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Os Três Treinamentos e o Caminho Óctuplo na Vida Diária

Alexander Berzin
Kiev, Ucrânia, Junho de 2013
Traduzido para o português por Daniel Ribas Tandeitnik

Sessão Três: Atenção Plena, Concentração, Visão e Intenção Corretas

Revisão

Continuaremos agora a nossa discussão sobre os três treinamentos dentro do contexto de como eles podem nos ajudar na nossa vida diária, e isto significa colocar em prática o tão chamado caminho óctuplo.

Os três treinamentos são:

  • autodisciplina ética;
  • concentração;
  • e consciência discriminativa.

Nós usamos, ou tentamos, implementar fala correta, ação ou comportamento correto e meio de ganhar a vida correto para desenvolvermos a autodisciplina ética. Começamos a discutir o treinamento em concentração, e as três coisas que estão associadas aqui são esforço correto, atenção plena correta e concentração correta.

Vimos que esforço correto é colocar esforço em:

  • Tentar evitar tipos perturbadores e destrutivos de pensar;
  • Tentar nos livrar de hábitos ruins, nossas deficiências em temos das várias qualidades que possuímos, quaisquer qualidades estas sejam – preguiça, egoísmo, etc;
  • Desenvolver qualidades boas, como aumentar nossa paciência ou nossa bondade – quaisquer que sejam as qualidades boas em que estejamos deficientes e que precisamos tentar desenvolver – ou, se já as tivermos, desenvolve-las mais;
  • Tentar nos livrar dos obstáculos à concentração.

Tentar nos livrar dos obstáculos à concentração – isto pode ser bastante variado. Nós vimos os cinco tipos de obstáculos à concentração que são mencionados nos livros, porém há muitas coisas que podemos fazer além do que é citado. Por exemplo, estou pensando que enquanto estamos trabalhando, podemos desligar nossos celulares ou tomar a decisão de, a cada dia, somente checar mensagens, e-mails e esses tipos de coisas em horários pré-determinados, e não simplesmente deixá-los abertos, para que possamos nos concentrar e focar no que estivermos fazendo. Que nem um médico ou um professor tem horários de consulta: você não pode chegar a qualquer hora. Existem horas certas em que eles estão disponíveis. Então, analogamente podemos fazer isto com nós mesmos. Como com o médico: quando há uma emergência é claro que você pode contatá-lo. Porém, além disto, delimite certas horas, ou um certo tempo, em que você vai devotar para usar suas redes sociais ou qualquer coisa assim, e mantenha-se estrito quanto a estes horários. Isto irá nos ajudar a desenvolver nossa concentração.

É bastante interessante quando pensamos sobre o desenvolvimento social. Em tempos passados os principais obstáculos para a concentração tinham a ver com nossos próprios estados mentais – devaneio mental, sonhar acordado, estes tipos de coisas. Todavia, hoje em dia há tantas coisas a mais. Há tantos mais obstáculos vindo externamente de mensagens de texto, Facebook, Twitter e e-mail, todos esses tipos de coisas. Portanto, precisamos realmente colocar uma grande quantidade de esforço para não simplesmente ficarmos sobrecarregados com tudo isso. Para conseguirmos, precisamos reconhecer os aspectos prejudiciais destas mídias, e um dos piores malefícios é que nosso tempo de atenção fica cada vez menor, e menor e menor. O Twitter tem um número limitado de caracteres, a constante visualização de dezenas de mensagens no Facebook, e assim por diante – tudo muito rápido, você não se engaja em nada; está sempre em mudança. Isto alimenta um hábito terrível prejudicial para a concentração, pois você não foca sua atenção em nada; constantemente ela tem que mudar. Portanto, isto é algo com o que precisamos ficar atentos.

Atenção Plena Correta

OK. Agora, o próximo aspecto do caminho óctuplo que está envolvido com concentração é a atenção plena correta:

  • Atenção plena (dran-pa) é uma cola mental basicamente. Quando você está se concentrando, você está se segurando a um objeto. Isto previne que você o deixe ir embora;
  • É acompanhado de um estado de alerta (shes-bzhin). Estado de alerta é detectar se nossa atenção está indo para outros lugares ou se você está ficando com a mente entorpecida e com sono;
  • E então você usa atenção (yid-la byed-pa) – quais considerações você tem com o objeto, como você olha para o objeto.

Ademais, o que está envolvido aqui é como que prestamos atenção ao nosso corpo, nossos sentimentos, nossa mente, nossos vários fatores mentais – em outras palavras, como é que os vemos ou consideramos? – e em seguida, a atenção plena para segurá-los. Portanto, o que queremos evitar é segurar e não abandonar considerações incorretas do nosso corpo, dos nossos sentimentos e assim por diante. Quando não os deixamos ir, isto causa distrações e não conseguimos nos concentrar.

Bem, tudo isto é um pouco abstrato, não é? Precisamos explicar melhor.

Em Relação ao Nosso Corpo

Nosso corpo – quando falamos sobre o corpo, estamos geralmente falando das nossas várias sensações físicas ou dos aspectos do nosso corpo. Uma consideração incorreta do corpo é que ele é agradável por natureza, ou limpo e bonito por natureza. Gastamos todo nosso tempo ficando extremamente distraídos com a preocupação de como parecemos, por exemplo – gastar uma hora penteando o cabelo, colocando maquiagem, escolhendo um vestido e assim por diante. Isto é uma distração enorme. Bem, é claro que precisamos nos manter limpos e termos um aparência apresentável, porém quando você vai para o extremo e pensa que a forma que seu corpo aparenta é uma fonte de prazer e que ele sempre tem que estar maravilhoso – sempre tentando atrair as outras pessoas com a aparência do seu corpo – você não está focado em nada que tenha um significado maior, está?

Se observarmos nosso corpo: você está sentado e acaba ficando desconfortável, e então tem que se mexer. Você está deitado e a posição não é confortável, você muda de posição e a nova posição acaba ficando desconfortável. Há problemas, não é? Adoecemos, envelhecemos. Bem, é claro que você precisa cuidar do seu corpo, garantir que você esteja com boa saúde, fazer exercício e assim por diante. Porém, ficar demasiadamente focado nisto – achando que isto será a fonte de prazer duradouro – é um problema.

Esta percepção incorreta da qual queremos nos livrar, esta percepção errada que se segura, e não deixa ir embora, a ideia de como seu cabelo está é a coisa mais importante, que você está combinando corretamente suas roupas, que tudo está em ordem e assim por diante – que tudo isto é muito importante e que é a fonte do que trará sua felicidade. Pare de se ater a isto. A percepção correta seria “não é uma fonte disto. É somente um problema, e consumirá meu tempo e irá me atrapalhar de me concentrar em coisas mais significativas.”

Ou “sempre tenho que estar limpo. Tenho que limpar minhas mãos toda hora.” Bem, mesmo se você tocou em algo sujo, qual o problema? Você pode limpar suas mãos. Não precisa ser um fanático por limpeza e ter medo de tocar em qualquer coisa suja. Não irei ir mais a fundo nesta questão, mas há muitas coisas que certamente não gostaríamos de colocar nossas mãos (use sua imaginação). Porém, mesmo se você acabar colocando suas mãos, qual o problema? Você pode limpá-las. Não se preocupe: “Aaah!”

Em Relação aos Nossos Sentimentos

O próximo é em relação aos sentimentos. Aqui estamos falando sobre os sentimentos de infelicidade ou de felicidade; isto tem a ver basicamente com a fonte do sofrimento, a fonte dos problemas. Veja, quando estamos infelizes – o termo que é utilizado aqui é ter sede (Skt. Trishna), que é como se você estivesse com tanta sede que “eu tenho que me livrar desta infelicidade.” Quando conseguimos um pouco de felicidade é como se você estivesse com muita sede e conseguiu bebericar um pouquinho d'água – você se sente um pouco feliz, mas continua com sede e precisa ter mais. Basicamente, esta é a fonte dos nossos problemas.

Quando nós lidamos com esta infelicidade como a coisa mais terrível no mundo e “tenho que me livrar dela de qualquer maneira,” isto acaba virando um problema para a concentração. Como que vira um problema para a concentração? Estamos sentados e pensando “estou um pouco desconfortável”, ou “não estou de bom humor”, ou “estou infeliz” – bem, como eu estava explicando da última vez que estive aqui, nada de especial nisto. Qual o problema? Simplesmente continue com o seu trabalho ou o que você estiver fazendo. “Estou com dor de cabeça”, ou “não estou com um humor muito bom”, ou algo assim. Qual o problema? Não se segure a isto como “esta é a coisa mais horrível”, pois em consequência você fica preocupado sobre isto – “como eu me livro disto? É tão horrível” – e assim fica reclamando para si mesmo na sua mente e reclama com as pessoas que estão à sua volta. Isto se torna um obstáculo muito sério para você se concentrar no que estiver fazendo – quando está conversando com alguém, muito mais ao trabalhar.

Ou se estamos nos sentindo bem, estamos de bom humor e assim por diante, não se distraia pensando “ah, isto é tão bom. Quero mais disto, não quero que acabe.” Pode acontecer quando você medita e começa a se sentir bem – você fica distraído pelo pensamento de como maravilhoso é o sentimento. Ou de novo quando você está com alguém e você está se sentindo muito bem, ou quando você está comendo algo apreciando muito o ato. Usando a atenção errada de se segurar ao pensamento “isto é tão fantástico,” e assim você superestima a situação e acaba se distraindo com ela. Aproveite-a pelo o que ela é, não faça dela algo de especial. Não é algo difícil.

Em Relação à Nossa Mente

O próximo é como nós lidamos com nossa mente. Se nos agarramos e não largarmos da ideia de que nossa mente é por sua própria natureza raivosa, ou egoísta; ou com pensamentos tais como “sou estúpido” ou “sou preguiçoso”, e pensarmos que realmente há algo inerentemente errado e falho com nossa mente, de novo não seremos capazes de nos concentrar. Estaremos sempre pensando sobre nós mesmos e “oh, não sou bom o suficiente” – “não sou isto, não sou aquilo” – “não consigo entender.” E você acaba nem tentando. Se nos agarramos à ideia que “estou confuso e não compreendo,” bem, é um beco sem saída, não é? Onde – na percepção correta – você se agarra ao fato que “bem, temporariamente posso estar confuso, temporariamente posso não conseguir entender algo, mas isto não significa que esta é a natureza da minha mente, que eu sou burro e assim por diante.” Simplesmente use de concentração para tentar ultrapassar esses pensamentos. Em Relação aos Nossos Fatores Mentais

Por último, o quarto é em termos dos nossos fatores mentais, como inteligência, bondade, paciência e assim por diante. Isto é não abandonar – com a cola mental – a ideia de “é assim que sou, e todos têm que aceitar” e “não há nada que posso fazer para mudar ou cultivar isto.” Esta é a percepção incorreta. Do outro lado, a percepção correta é que todos estes fatores podem ser melhorados, eles não estão congelados num certo nível, e assim podemos usá-los para cultivar, neste contexto, a concentração.

Tomando Controle de Nós Mesmos

Se nos autoanalisarmos vemos como é realmente muito estranho como lidamos com o nosso mau humor ou depressão. Temos uma percepção errada. O que isto significa? Simplesmente nos agarramos a isto, não deixamos ir embora, ficamos presos dentro destes pensamentos, não é mesmo? No mau humor ou na depressão. Ou culpa. Culpa também é uma percepção incorreta. Cometemos um erro, fizemos algo errado. Bem, tudo bem. Todo mundo comete erros. Somos humanos. Porém, com percepção errada nós nos seguramos a isto e não deixamos ir. “Sou uma pessoa ruim. O que eu fiz foi tão ruim,” e você se agarra a isto, e não deixa ir embora. Você fica se batendo pelo quanto ruim você é. Você tem que se livrar disto. A percepção correta é “humores podem mudar. Eles vêm de causas e condições, e eles mudarão por meio de causas e condições. Nada é para sempre.”

Um dos conselhos mais úteis que encontramos nos ensinamentos budistas é basicamente tomar controle de si mesmo – sei que soa um pouco dualístico, mas em todo caso – simplesmente faça. É que nem quando nos levantamos de manhã: você está deitado na cama, realmente não quer se levantar. É muito confortável e você está se sentindo um pouco entorpecido. Bem, simplesmente tome controle de si mesmo e levante. É assim que você se levanta, não é? Nós temos a habilidade de fazer isto – caso o contrário não conseguiríamos nos levantar de manhã – então é a mesma coisa quando estamos de mau humor ou nos sentindo desanimados. Tome controle de si mesmo e – “vamos lá!” – não se deixe levar por isso; simplesmente faça o que você precisa fazer.

Outros Aspectos da Atenção Plena

A atenção plena é algo demasiadamente importante num contexto mais geral. Ela nos previne de esquecer de algo. Pois, se há algo que precisamos fazer, queremos ter a atenção plena correta que nos ajudará a concentrar e fazê-lo; se não você acaba esquecendo. Pode ser que você se lembre – atenção plena tem a ver com lembrar – pode ser que você se lembre que seu programa favorito de televisão passará hoje de noite. Portanto você está se segurando a algo que na realidade não é tão importante, e em consequência você se esquece que precisa sair para fazer compras para alimentar sua família. Você pensa “ah, esqueci de ir no supermercado. Esqueci de comprar aquilo. Esqueci que também tinha que ter comprado leite.” Você não está se focando nas coisas que eram realmente necessárias, porém você se segura à coisas que são completamente triviais. “Eu quero ir para casa para assistir o jogo de futebol.”

Ademais, se estamos seguindo algum tipo de treinamento, há também a atenção plena correta de se focalizar nele. Quero dizer, pode ser qualquer tipo de treinamento. Por exemplo, quando estamos fazendo exercício, bem, continue a fazer seu exercício todos os dias. Ou se você está fazendo dieta, lembre disto e não aceite um pedaço de bolo quando lhe for oferecido. Atenção plena correta.

Algo que ajuda muito são imagens de animais (elas são muito utilizadas em treinamentos budistas). Por exemplo, estamos trabalhando, ou meditando, ou fazendo algo construtivo, ajudando alguém, e então alguém diz “ah, tem bolo.” E você fica como se fosse um filhote de cachorro, pulando de baixo para cima animado – “Aah! Aah! Bolo!” – todo animado. Portanto, se você pensar em termos de “será que estou agindo como um cachorrinho que está tão animado para conseguir um osso ou um agrado?”, vai acabar percebendo como é ridículo.

Atenção plena – prestar atenção ao que estamos fazendo e não nos distrair com todas essas coisas que estamos falando. Portanto, ela lida como nós lidamos com o nosso corpo e com os nossos sentimentos (felicidade, infelicidade), etc. É um assunto bastante abrangente.

Perguntas e Respostas sobre Atenção Plena

OK, alguma pergunta sobre este tópico?

Participante: Percebo que é muito mais fácil manter a atenção plena quando você está com outras pessoas, do que mantê-la quando está com pessoas que são mais próximos de você – com seus parentes, por exemplo – e então fica muito difícil de manter a atenção na sua ética. Talvez você tenha algum conselho do que fazer quando você sabe que irá ficar com alguém que faz sua atenção ficar fraca.

Alex: O conselho geral para tais situações é ter uma motivação bem forte no começo. Então, quando você está prestes a se encontrar com seus parentes, ou passar algum tempo com eles, essa forte motivação de “tentarei manter meu temperamento. Tentarei lembrar que eles têm sido muito carinhosos comigo. Eles me são próximos. A maneira que eu os trato irá afetar os sentimentos deles,” estes tipos de coisas. Esta forte motivação no começo é muito importante.

Ademais, para começar lembrem a si mesmos que eles são seres humanos. Em outras palavras, não simplesmente identifique-os com os papéis de mãe, pai, irmã, irmão – qualquer tipo de parente que você está visitando ou que estão te visitando. Porque, se olharmos para eles e manter na cabeça – isto é atenção plena – manter na cabeça que eles são somente um papel (mãe, pai, etc.), então tenderemos a reagir com eles de acordo com todas nossas projeções do que é uma mãe, um pai, e toda a história que nós tivemos – um monte de expectativas e um monte de decepções. Todavia, tente se relacionar com eles como um ser humano para outro ser humano. E se eles não forem conscientes disto e começarem a nos tratar como se ainda tivéssemos doze anos de idade, não caia no padrão de começar a agir como uma criança de doze anos. Como? Lembrando-se de que eles são seres humanos e não jogar o jogo deles (precisa-se de dois para dançar).

Minha irmã veio me visitar por uma semana logo antes de eu vir para cá, minha irmã mais velha. Ela ia dormir todas as noites relativamente cedo e vinha me falar, como se fosse minha mãe, “bem, vai dormir agora,” este tipo de coisa. Agora, se eu reagir como se tivesse doze anos de idade e falasse “não, é muito cedo. Não quero ir dormir. Quero ficar acordado. Por que você está me dizendo para dormir?” então é simplesmente jogar o mesmo jogo, não é? Não ajuda em nada. Em seguida eu simplesmente iria ficar chateado. Portanto, o que é necessário lembrar é que ela está me dando um conselho porque ela se preocupa comigo. Ela não está agindo assim porque ela quer me fazer ficar zangado. Ela pensa que isto é bom para mim. Você tenta ter uma visão mais realista do que a pessoa está fazendo ao invés de projetar na sua irmã que ela é sua mãe e que você tem doze ou oito anos de idade.

Então, a motivação antes de eles virem é tentar ficar atento a isto, e enquanto eles estão conosco, reafirmar nossa motivação (faça isto antes, e também o tempo todo enquanto estiver com eles). Motivação significa:

  • A meta. Qual é a meta que queremos ter? A meta deverá ser ter uma boa interação com esta pessoa. Ele se importa comigo, eu me importo com ele. Temos uma longa história juntos, então nosso objetivo é passar um tempo agradável juntos.
  • E então a emoção que acompanha isto. A emoção é se importar com esta pessoa como um ser humano.

Outra maneira útil de encarar isto, ao invés de pensar “é uma provação horrível. Tenho que lidar com os meus parentes,” é visualizar como um desafio e uma oportunidade de crescimento – como se você estivesse jogando um jogo de computador – “isto é um desafio. Consigo superá-lo?” Então acaba se tornando algo divertido. É um desafio. “Consigo passar o jantar inteiro com os meus pais sem me chatear com eles?”

Então seus pais começam a te importunar, como pais normalmente fazem: “por que você não se casa? Por que você não consegue um trabalho melhor? Por que você ainda não tem filhos?” estes tipos de coisas. (Minha irmã – a primeira coisa que ela falou quando me viu foi “você está precisando cortar o cabelo”) Perceba que eles estão fazendo estas perguntas porque eles estão preocupados contigo, e diga “bem, muito obrigado por estarem tão preocupados.”

Compreenda o contexto social e histórico do qual eles vêm. O contexto social do qual eles vêm, para a maioria deles, é um no qual todos os seus amigos ficam perguntando “bem, o que seu filho está fazendo? O que sua filha está fazendo?” e eles precisam interagir socialmente com os amigos deles. Portanto, isto está por trás da preocupação deles. Eles não estão te perguntando isto – “Por que você não se casou até agora?” – por maldade. Eles precisam lidar com os amigos deles. Ademais, eles estão preocupados com a sua felicidade. Então reconheça isto. Este é o primeiro passo. Reconheça. Fale isto para eles. “Percebo que vocês tem esta pressão com seus amigos e reconheço que vocês estão preocupados comigo. Eu aprecio isto.” Calma. E você explica – “bem, não é tão fácil,” ou algo assim – porém se mantenha calmo. Todavia, acredito que simplesmente o reconhecimento que eles estão tendo dificuldades por causa disto é de grande ajuda para eles. Demonstra que você os aprecia e que está preocupado com eles. Isto é muito mais humano, um relacionamento humano para humano, um relacionamento de igual para igual, ao invés de uma criança de doze anos de idade com um dos seus pais.

Esta atenção plena – o que devemos segurar na nossa mente e não deixar ir embora? Muitas vezes o que seguramos não é nem um pouco produtivo. Muitas vezes é uma história antiga como “bem, você fez isto dez anos atrás” e “você disse isto trinta anos atrás,” e nós nos agarramos a isto, damos chance a ninguém. E isto impede – neste contexto – isto impede nossa concentração no modo que ela está agora, não é verdade? Nós nos seguramos à pré-conceitos – a atenção plena, a cola – nos seguramos a preconceitos de “isto vai ser horrível. Meus pais estão vindo me visitar” ou “tenho que ir jantar com os meus pais, e vai ser horrível.” Com o preconceito a gente decidiu de antemão que o evento será terrível, então isto já nos deixa tensos, não é? Portanto, deixe ir embora esta percepção errada. E o que você aplicaria – atenção plena correta – é que “aqui está uma oportunidade de ver como eles estão. Ademais, irei me comportar de acordo como a situação for se desenrolando, sem preconceitos.”

Algo mais sobre atenção plena? É realmente um tópico bastante importante.

Participante: Você mencionou um tipo errado de atenção plena, por exemplo podemos ficar atentos a um jogo de futebol na televisão, mas desatentos a irmos comprar comida e fazer coisas básicas. Porém, quando lemos sobre as vidas dos grandes mestres do passado, podemos ver exemplos destas pessoas – seres profundamente treinados e realizados – sendo quase que incapazes de fazer qualquer coisa a não ser suas práticas. Eles não eram capazes de fazer todas as coisas básicas. Como nós encontramos este equilibro sutil?

Alex: Bem, eu vivi na Índia por vinte e nove anos com grandes mestres tibetanos. Fiquei com eles por uma boa quantidade de tempo. E, obviamente, há diferenças individuais, mas descobri com os mestres realmente altamente desenvolvidos que eles são perfeitamente capazes de lidar com as coisas práticas também. Tudo depende da personalidade de cada pessoa. Você não pode afirmar que o treinamento em si te torna incapaz de lidar com o lado prático da vida. Em geral algumas pessoas não são muito práticas e outras são. Então sim, conheci alguns grandes mestres que não eram terrivelmente práticos, porém a maioria daqueles com os quais eu pessoalmente interagi eram pessoas bastante pé-no-chão, bastante pé-no-chão.

Geshe Wangyal foi um grande Geshe mongol kalmyk, o primeiro com qual eu estive na América. Ele tinha um grande número de estudantes que moravam com ele na América, em Nova Jersey, e ele não simplesmente os ensinava o Darma budista, mas também ensinava como costurar, como fabricar roupas, como cozinhar, como construir uma casa. Ele era inacreditavelmente prático. Ou o Serkong Rinpoche, meu principal professor; ele também era conhecido e famoso por ser capaz de resolver e lidar com problemas bastante complexos – vamos dizer numa vila, ou numa família ou algo assim – por isso as pessoas sempre iam lhe pedir conselhos práticos. O próprio Dalai Lama é bastante prático em relação ao seu calendário, como lidar com as coisas e assim por diante.

É claro que podemos ler sobre mestres que simplesmente ficavam em cavernas, somente meditando o tempo inteiro, sempre vendo todos os tipos de figuras – dakas, dakinis e deuses – e coisas assim. Bastante não prático, em um senso. Mas não diria que a maioria é assim, de jeito algum.

Participante: Quando estamos falando em parar algumas intenções destrutivas, podemos pensar em suprimir nossos sentimentos e nos tornar neuróticos no sentido de suprimir nossos sentimentos. Como lidamos com isto de um modo mais equilibrado?

Alex: A abordagem não é que quando está com raiva, você tenta simplesmente suprimi-la e mantê-la dentro de si. O que estamos tentando fazer é nos livrar da causa da raiva para que não haja mais raiva. Então é bem diferente.

Agora, é verdade que o primeiro nível de treinamento, a primeira prática, é a do autocontrole. Isto é o que a autodisciplina ética é sobre, autocontrole. Por exemplo, eu posso estar zangado e querer gritar contigo. Te darei um bom exemplo. Você tem uma criança pequena, um filho de dois anos de idade, e você pede para ele lhe trazer um copo d'água. Ele te traz e derrama no chão a água, você fica zangado: “grrr, você derramou a água no tapete (ou no computador, ou nos documentos, ou qualquer coisa assim).” Então você fica com raiva, e você sente vontade de gritar com a criança ou até bater nela. Portanto agora há dois caminhos diferentes. Bem, a primeira coisa a se fazer é exercitar o autocontrole e não bater ou gritar com a criança. Agora, baseado neste autocontrole, você pode:

  • Suprimir e manter esta raiva dentro de você e ser realmente, realmente incomodado pela criança e desagradável com ela.
  • Ou você analisa e pensa “bem, na realidade foi a minha preguiça que causou isto, pois eu não me levantei para ir pegar o copo d'água eu mesmo. E o que era de se esperar quando pedi para que uma criança de dois anos de idade fosse me trazer o copo? Crianças de dois anos derramam as coisas. Elas tropeçam. Elas não são cuidadosas. E se eu gritar ou bater na criança, ela vai chorar – será uma grande cena – e será algo ainda pior.”

Portanto, ao invés de simplesmente suprimir e manter a raiva dentro de você, nós podemos dissolver a raiva porque percebemos que não há nenhuma razão real para ficarmos zangados. Então podemos calmamente dizer para a criança “por favor, seja mais cuidadosa. Veja o que aconteceu,” e assim por diante, sem transformar isto numa cena terrível (a criança irá chorar e assim por diante).

Algo mais?

Participante: Há algum conselho prático de como treinar esta atenção plena? É muito difícil manter a atenção plena nestas coisas úteis, e estamos sempre a perdendo. Portanto, tem treinamentos práticos para isto?

Alex: Treinamento prático para manter a atenção plena é de acordo com o que eu falei:

  • Motivação. A forte motivação de tentar lembrar.
  • Familiaridade. Familiaridade significa que, se você está tomando nota disto ou está lendo no meu website, você deve reler várias vezes. Como você aprende algo na escola? Seis vezes sete – como você se lembra disto? Você estuda várias e várias vezes até que você relembre. Portanto é o mesmo processo. Ou aprender uma língua. É o mesmo processo. É feito por repetição, familiaridade, e em termos de lidar com o nosso comportamento, esta é a motivação.
  • Então use seu estado de alerta – o sistema de alarme – para detectar quando você perder sua atenção plena e trazer sua atenção de volta – conseguir novamente o controle mental.

Tudo isto é baseado no que eu chamo de atitude de cuidado (bag-yod). Você se importa sobre como age e o efeito do seu comportamento sobre os outros e sobre si mesmo. Se você não se importa – “eu não me importo. Não dou a mínima do que faço ou como ajo” – você não conseguirá manter a atenção plena; você não terá nenhuma disciplina. E por que eu me importaria? Porque sou um ser humano. Minha mãe e meu pai são seres humanos. Eles querem ser felizes. Eles não querem ser infelizes. A maneira como eu falo com eles, a maneira como eu os trato, irá afetar os seus sentimentos, que nem a maneira como eles agem comigo e me tratam afeta os meus sentimentos. Portanto eu me importo com eles. Em consequência você consegue manter sua atenção plena e o estado de alerta para detectar se você perdeu a atenção.

Esta é a fundação básica para todo o treinamento de sensibilidade que eu desenvolvi – o qual está no meu website – um programa inteiro voltado a nos ajudar a superar a sermos insensíveis sobre os sentimentos dos outros, sobre o efeito que nosso comportamento tem nos outros, ou a sermos hipersensíveis, nos preocupar demasiadamente. Se realmente nos importamos de maneira equilibrada – não de mais, não de menos – sobre o efeito que nosso comportamento tem nos outros e em nós mesmos, e sobre a real situação que está acontecendo com os outros e com nós mesmos, então manteremos a atenção plena. Você tem uma razão para mantê-la.

Nós realmente temos que nos examinar. Qual é a nossa motivação? E se a motivação for “bem, eu quero ser uma boa garota (ou eu quero ser um bom garoto) para que a mamãe e o papai gostem de mim,” é algo muito infantil, não é? Amo a imagem que um dos meus professores usou. “Simplesmente quero ser um bom garoto (ou boa garota), e irei receber um cafuné e balançarei meu rabo” – você sabe, como um cachorro. É isto que você quer? Isto é bobo. É necessário que haja uma razão apropriada para ter a atenção, para ter disciplina e assim por diante, e acredito que uma atitude de cuidado é a base. Esta é a maneira que foi explicada por Shantideva, um grande mestre budista indiano do século oitavo.

Concentração Correta

OK, vamos continuar. O terceiro aspecto que nós aplicaremos aqui do caminho óctuplo em termos de concentração é chamado de concentração correta (portanto, concentração em si mesma). Esta é a real fixação mental em um objeto. O que precisamos conseguir fazer é conseguir uma verdadeira fixação em qualquer coisa que quisermos nos concentrar. Uma vez que conseguirmos nos fixar, a atenção plena mantém o objeto fixo para que a gente não o perca. Porém, a concentração se trata de conseguir primeiramente fixar um objeto.

Quando temos uma falha nisto – por exemplo, se estamos conversando com alguém – nós nem ao menos tentamos dar atenção. Você usa atenção para conseguir essa concentração, essa fixação mental. E pode ser que eu não me importe. Não estou interessado no que você tem para falar, então na realidade nem te escuto; não me concentro no que você está falando. Ou estou muito ocupado.

Ou, o que está realmente acontecendo muito hoje em dia, cada vez mais e mais do que no passado, é que temos nossa atenção dividida, então não estamos concentrados inteiramente em nada. Se você assistir a um programa de notícias na televisão – não sei se vocês têm isto aqui (talvez tenham) – você tem a pessoa no meio da tela da televisão, ou da tela do computador, narrando as notícias, mas embaixo tem uma faixa passando com outras notícias diferentes, e talvez no canto você ainda tem o seu feed de Facebook ou alguma outra coisa passando, e assim você não está prestando atenção ou inteiramente concentrado em nenhum deles. Portanto, mesmo que possamos dizer “bem, consigo fazer muitas tarefas ao mesmo tempo”, ninguém consegue – a não ser que você seja um Buda – colocar 100% de concentração em todas as coisas que você está fazendo ao mesmo tempo.

Nosso foque mental está no nosso celular enquanto alguém está tentando falar com a gente. Esta é uma fixação mental errada porque eles estão perguntando algo para a gente e nós nem ao menos estamos lhe dando atenção. Estamos distraídos, ou muito ocupados – “oh, estou muito ocupado” – então nem mesmo damos atenção e concentramos no que a outra pessoa está fazendo, ou dizendo, ou então quando eles querem algum tipo de interação ou resposta da gente.

E outra coisa que está cada vez acontecendo mais e mais hoje em dia é que, mesmo que consigamos manter nossa mente fixa em algo, é muito difícil manter isto. Estamos acostumados a interagir com coisas que mudam rapidamente, e a olhar para uma sucessão rápida de coisas, portanto ficamos entediados e fica difícil manter nossa atenção por um tempo prolongado. Então, este tipo de concentração – somente alguns segundos nisto, alguns naquilo e alguns depois noutra coisa – é um obstáculo. Isto é concentração errada. Se queremos ter a habilidade de nos concentrar apropriadamente, precisamos poder nos concentrar o tempo que for preciso, não ficar entediado e partir para outra coisa por termos perdido o interesse.

Veja bem, o problema é que queremos ser entretidos. Isto é voltar à percepção incorreta de que um prazer momentâneo que conseguirmos por sermos entretidos irá nos satisfazer, mas sempre temos sede por mais e mais. Por que deveríamos ser entretidos? Cientistas sociais descobriram que, quanto mais possibilidades existirem do o que você pode fazer, do que pode olhar – a internet nos oferece uma quantidade ilimitada de possibilidades – mais entediado você fica e a procura pelo entretenimento fica mais tensa. Você olha para algo e pensa “bem, talvez haja outra coisa que seja mais divertida,” e então você continua procurando e não se foca nem se concentra em nada. Portanto, mesmo que seja algo muito difícil, é de grande ajuda tentar simplificar sua vida – não ter muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo – e conforme sua concentração se desenvolve cada vez mais, você será capaz de aumentar o escopo do que você consegue fazer e lidar.

Se você tem concentração e é uma boa concentração, então você consegue se concentrar nisto, e depois se concentrar naquilo e depois se concentrar em outra coisa – mas somente uma coisa por vez sem ficar distraído. Se você pensar num exemplo, o exemplo seria um médico. Um médico que trata de um paciente após o outro. O médico precisa ficar concentrado no paciente durante o período que ele ou ela está tratando o paciente, e não ficar pensando no próximo paciente e o paciente anterior. Portanto, mesmo que um médico consiga tratar de muitos pacientes durante um dia, ele estará totalmente concentrado em somente um por vez. Esta é uma concentração muito melhor.

Devo dizer que isto é bastante desafiador. Pois eu sei que, no meu próprio caso, estou lidando com um número tão grande de tarefas com o gerenciamento do website, lidando com todas as linguagens diferentes e assim por diante, que fica difícil ficar focado em uma coisa só; muitas outras coisas estão chegando ao mesmo tempo. Este é o grande desafio, ficar focado numa tarefa só e não ficar distraído com pensamentos de outras tarefas que precisam ser feitas, porém ao mesmo tempo manter a atenção e não esquecer que há outras coisas para serem feitas. Qualquer um que trabalha em negócios complexos lida com a mesma situação.

OK. Vamos continuar para que consigamos falar de tudo no tempo planejado. Porém, só uma observação a mais para concluir o assunto de desenvolver a concentração correta: encontramos nos ensinamentos budistas que existem estágios definitivos para desenvolver cada vez mais uma melhor concentração, e acredito que isto pode ser considerado como parte da ciência budista – como podemos conseguir mais e mais concentração?

Treinando em Consciência Discriminativa

Agora, consciência discriminativa é discriminar entre o que é correto e o que é errado, o que é útil e o que é danoso. Para isto temos os últimos dois passos do caminho óctuplo:

  • Visão correta (yan-dag-pa’i lta-ba).
  • E intenção correta ou pensamento motivador (yan-dag-pa’i rtog-pa).

Visão correta tem a ver com o que acreditamos ser correto baseado na discriminação correta entre o que é correto e o que é incorreto, o que é útil e o que é danoso. Pensamento motivador correto, ou intenção, é o estado de mente construtiva que isto acarreta.

Visão Errada

Então, visão correta. Podemos ter uma consciência discriminativa correta ou incorreta (estamos falando em termos a habilidade de discriminar o que é útil e o que é danoso):

  • Podemos discriminar corretamente e acreditarmos nisto como sendo verdade.
  • Ou podemos discriminar incorretamente e acreditarmos nisto como sendo verdade.

Portanto, o tipo de visão incorreta é quando fazemos uma discriminação errada e acreditamos nela, e a visão correta é quando discriminamos corretamente a acreditamos nela como sendo verdadeira.

Visão errada seria, por exemplo, afirmar e acreditar que nossas ações não têm uma dimensão ética de serem ou construtivas oudestrutivas, e acreditar que não trazem resultados em termos do que experienciamos. Isto é caracterizado por uma mentalidade que muitas pessoas possuem, a mentalidade do “tanto faz.” Isto não importa. Nada importa. Tanto faz. Se eu fizer ou não fizer isto, não importa. É claro que importa se você fuma ou não fuma. “Bem, tanto faz. Isto não importa.” Sim, isto importa. Se você fumar isto lhe trará consequências negativas em termos da sua saúde. Se você não fumar isto irá prevenir estas consequências, esperançosamente.

Ou acreditar que não existe jeito algum de melhorar a nós mesmo e superar nossos defeitos, então porque se importar? Esta é uma discriminação errada, pensar que não há nada que você possa fazer para mudar sua situação. Certo? Há sempre algo que podemos fazer. As coisas não são estáticas, fixadas concretamente numa situação.

Ou pensar que não há nenhuma razão em tentar ser gentil com os outros ou ajudá-los, e portanto deveríamos simplesmente tentar tirar vantagem de todo mundo e conseguir o máximo de lucro possível, e a discriminação errada nisto é que trará felicidade. Não traz felicidade. Traz conflito, inveja, paranoia de que as outras pessoas irão roubar suas coisas e assim por diante.

Há tantos tipos diferentes de discriminação errada. Pode ser sobre sofrimento e suas causas, por exemplo. Por exemplo, seu filho está indo mal na escola ou no trabalho, ou seu filho não quer te ver – alguma coisa está indo errado com seu filho, quer se trate de uma criança pequena ou um filho adulto. A discriminação incorreta seria pensar que “é tudo minha causa. Eu errei como pai.” Esta é a discriminação errada sobre causalidade. Coisas não surgem ou acontecem por causa de uma só causa. Coisas acontecem por causa de uma combinação de muitas, muitas causas e condições, não somente de uma. Pode ser que tenhamos contribuído, mas não somos a única causa do problema. E, algumas vezes, nós nem somos a causa – (pensar assim) é totalmente errado. Estou pensando num exemplo de um indivíduo bem perturbado: ele foi para um jogo de futebol e o seu time perdeu, e por isso ele acredita que a única razão que seu time perdeu é porque ele foi ao jogo, pois ele é pé-frio: “a culpa é minha pelo meu time ter perdido.” Isto é ridículo. É uma discriminação incorreta sobre causalidade.

Visão Correta

Então, ter uma consciência discriminativa correta é muito, muito importante, e para isso precisamos aprender sobre a realidade, por exemplo a realidade da causalidade – que muitas causas e condições afetam o que acontece. Como o clima – tantas coisas o afetam; não somente uma ou duas coisas. Então, não compreenda erradamente que “eu sou como Deus, e somente é necessário que eu faça uma coisa para mudar tudo com meu filho ou mudar tudo com a situação no meu trabalho.” Não é assim que as coisas funcionam.

Esta é a consciência discriminativa correta. Ela requer senso comum e inteligência. E, obviamente, precisamos ficar focados com nossa concentração na discriminação correta. Para poder fazer isto, você precisa de disciplina. Portanto estas coisas se encaixam.

Intenção Correta

O último é o pensamento motivador correto, o que está se referindo à intenção correta. Então, tendo feito a correta discriminação entre o que é útil e o que é danoso, o que é a realidade e o que não é, isto afetará a maneira na qual agimos, falamos e nossa atitude perante as coisas. Isto é explicado como pensamento motivador incorreto (ou intenção incorreta) e pensamento motivador correto. Vamos ver o que são.

Desejo Sensorial

Um pensamento motivador incorreto pode estar envolvido com desejo sensorial, um ardente desejo e apego à objetos sensoriais – quer sejam objetos bonitos, música, boa comida, roupas confortáveis, estes tipos de coisas – como nosso pensamento motivador, pois fizemos a discriminação incorreta que estas coisas são muito importantes. Ao contrário, se tivéssemos feito uma discriminação correta, nós teríamos equanimidade. Equanimidade significa uma mente equilibrada livre de apegos à objetos sensoriais.

OK, um exemplo. Uma discriminação incorreta seria “é muito, muito importante o que teremos para jantar hoje de noite e aonde iremos comer. Se escolhermos o lugar certo e eu escolher o prato correto do cardápio, isto realmente me trará felicidade.” E você fica preocupado com isto, e não consegue se concentrar porque fica pensando “onde vamos comer de noite?” Se você tivesse feito a discriminação correta – “Não é tão importante assim. Há tantas outras coisas que são tão mais importantes na vida do que vou jantar ou o que estará passando na televisão hoje de noite” – então você teria uma mente equilibrada. “Tanto faz. Isto não é tão importante. Acharemos algum lugar para simplesmente comermos.” Você tem essa equanimidade, um equilíbrio.

Malícia

O segundo pensamento motivador errado, ou intenção, é malícia – o desejo de machucar alguém, causar dano. Por exemplo, alguém comete um erro – seu filho derruba água ou chá no seu computador, e você diz “criança má. Você é ruim.” Portanto, isto é uma discriminação errada em termos de pensar sobre bom e mau: “você é má, e você deveria ser punida.”

Você fez a discriminação errada de que uma criança de dois anos de idade irá agir responsavelmente como um adulto, o que é um absurdo. É certamente uma discriminação errada. Irá uma criança de dois anos ficar sentada calmamente durante toda uma viagem de trem e se comportar como um adulto? Isto é um absurdo. Porém, se fizer esta discriminação errada, você ficará muito zangado, e pode ser que você queira bater na criança se ela começar a correr para cima e para baixo no corredor do trem e a fazer muito barulho. Ao contrário, se fizermos a discriminação correta, desenvolveremos benevolência. Este é o desejo de ajudar os outros, trazer felicidade para eles. Então você se prepara. Se você vai fazer uma longa viagem de trem com uma criança, você traz coisas para distraí-la – um livro de colorir ou algo assim. Ademais, esta benevolência engloba ou inclui força, remissão e amor (o desejo de querer que os outros sejam felizes). Se a criança fizer algum erro, ou fizer barulho, não tenha rancor. Você é indulgente, e você tem a força de manter este estado mental carinhoso.

Crueldade

O terceiro, o terceiro tipo de pensamento motivador incorreto, é uma mente que está cheia de crueldade. Há vários aspectos aqui:

  • Ser um torcedor cruel – é uma falta de compaixão cruel na qual desejamos que os outros sofram e sejam infelizes. Julgamos que os torcedores de um outro time de futebol são pessoas horríveis, e por isso podemos agir cruelmente com eles, entrando em brigas e machucando-os, já que eles torcem para outro time. Quero dizer, que discriminação boba.
  • A segunda variação disto é ódio a si mesmo. É uma cruel falta de amor a si mesmo na qual não queremos que sejamos felizes, então sabotamos nossa felicidade e machucamos a nós mesmos. Discriminamos erradamente que “não sou bom. Sou uma pessoa ruim. Não mereço ser feliz,” e nós, num certo sentido, castigamos a nós mesmos através de relacionamentos não saudáveis, mantendo hábitos não saudáveis. Pessoas que comem demasiadamente e ficam obesas – normalmente elas estão cheias de ódio a si mesmas. Elas têm essa atitude muito negativa sobre si mesmas. E, mesmo que elas talvez queiram encontrar um parceiro, elas se sabotam comendo cada vez mais e mais, e assim ficam cada vez menos atraentes, e nunca conseguem um parceiro quando pesam duzentos ou trezentos quilogramas.
  • O último é ter prazer perverso. É uma crueldade ter prazer ao ver ou ouvir alguém sofrendo. Você discrimina que “este político é mau. É uma pessoa terrível,” e ele perde a eleição e nós ficamos contentes: “Ah, excelente. Ele perdeu.” Ou algo de ruim acontece a alguém que não gostamos e pensamos “ah, ela mereceu isto.” De novo estamos discriminando erradamente que certas pessoas são más, que elas merecem ser punidas e que as coisas devem dar errado na vida delas e que, outras pessoas, particularmente nós mesmos, merecemos que tudo dê certo para nós.

Então, o pensamento motivador correto baseado na correta discriminação seria a de uma atitude não violenta, uma atitude não cruel. Não é meramente uma falta de raiva, mas uma imperturbabilidade. Você não se perturba. É o estado de mente na qual você não deseja causar danos aos outros que estão sofrendo, irritá-los ou incomodá-los. Fazemos a discriminação correta: “como um ser humano, ele quer ser feliz, não deseja ser infeliz. Ele tem o mesmo direito de ser feliz, e não infeliz, do que eu.” Baseando-nos na discriminação correta, não iremos querer causar-lhes dano. Não ficamos felizes quando algo de ruim acontece com eles. Não queremos irritá-los e incomodá-los. Ademais, isto tem, em adição, compaixão – o desejo que eles sejam livres dos seus sofrimentos e as causas deles – porque vemos que todo mundo sofre, ninguém quer sofrer e ninguém merece sofrer. Quando pessoas cometem erros é porque estão confusas – elas estão erradas – , não é porque são más. Portanto, com a discriminação correta e com um pensamento motivador correto, a intenção que origina disto naturalmente nos leva a ter fala correta, a agirmos corretamente e a desempenharmos atividades corretas.

Encaixando os Oito Fatores Juntos

Estas coisas se encaixam, os oito fatores ou o caminho óctuplo:

  • Visão e pensamento motivador corretos proporcionam a fundação apropriada para a prática, e então praticamos fala correta, ação correta e meio de vida correto. Discriminamos o que é correto em termos dos efeitos do nosso comportamento, da situação dos outros e assim por diante. Nossa intenção é ajuda-los, não prejudicá-los, e portanto temos a disciplina de não falar ou agir com eles, ou tentar fazer negócios com eles, numa maneira que será destrutível ou danosa. Isto faz sentido. Se encaixa.
  • Baseado nesta melhor base, tentamos fazer um esforço em nos auto melhorarmos, em desenvolver mais qualidades boas, e não ficar distraídos por ideias estranhas sobre nosso corpo, nossos sentimentos e coisas assim. E então, use a concentração para ficar focado em algo que seja benéfico, ou trabalhe em desenvolver qualidades melhores, use esta concentração com uma consciência discriminativa correta e a intenção que surge disto.

Portanto, está tudo interconectado.

Tradutor: Desculpe. Depois de qualidades benéficas, eu me perdi.

Alex: Quando você fica focado e concentrado nos seus esforços de desenvolver qualidades melhores, então é claro que você pode aplicar isto na consciência discriminatória correta. Você vê mais profundamente o que é benéfico, o que é prejudicial, e sua intenção de implementar isto fica ainda mais forte.

Então, mesmo que alguém possa apresentar os três treinamentos e o caminho óctuplo como uma sequencia – e ele pode ser apresentado em diversas sequencias diferentes – a meta final é ser capaz de colocar tudo em prática ao mesmo tempo como um conjunto integrado.

Perguntas e Respostas

Temos alguns minutos sobrando para últimas perguntas.

Participante: Você mencionou que uma das visões erradas é considerar que somos incapazes de mudar algo.

Alex: Incapazes de mudar a si mesmos.

Participante: Buda disse que tudo é interdependente. Há um monte de coisas diferentes que são interdependentes, e nós somos incapazes de compreender todo esse sistema, e é impossível uma condição aparecer sem ter uma conexão com uma condição prévia. Portanto, podemos concluir que a nossa condição presente é dependente da nossa condição passada, ou nossa condição prévia, e que também seria a causa para nossa condição futura. Nisto uma dúvida surge: há algum lugar, dentro deste mecanismo, para o livre arbítrio? E o budismo consegue proporcionar alguma maneira de lidar com esta situação de sair fora deste mecanismo?

Alex: Bem, há muitos fatores envolvidos aqui. Se você pensar sobre o livre arbítrio, livro arbítrio implica que você consegue fazer qualquer coisa sem causa. Isto é impossível. Tudo surge de causas e condições, isto é verdade, mas não significa que não possamos fazer esforço (a tão chamada vontade própria) para realmente fazer algo.

Se realmente fizermos um esforço, é claro que isto é por uma causa. Quero dizer, há causas para isto e condições para aquilo, mas as pessoas não devem pensar nestes extremos. Há dois extremos:

  • Você consegue fazer absolutamente qualquer coisa sem ter uma causa para isto;
  • Ou há nada que você possa fazer, porque tudo já está pré-determinado.

Não funciona assim. Precisamos ver em termos de fazer esforço e tomar decisões, etc., não é como: aqui está o eu separado de todas as escolhas; e aqui estão todas as escolhas, como um cardápio, e vou escolher o que farei.

Esta maneira dualística, de enxergar isto é falsa. Quero dizer, não é desta forma que as coisas existem. As pessoas fazem coisas – você simplesmente faz – com esforço. E pode ser que haja a inspiração de professores espirituais, de professores, de Budas, etc., isto pode ajudar-nos. E se eles nos ajudaram e fomos inspirados por eles, isto é também devido a causas.

Portanto, o problema aqui nesta questão é pensar nestas duas categorias de livre arbítrio e determinismo. Esta é uma falsa discriminação. É baseada no fato de pensar num eu verdadeiramente existente que pode escolher as coisas livremente de um cardápio ou que está preso numa posição que é estática e que nunca poderá mudar. Toda esta maneira de tentar analisar dentro destas duas categorias é falsa, porque nenhuma das duas categorias existe.

Todavia, a sua pergunta é extremamente profunda e não algo que pode ser respondido de maneira leviana ou que pode ser lhe dado uma resposta simples e “oh, sim, sim. Entendi.” É algo que realmente necessita de uma reflexão profunda e o entendimento da causalidade, a tão chamada vacuidade de causa e efeito – como causa e efeito realmente funciona. E a chave aqui é não olhar para a causalidade numa maneira dualística, que há um eu separado de todo este processo que pode fazer escolhas ou que é forçado a fazer algo por outra coisa alheia. Como se eu fosse simplesmente um peão, uma peça de xadrez, e estou sendo manipulado por coisas determinísticas que são externas a mim. Isto é de novo bastante dualístico, e este é o problema aqui nesta questão, dualismo.

Bem, algo a mais? Última questão.

Participante: Você mencionou que tem que ter compaixão não somente pelos outros, mas também por você mesmo – também em termos de uma dieta apropriada, uma quantidade apropriada de sono e uma quantidade apropriada de exercício. Porém lemos sobre estes praticantes altamente realizados sentados em retiros, eles tinham corpos rígidos enquanto sentam por longas horas, eles não comiam apropriadamente e não dormiam suficientemente. Aonde está a conexão entre estes dois casos? Alguns estudantes estão tentando fazer as mesmas coisas que eles fizeram.

Alex: Bem, este é um grande, grande erro. Isto é análogo a uma raposa tentando pular aonde um leão pula. Pensar que estamos no mesmo nível que Milarepa ou qualquer um destes grandes mestres é uma completa arrogância, não é? Não estamos no mesmo nível. Então tentamos imitá-los – isto simplesmente irá nos causar danos. Se queremos atingir a condição que eles atingiram realisticamente, tem que ser passo-a-passo; treine para atingir este nível.

Quando você consegue uma concentração altamente desenvolvida, você consegue o que é denominado de estado físico e mental maleáveis e em boa forma. Portanto, você não é rígido. O corpo não é rígido. E eles possuem o controle das energias e portanto dos seus corpos, e por isso eles não precisam dormir. Não é danoso para eles dormir muito pouco. E eles conseguem comer muito, muito pouco e conseguir uma tremenda quantidade de energia. Então não é como se eles estivessem sofrendo e negligenciando a si mesmos. Como parte da realização destes estados muito elevados, eles têm estas habilidades. Mas não estamos neste nível.

E o que estes grandes mestres mostram para as pessoas normalmente é um show, para que elas possam se identificar melhor. Irei usar um exemplo do meu próprio professor. Serkong Rinpoche, o velho, era bastante idoso e muito acima do peso, como muitos deles são. Estive com ele por nove anos, quase todos os dias, e eu precisava ajudá-lo quando ele se levantava e assim por diante. Porém, uma vez eu estava numa espécie de ritual onde os monges se reúnem e leem as escrituras, todo mundo lê uma porção diferente em voz alta (e isto em folhas separadas; elas não são presas). A Sua Santidade o Dalai Lama está sentado aqui, Serkong Rinpoche está sentado ao lado dele e eu estou sentado atrás. A Sua Santidade estava lendo quando um vento soprou e a folha que ele estava usando caiu no chão. Serkong Rinpoche – a quem eu sempre tinha que dar a mão e ajudar a se levantar – se levantou como se tivesse vinte anos de idade, se levantou, pegou o pedaço de papel e o deu para o Dalai Lama. Obviamente é somente um show o fato que ele precisa de ajuda para se levantar. Obviamente ele é capaz de se levantar sozinho.

Ele sempre dormiu no quarto sozinho. Porém, uma vez quando eu estava viajando com ele, o planejamento foi de uma forma que não tinha um quarto separado para o assistente tibetano que o acompanhava, e por isso ele teve que dividir um quarto com o Rinpoche. Rinpoche ia dormir antes de todo mundo e, quando todos estavam dormindo, ele se levantava – o assistente viu ele se levantando – e ele meditava, e fazia exercícios das seis yogas de Naropa (o que você não consegue imaginar um homem idoso e gordo fazendo). E então, antes de todo mundo se levantar na manhã, ele se deitava e fingia que tinha dormido a noite inteira.

Há esse tipo de coisa. Eles dão a impressão aos outros que são pessoas normais, mas eles escondem todas as suas qualidades. Este é o jeito que os grandes Lamas são, pelo menos alguns deles. Muito inspirador. E podemos desenvolver nós mesmos esta condição através dos três treinamentos e o caminho óctuplo. Este é o começo. Pode ser feito no nível de simplesmente nos ajudar a melhorar nesta vida atual. Ou pode ser feito num nível mais profundo e nos ajudar a conseguir vidas futuras melhores, liberação do ciclo incontrolável de renascimento e sofrimento, e o iluminamento, a habilidade ser o máximo de ajuda a todo mundo.

Isto traz o curso ao final. Muito obrigado e eu espero que isto seja de algum benefício.