto…” e carrega num botão que faz com que depois o corpo diga isto ou faça aquilo.

É esta concepção de um sólido eu que nós acreditamos ser verdadeira. É simplesmente a maneira como a mente, enganadoramente, está fazendo as coisas parecerem e essa é a base para o medo e para todo este síndrome de “eu devo fazer isto”, “o que é que eu devo fazer?”, “eu quero ser bom” e “não quero ser mau”. Mas, a verdade é que não há nenhuma pequena figura sólida dentro das nossas cabeças. Onde é que está? – esse que está tão preocupado acerca do que eu devo fazer e que está com tanto medo de fazer a coisa errada. Quando nos agarramos à ideia de que existimos realmente como esse tal “eu” – e esta palavra agarrar não é assim tão fácil de compreender – nós adquirimos esse medo.

Agarramento

Vamos explorar esta palavra agarramento. A imagem que me vem sempre à mente é a de um rato se afogando numa poça de água e agarrando-se a qualquer coisa que esteja flutuando na proximidade para se não afogar. Quando falamos sobre o agarramento, há uma situação desesperada e temos uma quantidade tremenda de insegurança e de confusão. Assim, agarramo-nos a qualquer coisa, como esse rato que se está afogando, de forma a estabilizar a situação de qualquer jeito. Por exemplo, quando estamos numa situação difícil com alguém, agarramo-nos a qualquer coisa que eles fazem, e pensamos: “Ah! Isso significa que você não me ama genuinamente” ou “isso significa que você não gosta nada de mim”.

Ou estamos num relacionamento difícil e a outra pessoa está sempre descarregando sobre nós e está sempre a fazer-nos coisas ridículas e muito negativas. Mas no fundo, não queremos admitir que temos medo de ser abandonados e, assim, agarramo-nos a algo. Digamos que fazemos sexo e mesmo se a pessoa nos estiver usando apenas para a sua própria satisfação sexual, agarramo-nos a isso e pensamos, “fazer sexo comigo pelo menos indica que no fundo esta pessoa me ama”. E nós agarramo-nos firmemente a isso, como um rato afogando-se, porque se não o agarrarmos ficamos com medo de nos afogar, de sermos abandonados.

A vida é semelhante a isto. É aterrorizadora. Nós não sabemos o que fazer. É desconcertante. Queremos algo estável e, assim, agarramo-nos a qualquer mito que depois projetamos. Agarramo-nos a algo, acreditando que nos fará sentir mais estáveis e seguros, algo que nos dará um sentimento de uma verdadeira existência sólida. Agarramo-nos, por exemplo, à voz das nossas cabeças e pensamos, “ sou eu”! Ou podemos agarrarmo-nos a qualquer coisa: ao nosso corpo, à nossa profissão, ao nosso carro, ao nosso cão ou ao que quer que seja. É um processo muito complexo e aqui não temos tempo para entrar nele. No entanto, consciente ou não, o sentimento profundo de que eu me irei afogar se não me agarrar a algo está lá.

Temos uma atitude semelhante em relação às leis; agarramo-nos ao que devemos fazer e ao que não devemos fazer, porque sentimos que se não tivermos essa estrutura e se não estivermos sob controlo, então vamo-nos afogar. A realidade é que nós podemos nadar; a opção de nadar está aberta e nós podemos nadar. Não temos de nos agarrar a coisa nenhuma. Podemos lidar com a vida de uma maneira muito espontânea e aberta. Naturalmente, isto é com a sabedoria, discernindo entre o que é útil e o que é prejudicial. Mas esse conhecimento do que é útil e do que é prejudicial não é o conhecimento de algo como um conjunto de regras sólidas e escritas na pedra.

Pensamento Conceptual Verbal

A mente trabalha conceptualmente para algumas pessoas com o som das palavras. Tudo bem. Essa é a maneira que é. Não é nada de especial; não é uma grande coisa que faz a terra estremecer. Embora pareça que há uma pequena figura que está cá dentro falando essas palavras, lá dentro não há nada disso. O som das palavras nas nossas cabeças é apenas a maneira como a mente funciona. Funciona com pensamentos conceptuais que têm geralmente o som das palavras associadas a isso.

Ainda podemos tomar decisões, e até fazermos isso com base nos pensamentos com palavras, mas sem os associar a esta ideia de um eu sólido que está dentro das nossas cabeças falando e preocupando-se com “o que devo eu fazer?” e que está com tanto medo de tomar a decisão errada. Façam apenas! Mas façam-na discernindo entre o que é útil e o que é prejudicial. Naturalmente, não queremos fazer algo que seja prejudicial, mas precisamos tentar não exagerarmos o nosso papel e não pensarmos que: “ eu sou totalmente responsável por tudo que acontece”. Não somos. Podemos contribuir para uma situação, mas não somos a única causa. Podemos recear causar danos, mas não ter medo disso.

Poderíamos vigorosamente não querer causar mal mas isso é diferente de temê-lo. É uma intenção forte: “Não quero causar mal; vou tentar não causar mal. Não quero causar danos a outros ou a mim”. Não há nenhum pequeno eu sólido cá dentro tremendo de medo sobre tudo isto. Mas, ao apercebermo-nos disso, temos de ter o cuidado de não negar o eu convencional: “Eu estou aqui e estou fazendo isto e não quero fazer aquilo” e assim por diante. “Eu não quero experienciar o sofrimento”. O eu convencional existe apenas como aquilo a que a palavra eu se refere, nomeado com base na continuidade de momentos da nossa experiência individual.

Em breve, embora não seja fácil, a única maneira de superar o medo é através da compreensão da vacuidade. Por um lado, não há nada nem ninguém a recear. Por outro lado, temos de ter o cuidado de não nos negarmos completamente, como se não existíssemos de todo. É muito necessário seguirmos o caminho do meio, que não nos leva ao extremo do medo nem ao extremo do “não importa o que eu faço, porque na verdade eu não existo”. Quando estivermos muito preocupados sobre “o que devo fazer?” e “ eu quero ser bom, não quero ser mau”, quando estamos experienciando isso, precisamos tentar reconhecer que isso vem desta concepção errada de que há um pequeno sólido eu cá dentro que é uma criança pequena, lamentando-se “o que devo eu fazer”?

O Método de Ensino do Buda

Um exemplo do método de ensino do Buda, baseado nesta compreensão sobre o “eu”: uma vez uma mãe veio ao Buda com o seu bebê morto. Pediu ao Buda, dizendo: “por favor, Buda, traz o meu bebê de volta à vida.” O Buda respondeu, “primeiro traz-me uma semente de mostarda da casa de uma família onde a morte nunca visitou e então falaremos sobre isso”. A mãe visitou casa após casa, e logo se apercebeu que a morte tinha vindo a todas as casas e a todas as famílias. Desse modo, ela conseguiu aceitar a morte da sua criança. Ela própria compreendeu. O Buda não disse “você não me deve fazer tal pergunta. Ela é estúpida, porque toda a gente morre. Lembre-se da impermanência e da morte. Você é má por dizer isso.” E não disse: “Oh, não se preocupe porque o seu bebê foi para o céu ou para um campo búdico”. Pelo contrário, o Buda estabeleceu as circunstâncias para a própria mãe compreender a morte da sua criança.

Do mesmo modo, quando nós próprios unimos as peças do puzzle do Dharma, isso cria uma impressão muito mais profunda. Se formos perguntar ao professor “o que devo fazer? Dá-me a resposta para eu não ter de pensar por mim e para não ter de tomar nenhumas decisões por mim próprio, porque tenho medo de tomar a decisão errada”, isso põe em perigo todo o processo de crescimento espiritual que estamos procurando no budismo. Em vez disso, como já tenho dito, precisamos, nós próprios, de ter cuidado com o que fazemos e de assumir a responsabilidade pelas nossas ações e pelo processo de adquirirmos a compreensão. Ser prudente e ser cuidadoso não são uma função do medo. Ser cuidadoso é uma função do interesse e do cuidado acerca das consequências das nossas ações, em nós e nos outros. A natureza desse cuidado é a da compaixão, ou seja, do desejo de estarmos livres de sofrimento. Ter cuidado é também uma afirmação da existência do “eu” convencional – mas não do sólido “eu” que irá experienciar os resultados do que escolhemos fazer.