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Os Três Treinamentos e o Caminho Óctuplo na Vida Diária

Alexander Berzin
Kiev, Ucrânia, Junho de 2013
Traduzido para o português por Daniel Ribas Tandeitnik

Sessão dois: Ação, Modo de Vida e Esforço Corretos

Revisão

Na noite de ontem, começamos nossa discussão nos três treinamentos, e vimos que podemos discuti-los em termos de:

  • Ciência e filosofia budista, que é lidar com a ciência básica da mente, a filosofia da ética, lidar com nossas emoções e assim por diante. O foco aqui seria em usar o material dos três treinamentos com o objetivo, basicamente, de melhorar a qualidade da nossa vida;

  • E tem a religião budista, que se foca em coisas como carma, renascimento, liberação e iluminamento. Então usaríamos os três treinamentos em ordem de conseguirmos renascimentos melhores, atingirmos a liberação ou a iluminação.

Porém, não importando qual o nível que implementarmos estes três treinamentos, o foco sempre será em ajudar-nos a superar os problemas e sofrimentos que possuímos. O método é tentar identificar as causas dos nossos problemas e dificuldades e aplicar o que é chamado como caminho óctuplo, para ajudar-nos a eliminar estas causas do nosso sofrimento.

Estou rindo porque esta mosca parece que gosta de mim e quer ficar no meu rosto. Num ponto de vista budista, você sempre se questiona “Quem foi esta mosca na sua vida anterior que quer ficar tanto comigo?” É uma maneira um pouco mais calma de olhar a situação ao invés de simplesmente querer matá-la.

Voltando ao que estávamos falando, os três treinamentos são em autodisciplina ética (tshul-khrims), concentração (ting-nge-’dzin) e consciência discriminativa (shes-rab), e eles são extremamente úteis para cultivarmos na nossa vida diária:

  • Se estamos lidando com outras pessoas, então é claro que é muito importante observar como agimos e falamos com elas, ou se estamos em algum tipo de transação comercial, como interagimos com elas no nível comercial. Precisamos de disciplina ética para abstemo-nos de fazer algo prejudicial ou destrutivo;

  • Precisamos também concentrar-nos no que estão falando, quais são suas necessidades e o que está acontecendo com elas em ordem para que possamos interagir numa maneira apropriada. Se não estamos prestando atenção – nossa mente está viajando por vários lugares – ou a todo minuto da interação nosso celular vibra e digitamos outro SMS e assim por diante, fica muito difícil se comunicar com outra pessoa;

  • Se somos capazes de nos concentrar na outra pessoa – o que ela está falando, como está agindo – então poderemos usar nossa consciência discriminativa para decidir qual é a resposta apropriada e o que seria uma resposta inapropriada. Precisamos discriminar entre estas duas. De novo, isto nos leva a agir apropriadamente e pensar apropriadamente, numa maneira apropriada com a outra pessoa.

Portanto, estes três treinamentos interagem entre si e se reforçam, e é por isso que dizemos que é necessário aplicar todos eles ao mesmo tempo.

E mesmo quando não estivermos com outras pessoas, interagindo com outras pessoas, também precisamos destes três treinamento em termos de nós mesmo. Quando lidamos com nós mesmos, é importante:

  • Não agir de forma autodestrutiva;

  • Ter nossas mentes focadas para que consigamos atingir o que queremos atingir;

  • E usamos nossa inteligência básica para discriminar entre o que é apropriado fazer e o que é inapropriado.

Portanto, estes três treinamentos superiores se aplicam tanto para nossa vida pessoal, quanto para nossa vida social. Deste jeito, são princípios muito, muito básicos que podemos aplicar na nossa vida diária.

Esse foi um deslize meu. Eu disse treinamentos superiores. Esta é uma terminologia que frequentemente é usada. Quando ouvimos a expressão “treinamentos superiores”, os três treinamentos superiores (lhag-pa’i bslab-pa gsum), referem-se aos treinamentos que usamos para atingir a liberação ou a iluminação. É por isto que são chamados de superiores (lhag-pa’i). Está se referindo a aplicar estes três treinamentos com o fim de se atingir uma meta superior, uma meta que é superior a esta e às futuras vidas.

Depois começamos uma análise mais detalhada dos três treinamentos em termos do tão- chamado caminho óctuplo. E o primeiro deste, o primeiro grupo – é separado em três grupos – o primeiro grupo são três que estão envolvidos com autodisciplina ética, o treinamento em autodisciplina ética. OK, agora estamos falando em termos de autodisciplina ética, e nisto temos:

  • Linguagem correta (yan-dag-pa’i ngag);

  • Limites corretos de ação (yan-dag-pa’i las-kyi mtha’), ou seja, comportamento correto;

  • E modo de vida correto (yan-dag-pa’i ‘tsho-ba).

Ontem falamos sobre linguagem correta, e vimos que precisamos de disciplina para abstermo-nos das quatro formas destrutivas de falar – mentir, falar de forma segregadora, falar de forma desagradável e cruel, e conversa fiada – e ao invés de falar destas formas, ter a disciplina de falar de forma apropriada e construtiva, de um jeito honesto, que tenta criar harmonia, que é gentil e carinhosa, significativa e que é falada na hora apropriada na medida apropriada (não simplesmente interromper as pessoas com trivialidades). E precisamos de disciplina para falar duma maneira que será de ajuda aos outros, como responder suas questões, confortá-los quando estiveram tristes e assim por diante.

Comportamento Incorreto

Vamos então continuar. A segunda parte do caminho óctuplo fala sobre limites corretos de ação (yan-dag-pa’i las-kyi mtha’). Este é o termo técnico. Quando falamos sobre um limite (mtha’), estamos falando sobre um certo limite, falando que “Vou agir até este limite, mas não depois dele.” Isto está se referindo a três tipos de comportamento destrutivo:

  1. Matar seres vivos (então, tirar suas vidas);

  2. Roubar, pegar o que não nos pertence;

  3. Comportamento sexual inapropriado.

Então, o que quer dizer cada um destes?

Matar

Matar é basicamente tirar a vida de outro. Não estamos falando somente em termos de seres humanos, mas também em termos de caçar, pescar, matar insetos e assim por diante.

Bem, acredito que para muitos de nós desistir de caçar e pescar não é tão difícil. Não matar insetos é muito mais difícil. Porém, há várias maneiras de lidar com isto sem ter que pensar em vidas passadas e futuras, como (por exemplo) “Esta mosca foi minha mãe numa vida passada,” e assim por diante. Eu penso que a principal ênfase aqui é que, se há algo que está nos incomodando, não queremos que nossa primeira reação seja matá-la. Isto faz crescer o hábito de querer destruir qualquer coisa que não gostamos de forma violenta, e começa a se estender isto além da mosca que está voando em volta do nosso rosto. Ao invés disso, queremos achar alguma forma pacífica de lidar com algo que é irritante. Então, com insetos – uma mosca, ou um mosquito ou algo assim – quando pousarem na parede, é possível colocar um copo sobre eles e um pedaço de papel embaixo do copo, e assim levá-los para o lado de fora do quarto. Podemos achar em muitas, muitas situações formas mais pacíficas de lidar com algo que não gostamos, e há muitas maneiras bem simples.

Se você vive na Índia, como eu já fiz, você aprende a conviver com insetos. Quero dizer, não há jeito de se livrar de todos os insetos na Índia. Sempre pensei nesta campanha publicitária para empresas de turismos para a Índia: “Se você gosta de insetos, você amará a Índia.” Quando comecei a morar na Índia, meu contexto pessoal era duma maneira que eu certamente não era fã de insetos, mas eu era um grande fã de ficção científica. Então imaginava que, se eu fosse para outro planeta e a forma de vida de lá fosse em formas de insetos como estes, seria bastante desagradável se, toda vez que eu conhecesse alguém, tudo o que eu iria querer fosse pisar e esmagar esta criatura! Portanto, se você começar a se colocar no lugar do inseto – “O inseto somente está fazendo o que ele faz” – você começa a respeitá-lo como forma de vida.

Porém, obviamente, há insetos nocivos – como há pessoas nocivas – e muitas vezes você precisa usar medidas fortes para controlá-los. Mas, a primeira coisa para se tentar é algum método pacífico, quer estejamos falando de conflito humano ou falando sobre sua casa estar infestada de formigas, ou de baratas ou algo assim.

Então, isto é matar.

Roubar

O segundo é roubar, pegar o que não nos pertence. Obviamente as pessoas – pelo menos a maioria – são mais apegadas à suas vidas do que suas possessões, porém mesmo que você pegue a possessão de alguém, isto causa muita infelicidade. Ficamos nervosos: “Será que seremos pegos?”, e tudo que vem disto.

Agora, lembrem que quando estamos discutindo sobre estas coisas, queremos evitar problemas para nós mesmo. Obviamente é um problema para o inseto ou para o peixe se você matá-lo. Mas, o problema para nós mesmos é... Por exemplo, se você é uma pessoa muito perturbada com insetos, então você fica constantemente paranoico, não é? Sempre fica preocupado – “Será que um mosquito vai vir e invadir meu espaço?” – você fica sempre procurando. Ou, no meio da noite, algo entra no quarto e você se levanta e começa a vasculhá-lo tentando acha-lo. É um estado mental muito inquieto, não é? Portanto, se tentarmos usar um método pacífico para lidar com algo que não gostamos, nossas mentes estarão calmas. Estamos relaxados.

Se você sempre recorrer a um método violento, então você fica tenso, paranoico – um estado mental infeliz – e fica fora de controle. Você vai matar o mosquito e acaba quebrando algum objeto precioso ao qual ele pousou, só porque você queria matá-lo. Então acaba destruindo suas próprias coisas. Você está fora de controle. Enquanto que, se achar uma solução pacifica, você pode usar sua discriminação de forma muito mais calma e racional para achar outro método, um método pacífico, para lidar com o problema.

Então é a mesma coisa com roubar, pegar algo que não te pertence. Você precisa ser traiçoeiro – você está preocupado que alguém vai te pegar – e é normalmente baseado num desejo muito, muito forte em que você não é paciente o suficiente para fazer o trabalho que seria necessário para conseguir o objeto, então você simplesmente o rouba de outra pessoa.

É claro, há também roubar e matar com a motivação oposta:

  • Você pode matar porque está com muita ganância em comer este animal ou este peixe. E de novo, as coisas dependem das circunstancias. Se não há absolutamente nada a mais para comer, é uma coisa. Mas, se existem outras alternativas para comer, é outra coisa;

  • E você pode roubar também por raiva. Você quer machucar alguém, então você pega algo que pertence à outra pessoa.

Portanto, estas maneiras destrutivas de agir são baseadas em – como estávamos falando ontem – emoções perturbadoras.

Comportamento sexual inapropriado

O terceiro tipo de comportamento destrutivo é comportamento sexual inapropriado. Este é um tópico sempre difícil, pois para muitos de nós a vontade impulsionadora por trás do nosso comportamento sexual é o desejo (’dod-chags). Existem os guias básicos, os limites, que traçamos neste assunto, que são:

  • Não causar danos com nosso comportamento sexual, como estuprar alguém, ou violar uma pessoa de um jeito violento que vá machucá-la;

  • Nos forçar em alguém é uma forma moderada disto, que é realmente pressionar alguém, até mesmo nosso próprio parceiro, a fazer sexo quando ele não quer;

  • Há também fazer sexo com o parceiro de outra pessoa ou, se você tem um parceiro, fazer sexo com outra pessoa. Ou seja, adultério. Não faz diferença de quanto somos cuidadosos, isto sempre acaba gerando problemas, não é?

Porém, há muitos outros aspectos sobre comportamento sexual inapropriado. A grande ideia por trás é que queremos tentar não agir como um animal. Um animal simplesmente pula em cima de outro quando sente vontade sexual, não importando nada, não importando quem está em volta e assim por diante. Os animais estão totalmente sob o controle do desejo e da luxuria. É isto que queremos evitar.

Portanto, o que queremos fazer é delimitar certos limites – lembre-se que isto é chamado de limites de ação – delimitar certos limites, do jeito “É dentro desta esfera que eu me comportarei sexualmente, não além desta.” Esse limite pode lidar com a frequência que fazemos sexo. Pode lidar com as posições sexuais. Pode lidar com qualquer coisa, mas o importante é ter linhas guias, não simplesmente fazer o que sentir vontade, à qualquer momento e assim por diante, como um animal. “Farei isto contigo, mas não farei aquilo” – este tipo de delimitação de limites. Isto é realmente muito importante em termos de disciplina. Disciplina é se abster de ultrapassar um limite, pois nós percebemos que a vontade é somente baseada em luxuria e que não é realmente necessária. Por exemplo, quando fazemos um retiro de meditação. “Durante este retiro de meditação, não farei sexo” – este tipo de limite, qualquer que seja. O importante é ter alguns limites.

Consumir Intoxicantes

Agora, mesmo que consumir intoxicantes não esteja incluído na lista de ações erradas ou destrutivas, abandonar intoxicantes é muito importante em termos do nosso desenvolvimento. Queremos desenvolver concentração. Queremos desenvolver disciplina. Bem, ao ficar bêbado – você perde toda sua disciplina, não é verdade? Você toma drogas psicodélicas, e você perde toda sua concentração – constante devaneio mental com maconha etc. Então, se olharmos para os efeitos das várias drogas ou álcool, e compararmos com o que queremos atingir em termos do nosso próprio desenvolvimento mental, nossas emoções, nosso comportamento e assim por diante, percebemos que ficar bêbado ou chapado é completamente contraditório a isto. Cria obstáculos, e estes obstáculos não simplesmente duram o tempo em que estamos bêbados ou chapados, mas há a tendência de ter sequelas disto depois (ressaca etc.). Então, inicialmente, delimite alguns limites em termos de restrições com intoxicantes; o melhor é abandonar completamente o uso deles.

Limites Corretos de Ação (Comportamento Correto)

Um dos aspectos de autodisciplina ética é abster de tipos de comportamentos destrutivos. O outro aspecto é se engajar em jeitos construtivos de agir, o que é chamado de ação correta.

Então, ao invés de tirar a vida de outros, você ajuda a preservar vida. Quero dizer, você pode ver uma grande aplicação disto: ao invés de destruir completamente o meio ambiente fazendo que os animais não consigam viver nele e poluir os lagos fazendo com que todos os peixes morram, cuidar e preservar a ecologia. Este é um jeito de preservar vida. Alimentar seu cachorro – isto é ajudar a preservar vida. Alimentar seu porco – não engordá-lo para que você possa matá-lo e come-lo, mas alimentá-lo para que ele possa prosperar. Isto também inclui cuidar de pessoas doentes, ajudar a preservar a vida delas. Se alguém se machucar, você ajuda esta pessoa. Esses tipos de coisas. Preservar vida.

Se você pensar numa mosca – na Índia você tem que lidar com moscas – uma mosca ou uma abelha que voou para dentro do seu quarto. Bem, a mosca ou a abelha não quer estar lá, não é mesmo? – especialmente a abelha – ela que sair do quarto, mas não sabe como. Então, se você simplesmente matá-la por ter feito o erro de entrar no seu quarto, não é algo muito legal, não é? Você a ajuda a sair, mesmo se for simplesmente abrir a janela e falar “Shoo,” algo como isto, para que ela saia. Você estará ajudando a preservar a vida dela. Ela quer viver. Se um passarinho voar para dentro do seu quarto por engano, você não vai pegar uma arma e atirar nele, vai? Você provavelmente vai abrir a janela e tentar fazê-lo voar para fora. Portanto, qual é a diferença entre o passarinho e a mosca? O tamanho. O som que ele faz: você não gosta do som que a mosca faz; você gosta do som que o passarinho faz. Se você particularmente não gosta que moscas entrem no seu quarto, não abra a janela; ou então coloque uma tela nela.

Então, a ação correta em termos de não roubar seria tentar ajudar a proteger as possessões das outras pessoas. Se alguém te emprestar algo, você tenta não danificá-lo. Você cuida bem do objeto. Este tipo de coisa. Ajudar eles a ter coisas boas.

E ao invés de comportamento sexual inapropriado – e não estamos falando somente sobre sexo com outras pessoas, mas também sexo consigo mesmo – aja de uma forma sexual delicada, gentil, na medida apropriada e assim por diante – não somente por luxuria, como um cachorro no cio.

Outros Exemplos de Comportamento Correto e Errado

Se olharmos para uma extensão do que estamos debatendo aqui, para o que tenho no meu treinamento de sensibilidade (como discutimos antes em termos da fala), podemos também ver que há muitos outros aspectos que estão envolvidos com estes tipos de comportamento.

Uma extensão do matar é parar de tratar os outros de forma fisicamente dura. Isto não é somente sobre bater em alguém, mas fazer com que outras pessoas trabalhem de forma excessiva, forçando-as em termos de fazer coisas – em outras palavras, causar algum tipo de dano físico.

Também em relação a nós mesmos – parar de nos tratar mal fisicamente por trabalhar demais, comer de forma não saudável, não dormir o suficiente, estes tipos de coisas. Usualmente pensamos em termos do nosso comportamento com as outras pessoas, porém frequentemente temos um comportamento muito autodestrutivo também – por exemplo, não fazendo nenhum exercício.

Em termos de roubar – não é somente pegar as coisas dos outros, porém, por exemplo, usar as possessões dos outros sem pedir permissão. Você pega o telefone de alguém e faz uma ligação muito cara sem pedir permissão. Nós simplesmente pegamos coisas sem pedir permissão. Isto é roubar. Entrar escondido num cinema, ou algo assim, sem pagar. Há uma situação complicada da qual as pessoas não gostam – não pagar seus impostos. Agora, claro que você pode argumentar “Bem, não quero pagar meus impostos, pois eles são usados para fazer guerras e comprar armas.” Mas eles também são usados para fazer estradas, construir hospitais e escolas. Se você quer ter estas coisas – bem, vamos lá, você tem que pagar alguns impostos.

Todavia, também podemos pensar em termos de nós mesmos: o que queremos fazer é parar de gastar nosso dinheiro em trivialidades. Isto é fazer mau uso das nossas possessões, mau uso da nossa riqueza – como apostar, por exemplo. Ou ser mesquinho quando estamos gastando algo para nós mesmos e na realidade podemos gastar o que é necessário. Você tem o dinheiro para poder comer uma dieta saudável e conseguir comida apropriada, mas você é mesquinho, então compra a comida mais barata, comida com a qualidade mais horrível. Isto é roubar de si mesmo, basicamente.

E em termos de comportamento sexual inapropriado, não é somente se forçar para cima dos outros ou nos parceiros deles, mas parar de se engajar em atos sexuais que podem pôr em perigo sua própria saúde física ou mental. Um exemplo simples: você conhece alguém, e você fica atraído por esta pessoa. De um lado, você gostaria de fazer sexo com esta pessoa. Porém, esta pessoa tem um monte de problemas emocionais e outras dificuldades, e você percebe que, se você se envolver com ela, vai acontecer problemas; será uma experiência difícil. Então, para sua própria saúde pessoal, não o faça – não toque nesta pessoa; não se envolva. Não simplesmente seja impulsionado por sua luxuria porque ela é bonita.

Perguntas e Respostas Sobre Comportamento Correto e Errado

OK, esta foi nossa discussão sobre o que é normalmente chamado de comportamento correto e comportamento errado. Vocês tem alguma pergunta sobre isso?

Participante: Minha questão é sobre roubar. Quero debater sobre o tópico complicado sobre direitos autorais, pois existem muitas opiniões diferentes sobre este assunto. Algumas pessoas são a favor de existir direito autoral; já outras são contra a existência. Eu quero debater contigo se, por exemplo, baixar algum software sem licença ou um vídeo pirata é um tipo de roubo ou não.

Alex: Bem, eu considero que é roubar. Não tem como dizer que não é roubar. Se está escrito explicitamente “Não baixe isto sem pegar,” então está bem claro.

Acredito que o princípio aqui é sobre estabelecer certos limites para nosso comportamento. É por isto que é chamado limites de ação. Em termos da nossa disciplina ética, há um grande espectro, não há? O espectro vai de fazer qualquer coisa que você sente vontade de fazer – não importando quais as consequências serão para os outros ou para nós – até (a um nível tal que), se estamos falando de comportamento sexual inapropriado, sendo monge ou uma monja celibatos, já não fazer mais nada. Porém, há muitas, muitas possibilidades entre estes dois extremos. O ponto é delimitar algum tipo de limite e desenvolver alguma disciplina para que você não ultrapasse este limite.

Em termos de matar, o limite pode ser “Eu não vou caçar, pescar ou matar pessoas. Mas insetos? Bem, não consigo lidar com isto ainda.” Você delimita algum tipo de limite. Ou em termos de roubar, você poderia falar: “bem, não vou roubar um banco ou roubar algo de uma loja. Mas baixar coisas sem pagar? Eu realmente não consigo evitar.” Pelo menos você traçou um limite. Porém, é preciso compreender e aceitar que baixar algo sem pagar é roubar. É pegar algo sem permissão. Também, há uma grande diferença entre baixar sem pagar quando você poderia pagar, você tem o dinheiro para pagar, e fazer isto quando você não tem o dinheiro. Eu acho que é muito mais sério quando você pode pagar e não o faz simplesmente por ser mesquinho, por ser mau. Isto, acredito, precisa definidamente ser evitado.

Agora, como um autor – quero dizer, eu tenho este enorme site na internet – a maneira que eu evito tudo isto é colocar tudo de graça. Então não há o problema de alguém baixar, usar e colocar os textos no seu site. Se é para o benefício dos outros, tudo bem. E então viver de doações – esta é a maneira real budista, porém não há muitas pessoas que fazem isto.

Modo de Vida Correto e Errado

OK, vamos falar sobre modo de vida – como ganhamos a vida – e a disciplina que seria preciso aqui. O que queremos fazer é ter a disciplina de tentar evitar fazer nosso modo de vida trabalhando numa indústria que é danosa ou de uma forma danosa, uma forma que é danosa aos outros ou a nós mesmos. Por exemplo:

  • Na manufatura ou venda de armas;

  • No abate de animais, caça, pesca, exterminação de insetos;

  • Na manufatura ou servindo álcool ou drogas;

  • Operando num casino de apostas;

  • Publicando ou distribuindo pornografia.

Estes tipos de modo de vida que são ou danosos para os outros ou no que causam – como (no caso da) pornografia – que somente aumentam seu desejo e luxuria.

Mas mesmo que estejamos envolvidos num modo de vida que não é danoso para os outros ou para nós mesmos, queremos ser honestos. Então você quer evitar ser desonesto:

  • Cobrar acima do preço um produto, como quando você somente quer conseguir o máximo possível de dinheiro dos seus clientes;

  • Peculato. Isso significa tomar fundos de um negócio para o seu próprio uso;

  • Extorsão, ameaçar outros para ganhar dinheiro deles. “Se você não me der uma quantia grande de dinheiro, vou publicar algo terrível sobre você no jornal.” Isto é extorsão. Isto seria como um sequestro: “se você não me der todo o dinheiro que estou demandando, irei matar seu filho.” Não é uma maneira boa de ganhar a vida;

  • Suborno;

  • Exploração de outras pessoas;

  • Propaganda falsa;

  • Adulterar a comida ou produto (que quer vender) para aumentar o lucro.

Então há muitas, muitas formas desonestas de ganhar a vida. E, de novo, queremos aplicar a autodisciplina ética para evitar este tipo de modo de vida. Ao invés, queremos tentar fazer que nosso modo de vida seja honesto e que beneficie a sociedade, tendo os melhores tipos de ocupação, que são:

  • Medicina;

  • Trabalho social;

  • Comércio justo;

  • Fazer ou vender produtos ou serviços que são de ajuda aos outros.

Então fazer qualquer coisa que contribua com o funcionamento saudável da sociedade e do bem estar dos outros. E:

  • Não enganar os outros, não cobrar excessivamente, todos estes tipos de coisas;

  • Cobrar um preço justo. É preciso fazer lucro, mas sendo razoável;

  • Remunerar seus funcionários bem. Não tente explorá-los pagando muito, muito pouco para tirar o máximo de trabalho deles.

Também o que está envolvido aqui é tentar evitar os extremos: de um lado, completo ascetismo – simplesmente viver de maneira muito, muito pobre quando poderia pagar para viver melhor – ou, pelo outro, um excesso de luxuria que é totalmente desnecessário: luminárias de ouro no seu banheiro, etc. Isto é obviamente um extremo. Porém, os exemplos mais prováveis são as pessoas que eu conheço que possuem muito dinheiro e vão e gastam uma quantia enorme nas roupas mais caras quando já têm tantas roupas, tantos vestidos – as mulheres particularmente tendem a fazer isto – tantos vestidos, tantas roupas, e elas saem para comprar por que se sentem entediadas e acham que, de alguma forma, elas vão encontrar alguma felicidade ao comprar outro vestido de três mil reais, o que não as traz nenhuma felicidade. Portanto, este tipo de luxuria excessiva é também uma maneira imprópria de viver sua vida.

Existe uma questão sobre o modo de vida correto que frequentemente é perguntado. Deixem-me falar sobre ele. Uma vez eu estava traduzindo para um professor tibetano na Austrália, e ele mencionou sobre este modo de vida correto. Na Austrália há uma tremenda quantidade de ovelhas, tanto na Austrália quanto na Nova Zelândia, e alguém perguntou: “bem, na cidade que eu vivo a única coisa que há disponível, é criar ovelhas, que são usadas por sua lã e depois por sua carne. O que devo fazer? Não posso simplesmente mudar para outra cidade, ou para outro lugar, e tentar achar outro trabalho. Quero dizer, é isto que há disponível aonde eu moro, onde minha família mora,” etc. E o lama tibetano respondeu: “bem, a coisa principal é ser honesto no seu trabalho e não enganar os outros, etc., e não tratar mal as ovelhas, mas tratá-las de forma gentil, alimentá-las bem, tomar cuidado delas,” estes tipos de coisas. Ele falou que a ênfase principal é ser carinhoso e honesto na maneira que você ganha sua vida, mesmo que seja em termos de criar ovelhas. Agora, obviamente isto seria difícil se a única indústria na sua cidade é de construção de armas. Bem, simplesmente vender armas a um preço justo? Quero dizer, não é o suficiente, eu acho.

Portanto, estes são os três fatores, os três aspectos, que estão envolvidos no nosso caminho óctuplo no treinamento da disciplina ética. Queremos tentar nos envolver com a disciplina ética ou nos treinar em disciplina ética para abstermos de linguagem destrutiva, comportamento destrutivo, modos destrutivos de ganhar a vida, e treinar na disciplina de engajarmos em maneiras construtivas de comunicação, maneiras construtivas de comportamento, maneiras construtivas de ganhar a vida e também a disciplina para falar, agir e ganhar a vida num modo que seja de benefício para os outros. E isto se aplica a como lidamos com a sociedade e com nossos amigos, como lidamos dentro das nossas casas com a nossa família e como lidamos com nós mesmos.

Perguntas e Respostas sobre Autodisciplina Ética

Alguma pergunta sobre autodisciplina ética antes de continuarmos para (o tema da) concentração?

Participante: Está acontecendo uma situação no Mar Báltico. Uma espécie de caranguejo gigante apareceu e está matando tudo que vive lá. Algumas companhias fizeram um negócio caçando estes caranguejos. Estes caranguejos matam tudo, então seria ético matá-los ou não?

Alex: Esta é uma questão difícil. Não é somente limitado a estes caranguejos gigantes – tive agora uma imagem de um filme de ficção científica de horror na cabeça – mas também em termos de quando há uma nuvem de gafanhotos que vêm e comem todas as plantações, ou quando você tem uma casa infestada com percevejos, ou algo assim. É a questão básica da exterminação de pragas, pragas prejudiciais.

Acredito que isto tenha muito a ver com a motivação. Há o exemplo clássico que é usado: numa vida prévia, Buda foi um navegador numa embarcação. Havia uma pessoa no barco que estava planejando matar todos os tripulantes, e Buda percebeu que não havia jeito de prevenir este assassinato massivo numa maneira pacífica; a única maneira de evitar isto era matar o assassino em potencial. Então, Buda matou esta pessoa, mas ele matou com a motivação de compaixão ao invés de ter matado por raiva ou medo, a compaixão de salvar as vidas dos tripulantes e também para prevenir que o potencial assassino construísse um carma tão negativo que o faria sofrer horrivelmente em futuras vidas. Porém, o Buda também aceitou e reconheceu o fato de que ele matou alguém, que é um ato destrutivo apesar da motivação, e Buda disse “Estou disposto a aceitar as consequências cármicas da minha ação para poupar os outros.” Mesmo não pensando em termos de consequências cármicas em vidas futuras, se você atirar em alguém, um assassino em massa, assim mesmo você tem que ir na policia, depois, ser julgado, e terá que experienciar muitos aborrecimentos em consequência disto. Mas ele falou “Estou disposto a aceitar as consequências cármicas da minha ação para poupar os outros.”

Portanto, se é necessário matar um predador – para salvar plantações ou o resto dos peixes, e assim por diante – então não por raiva, não por medo, não por “eu quero fazer muito dinheiro vendendo estes caranguejos,” mas se isto for feito por compaixão, a consequência será muito menor do que fazê-lo por raiva. Porém, você precisa reconhecer que é uma ação negativa e aceitar quaisquer forem as consequências que vierem.

Participante: Você mencionou não cobrar acima do preço em diferentes produtos. O que você quis dizer com isso? Quando você tem um lucro que é maior que zero, isto é cobrar acima do preço no produto ou não?

Alex: Não, não é cobrar acima do preço se o lucro é sensato. Há uma diferença entre fazer algo na China que custa três centavos para produzir e vendê-lo por cem reais. É um lucro excessivo, não é? E as pessoas fazem isto. Talvez três centavos é muito pouco, mas quanto que custa produzir uma blusa de marca em Bangladesh? Quanto que eles realmente pagam estas pessoas? E por quanto que eles vendem nas suas lojas chiques?

As pessoas precisam ter seu ganha-pão, precisam criar sua família e assim por diante, então é necessário fazer algum lucro. Mas é difícil dizer se um certo número ou uma certa porcentagem é sensata ou não. Mas você acaba percebendo, eu acho. Se você usar bom senso básico, você tem uma ideia geral sobre o que é em demasia, e o que é insensato.

Treinando em Concentração

OK, vamos continuar com a concentração. Aqui temos as três próximas partes do caminho óctuplo:

  • Esforço correto (yan-dag-pa’i rtsol-ba);

  • Atenção plena correta (yan-dag-pa’i dran-pa);

  • Concentração correta (yan-dag-pa’i ting-nge-’dzin).

Esforço correto é se livrar de pensamentos destrutivos e desenvolver estados mentais que são conducentes à concentração.

Atenção plena (dran-pa) é como uma cola mental que segura e não deixa ir embora algo, então que esta nos previne de esquecer de algo. Então, atenção correta é:

  • Não esquecer a verdadeira natureza do nosso corpo, sentimentos, mente e fatores mentais para que não sejamos distraidos por eles;

  • Não perder o controle dos nossos vários limites e guias éticos – preceitos ou, se já tivermos tomado, os votos;

  • Não esquecer ou perder a atenção de um objeto de foque.

Portanto, se estamos meditando, obviamente precisamos de atenção plena para não perder o objeto em que estamos nos focando. Mas se você está tendo uma conversa com alguém, ou está trabalhando, você (também) precisa ter esta atenção plena para manter sua atenção na pessoa, no que ela está falando, e não desconcentrar, perder sua atenção, por ter se distraído com algo.

Por isso, concentração em si é a fixação mental num objeto de foco. Então, se estamos ouvindo alguém, estamos tendo uma conversa, concentração significa que sua atenção está fixada no que ela está falando, na sua aparência, como ela está agindo, e a atenção plena é a cola que te mantém lá para que você não fique aborrecido, distraído ou qualquer coisa assim.

Esforço Errado

OK, vamos começar com o esforço. Esforço errado é dirigir nossas energias a pensamentos danosos e destrutivos. Correto? Estes pensamentos negativos, ou pensamentos destrutivos, são coisas que nos distraem completamente. Não conseguimos nos concentrar nem um pouco.

Pensamento Cobiçoso

O primeiro deles é o que é chamado de pensamento cobiçoso. Isto é pensar de forma invejosa sobre o que os outros conseguiram, ou dos prazeres que eles têm, ou das posses materiais que eles possuem e (pensar): “Como que eu posso conseguir isto para mim mesmo?” Inveja extrema e desejo, apego. Não aguentamos que outra pessoa tenha coisas que não temos – quer seja sucesso, ou parceiro quando estamos sozinhos, ou um carro novo e nós não temos um carro, o que quer que seja – constantemente pensando e conspirando sobre isso. É um estado mental muito, muito perturbado. Impede nossa concentração, não?

Acredito que o tipo de pensamento envolvido em ser perfeccionista faz parte desta categoria. É uma subcategoria disto. “Como posso melhorar? O que eu fiz não foi bom o bastante, por isso preciso fazer mais e mais e estar no controle.” Isto é inveja de si mesmo, na realidade.

Pensando com Malícia

O segundo é pensar com malícia em como machucar alguém. “Se esta pessoa dizer ou fazer algo que eu não gosto, ou que não gostei, eu posso ficar quite com ela.” Ou conspirando: “Quando eu ver esta pessoa na próxima vez, direi isto ou aquilo.” E nós nos arrependemos de não termos dito algo de volta quando falaram algo ruim para a gente, e não conseguimos tirar isto da nossa cabeça, e ficamos pensando sobre isto o tempo inteiro.

Quero dizer, há vários jeitos autodestrutivos de se pensar – pensar em fazer algo que vai sabotar o que estamos tentando atingir na vida. No entanto, mesmo que não estejamos conscientes que isto pode causar dano para nós, estamos pensando em termos disto. “Eu não posso pagar por algo, mas realmente quero isto, então vou contrair mais débito para poder comprá-lo.” Isto é autodestrutivo. É inconscientemente planejar e conspirar para conseguir algo que irá causar ainda mais problemas para você por causa de ainda mais dívidas.

Pensamento Distorcido Antagonista

O terceiro é o que é chamado de pensamento distorcido antagonista (log-lta). Se alguém está tentando melhorar-se ou ajudar outras pessoas, pensar que “Bem, ele é estúpido. O que está fazendo não serve para nada, pois não gosto do que faz.” Alguém escolhe algo, e você pensa “Oh, ele é estúpido por fazer isto”.

Algumas pessoas não gostam de esportes, e elas acham que qualquer um que goste de esportes e de assistir futebol na televisão, ou ir ver seu time – “Bem, eles são completamente idiotas.” Não há nada de ruim em gostar de esportes, mas você pensa, de maneira distorcida que isto é estúpido, é um desperdício de tempo. É um estado mental bastante antagonista também.

Ou alguém está tentando ajudar outra pessoa – vamos dizer que alguém dá um pouco de dinheiro para um mendigo – e você pensa “Oh, você é realmente burro em fazer isto. É ridículo,” etc., este tipo de coisa. Quero dizer, mesmo que se o mendigo estiver fazendo isto como profissão, ainda que ele não seja tão pobre assim, assim mesmo é um estilo de vida horrível, ser um mendigo. Quero dizer, certamente não é divertido deitar na calçada e ficar tremendo de frio, ou qualquer coisa assim, pra conseguir algum dinheiro.

Se estamos constantemente pensando como todo mundo é estúpido e como eles estão agindo de forma irracional, não conseguimos nos concentrar. Por isso, estes são tipos de pensamentos dos quais precisamos livrar-nos. Obviamente que isto requer muita disciplina. Mas, se desenvolvermos a disciplina em termos da maneira que agimos e falamos, isto nos dá força para conseguirmos disciplinar nossa mente para simplesmente parar quando começarmos a pensar nestas maneiras destrutivas e não embarcar nesta viagem, nesta viagem mental.

Ficou claro?

Esforço Correto

Então, o que é o esforço correto? Esforço correto é direcionar nossas energias para longe dos pensamentos danosos e destrutivos, e direcionar nosso esforço em direção do desenvolvimento de qualidades benéficas. Para isto, falamos em termos das quatro lutas supremas (o que estamos lutando para alcançar).

As Quatro Lutas Supremas

  1. Primeiro, tentamos colocar nosso esforço prevenindo o surgir de qualidades negativas que ainda não desenvolvemos.

O que são qualidades negativas que talvez não tenhamos, mas que queremos evitar para que não surjam? Bem, se tivermos uma personalidade bastante aditiva, podemos querer evitar juntarmo-nos, vamos dizer, à algum tipo de... não sei se vocês têm isto aqui na Ucrânia, mas temos os clubes de vídeo. Quero dizer, agora você pode baixar coisas na internet por um serviço de filmes. Vocês também têm isto? Então, se você se juntar a um destes, bem, você sabe que se você se juntar a um destes, você vai baixar (programas) e assistir algo todos os dias. Já que você sabe que isto vai ser muito ruim, você se esforça a não entrar num clube destes porque você sabe que te deixará viciado. Teremos uma concentração melhor se evitarmos algo assim.

Existem pessoas hoje em dia que são viciadas no seu iPod, elas não conseguem ir a lugar nenhum sem ouvir música. Como você pode se concentrar em algo tendo música tocando o tempo inteiro? Você não está concentrado unifocadamente.

Participante: Mas é possível se concentrar na música.

Alex: Você pode se concentrar na música, mas isto não te ajuda a ter uma conversa com alguém ou a fazer seu trabalho. Quero dizer, é uma distração. A maioria das pessoas tem medo do silêncio, medo de pensar em algo, então elas constantemente ouvem música.

O que queremos fazer é fazer esforço em evitar isto se (ainda) não temos este tipo de qualidade danosa, hábito danoso;

  1. A segunda coisa é colocar esforço em nos livrar das qualidades negativas que já surgiram. Se somos viciados em algo, bem, pelo menos limite isto. Não o tenha constantemente;

  2. Cultive então novas qualidades positivas, faça o esforço em cultivar novas qualidades positivas;

  3. E então coloque esforço em manter e aumentar as qualidades positivas que já estão presentes.

É muito interessante quando você olha estes tópicos e tenta ver aplicações práticas. Vou contar um exemplo, talvez seja um exemplo simples, da minha própria experiência: Eu tenho tido um hábito muito difícil. Tenho um grande site na internet, e constantemente recebo muitos, muitos arquivos que pessoas me enviam de traduções, ou versões editadas ou coisas assim. Muitos, muitos chegam todos os dias – dez, vinte, ou mais. Tenho em média cento e dez pessoas trabalhando neste site, por isso muitas coisas chegam todos os dias. E eu colocava todos estes arquivos em uma só pasta – este era meu hábito ruim – ao invés de separá-los em pastas organizadamente, onde eu poderia achá-los e meu assistente também. Isto é um hábito ruim – muito ineficiente, e previne a concentração porque você perde tempo (você não consegue achar nada). Então, quais seriam as qualidades positivas? Montar um sistema tal que, toda vez que um arquivo chegar, ele é imediatamente colocado numa pasta apropriada, e não numa grande pasta genérica. Em seguida, fazer o esforço em sempre colocar os arquivos, assim que chegarem, no lugar certo desde o começo – não ser preguiçoso e baixá-los todos em um só lugar – assim tudo estará funcionando duma maneira mais eficiente.

Vejam que aqui está uma qualidade negativa, um hábito que não é nem um pouco produtivo, e aqui está um muito mais positivo. Coloque esforço em evitar esta qualidade negativa, este hábito negativo que eu tive. Planeje um sistema apropriado de arquivamento para que isto não continue, coloque esforço em criar este sistema, e coloque esforço em mantê-lo funcionando. É disto que estamos falando sobre esforço correto num nível bastante simples de prática. OK.

Superando os Cinco Obstáculos da Concentração

Esforço correto é também tentar em superar os cinco obstáculos da concentração. Então, quais são estes obstáculos?

Intenções de Perseguir Qualquer Um dos Cinco Tipos de Objetos Sensoriais Desejáveis

Primeiro, intenções de ir atrás de qualquer um dos cinco tipos de objetos sensoriais desejáveis. O que isto significa? Significa que, quando estou sentado tentando me concentrar em algo – vamos dizer meu trabalho, ou qualquer trabalho que esteja fazendo – porém o que iria me prevenir de ficar concentrado? O que destruiria minha concentração? Seria pensar “Oh, eu quero ver um filme” ou “Oh, eu quero checar minha caixa de e-mails.” Mas é mais no sentido de prazer sensorial: “Oh, eu quero comer algo,” “Eu quero escutar musica,” “Eu quero ligar para um amigo,” ou qualquer coisa deste gênero. Portanto, coloque esforço em não correr atrás disto, não ter a intenção de fazer isto, e ao invés, fique focado.

Pensamentos Rancorosos

O segundo são pensamentos rancorosos, como se vingar de alguém. É que nem pensar com malícia. Se estamos sempre pensando com rancor – “Oh, esta pessoa me feriu no passado. Eu não gosto dela. O que posso fazer para me vingar?” – isto é um grande obstáculo.

Então o primeiro foi desejo:

  • “Eu quero ter este prazer ou aquele prazer;”

  • “Quando é que eu finalmente posso sair de férias e viajar?”

  • “Quando é que este trabalho irá terminar?”

Este tipo de pensamento.

O segundo é pensar em tudo que é tipo de pensamentos ruins e danosos sobre as outras pessoas ou sobre nós mesmos. Precisamos então colocar esforço correto em evitar estas coisas, em contra-atacá-los quando surgirem.

Mente Avoada e Sonolência

O terceiro é mente avoada e sonolência. Mente avoada é quando nossa mente está envolta numa névoa – estamos alheios e não conseguimos pensar claramente. E tem sonolência, você simplesmente quer ir dormir. Você precisa lutar contra isso. Ou você faz isto bebendo uma xícara de café, ou você se levanta e abre a janela – qualquer coisa que você faça, tente colocar esforço em não se deixar levar pela vontade. Porém, se realmente ficar difícil, coloque um limite. “Vou tirar uma soneca” – obviamente, se você está num escritório, não vai poder fazer isto, mas se está trabalhando em casa – “Irei tirar uma soneca ou descansar por vinte minutos.” “Irei fazer uma pausa para tomar um café por dez minutos.” Você estabelece um limite e depois volta para o seu trabalho.

Esta primeira é uma intenção de correr atrás dos cinco objetos sensoriais, e acho que podemos adicionar também isto de você estar trabalhando e ter uma forte vontade de surfar na internet e olhar algo no You Tube, ou, se você é viciado em ler notícias, olhar novamente as notícias na internet. Estes tipos de coisas são obstáculos à nossa concentração. Ou se eu quero checar o meu feed do Facebook ou do meu Twitter. É a mesma coisa.

Fuga Mental e Remorsos

A quarta é fuga mental e arrependimentos. Fuga mental é quando nossa mente fica fugindo para o Facebook, ou outra coisa. E sentir remorso – quero dizer, estes dois são da mesma categoria – é quando nossa mente fica fugindo para pensamentos como “Oh, eu realmente me arrependo de ter feito isto, ou que falei aquilo,” estes pensamentos de culpa. Estas coisas são muito, muito distrativas e realmente não nos deixam, (e de fato) nos previnem, de nos concentrar.

Indecisão e Dúvidas

A última coisa na qual precisamos esforçar-noso em superar, o último obstáculo para a concentração, são a indecisão e dúvidas. “O que devo fazer?” “O que devo comer no almoço? Devo comer isto? Devo comer aquilo?” Não conseguir tomar uma decisão. Isto desperdiça um tempo tremendamente grande. Você não consegue se concentrar e fazer o seu trabalho se está constantemente cheio de dúvidas e indeciso, então faça o esforço em resolver isto.

Conclusão

Este é o primeiro fator do caminho óctuplo que usamos para ajudar a desenvolver concentração. É esforçar-se em se livrar de pensamentos distrativos, estados mentais que não sejam condutivos à concentração e (ao invés disto), colocar nosso esforço em desenvolver boas qualidades e conseguir nos livrar de hábitos improdutivos. As coisas não vêm do nada absoluto, e ninguém falou que ia ser fácil. Mas, como eu disse antes, se conseguirmos desenvolver um pouco de força ao trabalhar com disciplina ética em relação a como agimos, falamos e como lidamos com os outros no sentido de como ganhamos nossa vida, isto nos dá força para colocar esforço em trabalhar nos nossos estados mentais e emocionais afim de ficarmos mais focados.

Isto nos traz ao fim da nossa sessão matinal, iremos continuar após o almoço. Obrigado.