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Trazendo o Budismo à Terra

Alexander Berzin
Munique, Alemanha, Junho de 1996

Sessão 5: Estabelecendo Relacionamentos Saudáveis com Professores Espirituais

Lidando com Situações Problemáticas

Estávamos falando sobre esta questão do que devemos ou não fazer, sobre o medo que isso causa e assim por diante. Vimos que toda esta questão anda à volta de uma concepção errada sobre nós. Precisamos de diferenciar claramente entre a existência convencional e usual, de nós próprios e de tudo que nos rodeia, e a existência sólida que na verdade não existe. Lembrem-se de que quando estamos falando sobre a vacuidade, estamos falando sobre a ausência de modos impossíveis de existir, que não existem de forma alguma.

Como é que as coisas realmente existem? No budismo, dizemos que tudo existe em virtude do seu surgimento ser dependente de muitos, muitos fatores – causas, partes, rótulos mentais e conceitos para as coisas, e assim por diante. Fiquemos apenas ao nível das coisas que vão surgindo e existindo na dependência de causas e condições. Deste ponto de vista, podemos dizer que as coisas não são sólidas – sólidas no sentido de surgirem concretamente de só uma única causa – mas pelo contrário, tudo é complexo e, assim, tudo surge de interações muito complexas.

Por exemplo, quando enfrentamos situações, as coisas não são a preto e branco: “Você deve fazer isto e não deve fazer aquilo”; e, por causa disso, há apenas um modo correto de agir e qualquer outro modo é errado. Na verdade, qualquer situação problemática em que nos possamos encontrar é muito complexa, e a solução a que chegamos irá depender de muitos, muitos fatores. Assim, decidir o que fazer requer uma grande sensibilidade e entendimento. Quando começamos a superar este síndrome do “devo” e “não devo” e de seguir a lei indiscriminadamente, isso não significa que não tem importância aquilo que decidimos ou fazemos, porque tudo isso está [apenas] na nossa imaginação. O que isso significa é que em vez de sermos rígidos na nossa capacidade de resolver situações problemáticas: [como por exemplo] “o livro das regras está aqui, por isso deixa-me só ver as regras e seguí-las” – que seria o modo rígido e sólido de reagirmos em termos de “devo” e “não devo” – , nós usamos o nosso discernimento, a nossa sabedoria e toda a nossa experiência para encontrarmos a solução adequada à situação. Isso requer muita flexibilidade. Ao tentarmos resolver um problema, quantos mais fatores tivermos em consideração, mais possibilidades teremos de sabiamente o resolver. Quando não consideramos muitos fatores, chegamos a uma solução que na verdade não vai resolver o problema.

Por isso, quando dizemos que as coisas não são pretas nem brancas, isso não nega o fato de que podemos ter uma solução eficaz ou ineficaz para um problema. É importante termos isto em mente. Também temos de nos lembrar que não somos Deus. Não podemos resolver todos os problema estalando os nossos dedos.

Têm perguntas sobre estas questões, antes de continuarmos?

Acumulando Força Positiva para Compreender a Vacuidade

Participante: É possível compreender a vacuidade ou o vazio por nós próprios durante uma sessão de meditação? E como alcançar isso? Ou será só possível se formos apresentados ao vazio por um professor?

Alex: Tsongkhapa não era um homem estúpido. Trabalhou muito árduamente e teve com certeza uma compreensão muito mais exata do vazio do que a maioria de nós tem. No entanto, viu que para obter uma correta compreensão não conceptual do vazio, o que precisava fazer era acumular mais potencial positivo, que é geralmente traduzido como “mérito”. Num estágio muito avançado do caminho decidiu que era necessário fazer três milhões e meio de prostrações e, esqueço-me agora do número exato, mas também milhões de oferendas de mandala. Depois de ter feito tudo isso, ele foi capaz de correta e não conceptualmente compreender o vazio. Esse, penso eu, é um ensinamento muito importante. Quer estejamos sentados sozinhos tentando compreender o vazio, quer um professor apareça e diga “deixem-me apresentá-los um ao outro: Alex, este é o Vazio; Vazio, este é o Alex”, se não tivermos esse potencial positivo, que é aquilo que chamamos de “mérito”, nada irá acontecer.

Ouvimos sempre falar sobre a necessidade de acumular as duas coleções de mérito e insight; eu prefiro chamá-las “reservas” ou “redes” de “potencial positivo” ou de “força positiva” e de “consciência profunda”. Penso que, independentemente do que quer que lhes chamemos, acumularmos as duas é extremamente importante e algo que, pela minha própria experiência, sei que é muito verdadeiro. Quando estamos tentando compreender ou conseguir algo, ou seja o que for, seja na meditação, escrevendo um livro, resolver um problema, ou o que quer que seja, às vezes chegamos a um ponto em que atingimos uma espécie de bloqueio mental. Não conseguimos avançar. Alcançamos um ponto sem saída ou perdemos o interesse. O problema é que agora a nossa energia está demasiado fraca para ir mais além. Para continuarmos, necessitamos de alguma energia positiva, alguma força ou potencial positivo. É disso que o mérito está falando. Não é que precisemos de colecionar mais pontos como se necessitássemos de mais pontos para ganhar um jogo. Em tais situações em que estamos bloqueados, o que ajuda é pormos de lado o que estamos fazendo e irmos fazer algo positivo – por exemplo, irmos ajudar os outros.

Isso pode ser feito de várias formas. A maneira mais simples, que uso frequentemente quando não consigo compreender algo e quero conseguir compreender e clarificar a minha mente muito depressa – digamos, quando estou a escrever e não consigo pensar na palavra adequada ou como expressar algo claramente – é parar e repetir o mantra de Manjushri com as visualizações apropriadas. Acho que isso é muito útil. Se nos forçarmos – “Eu tenho de compreender; tenho de compreender!” – sem fazermos algo como repetir mantras, então, perdoem-me a imagem, é um pouco como estarmos com prisão de ventre e fazermos um esforço enorme para defecar, quando nos sentamos na sanita. Não vai sair nada. Isso apenas se torna muito desconfortável.

Então, a fim de podermos obter claridade, o que é realmente importante é relaxarmos, e este tipo de prática de mantra é muito eficaz para isso. Especialmente quando quero ter a minha mente muito clara e alerta e por isso estabeleço uma muito forte intenção e desejo que seja desse modo, então o mantra torna-se ainda mais eficaz. E torna-se ainda mais eficaz do que isso, quando acompanho a minha recitação com visualizações que ajudam a focalizar a minha mente de uma forma mais aguda. Nessa situação, o que estamos fazendo é adicionar algo à fórmula. Estamos adicionando a força e o potencial positivos dessa recitação do mantra para nos ajudar a superar um bloqueio mental. Para mim, resulta. É muito eficaz na maioria das vezes. Então, se estivermos muito receptivos, a solução aparece sem forçá-la.

Essa é uma situação onde precisamos de uma solução imediata, como quando numa tradução não consigo encontrar a palavra certa. Há outras situações em que a nossa energia se está tornando um pouco lenta. O que descubro através da minha própria experiência é que quando ando às voltas a viajar e a ensinar, vejo isto como uma espécie de retiro de bodhichitta, e isso ajuda. Eu poderia ver isso como, “isto é uma distração terrível da minha escrita” e de um certo modo, ficar irritado por estar desperdiçando o meu tempo longe da minha secretária e do meu computador. Ou posso olhar para isso como uma coisa muito positiva que me vai ajudar a escrever com mais clareza.

Estou apenas usando exemplos da minha própria vida, mas esta abordagem pode ser aplicada à vida de qualquer pessoa – quer estejamos trabalhando com qualquer tipo de situação em casa, na família, ou qualquer tipo de relacionamento em que tenhamos qualquer espécie de bloqueio. Se saírmos e fizermos um trabalho voluntário positivo num hospital, ou qualquer coisa que seja adequada à nossa situação, isso irá fazer uma grande diferença na acumulação de força e potencial positivos.

Esta abordagem de acumulação de reservas de potencial positivo não se limita apenas a quando temos bloqueios mentais. Por exemplo, a minha escrita estava correndo muito bem antes de ter começado esta digressão de palestras. Estava sem nenhuns bloqueios. Mas num certo sentido queria que corresse ainda melhor; queria ter ainda mais energia. Não acho que Tsongkhapa tivesse chegado a um bloqueio e não conseguisse compreender nada. Pelo contrário, acho que viu que, para experienciar algo brilhante, para realmente obter a correta cognição não-conceptual do vazio, necessitaria ainda de mais energia positiva.

A nossa construção de potenciais positivos não requer necessariamente um retiro de bodhichitta onde andemos por aí, como faço quando deixo a minha escrita para trás e viajo para ensinar. Podemos juntar os dois – meditando e ajudando os outros. Lá porque temos um bloqueio, isso não significa que deixemos de meditar sobre o vazio, mas sim que teremos de adicionar alguma espécie de energia mais positiva. Podemos fazer isso entre as nossas meditações. Penso que isso é realmente muito importante. Não é suficiente apenas nos sentarmos a meditar, realmente não é. Também temos que ser mesmo ativos, acumulando mesmo mais e mais força positiva e fazendo mesmo coisas para ajudar os outros.

A Importância do Professor Espiritual

Isso traz-nos ao tópico do professor espiritual. Qual é o papel do professor neste processo? É óbvio, temos o exemplo dos pratyekabuddhas. Não nos devemos esquecer dos pratyekabuddhas. O seu tipo de percurso é um dos que Buda ensinou. Eles estão lá na árvore do refúgio. Os pratyekabuddhas são aqueles praticantes que vivem durante as idades das trevas quando não há Budas nem professores disponíveis. A fim de meditarem e progredirem, têm de confiar apenas nos seus instintos a respeito do Dharma, instintos fortalecidos nas suas vidas passadas em que encontraram os ensinamentos dos Budas.

Os pratyekabuddhas são muito corajosos, se pensarmos sobre isso. São muito dignos de respeito. Não devemos pensar: “Oh, eles são essas pessoas incrivelmente egoístas que vão para as cavernas sozinhos”. Mas agora que temos Budas e professores por aí, a pergunta é: “precisamos de estar dependentes deles ou não, e o que realmente significa depender deles?” Eu penso que este tópico do professor espiritual é algo muito difícil de compreender.

Há muitas coisas que se podem dizer, sob muitos pontos de vista diferentes, acerca do relacionamento professor-discípulo, e não é necessário nesta ocasião abordarmos todas elas. A um nível muito prático, eu penso que uma das coisas que é muito importante acerca do professor espiritual, dentro do contexto de que o professor seja corretamente qualificado e não apenas um brincalhão qualquer que ande por aí dizendo ser professor; é que o professor torna os ensinamentos humanos – “reais” talvez seja uma palavra carregada de mais. O professor torna o Dharma humano. Se não tivermos um professor e se aprendermos apenas a partir dos livros, então a imagem ou a ideia que temos do que significa compreender esses ensinamentos e transpô-los para a vida, seria totalmente baseada nas nossas imaginações. Ou seja, nós não teríamos um exemplo vivo do que realmente significa compreender não só os ensinamentos, como transpô-los para a vida. Ver um exemplo vivo é o que nos dá a maior inspiração para tentarmos compreender e interiorizar os próprios ensinamentos.

Há dois fatores que estão envolvidos na aprendizagem dos ensinamentos. Um é a obtenção da exata compreensão técnica de um ensinamento específico, como o vazio. Isto é uma coisa; e um professor pode responder a perguntas, o que um livro não pode fazer. Mas, além de ter o rigor técnico da compreensão, o professor dá-nos um exemplo vivo da transposição dessa compreensão para a vida. Isso, penso eu, é muito, muito importante.

Olhamos para alguém como Sua Santidade o Dalai Lama e podemos certamente dizer que ele tem uma compreensão do vazio e uma realização da bodhichitta altamente desenvolvidas. Sob qualquer ponto de vista, estaríamos de acordo com isso. Seria infantil irmos, com um cartão de marcar pontos, tentar testar se ele está neste ou naquele estágio de bodhisattva. Quem é que se importa com isso? Mas nós podemos ver, da forma como ele age, que a compreensão do Dharma não se traduz em ser-se uma espécie de pessoa despassarada, com a sua cabeça nas nuvens, que não consegue funcionar na vida. Do exemplo de Sua Santidade, é muito claro o que realmente significa ter-se essa combinação de sabedoria e compaixão. Esse é certamente um aspecto muito importante quando falamos sobre a nossa introdução ao Dharma ou, especificamente, ao vazio.

Introdução ao Dharma

Na introdução ao Dharma, há muitos níveis. Num deles o professor estabelece um tipo de situação em que somos emocionalmente movidos de modo a que, através de um choque, saiamos da nossa estagnação para obtermos uma compreensão. Esse é mais ou menos o estilo Zen que alguns professores tibetanos possuem, mas não são assim tantos. Geshe Wangyal, que era um professor mongol calmuque nos Estados Unidos, usou muito habilmente esse método. Morreu há muitos anos, mas costumava pôr os seus estudantes a construirem coisas, como uma casa para ele e um templo para todos. Uma vez, um dos seus estudantes estava trabalhando arduamente na construção de uma casa para o Geshe-la, trabalhando no telhado. Um dia, Geshe-la subiu ao telhado, foi ter com ele e disse-lhe: “O que é que você está fazendo?! Você está fazendo tudo mal! Você está arruinando tudo! Saia já daqui!!” E o estudante disse: “O que você quer dizer com isso, que estou fazendo tudo errado?! Estou fazendo exatamente da maneira que você me disse para fazer e tenho estado a fazer assim há meses e meses!” Geshe Wangyal respondeu imediatamente: “Ah-ah! Esse é o “eu” a refutar”.

O professor pode criar uma situação dessas para nos introduzir ao vazio, no sentido de criar uma situação em que podemos ver emocionalmente e obter um insight. No entanto, fazer-se isso bem requer uma grande habilidade. Assim, há esse nível de introdução a qualquer tópico do Dharma. Um livro não pode fazer isso.

A segunda forma de introdução é-nos dada através de uma explanação muito clara. Um livro não poderia fazer isso. A explanação muito clara de um professor pode ser escrita num livro. Mas, não obstante a extensão da sua clareza, se tivermos alguma espécie de bloqueio mental, não estaremos em condições de compreender. E há assim um outro método: o do professor que nos deixa, nós próprios, resolver o puzzle do Dharma, dando-nos uma peça de cada vez, em vez de nos darem o Dharma a comer como se fôssemos bebês.

Ainda um outro método de ser introduzido [ao Dharma] é através do exemplo de se ver um professor que o compreenda. Em todo o caso, mesmo se lêssemos num livro uma explanação clara, alguém teve de escrever esse livro. Assim, esteve lá necessariamente um professor, quer nos tenhamos encontrado com esse professor ou não. Num certo sentido encontramo-nos com o professor, mesmo que ele tenha morrido há muito tempo, porque lendo o livro nos encontramos com as palavras do professor. A menos que sejamos um pratyekabuddha, não temos de voltar a inventar a roda; não temos de chegar a essa compreensão sozinhos. Ela vem de alguém, de um professor.

A esse respeito, um professor é muito importante. Na verdade, precisamos de uma combinação de todos esses [métodos]. Precisamos de um professor que nos possa transmitir informações corretas e claras, que seja realmente um exemplo vivo do que estamos tentando aprender e que nos possa inspirar. Também precisamos de um professor com capacidade de criar determinadas circunstâncias que sejam conducentes à nossa obtenção de insights e que nos dê, do puzzle do Dharma, uma peça de cada vez, e apenas da maneira certa para nós.

Relacionamentos Pessoais mas Impessoais

Podemos falar sobre muitas coisas acerca do relacionamento espiritual entre professor-estudante, mas uma questão que vem sempre à superfície com as pessoas do Ocidente é que queremos uma atenção pessoal. Temos um sentido muito forte de individualidade. Todos pensamos: “eu sou especial e deveria receber uma atenção especial”. O modelo, naturalmente, é o de irmos a um psicólogo ou a alguém como tal, pagarmos com o nosso dinheiro e recebermos um tratamento individualizado. Bem, isso nem sempre está disponível num contexto budista. É engraçado. Andamos procurando o “MEU professor que vai ser especial para MIM” e, no entanto, temos uma imagem tipo Hollywood de como esse relacionamento será. Não queremos que seja como o de Milarepa e Marpa: não queremos um professor que nos faça trabalhar demasiado.

Por exemplo, o relacionamento de Serkong Rinpoche comigo: eu tive o grande e incrível privilégio de ter sido chegado a ele, e de o ter servido durante cerca de nove anos, como seu discípulo pessoal e seu intérprete, secretário de inglês, organisador das suas excursões ao estrangeiro, etc. Tive este tipo de relacionamento com ele até à sua morte, em 1983. No entanto, todo esse relacionamento foi “um relacionamento pessoal mas impessoal”. Ele nunca, nunca me fez uma pergunta sobre a minha vida pessoal – nunca. Nunca me perguntou acerca da minha família ou sobre qualquer outra coisa assim. E eu nunca senti a necessidade de lhe falar da minha vida pessoal. Porém, tivemos um relacionamento muito íntimo em termos de lida constante com o momento presente.

Deste modo, trabalhámos juntos mas de uma maneira muito especial, que eu chamaria “impessoalmente pessoal”, no sentido em que não éramos como dois grandes egos dizendo: “vamos trabalhar juntos – EU e VOCÊ”. E não era o tipo de relacionamento pessoal vamos partilhar a nossa escova de dentes, onde eu digo tudo sobre mim e você diz-me tudo sobre você. Isso seria como mostrarmos a alguém a nossa roupa interior suja. Nesse sentido, o relacionamento era impessoal. Mas também era pessoal no sentido em que ele compreendia o meu caráter e a minha personalidade, e trabalhámos juntos respeitando isso. Eu compreendia a sua idade e também as suas necessidades e exigências, e por isso nesse sentido era pessoal, embora impessoal.

Penso que uma das grandes bases para o sucesso desse relacionamento foi um grande respeito mútuo, com ambas as partes trabalhando em conjunto como adultos maduros. Como adulto, não me aproximei a ele de uma forma imatura, procurando aprovação ou querendo que ele se tornasse responsável pela minha vida – dando-lhe o controlo. Mas isso não significa que tenha caído no outro extremo, que seria: “Eu quero estar sob controlo próprio, e você não me pode dizer o que fazer”. Consultei-o sobre escolhas difíceis da minha vida, mas tomei as minhas próprias decisões não obstante o ter consultado. Em vez de ser como uma criança perguntando “o que devo fazer?” – o que nos leva de novo a essa questão do “dever” – eu perguntava se seria mais benéfico fazer isto ou fazer aquilo.

Por exemplo, no final da nossa segunda digressão mundial juntos, eu perguntei-lhe: “seria melhor para mim ficar nos Estados Unidos e passar mais uns tempos com a minha família, ou seria melhor regressar à India consigo e assistir ao primeiro Festival de Oração de Monlam, que Sua Santidade o Dalai Lama está conduzindo no sul da India? O que seria mais benéfico?” Eu fazia este tipo de perguntas quando não conseguia tomar eu mesmo a decisão. Rinpoche recomendou que eu fosse ao Festival de Oração, pois iria ser um acontecimento histórico muito significativo e eu segui o seu conselho. Mas não me deu ordens, às quais eu tivesse respondido dizendo: “Sim, senhor!” Não lhe estava pedindo ordens. Ele apresentava a situação com um pouco mais de clareza e numa perspectiva mais abrangente, de modo a que eu pudesse decidir através da minha própria sabedoria. Em outras situações, quando eu tinha uma ideia do que seria melhor fazer, perguntava-lhe se via quaisquer problemas em eu fazer isso.

Isso, penso eu, é muito importante no relacionamento com um professor. Se tivermos a expectativa de que o relacionamento irá ser muito individual e muito pessoal, então, num certo sentido, temos dado a nós mesmos um pouco mais importância do que talvez merecemos. Estamos dando a nós mesmos uma grande auto-importância se tivermos fazendo essa exigência de atenção pessoal. E se estivermos fazendo essa exigência, é fácil cairmos na armadilha de nos vermos como uma criança, e vermos o professor como nosso pai; ou nos vermos como um adolescente e vermos o professor como uma estrela pop. As nossas fantasias poderiam também incluir um romance com o professor.

A Analogia da Abelha e das Flores

Na verdade, saber como abordar o nosso relacionamento com um professor espiritual, de uma forma pessoal mas impessoal, não é muito fácil. E a importância de o fazer não é limitada apenas ao nosso relacionamento com o nosso professor espiritual. Seria útil se esta abordagem fosse característica das nossas relações com todos. Shantideva escreveu que o mais útil, nos nossos relacionamentos com os outros, seria sermos como uma abelha que vai de flor em flor lidando apenas com a essência da flor, sem ficar presa em nenhuma delas.

Mais uma vez, lembro-me do exemplo de Serkong Rinpoche. Não teve nenhum amigo especial. Em vez disso, quem quer que fosse que estivesse com ele nessa altura era o seu melhor amigo. Ser-se assim é uma função daquela abertura que examinámos durante a primeira sessão: estarmos com todos como se fossem o nosso melhor amigo. Quando estamos com alguém dessa forma, os nossos corações estão totalmente abertos a essa pessoa. Somos totalmente íntimos com essa pessoa, no sentido em que [nos] estamos comunicando verdadeiramente de coração a coração. Mas, não é necessário eu lhe mostrar a minha roupa interior suja e ela me mostrar a sua roupa interior suja. Não é necessário entrarmos em todos esses tipos de detalhes pessoais, relativamente aos quais queremos, em certo sentido, que alguém nos faça umas festinhas na cabeça.

Se entrássemos em todos esses detalhes, seria como se estivéssemos empurrando a nossa própria bagunça para outra pessoa, de modo a que também ficasse enredada nela. Todos nós temos a nossa própria pequena bagunça pessoal com que temos de lidar nas nossas vidas, mas não nos devemos tornar um peso para a outra pessoa e no nosso relacionamento com ela. Podemos nos relacionar com as pessoas estando totalmente abertos; e elas são como o nosso melhor amigo. Podemos realmente entrar em contacto com o coração de alguém, mas sem ficarmos enredados, de modo a podermos estar igualmente abertos a todos desta forma, como a abelha que vai de flor em flor – intimamente envolvidos com os nossos corações, mas sem ficarmos presos.

Esse é o tipo de relacionamento que também teríamos com o professor. Quando estamos com o professor, há uma abertura muito direta na comunicação, mas depois saímos e entra a pessoa seguinte. Se tivermos um tipo de atitude “EU QUERO O MEU GURU!” tornamo-nos muito ciumentos e possessivos e isso é uma absoluta tortura: “Há um grupo sempre em volta do professor e eu não faço parte dele” e… oh, que sofrimento! Mas todos nós temos que lavar a nossa própria roupa suja. Temos que tratar da nossa bagunça. Não há nenhuma necessidade de esperar que o professor trate dela.

Evitando a Extrema Despersonalização dos Outros

Quando estamos lidando ou relacionando com alguém desta forma pessoal mas impessoal, quer seja com um professor ou um amigo, existem dois níveis: o nível mais profundo e o nível convencional, relativo. Ao nível mais profundo, somos todos iguais e ninguém é especial, e isso conduz-nos ao aspecto impessoal de todos os relacionamentos. Contudo, ao nível convencional as pessoas são individualizadas e isso conduz-nos ao aspecto pessoal.

É muito importante não cairmos no extremo de apenas nos relacionarmos com alguém ao nível mais profundo. Devemos tentar ver sempre a pessoa como um indivíduo. Ou seja, se eu me relacionar com você de uma forma demasiadamente impessoal, então, num certo sentido, não me estaria relacionando com você – mesmo se a relação fosse de coração para coração. Precisamos de evitar sentir: “você é o fluxo mental número 14762 e esta outra pessoa é o fluxo mental 14763, e eu posso estar igualmente aberto e ser emocionalmente íntimo com qualquer fluxo mental de qualquer número”. Isso seria um erro. Seria levar-se o tópico do Dharma acerca de “todos os seres sencientes” ao extremo de despersonalizar todo o mundo. Precisamos sempre de nos lembrar que a outra pessoa, por seu lado, está olhando para nós de uma maneira muito pessoal. Nós temos de trabalhar com isso.

Deixem-me dar o exemplo da morte de minha mãe ocorrida no ano passado. Quando ela morreu, inicialmente eu fazia orações e várias práticas para ela, mas de uma maneira impessoal, vendo-a como o fluxo mental número tal e tal. Para evitar a dor do apego, via-a não apenas como minha mãe, mas como alguém indo de muitas vidas passadas para muitas vidas futuras, tal como todos os outros. Afinal, o budismo ensina que todos, a certa altura, foram nossas mães. Assim, a minha forma de me relacionar com ela no estado intermediário do bardo era bastante abstrata.

Assim, depois de ter discutido a minha experiência com um amigo próximo, compreendi que seria muito mais útil ver a situação sob o ponto de vista da minha mãe no bardo, em vez de sob o meu próprio ponto de vista como um praticante de Dharma que por acaso tem alguma compreensão das vidas passadas e presentes, identidades não-sólidas e assim por diante. Do ponto de vista da minha mãe no bardo, ela tinha ainda apego à sua antiga identidade como Rosa Berzin e continuava a me ver como seu filho.

Mudei imediatamente a prática que estava fazendo a fim de lhe ajudar nesse período intermédio do bardo, e falei diretamente com ela. Naquela altura eu estava ensinando no Chile, e como estava de partida para o Tahiti convidei-a para estar comigo em cada uma das sessões. Também fiz o tipo de orações e de coisas que ela gostava, e de que se sentia confortável. Ou seja, eu estava tentando detectar o medo que ela pudesse estar sentindo e estava tentando acalmá-la com algo que era adequado a ela.

Por exemplo, a minha mãe gostava da recitação de mantras budistas. Fazia-lhe sentir muito calma. E assim, apesar disso não ser exatamente o tipo de coisa que eu acharia útil se estivesse no bardo, comecei a recitar de uma forma que sabia que ela a acharia muito calmante. E senti que, fazendo isso, me estava conectando com ela. Eu adaptei o que estava fazendo para ela. Levei a sério a sua experiência [acerca] do nível relativo da sua própria realidade. Isso é que é importante. Se a minha mãe tivesse achado a recitação de alguma oração cristã ou judaica mais calmante, eu teria feito isso. Mas a minha mãe gostava de ouvir mantras recitados muito lentamente. Como já vos disse, senti uma mudança muito grande quando comecei a fazer isso.

Antes disso, na verdade, eu não me estava conectando com ela como um indivíduo, quando estava sendo abstrato, dizendo apenas: “que você possa ser feliz e possamos estar conectados em todas as vidas, que você possa ter sempre uma preciosa vida humana, e que eu lhe possa conduzir à iluminação em todas as vidas”, e todos esses tipos de fórmulas abstratas e pensamentos agradáveis. Mas eu achei que esta outra maneira era muito mais eficaz. Senti que estava realmente trabalhando para a beneficiar, embora naturalmente tivesse continuado a fazer as minhas orações mais gerais. Em resumo, quando nos relacionamos com alguém de uma maneira pessoal mas impessoal, como estava descrevendo, isso não significa que nós neguemos o fato de nos relacionarmos com essa pessoa enquanto indivíduo e de respeitarmos as suas próprias experiências individuais acerca de si mesmas.

Para pôr isto em termos mais específicos; “Estou totalmente aberto a você e a ser muito pessoal, mas sem apego – sem entrar na minha e na sua bagunça pessoal. Mas dentro desse contexto geral, sou sensível à sua individualidade e à sua visão de si próprio, a fim de me poder relacionar com você de uma maneira comunicante”. Isso, então, nos conduz ao tópico do uso dos cinco tipos de consciência profunda no relacionamento com os outros, mas vamos deixar isso para outra altura.

Eu chamo a atenção para tudo isto por muitas razões, mas especialmente por causa de uma grande dificuldade que enfrentamos na prática budista Mahayana quando fazemos bodhichitta, compaixão e todos estes tipos de meditação ao nível de “que todos os seres sencientes possam ser felizes”, tentando pensar de um modo abstrato sobre todos os seres sencientes. É muito difícil habilmente transpor “todos os seres sencientes” para o contexto individual da pessoa diretamente à nossa frente – você ou você. Se estivermos praticando apenas ao nível de “todos os seres sencientes”, então poderíamos por vezes usar isso como uma desculpa para não nos envolvermos pessoalmente com ninguém.

Agora, num certo sentido, se o envolvimento pessoal significar o agarramento e todo o lixo que o acompanha, então necessitamos de algum método que nos ajude a evitar tudo isso. Mas, quando tivermos lidado pelo menos com o nível grosseiro do apego, da raiva e de todas essas outras coisas – o que não é uma aquisição assim tão fácil – necessitamos de ter um envolvimento pessoal, mas o tipo de envolvimento que é mesmo pessoal mas impessoal, ou seja, individual mas sem apego.

Tudo o que estivemos a discutir até agora em termos de relacionamento com o professor espiritual não é dependente da questão de vermos o professor como um Buda ou não. Mesmo se não estivermos vendo o professor como um Buda, é necessário o que descrevi a fim de termos com esse professor um tipo de relacionamento significativo e bem sucedido. Certamente que dentro do contexto de vermos o professor como um Buda, nós ainda temos de abordar esse relacionamento como um adulto e de ver o professor como um adulto e não como nosso pai, estrela pop ou como todas essas coisas estranhas que tendemos a projetar neles como alguém que devia ter esse relacionamento especial conosco porque nós somos muito especiais.

Que perguntas têm vocês?

Medo de um Relacionamento Profundo com um Professor

Participante: Eu tento me ver como uma pessoa anónima num grande grupo de estudantes que têm muitos professores. Eu prefiro dizer que tenho muitos professores, em vez de ter um relacionamento pessoal com um professor específico.

Alex: Aqui pode haver alguns problemas. Um dos problemas pode ser o medo do comprometimento e o medo da intimidade, que nos leva a pensar: “Na verdade eu não me quero abrir com um professor, pois perderia o controlo”. Obviamente, sermos capazes de superar este medo com sucesso requer alguma compreensão do vazio. Não temos nada a temer ao nos abrirmos a um professor, pois ao fazê-lo não é que haja um coitado de “mim” indefeso que vai ficar magoado. Ou, “vou ser abandonado e ficar desapontado”. E também não é que eu me vá abrir e não haja lá nada de nada e depois vou ficar perdido e vai ser um caos total. Abrirmo-nos a um professor requer alguma sutileza na nossa compreensão sobre como existimos. Para que o relacionamento com um professor seja bem sucedido, tem de ser adulto, com um sentido do “eu” convencional bem estabelecido e capaz de discernir entre o útil e o prejudicial, e entre o apropriado e o impróprio. Senão, um relacionamento imaturo poderá ser excepcionalmente desastroso.

Prosseguindo Lentamente no Estabelecimento de uma Relação com um Professor Espiritual

Participante: [tradutor] Antes de tomarmos refúgio com um determinado professor, necessitamos de o examinar corretamente, mas ela pensa que neste momento, com uma mente impura, como poderá ela examinar corretamente um professor? E como poderá verificar se o professor é um Buda ou não?

Alex: Quando dizemos que precisamos de ter maturidade para que o relacionamento com um professor espiritual funcione realmente bem, isso não significa que enquanto ainda formos imaturos não nos viremos para um professor. Não significa que temos de esperar até termos maturidade para nos podermos relacionar com um professor. Se esse fosse o caso, poderíamos ter de esperar durante muito, muito tempo. Um professor hábil pode nos ajudar a nos tornarmos mais maduros. Um professor incompetente, por outro lado, pode tirar vantagem e nos abusar da nossa imaturidade. Assim, ao nos aproximarmos a um possível professor, precisamos de admitir que não sabemos se essa pessoa é mesmo qualificada ou não. Precisamos de prosseguir muito lentamente e com cuidado.

O relacionamento com um professor espiritual é algo que geralmente precisa de ser desenvolvido lentamente, durante muito tempo, e passar por vários estágios. Até vermos o professor como um Buda, o que nunca acontece nos estágios iniciais, passamos por vários estágios de desenvolvimento. Não quero, neste momento, entrar nesse tópico muito detalhadamente, porque levaria muito tempo a apresentá-lo. Mas esse tipo de relacionamento, em que vemos o nosso professor como um Buda, só é realmente relevante quando estivermos em estágios muito avançados do anuttarayoga, que é a classe mais adiantada da prática do tantra.

Na sua Grande Apresentação dos Estágios Graduais do Caminho, Lam-rim Chen-mo, Tsongkhapa escreveu que o relacionamento adequado com um professor espiritual é a raiz do caminho, e ele esboçou esse relacionamento em termos de se ver o guru como um Buda. Mas precisamos de entender o contexto em que ele escreveu aquilo e porque o disse. É claro, Tsongkhapa estava escrevendo e apresentando este ponto aos monges que estavam envolvidos na prática do tantra. Podemos inferir isso porque a tomada de refúgio aparece depois na sua apresentação do caminho. Como poderíamos nós ter um relacionamento com um professor em que o vemos como um Buda, se não tomámos refúgio e ainda não sabemos o que é um Buda? É óbvio que esta orientação de se ver o guru como um Buda destina-se a alguém que já tomou refúgio e já está envolvido no tantra, porque vêm dos tantras todas as citações que Tsongkhapa usa como suporte à visão do guru como um Buda. Assim, é óbvio que isto é um tópico principalmente tântrico. Para aqueles de nós que não estão no contexto de serem monges ou monjas já envolvidos na prática mais adiantada do tantra, isso nos dá então uma indicação de que não podemos considerar como garantido este tipo de coisas, como o refúgio. Nós temos de começar a partir de um estágio mais básico.

Especialmente como ocidentais, quando começamos a estudar com um professor, a questão do professor ser um Buda ou não, na verdade não é relevante. Primeiro precisamos de examinar se ele é um bom professor. Explica com clareza? O que explica ele? O que ele explica está de acordo com os textos clássicos? Está de acordo com a minha [experiência de] vida? Seria como testaríamos qualquer tipo de professor – digamos, por exemplo, se fôssemos aprender uma língua: ensina eficazmente?

Também registamos o tipo de sentimento geral que temos quando estamos com essa pessoa. Através desse sentimento podemos ficar com uma ideia de que tipo de relacionamento poderemos ter com ela. É alguém que nos inspira ou alguém que nos deixa na mesma? É alguém que realmente comunica conosco ou alguém com quem não conseguimos relacionar? É possível sentir isso. Não requer clarividência nem sequer um grande nível de maturidade.

Então começamos a examinar com um pouco de mais cuidado coisas como a ética dessa pessoa: é uma pessoa ética? É alguém que se irrita facilmente e com frequência? É muito possessivo com relação aos seus estudantes e tenta controlar as suas vidas? Depois podemos perguntar a terceiros, para descobrirmos a maneira como este professor age com os outros estudantes. Estas são algumas das maneiras de examinar um professor, até para a simples decisão de se queremos estudar com ele ou não.

Assim, estarmos dispostos a um relacionamento com essa pessoa que vemos como um Buda é algo muito diferente e muito avançado, mas que na verdade não é muito relevante a nível inicial. Se formos alguém que já tomou refúgio e que já percorreu os estágios básicos do caminho e que já está envolvido na classe mais elevada do tantra, se formos alguém assim e tivermos um forte relacionamento com um professor, então podemos ver o professor como um Buda dentro do contexto do que isso significa. Então, se recuarmos outra vez ao início do caminho atravessando todos os estágios, como no exemplo do monge que, em preparação para o recebimento de uma iniciação tântrica, escuta o Lam-rim chen-mo de Tsongkhapa para rever todos os estágios graduais do caminho, então esse relacionamento com o professor como um Buda será a raiz do sucesso no prosseguimento de todo o caminho. Nesse caso, faz uma grande diferença.

Não Perder a Nossa Faculdade Crítica

Precisamos de compreender as coisas dentro do seu próprio contexto. Não é fácil. Mas, especialmente no início, eu penso que é essencial não perdermos a atitude crítica em relação ao professor. Mais tarde, quando estivermos relacionando com um professor como se ele fosse um Buda, então esse é um contrato especial que temos com esse professor e isso requer uma tremenda maturidade emocional. O que nós estamos dizendo com este tipo de contrato é, basicamente, “você é um Buda e isso significa que, faça o que fizer, irei vê-lo como um Buda que me está tentando ensinar algo”. Lembrem-se, a existência das coisas não é estabelecida do seu próprio lado, independentemente de todas as outras coisas. Assim, a existência deste tipo de relacionamento com o professor é estabelecida com relação à situação de “você me está ajudando a crescer”.

Assim, estamos basicamente dizendo mentalmente ao nosso professor: “não me importa qual a sua motivação nem se, na verdade, é objetivamente iluminado ou não. Em vez disso, vou usar a oportunidade deste relacionamento para crescer e aprender constantemente. Se me disser que eu faça algo de estúpido, não vou responder ‘você é estúpido’ e ficar irritado com você. Pelo contrário, vou pensar que me disse que eu fizesse algo de estúpido para que eu aprendesse a lição de usar o meu próprio discernimento e decidir por mim mesmo não fazer isso”. Por outras palavras, o que quer que eles façam, nós interpretamos como um ensinamento e tentamos aprender algo com isso. Não importa o que se está passando do lado deles.

Sem dúvida, isto é o que significa quando se diz que nós precisamos de ver todos como um Buda. Vemos tudo como uma lição. Assim, podemos aprender com uma criança. Quando uma criança age de uma forma travessa ou tola, podemos aprender a não agir desse modo. A criança é o nosso professor. Até um cão nos pode ensinar. Qualquer pessoa nos pode ensinar. Isso de não ficarmos irritados e não sermos julgadores, requer um grande nível de maturidade emocional, não é? É uma prática muito avançada. Não é algo que possamos fazer como principiantes.

Obviamente, temos de examinar muito bem se podemos participar ou não neste tipo de contrato com este professor, de nos relacionarmos a esse nível. O professor é qualificado? Nós somos qualificados? Poderíamos até ter esse tipo de relacionamento com um professor com quem não temos muito contato pessoal. Quando assistimos apenas a ensinamentos gerais que um grande professor dá a grandes multidões, podemos fazer a mesma coisa: “Irei aprender com o que quer que seja que você diga ou faça”. Mas lembrem-se, isto não é o relacionamento de um soldado com um general do exército: “Sim, senhor! Que devo fazer? Diga-me. Dê-me uma ordem. Sim, senhor! Eu farei isso”. Não é assim de forma alguma.