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Os Três Treinamentos e o Caminho Óctuplo na Vida Diária

Alexander Berzin
Kiev, Ucrânia, Junho de 2013
Traduzido para o português por Daniel Ribas Tandeitnik

Sessão Um: Ciência Budista e Filosofia como Contexto, e Fala Correta

Muito obrigado pela introdução carinhosa. Estou muito feliz de estar de volta mais uma vez em Kiev.

Introdução

Ciência Budista, Filosofia Budista e Religião Budista

Quando a Sua Santidade o Dalai Lama palestra para uma audiência generalizada, ele faz uma certa divisão que eu considero muito útil. Ele fala destas três divisões: ciência budista, filosofia budista e religião budista.

Quando falamos de ciência budista, estamos falando da ciência das emoções, como a mente funciona, o que ele chama de higiene mental e emocional. O budismo tem uma análise bem detalhada de todos os vários estados emocionais e como eles funcionam, como eles interagem, etc.

Também temos:

  • Ciência cognitiva em termos de como nossa percepção funciona, a natureza da própria consciência (o que ela é?), os vários tipos de treinamentos que nos ajudam a desenvolver concentração;
  • Uma análise bem detalhada de cosmogonia – como o universo começou, como ele continua e como ele termina;
  • Uma análise detalhada de matéria e energia, partículas subatômicas etc.;
  • Medicina e como as energias corporais funcionam.

Tudo isto na esfera da ciência budista. É algo que todos podem aprender, qualquer um pode tirar proveito ou se beneficiar, e o Dalai Lama mantém muitos debates com cientistas sobre isso.

E temos a filosofia budista, a segunda divisão, e isto inclui tópicos como:

  • Ética. Uma discussão de valores básicos humanos sem necessariamente estarem relacionados com qualquer religião. Qualquer um pode se beneficiar destes valores básicos humanos como bondade, generosidade, etc.;
  • Há uma apresentação muito detalhada de lógica e metafísica. Isto tem a ver com a teoria dos conjuntos, universalidades, particularidades, qualidades, características, como elas interagem e como as compreendemos, estes tipos de coisas;
  • Uma análise detalhada da causalidade, causa e efeito, e o entendimento básico da realidade e como nossas projeções distorcem a realidade.

Então, toda a esfera da filosofia budista não é necessariamente limitada aos budistas. Isto, de novo, é algo que todos podem se beneficiar.

A terceira divisão é a religião budista. Esta é a esfera real da prática budista, tendo a ver com conceitos como carma e renascimento, práticas ritualísticas (como recitação de mantras, visualização etc.). Então, esta é a real esfera da religião budista e o que é específico para as pessoas que seguem o caminho budista.

Se pensarmos em termos desta divisão tríplice – ciência budista, filosofia e religião – podemos examinar como nosso tópico, estes tês treinamentos, se encaixam no contexto.

Os Três Treinamentos

Então, o que são estes três treinamentos?

O primeiro treinamento é na auto-disciplina ética (tshul-khrims). Isto significa abster-se de comportamento destrutivo – então a disciplina que realmente nos faz conseguir isto, parar de agir de maneira destrutiva (basicamente maneiras autodestrutivas) – engajar em comportamento construtivo e ter a disciplina de ajudar os outros. Este é o primeiro treinamento, disciplina; mas é disciplina ética e auto-disciplina ética. Nós não estamos tentando disciplinar os outros. Não é que nem quando estamos treinando um cachorro.

O segundo treinamento é na concentração (ting-nge-’dzin); esta é a habilidade de manter a mente focada para que ela não fique constantemente se distraindo com pensamentos estranhos. Fazer que nossa mente não seja desfocada; ela é afiada e focada. O que também é necessário, para termos concentração, é a estabilidade emocional, para que não estejamos emocionalmente perturbados por raiva, ou por apego, ou por ciúmes ou algo como isto. Precisamos estar mentalmente e emocionalmente estáveis.

O terceiro treinamento é na consciência discriminativa (shes-rab). Consciência discriminativa – precisamos entender qual a definição disto. Soa como um termo técnico, não? Porém, é a habilidade de discriminar, ou diferenciar, entre o que é para ser aceito e adotado e o que é para ser rejeitado. É como quando você vai no mercado e tem uma sessão inteira de vegetais. Você discrimina: “Bem, este aqui não parece muito bom. Aquele ali parece bom.” Você discrimina entre eles – o que é para ser aceito, o que é para ser rejeitado.

Todavia, essa consciência discriminativa pode ser usada num nível mais profundo do que somente para escolhermos vegetais. Temos estes tipos de consciência discriminativa:

  • Em termos do nosso comportamento: o que é um comportamento apropriado, o que é um comportamento inapropriado – dependendo em quais são as circunstâncias, as pessoas com as quais estamos etc.;
  • E, muito mais profundamente, discriminar entre a realidade e o que são nossas projeções e fantasias.

Estes então são os nossos três treinamentos em auto-disciplina ética, concentração e consciência discriminativa. Estas três podem ser apresentadas em termos simples de ciência e filosofia budista, as quais podem ser aplicáveis e apropriadas para qualquer um, ou elas podem ser apresentadas em termos disto e da religião budista.

Isto corresponde a um esquema de divisão que eu gosto de usar entre o que chamo de Darma-lite e “Darma a Sério” (como Coca-Cola Light/Lite e a Coca-Cola normal). Darma-lite é praticar os métodos da ciência e filosofia budista para melhorar esta vida, e o “Darma a Sério” é adotar estes três a fim de atingir as três metas budistas – um renascimento melhor, liberação de (quaisquer) renascimentos e a iluminação.

Quando falo de Darma-lite, usualmente estou falando em termos de uma preparação para o “Darma a Sério”, como se fosse um passo preliminar. Você precisa reconhecer que “eu preciso trabalhar em somente melhorar minha vida ordinária” afim de depois começar a pensar em metas espirituais. Mas, se pensarmos somente em termos de ciência e filosofia budista, isto não precisa ser uma preliminar para a religião budista; pode ser usado absolutamente por qualquer pessoa. Este é o nível sobre o qual gostaria de debater o tópico, de maneira geral, com linhas guias básicas e aconselhar em como podemos usar os três treinamentos para melhorar nossas vidas, quer pensando em termos de uma preliminar para um caminho budista, ou pensando de forma mais geral, para todos.

As Quatro Nobres Verdades

Agora, na esfera da filosofia budista (suponho que podemos chamar assim), temos uma apresentação geral de como o pensamento budista funciona. É usualmente chamado de quatro nobres verdades, mas você pode pensar nelas como os quatro fatos da vida:

  1. Perceber todo o sofrimento e problemas que todos nós enfrentamos. Esta é a primeira. Isto é um fato. Todo mundo enfrenta problemas. A vida é difícil;
  2. O segundo fato é que estes problemas vêm de causas;
  3. O terceiro fato é que é possível parar, nos livrarmos dos problemas. Não é como se estivéssemos condenados a experienciá-los sempre, e termos que nos calar e aceitar nossa condição;
  4. E o quarto fato é que o jeito de nos livrarmos dos problemas é nos livrarmos das causas dos problemas, e isto significa seguir um tipo... é usualmente chamado de caminho, mas se refere a um jeito de entender, um jeito de agir, um jeito de falar e assim por diante.

Portanto, se nossa maneira defeituosa de agir, falar, comunicar e pensar é o que causa nossos problemas, precisamos mudar isto. Os três treinamentos, então, são parte do que precisamos fazer a fim de livrarmo-nos das causas dos nossos problemas. Então, este é um jeito muito útil de compreender estes três, pois indica porque devemos fazer estes treinamentos. Se estamos tendo dificuldades na vida, então refletimos:

  • Bem, tem algum problema na minha disciplina ética em como estou agindo?
  • Há algum problema na minha concentração – estou me sentindo perturbado, sentindo-me uma bagunça emocional?
  • Há algum problema especialmente no jeito que diferencio entre a realidade e minhas projeções malucas?

Isto pode ser aplicável para somente nossa vida ordinária nesta vida corrente, ou pode ser em termos dos problemas que poderemos encontrar nas nossas futuras vidas, com os renascimentos em geral, com nossas limitações em ajudar os outros (as metas mais espirituais). Porém, acho que, num nível de principiante, precisamos realmente considerar estes treinamentos somente em termos da nossa vida do dia-a-dia: como eles podem nos ajudar? O que estamos fazendo que está nos causando problemas? E o que podemos fazer para aliviar isto – quais as mudanças que podemos fazer? OK.

A Causa do Sofrimento

Em geral, do ponto de vista budista – filosofia budista de novo – falaríamos que a causa do nosso sofrimento vem da nossa falta de percepção. Nossa consciência está obscurecida. É que simplesmente não sabemos de duas coisas, ou (então que) estamos confusos sobre estas duas coisas.

A primeira coisa que não percebemos é basicamente causa e efeito, causa e efeito em termos do nosso comportamento. Isto quer dizer que, se temos emoções perturbadoras – estamos sob influência da raiva, ou da ganância, ou do apego, ou do orgulho, ou do ciúme etc. – então agimos destrutivamente. Gritamos com pessoas porque estamos bravos, fazemos coisas para machucá-las, ou nos apegamos a elas, e isto causa nossos problemas. Tudo isto, como uma resultante, nos faz infelizes, não é verdade? Portanto, este é o primeiro problema. O problema é infelicidade. E da onde nossa infelicidade vem? Ela vem dos nossos comportamentos destrutivos por causa das emoções perturbadoras – falar, agir ou se comportar de uma maneira que é completamente estúpida. Correto? É auto-destrutivo, basicamente.

Ajuda muito olhar a definição do que é uma emoção perturbadora. É um estado mental em que, quando surge, perdemos nossa paz mental e nosso auto-controle. Gritamos com alguém por raiva, o que pode chateá-la ou não (a pessoa pode não ter ouvido o que falamos; ela pode simplesmente rir e nos achar estúpidos). Porém, não temos paz mental – estamos realmente emocionalmente chateados (nossa energia está desconcertada) – e isso dura mesmo depois que deixamos de gritar, é uma experiência desagradável. Perdemos o autocontrole porque dizemos coisas das quais talvez nos arrependeremos no futuro.

Agimos assim pois:

  • Nós realmente não entendemos causa e efeito. Se agirmos dessa maneira, sob influência destes tipos de emoções perturbadoras, isto nos fará ficar infelizes;
  • Ou estamos confusos; nós compreendemos o oposto. Pensamos “Bem, se eu gritar com esta pessoa, isto fará me sentir melhor”, o que na realidade nunca faz. Ou por causa de apego, você grita com alguém – “Por que você não me liga mais vezes? Por que você não me visita mais vezes?” – e, é claro, isto somente afasta as pessoas, não é verdade? Não resulta no que queremos. Portanto estamos confusos sobre causa e efeito.

O segundo tipo de falta de percepção, o segundo tópico sobre o qual ficamos confusos ou que simplesmente não compreendemos, é a realidade. Por causa da confusão sobre a realidade, nós temos atitudes perturbadas. Um exemplo disto seria nossa preocupação pessoal. Estamos sempre pensando em mim, eu, eu e eu mesmo, e como eu deveria ser. Podemos ser bastante auto-críticos. Então você tem toda a síndrome de “eu tenho que ser perfeito”, e você tem o perfeccionismo, por exemplo. Mesmo se agirmos de uma maneira construtiva, tentando ser perfeitos e deixar tudo em ordem e assim por diante, acaba sendo algo muito compulsivo. Não é verdade? Mesmo que talvez fiquemos temporariamente felizes, isto muda muito, muito rápido para infelicidade e insatisfação. Continuamos com o pensamento “mas não sou bom o suficiente ainda”, e então você tem que tentar mais e mais vezes, e cada vez se forçar mais.

Um exemplo fácil é uma pessoa que é perfeccionista em termos de limpar sua casa. Ela está com a impressão errada que, de alguma forma, é possível controlar tudo e manter tudo limpo e em ordem. Bem, isto é impossível, não é? Então você tenta deixar tudo limpo, fazer tudo ficar perfeito, e você se sente muito bem. Aí as crianças chegam em casa e elas bagunçam tudo, e você fica insatisfeito e tem que limpar tudo de novo. É compulsivo, não é? E toda vez que você finalmente consegue sentir um pouco de felicidade – “Ahh, agora tudo está em ordem” – isto passa muito rápido, não é verdade? Há sempre um cantinho que você esqueceu de limpar.

Repetindo estes estados mentais, seja uma emoção perturbadora ou uma atitude perturbada, e repetindo este tipo de comportamento compulsivo, você tem o que chamamos de sofrimento que tudo permeia. Sofrimento que tudo permeia é quando construímos os hábitos de uma forma que perpetuamos nossos problemas – eles ficam se repetindo sem parar – porque fizemos um habito de constantemente limpar ou constantemente perder nossa calma.

Isto afeta o corpo também. Estamos sempre zangados, e por isso ficamos com hipertensão, e por ficar sempre se preocupando você acaba desenvolvendo ulcera estomacal e esses tipos de doenças. Quando você é perfeccionista – tudo tem que estar limpo e em ordem – você sempre está tenso, não é verdade? Nunca relaxa, porque “Oh, tenho que manter minha guarda alta, total atenção, caso alguma sujeira entre aqui.”

Portanto, o que precisamos são os três treinamentos:

  • Precisamos ter uma consciência discriminativa para nos livrarmos desta falta de percepção, desta confusão. Por exemplo, é impossível ter o controle total da ordem e limpeza da minha casa. Isto é impossível. Você precisa diferenciar, discriminar, entre a fantasia que, de algum jeito, é possível fazer que tudo fique perfeito e sob controle, e “Eu, eu sou a pessoa que pode controlar isso” – você tem que perceber que isto é absurdo; isto não se refere à realidade. Quero dizer, é claro que você pode tentar manter sua casa limpa, mas você não deve se sentir como “Eu tenho que fazer de um jeito para que nunca mais fique sujo”. É óbvio que irá se sujar. Então você fica tranquilo. Então essa consciência discriminativa é entre o que é realidade – “É claro que ficará sujo. Ninguém pode controlar isso” – e fantasia. Os textos budistas usam muito o exemplo do machado cortando uma árvore. Nossa consciência discriminativa é como um machado afiado que corta nossa confusão;
  • Todavia, para cortarmos a árvore com este machado, você precisa sempre bater no mesmo lugar; isto é a concentração. Se nossa mente está distraída e com devaneios, então perdemos nossa consciência discriminativa. Ou, se estamos chateados emocionalmente, também perdemos o poder de discriminar. Portanto, precisamos de concentração para sempre acertarmos o mesmo lugar com o machado;
  • Mas, para usarmos este machado, precisamos de força – se você não tem força, você nem ao menos consegue segurar o machado – e esta força vem da autodisciplina, da autodisciplina ética.

Bem, esta é a maneira em que podemos compreender os três treinamentos no contexto do que podemos fazer para superar a fonte dos nossos problemas. Ademais, como falei, podemos aplicar isto duma maneira cientifica/filosófica budista na nossa vida cotidiana. OK?

Vamos tirar um momento para digerirmos tudo antes que prossigamos:

  • Queremos usar a percepção discriminativa entre realidade e fantasia para que possamos entender claramente causa e efeito, em termos do nosso comportamento e a realidade. Porque, quando estou confuso sobre isto, ou não vejo que esta é a causa dos meus problemas, pelo meu comportamento e minhas atitudes crio o estado de infelicidade ou de um tipo de felicidade que nunca satisfaz e assim me deixa insatisfeito. Como no exemplo, por um lado, sempre perdendo minha calma ou sempre atanazando alguém – “Por que você não me liga? Por que você não me visita mais?” – e por outro lado, sendo um perfeccionista. Você precisa ter uma consciência discriminativa para compreender que agir sob a influência desta confusão só lhe causa problemas;
  • Mas, para entender e aplicar isto, preciso ficar focado nisto, então preciso de concentração;
  • Para me concentrar, preciso de disciplina para que, quando minha mente se distrair, eu consiga traze-la de volta;
  • E quero aplicar todos estes treinamentos para desenvolver-me e, basicamente, para livrar-me dos problemas e ser feliz. Melhorar a qualidade da minha vida.

OK? Então digiram isto por um momento.

Acredito que o insight chave que precisamos ganhar em tudo isto é que a infelicidade e a insatisfação, que temos nas nossas vidas, vêm basicamente da nossa confusão. Ao invés de apontar a culpa dos nossos problemas como sendo os outros, ou as circunstancias como a sociedade ou a economia, devemos nos focar num nível mais profundo. Podemos ter problemas econômicos, problemas financeiros, situações difíceis com a nossa família, doenças e assim por diante. Isto é uma coisa. Porém, aqui estamos falando num nível mais profundo, que é o nosso estado mental quando estamos lidando com estas situações. Podemos ter um monte de situações difíceis, mas aqui estamos falando em sentirmos infelicidade no geral, ou sentirmos um tipo de felicidade que nunca dura e não satisfaz. Queremos algo melhor que isto, um tipo de felicidade que é com paz mental e dura mais tempo.

Podemos enfrentar uma situação difícil com uma atitude deprimida e completamente miserável. Ou podemos enfrentá-la com mais paz mental, pois conseguimos ver claramente o que está acontecendo, o que está envolvido, quais são os jeitos de lidarmos com isto e não simplesmente sentirmos pena de nós mesmos. Sabem aquelas vezes quando você tem um filho e este filho sai à noite? E você fica muito preocupado e pensa “Será que ele vai voltar para casa são e salvo?” e estes tipos de coisas? Então, de novo este tipo de atitude de “De alguma forma eu posso controlar a segurança do meu filho”, o que é obviamente uma fantasia. Quando ele chega em casa seguro, você se sente feliz, se sente aliviado, mas da próxima vez que ele sair de novo a preocupação volta toda. Portanto, aquele sentimento de alivio não dura, não é verdade? Então estamos sempre preocupados, e isto se perpetua – fizemos disso um hábito, de forma que sempre estamos nos preocupando com tudo – isto afeta nossa saúde e é um estado bastante desagradável.

Então,o principal é compreendermos que a causa disto tudo é a nossa confusão. Pensamos que agir de uma certa forma irá nos fazer felizes. Ou pensamos que nossa atitude sobre a realidade – que podemos ficar no controle – é correta, mas isto não é verdade. Precisamos então cortar isso – “Isso é absurdo” – e ficarmos com isto, ficarmos focados nisto, e (continuarmos) tendo a força de ficarmos sempre focados nisto.

OK, esta é a ideia geral dos três treinamentos.

Perguntas e Respostas

Vocês tem alguma pergunta antes que a gente continue sobre o que são os três treinamentos e como treiná-los?

Participante: Poderia falar sobre a sequencia que devemos adotar nestes treinamentos? Há uma sequencia ou devemos treiná-los ao mesmo tempo?

Alex: Há várias sequencias em que os treinamentos são apresentados, mas discutirei isto depois. Porém, o treinamento básico com o qual você começa é disciplina, e então você pode aplicá-la. Se você consegue disciplinar o jeito que você age e fala, então isto te dá força para disciplinar sua mente com concentração. Então, quando for capaz de usar a concentração, você poderá desenvolver a consciência discriminativa.

Todavia, há uma outra apresentação que diz que se você conseguir desenvolver a discriminação, você vai agir e falar duma maneira apropriada. Então você consegue disciplina a partir disto. E isto te leva à concentração. E, com concentração, você volta a aumentar sua consciência discriminativa.

Entretanto, quando tivermos treinado suficientemente nos três treinamentos, nós os combinamos e os aplicamos todos juntos ao mesmo tempo.

Participante: Minha questão é sobre a diferença entre perfeccionismo e eficiência. Há uma linha bem fina, uma linha bem sutil, que separa os dois. Por exemplo, se você é um gerente e tem algumas pessoas que trabalham para você, se não for um perfeccionista, talvez você não se importará com o que eles estão fazendo; então assim você será menos eficiente. Como lidamos com isso? Como encontramos o equilíbrio entre sermos eficientes e sermos perfeccionistas?

Alex: Eu penso que a diferença entre ser eficiente e tentar ser perfeccionista tem a ver com a auto-preocupação. O perfeccionismo tem toda essa ideia de “Eu tenho que ser perfeito” – há um foco no eu – “Tenho que poder ter o controle de tudo para que tudo seja perfeito.” Por ser baseado numa fantasia que é possível você ter controle sobre tudo independentemente de todas as outras causas, consequências e situações, você fica sempre tenso. É uma atitude perturbadora, então – voltando à definição – você não tem paz mental quando é perfeccionista, já que está sempre tenso pensando que algo possa dar errado e então “Eu tenho que corrigir. E se não der certo, é minha culpa.” Ademais, sendo um perfeccionista, você tende a perder o autocontrole e acaba gritando com seus funcionários se eles se atrasarem para o trabalho ou se não estão fazendo algo corretamente.

Ser eficiente não tem a ver com a viagem egoica “Eu, eu tenho que ser perfeito.” Eficiência é simplesmente perceber o que funciona, o que não funciona, e fazer as coisas de maneira ótima. Porém, para ser realmente eficiente, você precisa ser realista. Ser realista significa que você sabe que, às vezes, funcionários ficam doentes, máquinas quebram, e você não fica tenso pensando “Oh, eu tenho que estar em controle de tudo isto.” Você lida com qualquer coisa que acontecer: esta pessoa está doente, então eu coloco um substituto. A máquina quebrou – “OK, então hoje não seremos tão produtivos quanto nos outros dias,” e você faz com que a máquina seja consertada. Portanto, você é uma pessoa muito mais relaxada. Isto funciona em termos de negócios, funciona em termos de família, funciona em termos da sua vida pessoal e assim por diante.

Alguém na parte de trás tem uma pergunta.

Participante: Minha questão é sobre a ética. Em alguns livros e textos que li, vi descrições de grandes mestres que não se comportavam de forma ética. E países diferentes têm costumes diferentes. Por exemplo, na Grécia antiga era normal viver com um garoto jovem, mas minha questão não é sobre isto. Minha ideia é que talvez ética é somente um jeito de conceber essas diferentes categorias e que culturas diferentes têm convenções diferentes. É isso mesmo?

Alex: Bem, você fez duas perguntas.

Primeiro em termos de você ter lido sobre vários mestres que agiam de forma não ética: você precisa diferenciar entre aqueles que agem de forma desapropriada por não serem mestres qualificados, portanto são mestres abusivos – e há com certeza muitos exemplos disto – e aqueles que agem de forma forte com um propósito especifico que será de benefício. Por exemplo, meu próprio mestre (Serkong Rinpoche) sempre me repreendia e me chamava de idiota – porque eu vim da universidade de Harvard estudar com ele, onde me formei com mérito, e eu era muito arrogante. Portanto, os repreendimentos eram muito, muito úteis na realidade, pois eles me mostravam que eu era na verdade um idiota e não tão inteligente. Me ajudou muito a desenvolver humildade. Então foi muito, muito útil. Ele agia desta maneira ranzinza, o que poderia ser destrutivo em alguns contextos, mas ele agia desta forma pela motivação de querer me ajudar. Ele não agia assim motivado por ter raiva de mim ou de querer me machucar. Esta é a diferença.

Agora, em termos de aspectos culturais, há certos atos que são considerados como naturalmente destrutivos – por exemplo, matar. Então, por exemplo, viver numa cultura que dita que se você matou alguém na minha família, eu tenho que matar alguém da sua família por vingança. Isto é correto de acordo com o sistema de ética deles, e se eu não matar alguém por vingança, então estarei errado – bem, de um ponto de vista natural, isto continua a ser destrutivo. A ética deles é um pouco distorcida sobre este ponto. Ao passo que você tem uma cultura ética que dita que as mulheres precisam usar um lenço sobre suas cabeças – bem, usar um lenço não é em si mesmo algo destrutivo (é um ato neutro), então é culturalmente específico. Portanto, em termos de ética, precisamos diferenciar certas coisas que são naturalmente destrutivas e certas coisas que são consideradas inapropriadas ou destrutivas dentro de um específico arranjo social, e não num arranjo geral.

Algo mais? Bom. Vamos continuar.

Treinando em Disciplina Ética

Quando treinamos nestes três treinamentos, uma das maneiras, ou uma apresentação de como isto é feito é o que chamamos de caminho óctuplo. São oito tipos de práticas ou coisas nas quais treinamos que nos farão desenvolver os três aspectos – autodisciplina ética, concentração e consciência discriminativa. E cada um destes oito têm um modo incorreto de serem aplicados (o que queremos nos livrar) e um modo correto que queremos adotar.

Vamos começar com disciplina ética. Temos três aspectos aqui, três práticas:

  • O que se chama de linguagem correta (yan-dag-pa’i ngag), portanto uma maneira de falar, se comunicar;
  • Limite correto de – o termo técnico é o limite correto das nossas ações (yan-dag-pa’i las-kyi mtha’). Em outras palavras, como agiremos? Qual é o limite que não ultrapassamos em termos do nosso comportamento físico?
  • Modo de vida correta (yan-dag-pa’i ‘tsho-ba), como ganhamos a vida.

Então, eles implicam em abster-se de uma forma destrutiva de linguagem, uma forma destrutiva de agir, uma forma destrutiva de ganhar a vida, e se engajar em cada um destes numa maneira construtiva que irá beneficiar os outros.

Liguagem Errada

Vamos olhar o que seria considerada como linguagem errada, o tipo de linguagem que lhe traria infelicidade e problemas:

  • A primeira é mentir, dizer o que não é verdade. Isto é basicamente enganar aos outros. E qual o problema com isto? Bem, o problema é que, se formos conhecidos como alguém que mente, que trai e engana os outros em termos do que falamos, então ninguém acreditará na gente; ninguém confiará em nós. Então, esta é uma situação infeliz e insatisfatória;
  • A segunda maneira destrutiva de linguagem é falar de uma maneira que divide as pessoas, que segrega, o que significa falar coisas ruins para as pessoas sobre seus amigos ou seus parceiros. E o que acontece como resultado disto? Quando estou contigo e digo algo como – “Oh, seu amigo (seu parceiro, seu marido, sua esposa) é uma pessoa terrível,” e assim por diante – então, o que você vai pensar? Vai pensar “Bem, o que será que ele fala de mim por trás das minhas costas?” Portanto, se você está sempre falando mal das pessoas, de novo seus relacionamentos irão terminar. As pessoas nos abandonarão porque elas pensam que a gente fará a mesma coisa, falar coisas ruins sobre elas. Aqui a motivação, é claro, é que queremos que elas terminem seus relacionamentos;
  • A terceira é falar de maneira desagradável e cruel. Se estamos sempre gritando, xingando, falando de maneira abusiva com as pessoas, elas irão começar a falar desta maneira com a gente. A não ser que elas sejam masoquistas, ninguém quer estar com alguém que está constantemente gritando;
  • O quarto tipo é conversa fiada. Se estamos falando todo o tempo – “Blá, blá, blá, blá, blá” – interrompendo as pessoas e falando sobre absolutamente nada, coisas sem sentido, então qual será o resultado? Ninguém irá nos levar a sério. As pessoas acharão que é muito chato ficar na nossa presença – estamos constantemente falando – e por isto desperdiçamos todo nosso tempo, e desperdiçamos o tempo dos outros também.

Portanto, estas são as quatro maneiras impróprias de falar:

  • Mentir;
  • Dizer coisas ruins sobre os outros para separá-los;
  • Dizer palavras desagradáveis e cruéis, palavras que podem ferir alguém;
  • Conversa fiada – “Blá, blá, blá, blá, blá” – simplesmente completamente sem sentido. Pode ser fofoca, este tipo de coisa – contar todos os tipos de coisas sobre outras pessoas que realmente não importam nem a eles e nem a você.

Linguagem Correta

Então, qual seria a linguagem correta que queremos aplicar na nossa disciplina? Linguagem construtiva é a linguagem que nos ajuda a evitaras quatro maneiras impróprias. Certo? O primeiro nível de disciplina que desenvolvemos, é quando sentimos vontade de dizer algo que não é verdadeiro, ou sentimos vontade de gritar com alguém ou vontade de simplesmente fazer conversa fiada – reconhecer que isto é destrutivo, isto irá causar infelicidade, e não fazê-lo.

Conseguir fazer isso não é tão fácil, pois você tem que conseguir pegar você mesmo no momento em que a vontade veio e antes de compulsoriamente fazê-la. É como quando você sente vontade de comer uma fatia de bolo. Então, antes de você compulsoriamente ir até a geladeira, ou algo assim, e pegar a fatia, você pensa “Mesmo que esteja com vontade de fazer isto, o que tem de mais? Não preciso agir. E se eu agir, ficarei cada vez mais e mais gordo. Portanto, eu não quero isso.” E, assim, você não vai até a geladeira. Quero dizer, muitas vezes temos a oportunidade de fazer isto. Lembro-me de outro dia quando senti a vontade de comer bolo – por isso estou usando este exemplo – e eu não tinha nenhum na minha casa. Então, eu estava no meu caminho indo para casa e mudei de caminho para ir ao meu local preferido onde tem um tipo de bolo ao qual gosto muito. Porém, enquanto estava andando (portanto tive tempo para pensar sobre o que estava fazendo), falei “Ei, estou tentando perder peso. Não preciso de um pedaço de bolo,” então eu – disciplina ética – me virei e fui para casa. É isto que queremos dizer em termos de disciplina.

Shantideva, um grande mestre budista indiano, usa o exemplo do bloco de madeira. Quando você sentir vontade de fazer estas coisas, simplesmente fique que nem um bloco de madeira. Então, se eu sentir vontade de gritar ou de dizer algo rude contigo e, na hora, compreender que ao fazer isto ficarei chateado e te deixarei chateado, simplesmente não digo nada. Fique como um bloco de madeira. Sinto vontade de fazer uma piada ou comentário estúpido, e percebo que isto é simplesmente conversa fiada, então não digo. Este tipo de coisa. OK?

Este é o primeiro nível de disciplina ética que está envolvido aqui, que é quando você sentir vontade de falar em uma destas quatro maneiras destrutivas, lembre-se que isto somente causará infelicidade e problemas, e não fale; não fale nada.

O segundo nível é a disciplina de realmente fazer o que é construtivo – falar duma maneira construtiva – de novo partindo da compreensão que fazer isto nos trará mais felicidade, fará a situação mais harmoniosa. Portanto, o que estamos fazendo? Estamos pensando em termos de causa e efeito.

Cultivar uma linguagem correta requer muito esforço consciente e uma forte resolução de falar de forma verdadeira, gentil, carinhosa, na hora apropriada e na medida apropriada, e somente o que é significativo:

  • Você não interrompe as pessoas constantemente ligando para elas ou mandando mensagens de texto, e assim por diante, sobre o que você acabou de comer no café-da-manhã ou “Oh, não gostei do que esta pessoa disse,” e assim por diante. Quero dizer, é uma conversa sem propósito e interrompe os outros;
  • Ou falar na medida apropriada. Percebi que tenho o problema de ficar impaciente com as pessoas. Alguém tenta me convencer para fazer algo no meu website, ou algo assim; elas explicam o porque uma vez e digo “Tudo bem, vou fazer,” e elas continuam tentando me convencer, elas falam e falam, porém eu já disse sim. Então, esta é a medida apropriada – quando a pessoa aceitou, fim da conversa; vá fazer outra coisa.

Portanto, tentamos ser úteis duma maneira em que nossa fala crie harmonia ao invés de discórdia.

Agora, é claro que você tem que fazer uso da discriminação (quero dizer, todos os três treinamentos se encaixam). Então, falar a verdade – bem, se alguém está usando uma camisa ou um vestido feio e você sabe que falar isto irá ferir, você não fala “bem, isto é bem feio” ou “você está horrível.” Às vezes você tem que ser habilidoso, e – de novo – isto depende da pessoa.

Minha irmã veio me visitar em Berlim. Nós íamos sair para algum lugar e ela colocou uma blusa que estava um pouco esticada. Bem, é a minha irmã, eu posso dizer para ela “Esta blusa está horrível, você deveria colocar outra.” Todavia, se fosse outra pessoa, você não poderia ter falado assim. De novo quero dizer para você usar sua discriminação. O que você pode dizer para sua irmã é bem diferente do que você pode dizer para outras pessoas. Você não falaria isto para uma namorada nova – “Você está usando uma blusa feia. Coloque outra coisa” – quando você vai sair num encontro com ela, mesmo que isso seja a verdade.

E linguagem severa – talvez você precise dizer algo de maneira forte. Imagine que seu filho está brincando com fósforos, ou com fogo, ou com um isqueiro, ou algo assim, você tem que falar com ele de maneira forte. Mas não é rude. Sua motivação não é raiva. E sua motivação por não dizer a verdade nos termos de “Isto tem uma aparência horrorosa” não é que você queira enganar a pessoa. Portanto, a motivação é muito importante.

Então temos a disciplina, a disciplina ética, autodisciplina, para abstermos de maneiras destrutivas de falar, e a disciplina para engajarmos em maneiras construtivas.

Outros Exemplos de Linguagem Incorreta

Existe a apresentação clássica destas formas destrutivas de falar, mas no programa que eu desenvolvi chamado treinamento de sensibilidade, estendi a análise destas formas destrutivas de falar para incluir não somente a fala direcionada à outros, mas também direcionada à nós mesmos quando estamos lidando conosco. Portanto, acredito que precisamos pensar num escopo muito mais amplo sobre estas formas destrutivas, maneiras impróprias, de falar.

Mentir pode também incluir mentir para os outros sobre nossos sentimentos sobre eles, ou as nossas intenções, ou enganar a mim mesmo sobre meus sentimentos por você ou qual é minha verdadeira intenção contigo. Podemos ser muito gentis com alguém, falar amigavelmente e assim por diante – dizendo “Eu te amo” etc. – e podemos até nos enganar em que pensamos assim, mas o que realmente queremos é o dinheiro deles ou outra coisa. Estamos, num senso, mentindo, enganando. Isto não significa que devemos falar “Bem, na realidade eu não te amo. Somente quero seu dinheiro.” Isto seria um pouco inapropriado. A coisa é examinar em nós mesmos se temos sido honestos sobre o que realmente sentimos por alguém, quais são nossas intenções, e corrigi-los se a base deles for uma emoção perturbadora – ganância pelo dinheiro deles e assim por diante.

E linguagem segregadora: não é somente quando falamos coisas que irão separar alguém dos seus amigos, mas pode ser também falar de uma maneira tão ofensiva que fará nossos amigos ficarem aborrecidos conosco e nos deixarem. Então, não é somente tentar fazer que seus amigos lhe abandonem, mas a maneira que falamos é tão horrível – como sempre estarmos reclamando – que leva todo mundo a afastar-se da gente. Pessoas que são constantemente negativas – sempre reclamando, sempre dizendo como as coisas são ruins e assim por diante – nós não queremos ficar perto. Então, da mesma forma, se somos sempre assim, quem vai querer ficar com a gente? Ou falar de maneira ininterrupta não dando a oportunidade da outra pessoa falar algo. Isto também afasta as pessoas. Quero dizer, conheço pessoas que falam assim e eu não quero estar com elas particularmente. Então, se eu falo assim, ninguém vai querer ficar comigo. Portanto, é muito importante dizer coisas boas sobre os outros – não somente coisas ruins e críticas sobre eles – dizer coisas boas e ser positivo, não negativo o tempo todo.

Linguagem desagradável: queremos não somente parar de verbalmente abusar os outros, mas parar de abusar à nós mesmos. Há muitas pessoas que dizem coisas terríveis para si mesmas: “Oh, você é um idiota,” “Você é tão estúpido,” “Você é horrível,” “Como alguém poderia gostar de alguém como você?” e assim por diante. Você diz coisas muito desagradáveis. Ademais, se você tivesse dito algo assim para outra pessoa, teria sido muito cruel. É muito cruel direcionar isto a nós mesmos. Certamente não nos faz ficar mais felizes, não é? Portanto, a atitude que temos com nós mesmos é muito importante, como tratamos e falamos conosco nas nossas mentes.

Conversa fiada: não é somente desperdiçar o tempo dos outros e o seu próprio interrompendo-os com SMSs, publicações no Facebook e tweets sobre coisas triviais o tempo todo. Não é somente isto – isto é realmente conversa fiada (gasta o tempo deles; gasta o meu tempo) – porém, nesta categoria, há também fofoca, que é um outro tipo de conversa fiada. Não traia a confiança dos outros contando os seus segredos pessoais para as outras pessoas. Alguém lhe conta uma confidencia, ou algo assim – que ela é homossexual, ou que ela tem câncer, ou qualquer coisa que seja – mantenha isto para você mesmo. “Precisei contar isto para alguém, mas não conte para as outras pessoas” – e então você imediatamente vai e conta para todo mundo. Isto é certamente conversa fiada. É trair a confiança dos outros.

Vamos olhar agora estes termos em relação a nós mesmos. Não fale indiscriminadamente sobre seus próprios assuntos pessoais com as outras pessoas – nossas dúvidas, nossas preocupações e assim por diante. Por exemplo,você não precisa compartilhar isto com seus filhos. Você é um pai ou uma mãe, que tem um filho pequeno, e diz “Oh, estão muito preocupado. Como vou ganhar o bastante para nos alimentar? Como vou conseguir pagar o aluguel?” Quero dizer, você não tem que compartilhar isto com seu filho. Ou “Oh, estou tendo dificuldades com minha namorada (ou namorado).” Há certas pessoas com as quais você não deve compartilhar isto. Temos que nos abster de falar indiscriminadamente para certas pessoas sobre nossos assuntos que não são do interesse delas ou que são inapropriados.

Este é o primeiro aspecto. Linguagem correta, é assim que é chamado – linguagem apropriada. Então, pense nisto por um instante, e talvez você terá algumas questões. Aliás, quando você pensar sobre isto, o que você precisa fazer é revisar estes pontos na sua mente: como é que eu realmente falo com as outras pessoas? Como é que eu falo comigo mesmo?

OK. Acho que podemos estender ainda mais este assunto para incluir todo o tópico de falar apropriadamente, para pessoas apropriadas em certas situações. Há certas situações (e certas pessoas) nas quais você tem que falar de uma maneira bastante educada, e há outras em que você tem que falar de forma mais informal. Falar de forma informal na companhia de pessoas onde você tem que falar formalmente – é inapropriado, não é? Deixa todo mundo desconfortável. Ou quando você precisa explicar algo para uma criança, você tem que falar de uma forma que ela vá entender. Você não explica da mesma maneira que iria explicar para um professor universitário.

Perguntas e Respostas

Quais questões vocês têm sobre a forma que comunicamos e a disciplina que está envolvida em abster-se de falar de formas destrutivas ou inapropriadas, a disciplina envolvida em falar de forma construtiva e a disciplina envolvida em falar de uma forma que será de ajuda aos outros?

Participante: Minha questão é basicamente sobre a disciplina em si. Quando estamos tentando treinar em disciplina, iremos cometer alguns erros, minha questão é: como devemos reagir a esses erros de uma forma saudável, sem ficar nos culpando?

Alex: Bem, a disciplina é sobre estabelecer limites, no pensamento “eu não vou ultrapassar este limite.” Então, se acontecer da gente ultrapassar o limite, o que inevitavelmente acontecerá – eu te enganei ou gritei contigo – a primeira coisa que precisamos fazer é perceber que cometemos um erro. Quero dizer, existe uma série de ações, oponentes, que você usa nesta situação:

  • Primeiro você precisa perceber o erro, isto é ser honesto consigo mesmo;
  • Então você se arrepende. Arrependimento é bastante diferente de culpa. Arrependimento é “Queria não ter dito aquilo, mas isto não significa que sou uma pessoa má.” Culpa é se identificar com o pensamento “Eu sou uma pessoa má,” ficar segurando o pensamento “O que falei foi tão ruim” e não deixar o pensamento ir;
  • Então você resolve tentar não repetir o erro;
  • E você reafirma a direção que você está seguindo – sua motivação – de “Eu quero evitar ultrapassar este limite, pois me deixa infeliz quando ultrapasso; causa problemas.” Você reafirma isto;
  • Então você aplica um oponente. Por exemplo, se você gritou com alguém, você se desculpa, diz: “Me desculpa. Eu estava realmente de mau humor. Me arrependo disto. Espero que eu não repita isto.” Portanto, você tenta contra-atacar o erro.

Uma diretriz muito, muito útil quando você liga para alguém... quero dizer, as pessoas estão mandando SMSs o tempo todo interrompendo todo mundo, o que é um tipo terrível de conversa fiada que está sempre interrompendo as pessoas. Porém, se você ligar para alguém, a primeira coisa que você deve dizer é “Você está ocupado? Tem um momento para falar? É uma boa hora?” Cheque para ver, talvez a pessoa está ocupada, ou talvez não é um momento bom. Não simplesmente insista que o que você tem para falar é tão importante que a pessoa tem que parar de fazer o que está fazendo e te ouvir.

Este hábito de usar SMS – você fica muito bravo se alguém não responder imediatamente. Então, é o mesmo tipo de coisa: assumimos que o que estamos perguntando ou falando demanda que a outra pessoa pare tudo, leia e responda a mensagem. Isto certamente é muito ruim para concentração – eles não conseguem se concentrar – então é destrutível para a outra pessoa e destrutivo para você mesmo (porque você pensa “sou tão importante”). De novo, você deve se desculpar para a outra pessoa por mandar SMSs completamente sem sentido, não importantes, e dizer: “Somente irei te enviar um SMS quando for realmente importante. E por favor, só responda se você tiver tempo.”

Participante: Minha questão é sobre unir nossa motivação positiva em ajudar alguém e nosso jeito de falar. Por exemplo, se nossa motivação for trazer benefício para outra pessoa, mas há a necessidade de falarmos de uma maneira não tão gentil, seria melhor simplesmente ficarmos calados? Ou devemos dizer aquilo que não seria tão gentil, mas dizer com uma motivação positiva?

Alex: Oh, certamente você precisa dizer coisas de uma maneira forte em certas situações – quando, por exemplo, seu filho está brincando com um isqueiro.

Participante: Meu exemplo não é sobre uma pessoa com a qualestou conversando, mas sobre uma terceira que não está lá. Se estamos falando de uma terceira pessoa que talvez tenha um caráter ruim, devemos falar sobre ela desta maneira?

Alex: Este é um assunto bastante delicado. Por exemplo, seu filho adolescente tem amigos que são usuários de drogas, ou que gostam de roubar, ou algo assim, e, por esta razão, fica bastante difícil (se você falar coisas ruins sobre os amigos de um adolescente, usualmente ele tende a se rebelar e fazer exatamente o contrário). Portanto, sua motivação de separá-lo dos amigos é porque quer beneficiar seu filho; não é que você queira estes amigos para você mesmo, porque tem inveja. Você precisa ser habilidoso, pois para que ele deixe os amigos – basicamente precisa deixá-lo motivado, motivado por ter visto “Bem, como isto está te afetando?” Então, não é algo fácil.

Eu realmente penso que não é necessário se focar em separá-lo dos seus amigos, mas separá-lo dos maus hábitos. O Dalai Lama sempre chama atenção sobre isto, que você precisa diferenciar as pessoas do comportamento delas. Você precisa diferenciar os amigos como pessoas do comportamento deles. Deste jeito, se ele conseguir perceber que estar bêbado ou drogado todo o tempo está tendo um efeito negativo nele, então ou ele vai parar de sair com estas pessoas ou, mesmo se ele sair com elas, não irá beber ou usar drogas.

Isto é muito difícil com adolescentes, mas o que é mais relevante são as pessoas que estão com professores charlatões ou pessoas que estão com... estou pensando num exemplo de alguém que era um conselheiro financeiro. Um conselheiro financeiro simplesmente quer tirar lucro de você (“Bem, se você comprar esta ação ou esta apólice...” e o conselheiro irá ganhar cinco porcento). Então, avisar alguém dizendo “Hey, eles tentarão te vender qualquer coisa para que eles lucrem.” De novo, sua motivação é ajudar que não tirem vantagem desta pessoa. Ao invés de falar “esta pessoa é má, somente quer lucrar em cima de você e te enganar,” é mais habilidoso dizer somente a realidade: “o que seja que ele venda para você, esta pessoa irá lucrar cinco porcento sobre a venda, então é de beneficio dele te vender algo. É para seu beneficio tentar fazer uma investigação e descobrir se o que ele está recomendando é apropriado ou não.” Portanto, você não está realmente falando algo ruim sobre a pessoa; você está somente dizendo a realidade, que a principal razão deles é lucrar e que eles são treinados para serem amigáveis contigo para que você ganhe confiança neles.

É como quando alguém está tentando lhe vender um carro usado. Você nunca confia nele. Ele está somente interessado em vender o carro. Ele não irá lhe dizer o que tem de errado com o carro. Ele irá somente tentar te convencer – sendo amigável e assim por diante – em comprar o carro. É seu papel realmente testar o carro. Portanto, é isto que você diria: teste antes de comprar.

Uma última pergunta.

Participante: Como saber qual é a nossa real motivação? Algumas vezes, em alguns casos, na superfície pode parecer que temos uma motivação positiva em ajudar alguém, mas no fundo nossa motivação é destrutiva. Como diferenciamos entre os dois?

Alex: Seja honesto consigo mesmo e analise – olhe cada vez mais e mais profundamente. O que é muito, muito útil é olhar para a definição de emoção perturbadora: ela faz você perder sua paz mental. Ao examinar como você tem agido, ou falado ou lidado com a situação, sua energia está calma ou ela ficou impaciente? Então, tente se acalmar para ficar sensível o suficiente para sentir sua energia e ver “bem, estou inquieto ou não?”

OK, vamos então terminar por aqui hoje, amanhã continuaremos a falar sobre o tão-chamado caminho óctuplo. Obrigado.