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Arquivos sobre Budismo do Dr. Alexander Berzin

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A Visão Budista sobre Outras Religiões

Trecho revisto de
Berzin, Alexander e Chodron, Thubten. Glimpse of Reality.
Singapura: Amitabha Buddhist Center, 1999.

Pergunta: Como vê o budismo a existência de outras religiões?

Resposta: Já que nem todos têm as mesmas inclinações e interesses, Buda ensinou vários métodos para diferentes pessoas. Citando este exemplo, Sua Santidade o Dalai Lama disse que é maravilhoso que no mundo existam tantas religiões diferentes. Assim como uma comida não é atrativa para todos, também uma religião ou um grupo de crenças não irá satisfazer as necessidades de todos. Deste modo, é extremamente benéfico que uma variedade de diferentes religiões estejam disponíveis para serem escolhidas. Ele as acolhe e se alegra disso.

Nos dias de hoje, há um crescente diálogo, baseado no respeito mútuo, entre os mestres budistas e os líderes de outras religiões. Dalai Lama, por exemplo, encontra-se frequentemente com o Papa. Em Assis, na Itália, em Outubro de 1986, o Papa convidou os líderes de todas as religiões do mundo para uma grande assembleia. Nela estiveram presentes cerca de cento e cinquenta representantes. Dalai Lama estava sentado próximo do Papa e teve a honra de fazer o primeiro discurso. Na conferência, os líderes espirituais discutiram tópicos comuns a todas as religiões, tais como a moralidade, o amor e a compaixão. As pessoas ficaram muito encorajadas pela cooperação, harmonia e respeito mútuo que os vários líderes religiosos sentiam uns pelos outros.

Claro que existirão diferenças se discutirmos metafísica e teologia. Não há maneira de se escapar às diferenças. Contudo, isso não significa que tenhamos necessidade de fazer o debate com a atitude de que “o meu pai é mais forte que o seu pai”. Isso seria muito infantil. É mais benéfico olhar para os aspectos que existem em comum. Todas as religiões do mundo estão procurando melhorar a situação da humanidade e tornar a vida melhor, ensinando as pessoas a seguirem um comportamento ético. Todas elas nos ensinam a não ficarmos totalmente presos pelo lado material da vida, mas pelo menos mantermos um equilíbrio entre a procura do progresso material e do progresso espiritual.

Seria muito benéfico se todas as religiões trabalhassem em conjunto para melhorarem a situação do mundo. Precisamos não apenas de progresso material, como também de progresso espiritual. Se apenas enfatizarmos o aspecto material da vida, então a construção de uma bomba mais poderosa para matar toda a gente seria um objetivo desejável. Se, por outro lado, pensarmos de uma maneira humanística ou espiritual, ficaremos conscientes do medo e de outros problemas que surgem da acumulação de armas de destruição maciça. Se apenas nos desenvolvermos espiritualmente e não tivermos em conta o lado material, então passaremos fome e isso também não será nada bom. Nós precisamos de um equilíbrio.

Um dos aspectos da interação entre as religiões mundiais é que elas estão compartilhando umas com as outras algumas das suas especialidades. Consideremos, por exemplo, a interação entre os budistas e os cristãos. Muitos cristãos contemplativos estão interessados em aprender os métodos de concentração e meditação budistas. Vários sacerdotes, abades, monges e freiras católicos têm ido a Dharamsala, na Índia, para aprenderem esses métodos, a fim de os levarem para as suas próprias tradições. Vários budistas ensinaram em seminários católicos. Eu também já fui ocasionalmente convidado para ali ensinar como meditar, como desenvolver a concentração e o amor. O cristianismo ensina-nos a amar a todos, mas não explica em pormenor como fazê-lo. O budismo é rico em métodos para desenvolver o amor. A religião cristã, nos seus níveis mais altos, está aberta a aprender estes métodos budistas. Isso não significa que os cristãos se vão todos tornar budistas – ninguém está convertendo ninguém. Esses métodos podem ser adaptados dentro das suas próprias religiões, para ajudá-los a serem melhores cristãos.

Da mesma forma, muitos budistas estão interessados em aprender serviços sociais com o cristianismo. Muitas tradições cristãs salientam que os seus monges e freiras se envolvem com o ensino, o trabalho hospitalar, o cuidado com idosos, orfãos e assim por diante. Apesar de alguns países budistas terem desenvolvido esses serviços sociais, nem todos contudo o fizeram por várias razões sociais e geográficas. Os budistas podem aprender o serviço social com os cristãos. Sua Santidade o Dalai Lama é muito aberto a isso. Isso não significa que os budistas se estejam tornando cristãos. Existem certos aspectos da experiência dos cristãos a partir dos quais os budistas podem aprender; existem também coisas da experiência dos budistas a partir das quais os cristãos podem aprender. Desta maneira, existe um fórum aberto entre as religiões do mundo, baseado no respeito mútuo.

Geralmente é ao nível mais alto das interações entre religiões que as pessoas são abertas e sem preconceitos. É nos níveis mais baixos que as pessoas se tornam inseguras e desenvolvem uma mentalidade de time de futebol: “Este é o meu time de futebol e as outras religiões são times de futebol oponentes!” Com tal postura, nós competimos e lutamos. Isso é muito triste, quer ocorra entre as diferentes religiões ou entre as várias tradições budistas. Buda ensinou muitas variedades de métodos e todas elas funcionam harmoniosamente para ajudar uma vasta gama de diferentes tipos de pessoas. Assim, é importante respeitar todas as tradições, tanto dentro do budismo como entre as religiões do mundo.