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Inspiração (“Bençãos”) e Sua Relação com os Mantras e com a Transmissão Oral

Alexander Berzin, Dezembro de 2008
(em resposta a questões de Theodore Whealan)

Questões Relacionadas à Inspiração no Contexto do Guru-Yoga

Theo: Parece-me que a maioria dos ocidentais que estudam Budismo Tibetano ainda continuam a usar o termo extremamente ambíguo benção. Para mim, e provavelmente para alguns deles também, não há dúdvidas de que esse termo carrega conotações teístas. Soa como se um ser todo poderoso, com poderes onipotentes pudesse outorgar uma realização àqueles que têm fé, independentemente da rede de forças positivas ou negativas do indivíduo.

O termo inspiração, no sentido de um “melhoria” faz sentido no meu referencial budista de entendimento, como se não conjurasse nenhuma conotação teísta. Entretanto, eu ainda estou tentando entender a totalidade das possibilidades a que isso se refere.

Durante uma conversa recente com algumas pessoas que se mantêm fixadas no termo benção, eles me disseram que o termo inspiração soa como se pudesse ser aplicado somente à descrição do processo pelo qual alguém se foca em uma pessoa que estabeleceu um exemplo positivo e encorajador. Quando alguém se foca nessa pessoa, ela é inspirada, no contexto de meramente ser encorajada a seguir seus passos. E embora ser encorajado a seguir os passos de alguém possa resultar em obter um profundo senso de mudança de direção, o termo inspiração não parece implicar nada que o termo tibetano chinlab (byin-rlabs, Skt. adhisthana) pudesse se referir. De qualquer forma, o comentário dessa pesoa, junto com outras informações que eu coletei aleatoriamente desde que conheci o Dharma pela primeira vez, afetou meu entendimento da totalidade do que o termo chinlab está comunicando. As questões que estou perguntando têm por objetivo o meu entendimento das diferentes possibilidades a que esse termo possa também se referir.

Minha primeira questão é se, durante qualquer prática na qual imaginamos nosso professor (vamos dizer Sua Santidade o Dalai Lama) na sua própria forma, ou o imaginamos na forma de uma figura histórica, e nos focamos nele com atenção fervorosa, e simplesmente nos focamos nisso, ou combinamos isso com práticas de prostrações e direção segura enquanto imaginamos um vasto campo de força positiva, ou a prática de Vajrassatva, ou a prática de guru-yoga, a descrição acima de sobre o que a insipração se refere é: somente isto que ocorre? Em outras palavras, somos apenas encorajados a seguir seus passos construtivos porque estamos nos focando nele e em suas qualidades de uma forma mais focada do que o normal? Ou, além desse processo de encorajamento, mesmo que nossos professor esteja a milhares de quilometros na Índia, nossa mente subliminarmente se une com a do professor, de forma que a energia melhoradora do professor subliminarmente interage com nossa mente, que, então,age como uma circunstância para amadurecer forças cármicas positivas de nossas ações construtivas previamente comprometidas que de outra forma não teriam amadurecido.

Resposta

Definições e Conotações dos Termos Pertinentes Traduzidos

Alex: Para responder sua questão, vamos primeiramente olhar o significado do termo original em Sanscrito, adhisthana e como ele é tradicionalmente traduzido para o Chinês e para o Tibetano:

  • “Adhisthana” em Sanscrito significa, literalmente e no seu uso mais geral, uma “posição perto de alguém”, normalmente um governante, e implica uma posição de poder ou autordade. Então, nesse sentido, é uma posição de alto escalão que um governante confere a alguém. Ao recever essa posição, a pessoa fica mais próxima de ter as qualidades do governante que a confere.
  • A tradução chinesa, sheshou, transforma o termo em um substantivo verbal – a “ conferência de uma posição que alguém toma ou detem”.
  • A tradução tibetana, byin-gyis-brlabs, comumente abreviada como byin-rlabs (pronunciada “chinlab”) efatiza o processo que ocorre com a conferência de tal posição. A primeira sílaba, byin, é algumas vezes explicada como significando clareamento e algumas vezes como “habilidade”, enquanto rlabs conota “poder” e brlabs, derivando do verbo rlob-pa, significa transformar, especificamente transformar em um estado melhor. Então, byin-gyis-rlabs, é comumente definida em tibetano como uma “transformação por meios de um clareamento, em um estado de possessão de poder e habilidade.” Ou a conferência de tal transformação. Embora “rlabs” também seja a palavra tibetana para ondas, explicações tradicionais não se referem a esse significado da palavra.
  • Então, em alguns casos eu tenho traduzido o termo para o inglês como uma melhoria ou enobrecimento. A tradução “inspiração”, que eu tenho mais frequentemente usada, conota a força que traz tal transformação ou melhoria.

O termo sânscrito original e essas várias traduções dele que citei, então, se referem à posição de elevada habilidade e poder de conferência por alguém ou por algo, e que lembram a posição da pessoa ou da coisa que confere. Também estão conotados os processos de transformação que traz alguém a essa posição (nominalmente, uma “melhoria”), a ação que gera a transformação (nominalmente, a conferência), a força que gera essa transformação (nominalmente, inspiração), e como a transformação ocorre (nominalmente, por meio de um clareamento).

A Função da Força Positiva, dos Fatores da NaturezaBúdica e Tendências para Fatores Mentais Positivos.

Sua questão concerne, então , os detalhes de como tal transformação de melhoria acontece. Essa não é uma questão tão simples de se responder, uma vez que o termo chinlab é usado em muitos diferente contextos para se referir a uma grande variedade de processos e coisas. Vamos olhar primeiro para inspiração no contexto do guru-yoga, como na sua questão.

Você está apenas parcialmente correto quando sugere que a melhoria da força de uma boa qualidade em um discipulo acontece como o resultado do amadurecimento de força positiva (bsod- nams, Skt. punya, “mérito”) no contínuo mental do discípulo, que foi ativado pela inspiração de um mestre espiritual. Mas existem muitos outros fatores causais envolvidos que também estão no contínuo mental dos discípulos e que são também ativados pela inspiração de um professor.

Força positiva é um fator causal para a obtenção de um nível mais elevado de uma boa qualidade ou a obtenção de uma realização. Mas as tendências para fatores mentais, como amor e compaixão, que constituem essas boas qualidades, e as tendências para a consciência discriminativa com a qual se tem uma realização também são ativadas e fortalecidas pela inspiração de um professor.

Devemos adicionar a essa inspiração do professor também o cultivar vários aspectos da natureza búdica. Isso inclui as habilidades inatas de todos os seres de conhecer coisas, de se comunicar, e de agir, assim como o fator da natureza búdica da habilidade do contínuo mental de ser inspirado e melhorado a um estado mais elevado. De fato, a rede de forças positivas em todo continuo mental é também um fator da natureza búdica.

Vacuidade do Processo de Inspiração

A transformação positiva surge com dependência em várias causas e condições. Então, para entender o processo de inspiração, é essencial ficar bem clara a vacuidade dos três círculos envolvidos: (1) a pessoa que confere a inspiração, (2) aquele que a recebe, (3) a inspiração em si. Nenhum desses pode ser estabelecido como existindo por seu próprio poder, do seu próprio lado, independentemente por si mesmos. Em outras palavras, a existência da conferência de inspiração não pode ser estabelecida sem que haja também alguém que a a confira, alguém que possa e de fato a receba, e algo, isto é, a inspiração, que possa ser conferida e recebida. Em outras palavras, a existência de cada um desses três círculos pode unicamente ser estabelecida com dependência em cada uma dos outros.

Mas não apenas isso, a existência de cada um dos três pode também ser estabelecida com dependência no fato de ser o objeto de refêrecia das palavras e conceitos para isso. O que é inspiração? É apenas ao que a palavra inspiração se refere, na base de alguém que a confere, alguém que a recebe, e algo que é conferido, todos os três podem ser estabelecidos apenas em relação aos demais e em relação às palavras e conceitos para eles.

“Inspiração”, então, não é um tipo de “coisa” que é passada de uma pessoa para outra, como uma bola de futebol, e então atinge um objetivo (alguma força positiva ou uma tendência para uma boa qualidade) e como resultado, dá a alguém um placar maior. Então, o que precisamos evitar é a concepção do processo de inspiração como a ligação da mente de um professor espiritual com as forças positivas, tendências positivas, e os fatores da natureza búdica no contínuo mental de um discípulo, no sentido de uma conexão pela qual alguma coisa é transmitida, como se as duas mentes, a conexão,e a inspiração transmitida fossem coisas encontráveis por si mesmas, por seu próprio poder, como se estivessem encapsuladas em plástico. Entretanto, podemos convencionalmente descrever o processo inspiracional como um processo de inspiração vindo de um professor, sendo recebido por um discípulo e despertando ou estimulando vários fatores no mental contínuo desse. Por meio disso, o discípulo se torna transformado em um estado mais altamente desenvolvido que relembra o do professor.

No caso do guru-yoga, o professor espiritual não confere conscientemente a transformação positiva. A inspiração do discípulo acontece dependendonão apenas da a prática do guru-yoga em si, mas também com os seguintes fatores:

  • A compaixão e o amor do professor para trazer felicidade a todos os seres limitados e aliviar seu sofrimento, além das orações de aspiração do professor e dedicação de força positiva para que seja possível completar seu propósito.
  • As verdadeiras qualidades de corpo, fala e mente do professor,
  • A convicção firme do discípulo (mos-pa) de que o professor espiritual de fato tem essas boas qualidades e a apreciação (gus-pa) da bondade do professor
  • A receptividade do discípulo para receber inspiração, expressas ao fazer seus pedidos fervorosos
  • A força positiva, os fators da natureza búdica e a tendência para os fatores mentais positivos no contínuo mental do discípulo
  • O fator da natureza búdica do contínuo mental do discípulo de poder ser melhorada a um estado mais elevado.

O processo de se tornar inspirado é, então, facilitado pelo discípulo recitando o mantra nome do professor espiritual ou do fundador ou um membro proeminente da linhagem do professor. Isso ajuda o discípulo a ser mais focado e concentrado. O processo é adicionalmente facilitado pela visualização da inspiração do discípulo, na forma de luzes coloridas e néctares, fluindo do professor para ele ou ela e preenchendo o seu corpo. Isso ajuda a gerar um sentimento verdadeiro de se tornar inspirado.

Mas, novamente, devemos enfatizar que nenhum item nesse processo inteiro pode ser estabelecido como existindo por seu próprio poder, por si mesmo, como se fosse encontrável como a “coisa” referente, correspondendo às palavras e aos conceitos para ele. Entretanto, se todas as causas e fatores estão presentes, o processo de inspiração ocorre.

O Poder e a Habilidade de Ser Inspirado como um Aspecto Característico das Boas Qualidades de Alguém

Mais um ponto precisa ser esclarecido. Embora a existência de boas qualidades de corpo, fala e mente de um professor espiritual não possa ser estabelecida pelo poder de qualquer coisa no lado das próprias qualidades ou no lado do contínuo mental do professor, ainda assim, as boas qualidades convencionalmente tem aspectos característicos. Esses aspectos característicos, entretanto, não são encontráveis mesmo no nível da verdade convencional das boas qualidades e eles não estabelecem nem mesmo a existência convencional das boas qualidades. Como é o caso das boas qualidades em si, esses aspectos característicos são estabelecidos meramente pelas palavras e conceitos correspondentes a elas.

O tradutor tibetano do final do século VIII , Kawa Paltseg (sKa-ba dPal-brtsegs), indica esses aspectos característicos na definição que ele dá para “chinlab”, que temos traduzidos para o inglês como “inspiração”. Ele escreveu, “Inspiração é o poder e a força que existe subjazendo quaisquer pontos do Dharma que existam nos caminhos mentais de um arya.”

Um arya é um ser altamente realizado com cognição não conceitual das quatro nobres verdades em geral, e no contexto dos bodhisattvas aryas, uma cognição não conceitual especifica da vacuidade. “Pontos do Dharma” refere-se às realizações e aos conhecimentos que existem como aspectos dos verdadeiros caminhos mentais no contínuo mental de um arya: estes são o significado do Dharma. Em outras palavras, um dos aspectos característicos das boas qualidades de um arya é que são inspiradoras: elas têm o poder e a força para inspirar os outros.

A referência aqui é indubitavelmente à divisão de quatro tipos da inspiração (byin-gyis brabs-pa bzhi) ou os quatro tipos de inspiração arya (‘phags-pa byin-gyi rlabs-pa bzhi). Embora eu não tenha conseguido localizar a fonte do sutra e a explicação dos quatro, deixe-me listá-los e propor explicações experimentais:

  • Inpiração da verdade (bden-pa’i byin-gyis rlabs-pa) – talvez refere-se à autenticidade e veracidade das realizações e conhecimentos dos verdadeiros caminhos mentais de um arya
  • Inspiração da generosidade (gtong-ba’i byin-gyis rlabs-pa) – apenas uma suposição – talvez se refira à vasta generosidade que é um dos aspectos dos verdadeir caminhos mentais de um arya bodhisattva, atingido com o primeiro bhumi (nível mental de um arya).
  • Inspiração das pacificações ( nye-bar-zhi-ba’i-byin-gyis rlabs-pa) – talvez se refira às verdadeiras paradas de obscurecimentos emocionais ou de ambos pelos verdadeiros caminhos mentais.
  • A inspiração da consciência discriminativa (shes-rab-gyi byin-gyis rlabs-pa) – talvez se refira à consciência discriminativa não apenas da vacuidade, mas dos dezesseis aspectos das quatro nobres verdades, que é o principal aspecto dos verdadeiros caminhos mentais.

Inspiração Ocorrendo Sem Esforço atráves da Influência Iluminada

Um ponto seguinte a ser notado sobre esses tipos de inspiração arya, que se torna relevante como no caso do guru-yoga, é a inspiração que ocorre através do processo de influência iluminada (‘phrin-las). “Influência iluminada” é algumas vezes traduzida como “atividade búdica”, mas não é atividade no sentido ordinário de “fazer algo”. “Influência Iluminada” ocorre automaticamente, sem nenhum esforço consciente ou intencional.

Maitreya descreve atividade iluminada no O Continuo Mental mais Duradouro/Eterno (rGyud bla-ma, Skt. Uttaratantra) com a analogia do brilho do sol. As boas qualidades de um Buda, ele explica, exercem uma influência iluminada nos seres, sem nenhum esforço consciente ou favoritismo, assim como o sol que brilha sem nenhum esforço consciente ou favoritisimo. Entretanto, com o objetivo de receber calor do sol, seres limitados precisam chegar até a luz do sol. Similarmente, um discípulo precisa abrir-se para a inspiração que brilha, sem nenhum esforço ou favoritismo, das boas qualidades de seu professor espiritual, que exerce uma influência iluminada nos demais. No seu texto, Maitreya se refere a “esforço consciente e favoritismo” quando fala de “pensamento conceitual”, significando “preconceitos”.

Questão Relacionada à Inspiração de Uma Figura Histórica numa Linhagem Espiritual

Theo: Ainda, se estamos subliminarmente nos unindo e interagindo com a mente do professor, estamos nos unindo e interagindo com a mente da figura histórica, aquela em cuja forma imaginamos nosso professor? É esse o caso também a respeito de qualquer outra figura que imaginamos e fazemos pedidos e à qual nos abrimos? Em outras palavras, podemos diretamente focar nossas mentes em unir e interagir com a mente de um Buda ou uma figura histórica sem usar o professor como um tipo de condutor?

Resposta

Alex: O processo pelo qual a inspiração ocorre, explicado acima, é exatamente o mesmo quer se refira à inspiração de um professor espiritual, de um fundador da linhagem ou de uma só personagem, ou mesmo de uma linhagem espiritual inteira – que vem desde Buda Shakyamuni até nosso professor espiritual. Lembre, não existe tal coisa como uma inspiração encontravelmente existente que passa como uma bola de futebol, de uma pessoa para outra, seja vinda diretamente de Buddha ou de nosso mestre para nós ou através de uma linha de sucessivos professores até chegar em Buda. Por causa disso, a distância no espaço ou no tempo entre eles e nós é irrelevante. O processo inspiracional simplesmente ocorre, surgindo com dependência em todas as causas e condições relevantes. Nenhuma conexão encontravelmente existente ligando nossas mentes com quaisquer deles existe.

Como mencionado acima, uma das causas cruciais para o processo inspiracional ocorrer é o amor, a compaixão, e as preces que a pessoa inspiradora fez – se a pessoa inspiradora é o nosso professor espiritual, um mestre da linhagem, ou Buda Shakyamuni. Essas preces foram feitas para serem capazes de beneficiar todos os seres limitados nas dez direções e nos três tempos – passado, presente, futuro. Por causa desse vasto escopo Mahayana, então, se aceitamos que essas preces realmenteajudaram a amadurecer as boas qualidades atingidar por essas pessoas, devemos também aceitar que a influência iluminada dessas preces continuam a possuir o poder e a habilidade de nos beneficirar, ainda agora , na forma de inspiração.

Shantideva, em Engajando no Comportamento do Bodhisattva (sPyod-‘jug, Skt. Bodhisattvacharyavatara) (IX 35-37) indica esse ponto claramente:

Assim como uma jóia que reraliza desejos
E uma árvore que concede desejos realiza os desejos,
Da mesma forma, através do poder dos discípulos de serem disciplinados e das preces,
A Forma Iluminada do Triunfante aparece.

Por exemplo,assim como quando um curador garudikafalece
Após produzir um tipo de poste de madeira curadora,
Isso ainda pode pacificar veneno e coisas do tipo,
Mesmo quando um longo tempo tenha passado desde sua morte.

Então, também, quando um bodhisattva passou para o nirvana
Após ter produzido o poste curador (corpo) de um Triunfante
De acordo com o comportamento (caminho) do bodhisattva,
Isso ainda pode realizar tudo que precisa ser feito.

Questão sobre Quais Forças Positivas São Estimuladas a Amadurecer através da Inspiração

Theo: Se subliminarmente unimos e interagimos com as mentes do professor e de Buda e isso age como cirunstância para amadurercer nossa força positiva em direção às realizações ou ao que quer que seja, a realização (ou aquilo que amadurece), acontece naturalmente numa ordem inata progressiva encontrada dentro de todas as mentes ou acontece como uma coisa bem complicada, de acordo com um zilhão de legados cármicos? Ou um Buda tem o completo controle do que vai amadurecer primeiro de acordo com o que será mais propicio ao nosso progresso espiritual?

Resposta

Alex: Primeiro de tudo, precisamos diferenciar os vários tipos de força positiva. Se a força positiva advinda de ações construtivas não é dedicada à liberação ou à iluminação, então é uma força positiva construtora do samsara. Se é dedicada à obtenção da iluminação ou liberação, é uma força positiva construtora da liberação, e se é dedicado à nossa obtenção da iluminação, é uma força positiva construtora da nossa iluminação. Apenas a força positiva construtora do samsara é uma força cármica. Os dois últimos tipos são os tão conhecidos “construtores puros” e não são fenômenos samsáricos cármicos.

Além disso, força positiva amadurece de muitas formas: nossa experiênciade felicidade, nossa experiência dos cinco fatores agregados de uma situação de renascimento, nossa inclinação de agir de uma forma a lembrar nossas ações construtoras prévias que construiram essa força, a experiência dos outros agindo em relação a nós como nós agimos, nossa experiência de determinado tipo de ambiente, e assim por diante. Em adição, existe a força positiva que amadurece na obtenção (thob-pa) de uma realização (rtogs-pa). Vamos deixar de lado esse ultimo tipo de amadurecimento de força postiva por agora e considerar os outros tipos de amadurecimento primeiro.

Quando falamos sobre a inspiração agindo como causa para a ativação e o fortalecimento de uma tendência de alguma qualidade que as vezes já temos , como a compaixão, não acredito que nenhum dos três tipos de força postiva – construtora de samsara, construtora de liberação ou construtora de iluminação – está diretamente envolvida. Esses três tipos de força positiva estão envolvidos, entretanto, quando consideramos a força positiva que amadurece em nosso sentimento de querer ajudar alguém, motivado por compaixão. Podemos aplicar nossa compaixão na busca de algum objetivo samsárico, como quando nosso ato construtivo de ajudar alguém é motivado primeiramente pelo desejo de que essa pessoa goste de nós. Ou podemos aplicar nossa compaixão na busca de liberação ou iluminação, como quando nosso ato construtivo de ajudar alguém é motivado por renúncia ou bodhichitta.

Assim como no caso de receber inspiração, o amadurecimento da tendência para o fator mental que constitui uma boa qualidade e o amadurecimentos de uma força positva também ocorrem como fenômenos que surgem dependentemente. Em outras palavras, qual tendência para que uma determinada boa qualidade amadureça e qual força cármica para que o sentimento de querer fazer algum tipo determinada ação amadureça depende de uma vasta multidão de causas e condições. Ninguém tem controle sobre esse processo: nem nós, nem nosso professor, e nem mesmo o próprio Buda Shakyamuni.

No caso da nossa tendência para uma boa qualidade, a inspiração meramente causa alguma tendência de amadurecimento intermitente para que uma delas amadureça no desenvolvimento ou melhoria dessa boa qualidade. A boa qualidade que desenvolve ou fortalece no nosso contínuo mental será similar à boa qualidade da pessoa que nos inspira.

Porém, existem inumeráveis tendências para fatores mentais positivos e fatores de natureza búdica em nosso contínuo mental que nos capacitam a desenvolver boas qualidades que se assemelham àquelas dos professores espirituais e dos Budas. Existem também inumeráveis forças positivas ou potenciais para agir mais uma vez de maneira similar a formas construtivas que já fizemoss antes. Além disso, cada uma dessas tendências, fatores, e potenciais pode amadurecer em uma coleção de diferentes resultados dependendo de vários fatores que podem afetar sua força. Qual deles amadurece, quando amadurece, a força com que amadurece, a forma com que o amadurecimento acontece, quanto tempo aquilo que amadurece fica manifesto no nosso contínuo mental, como aquilo que amadurece muda de momento para momento, e assim por diante, depende de vários fatores mentais adicionais acompanhando nossa experiência em cada momento. Eles também dependem de circunstâncias externas nas quains nos encontramos em cada momento. Nenhum desses fatores pode ser estabelecido como existindo pelo poder de alguma coisa encontrável de seu próprio lado. O amadurecimento simplesmente ocorre com dependência na interação de todos eles, e certamente não dependendo do poder de apenas um deles, como a intenção de Buda.

Quando consideramos a força positiva que pode amadurecer na obtenção de uma realização, a inspiração pode causar uma tendência de amadurecimento intermitente para que a consciência discriminativa amadureça em um alto grau desse fator mental; possibilitando, assim, a realização. A análise desse tipo de amadurecimento é a mesma que já tínhamos aplicado em relação à compaixão. Força positiva, entretanto, pode também ser amadurecida e melhorada pela inspiração, de forma que essa traga a obtenção em si. De novo, a obtenção de qual realização e assim por diante surge com dependência em muitos fatores, também de forma similar à análise que fizemos acima. De novo, qual dos três tipos de força positiva – construtora de samsara, construtora de liberação, construtora de iluminação – é ativada, depende de fatores motivacionais que acompanham nossa meditação ou qualquer prática que precipite a obtenção daquela realização.

No caso de realizações que são simplesmente entendimentos profundos ou insghts sobre vários temas, como impermanência, os defeitos do samsara, e assim por diante, não existe ordem progressiva inata. As várias apresentações deles, como no lam-rim caminho gradual para iluminação, sugerem muitas ordems progressivas benéficas, mas praticantes também podem ganhar insights em ordens que difiram dessas. No caso dos cincos caminhos mentais – construção (o caminha da acumulação), aplicação (o caminho da preparação), visão (o caminho da visão), habituação (o caminho da meditação), e não mais treinar (o caminho do não mais aparender) – existe uma ordem progressiva inata. Cada um dos cinco caminhos mentais pode apenas ser obtido na base da obtenção do caminho mental imediatamente prévio. O mesmo acontece com relação ao estágio da geração (bskyed-rim) e o estágio da consumação da prática do tantra anuttaryayoga.

Mais uma vez, devemos entender que não existe uma ordem progressiva estabelecida pelo poder de algo do lado da realização em si ou no lado da obtenção ou no lado do contínuo mental que tem a habilidade de os obter. É claro, então, que precisamos entender o surgimento dependente e a vacuidade de causa e efeito com o objetivo de começar a entender como a inspiração ajuda a fomentar o amadurecimento de forças cármicas.

Outros Usos do Termo Chinlab

Embora no caso da inspiração vinda de um professor espiritual, de um mestre da linhagem, ou de Buddha, o processo ocorra sem nenhum esforço consciente da parte da fonte ou beneficiário da inspiração, existem outras situações em que o termo chinlab se refere ao processo consciente de fazer uma “transformação de melhoria”. Isso ocorre dentro do contexto da prática do tantra e lá, o processo de fazer tal transformação pode ser denominado “enobrecimento”. Alguns tradutores traduzem chinlab nesse contexto como “consagrar”, mas tal termo conota fazer algo sagrado, o que apresenta talvez um sabor não budista enganoso ao termo.

Uma das formas como o enobrecimento acontece é um aprimoramento de boas qualidades. Um exemplo é na prática de Guhyasamaja quando “enobrecemos” nosso corpo, fala e mente através de visualizações elaboradas que evocam figuras de Budas, fazendo pedidos a eles, e então os dissolvendo em outras figuras de Buda visualizadas dentro de nós como representação de nosso corpo, fala e mente.

Outra maneira de enobrecer ocorre em quase todas as práticas de tantra anuttarya yoga, quand enobrecemos nossos órgãos reprodutivos com visualizações de instrumentos ritualísticos e sílabas sementes dentro deles. Similarmente,na prática Vajrabhairava, por exemplo, enobrecemos nossos estimuladores cognitivos (os sensores dos olhos, os sensores dos ouvidos, e assim por diante) visualizando sílabas sementes ou figuras de Budas neles. Nesses casos, não estamos transformando essas características de nosso corpo, que já é visualizado como a figura de um Buda, em algo que não era antes. Ao invés disso, como explicado nos ensinamentos Sakya dos inseparáveis samsara e nirvana, cada um desses aspectos de nossos corpos tem dois níveis de aparência: um ordinário, chamado aparência “impura” e uma aparência “pura”. Como esses procedimentos enobrecedores, estamos meramente revelando o nível da aparência pura que já sempre esteve lá.

A prática do Tantra também inclui “enobrecer” itens que não são partes de nossos corpos – especificamente, vários tipos de oferendas e, no tantra anuttarayoga, o vajra e o sino que usamos durante os rituais.Aqui, conscientemente performamos uma transformação de melhoria. No casso da oferenda interna (nang-mchod) feito no tantra anuttarayoga, por exemplo, a tranformação de melhoria implica quatro passos:

  • Eliminação (bsang-ba) de interferências da taça de oferenda física diante de nós. Isso se fazatravés de visualização de figuras enérgicas afugentando dela os espíritos interferidores.
  • Purificação (sbyang-ba) da aparência impura da taça e do seu conteúdo como uma taça ordinária com chá , ambos tendo existência verdadeiramente existente. Isso é feito através da dissolução da aparência impura com foco em sua vacuidade de maneiras impossíveis de existir
  • Geração( bskyed-pa) de uma aparência da taça e do seu conteudo como vários tipos de carne e substâncias corpóreas, representando os agregados e elementos de nossos corpos ordinários.
  • Enobrecimento (byin-gyi-rlabs) da carne e das substâncias corpóreas através de visualizações representando a purificação, realização e resplandecimento (sbyang rtog-sbar gsum) deles. “Purificação” é de sua cor, odor, sabo e potencial. “Realização” é realização deles como um néctar concedendo liberdade de todas as doenças, e também imortalidade, e então implica a visualização deles se transformando em néctar. “Resplandecimento” é o aumento do néctar de forma que ele se torne inexaurível.

No caso de visualização de oferendas externas (phyi-mchod) feitas de água, flores, incenso e assim por diante, as visualizações dos quatro passos de enobrecimento são muito mais simples.

Um último exemplo de um enobrecimento de um item não conectado com o corpo é com as pílulas especias, também chamadas de “chinlab”, talvez traduzidas aqui como “pílulas de enobrecimento”. Elas são pequenas pílulas, feitas de flores e ervas secas, e outras substâncias, sobre as quais um mestre espiritual, normalmente junto com uma assembléia monástica, recita milhares de mantres enquanto se focam em visualizações especiais com a conscência extasiada da vacuidade deles. Na conclusão de um dado número de repeições do mantra, o mestre espiritual sopra nas pílulas e então as enobrece. Quando alguém com crença confiante na habilidade enobrecedora dessas pílulas engole uma delas, sente-se ele mesmo melhorado e enobrecido por ela. Algumas variedades dessas pílulas enobrecedoras ajudam a eliminar obstáculos e interferências da pessoa que as engole, outras ajudam a curar a pessoa de alguma doença. De novo, precisamos frizar a importância de enterder a vacuidade e a natureza de surgimento dependente de tudo envolvido aqui, com o objetivo de entender como que engolir pílulas, chinlab, beneficia alguém.

Questão em Relação a Mantras como um Molde dos Ventos de Energia Sutil

Theo: Existe outra fonte de informação sobre a qual estou extremamente confuso. Com relação a como mantras funcionam, eu entendo a teoria de como eles moldam os ventos de energia sutil, resultando em certos estados de mente. E como mantras podem também causar que os ventos de energia sutil entrem e dissolvam no canal central, ganhando acesso ao vento mais sutil de energia e a mente de clara luz.

Apesar dessas teorias sobre prática de mantras, por alguma razão extremamente peculiar, aqueles ensinamentos raramente são ensinados , quer alguém receba ensinamentos na India, Nepal ou no Oeste. Mesmo que alguns Geshes ou Khenpos de todas as quatro tradições tibetanas tenham recebido sua educação dentro de universidades monásticas reputadas, por alguma razão peculiar, eles com frequência ensinam alguma outra teoria de como mantras funcionam. Eles dizem que mantras funcionam por “bênçãos” (ou isso é como o tradutor traduz). Eles dizem que quando recitamos o mantra, recebemos bêncãos, pois o mantra é outorgado com poderes da fala iluminada dos Budas.

Estou profundamente cofuso. Existe uma razão porque o molde dos ventos de enrgia sutil não é comumente ensinado ao invés ou conjuntamente com essa teoria de “bênçãos”?

Resposta

Alex: A explicação de mantras como um molde dos ventos de energia com o bjetivo de facilitar sua entrada,permanência e dissolução no canal de energia central deriva dos ensinamentos da recitação vajra (rdo-rje bzlas pa). Isso é uma prática muito avançada, feita no estágio de isolamento da fala (ngag-dben) da prática do estágio de consumação (rdzogs-rim) no tantra anuttarya. Uma explicação completa da recitação vajra e isolamento de fala é encontrado em textos como Uma Lâmpada para Iluminar, Os Cinco Estágios (Rim-lnga gsal-sgron) – comentário de Tsongkhapa ao texto de Nagarjuna Os Cinco Estágios (Rim-lnga, Skt. Pancakrama), com relação ao estágio cinco da prática do estágio de consumação do Tantra Guhyasamaja. Já que este é um tópico extremamente avançado, não é frequentemente estudado ou ensinado. Entretanto, uma que vez que o princípio básico por traz dessa prática pode ajudar a tornar a recitação de mantras mais compreensível para ocidentais, eu a menciono em minha explicação da teoria de mantras.

Questão com Relação ao Poder Transformativo Positivo dos Mantras

Theo: Se existe verdade nessa teoria de “bênçãos”, estou tentando entender como ela pode funcionar. É apenas uma hipótese, mas é assim que funciona?

Por exemplo, quando recitamos “OM MANI PADME HUM”, automaticamente, subliminarrmente, unimos nossa mente comas mentes de uma linhagem inquebrável de mestres incluindo Buda Shakyamuni ou outro Buda? Por meio disso a energia de melhoria de toda uma linhagem inquebrável interage com nossa mente de tal forma que isso age como uma circunstância que amadurece nossa força cármica positiva, resultando no surgimento de compaixão em nossa mente? E o mesmo processo continua através de todo mantra concebível e seus resultados relevantes?

Se existe um processo pelo qual subliminarmente unimo-nos e interagimos dessa forma, é suficiente apenas recitar mantras? Ou para receber essa energia de melhoria, temos que adicionar outras causas à mistura causal para o processo funcionar? Por exemplo, esse processo poderia funcionar se qualquer pessoa no mundo que não tem conexão com nenhuma linhagem inquebrável e,apesar disso, encontraum mantra num livro de Darma e começa a recitá-lo? Ou o mantra tem que vir diretamente da transmisão de uma conexão válida numa corrente delinhagem inquebrável de mestres incluindo um Buda?

Se tem que vir de uma linhagem inquebrável com o objetivo do processo funcionar, os mestres tem que ter obtido resultados do mantra para que a energia de melhoria do mantra continue a passar atravéas da linhagem inquebrável? Por exemplo, se a algum estudante foi transmitido oralmente o mantra de um professor que obteve resultados com o mantra, mas aquele aluno nunca praticou aquele mantra, e nem sequer obteve resultados dele, poderia aquele aluno então transmitir o mantra a outras pessoas, então mantendo a linhagem de bênçãos inquebrável para outras pessoas utilizar?

É apenas a energia de melhoria de um Buda vindo através de uma corrente inquebrável da linhagem, como se a linhagem inquebrável agisse como um condutor, e cada mestre da linhagem uma seção do condutor,pelo qual passa a energia de melhoria de um Buda? Ou a energia de melhoria é uma mistura das energias de melhoria do Buda e de todos os seres incluídos nessa linha inquebrável?

Resposta

Alex: A explicação de como a tranformação de melhoria funciona através da recitação de mantras é a mesma de como funciona através do guru-yoga. Aqui, entretanto, precisamos adicionar algumas coisas do que eu acabei de explicar sobre itens enobrecedores que não são parte dos nossos corpo – nesse caso, os sons dos mantras.

Mantras são exemplos de fala iluminada, proferida por Buda, aparecendo nos tantras na forma de várias figuras de Buda. Como fala iluminada, o som do mantra foi enobrecido pela compaixão, amor, bodhichitta, preces e realização da vacuidade de Buda. Então, mantras são sons inspiradores e, como Kawa Peltseg os definiu, eles têm aspecto característico de possuir um certo poder ou habilidade. Mas, como explicamos antes, não existe nada encontrável no lado do som do mantra que, pelo seu próprio poder, estabeleça a existência desse poder e habilidade. O poder e habilidade surgem com dependência de inumeráveis outras causas e condições.

Quando repetido por alguém com crença confiante no poder dos mantras, a recitação do mantra pode ativar e fortalecer tendências para várias boas qualidades, como compaixão e consciência discriminativa. Essa ativação e fortalecimento é muito facilitada se, precedendo e acompanhando a recitação do mantra, também praticarmos um tipo apropriado de meditação, como uma de visualização, análise, e assim por diante. Além disso, dependendo da motivação que acompanha a recitação – samsárica, de renúncia, ou de bodhichitta – a força positiva correspondente para a obtenção de uma realização é realçada.

Se você pergunta se a recitação de um mantra acompanhada por descrença no poder dos mantras pode trazer resultados positivos, eu duvido que possa. Se a recitação é acompanhada por hesitação indecisa que é mais inclinada na direção da crença confiante no seu poder, então a recitação traz um resultado mais fraco do que quando acompanhada por completa crença confiante.

Todas as pessoas na linhagem da transmissão oral do mantra precisam ter obtido resultados dessa recitação? Não. A habilidade inspiradora do mantra e o poder surgem com dependência apenas no fato de que foi proferido originalmente por Buda. Claro, quaisquer realizações pelos membros da linhagem de transmissão oral do mantra irão aumentar a habilidade inspiradora e o poder do mantra, mas tal fortalecimento não é necessidade. Os membros da linhagem precisam meramente assegurar a precisão das palavras e sílabas do mantra, sem omitir ou adicionar nada.

O mesmo é verdadeiro no caso da transmissão oral das palavras de um pronunciamento escritural tanto de Buda como de um mestre espiritual subsequente. Afinal, nada do que o Buda proclamou foi escrito na mesma época de Buda. Transcrições escritas das palavras de Buda começaram apenas séculos depois. Então, a única maneira de assegurar a precisão dessas palavras iluminadas era cada geração de discípulos ouvi-las recitadas pela geração prévia que as tinha memorizado, baseado no fato de essa pessoa ter ouvido-as ser recitadas por alguém de um geração anterior a dela. E para isso funcionar corretamente, a cadeia de pessoas transmitindo as palavras iluminadas, tanto um mantra quanto um pronunciamento escritural, precisa ser inquebrável durante todo o caminho até a fonte das palavras, o Buda. Então, por exemplo, com a permissão de Sua Santidade o Décimo Quarto Dalai Lama, eu passei adiante a transmissão oral da linha especial de Serkong Dorjechang da Essência de Explicação Excelente dos Significados Interpretáveis e Definitivos (Drang-nges legs-bshad snying-po) de Tsongkhapa para o Segundo Serkong Rinpoche. Eu fiz isso baseado somente no fato de eu ter recebido sua transmissão oral de meu professor, o Primeiro Serkong Rinpoche. Eu nunca tinha verdadeiramente estudado o o texto,muito menos ter ganhado quaisquer realizacões sobre o seu significado.

E o que dizer sobre a recitar um mantra sem ter recebido sua transmissão oral ou ter recebido de alguém que não recebeu verdadeiramente de uma transmissão oral autêntica? Eu acho que nesse caso, pode haver algum poder inspiracional, mas será mais fraco do que se recebêssemos de um linhagem inquebrável de transmissão. Por exemplo, Shantideva escreveu no Engajando no Comportamento do Bodhisattva (VIII 118): “...através de sua grande compaixão, o Guardião Avalokiteshvara elevou ( o poder de) seu próprio nome para dissipar os medos e anseios dos seres, (como timidez) na frente de uma audiência”. “Elevou” aqui é o termo chinlab. Mas novamente, devemos evitar pensar que o poder do mantra é estabelecido por alguma coisa encontrável dentro do som do mantra.

O que dizer se a transmissão oral do mantra ocorre com a pronúncia errada ou se nós a pronunciamos incorretamente? Eu acho que nesse caso, não há diferença no poder e na habilidade de recitá-los nesses casos inacurados. Afinal, os tibetanos não pronunciam certas palavras dos mantras da mesma forma que os indianos o fazem. Por exemplo, tibetantos pronunciam a palavra sânscrita “vajra” como “bendza” e os mongols a pronunciam como “ochir”. Apesar disso, não podemos dizer que os tibetanos e mongóis recitando os mantras enquanto dizem vajra como “bendza” ou “orchir” não tiveram nenhuma realização ou que suas realizações foram menores do que as dos indianos pronunciando “vajra” como “vajra”. A habilidade inspiracional introduzida por Buda nos sons do mantra é ainda transmitida apesar da deformação de sua pronúncia. Isso porque ainda existe uma transmissão inquebrável do mantra. Afinal, a transmissão oral dos textos originalmente escritos em sânscrito é considerada inquebrável mesmo quando a transmissão é continuada com a recitação dos textos traduzidos, como em tibetano ou chinês. A linha de transmissão é como o contínuo mental de um indivíduo: nenhum momento é o mesmo ou totalmente diferente do momento anterior. Cada momento surge apenas com dependência no momento anterior como uma continuidade inquebráve disso, com nada encontrável passando de momento a momento para estabelecer a existência da continuidade.

O que dizer se nós ou alguem mais inventa um mantra e nós o recitamos enquanto geramos compaixão? Sua recitação poderia ajudar-nos a manter o foco na compaixão, mas se sabemos que isso não deriva do Buda, nós certamente não ganharemos a inspiração de Buda. Essa é a razão pela qual, embora possamos nos visualizar na forma de Maria no Cristianismo como uma ajuda para nos focar no amor e compaixão, é totalmente inapropriado chamar isso de uma prática tantrica budista. Além disso, é extremamente desrespeitável para o Cristianismo fazer isso, uma vez que líderes cristãos não aprovariam tal prática e provavelmente a considerariam herética. Porém, este não é o mesmo caso dos tantras budistas usando as mesmas figuras dos tantras Hindus, como Sarasvati. Isso é porque o uso dessa figura nos tantras budistas deriva de um Buda e o Hinduismo aceita Buda como uma encarnação de Vishnu. Então, hindus não acham esse uso desrespeitoso.

E o que dizer se temos crença confiante de que o mantra inventado por alguém realmente deriva de Buda e recitamos o mantra inautêntico? Esse caso lembra o exemplo de um monge tibetano cuja mãe o pediu que trouxesse, ao voltar, um dente do Buda, quando ele foi fazer um perigrinação na India. O monge esqueceu o pedido da mãe, mas lembrou-se finalmente logo antes de chegar em casa. Em desespero para não desapontar sua mãe, ele pegou o dente de um cão que encontrou no chão, o limpou, e o embrulhou em um lindo tecido e presenteou aquilo a sua mãe, declarando que era um dente do Buda. A mãe tinha creça confiante de que aquilo ela realmente o dente do Buda, e , através da inspiração disso, atingiu muitas realizações espirituais.

No mesmo exemplo, a mãe foi inspirada por Buda meramente através de sua crença confiante, sem que essa inspiração fosse transmitida através do dente do cachorro. Similarmente, creio que se nós acreditarmos confiantemente que um mantra deriva de Buda, quando de fato não, essa nossa crença confiante no Buda nos trará inspiração. O mesmo poderia ser verdade se recebêssemos a transmissão oral de um mantra autêntico, pensando que a transmissão foi inquebrável, quando de fato não foi.

Questão com respeito à Interação Inconsciente de Buda com nossas Mentes

Theo: Professores altamente realizados ou Budas podem unir e interagir com nossas mentes, numa maneira que eles estejam infiltrando nossa corrente de pensamentos ,sem que estejamos conscientes disso? Por exemplo, quando formalmente engajamos numa linha de raciocínio com o objetivo de conceitualmente reconhecer a vacuidade, eles podem interagir com nossas mentes de forma que eles possam “ cutucar” nossa corrente de pensamentos aqui e “cutucar” lá, para manter nossa linha de raciocínio no caminho tanto quanto possível para que finalmente possamos chegar perto de conceitualmente reconhecer a vacuidade?

Resposta

Alex: Os textos sempre enfatizam a importância de fazer pedidos de inspiração aos Budas e aos nossos professores espirituais. Fazer pedidos por inspiração é uma forma muito forte de demonstrar nossa receptividade e desejo de ser inspirado. Isso implica que se não fizermos pedidos por inspiração, não estamos abertos a receber inspiração. Por essa razão, eu não acho que possamos receber inspiração de Budas e assim por diante sem estarmos conscientes disso. Mesmo quando recebemos inspiração, não é como algo encontrável nomeado inspiração que está infiltrando nossas mentes e nos protegendo de fazer erros.

Questão relacionada À Inspiração Quando Consideramos Nosso Professor Espiritual como um Buda

Theo: Quando alguns textos afirmam que deveríamos perceber todas as aparências como o dharmakaya do guru, mesmo que o guru não seja um Buda de verdade, mas apenas (aparece) como um Buda, estamos subliminarmente no unindo e interagindo com a energia de melhoria de Buda?

Alex: Sim, eu acredito que estamos. Se, na base da crença confiante de que o dente de um cão é o dente de Buda, alguém pode receber inspiração de Buda, quão mais podemos receber de inspiração de Buda quando temos a crença confiante em nosso professor como Buda? No caso do professor espiritual, estamos focando nas suas verdadeiras boas qualidades e reconhecendo-as como as qualidades de Buda. Ao se focar nas qualidades iluminadas, recebemos inspiração de um Buda. Existe um ditado tibetano. “ Se nos focarmos em nosso professor como uma pessoa ordinária, ganhamos inspiração ordinária. Se no focarmos nele como um Buda, ganhamos a inspiração de um Buda.”

Questão Relacionada a Encontrar Rigpa, Consciência Pura, Cara à Cara Através da Inspiração de um Mestre Dzogchen

Theo: Dentro da literatura dzogchen, é afirmado que um mentre dzogchen pode diretamente apresentar o estudante ao rigpa, consciência pura. Uma maneira de se fazer isso é através de inspiração. Quando isso aconte, a mente de alguém subliminarmente se une ou interage com a energia de melhoria do professor dzogchen de tal forma que amadureça enormes quantidades de força positiva de uma só vez? Um mestre dzogchen precisa ter certas qualidades únicas para esse processo ocorrer? Ou a mente do mestre, com quem temos profunda conexão cármica, age como um condutor para a energia de melhoria de um Buda passar, e é essa energia de melhoria de Buda que interage com nossa mente?

Resposta

Alex: Primeiro de tudo, é importante entender o termo técnico envolvido aqui, ngo-sprod, que você citou na sua tradução comum como “ apresentar”. O termo verdadeiramente significa “ conhecer cara a cara”. A inspiração de um mestre dzogchen pode agir como uma das causas para a força positiva construtora de iluminação amadurecer no nosso contínuo mental em nossa obtenção de uma realização de rigpa, profunda consciência. Essa consicência pura, primordialmente imaculada, tem subjazido cada momento de nossa experiência sem início. A realização dessa consciência pura é o encontro com ela, cara a cara, de tal forma que essa consciência pura “saiba sua própria face”, o que significa que agora estamos completamente conscientes de sua verdadeira natureza subjacente.

A ocasião de nosso encontro com rigpa cara a cara pode ser precipitado por nosso mestre dzogchen explicando sobre rigpa em palavras – seja no contexto de uma cerimonia ritualística ou fora desse contexto – ou mesmo com ele ou ela fazendo um gesto sem dizer nada. Mas, uma vez que outros podem ouvir tais palavras ou ver tais gestos sem experenciar, como um resultado, um encontro cara a cara com rigpa, nosso próprio encontro com rigpa cara a cara surge com dependência em muitos fatores adicionais, incluindo a inspiração de nosso mestre dzogchen.

O fator adicional mais importate é que precisamos construir uma quantidade enorme de força positiva construtora de iluminação através de ter feito com sucesso, em vidas passadas e ou nessa vida, as práticas compartilhadas e não compartilhadas (ngondro), e desenvolvido pelo menos um nível avançado de concentração, propósito de bodhichitta, e compreensão conceitual correta da vacuidade. No mais, precisamos ter recebido empoderamentos tantricos, tomado os votos relacionados, e atingido um certo grau de sucesso na prática de visualização e recitação de mantra no estáfio de geração (bskyed-rim) e nas práticas envolvendo os ventos de energia e canais de energia (rtsa-rlung) do estágio de consumação. Sobre tal base de enorme força positiva construtora de iluminação e profunda consciência construtora de iluminação, bem como pelo poder da inspiração do mestre dzogchen e sem nenhum esforço adicional, podemos vir a conhecer rigpa cara a cara. Esse encontro cara a cara, entretanto, precisa proceder através dos estágios usuais da meditação dzogchen: primeiro acessar e reconhecer o alaya de hábitos (bag-chags-kyi kun-gzhi), então o rigpa fulgurante (rtsal-gyi rig-pa) e finalmente o rigpa essencial (ngo-bo’i rig-pa).

O processo com que a inspiração gera uma transformação de melhoria para ajudar a permitir-nos encontrar rigpa cara a cara é o mesmo que já explicamos em relação a outros exemplos do poder da inspiração. Nesse caso, as próprias realizações do mestre dzogchen são em si inspiradoras e, em adição, o mestre age como um condutor para a inspiração da linhagem inteira, indo até Buda, para ter um impacto em nós. Mas, claro, isso ocorre sem nada encontrável, com existência estabelecida de seu próprio lado, passando de Buda para um mestre e para outro, e então para nós – nem uma “inspiração” encontravelmente existente nem uma “realização” encontravelmente existente.